25 fevereiro 2026

Presbiterianos celebram a Quaresma?

Por Carl Trueman

 

É aquela época do ano novamente: A antiga tradição da Quaresma, iniciada pela Quarta-feira de Cinzas. É também a época do ano em que nós, cristãos confessionais, nos preparamos para o ataque anual de uma tradição mais recente: a de especialistas evangélicos, sem qualquer ligação com esses ramos da igreja, escrevendo artigos exaltando as virtudes da Quaresma para seu próprio público eclético.

Os calendários litúrgicos se desenvolveram no século IV e além, à medida que o cristianismo passou a dominar o império. O domínio cultural requer duas coisas: controle do tempo e do espaço. O último podia ser alcançado por meio de igrejas e relíquias. O primeiro foi alcançado pelo desenvolvimento de um calendário que conferiu ao ritmo do tempo uma linguagem especificamente cristã. Ele permanece uma parte fundamental da prática das igrejas romana, ortodoxa e, posteriormente, anglicana.

A ascensão da Quaresma em círculos não romanos, ortodoxos ou anglicanos é um fenômeno fascinante. Lembro-me de estar no campus do Seminário Teológico de Princeton, há alguns anos, na Quarta-feira de Cinzas, e de ser recebido por um jovem que saía da Capela Miller com uma cruz preta borrada na testa. O fato de o bastião do presbiterianismo tradicional do século XIX ter sido reduzido a isso — uma miscelânea eclética de práticas litúrgicas — pareceu-me triste. O presbiterianismo tradicional é uma tradição rica o suficiente para não precisar recorrer aos egípcios ou mesmo aos anglicanos.

Entendo os anglicanos que observam a Quaresma. Aliás, posso até aprovar que o façam quando estou de ótimo humor ou acabei de acordar de um sono profundo e ainda estou um pouco desorientado. Faz parte da história deles. Conecta-se à sua história litúrgica formal. Todas as denominações e tradições cristãs envolvem elementos que, estritamente falando, não são bíblicos, mas que moldam sua identidade histórica. Para os anglicanos, o calendário litúrgico é exatamente isso. Essas razões não são convincentes a ponto de tornar o calendário normativo para todos os cristãos, mas ainda consigo entender como fazem sentido para um anglicano. Mas, assim como celebrar o 4 de Julho faz sentido para os americanos, mas não para os ingleses, os chineses ou os lapões, a Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma realmente não fazem sentido para os presbiterianos, batistas ou evangélicos de igrejas livres.

O que me intriga é a necessidade de pessoas desses outros grupos observarem a Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma. Meu compromisso com a liberdade cristã significa que eu certamente não consideraria pecaminoso em si o fato de o fazerem. Mas esse mesmo compromisso também significa que me oponho veementemente a qualquer pessoa que tente argumentar que deveria ser uma prática normativa para os cristãos, impô-la às suas congregações ou afirmar que confere benefícios indisponíveis em outros lugares.

A imposição de cinzas tem o propósito de nos lembrar que somos pó e faz parte de um momento litúrgico em que os pecados são “expurgados” ou perdoados. Na verdade, um culto bem estruturado já deveria fazer isso. Exatamente a mesma coisa pode ser transmitida pela leitura da Palavra de Deus, particularmente a Lei, seguida por uma oração coletiva de confissão e, em seguida, algumas palavras de perdão do evangelho extraídas de uma passagem apropriada e lidas em voz alta para a congregação pelo ministro.

Um sacramentalismo reformado adequadamente rico também torna a Quarta-feira de Cinzas irrelevante. O batismo infantil enfatiza, melhor do que qualquer outra coisa fora da Palavra pregada, a prioridade da graça de Deus e a impotência da humanidade pecadora diante de Deus. A Ceia do Senhor, tanto em seu simbolismo (os humildes elementos do pão e do vinho) quanto em seu significado (a alimentação em Cristo pela fé), indica nossa contínua fraqueza, fragilidade e total dependência de Cristo.

À luz disso, suspeito que as razões pelas quais os evangélicos estão redescobrindo a Quaresma têm tanto a ver com a pobreza de sua própria tradição litúrgica quanto com qualquer outra coisa. Os evangélicos americanos são mestres em se apropriar de qualquer coisa que lhes chame a atenção na história da igreja e reivindicá-la como sua, desde os Pais da Igreja como os primeiros emergentes até os homens da Velha Escola de Princeton como os precursores dos jovens, inquietos e reformados [Young, Restless, and Reformed], passando por Dietrich Bonhoeffer como o evangélico americano moderno. No entanto, se a sua própria tradição carece da profundidade histórica, litúrgica e teológica que você procura, talvez seja hora de se juntar a uma igreja que possa fornecer o mesmo.

