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13 janeiro 2025

O que é ouvir expositivamente? Por David Murray

 Você tem o direito de esperar que o púlpito da sua igreja seja preenchido por homens preparados pregando sermões bem-preparados. Você tem o direito de esperar pregadores que se prepararam espiritualmente e, também, passaram muitas horas preparando seus sermões. Você tem o direito de esperar que os pregadores se derramem ao pregar a Palavra de Deus para você. E você tem o direito de esperar que aqueles que pregam orem por você depois que o sermão terminar, para que Deus abençoe você com a Palavra. Antes, durante e depois do sermão, você tem o direito de esperar que os pregadores se esforcem e dediquem-se para o seu bem-estar espiritual.

 DIREITOS E RESPONSABILIDADE

Mas e você? Toda a atividade é do lado do pregador e apenas passividade do seu? Você faz pouco ou nada antes, durante ou depois do sermão? Você tem todos os direitos, mas nenhuma responsabilidade? De forma alguma! Você igualmente precisa se derramar, se esforçar e despender antes, durante e depois do sermão se quiser ter algum beneficiar dele. Na verdade, Charles Spurgeon disse que o ouvinte precisa se preparar ainda mais do que o pregador!

Dizem-nos que os homens não devem pregar sem preparação. Isso é verdadeiro. Mas, acrescentamos que os homens não devem ouvir sem preparação. O que você acha que precisa de mais preparação: o semeador ou o solo? Eu gostaria que o semeador viesse com as mãos limpas, mas eu gostaria que o solo fosse bem arado e gradeado, bem revolvido e os torrões quebrados antes que a semente chegasse. Parece-me que há mais preparação necessária pelo solo do que pelo semeador, muito mais pelo ouvinte do que pelo pregador.

 PREGADOR E OUVINTE

Este tipo de preparação de pré-sermão é parte do que Ken Ramey chamou de “ouvir expositivamente”. Estamos acostumados a falar sobre pregação expositiva, o tipo de pregação que analisa, explica ou expõe sequencialmente os versículos das Escrituras. Mas o ponto de Ken é que a pregação expositiva requer um tipo especial de escuta, o ouvir expositivamente, que, como a pregação expositiva, requer trabalho antes, durante e depois do sermão. Ramey diz:

A pregação é um empreendimento conjunto no qual o ouvinte faz parceria com o pastor para que a Palavra de Deus cumpra seu propósito pretendido de transformar sua vida. Nada cria uma atmosfera mais poderosa, empolgante e transformadora do que quando os raios de um pregador capacitado pelo Espírito atingem os para-raios de um ouvinte iluminado pelo Espírito.

Christopher Ash colocou assim em “Ouça!” seu livreto sobre ouvir sermões:

A pregação que torna uma igreja semelhante a Cristo sob a graça exige um milagre duplo: o pregador, que ainda é um pecador, deve ser moldado pela graça para pregar; e os ouvintes, igualmente pecadores, devem ser despertados pela graça para ouvir juntos semana após semana em humilde expectativa.

 DESÂNIMO E ENCORAJAMENTO

A julgar pela parábola dos solos, esse tipo de ouvir expositivamente é bem raro (não mais do que um em cada quatro ouvintes) – isso é desanimador. No entanto, a mesma parábola também fala de uma semente sendo multiplicada para produzir trinta frutos, sessenta e até cem frutos. Esse é o poder encorajador e frutífero de ouvir expositivamente.

20 dicas de como ouvir sermões por David Murray

Em “Como escutar expositivamente”, vimos por que o modo como ouvimos sermões é tão importante quanto preparar e pregá-los. Hoje, consideraremos “20 maneiras de se tornar um melhor ouvinte de sermões”. Alguns desses pontos são retirados de três recursos úteis:

1. Escuta expositiva por Ken Ramey

2. Escute! por Christopher Ash

3. Cuide de como você escuta (e-book gratuito) por John Piper

 

ANTES DO SERMÃO

1. Leia e medite na Palavra de Deus todos os dias. A leitura diária da Bíblia aguça nosso apetite pelo prato principal no Dia do Senhor. Não podemos esperar estar prontos para digerir o alimento espiritual se não tivermos comido durante a semana. Não estrague o seu apetite banqueteando-se com o pecado.

2. Limite o consumo de mídia. A maioria das pessoas consomem de 9 a 11 horas de mídia por dia (Tiago 1.21). No artigo “Pregando para pessoas programadas: comunicação eficaz em uma sociedade saturada de mídia”, Timothy Turner explica como “assistir TV e pregar são diametralmente opostos um ao outro — um é visual, o outro é racional; um envolve os olhos, o outro envolve os ouvidos; um produz observadores passivos, o outro requer ouvintes ativos.” Depois de assistir TV, ir ao cinema e navegar na internet a semana toda, você vai à igreja e tem que sentar e ouvir um longo sermão que exige muita concentração e esforço aos quais você não está acostumado. Espera-se que você passe de um espectador passivo para um ouvinte comprometido, literalmente, da noite para o dia. Ouvir exige muita concentração e autodisciplina. (Ouvindo expositivamente, 42)

3. Use bem a noite de sábado. Prepare-se para o domingo, organize-se durante a semana, vá para a cama cedo, desencoraje os filhos de saírem tarde da noite no sábado.

4. Ore por você e pelo pastor. Faça isso diariamente, mas especialmente no domingo. De muitas maneiras: “você receberá aquilo pelo que ora”.

5. Treine-se para ouvir. Existem vários recursos sobre como pregar, mas, além dos poucos mencionados acima, muito poucos sobre como ouvir. Os pregadores têm muitos recursos para treiná-los e equipá-los para tornarem-se melhores pregadores, mas os ouvintes dificilmente têm recursos para treiná-los e equipá-los para tornarem-se melhores ouvintes. Isso é surpreendente quando você considera que o número de ouvintes excede em muito o número de pregadores e ainda mais quando você percebe que a Bíblia diz mais sobre a responsabilidade do ouvinte de ouvir e obedecer à Palavra de Deus do que sobre a responsabilidade do pregador de explicar e aplicar a Palavra de Deus. De capa a capa, a Bíblia está abarrotada de versículos e passagens que falam sobre a necessidade vital de ouvir e obedecer à Palavra de Deus. Deus está muito preocupado com a forma como os pregadores pregam. Mas com base na grande quantidade de referências bíblicas sobre o ouvir e escutar, é inconfundível que Deus está tão, se não mais, preocupado com a forma como os ouvintes ouvem. (Ouvindo expositivamente, 3)

 

QUANTO AO SERMÃO

1. Chegue à igreja na hora certa para ficar calmo, estabelecido e focado.

2. Respeite o silêncio no templo. Isso inclui instruir seus filhos para não distrair as outras pessoas.

3. Envolva seu corpo e alma na adoração e oração. Desperte todo o seu corpo, mente e alma na adoração antes do sermão.

4. Diga a si mesmo que Deus está prestes a falar consigo. Continue orando para que Ele fale com você por meio de sua Palavra.

5. Reconheça que este é um esforço de equipe e assuma a sua responsabilidade. É um empreendimento conjunto entre o pregador e o ouvinte. Sermões bem-sucedidos resultam da união do ouvinte com o pregador, assim como um receptor trabalha em uníssono com um arremessador. Tanto o arremessador quanto o receptor têm um papel importante a desempenhar no processo de arremesso. A responsabilidade não recai toda sobre os ombros do arremessador. (Ouvindo expositivamente, 4)

6. Faça anotações breves. O suficiente para ajudá-lo a concentrar-se, mas não tantas anotações a ponto de se transformarem em uma palestra que envolva apenas a sua cabeça.

7. Verifique se o pregador está pregando a Palavra de Deus. Não com um espírito farisaico crítico (Lc 11.54), mas com um espírito bereano perspicaz (At 17.11).

8. Aceite que haverá momentos em que a Palavra o machucará. Não reaja contra isso e se feche, mas receba e tente ganhar com isso.

9. Crie uma boa vontade em relação ao pregador. A má vontade ou malícia em relação ao pregador endurece o coração. Ela bloqueia a Palavra de Deus.

10. Tente encontrar uma coisa para se beneficiar. Normalmente, você pode encontrar uma migalha ou duas até mesmo no sermão mais pobre de qualquer pregador.

 

APÓS O SERMÃO

1. Fale sobre o sermão com outras pessoas. Compartilhe o que o ajudou com amigos e familiares.

2. Coloque em prática. Obedeça e cumpra a Palavra.

3. Seja paciente na busca por resultados. Semear e dar frutos pressupõe um processo gradual e demorado de desenvolvimento.

4. Trabalhe em seu solo. O solo pode mudar de ruim para bom e muito bom. Somos responsáveis ​​por preparar o solo de nossos corações (Mc 4.1-20).

5. Dê feedback. Encoraje os pregadores de tempos em tempos com detalhes sobre como determinados sermões o ajudaram e de que maneira. Comente com o seu pastor o que aconteceu de bom quando você seguiu todas essas 20 dicas, mas precisa dar uma opinião de volta de algo que não conseguiu cumprir.

23 janeiro 2018

Quem deve pregar a Palavra de Deus? - CMW Q/R - 158

Por Johannes Geerhardus Vos



Pergunta 158. Por quem deve ser pregada a Palavra de Deus?
R. A Palavra de Deus deve ser pregada somente pelos que forem suficientemente dotados e devidamente aprovados e chamados para tal ofício.

Referências bíblicas
• 1Tm 3.2, 6; Ef 4.8-11; Os 4.6; Ml 2.7; 2Co 3.6. Aqueles que pregam a Palavra de Deus publicamente devem possuir obrigatoriamente certas qualificações definidas na Bíblia.
• Jr 14.15; Rm 10.15; Hb 5.4; 1Co 12.28-29; 1Tm 3.10; 4.14; 5.22. A Palavra de Deus deve ser pregada publicamente somente pelos que foram legitimamente chamados para o ofício do ministério da Palavra.

Comentário

1. Essa pergunta do catecismo trata especialmente de que tipo de pregação da Palavra?
Trata da pregação da Palavra numa congregação da igreja de Cristo. Pode-se inferir isso das palavras “em público para a congregação” na resposta da Pergunta 156. Quem não for ministro ordenado ou licenciado pode testemunhar de Cristo em particular ou em público, conforme a oportunidade o permita, mas a pregação pública oficial da Palavra na igreja deve ser feita apenas por aqueles devidamente separados para essa obra.

2. Por que a pregação oficial da Palavra deve ser feita só “pelos que forem suficientemente dotados”?
Claro está que a pregação da Palavra é uma obra de importância muito grande. São necessárias as qualificações apropriadas para que seja feita de maneira adequada. Há qualificações espirituais, intelectuais e educacionais sobre as quais se deve insistir para que a igreja tenha um ministério adequado. Um homem que não tenha nascido de novo e que não seja um consistente crente em Cristo, não tem obviamente condição de pregar a Palavra de Deus aos outros; seria apenas um cego conduzindo outro. Um homem incapaz de pensar corretamente, incapaz de detectar falácias de um argumento perverso, é passível de ser ele mesmo desviado por um falso ensinamento e, por sua vez, capaz de desviar outros. Um homem a quem falta educação geral e teológica normalmente não será capaz de fazer justiça à grande obra de pregação da Palavra de Deus e correrá o perigo de pregar uma mensagem desequilibrada ou parcial. Quando Deus chama um homem para a obra do ministério, também o aparelha com as habilidades e qualificações necessárias para que possa realizar a obra adequadamente.

