26 dezembro 2015

Johannes Wollebius começa a falar português!

DA IMPORTÂNCIA

O teólogo reformado Johannes Wollebius ainda é desconhecido pela maioria dos leitores brasileiros. Numa busca rápida na internet pode-se perceber que são poucos os textos encontrados em português, quer artigos publicados ou traduzidos acerca deste reformador.[1] O fato é que o período dos séculos XVI e XVII ainda é uma área de pesquisa, em geral, pouco explorada entre os teólogos de nosso país. O Dr Heber C. Campos Jr, dentre os reformados brasileiros, é um pioneiro no desbravamento da produção acadêmica do protestantismo escolástico, inclusive atraindo outros pesquisadores para este amplo campo de estudo. Apesar de ter em minha biblioteca o Compendium Theolociae Christianae[2] de Wollebius desde 2009, foi no módulo “Puritanismo e Protestantismo Escolástico” realizado em 2013 no CPAJ, que interessei em conhecê-lo a fim de produzir um artigo como exigência daquela disciplina. Confesso que fiquei motivado a traduzi-lo após descobrir a sua relevância para entendermos o cenário teológico antecedente a Assembleia de Westminster.

Por que ler Wollebius? John W. Beardslee III oferece em sua introdução uma breve descrição da importância da obra
Johannes Wollebius (1586-1629) nasceu e foi educado em Basiléia, onde se tornou pastor em 1611, e professor de Antigo Testamento e pregador da catedral em 1618. O Compendium Theologicae Christianae foi publicado em 1626, sendo várias vezes, reimpresso em Latim (Basiléia, 1634; Amsterdã, 1638; 1642; Oxford, 1657; Londres, 1760), e foi traduzido para o holandês e inglês. Ernst Bizer quem reeditou o original em nossa geração, poderia agora prevenir-nos contra superestimar a sua importância, concordando com diversos historiadores do século XIX, mas não seria possível negar que seu extenso uso durante o século XVII, a sua brevidade, clareza e fidelidade, não fosse uma positiva expressão característica dos teólogos reformados nos tempos do Sínodo de Dort e que poderia manter esta afirmação concedendo-lhe o título por considera-lo como uma avenida para uma completa descrição do entendimento “ortodoxo” aceito pela Fé Reformada – o “que comumente é ensinado com aceitação em nossas igrejas” e que pode ser encontrado em Voetius, Turretin e igualmente em outros.[3]

Nesta breve nota introdutória algumas informações foram omitidas por Beardslee III que precisam ser acrescidas à importância deste manual de dogmática.[4] Após a sua primeira publicação, em 1626, em Basiléia, ela se tornou em várias universidades reformadas da Europa o livro-texto tanto para dogmática como para o ensino de ética. Assim, o seu Compendium foi um dos mais influentes manuais de dogmática na formação de teólogos no século XVII.

Os teólogos reformados necessitam conhece-lo, em especial, por causa da sua influência sobre os divines da Assembleia de Westminster. Wollebius oferece de modo preciso, conciso e perspicaz várias definições que permanecem na linguagem dos Padrões de Westminster. É fato, que a precisão nas definições e maturidade teológica dos teólogos da Assembleia de Westminster muitíssimo supera a Wollebius, mas, é evidente a sua dívida a ele.

O período do protestantismo escolástico padece de um preconceito negativo que precisa ser revisado. Infelizmente repousa sobre os teólogos do século XVII o estigma de serem áridos e apegados a sutilezas conceituais. Entretanto, uma leitura nos seus escritos, mesmo que superficial, revela algo surpreendente. Em especial porque neste período os puritanos eram homens de marcante piedade, zelosos pela pregação expositiva e a observância da santidade aplicada a todas as esferas da vida e sociedade. Este manual de teologia de Wollebius desmitifica essa deformada caricatura. A sua linguagem é cheia de citações das Escrituras, e por vezes, oferecendo a sua própria tradução dos originais, demonstrando boa exegese, e uma linguagem piedosa na construção de seus argumentos. Há ainda uma preocupação na área da teologia prática, tanto no conteúdo dogmático, como na parte em que ele interpreta e aplica o decálogo. É um excelente sumário da teologia reformada do período do protestantismo escolástico, e isto justificou a sua adoção em várias universidades na Europa no século XVII.