Temo ainda que isso revele uma certa carnalidade: o desejo de fazer algo que simplesmente pareça legal e que tenha uma certa espiritualidade ostentosa. Como um ato de piedade, não custa nada, mas implica uma profunda seriedade. Na verdade, longe de revelar uma profunda seriedade, em um contexto evangélico, isso simplesmente expõe a superficialidade, o consumismo eclético e a confusão de identidade subjacente do movimento. Por fim, também me intriga o fato de que tempo e energia sejam gastos anualmente em exaltar as virtudes da Quaresma, quando comparativamente pouco se dedica a exaltar as virtudes do Dia do Senhor. O presbiterianismo tem seu calendário litúrgico, sua maneira de marcar o tempo: seis dias de atividades terrenas e um dia de descanso e culto comunitário. Claro, isso é bastante entediante. Entediante, isto é, a menos que se compreenda a rica teologia que fundamenta o Dia do Senhor e o culto comunitário, e se perceba que, a cada semana, nos reunimos com outros crentes para experimentar um pouco do céu na terra.

Quando presbiterianos, batistas e evangélicos de igrejas livres começam a frequentar os cultos da Quarta-feira de Cinzas e a observar a Quaresma, só se pode concluir que ou foram mal instruídos na teologia ou na história de suas próprias tradições, ou que não possuem teologia nem história. Ou talvez estejam simplesmente refletindo a atitude do mundo ao seu redor: consomem os fragmentos que lhes chamam a atenção em qualquer tradição que considerem atraente, enquanto evitam a estrutura, as exigências e a disciplina mais amplas que o pertencimento a uma comunidade confessional historicamente enraizada requer. De fato, é irônico que uma época concebida para a abnegação seja, com tanta frequência, um símbolo do consumismo arraigado da nossa era.


O Dr. Carl R. Trueman detém um M.A. Classics pela University of Cambridge e um PhD em História da Igreja pela University of Aberdeen e, atualmente, leciona no Grove City College na Pennsylvania, EUA. 

Tradução DAQUI


13 fevereiro 2026

Por que a IPB deveria usar imagens de Jesus?

 Considerando:

1)    Que os concílios da IPB ao tomar decisões ou conceder respostas devem agir de acordo com Escritura Sagrada e os Padrões de Westminster, conforme CI-IPB art. 1: “... adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve”;

 2)    Que o 2º mandamento, conforme Êx 20.4-6, estabelece a proibição de fazer imagens (verso 4) e, também, condena adorá-las (verso 5). “O segundo mandamento proíbe fazer imagens (cf. 34.17). Esta é uma das diferenças entre os dois primeiros mandamentos. O primeiro fala de possuir (‘não terá’), enquanto o segundo fala de ‘produzir, fabricar’ (‘não farás’). Essa diferença sugere que a proscrição do primeiro mandamento seja mais ampla que a do segundo. [...] Pode-se admitir que o versículo 4 proíbe a representação do Senhor em imagens, pois a representação e a adoração de outras divindades já foram impedidas no primeiro mandamento.”[1] Por isso, tanto o uso didático como o uso para adoração de imagens para qualquer uma das Pessoas da Trindade são proibidos neste mandamento;

 3)    Que o princípio do 2º mandamento é que conheçamos a Deus somente pelos meios prescritos e revelados por Ele. É um grave pecado ensinar ou cultuar coagido por uma invenção humana, e isso é o que o uso de uma imagem de Cristo implica;

 4)    Que não há descrição física de Cristo no Novo Testamento. Então qualquer imagem usada para representá-lo não é verdadeira. Assim adverte o profeta “que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu? E a imagem de fundição, mestra de mentiras, para que o artífice confie na obra, fazendo ídolos mudos?” (Hq 2.18). O uso didático de imagens induzirá à mentira por causa de uma falsa representação física de Cristo. Nenhuma representação de Jesus deve ser criada sem os dados próprios da revelação bíblica. Nenhuma figura artística de Jesus de sua humanidade pode abarcar a plenitude de sua natureza divina. Mesmo imagens bem-intencionados nascem da imaginação subjetiva e, em última análise, criam uma perspectiva distorcida de quem Cristo realmente é;

 5)    Que é real a influência exercida sobre a mente e o coração pelas imagens atribuídas à Deus. Por isso somos advertidos de que “enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9); e de que, o coração é uma fábrica de ídolos, de modo que o uso de imagens poderá fomentar o erro e a falsidade;

 6)    Que o propósito de qualquer recurso didático deve ensinar a sã doutrina para uma fé bíblica. A fé não é produzida pelo que os olhos veem em imagens, mas pelo que os ouvidos recebem da “palavra de Cristo” (Rm 10.17);

 7)    Que a necessidade de ver imagens nega a verdadeira natureza da fé salvadora. Como o autor aos Hebreus declara que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1). Bem como Cristo repreende a Tomé, declarando: “Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega também a mão e põe-na no meu lado; não sejas incrédulo, mas crente.” E “disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo 20.27, 29);

 8)    Que ao apresentar imagens de Jesus incorre-se no risco da heresia do Nestorianismo. Pois retratar a humanidade de Cristo quando não conseguimos retratar a sua divindade é pecado, pois o reduzimos a meio-Cristo, separamos o que Deus uniu, deixamos de fora a principal coisa que o faz ser o Cristo (1Tm 2.5). Por isso, reafirmamos o Credo de Calcedônia (451 d.C.) que declara “ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da virgem Maria, mãe de Deus. Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção das naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor”;[2]