3. Por que a nossa igreja, e a maioria das igrejas protestantes, exige a formação superior completa num seminário para o ofício do ministério?
Quanto mais importante for a obra, mais importante será que tenham o treinamento adequado os que a realizarão. Sempre tem havido quem ache que seja perda de tempo, em maior ou menor grau, gastar sete anos na formação superior num seminário, preparando-se para a obra do ministério. Há hoje em muitas denominações a pressão constante para que essas exigências sejam relaxadas e que sejam admitidos no ministério homens que tenham menos do que isso. Alguns consideram quer as matérias ensinadas em um curso superior – como filosofia, história e literatura – sejam inúteis ao ministério e uma perda de tempo que deveria ser investido “ganhando almas”. Há, da mesma maneira, quem pense que um breve “Curso de Bíblia” e mais algumas matérias práticas como a retórica religiosa (homilética) e prática pastoral devam ser suficientes e que o amplo estudo de Hebraico, Grego, História Eclesiástica e Teologia Sistemática sejam desperdício de tempo.
Ninguém que precisasse passar por uma cirurgia estaria disposto a ir a um cirurgião que obteve o seu treinamento através de atalhos. O Estado insiste, corretamente, que aqueles cujas decisões e ações envolva a vida ou a morte de seus semelhantes estejam plenamente treinados para o exercício de seu ofício. Quão mais importante é que os ministros do evangelho, cujo trabalho pode afetar o destino eterno de seres humanos, estejam plenamente instruídos para a tarefa a eles designada. Considerando-se o espaço tempo necessário ao treinamento na medicina e de outras doutas profissões, os quatro ou cinco anos empenhados no curso superior de um seminário não são demasiados para o treinamento ministerial.
O ministro a quem faltar o treinamento num seminário dificilmente conseguirá entender o mundo moderno ao qual ele tem de entregar a sua mensagem. O estudo de filosofia, história e de outras matérias acadêmicas está longe de ser uma perda de tempo. Elas apresentam o cenário do pensamento moderno e habilitam o ministro a proclamar todo o conselho de Deus de um modo que confronte cabalmente a situação dos dias presentes. Semelhantemente o estudo de Grego, Hebraico, Teologia Sistemática, etc., é qualquer coisa, menos perda de tempo, pois permitem ao ministro conhecer de primeira-mão a Bíblia e seus ensinamentos, e pregar uma mensagem bíblica, consistente e integrada.
A tendência moderna de contar os estudos “teóricos” e aumentar os estudos “práticos” na preparação para o ministério é deplorável e deve ser resistida. Existem dois tipos de seminários teológicos e institutos bíblicos. Num deles o alvo é instrumentar o estudante com uma certa quantidade de material pronto com o qual ele pode sair e ir pregar. No outro, o objetivo é colocar nas mãos do estudante as ferramentas do estudo bíblico e da pesquisa teológica e treiná-lo para usá-las corretamente. Daí, então, ele pode sair e pregar e a matéria-prima da sua pregação jamais vai se esgotar enquanto viver. Cremos que este último é que é o único e apropriado tipo de treinamento para a obra do ministério.
Não se deve entender, pelo que foi dito, que jamais haja exceções a essas regras. É obvio que alguns discípulos do nosso Senhor tiveram pouca ou nenhuma educação formal, mas tornaram-se eficazes ministros da Palavra. Eles, no entanto, gozaram de inestimável vantagem de passarem três anos na companhia de Jesus sob a Sua instrução pessoal. Deus às vezes chama para o oficio ministerial um homem com pouca ou nenhuma educação formal e nesses casos excepcionais, onde está evidente a chamada divina, a igreja não deve hesitar e, ordenar o candidato ao ministério. Tais casos, contudo, são muito raros, especialmente em dias em que são normais as oportunidades para a aquisição da educação. Não se deve permitir que a exceção torne-se regra.

4. Que significa “devidamente aprovados e chamados”?
Há uma chamada divina para o ministério e uma chamada para a igreja. Devemos lembrar sempre que o ministério não é uma profissão, mas um ofício. Ninguém pode simplesmente decidir tornar-se um ministro da mesma maneira que decide tornar-se advogado ou exercer uma linha de trabalho. É preciso ter alguma razão para se crer que seja chamado para o ministério. Isso não quer dizer uma revelação especial do céu, como um sonho ou uma visão, mas a consciência de que se possui em alguma medida as qualificações exigidas, juntamente com o sincero desejo de pregar o evangelho, a disposição para fazer sacrifícios pela causa de Cristo e de empenhar-se para obter a preparação necessária. Deus conduzirá ao ministério, as Sua própria maneira, àqueles a quem Ele chamar.
A chamada da igreja consiste, primeiro, em autenticar a chamada de Deus pela “devida aprovação” do candidato, suas convicções religiosas, sua habilidade geral e a sua preparação acadêmica e teológica. Essa “aprovação” está normalmente dividida em vários estágios. Primeiro, o candidato é recebido sob os cuidados de um presbitério como estudante para o ministério; depois de uma preparação parcial ele é licenciado para pregar; finalmente, depois de completada a preparação e com o convite de uma congregação ou junta missionária é ordenado ao ofício do ministério.
A chamada formal da igreja é o convite de alguma congregação para que o candidato venha ser o seu pastor, ou de alguma junta missionária ou outra agência da igreja visível para que o candidato se engaje na obra missionária local ou no estrangeiro, ou em algum outro aspecto da obra ministerial. Em todo caso, antes que o homem seja ordenado, deve haver uma chamada definitiva – seja para o pastorado de alguma congregação ou de outro campo de trabalho específico.
5. Por que antes de entrar no ofício ministerial o homem tem de ser devidamente chamado por Deus e pela igreja?
Nem mesmo o nosso Senhor Jesus Cristo fez de si sumo sacerdote, mas foi chamado por Deus para esse ofício da mesma maneira que Arão o fora (Hb 5.4-5). Apesar disso existem hoje muitos pregadores e missionários freelancers e independentes. Essa é uma tendência errada e deve ser desencorajada. Muitos desses pregadores e missionários independentes podem verdadeiramente ter sido chamados por deus e podem estar fazendo um bom trabalho pregando a Cristo, e este crucificado; mas há uma certa falta de consideração e negligência da igreja visível como instituição divina comprometida com a atitude deles, e3 que não pode ser aprovada. O chamado de Deus e o chamado da igreja não são antagônicos, toda verdadeira igreja é instrumento de Deus para o treinamento e o ordenamento de homens no ofício ministerial. Alguns há que, alegando uma piedade superior, sustentam que a chamada de Deus é suficiente e que eles não precisam da chamada e da ordenação da igreja. Essa falta de respeito para com a igreja visível não é bíblica e deve ser desestimulada.


Extraído de Johannes Geerhardus Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (São Paulo, Editora Os Puritanos, 2007), pp. 508-511.
Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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21 janeiro 2018

Sete marcas de um ministério do púlpito puritano

Por Chad van Dixhoorn


Os membros da Assembleia em sua reforma do ministério da pregação na Inglaterra, concordaram com um rígido delineamento do que seria o perfil dos pregadores e a natureza da pregação. Este estudo final resume sete pontos de uma visão puritana dominante acerca do púlpito como articulado pela Assembleia de Westminster e seus membros.

1. Os embaixadores de Deus: pregadores ordenados
A primeira marca do púlpito puritano é que ele seja ocupado por um homem, ordenado para o Ministério do Evangelho, pela Igreja de Cristo. George Gillespie (1613-1648) teve a ordenação em mente quando recordou uma importante questão feita pelo apóstolo Paulo: “como eles pregarão, a menos que sejam enviados”? Com isso, ele inferiu que os pregadores recebem um chamado especial e um ofício especial. Nem toda ovelha é um pastor. Nem todo cidadão é um embaixador.
Gillespie estava respondendo aos contemporâneos que achavam que não havia “um chamado sagrado, nem a separação solene dos homens para o ministério”, uma visão que ele achava impraticável e não bíblica. Ele retrata o caos se todos fossem pregadores, e ele retorna à palavra do apóstolo Paulo: alguns são separados; apenas eles são “enviados”. Esse é o núcleo da doutrina da ordenação.

2. Pregadores treinados
Os ministros precisavam ser ordenados e igualmente serem treinados. John Lightfoot (1602-1675) argumentou que o estudo era necessário para que alguém fosse um pregador, pois ele foi necessário até mesmo para os apóstolos. Eles se comprometeram a “ouvir, estudar, conferir e meditar”, e estavam com o próprio Cristo por um ano inteiro, antes de serem enviados para pregar.
Alguns “criticam aprender e estudar”. Mas Thomas Goodwin (1600-1680) observa que se exigiu de Timóteo que estudasse. Goodwin argumenta que a pregação extemporânea apenas, sem estudo, é realmente contrária à Escritura. Ele também comenta (perceptivamente) que aqueles que argumentam contra o estudo ainda dependem muito do que ouviram e discutiram. Ninguém entra no púlpito como uma lousa em branco.
Mas isso não significava que a sua erudição sempre fosse exibida no púlpito. Em um longo debate na Assembleia de Westminster, alguns homens argumentaram contra citar autores ou usar frases estrangeiras no púlpito. John Arrowsmith (1602-1659) era daqueles que discordava. Exibições de aprendizagem seriam permitidas e ele não resistiria em citar Agostinho (em latim) para mostrar que esta não é uma nova opinião na igreja.

3. Pregadores piedosos
Os pregadores precisavam ser ordenados e treinados, mas também precisavam ser “piedosos”, uma palavra que resume muito do que se diz sobre os presbíteros em 1 Timóteo e Tito. Na verdade, à Assembleia de Westminster foi dada a responsabilidade de identificar os ministros envolvidos em escândalos para que fossem removidos dos púlpitos, e substituídos por ministros instruídos e piedosos.
Inicialmente, o Parlamento exigiu que a Assembleia examinasse os candidatos acerca da sua instrução e piedade. Na primavera de 1646, o parlamento mudou de opinião sobre o critério da piedade e exigiu que a Assembleia examinasse os pregadores somente se eram instruídos.
A Assembleia suspendeu a mudança da redação imediatamente e resolveu não aprovar novos ministros até que o problema fosse resolvido. Depois de alguns dias de deliberação, eles enviaram apenas o Dr. Peter Smith (1586-1653) para uma comissão do Parlamento para pressionar o caso da Assembleia. A Assembleia escolheu seu homem com sabedoria, pois ganhou a sua causa e retomaram a questionar os pregadores sobre a doutrina e a vida deles. A Palavra de Deus não deixa espaço para se comprometer a piedade.

4. A Palavra de Deus
A quarta característica de um ministério do púlpito puritano é frequentemente encontrada nas exortações aos ouvintes dos sermões, e não apenas aos pregadores. Os ministros precisavam ser ordenados, instruídos e piedosos, porque (citando Gillespie novamente) os ouvintes deveriam “receber a palavra da boca dos ministros, como Palavra de Deus”. De acordo com William Gouge (1575-1653), esta é a mensagem de Hebreus 13, que diz: “Lembrai-vos dos que dominam sobre vós, que vos falaram a Palavra de Deus”. Poderia “adequadamente o som da voz de um homem, naquilo que os verdadeiros ministros de Deus pregam, no exercício de seu ofício ministerial, é a Palavra de Deus”.
Jeremiah Burroughs pontuou vinculando à Isaías 66 – “e que tema a minha Palavra” – para promover um pouco de reverência entre seus ouvintes. Um homem, ou mulher, temente à Deus, diz ele, não vem “ouvir a Palavra do modo comum, simplesmente para passar o tempo, ou ouvir o que um homem pode lhe dizer”. Pelo contrário, a Palavra, “lida ou pregada”, é recebida “com reverência”. Ele examina a pregação, mas “não se sofisma contra ela”.
Burroughs apresenta o rei Eglom de Moabe como um exemplo a ser seguido pelos santos, é claro, que não em seus caminhos “pagãos”, nem em sua morte intempestiva e nojenta, mas como alguém que se levantou para receber Ehud como embaixador com “uma mensagem de Deus “. Burroughs então empurra a faca um pouco mais fundo, perguntando a seus ouvintes se seus “corações”. . . inundam contra a “pregação”, perguntando o que eles realmente pensam sobre a pregação e denunciando a ironia daqueles que pensam que escaparam do mundo, mas ainda mostram o pior orgulho de se rebelar contra a Palavra de Deus.
Essa discussão de irreverência e orgulho é a premissa básica, óbvia para Burroughs, de que a pregação fiel da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Porque a pregação é a Palavra de Deus, a irreverência e o orgulho são escandalosos.