O retorno aos textos clássicos é uma necessidade nestes tempos de reiterado interesse pelo Calvinismo. Diante do perigo de descuidadas redefinições, que por vezes são confusas e imprecisas, torna-se urgente um retorno aos autores clássicos. Termos como Neocalvinismo, Novo Calvinismo, Calvinismo Moderado, dentre outros, representam versões revisionistas, subdivisões ou desvios do tronco principal. Em muitos casos há o real risco de afastamentos, como o Amiraldianismo e Arminianismo, que em seu surgimento alegavam serem intérpretes fiéis da teologia calvinista. É neste aspecto que ler os clássicos é ter acesso aos passos de maturidade que a Igreja Reformada deu em sua imponente jornada na história da teologia, e assim, evitando se perder nestas ramificações distorcidas.


DA TRADUÇÃO

A primeira tradução para a língua inglesa apareceu em 1650. Alexander Ross publicou o Compendium sob o título de Abridgement of Christian Divinitie, em Londres.[5]

A tradução de Beardslee III surgiu em 1965. Ela obteve várias publicações, inclusive por diferentes editoras, todavia, está esgotada. Beardslee III baseou a sua tradução no texto latino, holandês e na versão de Alexander Ross. Esta tradução preserva algumas palavras ou expressões latinas, e obviamente alguns termos tem uso técnico e precisam ser entendidos segundo o uso original.[6] O mesmo ocorre quando Wollebius cita alguma palavra hebraica ou grega. A tradução de Beardslee III é melhor que a de Ross, por ser num inglês moderno, e por oferecer notas explicativas, bem como a sua diagramação torna mais clara a apresentação do conteúdo.

A minha tradução foi realizada a partir do texto de Beardslee III. Todavia, simultaneamente comparei com o texto de Ross, a fim revisar e, quando necessário, acrescentar notas explicativas onde estes tradutores divergiam. Nas poucas vezes em que me deparei com uma aparente discrepância entre ambos, recorri ao texto latino para conferir a exatidão das traduções.[7] Acusei nalgumas notas quais foram as diferentes nuanças na tradução de um ou do outro, bem como outras notas foram adicionadas para explicar personagens ou movimentos da história da teologia. Quando o autor cita a Escritura Sagrada, normalmente uso a versão Almeida Revista e Atualizada [ARA da SBB], a não ser quando o versículo em questão é tradução de Wollebius, ou possuí uma explicação de Beardslee III em algum aspecto gramatical original. Assim, nestes casos para distinguir não uso a sigla ARA a fim de preservar a tradução original em inglês.

Tenho esperança de que o texto se torne acessível ao maior número possível de leitores. Até agora Wollebius é desconhecido pela maioria de nós, e a sua importância igualmente ignorada. Creio que a sua influência outrora sobre os teólogos puritanos do século XVII pode contribuir para um refinamento no pensamento cristão do século XXI. Por isso decidi torná-lo acessível aos que apreciam a teologia reformada em sua fonte, mas que por causa da limitação do idioma, ou acesso ao texto original, são impossibilitados de lê-lo. Sirvamo-nos deste rico legado da teologia reformada.

A minha oração é que o Senhor Deus com a sua rica graça novamente use este precioso livro para fortalecer a fé do seu povo.

