25 outubro 2006

Breve análise exegética de Ef 5.18-21

Considerações Gerais

Nas considerações gerais pretende-se, antes de se analisar Efésios 5.18-21, citar duas passagens do Novo Testamento que tratam do termo encher do Espírito, aí então entraremos no texto. Dessa forma, teremos uma visão mais ampla quando tratarmos especificamente do texto de Efésios.

Quando Jesus fala sobre ser cheio do Espírito[1] há uma ênfase de sua parte de uma apropriação contínua. Isso quer dizer que aquele que é cheio do Espírito Santo deve, continuamente, ir ao Senhor Jesus.

Vemos, ainda, Paulo[2] falando sobre o estar cheio do Espírito. É interessante notar que os cristãos de Corinto tinham muitos dons do Espírito e eles achavam que estavam plenos do Espírito por causa disso, mas Paulo, sarcasticamente, lhes diz: “Já estais fartos”(4.8), mostrando que, se realmente estivessem fartos (cheios) evidenciaram em suas vidas atitudes morais encontradas no fruto do Espírito, como por exemplo, o amor. Assim, o ato de estar cheio deve ser sempre buscado em Jesus e não envolve, propriamente, a manifestação de dons, mas a evidência moral do fruto do Espírito na vida do cristão.

O texto que passamos a examinar em Efésios começa com um contraste: “não vos embriagueis... mas enchei-vos...”. Na verdade não é uma comparação, ou seja, um crente cheio do Espírito é, da mesma forma que o ébrio, controlado de forma a não responder por si. Trata-se, na verdade, de contraste.[3] O crente cheio do Espírito deve ser o oposto da pessoa controlada pelo vinho.

Enquanto um é caracterizado pela falta de domínio, tanto de seu corpo como de seus atos, pois a embriagues é associada à dissolução, o outro é caracterizado pelo domínio próprio, que é associado ao fruto do Espírito.

Essa oposição marcada pelo estar cheio, trás conseqüências, que são demonstradas nos versículos subseqüentes (19-21). Mas, antes de falarmos sobre as conseqüências da plenitude do Espírito, iremos, primeiro, falar sobre o verbo “enchei-vos” (plêrousthe).

Na verdade, as conseqüências dependem desse verbo. Vemos, primeiramente, que este verbo está no imperativo, não sendo, portanto, um conselho, uma opção ou uma recomendação, mas uma ordem direta e enfática.

Mas, em segundo lugar, ele está na forma plural. Isso traz a implicação de que todos na comunidade devem ser cheios. A plenitude não é uma recomendação isolada para um indivíduo ou um grupo seleto, mas para a comunidade dos discípulos de Cristo.

Também vemos, em terceiro lugar, que essa ordem de Paulo é feita na voz passiva, que poderia ser traduzido por “sede enchidos” ou “deixai-vos encher”. Isso não quer dizer que o crente é um agente passivo no processo, pois, como vimos acima, devemos ir continuamente a Jesus para sermos cheios. Significa, sim, que o crente deve se entregar sem reservas ao Espírito Santo para que possamos desfrutar da plenitude.

Finalmente, em quarto lugar, o verbo se encontra no tempo presente. O tempo presente indica uma ação contínua, diferente do aoristo que é uma ação única. É uma apropriação contínua do encher do Espírito.

Agora voltaremos às conseqüências, ou resultados da plenitude na vida do cristão, descritas por Paulo. Lembrando que essas conseqüências são benéficas, em oposição às conseqüências do embriagar-se, que são maléficas.

Os quatro verbos ligados ao enchei-vos, que denotam resultado,[4] estão no particípio.
O primeiro verbo é “falando” (lalountes – v.19). O versículo não dá a idéia de falar qualquer coisa, mas conversas espirituais.[5] É uma comunhão espiritual, gerada pelo amor, que é o fruto de uma vida plena do Espírito.

