20 setembro 2017

A doutrina da Igreja Católica Romana de servir um elemento na Eucaristia

Quando e com qual fundamento a Igreja Católica Romana, no ato da Eucaristia, distribui apenas a óstia, negando aos fiéis o cálice do vinho? Recorrendo aos seus documentos oficiais este breve artigo intenciona responder a questão.

A decisão de dar apenas o pão ocorreu no Concílio de Constança, que é o 16º ecumênico, de 5 Novembro de 1414 à 22 Abril de 1418, na sessão 13ª, de 15 Junho de 1415, no Decreto Cum in nonnullis, confirmado pelo Papa Martinho V, em 1 Setembro de 1425. Este decreto é repetido nas constituições de In eminentis de 1 Setembro de 1425 (BarAE, ao ano de 1425, n. 18 / Theiner 28,27) e Apostolicae sedis praecellens de 25 de Janeiro de 1426, declarando que

em algumas partes do mundo, alguns ousam temerariamente afirmar que o povo cristão deve receber o santo sacramento da Eucaristia sob as duas espécies do pão e do vinho e fazem comungar em geral a assembleia dos leigos não só com a espécie do pão, mas também com a do vinho, inclusive depois da refeição ou doutro modo sem jejum. Eles sustentam obstinadamente que este é o modo de se comungar, opondo-se ao louvável costume da Igreja, justificado também racionalmente, que de modo condenável procuram reprovar como sacrílego: por isso, este Concílio … declara, decreta e define que, se bem que Cristo tenha instituído e administrado depois da refeição aos apóstolos este venerando sacramento sob ambas as espécies do pão do vinho, não obstante isso, a admirável autoridade dos sagrados cânones e o autorizado costume da Igreja têm declarado e declaram que este sacramento não deve ser administrado depois da refeição nem a fiéis que não estão em jejum, salvo no caso de doença ou de outra necessidade, concedido ou admitido pelo direito ou pela Igreja. E como este costume foi introduzido, com razão, para evitar perigos e escândalos, com análoga ou maior razão foi introduzido e observado este outro: se bem que na Igreja primitiva este sacramento era recebido pelos fiéis sob ambas as espécies, mais tarde, porém, era recebido pelos consagrantes sob ambas as espécies, mas pelos leigos somente sob a espécie do pão, pois é preciso crer com toda a firmeza e sem sombra de dúvida que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos, na sua integridade, tanto sob a espécie do pão, como sob a do vinho. Portanto, visto que foi introduzido com boa razão pela Igreja e pelos santos Padres e observada durante muitíssmo tempo, este costume deve ser considerado como uma lei que não pode ser reprovada nem modificada arbitrariamente, sem o consentimento da Igreja. É errôneo sustentar que a observância deste costume ou lei é sacrílega ou ilícita; e os que se obstinam em sustentar o contrário devem ser tratados como hereges ....[1]

No Concílio de Trento [1545-1563] houve a ratificação da prática estabelecida no Concílio de Constança, conforme decisão abaixo:

Doutrina da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Tendo presente o Sacrossanto, Ecumênico e Geral Concílio de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos mesmos Legados da Sé Apostólica, os vários e monstruosos erros que pelos malignos artifícios do demônio aparecem em diversos lugares acerca do Imenso e Santíssimo Sacramento da Eucaristia, pelos quais, parece que em algumas províncias, muitos se apartaram da fé e obediência à Igreja Católica, teve por bem expor agora a doutrina respectiva da Comunhão em ambas as espécies e a comunhão das crianças.

Com esta finalidade, proíbe a todos os fiéis cristãos o atrevimento, de ora em diante, de crer, ensinar ou pregar acerca da Comunhão, de qualquer outro modo que não seja o que é definido nos presentes decre-tos:

Cap. I - Os leigos e clérigos que não celebram, não estão obrigados, por direito divino, a comungar sob as duas espécies
Em continuidade, o mesmo Santo Concílio, ensinado pelo Espírito Santo, que é o Espírito de Sabedoria, Inteligência, Conselho e Piedade, e seguindo o ditame do costume da Igreja, declara e ensina que os leigos e os clérigos que não celebram a missa, não estão obrigados, por preceito divino algum, a receber o Sacramento da Eucaristia sob as duas espécies, e que não cabe, absolutamente, dúvida nenhuma, sem faltar à fé, que lhes basta, para conseguir a salvação, a comunhão de apenas uma das espécies. Pois, ain-da que Cristo, nosso Senhor, tenha instituído na última ceia este venerável Sacramento nas espécies do pão e do vinho, e o tenha dado a Seus Apóstolos, sem dúvida, não tem por finalidade aquela instituição e comunhão estabelecer a obrigação de que todos os fiéis cristãos devam receber devido a esse estabele-cimento de Jesus Cristo, uma e outra espécie. Nem tampouco se faça a coligação a bem do sermão que se acha no capítulo sexto de São João, que o Senhor mandasse, sob o preceito da comunhão das espé-cies, de qualquer modo que se entenda, segundo várias interpretações dos Santos Padres e Doutores, pois o mesmo que disse "Se não comeres a carne do filho do homem, nem beberes seu sangue, não terás a própria vida", disse também: "Se alguém comer deste pão, viverá eternamente". E aquele que disse: "Quem come Minha carne e bebe Meu sangue, consegue a vida eterna", disse também: "O pão que Eu darei, é Minha carne, que darei para vivificar o mundo". E finalmente, quem disse "Quem come de mi-nha carne e bebe do meu sangue, fica em Mim e Eu nele", também disse: "Quem come este pão viverá eternamente".

Cap. II - Do poder da Igreja para dispensar o Sacramento da Eucaristia
Declara também que na administração de seus Sacramentos, sempre teve a Igreja, poder para estabelecer ou mudar, salvada sempre a essência deles, quando tiver julgado ser o mais conveniente, de acordo com as circunstâncias das coisas, tempos e lugares, à utilidade dos que recebem os Sacramentos, ou à sua veneração. É exatamente isso que parece que insinuou o Apóstolo São Paulo, quando disse: "Devemos ser reputados como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus". E consta que muitas vezes o mesmo Apóstolo fez uso desse poder, tanto a respeito de outros pontos como dos Sacramentos, pois disse, quando fez regras a respeito de seu uso: "quando cheguar a hora, darei ordens ao restante". Portanto, reconhecendo a Santa Mãe Igreja esta autoridade que tem na administração dos Sacramentos, mesmo tendo sido freqüente o uso de comungar sob as duas espécies, desde o princípio da religião cris-tã, porém verificando, em muitos lugares, com o passar do tempo, a mudança nesse costume, aprovou, movida por muitas graves e justas causas, a comunhão sob uma só espécie, decretando que isso fosse observado como lei, a qual não é permitido mudar ou reprovar arbitrariamente sem a autorização expres-sa da Igreja.

Cap. III - Que Cristo é recebido por inteiro e também verdadeiro Sacramento em qualquer uma das espécies
Declara o santo Concilio depois disto, que ainda que nosso Redentor, como já disse antes, instituiu na última ceia este Sacramento nas duas espécies, e o deu a seus Apóstolos, se deve confessar porém, que também se recebe em cada uma única espécie a Cristo todo e inteiro e verdadeiro Sacramento. E que por conseguinte, as pessoas que recebem uma única espécie, não ficam prejudicadas a respeito do fruto de nenhuma graça necessária para conseguir a salvação.

[...]

Cânones da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Cân. I - Se alguém disser que todos e cada um dos fiéis cristãos estão obrigados por preceito divino ou por necessidade de conseguir a salvação, a receber as duas espécies do Santíssimo Sacramento da Euca-ristia, seja excomungado.
Cân. II - Se alguém disser que não teve a Santa Igreja Católica, causa nem razões justas para dar a co-munhão apenas sob uma das espécie aos fiéis leigos, assim como aos clérigos que não celebram, ou que erra nisto, seja excomungado.
Cân. III - Se alguém negar que Cristo, Fonte e Autor de todas as graças, é recebido todo e inteiro sob a única espécie do pão, dando por razão, como falsamente o afirmam alguns, que não se recebe segundo o estabeleceu o mesmo Jesus Cristo, nas duas espécies, seja excomungado.
Cân. IV - Se alguém disser que é necessária a comunhão da Eucaristia às crianças antes que cheguem ao uso da razão, seja excomungado.
O mesmo Santo Concílio reserva para outro tempo, e será quando se lhe apresente a primeira ocasião, o exame e definição dos artigos já propostos, mas que ainda não foram discutidos, a saber:
Se as razões que induziram a Santa Igreja Católica a dar a Comunhão em uma única espécie aos leigos, assim como aos clérigos que não celebram, devem de tal modo subsistir e que por motivo nenhum seja permitido a ninguém o uso do cálice.
E também: Se em caso que pareça dever-se conceder a alguma nação ou reino, do cálice por razões prudentes e conformes com a caridade cristã, deverá ser concedida sob algumas condições, e quais são elas.[2]

O afastamento da Igreja Reformada ocorre por esta e outras tantas doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana. A Reforma restaurou a distribuição de ambas as espécies para todos os participantes da Ceia do Senhor.

NOTAS:
[1] Heinrich Denzinger & Petrus Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (São Paulo, Editora Paulina e Edições Loyola, 2007), pp. 347-348.
[2] Philip Schaff, "The Canons and Dogmatic Decrees of the Concil of Trent" in: The Creeds of Chistendom - with a history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 6a ed., 2007), vol. 2, pp. 170-176.

19 setembro 2017

Declaração de Nashville - sobre sexualidade

Declaração publicada pelo Conselho sobre a Masculinidade e Feminilidade Bíblica no dia 29 de agosto de 2017 na cidade de Nashville, EUA.


Preâmbulo


“Sabei que o Senhor é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto…“ – Salmos 100:3

Cristãos Evangélicos, na aurora do século XXI, encontram-se em um momento de transição histórica. Como a cultura ocidental tem se tornado cada vez mais pós-Cristã, ela tem embarcado em uma revisão massiva do significado do que é ser humano. De um modo geral, o espírito de nossa época, não percebe ou se deleita mais com a beleza do projeto de Deus para a vida humana. Muitos negam que Deus criou o ser humano para a sua glória, e que os seus bons propósitos para conosco incluem o nosso modelo físico e pessoal como masculino e feminino. É comum pensar que a identidade humana como masculina e feminina não seja uma parte do maravilhoso plano de Deus, mas é, e é mais do que um expressão individual de suas preferências autônomas. O caminho para a alegria completa e duradoura através do bom projeto de Deus para suas criaturas é então substituído pelo caminho de alternativas míopes que, mais cedo ou mais tarde, arruinam com a vida humana e desonram a Deus.

Este espírito secular de nossa época apresenta um grande desafio para a igreja Cristã. A igreja do Senhor Jesus Cristo perderá sua convicção, clareza e coragem bíblica, e se misturará ao espírito da época? Ou ela se manterá firme à palavra da vida, suscitará coragem através de Jesus, e despudoradamente proclamará o seu modo como o caminho da vida? Ela preservará o seu testemunho transparente, contracultural para um mundo que parece caído em ruína?