5. Os meios de graça externos e ordinários: a pregação
Se a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus, então, qual é o seu lugar na vida e no culto cristão? Não surpreendente que os teólogos respondam que a pregação é o meio comum da graça para os cristãos, que é o meu quinto ponto. Anthony Burgess (falecido em 1664) afirma que o ministério fiel da Palavra é “o caminho certo e comum para a conversão dos homens de seus caminhos perversos”.
Ele afirma isso mais vigorosamente em sua exposição de 1 Co 3: “O ministério é o único caminho comum que Deus designou, quer para o começo ou o auge da graça”. Afinal, “fé é recebida pelo que se ouve”, e em seu próprio texto informa aos corintos que Paulo e Apolo eram os “ministros por meio de quem eles creram”.
Em 1649, William Greenhill (1597/8-1671) dedicou um prefácio a uma parte de seu comentário de Ezequiel para a defesa da primazia da pregação, pois “onde a Palavra de Deus não é exposta, pregada e aplicada” o povo “perece”.
Mas esse é sempre o caso? E se as pessoas não se beneficiarem dos sermões? Alexander Henderson (c. 1583-1646) admitiu em um sermão: “Conheço muitos de vocês que disseram, quando saíram da pregação. . . que suas almas não foram nada melhoradas por ela”. As pessoas eram, talvez, um pouco mais francas naqueles dias! Uma questão que muitos puritanos perguntariam aos pregadores quando surgisse o problema: eles estavam pregando à Cristo?

6. Pregação centrada no Cristo
Quando ele leu sobre a prática de Ezequiel de proclamar tudo o que o Senhor lhe mostrou, Greenhill teve pouca dificuldade em ver um imperativo aos ministros: eles devem somente pregar e pregar tudo o que eles aprendem na escola de Cristo.
Ecoando sentimentos semelhantes, Obadiah Sedgwick (1599/1600-1658) afirma que o sermão é “um trabalho inútil se expor qualquer coisa, se não for a Cristo”. Os ministros devem “fixar a convicção de pregarem a Cristo”. Novamente, “seus esforços na pregação, resultarão em pouco, talvez em nada, se não for Cristo, ou algo em referência a Cristo, no qual você insiste laboriosamente na pregação”.
Goodwin afirma que os pregadores “acrescentariam mais beleza aos seus próprios pés” se pregassem mais o evangelho e menos “verdades de momentos insignificantes”. Esses sentimentos são tão comuns nos escritos dos teólogos que eu considero a pregação centrada em Cristo como a sexta das sete marcas de um ministério do púlpito puritano.
Como Arrowsmith escreve, os verdadeiros ministros “confirmaram Cristo em seu ministério; eles se contentam em ficar na multidão e levantar Cristo sobre os ombros; conteúdo, não para ser visto, para que Cristo seja exaltado”.

7. “A obra do Espírito”
A última, mas não menos distinta marca de um ministério do púlpito puritano, é a dependência do Espírito Santo. Argumenta-se que a pregação dos puritanos estava sempre pronta para admitir que a pregação não parecia ser um meio sensato de avançar o evangelho. Mesmo no século XVII, a pregação era “muito desprezível e indesejável para a razão humana”.
Mas o chamado “problema” com a pregação é em si a resposta. Deus escolheu deliberadamente um meio humilde que ampliaria a sua própria grandeza e a obra do Espírito Santo. Burgess retoma a figura de 1 Coríntios 3, onde Paulo lembra aos leitores que o pregador pode semear e regar, mas Deus é quem dá o aumento. Como na administração dos sacramentos, a pregação não é automaticamente efetiva. A Palavra, seja visível ou audível, precisa ser recebida pela fé que é dada pelo Espírito. E assim, embora os pregadores sejam descritos como cooperadores da obra de Deus, Burgess nos lembra que mesmo um ministro sendo fiel, pode não ter sucesso porque “o sucesso é a obra de Deus, e não o dever dos ministros”.
Samuel Rutherford (1600-1661) diz o mesmo, e aplica essa verdade muito mais a pregação. Ele nos lembra que o benefício de tudo o que fazemos depende da “obra do Espírito”. E, assim como, às vezes, refletimos sobre nossos pecados e falhas como pregadores, lembremo-nos do poder do Espírito Santo e da graça de Deus através de Jesus Cristo – não apenas pelo bem de nossos ouvintes, mas também por nós mesmos.


Este artigo é um extrato e adaptação do livro de Chad Van Dixhoorn, God’s Ambassadors: The Westminster Assembly and the reform of the English pulpit, 1643-1653. Nele são encontradas notas de rodapé, referências e discussões mais completas sobre este assunto.

Extraído DAQUI

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

16 janeiro 2018

24 falácias lógicas de argumentação

Por Fábio Rodrigues

Já demos algumas pinceladas sobre o tema aqui no PapodeHomem, mencionando algumas das famosas falácias de lógica argumentativa -- que são um capítulo específico dentro do tema, mas que tem aplicações bem práticas. E estamos também preparando um novo material, bem completo, tratando não só de lógica, mas das noções de debate, diálogo e conversação, que são temas relacionados, igualmente ricos, complexos e comumente pouco explorados.

Agora achei o site Thou Shalt Not Commit Logical Fallacies, o mais simpático que já vi sobre o assunto. Ele lista as 24 falácias mais comuns, em linguagem simples, com exemplos engraçadinhos, e tem até um pôster para você baixar em PDF, mandar imprimir na gráfica e colar na parede. Tudo de graça.

Como em português o material sobre isso é escasso, e esse é um conhecimento bem importante quando se quer travar diálogos e debates saudáveis, resolvemos fazer um esforço extra e traduzir todo o conteúdo do Thou Shalt Not... para disponibilizar aqui.

Abaixo, 24 das mais comuns falácias lógicas argumentativas. A numeração não indica nenhum tipo de hierarquia entre elas, é apenas para facilitar futuras referencias a exemplos específicos.

Leia, entenda e não as use.

1. Espantalho

Você desvirtuou um argumento para torná-lo mais fácil de atacar.

Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém, fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida. Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional, como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar em questão a sua credibilidade – se você está disposto a desvirtuar negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não desvirtuaria os seus positivamente?

Exemplo: Depois de Felipe dizer que o governo deveria investir mais em saúde e educação, Jader respondeu dizendo estar surpreso que Felipe odeie tanto o Brasil, a ponto de querer deixar o nosso país completamente indefeso, sem verba militar.

***

2. Causa Falsa
Você supôs que uma relação real ou percebida entre duas coisas significa que uma é a causa da outra.

Uma variação dessa falácia é a "cum hoc ergo propter hoc" (com isto, logo por causa disto), na qual alguém supõe que, pelo fato de duas coisas estarem acontecendo juntas, uma é a causa da outra. Este erro consiste em ignorar a possibilidade de que possa haver uma causa em comum para ambas, ou, como mostrado no exemplo abaixo, que as duas coisas em questão não tenham absolutamente nenhuma relação de causa, e a sua aparente conexão é só uma coincidência.

Outra variação comum é a falácia "post hoc ergo propter hoc" (depois disto, logo por causa disto), na qual uma relação causal é presumida porque uma coisa acontece antes de outra coisa, logo, a segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.

Exemplo: Apontando para um gráfico metido a besta, Rogério mostra como as temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, ao mesmo tempo em que o número de piratas têm caído; sendo assim, obviamente, os piratas é que ajudavam a resfriar as águas, e o aquecimento global é uma farsa.

***

3. Apelo à emoção
Você tentou manipular uma resposta emocional no lugar de um argumento válido ou convincente.

Apelos à emoção são relacionados a medo, inveja, ódio, pena, orgulho, entre outros.

É importante dizer que às vezes um argumento logicamente coerente pode inspirar emoção, ou ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia acontecem quando a emoção é usada no lugar de um argumento lógico. Ou, para tornar menos claro o fato de que não existe nenhuma relação racional e convincente para justificar a posição de alguém.

Exceto os sociopatas, todos são afetados pela emoção, por isso apelos à emoção são uma tática de argumentação muito comum e eficiente. Mas eles são falhos e desonestos, com tendência a deixar o oponente de alguém justificadamente emocional.

Exemplo: Lucas não queria comer o seu prato de cérebro de ovelha com fígado picado, mas seu pai o lembrou de todas as crianças famintas de algum país de terceiro mundo que não tinham a sorte de ter qualquer tipo de comida.

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4. A falácia da falácia
Supor que uma afirmação está necessariamente errada só porque ela não foi bem construída ou porque uma falácia foi cometida.

Há poucas coisas mais frustrantes do que ver alguém argumentar de maneira fraca alguma posição. Na maioria dos casos um debate é vencido pelo melhor debatedor, e não necessariamente pela pessoa com a posição mais correta. Se formos ser honestos e racionais, temos que ter em mente que só porque alguém cometeu um erro na sua defesa do argumento, isso não necessariamente significa que o argumento em si esteja errado.

Exemplo: Percebendo que Amanda cometeu uma falácia ao defender que devemos comer alimentos saudáveis porque eles são populares, Alice resolveu ignorar a posição de Amanda por completo e comer Whopper Duplo com Queijo no Burger King todos os dias.

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5. Ladeira Escorregadia
Você faz parecer que o fato de permitirmos que aconteça A fará com que aconteça Z, e por isso não podemos permitir A.

O problema com essa linha de raciocínio é que ela evita que se lide com a questão real, jogando a atenção em hipóteses extremas. Como não se apresenta nenhuma prova de que tais hipóteses extremas realmente ocorrerão, esta falácia toma a forma de um apelo à emoção do medo.

Exemplo: Armando afirma que, se permitirmos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, logo veremos pessoas se casando com seus pais, seus carros e seus macacos Bonobo de estimação.

Exemplo 2: a explicação feita após o terceiro subtítulo - "O voto divergente do ministro Ricardo Lewandowski e a ladeira escorregadia" - deste texto sobre aborto. Vale a leitura.

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6. Ad hominem
Você ataca o caráter ou traços pessoais do seu oponente em vez de refutar o argumento dele.

Ataques ad hominem podem assumir a forma de golpes pessoais e diretos contra alguém, ou mais sutilmente jogar dúvida no seu caráter ou atributos pessoais. O resultado desejado de um ataque ad hominem é prejudicar o oponente de alguém sem precisar de fato se engajar no argumento dele ou apresentar um próprio.

Exemplo: Depois de Salma apresentar de maneira eloquente e convincente uma possível reforma do sistema de cobrança do condomínio, Samuel pergunta aos presentes se eles deveriam mesmo acreditar em qualquer coisa dita por uma mulher que não é casada, já foi presa e, pra ser sincero, tem um cheiro meio estranho.

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7. Tu quoque (você também)
Você evitar ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador – você responde críticas com críticas.

Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é geralmente empregada como um mecanismo de defesa, por tirar a atenção do acusado ter que se defender e mudar o foco para o acusador.

A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento – ao devolver ao acusador, o acusado não precisa responder à acusação.

Exemplo: Nicole identificou que Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de retificar o seu argumento, Ana acusou Nicole de ter cometido uma falácia anteriormente no debate.

Exemplo 2: O político Aníbal Zé das Couves foi acusado pelo seu oponente de ter desviado dinheiro público na construção de um hospital. Aníbal não responde a acusação diretamente e devolve insinuando que seu oponente também já aprovou licitações irregulares em seu mandato.

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8. Incredulidade pessoal
Você considera algo difícil de entender, ou não sabe como funciona, por isso você dá a entender que não seja verdade.

Assuntos complexos como evolução biológica através de seleção natural exigem alguma medida de entendimento sobre como elas funcionam antes que alguém possa entendê-los adequadamente; esta falácia é geralmente usada no lugar desse entendimento.