O segundo verbo é “entoando e louvando” (adontes – psallontes - v.19). O crente pleno do Espírito é impulsionado pelo mesmo Espírito a glorificar o nome de Jesus. A adoração comunitária, que é a idéia do texto, se torna viva e contagiante quando é impulsionada pelo Espírito através de pessoas que manifestam a adoração de todo coração.

O terceiro verbo é “dando sempre graças” (eukharistountes – v.20). O dar graças não é uma condicional se as coisas estão dando certo, mas um estado normal na vida do crente pleno do Espírito que vê em todas as circunstâncias, positivas ou negativas, motivos para agradecer a Deus; e isso em nome do Senhor Jesus.

O quarto verbo é “sujeitando-vos” (potassomenoi – v.21). A sujeição não é específica (filhos aos pais, empregados a patrões, etc.), mas geral. Numa comunidade onde os seus membros são plenos do Espírito há uma atitude de humilde submissão uns aos outros. Stott irá dizer que “a marca registrada no cristão cheio do Espírito não é a auto-afirmação, mas a auto-submissão”.[6]

O Grande Contraste: Plenitude X Batismo com o Espírito Santo

Vejamos a diferença entre batismo com o Espírito Santo e enchimento, ou plenitude, do Espírito Santo. O que aconteceu no dia de pentecostes foi que Jesus derramou o Espírito do céu e, assim, batizou com o Espírito, primeiro, os cento e vinte e, depois, os quase três mil (ver Atos 2).

A conseqüência do batismo com o Espírito Santo foi que eles todos ficaram cheios do Espírito. O batismo foi o que Jesus fez e está fazendo a todos os convertidos. O enchimento foi o que eles receberam. O batismo foi e é uma experiência inicial única; o enchimento Deus quer que seja contínuo, como um resultado permanente, como uma norma para a vida do cristão.[7] Como acontecimento inicial, o batismo não pode ser repetido nem pode ser perdido, mas o ato de ser cheio pode e deve ser repetido e, no mínimo, precisa ser conservado.

Quando o enchimento não é conservado, ele se perde. Se foi perdido, pode e deve ser recuperado. O Espírito Santo é entristecido pelo pecado, e existe uma ordem do apóstolo Paulo para não entristece-lo (Ef 4.30). Nesse caso, ele deixa de operar na vida do cristão.

Mas o único meio de recuperar o enchimento é o arrependimento. Mesmo em casos em que não há indícios de que o enchimento foi perdido por causa de algum pecado, lemos que algumas pessoas foram novamente preenchidas, mostrando que uma crise ou um desafio requer um novo revestimento do poder do Espírito.

O “estar cheio do Espírito” como um estado normal do crente

A plenitude ou o estar cheio do Espírito deve ser o estado normal do crente; mas nem sempre encontramos pessoas na igreja cheias do Espírito. Os crentes têm se afastado do Senhor, o culto de oração é sustentado por um grupo mínimo, as orações são feitas sem um sentido real. Partindo da alma? Não.

O que está acontecendo é um esfriamento total dos crentes e isto não é normal e, sim, anormal. A igreja quando orava o Espírito agia, o local onde eles estavam reunidos tremeu e todos ficaram cheios do Espírito (At 4.31).

Jesus batiza o crente e vai inundando-o com o Espírito Santo desde sua conversão. Foi o caso de Saulo de tarso quando ele se “rendeu” ao Senhor (At 9-17). Os discípulos também estavam cheios de alegria e do Espírito Santo (At 13.52).

É, pois errado considerar a plenitude como um caso excepcional; essa idéia provém de nos termos habituados à mediocridade. A ausência da plenitude é que constitui um estado anormal, que não glorifica ao Senhor, não edifica a igreja e não atrai a Jesus os não convertidos.

A igreja neo testamentária sabia reconhecer homens cheios do Espírito Santo e os considerava capazes de desencumbirem-se de qualquer função, humilde ou destacada. É o que se vê no caso dos diáconos (At 6.3, 5), e também de Barnabé, em Antioquia (At 11.24).

