08 setembro 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 8

Trataremos neste capítulo com dois métodos usados pelo enganador para desabilitar e diminuir a eficácia do testemunho dos crentes.

Primeiro, Satanás tratará de promover que este mundo pareça tão atrativo para os crentes que comecem a esquecerem do propósito de Deus para as suas vidas.

Segundo, Satanás dirá aos crentes que viver a vida cristã apenas lhes trará perigos, sofrimentos e perdas. Muitos foram afetados pelo primeiro método mencionado. Por um tempo foram fiéis seguidores de Cristo, até que Satanás conseguiu que o mundo lhes resultasse mais atrativo que Cristo Jesus. Paulatinamente foram atraídos, cada vez mais, para o mundo, tornando-se frios, indiferentes e incapacitados para as coisas espirituais. Aqueles que se sentem tentados desta maneira devem se fixar nos seguintes remédios.

Primeiro, nada do que este mundo nos oferece tem poder para proteger-nos do mal, ou para garantir-nos o sumo bem. Por exemplo, todo o dinheiro do mundo não pode curar a ninguém de uma enfermidade. O poder e a fama não podem garantir a felicidade de uma pessoa. O poder, a influência e o dinheiro não podem ajudar nos tempos de necessidade espiritual. Devemos pensar muito acerca da debilidade e a impotência de todas as coisas terrenas. Porque permitirão os crentes que tais coisas lhes roubem as bençãos espirituais?

Segundo, tudo o que há neste mundo é vazio e sem valor em si mesmo. O livro de Eclesiastes começa declarando este fato: “Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho com que se afana debaixo do sol?” (Ec 1.3). A resposta é clara: a pessoa não ganha nada de valor permanente neste mundo.

Terceiro, todas as coisas nesta vida são incertas, inconstantes e sujeitas a mudança. Por exemplo as riquezas são inseguras. Paulo disse: “Aos ricos deste século manda que não sejam altivos, nem colocam a esperança na incerteza das riquezas, senão no Deus vivo” (1Tm 6.17).

Quarto, todas as coisas que parecem tão atraentes neste mundo na realidade são daninhas e perigosas para a nossa própria corrupção. O Salmo 30.6 disse: “E disse eu em minha prosperidade: Não serei jamais abalado.” Cristo disse que o engano das riquezas despreza a Palavra e a torna infrutífera. Quando os israelitas gozavam de prosperidade, se rebelavam contra Deus. Há um perigo enorme na prosperidade: o perigo de contentar-nos com o mundo presente, o perigo de aceitar o que o mundo nos oferece para mudança de nossas almas.

Quinto, todos os prazeres deste mundo estão mesclados com problemas e preocupações. Não há êxito neste mundo que esteja separado da ansiedade e a preocupação. A tristeza acompanha o prazer mundano, o perigo acompanha a segurança mundana, as perdas acompanham os valores do mundo e as lágrimas acompanham os ídolos mundanos.

Sexto, a Bíblia ensina que os crentes devem apegar-se firmemente às coisas eternas e imutáveis, em vez das coisas passageiras deste mundo. Os crentes do Antigo Testamento têm uma fé em Deus que lhes fez ansiar por uma pátria melhor, a celestial (Hb 11.16). Aqueles crentes queriam o melhor. Buscavam a vida celestial e deixaram tudo o que em outro tempo lhes parecia tão atrativo desta vida terrena. Assim, os crentes devem agir, viver mais à luz da glória vindoura e assim ter mais satisfação nesta vida, paz na hora da morte, e uma coroa de justiça quando Cristo se manifestar.

Sétimo, a verdadeira felicidade não se encontra no desfrute das coisas desta vida. A verdadeira felicidade é tão grande e gloriosa que se pode encontrar somente em Deus. Ainda que os homens desfrutem de muitas coisas no presente, sem Deus serão miseráveis para sempre. A felicidade não se encontra nas coisas que não satisfazem a alma. Somente o conhecimento de Deus pode satisfazer-nos.

Oitavo, a alma do homem possuí mais valor do que todo o mundo. Os homens foram criados para algo muito maior do que tudo o que existe neste mundo. Foram criados para conhecer a Deus, conhecer a Cristo, e gozar da presença de Deus para toda a eternidade. Os crentes não devem permitir que se desviem do serviço a Deus pelas artimanhas do diabo. Não devem crer quando lhes dizem que a felicidade neste mundo é a experiência mais importante. Satanás trata de impedir que os crentes sirvam a Cristo dizendo-lhes que a vida cristã apenas conduz a perdas, tristezas e sofrimento. Satanás trata de instigar que temam os problemas que surgirão como resultado de seguirem a Cristo. Quando Satanás tenta aos crentes deste modo, devem pensar que nenhum problema que sobrevier por seguir a Cristo lhes causará dano em forma permanente. Nada lhes poderá retirar a presença e o favor de Deus, ou perdão dos pecados, o gozo do Espírito Santo e a paz de Deus em suas consciências. Os crentes tentados desta forma devem pensar nos perigos que lhes sobrevirão nesta vida, bem como nos perigos espirituais e eternos, se não seguem a Cristo. “Como escaparemos se pouco considerarmos uma tão grande salvação?” (Hb 2.3). Os crentes sofrerão muito mais se descuidarem dos mandamentos de Deus, que devem obedecer ao que Deus lhes ordena. Sempre considerar que os crentes sofrerão mais por desobedecer aos mandamentos de Deus, do que possam sofrer obedecendo.

Além do mais, os crentes devem recordar que os problemas que lhes são enviados por Deus, são uma forma de guarda-los de maiores problemas. Frequentemente os problemas que sofreram lhes serviu como proteção para evitar perigos maiores: por exemplo, o orgulho, a frieza espiritual, a indiferença, a negligência, a amargura, o amor do mundo, etc. Outra coisa que é necessário recordar é que ao viver uma vida santa e servir a Deus, os crentes ganharão muito mais do que possam perder. O apóstolo Paulo disse a Timóteo que a piedade com contentamento é grande lucro (1Tm 6.6). Há gozo, paz e contentamento em servir a Deus, os quais não podem ser encontrados de nenhuma outra maneira. Portanto, os crentes não devem permitir que os problemas que surgem lhes impeçam de servir a Deus, ou seguir a Cristo. Uma vida piedosa tem maior valor permanente de benção que qualquer outra coisa.

04 setembro 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 7

Neste capítulo trataremos de outras duas maneiras de como Satanás tenta aos crentes a pecarem. Satanás lhes fará fixar em outras pessoas que são piores pecadores do que eles e que, portanto, não estejam em perigo. Segundo, Satanás lhes fará pensar que o Cristianismo tem erros e que a Bíblia está equivocada nalgumas coisas. Trataremos destes dois métodos usados pelo Diabo.

Primeiro, Satanás quer que os crentes pensem como aquele fariseu que orava e dizia: “Deus te dou graças porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos, adúlteros ...” (Lc 18.11). Esta atitude não é honesta, e é uma prova de que é um hipócrita. Os crentes devem examinar suas próprias vidas em primeiro lugar para ver que pecados existem, antes de ver os pecados de outros (Mt 7.3-4). Os crentes não devem se comparar com outras pessoas, mas devem comparar-se com a Bíblia, com as normas divinas para a sua vida. Os crentes sempre devem recordar que todos os que não se arrependem do pecado sofrerão no inferno. Os mais graves pecados receberão maior castigo do que os menores no inferno. Como ajudará aos perdidos o fato de saber que os sofrimentos de uns, serão maiores que os de outros? A triste realidade é que os castigos do inferno ainda que sejam maiores ou menores, durarão para sempre. Então, ninguém deve crer em Satanás quando diz que os seus pecados não são tão graves, nem tão graves como os de outros e que, portanto, não deve se preocupar.

Segundo, Satanás trata de persuadir aos crentes a não levar à sério o Cristianismo. Ele lhes dirá que a Bíblia está cheia de erros, que as narrativas da Bíblia servem apenas para nos dar uma ideia do que sucedeu e nada mais. Satanás lhes dirá que podem fazer o que sua própria natureza lhes indique, sem preocupar-se acerca do que a Bíblia diz do pecado. Dirá a eles que agora não estão sob nenhuma lei, senão a do Espírito e a liberdade. Estes erros e muitos outros serão usados pelo diabo para confundir, distrair e desorientar aos crentes.

A meta do diabo em tudo isto não é a de ajudar aos crentes a pensar melhor, senão é a de confundir e induzi-los que pequem. Satanás lhes sugerirá que se estão se tornando muito sábios e avançados em sua maneira de pensar, quando na realidade sua meta é induzir que caiam no pecado. O propósito de Deus é bem diferente: Deus se opõe não somente que façamos o mal, senão também a que pensemos nele. Romanos 1.28 disse: “Como eles não aprovaram ter em conta a Deus, Deus os entregou a uma mente reprovada para fazer coisas que não convém.” Muitas pessoas pensam equivocadamente e terminam fazendo coisas que não convém. Este texto nos fala do juízo de Deus que veio sobre os povos gentios da antiguidade. Creio que na atualidade Deus está castigando a muitos ao entrega-los a erros que arruinaram as suas almas.

Portanto, os crentes devem recordar que a verdade da Palavra de Deus deve ser incorporada em cada aspecto de suas vidas. Não basta receber a verdade somente na mente; é necessário amá-la e aplica-la a tudo ao que dizemos e fazemos. Somente assim poderemos pensar corretamente, tomar decisões sábias e livrar-nos dos caminhos néscios e vãos, que tanto nos fazem cair. Todo erro significará o desperdício somente perdido para os crentes. Somente os que recebem e amam a verdade em seus corações usufruirão de um são juízo e um pensamento claro. Os que resistem a verdade de Deus estão em perigo de ser entregues ao erro. “Por quanto não receberam o amor pela verdade ... por isso Deus lhes envia um poder enganoso para que creiam a mentira” (2Ts 2.10-11).

As ideias equivocadas ou errôneas que Satanás deseja que os crentes creiam, somente lhes causarão prejuízo. Paulo disse aos crentes que Deus lhes deu o fundamento verdadeiro para uma correta maneira de viver e de pensar. O fundamento é o próprio Cristo (1Co 3.11-15). Edificam ou constroem-se sobre este fundamento coisas equivocadas, ideias errôneas, ao final tudo isto será queimado. Somente a verdade de Deus durará para sempre. Quão néscio é o mau uso do tempo crendo, ou sustentando ideias errôneas apenas para encontrar que no final de tudo foi um esforço infrutífero.

Todos os ensinos que conduzem a uma vida pecaminosa devem ser rejeitados. Paulo disse que os pastores das igrejas devem ser possuidores fiéis da mensagem da verdade a fim de poderem ajudar aos que estão equivocados e convencê-los de seus erros (Tt 1.9). Deus deu a sua verdade ao seu povo, a fim de que possam ser guiados, protegidos e guardados do erro. Portanto, os crentes devem receber a verdade com mansidão. Deus concede a sua graça aos humildes, ou seja, àqueles que deixam aparte de suas próprias ideias para ser cheios da verdade divina. Quanto mais a graça de Deus enche aos crentes, menos suscetíveis serão a ser afetados por ideias errôneas e crenças falsas.