Estamos convencidos de que a fidelidade em nossa geração significa declarar mais uma vez, a verdadeira história do mundo e de nosso lugar nele – particularmente como masculino e feminino. As Escrituras Cristãs ensinam que existe apenas um Deus, e que é o Criador e Senhor de tudo. Somente a ele, uma pessoa deve agradecimento alegre, adoração sincera e total lealdade. Este é o caminho não só para glorificar a Deus, mas também para conhecer a si mesmo. Esquecer do nosso Criador é esquecermo-nos de nós mesmos, pois ele nos fez para ele mesmo. E nós não podemos nos conhecer verdadeiramente sem conhecemo-Lo verdadeiramente. Nós não nos fizemos. Nós não somos de nós mesmos. Nossa verdadeira identidade, como pessoas masculinas e femininas, é dada por Deus. Não é apenas tolo, como também inútil, tentarmos fazer de nós mesmos o que Deus não nos criou para ser.

Nós acreditamos que o projeto de Deus para a criação e o seu caminho de salvação servem para levar a ele a glória maior e trazer a nós o bem maior. O plano bom de Deus nos fornece a liberdade maior. Jesus disse que ele veio para que nós possamos ter uma vida abundante. Ele é por nós e não contra nós. Portanto, na esperança de servir à igreja de Cristo e testemunhar publicamente para os propósitos bons de Deus para a sexualidade humana revelada nas Escrituras Cristãs, nós oferecemos as seguintes afirmações e negações.

Artigo I

NÓS AFIRMAMOS que Deus designou o casamento para ser uma união pactual, sexual, procriativa, vitalícia entre um homem e uma mulher.

NÓS NEGAMOS que Deus designou o casamento para ser uma relação homossexual, poligámica ou poliamorosa. Nós também negamos que o casamento seja uma mero contrato humano, e não um pacto feito diante de Deus.

Artigo II

NÓS AFIRMAMOS que a vontade de Deus revelada para todas as pessoas é a castidade fora do casamento e a fidelidade dentro do casamento.

NÓS NEGAMOS que qualquer afeição, desejo ou compromisso justifiquem o ato sexual, seja antes ou fora do casamento; ou que justifiquem qualquer forma de imoralidade sexual.

Artigo III

NÓS AFIRMAMOS que Deus criou Adão e Eva, os primeiros seres humanos, à sua imagem, iguais, perante Deus, como pessoas, e distintos como masculino e feminino.

NÓS NEGAMOS que as diferenças ordenadas divinamente entre homem e mulher façam com que os mesmos sejam desiguais em dignidade e valor.

Artigo IV
NÓS AFIRMAMOS que as diferenças ordenadas divinamente entre homem e mulher refletem o projeto de criação original de Deus e foram feitas para o bem e para a prosperidade do homem.

NÓS NEGAMOS que essas diferenças são resultado da Queda ou que devem ser superadas.

Artigo V

NÓS AFIRMAMOS que as diferenças entre as estruturas reprodutivas do homem e da mulher são integrantes do projeto de Deus para a auto concepção como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS que anomalias físicas ou condições psicológicas anulam a ligação designada por Deus entre o sexo biológico e a auto concepção como masculino ou feminino.

Artigo VI

NÓS AFIRMAMOS que aqueles nascidos com desordem física de desenvolvimento sexual são criados à imagem de Deus e têm dignidade e valor assim como todos os outros portadores da imagem. Eles são reconhecidos pelo Nosso Senhor Jesus em suas próprias palavras sobre “eunucos que assim nasceram do ventre da mãe”. Juntamente com outros, eles são bem-vindos como seguidores da fé de Jesus Cristo e deveriam abraçar seu sexo biológico até o ponto que o mesmo seja conhecido.

NÓS NEGAMOS que ambiguidades relacionadas ao sexo biológico de uma pessoa a torne incapaz de viver uma vida fértil em obediência alegre a Cristo.

Artigo VII
NÓS AFIRMAMOS que a auto concepção de masculino e feminino deve ser definida pelos propósitos sagrados de Deus na criação e redenção, como revelado pelas Escrituras.

NÓS NEGAMOS que adotar uma auto concepção homossexual ou transgênero consista dos propósitos sagrados de Deus na criação e redenção.

Artigo VIII

NÓS AFIRMAMOS que as pessoas que possuem atração sexual pelo mesmo sexo podem viver uma vida rica e próspera, agradando a Deus através da fé em Jesus Cristo, enquanto eles, assim como todo Cristão, caminham na pureza da vida.

NÓS NEGAMOS que a atração pelo mesmo sexo seja parte da bondade natural da criação original de Deus, ou que isso ponha alguém fora da esperança do Evangelho.

Artigo IX

NÓS AFIRMAMOS que o pecado distorce os desejos sexuais por direcioná-los para longe do pacto matrimonial e por aproximá-los da imoralidade sexual – uma distorção que inclui tanto a imoralidade heterossexual como a homossexual.

NÓS NEGAMOS que um padrão persistente de imoralidade sexual justique o comportamento sexualmente imoral.

Artigo X

NÓS AFIRMAMOS que é pecaminoso aprovar a imoralidade homossexual ou o transgênerismo e que tal aprovação constitui um desvio essencial da fé e do testemunho de Jesus Cristo.

NÓS NEGAMOS que a aprovação de imoralidade homossexual ou de transgênerismo seja questão de indiferença moral sobre a qual Cristãos fiéis deveriam concondar para descordar.

Artigo XI
NÓS AFIRMAMOS a nossa obrigação de sempre falar a verdade em amor, incluindo quando falamos com ou sobre outra pessoa como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS qualquer obrigação de falar em desonra ao projeto de Deus de seus portadores da imagem como masculino e feminino.

Artigo XII

NÓS AFIRMAMOS que a graça de Deus em Cristo fornece tanto perdão misericordioso como poder transformador, e que este perdão e poder permitem ao seguidor de Jesus aniquilar desejos pecaminosos e caminhar de uma forma louvável ao Senhor.

NÓS NEGAMOS que a graça de Deus em Cristo seja insuficiente para perdoar qualquer pecado sexual e para dar poder de santidade para qualquer crente que se sinta afogado no pecado sexual.

Artigo XIII
NÓS AFIRMAMOS que a graça de Deus em Cristo permite pecadores a abandonar auto concepções de transgeneridade e através de paciência divina, de aceitar a ligação designada por Deus entre o sexo biológico e a auto concepção de alguém como masculino ou feminino.

NÓS NEGAMOS que a graça de Deus em Cristo sancione auto concepções que são estranhas à vontade de Deus revelada.

Artigo XIV

NÓS AFIRMAMOS que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores e que através da morte e ressurreição de Cristo, o perdão e a vida eterna estão disponíveis para qualquer pessoa que se arrependa de seus pecados e confie em Cristo como seu único Salvador, Senhor e tesouro supremo.

NÓS NEGAMOS que o braço do Senhor seja curto demais para salvar ou que qualquer pecador esteja além do seu alcance.

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Signatários Iniciais
Denny Burk John Piper James Dobson
Russell Moore J. I. Packer Wayne Grudem
R. Albert Mohler, Jr. Tony Perkins D. A. Carson
John MacArthur Sam Allberry R. C. Sproul
Rosaria Butterfield Francis Chan Marvin Olasky
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H.B. Charles, Jr. Christopher Yuan Dennis Rainey
Frank Page Nancy DeMoss Wolgemuth Daniel L. Akin
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Jerry A. Johnson Mark Dever Randy Alcorn
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James MacDonald James Merritt Jack Graham
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Bryant Wright Don Sweeting Jeff Purswell
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Mark L. Bailey K. Erik Thoennes Vaughan Roberts
David French Paige Patterson R. Kent Hughes
Jeff Iorg Sam Storms Richard Land
Robert A. J. Gagnon Samuel W. “Dub” Oliver Ronnie Floyd
C. J. Mahaney Jason G. Duesing Matt Carter
Chuck Kelley Burk Parsons Eric Teetsel
Alastair Roberts Kevin Ezell Ray Ortlund
O. S. Hawkins Thom S. Rainer Michael Reeves
Todd Wagner John M. Frame Randy Stinson
Mac Brunson Paul Nyquist Thomas Schreiner
H. Wayne House J. P. Moreland Bruce Ware
Michael Goeke Joel Belz Michael Horton
Jackie Hill Perry Dick Lucas Afshin Ziafat
Stephen Strang Christiana Holcomb Jimmy Draper
Owen Strachan Anthony Kidd James M. Hamilton, Jr.
Bryan Carter Chris Larson Bruce Riley Ashford
Candi Finch Curtis Woods Nathan Finn
James Robison C. Ben Mitchell Darrell Bock
William Philip David Mathis Ken Magnuson
Daniel Heimbach Hershael W. York Mary Mohler
Hunter Baker Dorothy Kelley Patterson Jim Shaddix
John N. Oswalt Jack Deere Juan R. Sanchez
Malcolm B. Yarnell, III Jonathan Leeman Mary A. Kassian

Fonte: site PALAVRA PRUDENTE

15 setembro 2017

A história documental da excomunhão de Lutero

Indice

1. A bula Unigenitus Dei Filius sobre o valor da indulgência
2. A bula Salvador Noster
3. A bula Liquet omnibus
4. A Instrutio summaria ad subcomissarios
5. A fórmula de absolvição da indulgência de Tetzel
6. Debate para o esclarecimento do valor das indulgências - as 95 teses
7. Carta Martinho Lutero a George Spalatino
8. Sermão de Lutero: sobre a indulgência e a graça
9. O decreto Cum postquam
10. Carta de Martinho Lutero à Johannes Staupitz
11. Debate e defesa do frei Martinho Lutero contra as acusações de João Eck
12. Carta de Ulrich von Hutten à Lutero
13. Bula Exsurge Domine de Leão X condenando os 41 erros de Lutero
14. Carta de Leão X a Frederico, o Sábio
15. Carta de Lutero ao papa Leão x
16. Contra a execrável bula do Anticristo
17. Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz
18. Carta de Martinho Lutero a Johannes Staupitz
19. Discurso pronunciado na Dieta de Worms por Martinho Lutero
20. Relatos sobre Lutero na Dieta de Worms
21. Carta de Martinho Lutero a George Spalatino
22. Carta de Martinho Lutero a Alberto de Magúncia


Introdução

Aprendi que “história se faz com documentos”. Os manuais de história, bem como as biografias de Lutero, por vezes, oferecem breves citações de alguns documentos, ou de alguns fragmentos de suas declarações, e a leitura dos fatos passam apenas pelo filtro do historiador. Talvez, a sua curiosidade tenha se aguçado ao ler estas citações nos livros de história, desejando ler todo o texto, mas foi impedido, por não ter acesso às fontes originais. Essa tem sido, em muitos casos, pelo menos, a minha experiência com leitor.

O que você dispõe nesta compilação é o esforço de resolver o meu problema de curiosidade, e possivelmente, a de outros estudantes de história e teologia. Por isso produzi essa coletânea dos principais documentos, correspondências e livros que envolveram a excomunhão de Martinho Lutero. Espero que ela seja útil para o aprendizado e que possibilite, por si, discernir os fatos, ponderando no julgamento que condenou o pai da Reforma.