NOTAS:
[1] Em inglês também há escassez de pesquisa e produção de artigos sobre a sua pessoa ou obra, sendo R.S. Clark uma das exceções. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[2] O título complete em latim é Compendium Theologiae Christianae Accurata Methodo Sic Adornatum. Doravante apenas Compendium e a indicação da página. A edição mencionada é a publicada pela Baker Book House de 1977. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[3] Veja o prefácio de John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics, pp. 10-11. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[4] W. Hadorn, “Wolleb, Johannes” in: Samuel M. Jackson, ed., The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Grand Rapids, Baker Book House, 1950), p. 407. Nota de Ewerton B. Tokashiki.
[5] Esta versão se encontra disponível na internet.
[6] Recomendo Richard Muller, Dictionary for Latin and Greek Theological Terms (Baker Books).
[7] Uso o texto latino publicado em Amsterdã, de 1655, disponibilizado digitalmente pela Bayer Staatsbibliothek [Biblioteca Estatal de Bayer]. Nota de Ewerton B. Tokashiki.

15 dezembro 2015

Por que devemos ser zelosos no exame de candidatos a membros?

Rev. Ewerton B. Tokashiki

É esperado que a Igreja Visível cresça numericamente. Ela aumentará tanto pelas famílias da aliança e seus descendentes, como por conversões de pessoas que não têm convivência com a igreja local. Este desenvolvimento é resultado do testemunho da grande comissão de Jesus Cristo (Mt 28:18-20). A questão é: como devemos receber os novos membros da igreja? Devemos ser tão criteriosos quanto possível, ou, aceitar uma ampla afirmação de concordância como suficiente para a pública profissão de fé?

ONDE SURGE O PROBLEMA?

As pessoas com potencial de causar problemas, em geral, é resultado de má formação na recepção como membro. A prudência sempre é necessária, entretanto, nem sempre é assim. Não podemos negar que há alguns fatores que motivam o Conselho[1] no recebimento relapso de membros. A primeira causa é a pressa de integrá-los. Há situações em que novos convertidos, ou pessoas procedentes de outra comunidade evangélica desejam ser recebidas com poucos meses de frequência na igreja local. Este é um perigo, porque elas ainda não conhecem a identidade e estrutura da igreja, nem verdadeiramente podem responder as questões no exame público[2] que as vinculará à sua identidade confessional.

Segundo, a falta de um critério claro de recepção de membros. Infelizmente, há Conselhos que não tem um padrão muito definido no preparo e recebimento de novos membros. Essa falha criará um disparate na qualificação, bem como propiciará uma pluralidade doutrinária, e consequentemente resultará em infidelidade confessional. Por isso, a liderança deve planejar o treinamento dos novos membros para evitar possível confusão doutrinário entre os membros.

Terceiro, a falta de compromisso com a identidade confessional. A nossa igreja possuí uma identidade solidamente confessional.[3] Temos documentos que resumidamente expressam a nossa cosmovisão reformada. Entretanto, é possível que no exame a confessionalidade seja deixada de lado. Infelizmente isso pode acontecer nos seguintes casos. Primeiro, por subestimar que o novo membro seja capaz de assimilar o conteúdo da fé reformada. Segundo, por negligenciar a importância do calvinismo para toda a vida cristã. E por último, por desprezar a teologia reformada como parte de sua formação. Essas são perigosas falhas que um Conselho não pode cometer!

A descuidada admissão de membros aumenta a impureza da igreja local. A má formação bem como a recepção de membros heterodoxos fomenta danosos desvios doutrinários e éticos. A recepção de membros não convertidos, ou com falhas teológicas, ou desvios morais de conduta, é a porta para a corrupção de uma denominação inteira. Uma vez aceito como membro, ele tentará fazer com que as suas crenças e falhas morais sejam aceitas. É ele quem deve se modelar à identidade da Igreja de Cristo, e não o contrário.

A pureza doutrinária propicia a formação de pessoas piedosas. Os novos membros devem aprender a viver fielmente para Cristo. A vida cristã abrange uma inteligível obediência do evangelho coerentemente aplicado a todas as esferas da vida.

ALGUMAS PROPOSTAS PARA O EXERCÍCIO DE ZELO COM A PUREZA DA IGREJA

O Conselho da igreja deve adotar um programa para o recebimento de novos membros que envolva. Este treinamento e avaliação pode ser: 1) discipulado; 2) catecúmenos; 3) leituras extraclasse; 4) exame verbal pelo Conselho do candidato. É especificamente neste último ponto que este artigo se concentra. O exame verbal é parte do processo e ele precisa ser respondido satisfatoriamente. As questões devem ser calmamente respondidas com entendimento, sinceridade e verdade.

