15 maio 2007

Uma introdução ao livro de Cantares

1. Título
Considerando que Salomão escreveu 1005 cânticos (1 Rs 4:32), este seria o “cântico dos cânticos”, ou seja, “o melhor de todos os seus cânticos”.

2. Autoria
O Talmud Baba Bathra 15a declara “Ezequias e seus companheiros escreveram o Cântico dos cânticos.” Mas, a mesma afirmação feita acerca do livro de Provérbios (vide* autoria), é repetida sobre este, tendo o mesmo significado. “Ezequias e seus companheiros” não são os autores de Cânticos, mas apenas os compiladores das obras de Salomão.

Algumas evidências internas e externas a respeito da autoria:
1. O primeiro versículo atribui o livro a Salomão com o prefixo hebraico para autoria (lamedh auctoris).
2. A obra parece referir-se a uma época histórica anterior à divisão do reino. O autor menciona várias localidades do país, como sendo único reino, por exemplo, Jerusalém, Carmelo, Sarom, Líbano, Em-Gedi, Hermon, Tirza, etc..
3. A comparação da noiva com “as éguas dos carros de Faraó” (1:9), é interessante, se atendermos a que foi Salomão quem importou os cavalos do Egito (1 Rs 10:28).
4. A autor mostra-se também conhecedor de plantas e animais exóticos: 15 espécies de animais e 21 variedades de plantas (1 Rs 4:33).
5. Salomão escreveu 1005 cânticos, sendo Cantares o único preservado (1 Rs 4:32).
6. Negar a autoria, afirmando que um homem polígamo não poderia ter escrito este cântico de fidelidade conjugal é a mesma coisa que fazer objeção à autoria salomônica de Provérbios, baseando-se no fato dele ter violado tantos dos seus próprios princípios.
7. A tradição judaica considera universalmente Salomão como o autor. Os judeus lêem liturgicamente todos os anos por ocasião da Festa da Páscoa, atribuindo-o a Salomão.

3. Data
Escrito depois dele ter adquirido muitas carruagens do Egito e ter ampliado suas vinhas até o vale de Jezreel. O seu harém de esposas e concubinas era bem menor, 60 a 80 mulheres, em comparação com as 700 esposas e 300 concubinas, posteriormente.

Talvez, Cantares seja o mais antigo livro canônico de Salomão. Reflete sua juventude vigorosa, do mesmo modo que Provérbios reflete sua meia-idade, e Eclesiastes mostra a sua maturidade nos seus anos finais. A data aproximada para Cantares pode ser o ano 900 a.C.

5. Propósito
5.1. Propósito Histórico
Comemorar o casamento de Salomão com a Sulamita e expressar o prazer do sexo no casamento como uma dádiva de Deus.

5.2. Propósito Didático
Edward J. Young afirma que o livro foi escrito "para leitores que vivem num mundo de pecado, de prazeres e de paixões, onde violentas tentações nos assaltam e procuram afastar-nos do tipo modelar de casamento, nos moldes da lei de Deus, e lembra-nos de um modo particularmente sublime, quão puro e quão nobre é o verdadeiro amor."[1]

6. Análise do Conteúdo
O cântico apresenta interação entre Salomão, a Sulamita, e o coro, passando repentinamente de uma pessoa para outra e de uma cena para outra. A identificação é geralmente feita pelos pronomes pessoais usados.

7. Contribuição para Teologia AT
Sellin-Fohrer comentam que "a importância do Cântico dos Cânticos deve ser vista não só no fato de que ele evita, de um lado, uma divinização sacral do elemento sexual, de que estavam impregnados os cultos míticos da fecundidade do Antigo Oriente, mas de que, por outro lado, contradiz também aquela atitude de desdém e de repulsa pelo sexo, que partiu sobretudo do judeu-cristianismo de cunho essênio e da mística platônico-helenística. O Cântico dos Cânticos indica que, desde o momento em que o matrimônio está de acordo com a vontade de Deus, o amor sexual vale igualmente como seu pressuposto e como seu fundamento."[2]

8. Contribuição ao Cânon
Na tradição judaica, Mishnah, Yadim 3:5, lemos uma afirmação do rabino Aqiba, da escola de Hillel, acerca da canonicidade de Cantares que diz “pois em todo o mundo nada há que possa comparar-se ao dia em que Cantares de Salomão foi dado a Israel. Todos os escritos são santos, mas num grau superior o Cântico dos Cânticos”.[3]