Este texto é uma mera compilação. É o resultado de anos acumulados de leitura e aulas que oportunizaram-me colecionar estes documentos. Alguns estão disponíveis em português, mas em obras menos conhecidas, outros textos tive que traduzi-los. Os textos estão em ordem cronológica a fim de facilitar o entendimento dos fatos que sucederam no processo de excomunhão. Adicionei algumas cartas que revelam as intenções e sentimentos dos envolvidos. Nota-se que os primeiros documentos são decisões dos concílios da Igreja cristã acerca das indulgências. É importante entender o contexto teológico que antecedeu, e criou o contexto histórico da discussão em que Lutero se envolveria, e que culminaria em sua excomunhão.

Esta coletânea ainda não está completa. Há outros documentos que procuro, e estão em minha lista de desejos, e, se Deus quiser, pretendo terminar a minha coleção com o máximo de documentos, dos mais diversos, a fim de apresentar ao estudante a oportunidade duma leitura ad fontes.
Espero que o texto seja útil aos seus estudos, aulas ou palestras. A minha oração é que o Senhor Deus da Igreja, continue reformando-a de acordo com a sua Escritura Sagrada.

[ACESSE O TEXTO COMPLETO AQUI]

11 setembro 2017

A forma de questionar e examinar aos pequenos antes de serem admitidos na Ceia do Senhor

Escrito por João Calvino

Pergunta o mestre: Vocês são cristãos?
Responde o discípulo: Sim somos, pela misericórdia de Deus.

Mestre: Vocês nasceram cristãos, ou se tornaram após o nascimento?
Discípulo: Todos nascemos pecadores desde o ventre da mãe, condenados, inimigos de Deus e filhos da ira por natureza. Mas, depois recebemos o benefício de sermos cristãos por amor de Jesus Cristo.

Mestre: Por que motivo nascemos assim?
Discípulo: Porque todos pecamos em Adão, por ele ter se tornado pecador, nascemos pecadores corrompidos e sentenciados a morte como traidores.

Mestre: Que sinal vocês têm de que são cristãos?
Discípulo: Tenho a fé do evangelho e o batismo.

Mestre: Se têm a fé por sinal de são cristãos, digam-me agora em que creem?
Discípulo: Cremos em Deus Pai, e em Jesus Cristo seu Filho, e no Espírito Santo, em quem tenho toda confiança de minha salvação, e a quem sempre recorremos em todas as nossas necessidades.

Mestre: O Pai, o Filho e o Espírito Santo são mais de um Deus?
Discípulo: Não. Porque não há, nem pode existir além de um, que é o Criador e Preservador de tudo.

Mestre: Que confissão de fé vocês fazem?
Discípulo: A que é desde sempre comum à Igreja de Jesus Cristo, que se chama o Símbolo dos Apóstolos, que começa: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra ...

Mestre: Em quantas partes se divide?
Discípulo: Em quatro.

Mestre: Diga o resumo do que contém na primeira parte.
Discípulo: Que Deus, que é Pai de Jesus Cristo, nosso Senhor, é também pai de todos nós por amor dele; e é o princípio e causa de todas as coisas, as quais governa de tal maneira que nada ocorre sem a sua ordenação e vontade, e ele é o provedor de todas as coisas, o que mantém e sustenta com sua bondade, sabedoria e poder.

Mestre: Agora diga o que contém na segunda.
Discípulo: Que Jesus Cristo, sendo Deus igual ao Pai, condescendeu ao mundo, e se fez homem no ventre da santa e virgem Maria, por obra do Espírito Santo, e vindo cumprir tudo o que se requeria para nossa salvação; e que do céu, aonde subiu após ressuscitado, e onde está assentado à destra do Pai, no último dia virá com grande glória e majestade para julgar vivos e mortos.

Mestre: Passe para as duas últimas.
Discípulo: A suma da terceira é que confessamos crer no Espírito Santo, Deus verdadeiro, igual com o Pai e o Filho, por cuja virtude e potência as promessas feitas e cumpridas em Jesus Cristo são impressas e seladas em nossos corações; o qual nos santifica e conserva pela fé, e nos faz seu templo. A última é que há uma igreja santa e universal, congregada e iluminada pelo Espírito Santo, livre e purificada de seus pecados pelo sangue de Jesus Cristo, o qual é seu cabeça, de onde recebe espírito e vida, e que Deus lhe tem equipada a cumprida possessão da vida eterna. Este é o resumo e substância do que creio.

Mestre: Está bem declarado, passemos adiante. Devemos servir a Deus segundo os seus mandamentos, ou segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Devemos servi-lo segundo os seus mandamentos, e não segundo as tradições dos homens.

Mestre: Por que não temos de servi-lo segundo as tradições dos homens?
Discípulo: Porque todos os serviços que por elas se fazem, os têm proibidos como sendo vãos e abomináveis. E castiga com cegueira de entendimento e outros muitos males aos homens por eles.

Mestre: Onde encontraremos os mandamentos de Deus pelos quais requer servi-lo?
Discípulo: Encontraremos em muitos lugares da santa Escritura, e singularmente no capítulo 20 de Êxodo. Deus os deu a seu povo, pela mão de Moisés, dizendo: “Ouve Israel, Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão: não terás outros deuses diante de mim”, etc. E os demais da primeira e segunda tábua.

Mestre: Vocês têm força para cumpri-los como Deus ordena?
Discípulo: Não, de modo algum; porque toda a nossa inclinação é fraqueza, ignorância e corrupção.

Mestre: Então, quem é que os cumpre em vocês?
Discípulo: O Espírito Santo.

Mestre: E depois de Deus ter concedido o seu Espírito, vocês são capazes de cumpri-los perfeitamente?
Discípulo: Muito menos.

Mestre: Deus na lei amaldiçoa e rejeita a todos os que não cumprem perfeitamente os seus mandamentos.
Discípulo: Assim é verdade.

Mestre: Então, por qual meio vocês serão salvos e livres da maldição de Deus?
Discípulo: Seremos salvos somente pela morte e sofrimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

Mestre: Como assim?
Discípulo: Porque por sua morte nos restituiu a vida, e nos reconciliou com o eterno Pai. Segundo disse são Paulo, que foi morto pelos nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.

Mestre: De que maneira vocês serão participantes do benefício de sua morte e ressurreição para alcançar a salvação?
Discípulo: Recebendo-o por verdadeira fé e confiança na misericórdia de Deus.

Mestre: Essa fé com que se recebe o benefício de Cristo, encontra-se sem a obediência de Deus, e sem caridade para com o próximo?
Discípulo: Não, de modo algum. Porque ela é a raiz de onde procedem. E assim, quem verdadeiramente crê, alegremente obedece a Deus e ama ao seu próximo, e pelas boas obras que lhe faz, declara tanto um como o outro.

Mestre: De que maneira a fé, a obediência e o amor estão juntas no cristão?
Discípulo: Na verdade elas sempre andam tão unidas que onde qualquer uma delas se acha, necessariamente se encontram todas as outras.

Mestre: Satisfeito, passemos à oração, e digam-me primeiro. Em nome de quem vocês invocam a Deus?
Discípulo: Em nome de Jesus Cristo, que é o nosso perpétuo intercessor e advogado diante de sua Majestade.

Mestre: Há outro advogado, ou temos necessidade de outro além deste diante do Pai?
Discípulo: Não há outro, nem temos necessidade de outro. Porque não há além de um Redentor, que é Jesus Cristo, assim não há, nem pode haver mais de um advogado e mediador entre Deus e os homens, que é ele mesmo.

Mestre: Será ouvido se fizer uma oração a Deus por meio de outro que não seja Jesus Cristo?
Discípulo: Não. Pelo contrário, peca em orar assim. Porque não tem mandamento, nem promessa de Deus para isto; e tudo o que não procede da fé, é pecado.

Mestre: Logo os que invocam a Deus por meio dos santos que passaram por este mundo, são deste modo ofensores de sua Majestade?
Discípulo: É verdade. Porque não tem Deus expressamente proibido e mostram os que assim o fazem, que não têm Deus por Pai, nem conhecem a Jesus Cristo.

Mestre: Vejamos qual é a forma que se tem que invocá-lo?
Discípulo: A que ensinou Jesus Cristo aos seus apóstolos, para a sua Igreja, de onde se contém tudo o que temos que pedir a Deus para passar desta vida, e vir depois a gozar da que é eterna. E começa desta maneira: Pai nosso, que está no céu, etc.

Mestre: É permitido usar de outra forma de oração que não seja esta?
Discípulo: É lícito, desde que se refira a esta todas as orações que fizermos.

Mestre: Por que?
Discípulo: Porque nesta oração se abrange tudo o que Deus requer que lhe peçamos, e nos é dada por regra de bem orar.

Mestre: Quantos sacramentos há na Igreja cristã?
Discípulo: Somente dois.

Mestre: Quais são?
Discípulo: O batismo e a Santa Ceia do Senhor.

Mestre: Qual é a significação do batismo?
Discípulo: Tem duas partes. Porque nele nos representa o Senhor, de um lado, e a remissão dos nossos pecados, e por outro, a nossa regeneração ou renovação espiritual.

Mestre: E o que nos significa a Santa Ceia?
Discípulo: Significamos que pela comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, são mantidas nossas almas na esperança da vida eterna.

Mestre: O que nos representa o pão e o vinho que nos são dados na Santa Ceia?
Discípulo: Representam-nos que o corpo e sangue de Jesus Cristo têm tal virtude para manter nossas almas, do mesmo modo que o pão e o vinho para sustentar os nossos corpos.

Mestre: A Ceia foi instituída para que novamente se faça nela o sacrifício a Deus do corpo de seu Filho?
Discípulo: Não, de maneira alguma. Porque somente a Jesus Cristo, por ser o eterno sacerdote, pertence o ofício de sacrificar, o qual na cruz ofereceu seu corpo em perpétuo sacrifício, que bastou para a nossa salvação. Portanto, não resta senão que gozemos dele.

Mestre: Então, para que foi estabelecida a Ceia, se não temos que sacrificar?
Discípulo: Foi-nos deixada por um perpétuo memorial da morte do Senhor. E assim, pelo uso legítimo dela somos induzidos a considerar tudo o que ele fez para a nossa salvação, e somos mantidos espiritualmente, e confirmados na fé de tudo isto.

Mestre: Todo cristão deve receber o sinal do pão e do vinho, ou basta usar apenas de um deles.
Discípulo: É necessário a todo cristão receber ambas os elementos. Porque assim o Senhor Jesus Cristo deixou ordenado e estabelecido. E quem o fizer contra isto, incorre em gravíssimo pecado.

Mestre: Vocês entendem que o corpo de Jesus Cristo esteja encerrado no pão, e o seu sangue no vinho?
Discípulo: Não.

Mestre: Então, onde devemos buscar a Jesus Cristo a fim de satisfazermos nele?
Discípulo: No céu, na glória do Pai.