QUESTÕES DE CONVERSÃO

1. Você poderia explicar resumidamente o que é o evangelho?
2. Quando foi que você começou a entender o evangelho de Cristo Jesus?
3. Há algum momento específico que você fez um pacto/compromisso de seguir a Cristo como o seu Senhor?
4. Você tem certeza da sua salvação?
5. Quais são as evidências que você identifica de que é convertido a Cristo?

QUESTÕES DA VIDA CRISTÃ

1. Você sabe da necessidade de uma ininterrupta prática da oração?
2. Você sabe a oração do Senhor: o Pai nosso?
3. Você se compromete para preservar a verdade e a paz no meio do povo de Deus?
4. Você está convicto da necessidade de mortificar os seus pecados diariamente?
5. Você tem discernimento de como o sexo, dinheiro e poder podem se tornar ídolos em sua vida?
6. Deus usa o sofrimento em sua vida para manifestar o Seu divino amor?
7. Você se rebelaria contra Deus, diante da dor, enfermidades e até mesmo a morte de entes queridos?
8. Você sabe de cor os Dez Mandamentos? Consegue explica-los resumidamente?
9. A salvação é pelo seu esforço de obedecer perfeitamente a Lei de Deus?
10. Você acredita que os Dez Mandamentos são algo somente do Antigo Testamento, ou, nós cristãos devemos obedecê-los como nosso padrão ético?
11. Numa situação de contenda com algum irmão em Cristo, você se compromete em seguir os passos de Mt 18:15-20?
12. Você se compromete em denunciar ou, servir de testemunha, numa situação de disciplina eclesiástica?
13. Você se compromete em orar e apoiar a liderança da igreja local, enquanto ela permanecer fiel ao ensino da Escritura Sagrada?
14. Você entende a necessidade de respeitar a autoridade da liderança da igreja?
15. Você está comprometido em viver tudo para a glória de Deus?
16. Você anseia viver diante de Deus em tudo o que pensa, fala e faz?
17. Se você um dia se mudar para outra cidade procurará congregar noutra igreja reformada que seja comprometida com a centralidade da Escritura e submissa ao senhorio de Jesus Cristo?
18. Residindo numa localidade que não exista nenhuma igreja reformada, você se compromete de iniciar um grupo de reunião em sua residência?

QUESTÕES FAMILIARES

1. Você entende que o namoro e casamento devem ser no Senhor, isto é, somente com outra pessoa que vive no pacto com Deus? Você entende que namorar ou casar com uma pessoa não convertida é uma decisão pecaminosa?
2. Você entende a necessidade de evitar a lascívia, a fornicação e qualquer imoralidade sexual durante o período antecedente ao casamento?
3. Você entende que o divórcio é algo odioso a Deus e indesejável para um cristão?
4. Você entende o seu dever de discipular os seus filhos no puro e completo evangelho de Cristo, ajudando-os a formar uma cosmovisão cristã para todas as esferas da vida?
5. Você entende o seu dever de disciplinar os seus filhos conforme o ensino das Escrituras?
6. Você sabe do seu dever de proteger os seus filhos de predadores sexuais?
7. Você sabe do seu dever de advertir os seus filhos de más companhias?
8. Você sabe do seu dever de instruir os seus filhos a discernirem quanto ao que veem na TV, acessam na internet, redes sociais e mídia em geral?