13 agosto 2018

A interpretação de descendit in inferna por Rufino de Aquileya

Também o seu descenso ao inferno foi claramente preanunciado nos Salmos, onde disse: Levaste-me ao pó da morte; e também: Para que serve meu sangue enquanto permanece sob a corrupção? E também: Eu afundei no seio do abismo, nem poder ficar de pé? Também João disse: És tu o que viria (ao inferno, sem dúvida), ou esperamos outro? De modo que Pedro disse: Cristo, morto na carne, mas vivificado no Espírito; no mesmo Espírito foi pregar aos espíritos que foram trancados no cárcere, os que foram incrédulos no tempo de Noé. Também neste texto se declara o que fez no inferno. Mas o próprio Senhor, como anunciando o futuro, disse por meio do profeta: Não abandonarás minha alma no inferno, nem permitirás que teu justo veja a corrupção. E, apesar disto, profeticamente mostra que se cumpriu, quando afirma: Senhor, tiraste a minha alma do inferno, salvaste-me dos que descendem ao fosso.

NOTAS:
[1] Cf. Rm 10.7; 1Pe 3.18-20; 4.6; Ef 4.8-9. Recordando a declaração na nota 144. O inciso descendit in inferna não se encontrava em R, nem em nos Símbolos orientais. Em Aquileya se inclui esta fórmula, que aparece pela primeira vez na Quarta Fórmula de Sirmio, um Credo do ano de 359 d.C.. Também está em Nicéia e em Constantinopla. Alguns Credos espanhóis do século sexto também incluem (D3) e desde os tempos de são Cesário de Arlés se estende nos Credos das Gálias (DS 25-28). J.N.D. Kelly, Primitivos Credos Cristianos, cit., pp. 446-452. Parece que a conotação original fora sublinhar a realidade da morte de Cristo: a descida ao sepulcro. Na concepção judaico-cristã a alma, ao morrer, passava para o sheol. A base bíblica se pode encontrar em Rm 10.7: “‘Quem descerá ao abismo?’; ou seja, para fazer subir Cristo dentre os mortos”; 1Pe 3.18-19: “Também Cristo, para levar-nos a Deus, morreu uma única vez pelos pecados ... No espírito foi pregar aos espíritos encarcerados”; 4.6: “Por isso, inclusive aos mortos se anunciou a boa nova”. Também em Mt 12.40; At 2.24-27; Ef 4.7-10. Cf. Ch. Perrot, La descente du Christ aux enfers dans le Nouveau Testament, Lum Vie 87 (1968), pp. 5-29. A especulação dos teólogos posteriores dá lugar a duas interpretações: para uns, Cristo foi ao inferno pregar a sua mensagem aos que não puderam ouvi-lo, aos justos do Antigo Testamento. Para a segunda interpretação, predominantemente no Oriente e que Rufino segue, a descida ao inferno é a confirmação da vitória do Redentor sobre a morte e libertação dos justos do Antigo Testamento. Rufino identifica o conteúdo desta cláusula com o da sepultura. São Cirilo disse: “Desceu ao sheol, para ali resgatar os justos. Por acaso, queres, lhe pergunto, que os vivos gozassem da graça de Deus sem ser muitos deles santos? Que não conseguissem a liberdade aqueles que estavam prisioneiros a longo tempo, desde Adão? O profeta Isaías anunciou com voz excelsa muitas coisas acerca dele. Não querias, pois, que o rei o libertasse, descendo com o seu anúncio? Ali estavam Davi, Samuel e todos os profetas. E inclusive o próprio João, que dizia por meio de seus enviados: “tu és o que haveria de vir, ou devemos esperar outro?” (Mt 11.3). Não desejarias que descendo, liberasse a esses homens?”: Cat., IV, 11, pp. 104-105.
[2] Sl 30.10. Não é citado por são Cirilo.
[3] Sl 69.3. Também não é citado por são Cirilo.
[4] Lc 7.20. Rufino interpretando deste modo Lc 7.20, segue a são Cirilo, ainda que no texto evangélico os enviados por João Batista estão apenas a perguntar a Cristo, se ele é o Messias, sem nenhuma referência à descida ao inferno. Alguns Pais põem na boca de João a pergunta quando Jesus vai ao seu encontro no sheol. Cf. Cirilo, Cat., XIV. 9, p. 329.
[5] 1Pe 3.18-20. Este texto, como os foram citados antes (1Pe 4.6; Rm 10.7; Ef 4.8-9), pressupõe como conhecido e pregado a descida Cristo ao inferno, após a sua morte.
[6] Sl 16.10. Cf. Cirilo, Cat., XIV, 4, p. 325.
[7] Sl 30.4. Cf. Cirilo, Cat., ibid.


Extraído de Rufino de Aquileya, Comentário al Símbolo Apostólico – Biblioteca Patrística (Madrid, Editorial Ciudad Nueva, 2001), pp. 83-84.

28 julho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 6

Satanás conduz os crentes ao pecado fazendo-lhes pensar que os que se santificam sofrem muita oposição e dificuldades. Ele lhes diz que enquanto os pecadores gozam da “boa vida”, os que desprezam ao pecado somente experimentam tristezas e problemas. Satanás insiste em lhes inculcar que por serem justos e santos terão problemas. O sussurro do inimigo de que é muito melhor viver numa forma que não lhes ocasione tantos conflitos e que os pecadores não sofrem como os piedosos.

Como devem reagir, e o que pensar os crentes quando Satanás lhes inquieta com estas ideias?

Primeiro, devem recordar que todos os problemas que os filhos de Deus serão usados para o seu bem. Deus nunca envia aflições ao seu povo sem um bom propósito, ainda que no momento não seja possível entende-lo. Em seguida mencionarei alguns dos efeitos que sobrevêm aos piedosos como consequência da aflição: Aprendem acerca da maldade do pecado; o sofrimento lhes faz desprezar ao pecado; o sofrimento lhes faz ter cuidado com o pecado no futuro. O menino que se queima teme ao fogo. As aflições nos ajudam a mortificar ao pecado. As aflições são o crisol onde Deus purifica as impurezas do seu povo. Deus disciplina, corrige e instrui aos crentes para o seu bem, a fim de que participem de sua santidade (Hb 12.10-11). Ainda que a disciplina divina seja no momento dolorosa, produz a piedade e traz muitas bençãos aos crentes.

Deus está treinando ao seu povo: fazendo que estejam numa boa e saudável condição espiritual, o sofrimento é uma parte deste treinamento. O sofrimento lhes torna humildes e sensíveis ao ensino do Espírito Santo. O sofrimento aproxima de Deus e os motiva a orar duma forma mais intensa e sincera. O salmista disse: “Antes que eu fosse humilhado, andava desviado, mas agora guardo a tua Palavra” (Sl 119.67). Também o sofrimento fortalece aos crentes. Crescem mais fortes em seu amor a Deus e pelo seu povo; crescem mais fortes na fé, esperança e gozo.

Segundo, os crentes devem recordar o que é mais importante do que seus problemas. Eles não podem mudar o fato de que Deus lhes ama. As aflições podem resultar em sofrimentos do corpo e da mente, e até mesmo leva-los a perder a vida, mas não podem separá-los do amor de Deus.

Terceiro, os crentes devem recordar que seus problemas na realidade são passageiros e de curta duração. “Por um momento será sua ira, mas o seu favor durará toda a vida. Pela noite durará o choro, mas a alegria virá pela manhã” (Sl 30.5). Na realidade há um breve tempo entre o conhecer da graça de Deus na terra e o gozar da glória de Deus no céu. “Porque ainda um pouco e o que há de vir virá e não tardará” (Hb 10.36-37). Este breve tempo de sofrimento terminará e os crentes estarão com Cristo para sempre. Este tempo de tormenta é o prelúdio da tranquilidade eterna.

Quarto, os crentes devem lembrar que os problemas que lhes ocorrem provêm do grande amor que Deus tem por eles. O Senhor Jesus disse: “Eu repreendo e castigo a todos os que amo” (Ap 3.19). Deus está preparando aos crentes para o céu e, às vezes, esta preparação resulta dolorosa. Todavia, o fato de que Deus procura que estejam preparados para o céu, é prova de que lhes ama grandemente.

Quinto, os crentes devem medir as aflições por seu resultado espiritual e não pela dor que ocasionam. É necessário que vejamos o propósito de Deus em nossos sofrimentos. José sofreu no Egito e foi encarcerado injustamente. Não obstante, o propósito de Deus foi, que por meio de José, salvasse a sua família. Do mesmo modo, Davi foi rodeado de inimigos e esteve em perigo constante no início de sua carreira. Todavia, tornou-se rei e foi honrado por seu povo. Em ambos os casos foi o sofrimento o que conduziu o cumprimento do propósito de Deus. Isto nos ensina que os crentes devem julgar seus sofrimentos não pela dor que produzem, senão por seus resultados espirituais.

Sexto, o propósito de Deus nas aflições nunca é para condenar, ou causar desespero nos crentes. Deus não quer enfraquece-los, ou arruiná-los com a tristeza. Deus quer provar e fortalece-los, seu pensamento nunca é destruí-los. Moisés recordava aos israelitas deste ponto: “Te recordarás de todo o caminho por onde Jehová, teu Deus, te conduziu estes quarenta anos no deserto, para afligir-te, para provar, e para saber o que estava em teu coração, se guardarias, ou não os seus mandamentos” (Dt 8.2). “Para provar”, esse foi o propósito de Deus, não para prejudicar ou destruir.

Finalmente, os crentes sempre devem recordar que as tristezas e as misérias que acompanham o pecado sempre serão maiores e pesadas que a tristeza que, às vezes, acompanha a santidade e a piedade. A tristeza que o pecado acarreta não tem nada de bom. Não possui nenhuma esperança, nem bom propósito. A tristeza que procede do pecado somente conduzido pelo que é temível e terrível, ou seja, o desprezo justo e santo de Deus e sua ira.


26 junho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 5

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Outra tática do Diabo é a de dizer ao crente que pode aproximar-se do pecado sem cair nele. Ele insistirá com o crente que pode achegar-se a pessoas com vidas pecaminosas, ou que pode estar em lugares onde se cometem atos pecaminosos, sem que nada lhe aconteça. Dirá que pode conviver com os beberrões sem embriagar-se, que pode acompanhar as pessoas imorais sem participar de suas imoralidades. Dirá que pode aproximar-se da porta da prostituta, desde que não suba em sua cama, que pode olhar a beleza de Jezabel, mas não cometer pecado com ela, que pode por as suas mãos na joia de ouro de Acã sempre, mas desde não a roube. Em outras palavras, que pode acercar-se do pecado sem ser afetado por ele. Todavia, com frequência sucede que ao aproximar-se do pecado, de imediato, este o conduz a pecar.

A Bíblia adverte aos crentes a respeito dos lugares e das pessoas que lhes incentivam a pecar. O texto de 1Ts 5.22 lhes manda apartar-se de toda classe de mal. E Pv 4.14-15 diz: “Não entres pela vereda dos ímpios, não siga pelo caminho dos maus. Deixa-o, não passes por ele; afaste-se dele”. Há que evitar tudo o que não é bom, saudável e santo. Não faça nada que pareça mau, ou que tenha a aparência de pecado. Se não quiser ser queimado, deverá afastar-se do fogo. Se não quiser pecar, deverá alongar-se de qualquer coisa que lhe conduziria a pecar; se não o faz, não poderá ter vitória sobre o pecado.

A Bíblia nos fala daqueles que foram vitoriosos sobre o pecado. Se afastaram de tudo o que lhes poderia conduzir a pecar, ainda que somente fosse uma aparência. O Diabo considera como meia vitória, como quase uma conquista, o fato de que não se aparte daquilo que pode conduzi-lo a pecar. O caso de José, é uma ilustração de alguém que se afastou da tentação do pecado. Ainda que a esposa de Potifar lhe provocasse a cometer o adultério, José não a escutava, nem aceitava estar na presença dela. (Gn 39.10). Se você quer usufruir das bençãos de Deus, tem que afastar-se de tudo o que lhe conduz a pecar.