Mestre: Qual é o meio para ao céu onde Jesus Cristo está?
Discípulo: É a verdadeira fé do evangelho. Porque por ela Deus nos atraí para si, e vamos a ele.

Mestre: Então, é necessário exercer a verdadeira fé, antes que possamos bem usar deste santo sacramento?
Discípulo: É verdade. Porque foi instituída para confortar e esforçar os que estão vivos em Deus, e nenhum está se não a tiver.

Mestre: O que recebem os que carecendo desta fé se achegam da mesa do Senhor para comungar?
Discípulo: Recebendo o sacramento do corpo e do sangue do Senhor, recebem juízo e condenação contra si, como disse são Paulo.

Mestre: Então o que faremos para que recebendo o sacramento nos seja saudável?
Discípulo: Devemos nos examinar como ordena o apóstolo.

Mestre: Como se fará esta prova e exame?
Discípulo: Que observe cada um antes da comunhão, se tem verdadeiro arrependimento de seus pecados, e firme propósito de viver conforme a lei de Deus; se está unido com Jesus Cristo pela fé, e com seus próximos pelo amor.

Mestre: E como podemos ter esta fé para que estejamos dispostos para este celestial convite?
Discípulo: Obtemos pelo Espírito Santo que mora em nossos corações e nos faz certos das promessas de Deus, que nos são feitas no evangelho.

Mestre: Que sinais teremos para conhecer que as recebemos?
Discípulo: Temos quatro. A primeira, amar a Deus e estar afeiçoados pela sua lei. A segunda, ter a consciência pacífica e certa de que são perdoados os nossos pecados pelo sangue de Jesus Cristo. A terceira, usar da caridade com os próximos em geral, e especialmente com os fiéis e membros de Cristo. A última, mortificar continuamente todas as concupiscências e desejos da carne, e ter grande ódio ao pecado.

Mestre: Onde houver estes frutos, existirá a fé verdadeira e eficaz?
Discípulo: Sim, porque eles são conhecidos.

Mestre: Agora sigam com a graça de Deus, e esforcem-se sempre com diligência de frutificar desta maneira, e roguem ao Senhor que faça a todos, que seja glorificado por meio de todos, e que sejamos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo, o nosso único Redentor e Senhor.

Fim do catecismo


Traduzido de B. Foster Stockwell, "Catecismo de la Iglesia de Ginebra [1542]" in: Catecismos de la Iglesia Reformada (Buenos Aires, Editorial "La Aurora", 1962), pp. 116-124.

19 agosto 2017

Zwingli, Sola Scriptura contra os Anabatistas em 1523–24

by R. Scott Clark

Em sua segunda disputa com Balthasar Hubmair, em 1523, Huldrych Zwingli articulou bem o princípio formal da Reforma: “Pois, em todas as controvérsias relativas à fé e à religião, somente a Escritura divina deve ser a nossa medida e a nossa regra antes que a tradição oral”. Zwingli articulou este princípio no contexto de um debate com um dos principais anabatistas de primeira geração. Hubmair sugeriu que quem argumenta que Zwingli não se tornou um anabaptista (e que ele até se esforçou para ser) porque o reformador suíço realmente não acreditava no princípio da Sola Scriptura (ou porque ele temia as autoridades civis) mal interpretaram Zwingli. Foi por sua leitura das Escrituras que Zwingli rejeitou a escatologia anabatista e sua compreensão da história da redenção. Assim como Barnabé, Ireneu e Justino Mártir rejeitaram a dicotomia gnóstica e marcioníca entre Moisés e Cristo em favor de uma aliança unificada de salvação, a qual o Reformado mais tarde chamaria de aliança da graça, assim também Zwingli, Oecolampadius e Bullinger argumentariam que o Antigo e o Novo Testamento são fundamentalmente unificados por uma única aliança de graça. Eles reconheceram a diversidade na administração da aliança da graça sob Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi e os Profetas. Zwingli e outros dos primeiros teólogos Reformados reconheceram que havia uma qualidade temporária para a administração mosaica da aliança da graça que a distinguia das outras administrações. Eles reconheceram uma forte continuidade entre a administração abraâmica da aliança da graça e a nova aliança.

Em sua Exposição dos Artigos, escrito em 1524, ele explicou a relação entre a aliança e o batismo nesses pontos:

1. O batismo foi inscrito como um "juramento de fidelidade" (sacramentum) na igreja visível, uma iniciação de entrada ao povo de Deus.
2. Se existe um só povo de Deus, com uma só fé, num único Salvador, segue-se que os sinais e selos dessa salvação, Salvador e fé, não mudaram radicalmente.
3. Assim, ele apelou para Cl 2: 11-12, onde Paulo ligou a circuncisão e o batismo, como prova de que os pais cristãos também devem administrar o sinal da aliança aos seus filhos.
4. Ele concordou com Lutero que os Sacramentos fortalecem a fé, mas ele esclareceu para dizer que eles não a produzem. Esta é a obra do Espírito através da Palavra.
5. Contra os anabatistas (ou seja, Schwenkfelders), ele argumentou que eles adicionaram as Escrituras negando o paedobaptismo. O NT se silencia, portanto, a ordem de administrar o sinal da aliança continua a sua aplicação hoje.
6. Ao proibi-lo, eles estavam adicionando as Escrituras e fazendo exatamente o que Jesus disse para não fazer: proibir as crianças de se achegarem a ele!
7. Se negarmos que as crianças sejam batizadas, devemos negar que as mulheres venham à mesa da comunhão, porque não há evidências positivas de que no NT houve tal permissão.
8. Se o batismo de João é substancialmente o mesmo que o de Cristo, então não há necessidade categórica de ser discipulado antes do batismo, já que os discípulos de João nem ouviram falar de Cristo antes de serem batizados. O batismo de João era prospectivo e a retrospectiva de Cristo.
9. Certamente as crianças foram batizadas no AT. Todos os israelitas, crianças e adultos, foram batizados com Moisés no Mar Vermelho (1 Co 10).
10. Os filhos dos crentes nascem com o pecado original, mas não a culpa original e, portanto, são elegíveis para o batismo.
11. Como os filhos dos crentes do NT podem ser piores do que os filhos dos judeus que receberam o sinal da aliança, se esta é uma aliança melhor?
12. O sinal de iniciação, em ambas as alianças, sempre implicou numa promessa de renová-lo com os filhos, por isso ele é o sinal.

O Reformado não continuou, necessariamente, todas as linhas de argumentos que fez em 1524 (por exemplo, a sua distinção entre o pecado original e a culpa original), mas a continuidade entre a primeira compreensão reformada da aliança da graça (e do batismo infantil) e mais tarde, em expressões mais maduras (por exemplo, o tratado de Bullinger sobre a aliança da graça), são as mesmas de Calvino, em 1540-60, e dos teólogos de Heidelberg nas décadas de 1560 a 70) são inconfundíveis.

Na mente de Zwingli e na compreensão dos escritores reformados posteriores, a unidade fundamental da aliança da graça entre Abraão e a nova aliança não era uma mera convenção, isto é, não era arbitrária. Viram-na no texto da Escritura. Eles foram conduzidos a ela pela própria Escritura. A teologia da aliança era um relato da Escritura. Foi uma tentativa de explicar pontos decisivos na história da redenção, onde a aliança desempenha um papel fundamental, seja no capítulo 6 de Gênesis ou nos capítulos 12, 15 e 17 e Jeremias 33 ou na instituição da Ceia do Senhor (por exemplo, Lucas 22) ou no relato de Paulo sobre a história da redenção em 2 Coríntios 3, Gl 3-4, ou nos capítulos 7-10 de Hebreus. Os primeiros reformados não eram como às vezes se alega, que apenas procuravam uma justificativa ex post facto da prática medieval, pelo contrário, buscavam o relato na própria Escritura. Na mente de Zwingli o batismo infantil era o produto da Sola Scriptura.

Extraído de heidelblog.net acessado em 19/08/2017, às 18h13.
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

23 abril 2017

A ideia de liberdade em Agostinho [uma breve nota]

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”.

Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).

Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Baker Book), p. 176.

10 janeiro 2017

Honestidade confessional e denominacional - William G.T. Shedd

Honestidade é de suma importância tanto em teologia quanto em transações comerciais, tanto em uma denominação religiosa quanto num partido político. Honestidade denominacional consiste, em primeiro lugar, de uma clara declaração pela Igreja de suas crenças doutrinárias; e , em segundo lugar, de uma inequívoca e sincera adoção pelos seus membros. Ambos são requisitos.

Se uma denominação em particular faz declarações soltas de suas crenças que são passíveis de mais de um sentido, o credo é bem desonesto. Se o credo de uma denominação é bem elaborado e claro, mas a membresia subscreve a ele com reservas mentais e insinceridade, a denominação é desonesta. Honestidade e sinceridade são encontradas na convicção clara, e convicção clara é encontrada no conhecimento e reconhecimento da verdade. Heresia é um pecado, e é classificado por Paulo entre 'as obras da carne', junto com 'adultério, idolatria, assassinato, inveja e ódio' que excluem do reino de Deus(Gal. 5.19-21). Mas a heresia não é tão grande pecado quanto a desonestidade.

Um herege que se reconhece como tal é um homem melhor do que aquele que pretende ser ortodoxo ao subscrever a um credo que antipatiza, o qual enfraquece no pretexto de adaptá-lo aos novos tempos. O herege honesto deixa a Igreja com a qual não mais concorda; mas o subscritor permanece dentro dela de modo a seguir adiante o seu plano de desmoralização.

William G.T. Shedd, Calvinism: Pure & Mixed (Edinburgh, The Banner of Truth, 2000), p. 152.
Tradução de Emerson Costa

28 setembro 2016

Epidemia: outro pastor que se esgota e se demite Domingo passado

A dor de um pastor é intensificada debaixo de impiedosos holofotes, enquanto a dor de outro é desconhecida. Ambas doem igualmente. Não fica mais fácil. Não importa quantas vezes você ouça sobre isso. E estamos ouvindo muito sobre isso ultimamente. Em números epidêmicos.

Outro pastor anunciou à sua chocada congregação que ele não podia mais. Ele os amava. Ele estava orgulhoso do trabalho do Reino que haviam feito juntos por anos. Mas suas prioridades estavam desajustadas. Ele havia posto todo seu tempo e energia na igreja e havia negligenciado sua própria saúde espiritual e emocional. Ele pediu à congregação que orasse por ele e sua família enquanto enfrentavam a próxima fase difícil de suas vidas – sem saber o que esta fase traria. Então ele reuniu a congregação de 20 pessoas na frente da igreja para orarem juntos uma última vez. Ele por eles. Eles por ele e sua família. Oraram, abraçaram, choraram e disseram adeus.

Enquanto escrevo esse artigo, aquele pastor está encaixotando seus pertences numa van para se mudar da pequena cidade que eles chamaram de lar por mais de uma década. Por agora, eles vão viver com os pais da esposa para se recuperarem.