QUESTÕES DE TESTEMUNHO PÚBLICO

1. O que a sua família pensa da sua decisão de tornar-se membro desta igreja?
2. Os seus amigos e conhecidos sabem que você é um cristão?
3. Você se compromete, se necessário, abrir as portas de sua casa para a implantação de uma nova congregação?
4. Você ora para que Deus te dê discernimento de que pessoas Ele quer que você evangelize?
5. Você está comprometido com a grande comissão de Cristo: fazer discípulos?
6. Você está decidido a viver o evangelho em suas conversações, pensamentos e atitudes?
7. Você está disposto a auxiliar os pobres e necessitados, com discernimento, quando for possível e realmente necessário?
8. Você sabe que deve usar com moderação e sem desperdício os bens e o sustento que Deus te dá, de modo a não se tornar inadimplente?
9. Você entende que a sua roupa não pode associá-lo ao desiquilíbrio, falta de modéstia, ou a sensualidade, de modo a provocar desejos lascivos, ou escandalizando o próximo?

QUESTÕES DE CULTO

1. Você está comprometido de fazer de toda a sua vida um culto a Deus?
2. Você está convencido de que diariamente deve separar um tempo para orar e meditar na Palavra de Deus?
3. Você está ciente da necessidade de realizar o culto doméstico com regularidade?
4. Você concorda com o princípio regulador do culto? Resumidamente explique.
5. Você crê ser necessário guardar diligentemente o Dia do Senhor?
6. Você se compromete em não deixar de congregar nas reuniões e nos cultos públicos?
7. Você aceita a Pastoral de Liturgia da IPB?
8. Você entende que o culto solene não deve ter danças, coreografias e teatro? Por que?
9. Você entende que é desprezível o uso de imagens, quer pinturas ou esculturas, no culto ao Senhor?
10. Você rejeita o culto ecumênico?

QUESTÕES DOUTRINÁRIAS

1. Você já leu toda a Bíblia?
2. Você se compromete em continuamente estudar a Escritura Sagrada?
3. Para o exame no Conselho você leu atentamente os Padrões de Westminster [Confissão de Fé e Catecismos de Westminster]?
4. Você recebe e subscreve integralmente os Padrões de Westminster como fiel sistematização do ensino das Escrituras?
5. Você crê que os dons revelacionais [línguas, profecias, curas e apostolado] cessaram, por terem cumprido a sua função na história da redenção, e que não são para hoje, porque somente a Escritura Sagrada é a Palavra de Deus?
6. Você se compromete de continuamente ler literatura da fé reformada para o seu amadurecimento cristão?
7. Você se compromete abandonar toda crença e prática que contrarie o claro ensino da Escritura Sagrada?
8. Quantos livros doutrinários você leu desde a sua conversão?

QUESTÕES DO GOVERNO DA IGREJA

1. Você aprendeu e entendeu como se organiza a nossa igreja?
2. Você entendeu que o nosso sistema de governo eclesiástico é conforme o ensino do Novo Testamento?
3. Você se compromete a submeter ao governo dos presbíteros e diáconos enquanto estes forem fiéis ao ensino da Sagrada Escritura?
4. Você se compromete em servir nos cargos e funções que o Conselho poderá designá-lo dentro da estrutura da nossa igreja?
5. Você se compromete de contribuir com seus dízimos e ofertas conforme o ensino da Escritura Sagrada para o sustento da igreja?
6. Caso seja necessário você se submeterá à disciplina e acompanhamento pastoral?
7. Você se compromete com os projetos de crescimento de nossa igreja?

NOTAS:
[1] Este artigo pressupõe um sistema de governo onde há a pluralidade de presbíteros. Entretanto, os problemas diagnosticados aqui são comumente encontrados na maioria das igrejas evangélicas brasileiras.
[2] Refiro às questões para a profissão de fé feitas pelo ministro durante o culto solene.
[3] A Igreja Presbiteriana do Brasil adota os Padrões de Westminster como documentos que representam a sua identidade doutrinária e fiel sistematização do ensino da Escritura Sagrada.

03 dezembro 2015

Como começaram os rumores?