Fazendo uma comparação temática entre Provérbios e Cantares, William M. Ramsay fornece um precioso motivo em favor da canonicidade deste poema tão sensual. Ramsay observa que
livros como Provérbios, todavia, celebram a obra de Deus na criação. A vida diária, de acordo com a literatura sapiencial, é um dom de Deus. Assim, tão natural é a função da união sexual como parte da boa criação de Deus. Crendo que a natureza é um dom do Criador, o sábio não poderia separar o “secular” do “sagrado”. Deste modo, o poema de amor, é igualmente, um poema de amor sensual, não podendo ficar fora das Escrituras.[4]

9. Dificuldades de Interpretação
Por muitos séculos o livro de Cantares tem sido assunto de controvérsias acerca da sua interpretação. Há pelo menos quatro linhas principais de interpretação que são usadas, e que merecem ser mencionadas:[5]
1. A alegorização judaica. A método alegórico é o mais antigo de todos. Segundo esta posição o livro estaria descrevendo em linguagem figurada a relação entre Yahweh e Israel.[6]
2. A alegorização da Igreja Primitiva. Seguindo o método alegórico a Igreja Primitiva (Orígenes e Hipólito) interpretou o livro como sendo uma descrição do amor de Cristo e a Igreja (ainda usada pela Igreja Católica Romana:
a. 1:5 fala da cor morena, ou negra, pelo pecado, mas bela pela conversão (Orígenes);
b. 1:13 “entre os meus seios” refere-se às Escrituras do AT e NT, entre os quais se encontra Cristo (Cirilo de Alexandria);
c. 2:12 alude à pregação dos apóstolos (Pseudo-Cassiodoro)
d. 5:1 é uma alusão à Ceia do Senhor (Cirilo de Alexandria)
e. 6:8 refere-se às oitenta heresias (Epifâneo).
3. O uso da alegorização no período moderno pelos protestantes. Os dois heruditos em AT Hengstenberg e Keil aplicam a interpretação alegórica neste livro. A Versão Autorizada Inglesa em seus títulos de divisão adota esta interpretação:
a. 1-3...... O mútuo amor de Cristo e da sua Igreja
b. 4......... As graças da Igreja
c. 5.......... O amor de Cristo para com ela
d. 6-7...... A Igreja manifesta a sua fé
e. 8.......... O amor da Igreja para com Cristo
4. Uma hermenêutica contextual. O método gramático-histórico e o histórico-crítico interpretam o livro como sendo uma descrição do amor humano, num relacionamento de pureza da sexualidade, conforme Deus estabeleceu para o casamento desde o princípio. O casal somente desfruta da santidade do sexo dentro do casamento.

10. Fatos Interessantes
1. Os judeus lêem este livro na Páscoa.
2. Assuntos não mencionados: nenhum dos nomes de Deus. pecado; culto de Israel; nem alusão a outro livro do AT.
3. Na época da escrita, Salomão já tinha 60 rainhas e 80 concubinas (1 Rs 11:3, 700 rainhas e 300 concubinas).
4. O único livro dedicado completamente ao amor conjugal, romântico e sexual.
5. Salomão e Sulamita são sinônimos. Seria o casamento do “pacificador” e da “pacificadora”. O casamento deve ser edificado sob o Shalom de Yahweh.

Notas:
[1] Edward J. Young, Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo, Edições Vida Nova, 1960), p. 351
[2] E. Sellin, G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo, Edições Paulinas 1980), vol.II, p. 446
[3] Roland K. Harrison, Introduction to the Old Testament (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1988), p. 1051
[4] William M. Ramsay, The Westminster Guide to the Books of the Bible (Louisville, Westminster John Knox Press, 1994), p. 178
[5] Para outras propostas hermenêuticas, vide* Edward J. Young, Introdução ao Antigo Testamento, pp. 348-350
[6] Ainda hoje os judeus interpretam o livro de Cantares como sendo “símbolo do amor de Deus pela Congregação de Israel, sendo o dia de sábado seu intermediário.” Meir Matzliah Melamed, Torá a Lei de Moisés (São Paulo, Editora Sêfer, 2001), p. 648. Em outro lugar, o comentarista faz a seguinte observação “apesar das expressões de amor e nostalgia parecerem referir-se ao amor humano e à beleza física feminina, seu objetivo não é outro senão descrever alegoricamente as virtudes do povo de Israel e sua fidelidade ao Criador e a Seus preceitos, como também o amor de Deus a Seu povo predileto”. p. 655.

Rev. Ewerton B. Tokashiki

3 comentários:

Anônimo disse...

Parabenz pelo estudo muito bom !

Unknown disse...

Muito bom!

Adilson da Silva Lobo disse...

Bom...