Muitos pastores esgotados

Infelizmente, aquele pastor não foi o único a ter uma história dessas no último domingo. Aconteceu com centenas. Este ano, milhares vão deixar o ministério, esgotados e machucados. De igrejas grandes e pequenas, em crescimento e estagnadas. Ouvimos quando os pastores famosos desistem ou se esgotam. É o preço da fama. E é muito alto. Tanto o sucesso quanto as falhas são ampliadas. Mas um preço diferente é pago por aqueles que não são conhecidos fora de suas famílias e pequena congregação.

Enquanto os sucessos e dores de pastores conhecidos são destacados, os sucessos e dores de pastores de igrejas pequenas são ignoradas e esquecidas. Ambos são igualmente machucados. Ambos carregam o peso dos problemas que os levaram a deixar a igreja, e frequentemente o ministério. A dor do pastor da megaigreja é intensificada por falhar debaixo das luzes da ribalta, enquanto que a dor do outro é aumentada por cair no anonimato. Esquecido por quase todos. Ambos os cenários são tóxicos. Eles entristecem o coração de Jesus, prejudicam Sua igreja, devastam com as famílias dos pastores, arruínam ministérios e tornam difícil aos membros da igreja confiar num pastor novamente - ou confiar em Deus novamente.

Mudar o paradigma de sucesso da igreja

Não precisa se desse jeito. Não deveria ser desse jeito. Precisamos abandonar as expectativas não bíblicas que foram colocadas nos ombros dos pastores. Ou que nós próprios colocamos nos nossos ombros. Pastores nunca foram destinados a carregar esse fardo tão grande. Nenhuma pessoa é capaz de ser pregador, professor, “lançador de visão”, CEO, líder, evangelista, ganhador de almas, angariador de recursos, conselheiro matrimonial, e todo esse modelo de virtude que esperamos que os pastores sejam – muitos deles enquanto trabalham a tempo inteiro fora das paredes da igreja. Mas tem sido assim por tantos anos que às vezes parece uma locomotiva sem freio que não pode ser parada. Precisa ser parada.

Redefinindo o sucesso no ministério

Ninguém pode parar essa locomotiva a não ser nós, pastores. Precisamos dizer “não”. Para alguns de nós, isso significa dizer não às expectativas irracionais dos nossos membros, diáconos e oficiais da denominação. Mas para todos nós significa dizer não às nossas próprias expectativas não bíblicas. Dizer não a um paradigma que nós construímos e perpetuamos em volta de uma combinação dos nossos egos e inseguranças. Nós não somos os construtores da igreja, Jesus é. Não somos capazes de nos matarmos de trabalhar emocionalmente e espiritualmente sem que alguma coisa quebre dentro de nós. Não podemos continuar nos forçando fisicamente com poucas horas de sono, muita comida e pouca atividade física. Não podemos continuar negligenciando nossas esposas e famílias enquanto queimamos a vela dos dois lados e não esperar que todo mundo – nossas famílias, igrejas e nós mesmos – pague um enorme preço por isso. Precisamos redefinir com que o sucesso ministerial se parece, porque muitas pessoas boas estão sendo machucadas enquanto perseguimos nossa atual e insuportável versão de sucesso.

Orem uns pelos outros

Faça uma pausa hoje. Respire. E ore. Ore pelos pastores feridos, conhecidos e desconhecidos, que deixaram uma igreja que eles amavam – e talvez ainda amem. Ore pelos pastores famosos sofrendo debaixo da insuportável luz da ribalta. Ore pelos pastores desconhecidos que se sentem perdidos e esquecidos. Ore pelas famílias que suportaram anos de dor em silêncio, e que agora têm suportado ainda mais. Ore pelos membros da igreja que não sabem se se sentem bravos, tristes ou outra coisa. Ore para que o Deus que prometeu que Seu jugo era suave e o seu fardo leve, alivie os fardos mais pesados que nós colocamos sobre nossos próprios ombros. E que troque por Sua paz, Seu conforto e Sua esperança."


Karl Vaters - Christianity Today
Extraído de http://www.christianitytoday.com/karl-vaters/2016/september/epidemic-another-pastor-burned-out-and-quit-last-sunday.html

05 setembro 2016

A Confissão de Fé de Westminster aprovada pela Igreja da Escócia em 1647

Você pode perguntar após ler o título desta contribuição, por quê estamos pensando em adotar a Confissão de Fé de Westminster, quando todo o blog Este Dia na História do Presbiterianismo lida com a História do Presbiterianismo nos Estados Unidos? E esta é uma pergunta justa. Mas é rapidamente respondida por duas considerações. Primeiro, este padrão reformado – A Confissão de Fé de Westminster – foi, com poucas mudanças, o padrão subordinado de todas as denominações Presbiterianas dos Estados Unidos. Segundo, os imigrantes Escoceses-Irlandeses que vieram para este país em seus primeiros dias estavam firmemente ligados a esta declaração do Credo Reformado.

A Confissão de Fé Westminster foi formulada pela Assembleia de Teólogos de Westminster (isto é, pastores e teólogos) em meados do século XVII, reunidos na Abadia de Westminster em Londres, Inglaterra. Aos cento e vinte sacerdotes, principalmente da Igreja da Inglaterra, foram adicionados nove teólogos escoceses da Igreja da Escócia. Enquanto estes últimos estavam sentados como membros sem direito a voto dessa assembleia, ainda a sua presença foi sentida de forma muito eficaz durante o estudo de seis anos que produziu esse padrão confessional.

Quando foi aprovada pelo Parlamento na Inglaterra, foi então enviada para a Assembleia Geral da Igreja da Escócia, onde foi aprovado sem alterações em 29 de Agosto de 1647. Em seguida, tornou-se ela um resumo dos ensinamentos do Antigo e Novo Testamentos, que foi adotada tanto pelos presbíteros docentes como pelos regentes, bem como o diaconato em cada igreja local, em todas as igrejas Presbiteriana e Reformada decorrente dessa tradição. Pequenas mudanças foram feitas a ela por organismos presbiterianos conservadores de nossos Estados Unidos que não afetam o conteúdo doutrinal global da Confissão. A maioria dessas mudanças foram feitas em 1789. Você pode perguntar ao seu pastor para obter mais informações sobre essas mudanças.

A importância histórica deste documento é uma razão pela qual temos referências diárias a ele neste guia devocional, à medida que procuramos fazer com que nossos amigos sejam maiores conhecedor de suas magníficas declarações.

Palavras para vivermos: A maioria das denominações presbiterianas não exigem que seus membros leigos façam votos que tratam da sua adopção a estes padrões de credo histórico, a fim de juntar-se à igreja. No entanto, um estudo cuidadoso e aceitação desta Confissão de Westminster lhe dará uma base sólida para a compreensão da doutrina e da vida da Palavra de Deus. Nós o encorajamos a fazê-lo, talvez solicitando uma classe em sua igreja sobre a Confissão, ou apenas estudando-a você mesmo para seu benefício pessoal e familiar.


Tradução de Bruno Luiz S. Rodrighero
Extraído de http://www.thisday.pcahistory.org/2015/08/august-27-2/

25 agosto 2016

A legitimidade da ordenação dos reformadores - Johannes Wollebius

I. A principal causa eficiente deste chamado é Deus, quem chama o ministro internamente, e provendo-o com seus dons. O corpo que pode compor os ministros é toda a igreja, ou no mínimo a igreja representativa, pastores e presbíteros, ou o conjunto de pessoas da igreja [plebs], e não apenas bispo ou pastor. Os apóstolos não restringiram o privilégio de escolha somente a eles (At 1:23, 6; 14:23).
II. Três atos são necessários para um legítimo chamado [para o ministério]: exame, eleição e confirmação.
III. O exame envolve tanto a vida como a doutrina. A vida precisa examinada antes da doutrina; se o comportamento é imoral, ele não pode ser admitido para um exame na doutrina.
IV. O procedimento para eleição é este: pessoas são nomeadas após sincera oração à Deus, do número daqueles que são escolhidos, e dentre eles é selecionado pelo voto da maioria, se votando por viva voz ou pelo levantar das mãos.
V. A confirmação é a indução da pessoa eleita, em que ele é designado para a igreja com oração pública, e seus chamado será confirmado pela imposição das mãos. Bispos não têm um poder superior e autoridade pelo direito divino.
VI. Os papistas ensinam falsamente que este chamado não é legítimo, se o último é feito pelos presbíteros e não pelo bispo.
VII. A igreja reformada aceitou o chamado dos que reformaram a igreja no tempo de nossos pais, não porque ele veio do papado, que foi um câncer na igreja, mas porque eles eram divinamente chamados por Deus e habitados com dons necessários. É objetado que eles eram chamados sob a autoridade papal, então, que deveriam ser rejeitados, pois o seu chamado expirou. Replicamos que é falso acusa-los de rejeição; eles não rejeitaram o evangelho, pelo qual foram chamados para pregar mesmo estando sob o papa, mas eles rejeitaram a corrupção do evangelho. Nem há alguma razão para afirmar que eles foram chamados para pregar a doutrina da igreja romana; se Roma coloca a sua doutrina sob o nome de evangelho, um ministro que encontrando contrária à real verdade do evangelho, poderia falar contra ela pelo privilégio de seu chamado.
VIII. Nem podem apresentar algum fundamento sobre qual eles são capazes de desafiar o chamado dos nossos ministros de acordo com as regras acima. Antes de tudo respondemos àqueles que nos questionam por qual autoridade ensinamos no modo que Cristo respondeu a quem lhe perguntou: “o batismo de João, de onde vem, do céu ou da terra?” (Mt 21:25). Similarmente dizemos “a doutrina de nossos antepassados, que ouvimos entre nós até os dias de hoje, de onde procede? Se ela está em desacordo, deixamos que mostrem em que artigos; se ela está concordando, então eles não podem atacar o chamado de nossos ministros. Onde quer que a verdadeira doutrina seja encontrada, há ali verdadeiro chamado. E o chamado que corresponde ao exemplo dos apóstolos e a igreja primitiva é legítimo. É óbvio que o nosso chamado é desta natureza.
3. O direito de tomar decisões em matéria de doutrina é que, através dele, o entendimento da igreja em questões de doutrina e resolve controvérsias que perturbam a igreja.

Extraído de Texto de Johannes Wollebius, "Compendium Theologiciae Christianae" in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 144-145.
Tradução em 25 de Agosto de 2016.

22 agosto 2016

We are a confessional church

What does being confessional? Reformers affirmed their orthodoxy by adopting creeds, catechisms and confessions to summarize and declare an organized what they believed. This is an ancient practice in the Christian Church, originating in the prayers of the believers of the old covenant and in baptismal rites of the first century [1]. Paul instructs Timothy to "keep the pattern of sound teaching which you heard from me, with faith and love in Christ Jesus. Guard the good deposit that was entrusted to you - guard it with the help of the Holy Spirit who lives in us " (2 Timothy 1:13,14). Therefore, Christians are called to keep the "good deposit", that is, faithfully preserving the doctrinal system, without changing its essence. The purpose of the confessional practice was to identify the unit for the truth, report the error and delete the heretics.