Exemplo: Henrique desenhou um peixe e um humano em um papel e, com desdém efusivo, perguntou a Ricardo se ele realmente pensava que nós somos babacas o bastante para acreditar que um peixe acabou evoluindo até a forma humana através de, sei lá, um monte de coisas aleatórias acontecendo com o passar dos tempos.

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9. Alegação especial
Você altera as regras ou abre uma exceção quando sua afirmação é exposta como falsa.

Humanos são criaturas engraçadas, com uma aversão boba a estarem errados.

Em vez de aproveitar os benefícios de poder mudar de ideia graças a um novo entendimento, muitos inventarão modos de se agarrar a velhas crenças. Uma das maneiras mais comuns que as pessoas fazem isso é pós-racionalizar um motivo explicando o porque aquilo no qual elas acreditavam ser verdade deve continuar sendo verdade.

É geralmente bem fácil encontrar um motivo para acreditar em algo que nos favorece, e é necessária uma boa dose de integridade e honestidade genuína consigo mesmo para examinar nossas próprias crenças e motivações sem cair na armadilha da auto-justificação.

Exemplo: Eduardo afirma ser vidente, mas quando as suas “habilidades” foram testadas em condições científicas apropriadas, elas magicamente desapareceram. Ele explicou, então, que elas só funcionam para quem tem fé nelas.

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10. Pergunta carregada
Você faz uma pergunta que tem uma afirmação embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa.

Falácias desse tipo são particularmente eficientes em descarrilar discussões racionais, graças à sua natureza inflamatória – o receptor da pergunta carregada é compelido a se justificar e pode parecer abalado ou na defensiva. Esta falácia não apenas é um apelo à emoção, mas também reformata a discussão de forma enganosa.

Exemplo: Graça e Helena estavam interessadas no mesmo homem. Um dia, enquanto ele estava sentado próximo suficiente a elas para ouvir, Graça pergunta em tom de acusação: “como anda a sua rehabilitação das drogas, Helena?”

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11. Ônus da prova
Você espera que outra pessoa prove que você está errado, em vez de você mesmo provar que está certo.

O ônus (obrigação) da prova está sempre com quem faz uma afirmação, nunca com quem refuta a afirmação. A impossibilidade, ou falta de intenção, de provar errada uma afirmação não a torna válida, nem dá a ela nenhuma credibilidade.

No entanto, é importante estabelecer que nunca podemos ter certeza de qualquer coisa, portanto devemos valorizar cada afirmação de acordo com as provas disponíveis. Tirar a importância de um argumento só porque ele apresenta um fato que não foi provado sem sombra de dúvidas também é um argumento falacioso.

Exemplo: Beltrano declara que uma chaleira está, nesse exato momento, orbitando o Sol entre a Terra e Marte e que, como ninguém pode provar que ele está errado, a sua afirmação é verdadeira.

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12. Ambiguidade
Você usa duplo sentido ou linguagem ambígua para apresentar a sua verdade de modo enganoso.

Políticos frequentemente são culpados de usar ambiguidade em seus discursos, para depois, se forem questionados, poderem dizer que não estavam tecnicamente mentindo. Isso é qualificado como uma falácia, pois é intrinsecamente enganoso.

Exemplo: Em um julgamento, o advogado concorda que o crime foi desumano. Logo, tenta convencer o júri de que o seu cliente não é humano por ter cometido tal crime, e não deve ser julgado como um humano normal.

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13. Falácia do apostador
Você diz que “sequências” acontecem em fenômenos estatisticamente independentes, como rolagem de dados ou números que caem em uma roleta.

Esta falácia de aceitação comum é provavelmente o motivo da criação da grande e luminosa cidade no meio de um deserto americano chamada Las Vegas.

Apesar da probabilidade geral de uma grande sequência do resultado desejado ser realmente baixa, cada lance do dado é, em si mesmo, inteiramente independente do anterior. Apesar de haver uma chance baixíssima de um cara-ou-coroa dar cara 20 vezes seguidas, a chance de dar cara em cada uma das vezes é e sempre será de 50%, independente de todos os lances anteriores ou futuros.

Exemplo: Uma roleta deu número vermelho seis vezes em sequência, então Gregório teve quase certeza que o próximo número seria preto. Sofrendo uma forma econômica de seleção natural, ele logo foi separado de suas economias.

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14. Ad populum
Você apela para a popularidade de um fato, no sentido de que muitas pessoas fazem/concordam com aquilo, como uma tentativa de validação dele.

A falha nesse argumento é que a popularidade de uma ideia não tem absolutamente nenhuma relação com a sua validade. Se houvesse, a Terra teria se feito plana por muitos séculos, pelo simples fato de que todos acreditavam que ela era assim.

Exemplo: Luciano, bêbado, apontou um dedo para Jão e perguntou como é que tantas pessoas acreditam em duendes se eles são só uma superstição antiga e boba. Jão, por sua vez, já havia tomado mais Guinness do que deveria e afirmou que já que tantas pessoas acreditam, a probabilidade de duendes de fato existirem é grande.

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15. Apelo à autoridade
Você usa a sua posição como figura ou instituição de autoridade no lugar de um argumento válido. (A popular "carteirada".)

É importante mencionar que, no que diz respeito a esta falácia, as autoridades de cada campo podem muito bem ter argumentos válidos, e que não se deve desconsiderar a experiência e expertise do outro.

Para formar um argumento, no entanto, deve-se defender seus próprios méritos, ou seja, deve-se saber por que a pessoa em posição de autoridade tem aquela posição. No entanto, é claro, é perfeitamente possível que a opinião de uma pessoa ou instituição de autoridade esteja errada; assim sendo, a autoridade de que tal pessoa ou instituição goza não tem nenhuma relação intrínseca com a veracidade e validade das suas colocações.

Exemplo: Impossibilitado de defender a sua posição de que a teoria evolutiva "não é real", Roberto diz que ele conhece pessoalmente um cientista que também questiona a Evolução e cita uma de suas famosas falas.

Exemplo 2: Um professor de matemática se vê questionado de maneira insistente por um aluno especialmente chato. Lá pelas tantas, irritado após cometer um deslize em sua fala, o professor argumenta que tem mestrado pós-doutorado e isso é mais do que suficiente para o aluno confiar nele.

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16. Composição/Divisão
Você implica que uma parte de algo deve ser aplicada a todas, ou outras, partes daquilo.

Muitas vezes, quando algo é verdadeiro em parte, isso também se aplica ao todo, mas é crucial saber se existe evidência de que este é mesmo o caso.

Já que observamos consistência nas coisas, o nosso pensamento pode se tornar enviesado de modo que presumimos consistência e padrões onde eles não existem.

Exemplo: Daniel era uma criança precoce com uma predileção por pensamento lógico. Ele sabia que átomos são invisíveis, então logo concluiu que ele, por ser feito de átomos, também era invisível. Nunca foi vitorioso em uma partida de esconde-esconde.

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17. Nenhum escocês de verdade...
Você faz o que pode ser chamado de apelo à pureza como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas no seu argumento.

Nesta forma de argumentação falha, a crença de alguém é tornada infalsificável porque, independente de quão convincente seja a evidência apresentada, a pessoa simplesmente move a situação de modo que a evidência supostamente não se aplique a um suposto "verdadeiro" exemplo. Esse tipo de pós-racionalização é um modo de evitar críticas válidas ao argumento de alguém.

Exemplo: Angus declara que escoceses não colocam açúcar no mingau, ao que Lachlan aponta que ele é um escocês e põe açúcar no mingau. Furioso, como um "escocês de verdade", Angus berra que nenhum escocês de verdade põe açúcar no seu mingau.

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18. Genética
Você julga algo como bom ou ruim tendo por base a sua origem.

Esta falácia evita o argumento ao levar o foco às origens de algo ou alguém. É similar à falácia ad hominem no sentido de que ela usa percepções negativas já existentes para fazer com que o argumento de alguém pareça ruim, sem de fato dissecar a falta de mérito do argumento em si.

Exemplo: Acusado no Jornal Nacional de corrupção e aceitação de propina, o senador disse que devemos ter muito cuidado com o que ouvimos na mídia, já que todos sabemos como ela pode não ser confiável.

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19. Preto-ou-branco
Você apresenta dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades, quando de fato existem outras.

Também conhecida como falso dilema, esta tática aparenta estar formando um argumento lógico, mas sob análise mais cuidadosa fica evidente que há mais possibilidades além das duas apresentadas.

O pensamento binário da falácia preto-ou-branco não leva em conta as múltiplas variáveis, condições e contextos em que existiriam mais do que as duas possibilidades apresentadas. Ele molda o argumento de forma enganosa e obscurece o debate racional e honesto.

Exemplo: Ao discursar sobre o seu plano para fundamentalmente prejudicar os direitos do cidadão, o Líder Supremo falou ao povo que ou eles estão do lado dos direitos do cidadão ou contra os direitos.

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20. Tornando a questão supostamente óbvia
Você apresenta um argumento circular no qual a conclusão foi incluída na premissa.

Este argumento logicamente incoerente geralmente surge em situações onde as pessoas têm crenças bastante enraizadas, e por isso consideradas verdades absolutas em suas mentes. Racionalizações circulares são ruins principalmente porque não são muito boas.

Exemplo: A Palavra do Grande Zorbo é perfeita e infalível. Nós sabemos disso porque diz aqui no Grande e Infalível Livro das Melhores e Mais Infalíveis Coisas do Zorbo Que São Definitivamente Verdadeiras e Não Devem Nunca Serem Questionadas.

Exemplo 2: O plano estratégico de marketing é o melhor possível, foi assinado pelo Diretor Bam-bam-bam.

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21. Apelo à natureza
Você argumenta que só porque algo é "natural", aquilo é válido, justificado, inevitável ou ideal.

Só porque algo é natural, não significa que é bom. Assassinato, por exemplo, é bem natural, e mesmo assim a maioria de nós concorda que não é lá uma coisa muito legal de você sair fazendo por aí. A sua "naturalidade" não constitui nenhum tipo de justificativa.

Exemplo: O curandeiro chegou ao vilarejo com a sua carroça cheia de remédios completamente naturais, incluindo garrafas de água pura muito especial. Ele disse que é natural as pessoas terem cuidado e desconfiarem de remédios "artificiais", como antibióticos.

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22. Anedótica
Você usa uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de um argumento sólido ou prova convincente.

Geralmente é bem mais fácil para as pessoas simplesmente acreditarem no testemunho de alguém do que entender dados complexos e variações dentro de um continuum.

Medidas quantitativas científicas são quase sempre mais precisas do que percepções e experiências pessoais, mas a nossa inclinação é acreditar naquilo que nos é tangível, e/ou na palavra de alguém em quem confiamos, em vez de em uma realidade estatística mais "abstrata".

Exemplo: José disse que o seu avô fumava, tipo, 30 cigarros por dia e viveu até os 97 anos -- então não acredite nessas meta análises que você lê sobre estudos metodicamente corretos provando relações causais entre cigarros e expectativa de vida.

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23. O atirador do Texas
Você escolhe muito bem um padrão ou grupo específico de dados que sirva para provar o seu argumento sem ser representativo do todo.

Esta falácia de "falsa causa" ganha seu nome partindo do exemplo de um atirador disparando aleatoriamente contra a parede de um galpão, e, na sequência, pintando um alvo ao redor da área com o maior número de buracos, fazendo parecer que ele tem ótima pontaria.

Grupos específicos de dados como esse aparecem naturalmente, e de maneira imprevisível, mas não necessariamente indicam que há uma relação causal.

Exemplo: Os fabricantes do bebida gaseificada Cocaçúcar apontam pesquisas que mostram que, dos cinco países onde a Cocaçúcar é mais vendida, três estão na lista dos dez países mais saudáveis do mundo, logo, Cocaçúcar é saudável.

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24. Meio-termo
Você declara que uma posição central entre duas extremas deve ser a verdadeira.