Breve história contra a má impressão sobre João Calvino

Ryan Glomsrud


Os mitos acerca de Calvino persistem nos textos didáticos das escolas, aulas da universidade e ainda nos institutos bíblicos. Apesar da muita informação crítica que hoje temos sobre Calvino, muitos desconhecem a sua verdadeira história. Com ironia Marilynne Robinson expressa o que muitos creem: “nós sabemos que o Calvinismo é uma importante tradição entre nós. Mas a única coisa que sabemos de João Calvino é que era um escocês do século XVIII, de perspectiva excessivamente estrita, como uma fivela em seu chapéu e, possivelmente queimou bruxas ...”. Assim, continuamos no mesmo ano de 500 anos do aniversário do seu nascimento. Para os que não saibam, Calvino foi um francês do século XVI, viveu no exílio de Genebra, Suíça. Os que usavam fivelas eram os puritanos e os de perspectiva excessivamente estrita eram os vitorianos.

Alguns pontuam a Calvino como o sicário da Reforma Protestante, o verdugo dos hereges, ou um pervertido sexual. Com maior frequência lhe atribuem o título de maior herege, alguém que talvez negava a doutrina da Trindade, e quem inventou a sua terrível doutrina da predestinação e reprovação.

Os eruditos recentes sobre Calvino têm mostrado que a grande maioria destes rumores maliciosos procedem de uma única fonte, um indivíduo particular. O seu nome era Jerônimo Bolsec, um refugiado leigo que passou um tempo em Genebra. Ao falhar em seu exame de ordenação nas Igrejas Reformadas em Paris, voltou para a Igreja Católica Romana, e chegou a ser o primeiro biógrafo católico de Calvino. Publicou a sua obra em 1577 e, as histórias que Bolsec narra têm uma larga trajetória na história.

A vida de Bolsec foi intrigante, e nos provê um excelente exemplo de como o gênero de biografias era usado para as polêmicas violentas do século XVI na Europa, utilizando toda forma possível, desde panfletos de papel até tábuas de madeira esculpidas. De acordo com um autor, Bolsec “queria destruir a imagem de Genebra (e Calvino) tão rápido e efetivamente quanto possível.” Então, incluía em sua biografia temas como os seguintes:

1. A influência destrutiva de Calvino sobre a França e seu papel na destruição da paz na Europa.
2. Calvino como “a encarnação de todas as heresias” antes conhecidas na Igreja.
3. Calvino como o sodomita (homossexual) acusado e julgado, quem deveria ser queimado, mas no último momento mudaram a sua sentença ao receber uma marca com um ferro quente no ombro.
4. Calvino como um tirano promíscuo que “se deitado com a maioria das mulheres em Genebra sob o pretexto de dar conselhos pastorais”.
5. Calvino como o único responsável pela execução de Serveto (um mito que tem longa duração). Bolsec não foi o único que “adornou” relatos sobre o caráter de pessoas importantes. Os protestantes encontravam ampla oportunidade para fazer o mesmo com os papas corruptos de sua época, e sem dúvida, nem tudo o que diziam era verdade. Mas parece que algumas das histórias absurdas sobre Calvino perduram mais tempo do que os mitos mitos protestantes sobre a corrupção católica, apesar de que há muitos intérpretes católicos, utilizando métodos críticos de investigação, em que questionam radicalmente A vida de Calvino escrito por Bolsec. Depois de investigar os relatos sobre Calvino, estes autores católicos rejeitam a maioria, senão todos, os mitos a respeito de Calvino, chegando à conclusão que Bolsec inventou suas fontes, e que estava pessoalmente cego por seu profundo ódio contra Calvino.

No caso de Calvino, é proveitoso conhecer a origem da grande maioria dos mitos sobre ele. Com tantas falsas lendas sobre Calvino, quase seria melhor pedir uma moratória das opiniões populares caso não se baseiem na verdade histórica.

Originalmente publicado em Modern Reformation, Jun/Jul, 2009.
Extraído de Nicolás G. Lammé, ed., Reforma Siglo 21 – Boletín teológico de la Confraternidad Latinoamericano de Iglesias Reformadas (Guadalupe, CLIR, Outubro de 2009), pp. 64-66.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki em 3 de Dezembro de 2015.