What is the need to be confessional? David W. Hall notes that the practice of confessional subscription by reformers had the following doctrinal reasons: unity, clarity, defense of false charges, defense and preservation of identity, as well as a variety of public statements [2]. This concern is in line with the clear teaching of Scripture. Jude states that "although I was very eager to write to you about the salvation we share, I felt I had to write and urge you to contend for the faith that was once for all entrusted to the saints" (Jude 3). He did not refer only to the subjective aspect of faith, that is, the trust and consent, but, especially, the doctrinal content of faith. So, your argument is that your readers should defend the doctrine that received against individuals who had entered the Church, and disseminated licentiousness, and deny sound doctrine (Jude 4).

We are a reformed denomination of Puritan heritage. So, we subscribe to the Westminster Standards as a faithful exposition of Scripture teaching. The endorsement of these doctrinal documents must be integral, that is, in all its doctrinal statements. This means that we accept all the statements and strive to live by them. But, unfortunately, some people, being Presbyterian, are not consistent. There are a few reasons for this: 1) those which do not because they were instructed; 2) those who know superficially and, ignoring the precise statements and their implications, end up not fulfilling his word; and 3) those who declare verbally accept, but, intentionally, reject the heart. The last divorced conviction of the confession, and this result in confessional dishonesty. We understand that the mental reservation is always sin! It is my intention with this text, as a member of this church, you are informed, indoctrinated and, honestly, commit to our Reformed confessional identity.

Our tradition uses confessions and catechisms to present our doctrinal system [3]. This is a context in which we are called to confess our faith to those outside the church. These documents systematically summarize the teaching of Holy Scripture about various topics. They are also useful for the exercise of true piety, as well as a brief presentation of what we believe in our Reformed faith.
The IPB requires its officers and members of the full subscription of the Westminster Standards, which are:
1. The Westminster Confession of Faith
2. The Westminster Larger Catechism
3. The Westminster Shorter Catechism

However, we accept and use to study the reformed faith [4]:
1. The Belgian Confession (1561)
2. The Heidelberg Catechism (1563)
3. The Second Helvetic Confession (1566)
4. The Canons of Dort (1618-1619)

And also we received the ancient creeds as part of our statement of faith:
1. The Apostles' Creed
2. The Nicene Creed
3. The Creed of Chalcedon

How we use catechisms and confessions? Here are a few suggestions:
1. Our denomination uses them to assert their Reformed confessional identity. When someone asks us what we believe, they represent our doctrinal heritage. They are useful for continuous reading and consultation of doctrinal body of our convictions.
2. The presbytery uses them in theological debates and evaluation of official and ecclesiastical courts. When there are disputes involving liturgical matters, doctrinal matters and practice of Christian life matters, part of the rationale for correct and establish our conciliar decisions will depend on these documents.
3. Our theological institutions should use them to measure the confessional loyalty of its teachers. Hiring and continuity of a teacher, which, inevitably, will be a trendsetter, should occur by examining the JURET and JET. The academic environment favors the study and analysis of different theological aspects, however the theological formation of our future pastors should be performed with confessional commitment by our seminars. Most students are candidates for the sacred ministry and should be evaluated by their belief commitments.
4. In official and leadership training courses, our documents need to be studied prescriptively. They will exercise the government in the local church and in the different conciliar spheres of our denomination. Before his ordination or appointment, they shall be examined by the Council and will profess knowledge, understanding and commitment to our standards of faith.
5. The Council has them like standard on doctrinal issues and receiving members. The unity of the church is given on collective commitment to the truth. The elders oversee the honest obedience of votes that members place in their examination and public faith profession.
6. Preachers quote them in their sermons, to illustrate or as part of the argument. The sermon is always doctrinaire in its essence; therefore, the public service is excellent place for proclamation, education, correction and comfort of its participants. 7. Study them in doctrinal study meetings, during the week. The pastor will may perform expository study sequenced, using the Westminster Standards. There are reviews of Faith Confession and Catechisms that enrich the understanding and its applicability to practical issues of Christian life.
8. Disciples’ makers must use them, constantly, for the preparation of studies. Be in discipleship for beginners or advanced, the learner needs become familiar with Christian faith, in its documentary expression, and be sure that it is not merely the opinion of one member, but the doctrinal legacy that wife, faithfully, the systematization of the Bible.
9. Sunday School’s teachers can use them to escape any doubt or controversy in class. If there was disagreement in some subject, teachers should close the matter, where possible, through our confessionality.
10. Small groups that meet in homes can use them as a study guide. The study of the Westminster Shorter Catechism is a useful resource for the study groups that meet in homes. These more informal character meetings always receive visitors, whether converted or not, and the comments of the participants can’t create, in the development of the study, an opening for accepting the plurality of opinions as equally valid. The small group is not a small church within the church, where free thought is adopted regardless of the official doctrinal body.
11. Families can add their reading in family worship . The reading of Scripture , prayer and songs added to the study of the Westminster Standards will enrich the spiritual exercise that nurtures growth. Family worship provides fellowship, education and worship in the home. If you use our doctrinal directories, certainly will forge families with healthy beliefs . Thus, build strong families will result in a vigorous church.
12. The reading of statements and biblical texts contained therein is useful for daily devotional. The use of booklets for devotional purposes, while useful, may be accompanied by reading one or two questions of catechisms or paragraphs of the Confession of Faith. They are thoughts with dense biblical content that feed and prepare us to live daily in the presence of God.

Can you be a member of the Presbyterian Church of Brazil and not confessional? Councils, to examine the candidate to the profession of faith or members transfer process should be selective about our confessional identity. If the applicant refuses to subscribe to our system of doctrine, he should not be received as a member of the local church. So, before the exam, it is recommended that prospective members should be made disciples, join the catechumens’ class and read the Westminster Standards. The rush to welcome them as a local church member is harmful, because it is necessary to help them understand what we believe, to be true, when they sincerely do their public profession of faith, before the church, in solemn worship, and, above all, before true God, that demands our ‘yes’ meaning ‘yes’. Zeal should remain, in the examination of candidates for membership.

I recommend reading about the practice of confessional subscription, as adopted by the Presbyterian Church of Brazil:
1. Carl R. Trueman, O imperativo confessional (Brasília, Editora Monergismo).
2. David W. Hall, The practice of confessional subscription (Oak Ridge, The Covenant Foundation).
3. Morton H. Smith, The case for full subscription to Westminster Standards in the Presbyterian Church in America (Greenville, GPTS).
4. Ulysses Horta Simões, A subscrição confessional - necessidade, relevância e extensão (Belo Horizonte, Efrata Publicações e Distribuição).

GRADES:
[1] Philip Schaff recognizes, in Scripture, the following creeds in embryonic form: Exodus 20:2-3; Deuteronomy 6:4; John 1:50; Mathew 16:16; 28:19; John 6:68; 20:28; Acts 8:37; 1 Corinthians 8:6; 1 Timothy 3:16; Hebrews 6:1-2. Philip Schaff, The Creeds of Christendom - with the history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 2, pp. 3-8.
[2] David W. Hall, Southern Presbyterians: the virtue of confessional relaxation?". In: Joseph A. Pipa Jr., org., Confessing our hope - Essays celebrating the life and ministry of Morton H. Smith (Taylors, Southern Presbyterian Press, 2004), p. 97.
[3] The importance of tradition is to preserve and pass on the truth. It should be a tool to communicate the teaching of the Word of God, and never part of it.
[4] Those who read in English can study, more fully, the Calvinist heritage confessions. If there is interest to know, James T. Dennison Jr. published a very extensive collection of reformed confessional documents since the sixteenth century until the seventeenth. See on James T. Dennison, Jr., ed., Reformed Confessions of the 16th and 17th centuries in English translation (Grand Rapids, Reformation Heritage Books), in 4 volumes. This manual is the most complete compilation of reformed documents available in English.


The original article [ ACESS IN THIS LINK ].
This arcicle was translated by Katherine Priscila Lessin. Thankyou my sister!

11 agosto 2016

Sobre mulheres falando na igreja

Benjamin B. Warfield[1]

Recibi recentemente a carta de um apreciado amigo que pedia que lhe enviasse uma “discussão das palavras gregas laleo e lego em passagens tais como 1 Co 14:33-39, em especial referência à pergunta: ‘o versículo 34 proíbe a todas as mulheres em todas as partes de falar ou pregar em público, ou somente em igrejas cristãs?’” Como o assunto é de interesse universal, tomo a liberdade de compartilhar a minha resposta aos leitores do Presbyterian.[2]

Requer que se diga imediatamente que não há problema com referência as relações de laleo e de lego. Além dos detalhes de interesse puramente filológico, estas palavras se encontram relacionadas uma a outra exatamente do mesmo modo que estão as palavras inglesas falar e dizer; ou seja, que laleo expressa o ato de falar, enquanto que lego se refere ao que é dito. Sempre, pois, que o ato de falar, sem referência ao conteúdo do que se diz, deve ser indicado, se utiliza laleo, e deve ser utilizado. Não há nada desqualificador ou depreciativo no que sugere a palavra, e do mesmo modo, não há em nossa palavra falar; ainda que, se possa em alguma ocasião ser utilizada em termos depreciativos como também o possa ser a nossa palavra falar (como quando alguns dos periódicos insinuam que o senado está “entregue a meras palavras”). Esta aplicação desqualificadora de laleo, todavia, nunca ocorre no Novo Testamento, ainda que a palavra seja utilizada com muita frequência.

A palavra está em seu lugar correto em 1 Co 14:33 e seguintes, e necessariamente leva consigo o significado simples e natural. Se necessitássemos de algo para fixar o seu significado, todavia, isto determinaria o seu uso frequente na parte precedente do capítulo, de onde se refere não somente o falar em línguas (que era una manifestação divina, e ininteligível somente devido às limitações dos ouvintes), senão também ao falar profético, o qual se declara diretamente que é “para edificação, exortação e consolação” (v. 3-6). Também o seu sentido seria mais pungentemente determinado, todavia, pelo termo que põe em contraste aqui: “calem” (v. 34). Aqui se define diretamente laleo: “as mulheres calem, porque não lhes está permitido falar.” “Calar – falar”: são duas coisas opostas; e uma define a outra.

É importante observar, agora, que o eixo ao redor do qual gira a prescrição destes versos, não radica na proibição de falar tanto como no mandamento do silêncio. Esta é a prescrição principal. A proibição de falar é introduzida em seguida somente para explicar o significado de forma mais completa. O que Pablo diz em breve é: “as mulheres se calem nas igrejas.” Isso seguramente é suficientemente direto e específico para suprir todas as necessidades. Então, ele agrega a explicação: “Porque não lhes está permitido falar.” “Não está permitido” é uma apelação a uma lei geral, válida aparte do mandamento pessoal de Paulo, e se conecta com as palavras precedentes: “como em todas as igrejas dos santos.” Ele somente está exigindo às mulheres de Corinto que se o à lei geral das igrejas. E esse é o significado das quase amargas palavras que agrega no verso 36, com as quais (reprovando-as pela inovação de permitir que as mulheres falem nas igrejas), e lhes recorda que eles não são os autores do Evangelho, e muito menos os seus únicos detentores: ele exigia que guardassem a lei obrigatória para todo o corpo de igrejas e que não buscassem a seu modo alguma inovação de sua recente fabricação.