O fato de evitar a aparência do pecado é uma evidência da graça de Deus que lhe eleva acima dos homens que pertencem ao mundo. Desta maneira Abraão viveu uma vida piedosa em meio a um povo imundo. Daniel permaneceu fiel num país onde se adorava a falsos deuses. Timóteo viveu uma vida controlada pelo Espírito de Deus em meio a um povo pagão em Éfeso. Os crentes não devem escutar ao Diabo quando lhes diz que podem acercar-se do pecado, todavia, sem pecar. O ensino da Bíblia é claro acerca disto, afaste-se de qualquer coisa que lhe conduza a pecar.

Outra artimanha usada por Satanás para conduzir aos crentes ao pecado é dizer-lhes que os não arrependidos gozam de uma vida prazerosa e sem problemas. “Veja essas pessoas como pecam e estão felizes, cheias de boas coisas. Não têm preocupações. Una-se a elas e vá se divertir”. Às vezes, Deus é bondoso e abençoa nesta vida aos mesmos que estão destinados à condenação. A maneira que Deus trata uma pessoa nesta vida nem sempre indica o que Deus pensa acerca dessa pessoa. Da mesma maneira Deus, às vezes, envia coisas difíceis às pessoas que são objeto de seu amor. O sol brilha sobre os espinhos e sobre as árvores frutíferas. A boa dádiva de Deus é outorgada aos bons e aos maus. Tanto os bons como os maus gozam de boa saúde, recebem riqueza e abundância; ainda assim, sofrem indistintamente perdas e enfermidades.

o primeiro remédio contra esta tática é despertar-nos de que Deus é contra os que usam as suas bençãos como um pretexto para pecar. O desprezo de Deus é muito forte contra os que, desta maneira, abusam de sua bondade. Os crentes nunca devem pensar que a ternura de Deus lhes dá liberdade para pecar; pelo contrário, sua benignidade deveria conduzi-los para o arrependimento.

Segundo, não há miséria maior nesta vida do que a ausência da correção e a disciplina de Deus. Aqueles cujas vidas sofrem destas marcas devem se preocupar. Se Deus nunca lhes envia problemas, se suas vidas sempre foram fáceis, então estão no pior estado possível. Quando Deus não se preocupa por corrigir e provar uma pessoa, essa pessoa está perdida. Os incrédulos podem se sentir felizes porque Deus não lhes corrige, mas é falso o seu sentimento de segurança. Longe de indicar que tudo está bem com eles, indica o contrário, que tudo está mal. A prosperidade é uma piedra na qual milhões de pessoas tropeçam; tropeçaram, caíram e fraturaram a cerviz de sua alma para sempre.

Terceiro, é certo que os pecadores usufruem de boas coisas nesta vida, mas as suas “bençãos” não são nada comparadas com o que não têm. Os pecadores podem gozar do dinheiro, poder, amigos, saúde, felicidade; mas não conhecem à Deus, nem à Cristo, nem ao Espírito de Deus. Não têm a paz com Deus, nem o perdão de seus pecados. Não são filhos de Deus e não são livres do poder dominante do pecado. Não são objeto da graça de Deus e muito menos têm a esperança de irem para o céu. De que servem todas as bençãos temporais desta vida se não têm o amor de Deus, o perdão de seus pecados, a presença de Cristo e a esperança de glória eterna?

Quarto, as coisas boas desta vida nem sempre são o que aparentam ser. As coisas “boas” sempre estão mescladas com coisas más. O poder e o dinheiro trazem temores, preocupações e não tão somente a felicidade. O Sl 92.7 diz que os ímpios brotam como a erva, que floresce os que praticam a iniquidade, mas que serão destruídos eternamente. Frequentemente, Deus castigará com juízos espirituais as mesmas pessoas que sofrem menos castigos nesta vida. Por juízos espirituais quero dizer que não estão dispostos a arrepender-se, que não se preocupam com suas almas, que suas consciências estão cauterizadas, seus corações endurecidos, estão cegos em relação à verdade de Deus. Juízos semelhantes a estes são piores que todos os sofrimentos e tristezas desta vida terrena.

Quinto, um dia os homens entenderão todas as bençãos que receberam durante a sua vida terrena. “Porque a todo que muito é dado, muito será cobrado” (Lc 12.48). O que dirão estas pessoas por tantas bênçãos que Deus lhes concedeu? Deus é paciente agora, mas a sua paciência e sua bondade deveriam nos guiar ao arrependimento, de outro modo, a sua bondade se converterá num motivo de maior juízo.

22 junho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 4

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Neste capítulo poderemos observar outro método usado pelo Diabo para induzir aos crentes que caiam no pecado. Satanás lhes diz que é fácil arrepender-se, tão simples como confessálo ao sacerdote. Tudo o que se tem que dizer é: “Senhor tenha misericórdia de mim”, e ele o perdoará. Sussurrará em seu ouvido que o arrependimento é fácil.

Esta mentira do Diabo é muito perigosa. É uma mentira que é usada para enganar a muitos e coloca-los sob o controle e domínio do pecado. O arrependimento não é algo fácil de se obter; está além das forças humanas. Para arrepender-se é necessário o mesmo poder que levantou a Cristo dos mortos, ou seja, é necessário o poder de Deus.

O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo que os servos de Deus devem ensinar a verdade com a esperança que Deus conceda arrepentimiento aos ouvintes (2Tm 2:25). O arrependimento não é fácil; o arrependimento é um dom de Deus. O profeta Jeremias perguntou: “O etíope mudará a cor de sua pele, e o leopardo as suas manchas? Assim também, podereis fazer bem, estando habituados a fazer o mal?” (Jr 13:23). As pessoas não podem transformar a si mesmas; falta-lhes o poder de Deus para que possam experimentar essa mudança. O simples fato de dizer: “Senhor tem misericórdia de mim,” não é o arrependimento verdadeiro. Os que usam esta linguagem, sem uma mudança genuína em suas vidas, estão se enganando. Muitos agora estão no inferno porque se equivocaram quanto à natureza do arrependimento.

Há três elementos essenciais no arrependimento. O primeiro elemento é uma mudança substancial; é dar as costas para o pecado e voltar-se para Deus. O arrependimento é deixar as trevas e volver-se para a luz. Isaías disse: “Deixe o ímpio o seu caminho, e o iníquo os seus pensamentos, e voltem-se para Deus” (Is 55:7). O arrependimento significa dar as costas a todo pecado, inclusive ao pecado mais amado. Significa também uma mudança de atitude para com Deus e em relação a tudo o que ele manda. Quando uma pessoa se arrepende verdadeiramente, sabe que não existe nada nela que agrade a Deus, e tudo o que ela possui é o seu pecado. Isto lhe faz voltar-se a Deus suplicando ajuda e perdão. O arrependimento não é fácil. Sempre é difícil e ocasiona dor e vergonha.

O segundo elemento no arrependimento verdadeiro é uma mudança completa de vida. O arrependimento significa uma mudança na vida interior, no que pensa e no que deseja. O arrependimento significa uma mudança tão poderosa na vida, que outros podem vê-la, uma transformação em sua maneira de viver, em seus hábitos, em sua perspectiva. Em Is 1:16 diz que “Lavai e limpai-vos; tirai a iniquidade de vossas obras diante de meus olhos; deixai de fazer o mal; aprendei a fazer bem”. Isto significa uma mudança externa e interna, uma alteração completa de vida.

O terceiro elemento do arrependimento é sua continuidade ao longo de toda a vida do crente. Arrepender-se significa sempre esforçar para guardar a lei de Deus de forma mais completa. Significa aproximar-se cada vez mais de Deus, ainda que ao mesmo tempo, saibamos que não podemos deixar de considerar-nos pecadores. A vida cristã consiste de um processo contínuo de mortificação do pecado. O apóstolo Paulo, que foi usado grandemente por Deus, disse: “Miserável homem que sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rm 7:24).

O arrependimento não é próprio da natureza humana. É necessário tanto do poder de Deus para arrepender-se, como para não pecar. “Vinde e voltemos a Jehová porque ele nos abateu e curará; nos feriu e tratará. Ele nos dará a vida depois de dois dias; no terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele” (Os 6:1-2). Convença-se que Deus é quem faz todas estas coisas a favor de seu povo. Ele os sara. Ele ata as suas feridas. Ele os vivifica e restaura. O poder e o amor de Deus estão atuando no arrependimento. Sem a misericórdia e o amor de Deus atuando, não é possível ocorrer o verdadeiro arrependimento.

É comum que Satanás diga que o arrependimento é fácil. Mas após ocorrer a queda no pecado, a sua mensagem mudará, pois dirá que o arrependimento é impossível. Uma vez que a pessoa se acostuma ao pecado, o Diabo dirá que o arrependimento é a coisa mais difícil que alguém poderá obter. Ele lhe dirá que é difícil abandonar aos pecados que fazem parte de sua vida. Dirá que não haverá a possibilidade de arrependimento, porque abusou da misericórdia de Deus e desprezou as advertências divinas. Satanás lhe falará de quantas vezes caiu e quão perversos são seus pecados. Ele lhe dirá: “É impossível arrepender-se.”

Os verdadeiros crentes buscarão o arrependimento enquanto há tempo, isto é, hoje! O arrependimento nunca é fácil, mas com a ajuda e com a misericórdia de Deus, é possível desprezar ao pecado e volver-se para Deus.

21 junho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 3

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Neste capítulo trataremos com outras duas estratégias usadas pelo diabo para fazer com que os crentes caiam em pecado. Primeiro, Satanás lhes fala que os melhores crentes da Bíblia pecaram e, portanto, os crentes também podem pecar. Em segundo lugar, Satanás lhes dirá que não se preocupem com os seus pecados, que Deus é misericordioso para perdoá-los. Então, vejamos a forma de enfrentar estas artimanhas.

Primeiro, às vezes, Satanás diz aos crentes que, como todos aqueles acerca de quem lemos na Bíblia pecaram, então, o pecado não é tão grave. Davi foi um homem que amou a Deus e, todavia, cometeu o adultério. Satanás se apoia neste assunto para dizer-nos que o adultério não é algo tão mal. Noé foi um homem que achou graça diante os olhos de Deus (Gn 6:8), entretanto, em Gn 9:21 lemos que este homem embreagou-se. Satanás dirá aos crentes que tão pouco a embriaguez é um pecado tão grave diante de Deus. O texto de Mt 16:17 nos fala que Pedro foi abençoado pelo Senhor; mas em Mt 26:74 o mesmo apóstolo amaldiçoou e negou ao nosso Senhor Jesus Cristo. Com base nisto, Satanás diz aos crentes que tais pecados não são graves de modo algum.

Satanás tem razão? David, Noé, Pedro e outros filhos de Deus pecaram gravemente contra Deus. Isto significa que os crentes não devem se preocupar com os seus pecados?

Em primeiro lugar, Satanás somente está mencionando uma parte da história. Davi pecou, mas também Davi se arrependeu. O Salmo 51 nos fala de como Davi se sentiu e o que fez após cair no pecado. “Lava-me mais e mais de minha maldad, limpa-me de meu pecado.” (Sl 51:2) Estas não são as palavras de alguém que não se preocupava com o pecado, mas de alguém que estava arrependido, que odiou o seu pecado e pediu perdão à Deus. Da mesma maneira, depois que Pedro amaldiçoou e negou ao Senhor, saiu e chorou amargamente. (Mt 26:75) Por que Pedro chorava? Chorava porque estava consciente de seu pecado e arrependido do que fez. Quando alguém pensa que pode pecar porque os crentes da Bíblia o fizeram, este deve se perguntar se é capaz de arrepender-se como eles o fizeram. A verdade é que muitos pecam da mesma forma que estes homens, mas bem poucos se arrependem como eles. Em outras palavras, ainda que os crentes bíblicos caíram ocasionalmente no pecado, na realidade eles o odiavam. Do mesmo modo, os crentes devem odiar o pecado e desejar afastar-se dele.