 9)    Que a Igreja nos primeiros quatro séculos condenava a produção e uso de imagens das Pessoas da Trindade. Conforme Orígenes, Contra Celsum 3.40 e 7.70 (trad. H. Chadwick, 1965), pp. 155,156 e 384,385; Tertuliano, Apology 12 (FC 10:41-42) e De Idolatria (org. J.H. Waszink e J.C.M. van Winden, 1987); Clemente de Alexandria, Exhortation to the Heathen (ANF 2:171-206); Laetâncio, Divine Institutes 2.1 (FC 49:94-97); Epifânio (cf. Jerônimo, Letter 51, “Epiphanius to John of Jerusalem” [NPNF2, 6:89]); Jerônimo, Letter 57, “To Pammachius” (NPNF2, 6:112-119); Agostinho, Ennaratio in Psalmum CXIIl (PL 37.1483). Do Concílio Elibertine (Concílio de Elvira), onde temos este decreto expresso sobre imagens ou gravuras das Pessoas da Trindade: “Não devem existir quadros nas igrejas, nem qualquer objeto de culto ou adoração pintado nas paredes” (cânone 36, cf. Mansi, 2:11);[3]

 10)  Que é histórica a posição cristã reformada contrária a produção e uso de imagens, pinturas e desenhos como representações de Cristo (cf. João Calvino, Institutas I.XI.1-16);[4]

 11)  Que a posição confessional reformada condena o uso de imagens das Pessoas da Trindade. O Catecismo de Heidelberg (1563) declara: “Pergunta 98. Mas as imagens não podem ser toleradas nas igrejas como livros para ignorantes?” R. Não, porque não devemos pretender ser mais sábios do que Deus, que não quer ensinar seu povo por meio de ídolos mudos, mas pela pregação viva de sua Palavra.” E a Segunda Confissão Helvética IV.4 (1566) declara “para instruir os homens na religião e relembrá-los das coisas divinas e da sua salvação, o Senhor ordenou que se pregasse o evangelho (Mc 16.15) – e não que se pintassem quadros para ensinar os leigos. Ele instituiu também os sacramentos, mas em nenhum lugar estabeleceu imagens”;[5]

 12)  Que inserir um Cristo “inventado” no lugar do verdadeiro Cristo revelado na Escritura é idolatria. Por isso, o Breve Catecismo de Westminster declara “o segundo mandamento exige que recebamos, observemos e guardemos puros e inteiros todo o culto e ordenanças religiosas que Deus instituiu na sua Palavra”, conforme a pergunta 50;

 13)  Que o Catecismo Maior de Westminster ensina que é pecado “fazer qualquer imagem de Deus, de todas ou de qualquer das três Pessoas, quer interiormente no espírito, quer exteriormente em qualquer forma de imagem ou semelhança de alguma criatura”, conforme declara a Pergunta 109. Usar uma imagem de Cristo como um auxílio didático ou como um instrumento de culto é proibido pelo 2º mandamento tanto quanto o é proibido em relação ao Pai e ao Espírito;

 14)  Que o SC-E/IPB-2010 (Doc. LX) estabeleceu “que não pode haver na logomarca da IPB nenhuma representação das Pessoas da Trindade, de acordo com a pergunta 109 do Catecismo Maior de Westminster”, sendo necessária uma decisão coerente, igualmente, no que se refere ao uso de imagens da segunda Pessoa da Trindade. Caso contrário, cria-se insegurança jurídica e eclesiástica, bem como precedentes contraditórios.


Se o 2o. mandamento (Êx 20.4-6) condena, se devemos conhecer e adorar a Deus somente pelos meios que Ele determina, se não há nenhuma descrição física de Cristo no NT, se as imagens criam uma dependência viciosa na mente e pode induzir à corrupção do coração, se a fé vem pelo ouvir a Palavra e não ver imagens de Cristo, se a igreja primitiva rejeitou o uso de imagens das Pessoas da Trindade, se os reformadores condenaram o uso didático e litúrgico de imagens, se a tradição confessional proíbe o fazer, o usar e adorar a Deus por meio delas, se o próprio SC-IPB em assembleia tem decisão condenando o uso de imagem do Espírito Santo, por que a IPB deveia usar imagens de Jesus com fins didáticos e litúrgicos?


NOTAS:

[1] Victor P. Hamilton, Comentário do Antigo Testamento: Êxodo (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017), p. 486, 487.

[2] J. Stevenson, ed., Creeds, Councils, and Controversies: Documents illustrative of the history of the Church A.D. 337-461 (London, SPCK, 1966), p. 337.

[3]  François Turretini, Compêndio de Teologia Apologética (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2011), vol. 2, pp. 83-84.

[4] Carlos M.N. Eire, War against the idols: the reformation of worship from Erasmus to Calvin (Cambridge, Cambridge University Press, 1989).

[5] Joel R. Beeke & Sinclair B. Ferguson, Harmonia das Confissões Reformadas (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2006), p. 136.