Os versos intermediários somente deixam claro que o que o apóstolo está precisamente fazendo é proibir às mulheres falar na igreja em termos absolutos. A sua prescrição de silêncio o leva tão longe até o ponto de proibir inclusive fazer perguntas; e agrega com especial referência a isso, mas com isso ao assunto geral, a vigorosa declaração de que “é indecoroso” — pois tal é o significado da palavra— “que uma mulher fale na igreja”.

Seria impossível que o apóstolo fale de forma mais direta ou mais enfática que como o fez aqui. Ele exige às mulheres que guardem silêncio nas reuniões da igreja; pois, isso é o que significa “na congregação”, e que não haveria edifícios para a igreja. E ele não nos deixou com dúvida quanto à natureza destas reuniões da igreja. Acabava descrevê-las nos versículos 26 adiante. Eram do carácter geral de nossas reuniões de oração. Observe as palavras “cale na igreja” do versículo 30, e compará-las com “calem nas congregações” no v. 34. A proibição de que as mulheres falem, envolve assim todas as reuniões públicas da igreja; pois se trata do carácter público, não da formalidade. E ele nos diz em reiteradas ocasiões que esta é a lei universal da igreja. Faz mais que isso: nos diz que esse é o mandamento do Senhor, e enfatiza a palavra “Senhor” (v. 37).

A passagem de 1 Tm 2:11 e etc é tão vigoroso como este, somente que se dirige mais particularmente ao caso específico do ensino público e à condução na igreja. O apóstolo neste contexto (o verso 8 diz “os varões” em contraste com “as mulheres” do verso 9) haveria restringido especificamente a oração pública aos homens, e então continua: “a mulher aprenda em silêncio, com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o homem, senão estar em silêncio”. Nem o ensino, nem a função de condução se permite à mulher. O apóstolo diz aqui, “não permito” em vez de dizer, como em 1 Co 14:33 e seguintes, “não está permitido” porque ele aqui está dando as instruções pessoais à Timóteo, seu subordinado, enquanto que anunciava aos coríntios a lei geral da igreja. O que ele ordena a Timóteo, todavia, é a lei geral da igreja. E desta maneira avança e fundamenta a proibição numa razão universal que igualmente afeta toda a raça.

Na presença destas duas tão absolutamente claras e enfáticas passagens, não se pode apelar ao que se diz em 1 Co 11:5 para mitigar, nem modificá-los. Qual é o significado exato de 1 Co 11:5, ninguém o sabe absolutamente. É declarado que toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua cabeça. Parece justo deduzir que se ela ora, ou profetiza, não desonra sua cabeça. E parece ainda mais justo deduzir que ela pode orar ou profetizar corretamente se tão somente o fizesse usando o véu. Estamos armando uma cadeia de inferências. E não nos levou muito longe. Não podemos deduzir que seria apropriado que ela orasse ou profetizasse na igreja se tão somente estivesse usando o véu. Nada se diz da «igreja» na passagem nem no contexto. A palavra “igreja” não aparece até o verso 16, e ali não como regendo a referência da passagem, mas somente como proporcionando um apoio adicional para a prescrição da passagem. Não há razão para crer que “orar e profetizar” em 11:5 quer dizer na igreja. Nem um nem outra eram atividades limitadas à igreja. Se como em 1 Co 14:14, o “orar” de que se fala era um exercício extático — como seu lugar de “profetizar” pode sugerir— então a inspiração divina ultrapassaria todas as leis ordinárias que a rege. E nota-se que há ocasião para observar que a oração em público está proibida para as mulheres em 1 Tm 2:8-9, a menos que o que esteja considerando seja a simples assistência a oração, em cujo caso esta passagem é um paralelo próximo a 1 Tm 2:9.

O que se deve observar como conclusão é:
(1) Que a proibição de que as mulheres falem na igreja é precisa, absoluta, e completamente inclusiva. Elas devem se calar nas igrejas — e isso significa em todas as reuniões públicas para adoração; nem sequer podem fazer perguntas.
(2) Que esta proibição indica o ponto particular precisamente para os assuntos de ensino e de conduta, incluindo especificamente as funções de presbíteros e da pregação.
(3) Que os argumentos sobre os quais se fundamenta a proibição são universais e dependiam da diferença de sexo, e particularmente nos lugares relativos dados aos sexos na Criação e na história fundamental da raça (decaída).

Talvez, devesse agregar a fim de esclarecer o último ponto quanto a diferença nas conclusões entre Paulo e o movimento feminista de hoje, ou seja, que a questão está arraigada numa diferença fundamental na perspectiva de ambos quanto à constituição da raça humana. Para Paulo a raça humana se compõe de famílias, e todos os diversos organismos – incluindo a igreja – estão compostos de famílias, unidos juntos por este, ou por outro vínculo. A relação dos sexos na família se estende, portanto, também à igreja. Para o movimento feminista a raça humana é composta de indivíduos. Uma mulher é simplesmente outro indivíduo ao lado do homem, e não se pode considerar nenhuma razão, para nenhuma diferença ao tratar com os dois. E, se podemos ignorar a grande diferença fundamental e natural dos sexos e destruir a grande unidade social e fundamental da família em prol do individualismo, não haveria nenhuma razão porque não devamos eliminar as diferenças estabelecidas por Paulo entre os sexos na igreja, exceto pela sua autoridade. Tudo isto, finalmente, nos faz voltar para a autoridade dos apóstolos como os fundadores da igreja. Gostemos do que Paulo disse, ou não; podemos estar dispostos a fazer o que ele ordena, ou não. Mas, não há lugar para a dúvida quanto ao que ele disse. E ele nos diria certamente novamente o que disse aos coríntios: “acaso saiu de vocês a palavra de Deus, ou ela chegou somente a vocês?” É este o nosso cristianismo: fazer o que nos agrada? Ou, é a religião de Deus que recebe as suas leis através dos apóstolos?

NOTAS:
[1] Artigo sobre a interpretação de 1 Co 14:34-35 com algumas notas incisivas acerca das premissas anticristãs e individualistas da ideologia feminista. Nota do editor.
[2] Publicado originalmente no periódico The Presbyterian em 30 de Outubro de 1919. Nota do tradutor.


Extraído de Benjamin B. Warfield, “Paul on women speking in Church” in: John W. Robbins, ed., The Church Effeminate (Unicoi, The Trinity Foundation, 2001), pp. 212-216.
Traduzido em 16 de Dezembro de 2014.
Revisado em 10 de Agosto de 2016.

30 julho 2016

O que é teologia do pacto? por J. Ligon Duncan

A teologia do pacto é o Evangelho posto no contexto do plano eterno de Deus da comunhão com o seu povo, e o seu desenvolvimento histórico nos pactos das obras e graça (ou mesmo que nas várias etapas progressivas do pacto de graça). A teologia do pacto explica o significado da morte de Deus à luz da plenitude do ensino bíblico sobre os pactos divinos, respalda de maneira fundamental o nosso entendimento da natureza e uso dos sacramentos, e provê a explicação mais completa possível dos fundamentos da nossa segurança.

Em outras palavras, a teologia do pacto é a maneira que a Bíblia tem de explicar e aprofundar o nosso entendimento da: (1) a expiação [o significado da morte de Cristo]; (2) a segurança [a base da nossa confiança da comunhão com Deus e o desfrute de suas promessas]; (3) os sacramentos [sinais e selos das promessas pactuais de Deus – o que são e como funcionam]; (4) a continuidade da história redentora [o plano unificado da salvação de Deus]. A teologia do pacto também é uma hermenêutica, uma aproximação ao entendimento da Escritura – uma ênfase que intenta explicar biblicamente a unidade da revelação bíblica.

Quando Jesus quis explicar aos seus discípulos o significado de sua morte, recorreu à doutrina dos pactos (veja Mt 26, Mc 14, Lc 22, 1 Co 11). Quando Deus quis assegurar à Abraão a certeza de sua palavra da promessa, recorreu ao pacto (Gn 12, 15, e 17). Quando Deus quis apartar ao seu povo, impactar a sua obra em suas mentes, revelando-se tangivelmente em amor e misericórdia, e confirmar a sua herança futura, recorreu aos sinais pactuais (Gn 17, Êx 12, 17, e 31, Mt 28, At 2, Lc 22). Quando Lucas quis mostrar aos primeiros cristãos que a vida e ministério de Jesus foram o cumprimento dos antigos propósitos de Deus para o seu povo escolhido, apelou aos pactos e citou a profecia de Zacarias que mostra que os crentes nos mesmos primeiros dias do ‘movimento de Jesus’ entenderam a Jesus e a sua obra messiânica como um cumprimento (não como um ‘Plano B’) do pacto de Deus com Abraão (Lc 1:72-73). Quando o salmista e o autor de Hebreus quiseram mostrar como o plano redentor de Deus é um plano ordenado e sobre qual base se desenvolveu na história, recorreram aos pactos (veja Sl 78, 89, e Hb 6-10).

A teologia do pacto não é uma resposta ao dispensacionalismo. Ela existe muito antes que os rudimentos do dispensacionalismo clássico fossem organizados no século XIX. A teologia do Pacto não é uma desculpa para o batismo de crianças, muito menos um mero convencionalismo para justificar ênfase particular dos sacramentos (ou a paedocomunia moderna e a regeneração batismal). A teologia do pacto não é sectária, pelo contrário, ela é um enfoque ecumênico reformado em relação ao entendimento da Bíblia, desenvolvido no surgimento da Reforma magisterial, mas com raízes que se estendem até aos primeiros dias do cristianismo católico e historicamente apreciado em todas as várias ramificações da comunidade reformada (batistas, congregacionais, independentes, presbiterianos, anglicanos e reformados). A teologia do pacto não se pode reduzir a servir meramente como a justificação para alguma visão particular dos filhos no pacto (a sucessão pactual), ou para um certo tipo de escatologia, ou para uma filosofia específica de educação (seja o homeschool, as escolas cristãs, ou as escolas clássicas). A teologia do pacto é maior do que essas coisas. Ela é mais importante do que elas.

“A doutrina do pacto se encontra na raiz de toda verdadeira teologia. Se diz que quem entende bem a distinção entre o pacto das obras e o pacto de graça, tem um mestrado em teologia. Estou convencido de que a maioria dos erros que os homens cometem com respeito às doutrinas da Escritura se baseiam em erros fundamentais com respeito ao pacto da lei e da graça. Que Deus nos conceda agora o poder para instruir, e a vocês a graça para receber uma instrução sobre este vital assunto”. Quem disse isto? Charles H. Spurgeon - o grande pregador batista inglês! Ele é, na verdade, um homem que se fora de nossa suspeita de ministrar secretamente uma visão presbiteriana dos sacramentos às desprevenidas massas evangélicas.