Em segundo, note que estes crentes não permaneceram no pecado. Pecaram em ocasiões, mas não viviam no pecado. E ainda quando pecaram, não o fizeram de todo coração. Satanás deseja que os crentes pequem incessantemente, a fim de que se acostumem ao pecado, quer que se sintam a vontade pecando. Isto é muito diferente da forma em que caíram Davi e Pedro.

É necessário recordar que Davi e os demais crentes mencionados sofriam muito a consequência de seus pecados. No Salmo 51, Davi disse que lhe foi tão doloroso como a fratura de um osso. (Sl 51:8). E Deus lhe sentenciou, como consequência de sua falta, dizendo que sempre haveria violência em sua família, e assim aconteceu.

Os pecados de Davi e Pedro estão registrados na Bíblia como uma advertência aos crentes e também para o seu auxílio. Por um lado, Deus não quer que os crentes se desesperem quando pecam, e por esta razão nos mostra que os crentes mais fortes também pecaram. E, por outro lado, Deus adverte aos crentes a não descuidarem em sua luta contra o pecado. Devemos aprender com as quedas dos outros, ou seja, suas quedas podem nos ajudar a não cairmos. Não há nenhuma garantia em nossos anos como crentes, muito menos em nossa fidelidade no passado. Há graça e perdão para os que caíram, mas também há disciplina.

Satanás, além desta tática, trata de obter que os crentes não se preocupem com o pecado, dizendo-lhes que Deus é misericordioso e que sempre os perdoará. O Diabo lhes fala que Deus é um Deus de pura graça e que está disposto a conceder misericórdia, e que sempre estará mais propenso a perdoar que a castigar ao seu povo. Vejamos a continuação de cinco remédios preciosos contra esta tática.

Primeiro, sempre é um sinal de que Deus está contra nós, quando não nos preocupamos com o pecado. Quando vemos que alguém não está preocupado com os seus pecados, podemos ter certeza de que Deus está julgando esta pessoa. É uma coisa terrível quando Deus entrega alguém aos seus próprios pecados. Deus disse, numa ocasião, em relação aos israelitas: “Os deixei, portanto, para a dureza de seu coração; caminharam em seus próprios conselhos” (Sl 81:12). Noutro momento disse: “Efraim é entregue aos ídolos; deixe-o” (Os 4:17). Este foi o juízo de Deus contra eles. Quando Deus abandona a um povo, então, ele não se preocupa com seus pecados.

Segundo, Deus é tanto misericordioso como justo, a sua misericórdia não anula a sua justiça. Satanás oculta esta verdade quando diz que Deus será sempre e somente misericordioso. Quando Adão pecou, Deus em sua justiça expulsou-o para fora do paraíso. Quando o mundo antediluviano se corrompeu, Deus em sua justiça mandou o dilúvio. A menos que os pecadores se arrependam, Deus não lhes perdoará.

Terceiro, os pecados contra a misericórdia de Deus acarretam maior juízo. Quando os homens abusam da misericórdia de Deus, então, vem seu juízo. Esta é a ordem em que Deus atua: primeiro oferece a sua misericórdia, mas se os homens a desprezam, então são julgados. Deus mostrou grande misericórdia e ternura aos israelitas, todavia, eles se afastaram e esqueceram de Deus. Jesus lhes advertiu que não ficaria pedra sobre pedra de seu templo e assim sucedeu (Mc 13:2). Jerusalém e o templo foram destruídos. Muitos judeus foram mortos e outros levados cativos. Os que abusaram da misericórdia de Deus e lhe deram as costas às suas advertências, foram objetos de sua justiça. Por mais que alguém seja abençoado, mais severo será o seu juízo se esquecer-se de Deus. Cafarnaum que foi elevada ao céu, posteriormente foi posta na parte mais baixa do inferno (Mt 11:23).

Quarto, os crentes não devem pensar que tudo está bem devido ao desfrute de algumas bençãos de Deus. Todos de alguma maneira, ou de outra, constantemente recebem benefícios da bondade de Deus. Mas a misericórdia especial de Deus é somente para aqueles que o amam e lhe obedecem. “Todos os caminhos de Jehová são misericórdia e verdade para os que guardam o seu pacto e seus testemunhos” (Sl 25:10). “Os olhos de Jehová estão sobre os que o teme, sobre os que esperam a sua misericórdia.” (Sl 33:18). “Porque como é a altura dos céus sobre a terra, engrandeceu a sua misericórdia sobre os que lhe temem.” (Sl 103:11). Você teme a Deus? Se sim, então, não desejará pecar contra a sua misericórdia.

Quinto, a misericórdia de Deus é um fortíssimo motivo para não pecar. A bondade de Deus nunca deve se converter em pretexto para pecar. A Bíblia diz que devido à misericórdia de Deus, os crentes devem se entregar completamente a ele, seu corpo, sua mente e tudo o que são, a fim de que sejam usados em seu serviço (Rm 12:1). A misericórdia de Deus deve conduzir aos crentes a amá-lo e não a pecar contra ele. Os que têm a misericórdia de Deus como um pretexto para pecar, estão seguindo uma lógica satânica. Quando esta lógica predomina no pensamento de uma pessoa, há motivos para supor que tal pessoa está em perdição. Quando uma pessoa diz que a misericórdia de Deus significa que o pecado não importa, tal pessoa demostra que não está valorizando corretamente este atributo divino. Uma compreensão correta da misericórdia divina, traz como resultado uma atração em relação à Deus e um desprezo pelo pecado.

15 junho 2018

Os pastores antigos que passaram aqui ensinaram tudo errado?

Por Rev. Alan Rennê Alexandrino

Peço licença aos meus amigos aqui no Facebook para falar um pouco a respeito de algo que me é bastante incômodo. E, de início, gostaria de afirmar que este texto, de forma alguma, não é uma expressão de animosidade. Tristeza, talvez. Mas, animosidade, não. Por isso, peço que você me acompanhe até o final.

Não raro, diante de ensinamentos, ouço a pergunta que dá título a este texto. Recentemente participei de uma mesa redonda com o Dr. Mark Jones, e alguém perguntou: "O que dizer desses pastores mais novos, que chegam numa igreja e começam a ensinar coisas que nunca foram ensinadas pelos pastores anteriores? Quer dizer que os pastores anteriores ensinaram tudo errado? Por que eles não ensinaram essas mesmas coisas?"

Eu não considero esse questionamento indevido. Considero natural que o mesmo seja feito, pois, inegavelmente, há muita coisa que aparece diante da igreja de Cristo como "algo novo".

E, para explicar isso, eu gostaria de fazer referência a uma palestra ministrada pelo Dr. Heber Campos Jr., por ocasião do Encontro da Fé Reformada, ano passado, na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia. O Rev. Heber Campos Jr., numa palestra proferida na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia, ano passado, a respeito de qual calvinismo tem sido descoberto no Brasil (ACESSE AQUI), fez algumas afirmações muito interessantes que nos ajudam a compreendermos o porquê da nossa dificuldade quando ouvimos algumas coisas que soam como novas aos nossos ouvidos. Ele faz uma comparação entre o que nós continuamos a aprender e a descobrir sobre a nossa fé reformada e aquilo que foi conhecido no início, quando a fé reformada chegou aqui no Brasil. De acordo com ele, o interesse no calvinismo não tem uma longa história no Brasil. Mesmo no século 19, com a chegada do presbiterianismo no Brasil, a fé reformada não se tornou devidamente conhecida. Ele afirma que os parâmetros presbiterianos no século 19 estavam bem confusos, devido a uma teologia mista que era adotada por Simonton, mas não apenas por ele, por outros missionários também. Isso é muito sério, meus irmãos. Essa teologia misturava a fé reformada legítima com a teologia reavivalista, carismática de um movimento americano chamado Segundo Grande Despertamento. Uma consequência disso, de acordo com ele, é que igrejas eram plantadas com ideias misturadas, que nem sempre davam a devida consistência às nossas igrejas. Essa teologia mista ia sendo passada de geração em geração. Novos pastores eram formados com essas ideias, e assim por diante.

Isso ajuda a explicar a dificuldade existente quando a teologia reformada é ensinada em igrejas reformadas. As pessoas estão ouvindo certas coisas pela primeira vez. Elas comparam com aquilo que ouviram ao longo de décadas e chegam à conclusão de que aquilo que lhes está sendo ensinado agora, com toda certeza, não pode ser verdade, afinal de contas, elas passaram a vida inteira ouvindo outras coisas, fazendo outras coisas. “Nossa igreja já tem mais de 150 anos, e esse pastor vem com essas inovações?” Inovações? Inovações porque estão sendo inventadas agora ou porque estamos ouvindo falar apenas agora? Esta é uma pergunta que merece uma reflexão séria e humilde da nossa parte.

Para se ter uma ideia, a literatura reformada e presbiteriana era praticamente inexistente no Brasil até a década de 80. Nossos seminários formavam seus pastores com muitos livros de teólogos liberais. João Calvino foi publicado, pela primeira vez, em português, apenas em 1985. Louis Berkhof, o principal livro de Teologia Sistemática usado em nossos seminários, só foi publicado em português no ano de 1990. E olha que o presbiterianismo chegou por essas bandas em 1859. Um dos pastores mais conhecidos em nossa denominação, durante o início do século 20, foi um homem chamado Erasmo Braga. Ele se tornou conhecido, dentre outras coisas, por seus esforços em prol de um Seminário Unido, que seria um seminário com professores de denominações diferentes: congregacionais, presbiterianos, batistas, assembleianos e, assim por diante. Qual o resultado disso? Uma salada de doutrinas e convicções sendo instiladas nas mentes dos seminaristas, ao passo que doutrinas fundamentais do presbiterianismo eram deixadas de lado. Então, do século 19 até quase o final do século 20 nossos referenciais eram confusos. Tanto é assim que não são poucas as igrejas locais da Igreja Presbiteriana do Brasil, nas quais a Confissão de Fé de Westminster nunca foram e ainda hoje não são mencionadas.

Uma consequência disso é o que acontece, hoje em dia, à medida que tanto os nossos membros quanto pessoas de outras denominações passam a conhecer a fé reformada. Muitos membros de igrejas presbiterianas passam a estranhar igrejas presbiterianas que se tornam presbiterianas e reformadas em sua doutrina e liturgia. E muitas pessoas que conhecem a fé reformada estranham igrejas presbiterianas que são iguais às suas igrejas em sua doutrina liturgia. E quando a fé reformada, o presbiterianismo confessional é descoberto e passa a ser ensinado, rapidamente ele é objeto de acusações como: radicalismo, falta de equilíbrio e até mesmo neopuritanismo.

Recentemente eu tive a oportunidade de conversar com um conhecido pastor veterano a este respeito. Ele reconhece ser fruto de tudo o que foi falado aqui. Suas palavras a mim foram: “Eu confesso que nós temos muito a aprender sobre o que significa ser presbiteriano confessional”. Um amigo pessoal, que é pastor há quase 30 anos, em conversa comigo, também expressou sua felicidade, mas em relação à formação do seu filho no Seminário Presbiteriano do Norte. Suas palavras foram: "Não tínhamos isso na nossa época. A geração de vocês é uma geração privilegiada". O Dr. Heber Jr., diz algo semelhante em sua palestra: “Ainda há muito a ser descoberto; coisas que, outrora, estiveram nas mãos de alguns poucos”.

Não quero aqui dar a entender que os pastores de gerações anteriores agiram de má fé ou qualquer coisa do tipo. Longe disso! Eu os reputo como homens que se doaram pelo evangelho e usaram as ferramentas que lhes foram disponibilizadas.