Em muitos casos, a verdade realmente se encontra entre dois pontos extremos, mas isso pode enviezar nosso pensamento: às vezes uma coisa simplesmente não é verdadeira, e um meio termo dela também não é verdadeiro. O meio do caminho entre uma verdade e uma mentira continua sendo uma mentira.

Exemplo: Mariana disse que a vacinação causou autismo em algumas crianças, mas o seu estudado amigo Calebe disse que essa afirmação já foi derrubada como falsa, com provas. Uma amiga em comum, a Alice, ofereceu um meio-termo: talvez as vacinas causem um pouco de autismo, mas não muito.

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Espero que essa lista seja útil.

Por fim, questiono: onde já identificaram falácias lógicas em seu dia-a-dia? Compartilhem suas dúvidas e percepções sobre o tema.

15 janeiro 2018

Esboço para a preparação de sermões

Por John R.W. Stott


I. Escolha seu texto
A. É melhor confiar em estudos expositivos do livro para a sólida dieta de seu povo, porque isto assegurará de que eles receberão “todo o conselho de Deus”.
B. Contudo, o seguinte pode ser ocasiões para sermões especiais:
1. Ocasiões especiais do calendário: Natal, Páscoa, etc.
2. Circunstâncias externas especiais que estão na mente pública.
3. Necessidades especiais discernidas pelo pregador ou por outros.
4. Verdades que têm especialmente inspirado o pregador.
C. Mantenha um caderno para escrever idéias para sermões, percepções, apreensões, ilustrações, etc. Registre-os imediatamente sempre que eles vieram à mente, porque você geralmente esquecê-los-á mais tarde.

II. Medite sobre o texto
A. Sempre que possível, planeje os textos semanas ou meses antecipadamente. Isto dá o benefício da “incubação subconsciente”.
B. A “incubação” concentrada deve iniciar pelo menos uma semana antes da pregação. Deve envolver o seguinte:
1. Ler, re-ler, e re-re-ler o texto.
2. Estar certo de que você compreende o que ele significa. Faça o seu próprio trabalho interpretativo. Não use comentários até que você tenha formulado as questões interpretativas específicas que você foi incapaz de responder, ou até que você tenha completado seu trabalho interpretativo.
3. Considere detenidamente como ele se aplica ao seu povo, à cultura, a você, etc.
4. Ore a Deus para iluminar o texto, especialmente sua aplicação.
5. Escreva notas de pensamentos, idéias, etc.
6. Solicite as percepções de outros através de fitas, conversando com outros pregadores, etc.

III. Isole o pensamento dominante
(Este é o propósito da seção II.)
A. Seu sermão deve transmitir somente uma mensagem principal. Todos os detalhes de seu sermão devem ser organizados para ajudar seu povo a captar esta mensagem e sentir seu poder.
B. Você deve ser capaz de expressar o pensamento dominante em uma curta, clara e vívida sentença.

IV. Arranje seu material para servir ao pensamento dominante

A. Esculpa e modele seu material. Descarte implacavelmente todo material que é irrelevante para o pensamento dominante. Subordine o material restante ao pensamento dominante usando este material para iluminar e reforçar o pensamento dominante.
B. A estrutura de seu sermão deve ser adaptada ao texto, não artificialmente imposta. Evite a estrutura que é muito destra, proeminente ou complexa.
C. Decida sobre seu método de pregação para este texto: argumentação, facetação, categorização, analogia, etc.
D. Escolha cuidadosamente palavras que sejam precisas, simples, claras, vívidas e honestas. Escreva as seções chaves, frases e sentenças para ajudá-lo em sua escolha da palavra. Prenda-se às sentenças declarativas e interrogativas com poucas, se alguma, cláusulas subordinadas.
E. Sugira ilustrações e exemplos que explanem e convençam. Empregue uma larga variedade: figuras de linguagem, imagens, recontando histórias bíblicas em linguagem contemporânea, inventando novas parábolas, recontando histórias verdadeiras e/ou eventos biográficos, etc. Mantenha um fichário destes, especialmente se eles não lhe vêem facilmente. Evite fazer ilustrações e exemplos tão proeminentes que eles diminuam o pensamento dominante. Também, evite aplicá-los inapropriadamente ou exageradamente.

V. Adicione a introdução e conclusão
A. A introdução não deve ser elaborada, mas suficiente para estimular sua curiosidade, para molhar seus apetites e para introduzir o pensamento dominante. Isto pode ser feito por uma variedade de meios: explanando o cenário da passagem, história, o evento ou assunto atual, etc.
B. A conclusão não deve ser meramente recapitular seu sermão – ela deve aplicá-lo. Obviamente, você deve aplicá-lo durante todo o tempo, mas você deve guardar algo para o fim que persuadirá seu povo a fazer algo. “Nenhuma intimação, nenhum sermão”. Pregue tanto para a cabeça como para o coração (isto é, vontade). O objetivo do sermão deve ser “atacar a fortificação da vontade e capturá-la para Jesus Cristo”. O que você quer que eles façam? Empregue uma variedade de métodos para fazer isto:
1. Argumento: antecipe objeções e refute-as.
2. Admoestação: advirta das conseqüências da desobediência.
3. Convicção Indireta: desperte a indignação moral e então a volte para eles (Natã e Davi).
4. Imploração: aplique as gentis pressões do amor de Deus, o interesse pelo seu bem-estar e as necessidades de outros.
5. Visão: pinte uma figura do que é possível através da obediência a Deus nesta área.

VI. Escreva sua mensagem e ore por ela

A. Escrever seu sermão lhe força a pensar francamente e suficientemente. Expõe o pensar preguiçoso e o cura. Depois que você estiver perfeitamente familiarizado com seu esboço, reduza-o a pequenas notas.
B. Ore a Deus para lhe capacitar para “tanto possuir a mensagem, que a mensagem o possua”.

NOTA: Este esboço foi condensado a partir de John R. W. Stott, Between Two Worlds (Grand Rapids: Eerdmans Publishing Co., 1982), pp. 211-216.
Revisado por Ewerton B. Tokashiki

11 agosto 2016

Sobre mulheres falando na igreja

Benjamin B. Warfield[1]

Recibi recentemente a carta de um apreciado amigo que pedia que lhe enviasse uma “discussão das palavras gregas laleo e lego em passagens tais como 1 Co 14:33-39, em especial referência à pergunta: ‘o versículo 34 proíbe a todas as mulheres em todas as partes de falar ou pregar em público, ou somente em igrejas cristãs?’” Como o assunto é de interesse universal, tomo a liberdade de compartilhar a minha resposta aos leitores do Presbyterian.[2]

Requer que se diga imediatamente que não há problema com referência as relações de laleo e de lego. Além dos detalhes de interesse puramente filológico, estas palavras se encontram relacionadas uma a outra exatamente do mesmo modo que estão as palavras inglesas falar e dizer; ou seja, que laleo expressa o ato de falar, enquanto que lego se refere ao que é dito. Sempre, pois, que o ato de falar, sem referência ao conteúdo do que se diz, deve ser indicado, se utiliza laleo, e deve ser utilizado. Não há nada desqualificador ou depreciativo no que sugere a palavra, e do mesmo modo, não há em nossa palavra falar; ainda que, se possa em alguma ocasião ser utilizada em termos depreciativos como também o possa ser a nossa palavra falar (como quando alguns dos periódicos insinuam que o senado está “entregue a meras palavras”). Esta aplicação desqualificadora de laleo, todavia, nunca ocorre no Novo Testamento, ainda que a palavra seja utilizada com muita frequência.

A palavra está em seu lugar correto em 1 Co 14:33 e seguintes, e necessariamente leva consigo o significado simples e natural. Se necessitássemos de algo para fixar o seu significado, todavia, isto determinaria o seu uso frequente na parte precedente do capítulo, de onde se refere não somente o falar em línguas (que era una manifestação divina, e ininteligível somente devido às limitações dos ouvintes), senão também ao falar profético, o qual se declara diretamente que é “para edificação, exortação e consolação” (v. 3-6). Também o seu sentido seria mais pungentemente determinado, todavia, pelo termo que põe em contraste aqui: “calem” (v. 34). Aqui se define diretamente laleo: “as mulheres calem, porque não lhes está permitido falar.” “Calar – falar”: são duas coisas opostas; e uma define a outra.

É importante observar, agora, que o eixo ao redor do qual gira a prescrição destes versos, não radica na proibição de falar tanto como no mandamento do silêncio. Esta é a prescrição principal. A proibição de falar é introduzida em seguida somente para explicar o significado de forma mais completa. O que Pablo diz em breve é: “as mulheres se calem nas igrejas.” Isso seguramente é suficientemente direto e específico para suprir todas as necessidades. Então, ele agrega a explicação: “Porque não lhes está permitido falar.” “Não está permitido” é uma apelação a uma lei geral, válida aparte do mandamento pessoal de Paulo, e se conecta com as palavras precedentes: “como em todas as igrejas dos santos.” Ele somente está exigindo às mulheres de Corinto que se o à lei geral das igrejas. E esse é o significado das quase amargas palavras que agrega no verso 36, com as quais (reprovando-as pela inovação de permitir que as mulheres falem nas igrejas), e lhes recorda que eles não são os autores do Evangelho, e muito menos os seus únicos detentores: ele exigia que guardassem a lei obrigatória para todo o corpo de igrejas e que não buscassem a seu modo alguma inovação de sua recente fabricação.

Os versos intermediários somente deixam claro que o que o apóstolo está precisamente fazendo é proibir às mulheres falar na igreja em termos absolutos. A sua prescrição de silêncio o leva tão longe até o ponto de proibir inclusive fazer perguntas; e agrega com especial referência a isso, mas com isso ao assunto geral, a vigorosa declaração de que “é indecoroso” — pois tal é o significado da palavra— “que uma mulher fale na igreja”.

Seria impossível que o apóstolo fale de forma mais direta ou mais enfática que como o fez aqui. Ele exige às mulheres que guardem silêncio nas reuniões da igreja; pois, isso é o que significa “na congregação”, e que não haveria edifícios para a igreja. E ele não nos deixou com dúvida quanto à natureza destas reuniões da igreja. Acabava descrevê-las nos versículos 26 adiante. Eram do carácter geral de nossas reuniões de oração. Observe as palavras “cale na igreja” do versículo 30, e compará-las com “calem nas congregações” no v. 34. A proibição de que as mulheres falem, envolve assim todas as reuniões públicas da igreja; pois se trata do carácter público, não da formalidade. E ele nos diz em reiteradas ocasiões que esta é a lei universal da igreja. Faz mais que isso: nos diz que esse é o mandamento do Senhor, e enfatiza a palavra “Senhor” (v. 37).

A passagem de 1 Tm 2:11 e etc é tão vigoroso como este, somente que se dirige mais particularmente ao caso específico do ensino público e à condução na igreja. O apóstolo neste contexto (o verso 8 diz “os varões” em contraste com “as mulheres” do verso 9) haveria restringido especificamente a oração pública aos homens, e então continua: “a mulher aprenda em silêncio, com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o homem, senão estar em silêncio”. Nem o ensino, nem a função de condução se permite à mulher. O apóstolo diz aqui, “não permito” em vez de dizer, como em 1 Co 14:33 e seguintes, “não está permitido” porque ele aqui está dando as instruções pessoais à Timóteo, seu subordinado, enquanto que anunciava aos coríntios a lei geral da igreja. O que ele ordena a Timóteo, todavia, é a lei geral da igreja. E desta maneira avança e fundamenta a proibição numa razão universal que igualmente afeta toda a raça.