A teologia do pacto frui da vida e obra trinitária de Deus. A comunhão pactual de Deus conosco está moldada, e é um reflexo, das relações intratrinitárias. A vida compartilhada, a comunhão entre as pessoas da Santíssima Trindade, o que os teólogos chamam de perichoresis, ou circumincessio, é o arquétipo da relação que o misericordioso Deus do pacto compartilha com o seu povo eleito e remido. Os compromissos de Deus no pacto eterno da redenção encontram a sua realização no espaço-tempo no pacto de graça.


Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Porto Velho, 29 de Julho de 2016.

09 junho 2016

Cronologia da vida de Hulrich Zwingli [1448-1531]

1. 1448 – [1 de Janeiro] Zwingli nasce em Wildhaus (Toggenburg).
2. 1489/1498 – Frequenta a escola em Weesen, Basiléia e Berna.
3. 1498/1506 – Estudos na Universidade de Viena e Basiléia.
4. 1506 - Início do pastorado em Glarus.
5. 1510 – Escreve A Poética Fábula acerca de Ox.
6. 1513 - Acompanha as tropas de Glarus até Navarra.
7. 1514/1516 – Escreve O Labirinto.
8. 1515 – Acompanha as tropas até Marignano.
9. 1516 - Visita Erasmo em Basiléia.
10. 1516 – [Novembro] Início do pastorado em Einsiedeln.
11. 1519 – [1 de Janeiro] Torna-se sacerdote do povo em Zurique na Grande Catedral [Grussmünster]. Adoece com a praga.
12. 1521 – [29 de Abril] Promovido a pastor principal.
13. 1522 – [9 de Março] Promove a refeição com linguiça na casa de Christoph Frowshauer.
14. 1522 – [7-9 de Abril] Debate com a delegação episcopal.
15. 1522 – [16 de Abril] Escreve Quanto à escolha e liberdade dos alimentos.
16. 1522 – [21 de Julho] Debate com os monges mendicantes.
17. 1522 – [22-23 de Julho] Escreve A primeira e a última palavra.
18. 1522 – [6 de Setembro] Escreve Acerca da Clareza e Certeza da Palavra de Deus.
19. 1522 – [17 de Setembro] Prega o Sermão acerca da perpétua virgindade de Maria.
20. 1523 – [29 de Janeiro] Primeiro debate em Zurique.
21. 1523 – [14 de Julho] Escreve Interpretação e Fundamento para as 67 Conclusões.
22. 1523 – [30 de Julho] Escreve Acerca da Justiça Divina e Humana.
23. 1523 – [1 de Agosto] Escreve Pequeno Livro-Texto.
24. 1523 – [29 de Setembro] Novas diretrizes para a Grande Catedral.
25. 1523 – [26-28 de Outubro] Segundo debate em Zurique.
26. 1523 – [17 de Novembro] Escreve Breve Instrução Cristã.
27. 1524 – [13-14 de Janeiro] Realização do tradicional debate entre párocos.
28. 1524 – [2 de Abril] Casamento com Ana Reinhart.
29. 1524 – [8 de Abril] Aliança dos Cinco Estados em Defesa contrária a Reforma.
30. 1524 – [Junho] Retirada das pinturas e imagens das igrejas de Zurique.
31. 1524 – [24 de Outubro] Extinção do Convento de Maria.
32. 1524 – [Novembro] Escreve a Carta à Matthew Alber acerca da Ceia do Senhor.
33. 1524 – [28 de Dezembro] Escreve Quem provoca distúrbios.
34. 1525 – [15 de Janeiro] Instituídas Leis de Bem-Estar.
35. 1525 – [17 de Janeiro] Debate com oponentes do batismo infantil.
36. 1525 – [21 de Janeiro] Primeiro batismo adulto.
37. 1525 – [Março] Escreve Comentário acerca da Verdadeira e da Falsa Religião.
38. 1525 – [26 de Março] Escreve O Pastor.
39. 1525 – [Março/Abril] Escreve Ato ou Costume da Ceia.
40. 1525 – [Abril] Indicado como supervisor da escola.
41. 1525 – [13 de Abril] Revisão da celebração da Eucaristia.
42. 1525 – [10 de Maio] Leis matrimoniais.
43. 1525 – [27 de Março] Escreve Acerca do Batismo, Anabatismo e Batismo Infantil.
44. 1525 – [19 de Junho] Escreve Profecia.
45. 1525 – [Agosto] Inicia o mandato do Concílio para a reorganização política e econômica.
46. 1526 – [Fevereiro] Escreve Breve Clareza da Ceia do Senhor.
47. 1526 – [Maio/19 de Junho] Debate em Baden.
48. 1527 – [31 de Junho] Escreve Refutação dos Programa dos Anabatistas.
49. 1527 – [Dezembro] Revigoramento das leis do acordo de Zurique com Constança.
50. 1528 – Revigoramento das leis de acordo de Zurique com Berna e St. Gallen. Instituição das diretrizes da igreja de Zurique.
51. 1528 – [6-26 de Janeiro] Debate de Berna.
52. 1528 – [7 de Fevereiro] Leis para a Reforma de Berna.
53. 1528 – [21 de Abril] Primeiro Sínodo de Zurique.
54. 1529 – Revigoramento das leis de acordo de Zurique com Basiléia, Schaffhausen, Biel e Mulhausen.
55. 1529 – [Abril] Leis para a Reforma de Basiléia.
56. 1529 – [22 de Abril] A “União Cristã” dos Cinco Estados com Ferdinand I.
57. 1529 – [26 de Junho] Primeiro Tratado de Paz de Kappel.
58. 1529 – [Setembro] Leis para a Reforma de Schaffhausen.
59. 1529 – [1-4 de Outubro] O Colóquio de Marburgo.
60. 1530 – [3 de Julho] Escreve A Razão da Fé [Fidei Ratio].
61. 1530 – [20 de Agosto] Escreve Sermão acerca da providência de Deus.
62. 1530 – [Novembro] Aliança entre Zurique e Hesse.
63. 1531 – [Maio] Bloqueio de alimento contra os Cinco Estados.
64. 1531 – [Julho] Zwingli oferece a sua renúncia.
65. 1531 – [Julho] Escreve Exposição da Fé Cristã.
66. 1531 – [11 de Outubro] Zwingli morre na batalha de Kappel.


Extraído de Ulrich Gäbler, Huldrych Zwingli – His Life and Work (Philadelphia, Fortress Press, 1986), pp. 175-177.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

25 maio 2016

Somos uma igreja presbiteriana

O sistema de governo presbiteriano significa que somos governados pelos presbíteros. Não somos congregacionais (onde todos decidem pelo voto direto), nem episcopais (onde apenas um superior decide sobre os demais). Somos uma igreja regida representativamente pelos presbíteros escolhidos pela igreja local sob a autoridade da Escritura Sagrada.

Segue abaixo os princípios do nosso sistema de governo:[1]
1. Cristo é a cabeça da sua Igreja e a fonte de toda a sua autoridade.
2. Esta autoridade encontra-se escrita na Escritura Sagrada, de modo que, todos têm acesso ao seu conhecimento.
3. Todos os crentes devem estar unidos entre si e ligados diretamente a Cristo, assim como os diversos membros de um corpo, que se subordinam à direção da cabeça.
4. Cristo exerce a sua autoridade em sua Igreja, por meio da Palavra de Deus e do seu Espírito.
5. O próprio Cristo determinou a natureza do governo de sua Igreja.
6. Cristo dotou tanto a membros comuns como aos oficiais da sua Igreja com autoridade, sendo que os oficiais receberam adicional autoridade, por meio da ordenação, como é requisito para realização dos seus respectivos deveres.
7. Cristo estabeleceu apóstolos para estabelecimento do seu fundamento, entretanto, eram de caráter transitório. O ofício de apóstolo cessou, mas a sua autoridade é preservada pelos seus escritos, isto é, o Novo Testamento.
8. Cristo providenciou para o específico exercício da autoridade por meio de representantes (os presbíteros docentes e regentes), a quem separou para a preservação da doutrina, adoração e disciplina na Igreja.
9. O ofício de presbítero e o termo bispo [supervisor] possuem o mesmo significado.
10. Os presbíteros têm a responsabilidade permanente de pastorear a Igreja de Cristo.
11. A pluralidade de presbíteros numa igreja local é a liderança normativa até a segunda vinda de Cristo.
12. Em cada igreja local precisa possuir uma pluralidade de diáconos, auxiliando os presbíteros, e exercendo o ministério da misericórdia.
13. A seleção dos homens deve obedecer a prescrição divina da qualificação dos oficiais (1 Tm 3:1-13 e Tt 1:5-9).
14. A admissão ao ofício deve ser pela ordenação, com oração e imposição de mãos dos presbíteros.
15. A forma de administração em cada congregação é pela representação dos presbíteros eleitos pela igreja local.
16. Em casos de dificuldades na igreja local quanto à doutrina, disciplina, culto e governo são resolvidas administrativamente pela consulta ou intervenção dos concílios superiores. Os concílios superiores deverão se guiar pela autoridade final da Escritura Sagrada para promover a pureza e unidade na verdade, a fim de que a Igreja Visível testemunhe a nossa comunhão com o nosso Cabeça, o Senhor Jesus Cristo, e o mundo saiba que somos um.

Em suma, o nosso sistema de governo é formado pela pluralidade de presbíteros. Isto significa que a igreja é governada por um concílio de presbíteros, e não por um homem ou por toda a comunidade. Por isso, o nosso sistema de governo também é chamado de conciliar, ou seja, ele possui uma estrutura formada de concílios menores, que federados formam concílios superiores.

Todos os presbíteros têm a mesma autoridade em reunião de conselho. Os pastores, que são presbíteros docentes, em discussão e voto possuem igual poder de decisão que os demais presbíteros regentes. Esta igualdade de decisão ocorre em qualquer nível conciliar, desde o Conselho da igreja local estendendo-se até o Supremo Concílio.

O Novo Testamento menciona duas funções dos presbíteros. Ronald Hanko observa que
a Escritura faz a distinção entre presbíteros regentes (1 Tm 3:4-5; 1 Tm 5:17) e presbíteros docentes (1 Pe 5:1). Todavia, isto não significa que um seja superior ao outro. Como estas passagens demonstram, não há uma distinção absoluta entre estes ofícios. Presbíteros regentes também devem ser capazes de ensinar (1 Tm 3:2), e presbíteros docentes “que se afadigam na palavra e no ensino” também governam (1 Tm 5:17).[2]

De modo complementar, os pastores também governam, e os presbíteros também pastoreiam. Os pastores são presbíteros docentes, porque se afadigam priorizando o estudo e ensino da Palavra, enquanto, os demais presbíteros são regentes, e estes têm como prioridade governar os membros e administrar o patrimônio da igreja local.

NOTAS:
[1] Adaptado parcialmente de Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith (Nashville, Thomas Nelson Publishers, 2ªed.rev., 1997) pp. 902-903, bem como de James M. Porteous, Jesus Christ King of the Church (The James Begg Society, 1999), p. 110.
[2] Ronald Hanko, Doctrine according to Godliness – A Primer of Reformed Doctrine (Grandville, Reformed Free Publishing, 2004), p. 240.
[3]