O que ocorre é algo semelhante ao que é comum em outros campos do conhecimento. A medicina, por exemplo. Pensemos nas gerações anteriores de médicos e nos que são formados hoje em dia. Conquanto existam excelentes profissionais veteranos, é preciso que se entenda que parte de sua excelência é explicada pelo fato de sempre continuarem a estudar, de sempre continuarem a se aperfeiçoar. São médicos, profissionais que acompanham as novas descobertas, as mais recentes produções acadêmicas.

O mesmo ocorre com a formação em nossos seminários.

E eu creio que as nossas igrejas deveriam ser gratas a Deus por isso. Paulo plantou. Apolo regou. E Deus tem supervisionado todo o processo, dando o crescimento para a glória dele!

10 abril 2018

Lançamento de livro em breve!

Em breve será publicado pela Editora Dordt o livreto "Discipulando os nossos filhos da fé reformada - Três catecismos para crianças e pré-adolescentes", escrito por Pr Ewerton B. Tokashiki. Avisarei quando estiver disponível!

Do prefácio:

"Quando Jesus deu à igreja a grande comissão, Ele a deu também à família, um grande veículo para o discipulado. A maioria dos pais, no entanto, não são teólogos educados em um seminário. Então como eles podem discipular seus filhos, com confiança, no caminho da verdade? A melhor maneira comprovada ao longo do tempo de ensinar concisamente teologia é através do ensino do catecismo. Catecismos fiéis apresentam a verdade da Palavra de Deus de uma maneira organizada e fácil de entender. Cada profeta, sacerdote e rei do lar (pai) deve estar bem familiarizado com o catecismo e deve passar o seu ensino à próxima geração. Na Bíblia vemos que pais tementes à Deus sempre tiveram a responsabilidade de instruir a criança nas doutrinas básicas da fé (Dt 4:9-10; 6:1-9; 11:1-22; Josué 4:19-24; Salmos 78; 2 Tim 1:5, Ef 6:4 ...). Quando um pai usa os catecismos históricos, como os apresentados aqui, eles podem se consolar com o fato de que estão ensinando as mesmas verdades que homens como John Knox, John Owen, John Bunyan e milhares de outros heróis da fé foram ensinados quando crianças. O treinamento do catecismo ajudará seus filhos a se tornarem centrados em Deus, centrados na Bíblia e fundamentados teologicamente. Com esta sabedoria em mãos, eles serão capazes de enfrentar um mundo de trevas, serão atirados para fora de sua casa como setas para lutar a boa luta da fé em um mundo de escuridão.

O fim principal da vida humana é adorar a Deus, portanto o culto familiar diário é importante. O ajuntamento do dia do Senhor é essencial, mas os pais piedosos não devem colocar toda a responsabilidade de treinar seus filhos no pastor ou professor da escola dominical. Pais, é sua responsabilidade ensinar teologia a seus filhos. As crianças aprendem sobre Deus e Sua vontade durante esses momentos preciosos de ensino diário. Eles aprendem a orar e a cantar. A catequização de nossos filhos os instrui, desde a mais nova idade, nas verdades importantes que os levarão de modo feliz e confiante até a sepultura. O culto piedoso não só forma filhos poderosos, mas também fortalece casamentos, famílias, igrejas, cidades e nações. Reforma e avivamento vêm através da verdadeira adoração! Se o discipulado por meio da adoração familiar é uma arma tão poderosa, como poderíamos nos distrair com algo menos? Cristãos reformados de hoje precisam ser chamados de volta a esta responsabilidade bíblica consagrada pelo tempo.

Bons catecismos, como os que Pr. Tokashiki aqui trouxe em português, ajudarão os pais nesta grande tarefa de fazer discípulos e adoradores de Deus. Não só seus filhos aprenderão teologia, mas você também! Gostaria de agradecer ao Pr. Tokashiki por seu trabalho. Será uma bênção para Leah e para mim a medida que nos esforçamos para criar nossos sete filhos para a glória de Deus. Quero que o fim principal do homem ressoe diariamente nos corações de meus meninos ao longo de suas vidas. Espero que você faça o que planejamos fazer: torná-lo um pequeno livro que fica perto da cama de seus filhos ou mantê-lo perto da mesa do almoço. Que o Senhor abençoe estes recursos para o benefício do seu povo, o embelezamento de sua noiva e o avanço do Evangelho no Brasil e em todas as nações de língua portuguesa."

Pr. Douglas Leaman

23 março 2018

Razões porque todo cristão deveria estudar teologia

Por James P. Boyce


Cada doutrina revelada na Palavra de Deus é verdadeira. Todas foram reveladas para que fossem cridas. Por isso, não podemos omitir nenhuma delas.

As vantagens de estudar sistematicamente a teologia são diversas:

1. Determinamos, assim, tudo o que a natureza e as Escrituras ensinam em cada ponto.

2. Comparamos todos estes ensinos um com outro e somos capazes de definir as suas mútuas limitações.

3. Somos confrontados com o fato de que nosso conhecimento é limitado pela Revelação de Deus, e é levado a reconhecê-la como a sua fonte.

4. Consequentemente, somos advertidos de não omitir nenhuma verdade verificada de qualquer fonte, nem de acrescentar a elas qualquer coisa que não seja corretamente aceita. O abandono desta regra levará a um erro inevitável.

5. A harmonia e a consistência, que serão encontradas em todos os ensinos de Deus, de qualquer fonte que possamos extrair, se tornarão prova conclusiva da origem divina da revelação. Isso resultará, não apenas a partir de uma comparação do que a Razão e a Natureza ensinam, com as revelações da Palavra de Deus, mas de cada um dos vários livros da Bíblia com outros, e especialmente do conjunto do Antigo Testamento como um livro, com o do Novo Testamento como outro.

6. Portanto, somos levados a valorizar cada uma das doutrinas da Palavra de Deus. Cada uma delas é verdadeira. Todas elas foram reveladas a fim de serem cridas. Não podemos, portanto, omitir nenhuma delas, por causa de seu aspecto proibitivo, ou de sua aparente falta de importância, ou de sua natureza misteriosa, ou de sua demanda por um grande sacrifício pessoal, ou por causa das suas afirmações humilhantes, ou requisitos, ou os termos livres sobre os quais assegura a vida e salvação.


Nota do Editor: O seguinte texto foi retirado de Abstract of Systematic Theology, que foi o livro texto de teologia sistemática escrito por James P. Boyce (1827-1888), fundador do Southern Seminary.

Extraído de http://equip.sbts.edu/article/boyce-study-theology/

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

08 março 2018

Crianças pequenas devem participar do culto ao Senhor?

Por Randy Booth

Bem, em certo sentido a Bíblia diz que todos nós somos criancinhas, como Jesus indicou quando disse a seus discípulos: “Filhinhos, ainda um pouco estou convosco” (João 13:33). Portanto, em princípio, está claro que as crianças pequenas devem adorá-Lo. Mas há um outro sentido em que falamos “crianças pequenas”, e que, claro, se refere a bebês que ainda dão os primeiros passos. Que obrigação têm eles, se têm, no culto a Deus e, mais particularmente, que lugar eles têm, se têm, na reunião de culto a Deus?

Como povo de Deus, nós devemos nos regozijar ao ouvir barulho de crianças em nosso meio. Isso é uma indicação da bênção que elas têm na aliança e de seu dom da vida. Deus dessa forma aumenta nosso número e avança seu reino através das gerações. Mas isso significa que, sem exceção, as crianças devem sempre estar presentes com seus pais na congregação? Este artigo busca oferecer algumas diretrizes bíblicas tanto para pais de crianças pequenas como para a congregação ao se reunir para adoração.

A menor das crianças é capaz de aprender grandes coisas

Crianças pequenas são esponjas quando se trata de absorver nova informação. Em Lucas 1:44 a Bíblia registra esta assertiva de Isabel, a mãe de João Batista, quando ela ouviu Maria: “Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro em mim”. Mesmo quando eles parecem não estar prestando atenção, as crianças menores com freqüência nos surpreendem quando as ouvimos recitar exatamente o que nós pensávamos que eles tinham deixado passar (às vezes, para nosso deleite ou desgosto). A partir do momento em que uma criança nasce (ou talvez mesmo antes disso), os pais começam a ensinar seus filhos falando, cantando e praticando perante eles a vida cristã. O fato de elas não poderem articular ou imitar imediatamente tudo o que compartilhamos com elas não nos leva a parar de ensiná-las. Nós sabemos que logo elas vão pegar e imitar o que lhes foi ensinado. Mesmo que a criança não entenda tudo o que ela está fazendo, ela está aprendendo que essas são as coisas que o povo de Deus faz. No seu tempo ela entenderá por quê.

Não há nada mais importante para uma criança aprender do que o culto a Deus, privado e na congregação. Essa é uma das principais obrigações de todas as criaturas de Deus. Assim como ensinamos nossos filhos a andar e a falar, ao mesmo tempo nós deveríamos diligentemente ensiná-las as Escrituras e como elas devem adorar a Deus ao “sentarem em sua casa”, ao “andarem pelo caminho”, ao “deitar”, ao “levantar” (Dt 6:6-7). Nós temos um exemplo claro na Bíblia da importância desse treinamento desde cedo encontrado em 2 Timóteo 3:15, onde o apóstolo Paulo escreve a Timóteo, dizendo: “E que desde a infância sabes as sagradas letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus.” A palavra grega para “infância” neste texto é a palavra usada para descrever um bebê de berço. Sem dúvida, o infante Timóteo ouviu a palavra de Deus da boca de sua mãe fiel Eunice e de sua avó Lóide desde que nasceu.

Ser adulto não é garantia de que se aprenderá ou compreenderá a verdade de Deus. Jesus é grato porque a verdade é revelada mesmo aos imaturos: “Naquela hora exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10:21). Enquanto possa ser um mistério para os adultos, contudo Deus é claramente capaz de se comunicar com e receber louvor até mesmo de bebês. De fato, nós lemos a profecia no Salmo 8:2 de que, na verdade, é assim que acontece; uma profecia que foi cumprida em Mateus 21:15-16: “Mas vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que Jesus fazia, e os meninos clamando: Hosana ao Filho de Davi, indignaram-se, e perguntaram-lhe: Ouves o que estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?” Embora os cristãos não devam ser místicos, entretanto, também não devemos rejeitar o fato de que há mistérios nos caminhos de Deus, e que o Espírito, assim como o vento, “sopra onde quer” (Jo 3:8).

Crianças são membros da comunidade do pacto

Nós precisamos entender de forma clara que todas as promessas de Deus com relação ao pacto pertencem a “ti e teus filhos”. Os filhos da aliança são membros da comunidade da aliança e tem direito a seus benefícios. Assim como a circuncisão era um benefício dos judeus [“Muita, sob todos os aspectos” (Rm3:2)], assim também, aqueles que receberam o sinal do pacto e selo do batismo têm todos os privilégios do pacto. Paulo especialmente aponta para o fato de que o principal privilégio deles é que a eles foram dados “os oráculos de Deus”. Em outras palavras, a Palavra de Deus é dada a todos os membros da comunidade do pacto, incluindo as crianças pequenas.

Quando Moisés reuniu a congregação do Senhor, pelo que Deus os estabeleceu como Seu povo da aliança, a congregação estava toda incluída: “Vós estais hoje todos perante o Senhor vosso Deus: os cabeças de vossas tribos, vossos anciãos e os vossos oficiais, todos os homens de Israel: os vossos meninos, as vossas mulheres, e o estrangeiro que está no meio do vosso arraial; desde o vosso rachador de lenha até ao vosso tirador de água; para que entres na aliança do Senhor teu Deus, e no seu juramento que hoje o Senhor teu Deus faz contigo; para que hoje te estabeleça por seu povo, e ele te seja por Deus, como te tem prometido, como jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó. Não é somente convosco que faço esta aliança, e este juramento, porém com aquele que hoje aqui está conosco perante o Senhor nosso Deus, e também com aquele que não está aqui hoje conosco” (Dt 29:10-15).