Aqui, aliás, a plenitude se exprime mais por um caráter espiritual e moral, fruto do Espírito, que por uma revelação de poder no serviço ou no testemunho, no sofrimento, como aparece nestes textos (At 4.8; 7.55; 13.9).

As Implicações do texto de Efésios 5.18-21

O enchimento do Espírito Santo não é uma sugestão que pode ser tentada, uma recomendação branda, uma advertência educada. É uma coisa que Cristo nos deu, com toda autoridade de um dos apóstolos que ele mesmo escolheu.[8]

Não temos nem um pouco mais de liberdade para escapar desta obrigação. Temos que usar sempre a verdade, trabalhar honestamente, ser gentil e perdoar uns aos outros, viver em pureza e amor.

A plenitude do Espírito não é um privilégio reservado para alguns, mas uma obrigação de todos. Assim como a exigência de sobriedade e domínio próprio, a ordem de buscar o enchimento do Espírito é dirigida a todo o povo de Deus, sem exceção.

Uma condição importante para gozar da plenitude do Espírito Santo é entregar-se a ele sem reservas. Mesmo assim, não devemos pensar que somos apenas agentes passivos ao recebermos a plenitude do Espírito. Assim como alguém fica bêbado bebendo, o cristão fica cheio do Espírito buscando o enchimento através de uma vida na presença de Deus.

Notas:
[1] João 7.37-39
[2] 1Coríntios 3.1-4
[3] LOPES, Augustus Nicodemus, Cheios do Espírito, São Paulo: Mundo Cristão e Puritanos,1998, p.17
[4] LOPES, Op. Cit., p. 42. Nicodemus irá dizer que esses verbos denotam modos e resultados do encher do Espírito.
[5] Efésios 4.29
[6] STOTT, John R.W. Batismo e Plenitude no Espírito Santo, p.43
[7] Planejando Para o Ano 2000. Op. Cit., pp. 46, 47
[8] LOPES, Op. Cit, p.45

Rev. Baltazar L. Fernandes

4 comentários:

Aramisio disse...

Gostei muito! Mas não consigo ver diferença entre o batismo com o Espírito Santo e o enchimento, porque etimologicamente a palavra "batismo" significa "cobrir-se inteiramente com líquido, em outras palavras ser plenamente envolvido, portanto, o mesmo que enchimento. É assim que vejo o batismo com o Espírito Santo. Mas concordo que esse enchimento é pra ser contínuo.

Anônimo disse...

achei muito edificante as considerações do comentarista,pois há cristão que uma vez batizado com Espirito Santo,não se preocupa em continuar falando em linguas,pois acham que só em ocasiões especiais que devem falar em linguas,sendo que quando estmos na presença de Jesus sempre será momento pra sermos cheios,só assim faremos a diferença neste mundo materialista e so assim poderemos execultar a obra de evangelização com sinais e prodigios como foi com os apostolos.
Pastor: Ricardo Bazílio

Anônimo disse...

Parabéns, poucos são os teólogos que tem se preocupaso em estudar com mais profundidade os textos bíblicos, muitos querem falar da bíblia, mas a exegese deste texto está em armonia com o contexto imediato e geral da carta bem como de toda a Escritura. Continue e beber da fonte divina.Como spurgeo que disse "Ó Senhor, mostra-me o sentido deste trecho!" E acrescentou: "É maravilhoso como o texto, duro como a pederneira, emite faíscas quan-do batido com o aço da oração." Quando mais velho, disse: "Orar acerca das Escrituras, é como pisar uvas no lagar, trilhar trigo na eira, ou extrair ouro do minério."

Giuli Pereira disse...

Boa noite! compreendi melhor a exegese desses versiculos, entretanto fiquei com uma dúvida . Quando Paulo diz não vos embriagueis com vinho, posso entender então que beber sem embriagar-se seria permitido ? Por favor responda com uma exegese fora do religiosismo evangélico.