Na presença destas duas tão absolutamente claras e enfáticas passagens, não se pode apelar ao que se diz em 1 Co 11:5 para mitigar, nem modificá-los. Qual é o significado exato de 1 Co 11:5, ninguém o sabe absolutamente. É declarado que toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua cabeça. Parece justo deduzir que se ela ora, ou profetiza, não desonra sua cabeça. E parece ainda mais justo deduzir que ela pode orar ou profetizar corretamente se tão somente o fizesse usando o véu. Estamos armando uma cadeia de inferências. E não nos levou muito longe. Não podemos deduzir que seria apropriado que ela orasse ou profetizasse na igreja se tão somente estivesse usando o véu. Nada se diz da «igreja» na passagem nem no contexto. A palavra “igreja” não aparece até o verso 16, e ali não como regendo a referência da passagem, mas somente como proporcionando um apoio adicional para a prescrição da passagem. Não há razão para crer que “orar e profetizar” em 11:5 quer dizer na igreja. Nem um nem outra eram atividades limitadas à igreja. Se como em 1 Co 14:14, o “orar” de que se fala era um exercício extático — como seu lugar de “profetizar” pode sugerir— então a inspiração divina ultrapassaria todas as leis ordinárias que a rege. E nota-se que há ocasião para observar que a oração em público está proibida para as mulheres em 1 Tm 2:8-9, a menos que o que esteja considerando seja a simples assistência a oração, em cujo caso esta passagem é um paralelo próximo a 1 Tm 2:9.

O que se deve observar como conclusão é:
(1) Que a proibição de que as mulheres falem na igreja é precisa, absoluta, e completamente inclusiva. Elas devem se calar nas igrejas — e isso significa em todas as reuniões públicas para adoração; nem sequer podem fazer perguntas.
(2) Que esta proibição indica o ponto particular precisamente para os assuntos de ensino e de conduta, incluindo especificamente as funções de presbíteros e da pregação.
(3) Que os argumentos sobre os quais se fundamenta a proibição são universais e dependiam da diferença de sexo, e particularmente nos lugares relativos dados aos sexos na Criação e na história fundamental da raça (decaída).

Talvez, devesse agregar a fim de esclarecer o último ponto quanto a diferença nas conclusões entre Paulo e o movimento feminista de hoje, ou seja, que a questão está arraigada numa diferença fundamental na perspectiva de ambos quanto à constituição da raça humana. Para Paulo a raça humana se compõe de famílias, e todos os diversos organismos – incluindo a igreja – estão compostos de famílias, unidos juntos por este, ou por outro vínculo. A relação dos sexos na família se estende, portanto, também à igreja. Para o movimento feminista a raça humana é composta de indivíduos. Uma mulher é simplesmente outro indivíduo ao lado do homem, e não se pode considerar nenhuma razão, para nenhuma diferença ao tratar com os dois. E, se podemos ignorar a grande diferença fundamental e natural dos sexos e destruir a grande unidade social e fundamental da família em prol do individualismo, não haveria nenhuma razão porque não devamos eliminar as diferenças estabelecidas por Paulo entre os sexos na igreja, exceto pela sua autoridade. Tudo isto, finalmente, nos faz voltar para a autoridade dos apóstolos como os fundadores da igreja. Gostemos do que Paulo disse, ou não; podemos estar dispostos a fazer o que ele ordena, ou não. Mas, não há lugar para a dúvida quanto ao que ele disse. E ele nos diria certamente novamente o que disse aos coríntios: “acaso saiu de vocês a palavra de Deus, ou ela chegou somente a vocês?” É este o nosso cristianismo: fazer o que nos agrada? Ou, é a religião de Deus que recebe as suas leis através dos apóstolos?

NOTAS:
[1] Artigo sobre a interpretação de 1 Co 14:34-35 com algumas notas incisivas acerca das premissas anticristãs e individualistas da ideologia feminista. Nota do editor.
[2] Publicado originalmente no periódico The Presbyterian em 30 de Outubro de 1919. Nota do tradutor.


Extraído de Benjamin B. Warfield, “Paul on women speking in Church” in: John W. Robbins, ed., The Church Effeminate (Unicoi, The Trinity Foundation, 2001), pp. 212-216.
Traduzido em 16 de Dezembro de 2014.
Revisado em 10 de Agosto de 2016.

08 outubro 2015

Por que as igrejas deveriam repensar o salário do pregador?

A relação entre o trabalho que um pregador realiza e o dinheiro que ele leva para casa parece ser muito clara para a maioria dos membros de igrejas: “nosso pregador ‘ministra’ à esta igreja – ele visita os doentes, ela aconselha, ele evangeliza, ele prega, ele ensina, ele faz o boletim e tudo o mais que pedirmos a ele – e nós o pagamos para que ele faça estas coisas.” Esta é a forma como a maioria dos cristãos pensam sobre seus pregadores e o “salário” que pagam para ele. Mas será que esta é de fato a forma como deveríamos pensar sobre isto? Pessoalmente, eu creio que não. Aqui estão algumas coisas para considerarmos…

1. Pare de pensar que o Pregador faz o que faz pelo pagamento.

A maioria dos membros de igrejas pensam que os seus pregadores fazem o que fazem porque eles o pagam para fazê-lo. Eu creio que esta é uma forma invertida de se pensar sobre a situação. É muito mais saudável pensar da seguinte forma: “O pregador comprometeu sua vida à proclamação do evangelho e nós o apoiamos financeiramente neste esforço.” Ele não faz o que faz porque vocês dão dinheiro a ele, vocês dão dinheiro a ele porque ele faz o que ele faz.

O Apóstolo Paulo abriu mão do seu direito de coletar apoio financeiro da maioria das igrejas nas quais ele trabalhou, mas ela afirmou que as igrejas deveriam apoiar aqueles que trabalhavam espalhando o evangelho (1 Coríntios 9). A igreja deve sustentar tantos quantos pregadores, professores, evangelistas e missionários ela for capaz. Quando homens querem devotar a vida deles à proclamação do evangelho, nós devemos considerar como nosso privilégio e alegria sustentar estes homens.

2. Pare de pensar que seu pregador faz o que ele faz em seu lugar.

Muitos membros de igrejas pensam em seus pregadores como os ministros (servos) da igreja. Eles consideram como tarefa do ministro fazer o aconselhamento, a visitação, o evangelismo e o ensino da igreja. E quer admitamos ou não muito deste pensamento vem do fato de que nós não queremos fazer este trabalho, pensamos que não temos tempo, então contratamos alguém que faça por nós.

Dizemos coisas do tipo: “Eu não sei como fazer e não tenho tempo para ir no hospital e visitar as pessoas que estão doentes, nem para fazer estudos bíblicos com incrédulos; é para isso que pagamos o pastor.” Mas não poderíamos estar mais errados por esta forma de pensarmos.

Não existe nenhum precedente bíblico para se contratar alguém para fazer a obra que nós deveríamos estar fazendo. De fato, uma das tarefas do pastor é “equipar” os membros da igreja para que eles façam a “obra do ministério” (Efésios 4.11-12). Você não sustenta um pastor para que você possa ser aliviado do trabalho, você sustenta um pastor, em parte, para que ele ajude a te equipar e motivar para a obra que você deve estar fazendo.

É óbvio que ele ajuda a equipar a igreja sendo um bom exemplo de serviço, mas se ele começar a fazer o trabalho por você, ele estará te mimando e não te equipando. Muitos pastores precisam parar de mimar a igreja e começar a equipar a igreja.

3. Pare de pensar que seu pregador pertence a você

Quando uma igreja pensa em seu pregador como empregado dela, ela entendeu errado a situação. O pastor não trabalha para a igreja. Ele não trabalha para os presbíteros. Ele trabalha para o Senhor. Paulo chama os pregadores de “servos do Senhor” (2 Timóteo 2.24), e é isto o que o pregador é, o servo do Senhor. Não o nosso servo.

É claro que o pregador e seu trabalho estão sob a supervisão dos presbíteros da igreja. Os presbíteros pastoreiam o pregador, ajudando-o a balancear o trabalho que ele realiza especificamente para a igreja local e o trabalho que ele realiza pelo Reino. Um pregador pode decidir junto com seus presbíteros que seu trabalho precisa focar primariamente – ou até mesmo exclusivamente – na obra local; enquanto outro pregador e seus presbíteros podem decidir focar as habilidades do pregador mais em espalhar o evangelho ao redor do mundo.

Mas é vergonhoso quando uma igreja acredita que o pregador pertence a eles e se ressentem pelo tempo que ele investe pregando e ensinando em outros lugares.

4. Deixe seu pregador ser um membro de sua igreja

Quando as igrejas pensam que seus pastores são empregados que pertencem a eles, elas com frequência falham ao não tratá-los como co-membros de igreja. Nossos pregadores precisam ser capazes de ter comunhão, aprender, confessar seus pecados e dificuldades, serem encorajados, aconselhados e ter todos os benefícios que desfrutamos como membros de uma família da fé. Mas muitas vezes nós negamos estas bençãos a eles porque os tratamos como nossos empregados.

Considere algumas destas questões:

O pregador está sempre ensinando na Escola Bíblica Dominical, ou vocês deixam que ele seja o aluno algumas vezes?
Você espera que seu pregador seja sempre quem estará ensinando, aconselhando e encorajando você, ou algumas vezes você oferece a ele os seus ouvidos?
O seu pregador se sente como um membro da sua igreja ou como um empregado da sua igreja?
Conclusão

O ponto central é este, temos que parar de pensar que o dinheiro que damos ao nosso pregador faz com que ele tenha uma dívida com a gente. Ao invés disto, devemos considerar nosso privilégio podermos sustentar homens que fiel e diligentemente proclamam a mensagem do evangelho em nossa igreja ou ao redor do mundo. Devemos encoraja-los de todas as formas que pudermos na obra que eles realizam.

Wes McAdams

Extraído do Blog REVIVE.

21 setembro 2013

Para estudar o Catecismo de Heidelberg

A minha primeira leitura do Catecismo de Heidelberg foi quase fortuita. Eu era um calouro no Seminário Teológico Presbiteriano JMC e havia recebido alguns livros do Editorial FeLiRe, dentre eles veio uma cópia do CH[1] em espanhol. Desde a primeira leitura fiquei fascinado pela simplicidade da linguagem e profundidade teológica contida numa estrutura tão bem elaborada. Recordo que no decorrer dos cinco anos de estudos teológicos, por motivo devocional, li o texto pelo menos dez vezes. E desde então, continuo estudando e sendo confortado e instruído por ele. O meu interesse em usá-lo com certa assiduidade aumentou, apesar de não ser um documento confessional exigido pela IPB.

O que desejo fazer neste breve artigo, que melhor seria nomeado de nota sugestiva, é indicar alguns recursos literários para o estudo continuado e tirar melhor proveito do Catecismo de Heidelberg. Há pouca produção literária no Brasil acerca do CH. Embora a Editora Cultura Cristã e a Editora Os Puritanos tenham publicado boas traduções e tornado acessível ao público comum para o uso litúrgico [em especial como diretório para pregação], ou discipulado e preparo de novos membros e, ou ainda como estudo continuado para treinamento de líderes das igrejas locais, há muito o que se estudar acerca do Catecismo de Heidelberg, bem como do seu conteúdo. Comemorando hoje os 450 anos do CH, deixo esta introdução como um desafio aos novos estudantes de teologia do século XXI.

TEXTOS DO CATECISMO DE HEIDELBERG DE DIFERENTES TRADUÇÕES
1. Claúdio A. Marra, ed., Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2005). Tradução pela comissão da Missão Reformada no Brasil a partir do texto francês.

2. Heraldo F. de Almeida, ed., As Três Formas de Unidade – Confissão Belga, Catecismo de Heidelberg e Cânones de Dort (Recife, CLIRE, 2ª ed., 2009). Tradução pelo Marcos Vasconcelos a partir do texto inglês.

3. Philip Schaff, “The Heidelberg Catechism” in: The Creeds of Christendom – with a History and Critical Notes (Grand Rapids, Baker Books, 6ª ed., 2007), vol. 3, pp. 307-355. Tradução feita em 1859 pela comissão da Igreja Reformada Alemã dos EUA [GRCUS] a partir do texto alemão.