O pacto de Deus com seu povo obviamente inclui não apenas seus filhinhos, mas até mesmo aqueles ainda não são nascidos. Esse pacto continua na Nova Aliança, onde a promessa é ratificada no dia de Pentecoste: “Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar” (At 2:39). As epístolas do Novo Testamento são com freqüência endereçadas aos membros constituintes da família da aliança, i.e., maridos, pais, mulheres, mães, filhos e servos (cf. Ef 5:6; Cl 3:18-25).
Os filhos eram centrais na obra da Antiga Aliança e, sendo que a Nova Aliança não é senão uma expansão da Antiga Aliança, eles continuam a ser centrais na obra redentora de Deus entre Seu povo. No coração da aliança de Deus com Abraão estava a condição que Deus estabeleceu a Abraão: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor, e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18:19).

Crianças pequenas devem ser incluídas na reunião do culto público?

Esta é uma importante pergunta. Nós encontramos precedentes bíblicos tanto para resposta afirmativa como para negativa, ou talvez melhor dizendo: às vezes, sim; e às vezes, não. Com freqüência, quando a Bíblia se refere à assembléia do povo de Deus ou à congregação, as crianças menores estão incluídas. Por exemplo, em 2 Crônicas 20:13: “Todo o Judá estava em pé diante do Senhor, como também as suas crianças, as suas mulheres, e os seus filhos”; e em Josué 8:35: “Palavra nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros, que andavam no meio deles”. Da mesma forma, em Joel 2:15 nós lemos: “Tocai a trombeta em Sião, promulgai um santo jejum, proclamai uma assembléia solene. Congregai o povo, santificai a congregação, ajuntai os anciãos, reuni os filhinhos e os que mamam; saia o noivo de sua recâmara, e a noiva de seu aposento.” Logo após este chamado de trombeta nesta profecia (2:28-32), Pedro nos diz que Joel estava falando do derramamento do Espírito Santo no Dia de Pentecostes.

O próprio Jesus pensou que era apropriado que crianças fossem trazidas à sua presença: Marco 10:13-16: “Então lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava.” Novamente, a palavra grega usada aqui é “bebês”. Parece ser um erro proibir mesmo as crianças mais pequenas de participar do culto a Cristo.

Como regra, os filhos da aliança devem estar presentes com a congregação no culto. Eles fazem parte do corpo unido e por isso devem fazer parte do culto unido. Isso faz parte da essência de quem eles são como filhos do pacto, contudo, isso não é o mesmo que dizer que seja sempre necessário que esses pequeninos estejam presentes em todo tipo de reunião congregacional. Algumas reuniões podem não ser apropriadas para crianças muito pequenas. No Velho Testamento nós vemos que três vezes ao ano apenas os homens apareciam perante o Senhor, e em Neemias 8:2 nós lemos: “Esdras, o sacerdote, trouxe a lei perante a congregação, assim de homens como de mulheres, e de todos os que eram capazes de entender o que ouviam. Era o primeiro dia do sétimo mês.” Algumas reuniões podem ser especialmente engendradas para homens, ou pastores, ou alguma outra ocasião especial. Elas podem ser muito longas para crianças pequenas, como no caso de conferências com múltiplas sessões, ou (como no caso citado acima) o assunto simplesmente esteja além de sua compreensão. Contudo, essas reuniões são primariamente mais para instrução do que para culto.
Quando crianças são trazidas ao culto é essencial que os pais estejam conscientes do fato de que não basta que simplesmente elas estejam presente, mas também que elas devem ser treinadas no modo apropriado de cultuar. As crianças devem ser ensinadas a sentar e permanecer quietas em respeito a seus pais e aos outros, e elas devem também aprender que a razão disso é a honra e a adoração a Deus. Os pais, da mesma forma, têm uma obrigação para com os outros adoradores e para com o próprio Deus em não permitir que seus filhos se distraiam no culto. É responsabilidade dos pais ensinar, disciplinar e manter controle de seus filhos no culto. O objetivo é treinar as crianças a exercer autocontrole e aprender como adorar.

Os pais devem estabelecer de forma clara as regras de comportamento para suas crianças, assim como ajudá-las a entender a razão por que elas estão no culto. Durante o processo deste treino as crianças inevitavelmente cruzarão linhas e precisarão de mais ensino, reprovação, correção e instrução na justiça (2 Tm 3:16). Eu mencionei na introdução que as congregações “deveriam se regozijar ao ouvir o barulho de infantes em seu meio”. Um dos sons sobre o que elas deveriam se regozijar são os sons da disciplina: uma criança senso discretamente corrigida por seu pai ou mãe, ou até o som ocasional de choro ao serem elas levadas do santuário para uma forma mais intensa de repreensão.

Pais com crianças muito pequenas, ou aqueles com filhos no processo de serem treinadas, deveriam sentar próximo à porta e estar preparadas para discretamente sair do santuário, se seus filhos começarem a chorar, ou, do contrário, distrairão os outros. Um choramingo ou acalento ocasional é normal e geralmente não requer muito mais que pegar a criança e embalá-la ou dar-lhe palmadinhas nas costas. Contudo, se isso não for o suficiente para sossegar a criança, os pais devem, por cortesia e respeito pelos outros e pelo culto, retirar seu filho da assembléia até que ele tenha sido acalmado.

Crianças que estão começando a andar são um desafio diferente para os pais. A esta altura elas deveriam estar treinadas a entender o que a palavra “não” significa e deve-se esperar que permaneçam sentadas durante o culto tranquilamente. Se fracassarem em fazer assim, então elas devem ser tratadas como em qualquer outra desobediência obstinada (i.e., pecado) e a disciplina apropriada deve ser aplicada. Todos nós entendemos que elas são “crianças pequenas”, mas lembre-se, nossa responsabilidade como pais é trazê-las à maturidade ensinando-as o que devemos e insistindo que elas obedeçam. Se uma criança está geniosa porque esteve doente, ou está nascendo dente, ou tem alguma outra razão legítima para não se sentir bem, então, talvez, não seja adequado que ela esteja presente com a congregação nesse dia. Entretanto, mesmo cansada ou doente as crianças não devem ser permitidas que pequem. Algumas sugestões práticas para pais de crianças que estão começando a andar são:

1. Fique certo de que você deixou claro quais são as regras de comportamento com relação ao que você espera de seu filho durante o culto (ex: não falar, não fazer outros barulhos, mexendo-se, rasgando papel, dando voltas ao redor do assento, etc.).Ensine-o para o que é o culto, usando termos apropriados para a sua idade. Pratique durante o culto doméstico como eles devem se comportar no culto público: ensine-os a ficar quietos quando a Bíblia é lida, a ouvir o pregador, e a cantar salmos e hinos. Se você faz culto regularmente e com ordem em casa, você não deverá ter problema no culto público no Dia do Senhor.

2. Pais sabem quais são as necessidades de seus filhos. Algumas crianças precisam queimar um pouco de energia (ex: correndo e brincando), enquanto outras é melhor que não se firam antes ou entre os cultos. Em ambas, os pais são responsáveis por ajudá-las a estarem preparadas para o culto e as crianças têm o dever de obedecer aos seus pais e a se conduzirem de maneira respeitosa.

3. Leve-os à sala de descanso e para tomar água antes ou entre os cultos.

4. Se seu filho quebrar as regras durante o culto, e uma correção menor não o fizer se conformar, então os pais deverão retirar-se com a criança, discipliná-la e trazê-la de volta. Levá-la simplesmente para fora do culto ou levá-la à sala de berço sem disciplina não funcionará. Eles simplesmente aprenderão que seu mau comportamento os habilita a manipular seus pais.

5. Quando os pais ensinam a seus filhos de forma consistente que o que eles dizem é sério e os punirão de forma consistente se eles não obedecerem, suas crianças estarão mais inclinadas a atender à correção sussurrada durante o culto.

6. Os pais devem ter em mente que o “culto de uma criança que está aprendendo a andar” vai parecer diferente do culto adulto. Elas podem segurar o hinário de cabeça para baixo, ou dizer amém na hora errada. Além do mais, isso variará de criança para criança e elas não aprenderão todas do mesmo jeito ou ao mesmo passo. O importante é que elas estão aprendendo como adorar.

E sobre berçários?

É óbvio que nas Escrituras há um silêncio sobre aquilo que passamos a chamar de berçário. O princípio bíblico que governa esta questão é o fato de que os pais são responsáveis por seus filhos. A igreja não tem nenhuma obrigação específica de providenciar serviços com crianças, embora certamente obras de misericórdia possam conclamar por ajuda voluntária em circunstâncias especiais. Todos vimos com simpatia os fardos de uma mãe de primeira-viagem ou uma mãe com muitos filhos. Às vezes, ela se sente sobrecarregada com suas responsabilidades e pode pensar: “Não vale a pena ir à igreja, se tenho que lidar com todas essas crianças.” Talvez as sugestões seguintes possam ser de alguma ajuda:

1. Os pais deveriam providenciar algum tempo livre para as mães durante a semana, cuidando das crianças eles mesmos ou pelo menos assegurando que sua esposa tenha outra forma de assistência de seus constantes labores. Isto evitará que o domingo pareça ser o único tempo que ela tenha uma folga.

2. Membros regulares da igreja devem trazer seus filhos ao culto imediatamente, a fim de começar a treiná-los em uma das coisas mais importantes que Deus nos chama a fazer: adorar.

3. Membros amigos na igreja ou parentes podem ser chamados para auxiliar nessa tarefa de ajudar com as crianças durante o culto, especialmente quando há muitas crianças para cuidar.

4. Os diáconos devem assegurar que os assentos próximos à porta do santuário permaneçam disponíveis para pais com crianças pequenas a fim de facilitar melhor uma saída necessária.

5. Os diáconos, onde for possível, poderiam providenciar uma “sala do choro” para mães e seus filhos. Essa sala poderia ser equipada com som, vídeo ou um vidro com película espelhada de modo que as mães possam ainda receber alguma porção do culto, se elas precisarem estar ausentes temporariamente.

6. Uma lista de voluntários para trabalhar no berçário deveria ser mantida em caso de necessidades especiais, especialmente para visitantes cujas crianças possam não ficar sob controle ou não estar preparadas para permanecer sentadas durante o culto.

Conclusão

Obviamente, crianças pequenas devem fazer parte do culto. Elas estão prontas para participar junto com a congregação tão logo os pais assumam a responsabilidade de ensinar, treinar e disciplinar seus filhos para o culto. Certamente, há exceções em que não será sábio ou apropriado que crianças pequenas estejam presentes numa reunião congregacional. Nesses casos, embora os pais continuem responsáveis pelo cuidado de seus filhos, um berçário voluntário poderá se provar um genuíno serviço cristão para se lidar com essas necessidades temporárias. Quando os pais levam a sério sua responsabilidade em treinar seus filhos para participar do culto do Senhor (respeitando as necessidades dos outros presentes), então seus pequeninos serão um deleite para todos: especialmente para o Senhor. Da mesma forma, a paciência, orações e auxílio dados a esses pais e crianças pelo resto da congregação facilitará a preparação dos filhos da aliança para o culto. Esse labor será muito válido quando outra geração de crianças for habilitada para servir e adorar fielmente ao nosso glorioso Deus.

_______________
Robert [Randy] Booth tem sido pastor da Igreja Presbiteriana do Pacto da Graça (PCA) em Texarkana, Arkansas, nos últimos 16 anos. Ele também serve como diretor da Covenant Media Foundation e é um membro do corpo docente da Veritas Classical Christian School, e é o autor do livro Filhos da Promessa.

Extraído do Ordained Servant, vol. 8, nº 4 (Outubro 1999).
Revisado por Ewerton B. Tokashiki

23 fevereiro 2018

Um breve e-mail ao Pr Gnésio Carismato

[o e-mail e o pastor são fictícios]

Meu querido Rev Gnésio Carismato

Quanta saudade!

É triste morarmos tão longe um do outro e não podermos, de vez em quando, beber um cafezinho acompanhado de pães de queijo. Os meus filhos sentem falta de seus “causos” e aquelas boas piadas que você conta tão bem.

Meu nobre irmão resolvi enviar este e-mail a fim de falar, com temor e tremor no Senhor, acerca de algo que você anda escrevendo. Recentemente li algumas de suas cartas na internet e tenho tirado bom proveito delas. Entretanto, preciso observar que embora elas gotejem alguma sabedoria e instruam a muitos em linhas gerais, parece-me que quem conhece o contexto de alguns assuntos nestes escritos, na verdade soam como desabafos de mágoas não resolvidas, e desafetos que ainda incomodam os seus pensamentos. Talvez, seja apenas uma errônea impressão minha, mas outros leitores têm a mesma percepção. Admiro-o, e não gostaria que as pessoas o lessem, lendo as entrelinhas, e percebendo que, às vezes, o amor cristão está ausente. E pior, que você está atacando, envergonhando, desmoralizando e matando a reputação de irmãos que poderiam ser corrigidos numa conversa franca, conforme nos instruí o Senhor Jesus em Mt 18.

Mas você também poderia ponderar que, talvez, a sua opinião esteja errada, e você se faz reprovado ao condenar o que pode ser verdadeiro. Afinal, somos uma igreja confessional, e este é o critério objetivo para julgar questões doutrinárias e morais, práticas litúrgicas, tradições ou inovações. Os padrões de fé são a norma normata, e nós juramos, em nossa ordenação, subscrição integral a estes documentos. Declaramos vigorosamente "sim" quando questionados se "2º. Vocês recebem e adotam a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?". Somos confessionais, então, pratiquemos a subscrição confessional.

Preocupo-me com a sua boa reputação, porque você é alguém muito querido ao meu coração. Meu irmão, se há alguma mágoa, algum pecado que precisa ser confessado, odiado e rejeitado, então o faça. Faça-o primeiro diante do Senhor, e se for necessário procure quem for preciso, mas não direcione a sua indisposição contra os nossos irmãos em Cristo, causando divisões, e fazendo sangrar o corpo do Redentor. Infelizmente, às vezes, as suas cartas têm ajudado a criar espantalhos, e lembre-se, pessoas machucadas atacam pessoas, e por vezes, usam rótulos amorfos convergindo neles sentimentos pecaminosos. Não criemos rótulos confusos que mais prejudicam do que esclarecem. Se discordamos de ideias ou doutrinas, seja o pensamento a arena de discussão, e não as nossas relações fraternas. Creio que na promoção de inimizades no meio da nossa denominação Deus não está sendo glorificado! Não alimente o pecado dessas pessoas.

Quando vier por estas bandas avise-me com antecedência. Quero recebê-lo em minha casa, e você sabe que a minha esposa e filhos o amam, e é sempre uma alegria tê-lo conosco. Você é bem-vindo ao meu lar!

P.S.* ainda aguardo que me devolva o livro que lhe emprestei. Antes tarde do que nunca kkkk

Um forte abraço,
De seu conservo.

23 janeiro 2018

Quem deve pregar a Palavra de Deus? - CMW Q/R - 158

Por Johannes Geerhardus Vos



Pergunta 158. Por quem deve ser pregada a Palavra de Deus?
R. A Palavra de Deus deve ser pregada somente pelos que forem suficientemente dotados e devidamente aprovados e chamados para tal ofício.

Referências bíblicas
• 1Tm 3.2, 6; Ef 4.8-11; Os 4.6; Ml 2.7; 2Co 3.6. Aqueles que pregam a Palavra de Deus publicamente devem possuir obrigatoriamente certas qualificações definidas na Bíblia.
• Jr 14.15; Rm 10.15; Hb 5.4; 1Co 12.28-29; 1Tm 3.10; 4.14; 5.22. A Palavra de Deus deve ser pregada publicamente somente pelos que foram legitimamente chamados para o ofício do ministério da Palavra.

Comentário

1. Essa pergunta do catecismo trata especialmente de que tipo de pregação da Palavra?
Trata da pregação da Palavra numa congregação da igreja de Cristo. Pode-se inferir isso das palavras “em público para a congregação” na resposta da Pergunta 156. Quem não for ministro ordenado ou licenciado pode testemunhar de Cristo em particular ou em público, conforme a oportunidade o permita, mas a pregação pública oficial da Palavra na igreja deve ser feita apenas por aqueles devidamente separados para essa obra.

2. Por que a pregação oficial da Palavra deve ser feita só “pelos que forem suficientemente dotados”?
Claro está que a pregação da Palavra é uma obra de importância muito grande. São necessárias as qualificações apropriadas para que seja feita de maneira adequada. Há qualificações espirituais, intelectuais e educacionais sobre as quais se deve insistir para que a igreja tenha um ministério adequado. Um homem que não tenha nascido de novo e que não seja um consistente crente em Cristo, não tem obviamente condição de pregar a Palavra de Deus aos outros; seria apenas um cego conduzindo outro. Um homem incapaz de pensar corretamente, incapaz de detectar falácias de um argumento perverso, é passível de ser ele mesmo desviado por um falso ensinamento e, por sua vez, capaz de desviar outros. Um homem a quem falta educação geral e teológica normalmente não será capaz de fazer justiça à grande obra de pregação da Palavra de Deus e correrá o perigo de pregar uma mensagem desequilibrada ou parcial. Quando Deus chama um homem para a obra do ministério, também o aparelha com as habilidades e qualificações necessárias para que possa realizar a obra adequadamente.

3. Por que a nossa igreja, e a maioria das igrejas protestantes, exige a formação superior completa num seminário para o ofício do ministério?
Quanto mais importante for a obra, mais importante será que tenham o treinamento adequado os que a realizarão. Sempre tem havido quem ache que seja perda de tempo, em maior ou menor grau, gastar sete anos na formação superior num seminário, preparando-se para a obra do ministério. Há hoje em muitas denominações a pressão constante para que essas exigências sejam relaxadas e que sejam admitidos no ministério homens que tenham menos do que isso. Alguns consideram quer as matérias ensinadas em um curso superior – como filosofia, história e literatura – sejam inúteis ao ministério e uma perda de tempo que deveria ser investido “ganhando almas”. Há, da mesma maneira, quem pense que um breve “Curso de Bíblia” e mais algumas matérias práticas como a retórica religiosa (homilética) e prática pastoral devam ser suficientes e que o amplo estudo de Hebraico, Grego, História Eclesiástica e Teologia Sistemática sejam desperdício de tempo.
Ninguém que precisasse passar por uma cirurgia estaria disposto a ir a um cirurgião que obteve o seu treinamento através de atalhos. O Estado insiste, corretamente, que aqueles cujas decisões e ações envolva a vida ou a morte de seus semelhantes estejam plenamente treinados para o exercício de seu ofício. Quão mais importante é que os ministros do evangelho, cujo trabalho pode afetar o destino eterno de seres humanos, estejam plenamente instruídos para a tarefa a eles designada. Considerando-se o espaço tempo necessário ao treinamento na medicina e de outras doutas profissões, os quatro ou cinco anos empenhados no curso superior de um seminário não são demasiados para o treinamento ministerial.
O ministro a quem faltar o treinamento num seminário dificilmente conseguirá entender o mundo moderno ao qual ele tem de entregar a sua mensagem. O estudo de filosofia, história e de outras matérias acadêmicas está longe de ser uma perda de tempo. Elas apresentam o cenário do pensamento moderno e habilitam o ministro a proclamar todo o conselho de Deus de um modo que confronte cabalmente a situação dos dias presentes. Semelhantemente o estudo de Grego, Hebraico, Teologia Sistemática, etc., é qualquer coisa, menos perda de tempo, pois permitem ao ministro conhecer de primeira-mão a Bíblia e seus ensinamentos, e pregar uma mensagem bíblica, consistente e integrada.
A tendência moderna de contar os estudos “teóricos” e aumentar os estudos “práticos” na preparação para o ministério é deplorável e deve ser resistida. Existem dois tipos de seminários teológicos e institutos bíblicos. Num deles o alvo é instrumentar o estudante com uma certa quantidade de material pronto com o qual ele pode sair e ir pregar. No outro, o objetivo é colocar nas mãos do estudante as ferramentas do estudo bíblico e da pesquisa teológica e treiná-lo para usá-las corretamente. Daí, então, ele pode sair e pregar e a matéria-prima da sua pregação jamais vai se esgotar enquanto viver. Cremos que este último é que é o único e apropriado tipo de treinamento para a obra do ministério.
Não se deve entender, pelo que foi dito, que jamais haja exceções a essas regras. É obvio que alguns discípulos do nosso Senhor tiveram pouca ou nenhuma educação formal, mas tornaram-se eficazes ministros da Palavra. Eles, no entanto, gozaram de inestimável vantagem de passarem três anos na companhia de Jesus sob a Sua instrução pessoal. Deus às vezes chama para o oficio ministerial um homem com pouca ou nenhuma educação formal e nesses casos excepcionais, onde está evidente a chamada divina, a igreja não deve hesitar e, ordenar o candidato ao ministério. Tais casos, contudo, são muito raros, especialmente em dias em que são normais as oportunidades para a aquisição da educação. Não se deve permitir que a exceção torne-se regra.

4. Que significa “devidamente aprovados e chamados”?
Há uma chamada divina para o ministério e uma chamada para a igreja. Devemos lembrar sempre que o ministério não é uma profissão, mas um ofício. Ninguém pode simplesmente decidir tornar-se um ministro da mesma maneira que decide tornar-se advogado ou exercer uma linha de trabalho. É preciso ter alguma razão para se crer que seja chamado para o ministério. Isso não quer dizer uma revelação especial do céu, como um sonho ou uma visão, mas a consciência de que se possui em alguma medida as qualificações exigidas, juntamente com o sincero desejo de pregar o evangelho, a disposição para fazer sacrifícios pela causa de Cristo e de empenhar-se para obter a preparação necessária. Deus conduzirá ao ministério, as Sua própria maneira, àqueles a quem Ele chamar.
A chamada da igreja consiste, primeiro, em autenticar a chamada de Deus pela “devida aprovação” do candidato, suas convicções religiosas, sua habilidade geral e a sua preparação acadêmica e teológica. Essa “aprovação” está normalmente dividida em vários estágios. Primeiro, o candidato é recebido sob os cuidados de um presbitério como estudante para o ministério; depois de uma preparação parcial ele é licenciado para pregar; finalmente, depois de completada a preparação e com o convite de uma congregação ou junta missionária é ordenado ao ofício do ministério.
A chamada formal da igreja é o convite de alguma congregação para que o candidato venha ser o seu pastor, ou de alguma junta missionária ou outra agência da igreja visível para que o candidato se engaje na obra missionária local ou no estrangeiro, ou em algum outro aspecto da obra ministerial. Em todo caso, antes que o homem seja ordenado, deve haver uma chamada definitiva – seja para o pastorado de alguma congregação ou de outro campo de trabalho específico.
5. Por que antes de entrar no ofício ministerial o homem tem de ser devidamente chamado por Deus e pela igreja?
Nem mesmo o nosso Senhor Jesus Cristo fez de si sumo sacerdote, mas foi chamado por Deus para esse ofício da mesma maneira que Arão o fora (Hb 5.4-5). Apesar disso existem hoje muitos pregadores e missionários freelancers e independentes. Essa é uma tendência errada e deve ser desencorajada. Muitos desses pregadores e missionários independentes podem verdadeiramente ter sido chamados por deus e podem estar fazendo um bom trabalho pregando a Cristo, e este crucificado; mas há uma certa falta de consideração e negligência da igreja visível como instituição divina comprometida com a atitude deles, e3 que não pode ser aprovada. O chamado de Deus e o chamado da igreja não são antagônicos, toda verdadeira igreja é instrumento de Deus para o treinamento e o ordenamento de homens no ofício ministerial. Alguns há que, alegando uma piedade superior, sustentam que a chamada de Deus é suficiente e que eles não precisam da chamada e da ordenação da igreja. Essa falta de respeito para com a igreja visível não é bíblica e deve ser desestimulada.