4. El Catecismo de Heidelberg – Enseñanza de la Doctrina Cristiana (Barcelona, FeLiRe, 1993). Traduzido por Juan T. Sanz a partir do francês e latim.

5. James T. Dennison, Jr., org., “The Heidelberg Catechism (1563)” in: Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1552-1566 (Grand Rapids, Reformed Heritage Books, 2008), vol. 2, pp. 769-799. Tradução feita em 1978 pela comissão da Igreja Reformada dos EUA [RCUS] a partir do texto alemão.

Recentemente foram publicadas outras traduções comemorativas dos 450 anos do CH. Estas foram vertidas para o inglês moderno com breves notas históricas. Embora existam versões inglesas preparadas por comissões denominacionais que exprimem a pesquisa crítica de variantes e a comparação de traduções antigas como o alemão, latim e francês, as traduções recentes propõe apresentar o texto numa linguagem contemporâneo com qualidade acadêmica. Estas novas traduções podem ser compradas em alguns sites.


RECURSOS DIGITAIS PARA O ESTUDO DO CH:
1. Uma tradução livre do texto do catecismo – [ clique aqui ]

2. Um artigo introdutório da histórica - [ clique aqui ]

3. Site com subsídios para estudo do CH - [ clique aqui ]


RECURSO PARA A PESQUISA HISTÓRICA
1. Lyle D. Bierma, org., A Firm Foundation – An Aid to Interpreting the Heidelberg Catechism – Capar Olevianus (Carlisle, Paternoster Press & Grand Rapids, Baker Books, 1995). O texto é uma tradução do comentário de Caspar Olevianus, escrito em 1567 sobre parte do CH. Este comentário é feito a partir da seção da “Nossa Libertação” – Domingos 7 e 8 - abrangendo as perguntas 20 a 25 que é o Credo Apostólico. O título original “Um firme fundamento, que são os artigos da antiga, verdadeira e indubitável fé cristã” revela a importância do Credo Apostólico para Olevianus.

2. Karin Maag, ed., Melanchthon in Europe – His Work and Influence beyond Wittenberg (Carlisle, Paternoster Press & Grand Rapids, Baker Books, 1999). O livro pesquisa o contexto histórico, o desenvolvimento e a influência teologia de Philip Melanchthon na Europa. O Dr. Lyle D. Bierma, no capítulo 5, dedica-se a resolver a problematização de como o preceptor da Alemanha teria influenciado na teologia do CH. Como o assunto é tema de debate, Bierma levanta a questão com o provocador título “What hath Wittenberg to do with Heidelberg? Philip Melanchthon and the Heidelberg Catechism” [Qual a relação de Wittenberg com Heidelberg? Philip Melanchthon e o Catecismo de Heidelberg]. O artigo aponta e examina os argumentos da vasta literatura que sugere a dependência direta, temática e estrutural. Entretanto, apesar de encontrar similaridades, e de Zacharias Ursinus ter se formado sob a tutela de Melanchthon, Bierma questiona a relação de ambos a partir de desenvolvimentos contextuais temáticos comuns a possibilidade de dependência indireta, bem indica outras possíveis fontes literárias para a formação do CH. No fim de seu artigo ele conclui que “a dificuldade de demonstrar a influência é agravada pelo fato de que conhecemos tão pouco da verdadeira preparação do catecismo e do que Frederick III estava buscando com um consenso confessional entre os partidos protestantes de Heidelberg.”[2] Assim, se houve uma influência de Melanchthon sobre a teologia do CH esta foi indireta, pela formação de Ursinus e por desenvolvimento dos temas que concorriam no contexto reformado alemão, tanto luterano como calvinista.

3. Lyle D. Bierma, ed., Introdução ao Catecismo de Heidelberg – fonte, história – teologia (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010). O livro é resultado de um desafio proposto pelo Dr. Fred H. Klooster ao Dr. Bierma para a produção de artigos acadêmicos sobre o CH. O livro é dividido em 2 partes: na primeira parte [pp. 15-151], os autores oferecem uma introdução histórica abrangendo a Reforma no Palatinado, bem como as origens, autoria, fontes e a orientação teológica do CH. A Dra. Karin Y. Maag prepara o capítulo 4 indica as primeiras edições e traduções do CH. E, para quem deseja continuar os estudos nesta área, o capítulo 5 apresenta uma vasta bibliografia de pesquisa sobre o CH desde 1900. Na segunda parte [pp. 155-239], Bierma trás uma tradução revisada dos Catecismos de Zacharias Ursinus, acrescida uma introdução histórica. A importância destes dois documentos confessionais é que eles constituem em fonte para o CH, e possibilidade um estudo comparativo do que seria a posição teológica exclusiva de Ursinus.

4. Lyle D. Bierma, The Theology of the Heidelberg Catechism: A Reformation Synthesis – Columbia Series in Reformed Theology (Louisville, Westminster John Konx Press, 2013).

5. Jon D. Payne & Sebastian Heck, org., A Faith Worth Teaching: The Heidelberg’s Enduring Heritage (Grand Rapids, Reformed Heritage Books, 2013).


COMENTÁRIOS DO CATECISMO:
1. Fred H. Klooster, Our only comfort: a comprehensive commentary on the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, CRC Publications, 2001), 2 volumes.

2. J.C. Janse, La confesión de la iglesia – comentario al Catecismo de Heidelberg (Barcelona, FeLiRe, 2000).

3. Herman Hofman, El Catecismo de Heidelberg – uma explicación (Moral de Calatrava, Editorial Peregrino, 2010).

4. G.H. Kersten, The Heidelberg Catechism in Fifty-two Sermons (Sioux Center, Netherlands Reformed Book and Publishing, 1992).

5. Herman Hoeksema, Triple Knowledge – An exposition of the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, Reformed Free Publishing Association., 1990), 3 volumes.

6. George W. Bethune, Guilt, Grace and Gratitude: Lectures on Heidelberg Catechism (Edinbrugh, The Banner of Truth, 2001), 2 volumes.

7. G.I. Williamson, The Heidelberg Catechism: A Study Guide (Philladelphia, P&R Publishing Company, 1993).

8. Otto Thelemann, An aid to the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, Douma Publications, 1959).

9. Zacharias Ursinus, The Commentary of Dr. Zacharias Ursinus on the Heidelberg Catechism (Phillipsburg, P&R Publishing Company, s./d.).


NOTAS:
[1] Doravante usarei a sigla CH para Catecismo de Heidelberg.
[2] Lyle D. Bierma, “What hath Wittenberg to do with Heidelberg? Philip Melanchthon and the Heidelberg Catechism” in: Melanchthon in Europe – His work and influence beyond Wittenberg, p. 120.

08 abril 2013

Breve nota sobre lectio continua e pregação expositiva



O termo lectio continua se refere a pregação sequenciada verso após verso. Este seria um comentário explicativo seguindo a ordem no estilo texto após texto. Até onde sei Ulrich Zwingli foi o primeiro dentre os reformadores a adotar a prática e antes de iniciar a reforma pública em Zurique ele pregou todo o Evangelho de Mateus nesta modalidade. João Calvino deu sequência a prática da pregação expositiva com lectio continua, e isto, pode-se perceber claramente em seus comentários bíblicos, bem como nos seus sermões que foram preservados escritos.[1]

Quanto a pregação expositiva se refere além do método também à disposição de se pregar delimitando-se em expor uma porção do texto [perícope]. Segue algumas definições:

Pregação expositiva é a comunicação de um conceito bíblico derivado e transmitido através de um estudo histórico, gramatical e literário de uma passagem em seu contexto, que o Espírito primeiramente aplica à personalidade e experiência do pregador, e, depois, através dele, a seus ouvintes.[2]

A pregação expositiva é a apresentação da verdade bíblica, derivada de e transmitida através de um estudo histórico, gramatical e guiado pelo Espírito, de uma passagem em seu contexto, no qual o Espírito Santo aplica primeiramente à vida do pregador e em seguida este a sua congregação.[3]

O sermão expositivo vernacular: um discurso bíblico derivado de um texto vernacular independente, a partir do qual o tema é revelado, analisado e explicado, através de seu contexto, sua gramática e sua estrutura literária, cujo tem a é infundido pelo Espírito Santo na vida do pregador e do ouvinte.[4]

Richard L. Mayhue auxilia-nos esclarecendo em 10 teses negativas. Ele escreve que a pregação expositiva:
1. Não é um comentário de palavra por palavra, nem versículo por versículo sem unidade, esboço ou uma direção dominante.
2. Não são comentários erráticos, nem declarações casuais acerca de uma passagem, sem o contexto de uma exegese exaustiva e uma ordem lógica.
3. Não é uma massa de sugestões desconectadas e inferências baseadas no significado superficial de uma passagem que não se apoiam num estudo profundo do texto.
4. Não é pura exegese, independentemente do quão erudita seja, se lhe falta um tema, uma tese, um esboço ou um desenvolvimento.
5. Não é um mero esboço estrutural de uma passagem com vários comentários de apoio, mas sem outros elementos retóricos e homiléticos.
6. Não é homilia temática que utiliza algumas porções da passagem, mas que omite a discussão de outras partes de igual importância.
7. Não é uma coleção detalhada de aspectos gramaticais e citações de comentários sem a relação necessária destes elementos numa mensagem suave, que flua, ou que seja interessante e motivadora.
8. Não é uma discussão de Escola Dominical que tem um esboço do conteúdo, que é informal e fervorosa, mas que lhe falta a estrutura homilética e ingredientes retóricos.
9. Não é uma leitura bíblica que vincula várias passagens espalhadas com um tema comum, mas que não consegue manejar nenhum deles de maneira completa, gramatical e contextual.
10. Não é a comum reflexão devocional que se dá numa reunião de oração que combina comentários gerais, declarações superficiais, sugestões desconexas e reações pessoais numa discussão parcialmente inspiradora, mas não tem o benefício do estudo exegético-contextual básico nem os elementos da persuasão.[5]

O que difere a pregação expositiva dos demais modelos [temático e tópico, biográfico e etc] é o fato do pregador:
1. Analisar o texto dentro da estrutura de todo o livro ou epístola.
2. A intencionalidade/mensagem do escritor original é o assunto a ser extraído é o que deve ser pregado [a ideia homilética/preposição é formulada a partir da ideia exegética].
3. As divisões do sermão devem seguir o argumento natural do autor nas frases ou afirmações da perícope.
4. A verdade/princípio absoluto deve ser afirmado e a aplicação trazida para o nosso contexto.

A pregação lectio continua tende a ser expositiva porque o pregador deverá expor a ideia ou ensino original pretendido pelo autor aos leitores originais, aplicando aos ouvintes de hoje. Entretanto, é possível pregar expositiva sem ser lectio continua, mas para isso, é necessário que o pregador faça um esforço de resumidamente incluir em seu sermão:
1. O tema geral do livro.
2. Como ele se estrutura, e a argumentação de desdobra no todo.
3. E, como a perícope do sermão se relaciona com todo o livro, ou seja, a perícope é apenas um argumento dentre os demais argumentos do livro.

NOTAS:
[1] John H. Leith, "Calvin's Doctrine of the Proclamation of the Word and Its Significance for Today in the Light of Recent Research", Review and Expositor, 86, 1989, p. 34.
[2] Haddon W. Robinson, A pregação bíblica (São Paulo, Edições Vida Nova, 1983), p. 22
[3] Haddon W. Robinson, "What Is Expository Preaching?, Biblioteca Sacra, 131, Janeiro-Março, 1974, p. 57
[4] Karl Lachler, Prega a Palavra - passos para a exposição bíblica (São Paulo, Edições Vida Nova, 1995), p. 52
[5] Richard L. Mayhue, "El redescubrimiento de la predicación expositiva" in: La predicación, John MacArthur, Jr., org., (Thomas Nelson Publishing, 2009), pp. 26-27

27 julho 2012

Escolhi pregar expositivamente

Em 1994 fui para o Instituto Bíblico de Rondônia, ali iniciei os meus estudos teológicos. Então, comecei a pregar com preparo acadêmico ao aprender a normas e estruturas da homilética, entretanto, a ênfase era o modelo de sermão temático. Na época apenas li superficialmente acerca da pregação expositiva, e não conhecia nenhum pastor que pregasse deste modo. O sermão temático é fácil de preparar exigindo a imaginação e um simples jogo de palavras a partir do tema de um texto da Escritura. Mas sempre me causou insatisfação, sabendo que eu correria o risco de dizer algo que não estava no texto, ou até mesmo de pregar algo que não era o texto.

Durante os meus estudos no STPJMC recebi nova ênfase homilética. Desta vez, a pregação expositiva foi ensinada e exigida nas avaliações de prática de pregação. Li pelo menos três livros sobre pregação expositiva, pois não havia muita coisa em português, e os modelos pregadores brasileiros que eu conhecia eram ainda mais escassos. Terminei a minha graduação convencido que deveria pregar sermões expositivos, mas a prática não estava clara. Eu não sabia direito como isso poderia ser feito.

Após dois anos de pastorado pregando sermões temáticos abandonei este método. Quando decidi pregar expositivamente como parte permanente do meu ministério, não iniciei repentinamente. Primeiro comecei explicando à igreja que pastoreava, os motivos de doravante pregar expositivamente. Também expliquei que faria análises de textos continuados, e não apenas textos isolados a cada Domingo. Em cada sermão comecei a oferecer o contexto histórico, da intencionalidade do autor, da problematização dos destinatários e analisando a estrutura gramatical do texto no esforço de extrair o significado original que o autor inspirado quis comunicar. Confesso que algumas vezes tive receio de estar fazendo errado, e como pastoreava uma igreja do interior de Rondônia, e tinha pouco contato com o meio acadêmico bem como os grandes centros, tive que tentar descobrir e seguir as complicadas orientações que os autores de homilética ofereciam. Ainda continuo lendo, ouvindo, vendo acerca de sermões expositivos e atentamente aprendendo com pregadores que estão comprometidos com este método.

Se você ainda não se decidiu quanto a se prega ou não expositivamente, permita-me neste artigo sugerir que repense acerca da possibilidade de comprometer-se com a pregação expositiva.


Motivos práticos para pregar expositivamente

Posso elencar pelo menos três motivos para se pregar expositivamente: 1) pastoral, 2) exegético e, 3) homilética. Em breves sentenças farei algumas considerações para que você possa refletir e, o faço na esperança de que você assuma este compromisso. A minha intenção é compartilhar algumas sugestões de como fazer algo, que apesar da ampla divulgação recebida, ainda percebo dúvidas e erros no processo do fazer.


Algumas dicas pastorais

1. A direção do Espírito de Deus é vital para que o pregador exponha e aplique a Escritura Sagrada na igreja local. Ao escolher o que pregar, e isto não significa apenas um texto isolado, o pregador carece discernir que alimento deve entregar ao rebanho. Esta necessidade, seja de natureza preventiva ou corretiva, precisa ser identificada com santo discernimento e oração. O pregador que teme ao Senhor, também anseia por ser-lhe fiel, e ao mesmo tempo por amor e zelo, deseja ensinar e corrigir persuadindo os seus ouvintes acerca da vontade de Deus.

2. O pastor trabalha para que a igreja sob seus cuidados seja saudável. Para isto o seu sermão é fogo santo, pão do céu e poder de Deus para comunicar graça aos que ouvem, persuadir os que duvidam e fazer calar os que se opõe ao evangelho de Cristo! Tamanha tarefa não pode ser realizada superficialmente! Deste modo aconselho: ore, ore e ore! Estude, estude e estude! Sob o perigo de ainda assim, ser encontrado inapto para tão grandiosa tarefa. Este compromisso somos chamados para cumpri-lo dominicalmente diante de pessoas que estão sob o nosso cuidado.

3. É uma atitude irresponsável não ter um plano de pregação. Como relatei antes de ser persuadido da necessidade da pregação expositiva, iniciei meus dois primeiros anos de ministério pastoral pregando sermões temáticos. Confesso que cheguei algumas vezes próximo de 1 hora antes de começar o culto e não sabia o que pregaria naquela noite! Pregando expositivamente, especialmente livros inteiros, tenho o texto definido meses com antecedência oportunizando-me tempo para pesquisa, meditação e compreensão estrutural do livro. Outro aspecto prático é perceber que os membros interagem comigo no preparo do sermão, fornecendo dicas de leitura ou ilustrações de situações relacionadas ao texto que serão pregados na sequência.


Algumas dicas exegéticas

1. Eu poderia iniciar aqui pressupondo que você aprendeu a fazer exegese. Se você o sabe, perdoe-me se minhas dicas parecerem primárias, assim, peço que tenha paciência e continue lendo. Estas sugestões têm basicamente o intuito de ser um “como fazer”, e escrevi pensando em seminaristas, pastores inexperientes e pregadores leigos que desejam aperfeiçoar-se na honrada tarefa da pregação.

2. Ok, sigamos então selecionando o livro ou porção das Escrituras. Leia-o todo, e faça isso repetidas vezes, até que seu conteúdo esteja claro em sua mente e consiga resumi-lo em sentenças curtas.

3. Seja diligente em fazer a reconstrução do contexto histórico. Ao ler o texto a data, local, autoria, as circunstâncias, aspectos geográficos, político, culturais, etc. precisam estar vívidos em sua mente. Caso não possa adquirir manuais de introdução sobre o AT ou NT, tenha à mão uma Bíblia de Estudo de Genebra, porque ela oferece na parte introdutória de cada grupo de livros e em cada livro estas informações.

4. Descobrir o ensino intencional do autor é o objetivo do pregador. O que determina significado no texto é responder: o que ele quis dizer? Em havendo, qual problema atacava? Bem como qual dúvida ele esclarecia. E ainda o que ensinou neste texto aos seus leitores? Estruturalmente deve-se observar como do primeiro ao último versículo ele desenvolve o seu raciocínio. Isto resume ao abordar cada passagem qual era a interação do autor em relação aos seus destinatários no contexto original.

5. As conjunções devem ser respeitadas na divisão das perícopes a serem pregadas. E quando possível deve-se observá-las ao fazer as divisões do seu sermão. Estas divisões não são arbitrárias, mas direcionadas pela estrutura gramatical do próprio texto. Se o pregador tem noções gramaticais da língua original isto facilita muito, se não tem, então observe como as traduções mais recentes têm seguido as divisões das perícopes conforme a estrutura do idioma original.

6. No texto escolhido identifique as palavras-chaves ou expressões características do autor e como elas reforçam seu argumento. Verifique se ele recorre aos mesmos argumentos em outros livros que escreveu.

7. Faça a ponte da exegese para a homilética. A verdade descoberta exegeticamente precisa ser afirmada homileticamente. Em outras palavras, você precisa preparar frases tão curtas quanto possível, que resumam a ideia do autor, e fazer isso o mais didático possível. Neste ponto recomendo enfaticamente que você leia um livro de homilética, ou converse com um pregador experiente em como fazer isso. Não se esqueça: na pregação expositiva a estrutura homilética a ênfase do autor precisa ser colocada em relevo apontando a sequência do seu raciocínio em todo o livro.

8. Caso o pregador não domine a gramática das línguas originais recorra às diferentes versões. Entretanto, sempre é recomendável verificar como os tradutores percebem nuanças semânticas ou variações por causa da sintaxe ou da etimologia das línguas originais. Este recurso além de enriquece o conteúdo do sermão, também dinamiza a formulação das divisões do sermão.


Algumas dicas homiléticas

1. Por causa da inexperiência não corra o risco de se frustrar ou entediar seus ouvintes com exageros. Se você decidiu pregar expositivamente e não sabe como iniciar, sugiro que escolha pregar em pequenas porções, livros ou epístolas pequenas. Permita-me ser mais claro: não inicie preparando a sua série expositiva de sermões em livros como Isaías, Ezequiel, Jeremias, Provérbios, ou em Romanos, 1 Coríntios, Hebreus, pelo contrário, a humildade e a sensatez previnem e nos levam a pensar em começar com porções menores como os Dez Mandamentos, algum dos profetas menores, as Bem-aventuranças, ou mesmo todo o Sermão do Monte, Judas, Tiago, etc. Lembre-se se você não tem a experiência, nem a igreja local tem o costume de ouvir sermões, tome cuidado para não estragar algo tão bom por falta de tato pastoral.

2. Acompanhado o estudo de toda porção ou livro, identifique a estrutura dos assuntos. Isto pode ser verificado de dois modos: 1) Na introdução de cada livro da Bíblia de Estudo de Genebra há uma estrutura do conteúdo de todo o livro. Ou, 2) veja como as versões modernas trazem indicadores das divisões naturais. Aqui você saberá no seu planejamento quantos sermões pregará apenas subdividindo as perícopes.

3. Não comece cada sermão apenas pedindo para abrir no texto da sequência como algo mecânico. A introdução do sermão tem evocar a atenção, e convergir os pensamentos do público para a mensagem do texto. Há pregadores expositivos que entendiam os seus ouvintes no início do sermão, pois pensam que pregar lectio continua, ou seja, sequenciado texto após texto do mesmo livro dispensa uma introdução que apresente a relevância do sermão.

4. Lembre-se que um sermão expositivo não é mero comentário exegético do texto. Por vezes a pregação expositiva é antes de tudo um SERMÃO, e abrange todos os seus elementos essenciais. Alguns pregadores expositivos deixam de recorrer à proposição (chamadas por alguns de ideia homilética) e também pensam erroneamente ser dispensável o uso de divisões. Seja didático, você está instruindo e o modo como se faz a fixação da mensagem é importante. A fidelidade não dispensa a clareza.

5. Extraía do texto quais verdades ou princípios são ensinados e contra que pecados são aplicados. Aplique-os de modo prático, com linguagem que não desconsidere a inteligência nem a simplicidade dos seus ouvintes. A aplicação é uma das mais presentes falhas nos pregadores, que se preocupam apenas de expor, explicar, apresentar a verdade, indicar os princípios, mas em geral, omitem em aplicar e nisto não ensinam os presentes a viver de modo prático a Palavra de Deus.


Quais são alguns benefícios de se pregar expositivamente?

1. Edificar crentes com mentes treinadas a raciocinar sistemática, estrutural e gramaticalmente quando estudam e meditam no texto bíblico. A começar com o pregador que numa autodisciplina aprende a estudar e preparar sermões metodicamente construindo uma teologia mais bíblica a partir da exegese, ao mesmo tempo membros que ouvindo estes sermões aprendem como estudar e analisar a Escritura Sagrada. Assim, quer explicita ou implicitamente, pelo exemplo da pregação expositiva, demonstrará como os membros sob seu pastoreio podem efetivamente examinar as Escrituras.

2. O pregador torna a aquisição de literatura criteriosamente seletiva. Todo pregador precisa ter uma biblioteca básica que lhe seja útil no preparo de sermões. Por isso, ele não comprará aleatoriamente todo livro que lhe seduz, e sim aqueles que diante das necessidades de pregar, e adicionar conteúdo possa somar e facilitar o preparo do sermão, dentre as muitas tarefas pastorais.

3. O preparo do sermão expositivo é um hábito saudável no ministério pastoral. Nunca deixará de ser trabalhoso, mas com o tempo a experiência habilitará o pregador a ter facilidade e a satisfação de fazê-lo com menos embaraços técnicos. Uma vez familiarizado com este método possivelmente o pregador não se interessará em expor a Escritura doutro modo.

4. Crie o hábito de ouvir pregadores expositivos. Há pregadores que atravessam o mundo para pregar, mas se indispõe em cruzar a rua para ouvir um sermão! Ouvindo os que sabem fazer é um excelente recurso para se aprender. Atualmente na internet há vídeos de como preparar sermões expositivos. Após ler este artigo acesso-os e continue aprendendo!