Extraído de Johannes Geerhardus Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (São Paulo, Editora Os Puritanos, 2007), pp. 508-511.
Revisado por Ewerton B. Tokashiki

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21 janeiro 2018

Sete marcas de um ministério do púlpito puritano

Por Chad van Dixhoorn


Os membros da Assembleia em sua reforma do ministério da pregação na Inglaterra, concordaram com um rígido delineamento do que seria o perfil dos pregadores e a natureza da pregação. Este estudo final resume sete pontos de uma visão puritana dominante acerca do púlpito como articulado pela Assembleia de Westminster e seus membros.

1. Os embaixadores de Deus: pregadores ordenados
A primeira marca do púlpito puritano é que ele seja ocupado por um homem, ordenado para o Ministério do Evangelho, pela Igreja de Cristo. George Gillespie (1613-1648) teve a ordenação em mente quando recordou uma importante questão feita pelo apóstolo Paulo: “como eles pregarão, a menos que sejam enviados”? Com isso, ele inferiu que os pregadores recebem um chamado especial e um ofício especial. Nem toda ovelha é um pastor. Nem todo cidadão é um embaixador.
Gillespie estava respondendo aos contemporâneos que achavam que não havia “um chamado sagrado, nem a separação solene dos homens para o ministério”, uma visão que ele achava impraticável e não bíblica. Ele retrata o caos se todos fossem pregadores, e ele retorna à palavra do apóstolo Paulo: alguns são separados; apenas eles são “enviados”. Esse é o núcleo da doutrina da ordenação.

2. Pregadores treinados
Os ministros precisavam ser ordenados e igualmente serem treinados. John Lightfoot (1602-1675) argumentou que o estudo era necessário para que alguém fosse um pregador, pois ele foi necessário até mesmo para os apóstolos. Eles se comprometeram a “ouvir, estudar, conferir e meditar”, e estavam com o próprio Cristo por um ano inteiro, antes de serem enviados para pregar.
Alguns “criticam aprender e estudar”. Mas Thomas Goodwin (1600-1680) observa que se exigiu de Timóteo que estudasse. Goodwin argumenta que a pregação extemporânea apenas, sem estudo, é realmente contrária à Escritura. Ele também comenta (perceptivamente) que aqueles que argumentam contra o estudo ainda dependem muito do que ouviram e discutiram. Ninguém entra no púlpito como uma lousa em branco.
Mas isso não significava que a sua erudição sempre fosse exibida no púlpito. Em um longo debate na Assembleia de Westminster, alguns homens argumentaram contra citar autores ou usar frases estrangeiras no púlpito. John Arrowsmith (1602-1659) era daqueles que discordava. Exibições de aprendizagem seriam permitidas e ele não resistiria em citar Agostinho (em latim) para mostrar que esta não é uma nova opinião na igreja.

3. Pregadores piedosos
Os pregadores precisavam ser ordenados e treinados, mas também precisavam ser “piedosos”, uma palavra que resume muito do que se diz sobre os presbíteros em 1 Timóteo e Tito. Na verdade, à Assembleia de Westminster foi dada a responsabilidade de identificar os ministros envolvidos em escândalos para que fossem removidos dos púlpitos, e substituídos por ministros instruídos e piedosos.
Inicialmente, o Parlamento exigiu que a Assembleia examinasse os candidatos acerca da sua instrução e piedade. Na primavera de 1646, o parlamento mudou de opinião sobre o critério da piedade e exigiu que a Assembleia examinasse os pregadores somente se eram instruídos.
A Assembleia suspendeu a mudança da redação imediatamente e resolveu não aprovar novos ministros até que o problema fosse resolvido. Depois de alguns dias de deliberação, eles enviaram apenas o Dr. Peter Smith (1586-1653) para uma comissão do Parlamento para pressionar o caso da Assembleia. A Assembleia escolheu seu homem com sabedoria, pois ganhou a sua causa e retomaram a questionar os pregadores sobre a doutrina e a vida deles. A Palavra de Deus não deixa espaço para se comprometer a piedade.

4. A Palavra de Deus
A quarta característica de um ministério do púlpito puritano é frequentemente encontrada nas exortações aos ouvintes dos sermões, e não apenas aos pregadores. Os ministros precisavam ser ordenados, instruídos e piedosos, porque (citando Gillespie novamente) os ouvintes deveriam “receber a palavra da boca dos ministros, como Palavra de Deus”. De acordo com William Gouge (1575-1653), esta é a mensagem de Hebreus 13, que diz: “Lembrai-vos dos que dominam sobre vós, que vos falaram a Palavra de Deus”. Poderia “adequadamente o som da voz de um homem, naquilo que os verdadeiros ministros de Deus pregam, no exercício de seu ofício ministerial, é a Palavra de Deus”.
Jeremiah Burroughs pontuou vinculando à Isaías 66 – “e que tema a minha Palavra” – para promover um pouco de reverência entre seus ouvintes. Um homem, ou mulher, temente à Deus, diz ele, não vem “ouvir a Palavra do modo comum, simplesmente para passar o tempo, ou ouvir o que um homem pode lhe dizer”. Pelo contrário, a Palavra, “lida ou pregada”, é recebida “com reverência”. Ele examina a pregação, mas “não se sofisma contra ela”.
Burroughs apresenta o rei Eglom de Moabe como um exemplo a ser seguido pelos santos, é claro, que não em seus caminhos “pagãos”, nem em sua morte intempestiva e nojenta, mas como alguém que se levantou para receber Ehud como embaixador com “uma mensagem de Deus “. Burroughs então empurra a faca um pouco mais fundo, perguntando a seus ouvintes se seus “corações”. . . inundam contra a “pregação”, perguntando o que eles realmente pensam sobre a pregação e denunciando a ironia daqueles que pensam que escaparam do mundo, mas ainda mostram o pior orgulho de se rebelar contra a Palavra de Deus.
Essa discussão de irreverência e orgulho é a premissa básica, óbvia para Burroughs, de que a pregação fiel da Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Porque a pregação é a Palavra de Deus, a irreverência e o orgulho são escandalosos.

5. Os meios de graça externos e ordinários: a pregação
Se a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus, então, qual é o seu lugar na vida e no culto cristão? Não surpreendente que os teólogos respondam que a pregação é o meio comum da graça para os cristãos, que é o meu quinto ponto. Anthony Burgess (falecido em 1664) afirma que o ministério fiel da Palavra é “o caminho certo e comum para a conversão dos homens de seus caminhos perversos”.
Ele afirma isso mais vigorosamente em sua exposição de 1 Co 3: “O ministério é o único caminho comum que Deus designou, quer para o começo ou o auge da graça”. Afinal, “fé é recebida pelo que se ouve”, e em seu próprio texto informa aos corintos que Paulo e Apolo eram os “ministros por meio de quem eles creram”.
Em 1649, William Greenhill (1597/8-1671) dedicou um prefácio a uma parte de seu comentário de Ezequiel para a defesa da primazia da pregação, pois “onde a Palavra de Deus não é exposta, pregada e aplicada” o povo “perece”.
Mas esse é sempre o caso? E se as pessoas não se beneficiarem dos sermões? Alexander Henderson (c. 1583-1646) admitiu em um sermão: “Conheço muitos de vocês que disseram, quando saíram da pregação. . . que suas almas não foram nada melhoradas por ela”. As pessoas eram, talvez, um pouco mais francas naqueles dias! Uma questão que muitos puritanos perguntariam aos pregadores quando surgisse o problema: eles estavam pregando à Cristo?

6. Pregação centrada no Cristo
Quando ele leu sobre a prática de Ezequiel de proclamar tudo o que o Senhor lhe mostrou, Greenhill teve pouca dificuldade em ver um imperativo aos ministros: eles devem somente pregar e pregar tudo o que eles aprendem na escola de Cristo.
Ecoando sentimentos semelhantes, Obadiah Sedgwick (1599/1600-1658) afirma que o sermão é “um trabalho inútil se expor qualquer coisa, se não for a Cristo”. Os ministros devem “fixar a convicção de pregarem a Cristo”. Novamente, “seus esforços na pregação, resultarão em pouco, talvez em nada, se não for Cristo, ou algo em referência a Cristo, no qual você insiste laboriosamente na pregação”.
Goodwin afirma que os pregadores “acrescentariam mais beleza aos seus próprios pés” se pregassem mais o evangelho e menos “verdades de momentos insignificantes”. Esses sentimentos são tão comuns nos escritos dos teólogos que eu considero a pregação centrada em Cristo como a sexta das sete marcas de um ministério do púlpito puritano.
Como Arrowsmith escreve, os verdadeiros ministros “confirmaram Cristo em seu ministério; eles se contentam em ficar na multidão e levantar Cristo sobre os ombros; conteúdo, não para ser visto, para que Cristo seja exaltado”.

7. “A obra do Espírito”
A última, mas não menos distinta marca de um ministério do púlpito puritano, é a dependência do Espírito Santo. Argumenta-se que a pregação dos puritanos estava sempre pronta para admitir que a pregação não parecia ser um meio sensato de avançar o evangelho. Mesmo no século XVII, a pregação era “muito desprezível e indesejável para a razão humana”.
Mas o chamado “problema” com a pregação é em si a resposta. Deus escolheu deliberadamente um meio humilde que ampliaria a sua própria grandeza e a obra do Espírito Santo. Burgess retoma a figura de 1 Coríntios 3, onde Paulo lembra aos leitores que o pregador pode semear e regar, mas Deus é quem dá o aumento. Como na administração dos sacramentos, a pregação não é automaticamente efetiva. A Palavra, seja visível ou audível, precisa ser recebida pela fé que é dada pelo Espírito. E assim, embora os pregadores sejam descritos como cooperadores da obra de Deus, Burgess nos lembra que mesmo um ministro sendo fiel, pode não ter sucesso porque “o sucesso é a obra de Deus, e não o dever dos ministros”.
Samuel Rutherford (1600-1661) diz o mesmo, e aplica essa verdade muito mais a pregação. Ele nos lembra que o benefício de tudo o que fazemos depende da “obra do Espírito”. E, assim como, às vezes, refletimos sobre nossos pecados e falhas como pregadores, lembremo-nos do poder do Espírito Santo e da graça de Deus através de Jesus Cristo – não apenas pelo bem de nossos ouvintes, mas também por nós mesmos.


Este artigo é um extrato e adaptação do livro de Chad Van Dixhoorn, God’s Ambassadors: The Westminster Assembly and the reform of the English pulpit, 1643-1653. Nele são encontradas notas de rodapé, referências e discussões mais completas sobre este assunto.

Extraído DAQUI

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki