25 abril 2020

"A Companhia de Pastores de Calvino" - resenha por Michael Horton

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.

Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Pequeno Conselho que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

O caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.


Artigo extraído de https://www.thegospelcoalition.org/reviews/calvins-company-pastors/ artigo publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

23 abril 2020

Estudando a Confissão de Fé de Westminster

Se você pretende estudar o contexto histórico e a estrutura teológica da Confissão de Fé de Westminster, permita-me sugerir alguns livros que são indispensáveis para uma pesquisa proveitosa. A lista de livros e textos não pretende ser exaustiva, mas apenas uma amostra do que está disponível para incentivar aos pesquisadores.

HISTÓRIA DA ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER

1. A. Craig Troxel, “Divine Right” Presbyterianism and Church Power (Diss. PhD., Westminster Theological Seminary, 1998).

2. Acts of the General Assembly of the Church Scotland 1632-1842 – Reprinted from the original edition, under the superintendence of The Church Law Society (Edinburgh, The Edinburgh Printing and Publishing Company, 1898).

3. B.B. Warfield, "The Westminster Assembly and its work" in: The Works of B.B. Warfield (Grand Rapids, Baker Book, 2003), vol. 6

4. Chad van Dixhoorn, The Minutes and Papers of Westminster Assembly 1643-1652 (Oxford, Oxford University Press, 2012), 5 vols.

5. David R. Ehalt, The Development of Early Congregational Theory of the Church, with Special Reference to the Five "Dissenting Brethren" at the Westminster Assembly (Diss. PhD., Claremont Graduate School and University Center, 1969).

6. Ethyn Williams Kirby, “The English Presbyterians in the Westminster Assembly” in: Church History, Vol. 33, No. 4 (Cambridge University Press on behalf of the American Society of Church History, Dec., 1964), pp. 418-428.

7. George Gillespie, The Works of George Gillespie (AB Canada: Still Waters Revival Books, 1991), vol. 2.

8. Guilherme Kerr, A Assembleia de Westminster (São José dos Campos, Editora Fiel, 1992).

9. James Kevin Culberson, For Reformation and Uniformity”: George Gillespie (1613-1648) and the Scottish Covenanter Revolution (Diss. PhD., University of North Texas, 2003).

10. John H. Leith, Assembly at Westminster – Reformed Theology in the Making (Atlanta, John Knox Press, 1978).

11. J. Ligon Duncan, III, ed., The Westminster Confession into the 21st Century (Ross-shire, Mentor Imprint, 2005), 3 vols.

12. John Lightfoot, The Journal of the Proceedings of the Assembly of Divines: From January 1, 1643, to December 31, 1644 in: The Whole Works of the Rev. John Lightfoot, D. D., editado por John Rogers, Vol. 13.

13. John R.H. Corbett, The Churches in England and Scotland, 1603-1649: A Study in Church Union (Thes. S.T.M., McGill University, 1970).

14. Larry Jackson Hglley, The Divines of the Westminster Assembly - A Study of Puritanism and Parliament (Diss. PhD., Yale University, 1979).

15. Paul Joseph Smith, The Debates on Church Government at the Westminster Assembly of Divines, 1643-1646 (Diss. PhD., Boston University Graduate School, 1975).

15. Robert Baillie, The Letters and Journals of Robert Baillie (Edinburgh, A. Laurie Publisher, 1842) 3 vols.

16. Robert Letham, The Westminster Assembly – Reading its Theology in Historical Context (Phillipsburg, P&R Publishing, 2009).

17. Samuel R. Gardiner, ed., Constitutional Documents of the Puritan Revolution of from 1628-1660 (Oxford, Oxford University Press, The Clarendon Press, 1889).

18. Wayne R. Spear, Covenanted Uniformity in Religion: The Influence of the Scottish Commissioners upon the Ecclesiology Assembly of the Westminster (Pittsburgh, University of Pittsburgh, Diss. Ph.D., 1976).

19. William M. Hetherington, History of the Westminster Assembly of Divines (Elgin, Puritan Publications, 2006).


COMENTÁRIOS DA CONFISSÃO DE FÉ

1. Chad van Dixhoorn, Guia de estudos da Confissão de Fé de Westminster (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017).

2. David Dickson, Truth’s victory over error – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Edinburgh, The Banner of Truth, 2007).

3. G.I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes (Edinburgh, The Banner of Truth, 1964).

4. Gordon H. Clark, What do Presbyterians believe? (Unicoi, The Trinity Foundation, 2001).

5. Hodge, A.A., Confissão de Fé de Westminster Comentada (São Paulo, Editora Os Puritanos, 1999).

6. Robert Shaw, The Reformed Faith – an exposition of the Westminster Confession of Faith (Inverness, Christian Focus Publications, 1973).

7. Wayne R. Spear, Faith of our fathers – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Pittsburgh, Crown & Covenant Publications, 2006).


SITES

1. www.westminsterconfession.org [a biografia, documentos e as obras dos membros da Assembleia de Westminster].

2. www.prdl.org [as obras dos teólogos e os documentos da Assembleia de Westminster e diversos outros]

14 abril 2020

Os estudantes de teologia da Academia de Genebra

Este é um trecho do Estatuto da Academia de Genebra.[1] O documento completo é parte de um projeto/livro com traduções de vários diretórios eclesiásticos que João Calvino escreveu para a Companhia de Pastores da Igreja de Genebra.

Os estudantes públicos,[2] assim como são declarados, procurarão o reitor para registrar os seus nomes e assinar com as próprias mãos a Confissão de Fé. Eles devem se comportar com modéstia e no temor de Deus.

Aqueles que desejam estudar as Sagradas Escrituras escreverão os seus nomes em um catálogo e, no sábado, das duas às três horas, tratarão em público alguma passagem das Escrituras na presença de alguns ministros, que conduzirão a reunião. Então eles ouvirão as críticas do ministro que está liderando. Nesta crítica, é permitido a todos que estão presentes manifestarem modestamente a sua opinião e no temor de Deus. Esses mesmos alunos, por sua vez, prepararão e escreverão, a cada mês, algumas proposições que não serão meras curiosidades, nem sofismas, nem sustentarão falsas doutrinas, e as comunicarão em tempo hábil ao professor de teologia. Então, eles as defenderão num debate público contra aqueles que queiram discuti-las. Naquele momento será permitido que todos falem. Serão banidos todo sofisma, curiosidade insolente e audaciosa que corrompe a Palavra de Deus e, da mesma forma, toda contenda maligna e orgulho contumaz.

Pontos de doutrina serão tratados com reverência e religiosamente pelos dois lados da disputa. O professor de teologia que presidirá a debate conduzirá tudo de acordo com sua prudência e dará, pela Palavra de Deus, a solução para as dificuldades que foram submetidas.


NOTA:
[1] A tradução foi realizada a partir de W. Stanford Reid, “Calvin and the Founding of the Academy of Geneva,” Westminster Theological Journal 18, no. 1 (1955): 22–33, recorrendo aos textos originais em francês e latim. Há disponível fac-símile do texto latino Leges Academiae Genevensis Estatutos da Academia de Genebra] editado por Oliva Roberti Stephani, 1559, em Genebra; e uma edição francesa L’ordre du College de Genève de L’Olivier De Robestienne, publicação de 1559, em Genebra; e, outra sob o título Les Ordonnances Ecclesiastiques de l’Egllise de Genève. Item, l’ordre des escoles de ladite cité [As Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra. Bem como, a ordem das escolas da referida cidade] publicada por Artus Chauvin, edição de 1561, em Genebra. Em 29 de Maio de 1559 é promulgado o Estatuto da Academia de Genebra com o título de L’ordre establi au College de Geneve par nos Magnifique & treshonorez seigneurs Syndiques & Conseil [A Ordem estabelecida para a Academia de Genebra pelos nossos magníficos e honrados senhores síndicos e Conselho]. A edição de 1561 traz um título mais longo, que diz: L’ordre des escoles de Genève. La publication des loix concernans l’ordre des Escoles de ladite cité en la presence de nos magnifiques & treshonnorez Seigneurs, Syndiques & Conseil [A Ordem das escolas de Genebra. A publicação das leis concernentes à ordem das Escolas da referida cidade na presença de nossos magníficos e honrados senhores, síndicos e Conselho] publicada por Artus Chauvin. Entretanto, os textos em francês de 1559 e 1561 têm o mesmo conteúdo. Mas o texto latino altera o título para Promulgatio Legu Academiae Genevensis [A Publicação dos Estatutos da Academia de Genebra] e, também, omite a "Forma da Confissão dos Estudantes Públicos". Os textos fac-símiles estão no site www.e-rara.ch e na Bibliothèque de Genève, o texto impresso encontra-se em Opera Calvini, vol. IX, pp, 721-726.

[2] David W. Hall comenta que “a Academia de Calvino, anexa à Catedral de Saint Pierre, oferecia dois níveis de currículos: uma para a educação pública da juventude de Genebra (o colégio ou schola privata), e o outro, um seminário para o treinamento de ministros (schola publica). Não se deve diminuir o impacto que se deu pela educação pública da juventude, especialmente quando a educação normalmente estava reservada somente para os descendentes da aristocracia, ou membros das sociedades católicas. Iniciada em 1558, com Calvino e Theodore Beza como presidentes da faculdade de teologia, o edifício da Academia foi dedicado em 5 de Junho de 1559, com 600 pessoas presentes na Catedral de Sainct Pierre. Calvino arrecadou dinheiro para a escola e muitos expatriados doaram para ajudar na arrecadação. A escola pública, a qual tinha sete graus, matriculou 280 estudantes em seu ano inaugural, e o seminário da Academia se expandiu a 162 estudantes em apenas três anos. Na morte de Calvino, em 1564, havia 1.200 estudantes no colégio e 300 no seminário. Ambas as escolas, como observam os historiadores, eram gratuitas e ‘precursoras da educação pública moderna’. Poucas instituições europeias nalgum momento viram um crescimento tão rápido.” David W. Hall, The legacy of John Calvin – His influence on the Modern World (Phillipsburgh, P&R Publishing, 2008), p. 13.

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki
14 de abril de 2020.

07 abril 2020

Devemos transmitir a ceia do Senhor Online?

por Scott R. Swain


Durante a semana passada, estive envolvido em várias conversas sobre se as igrejas devem transmitir ao vivo a Ceia do Senhor.

Na maioria dos casos, as conversas não foram sobre se a transmissão ao vivo da Ceia do Senhor é válida em circunstâncias normais […]. A maioria das conversas em que participei foi entre ministros reformados e presbiterianos com um entendimento compartilhado da igreja, ministério pastoral e sacramentos. A questão nessas conversas foi se as circunstâncias extraordinárias da vida em quarentena permitem maneiras extraordinárias de administrar a Ceia do Senhor.

O The Gospel Coalition publicou duas perspectivas batistas sobre a questão de as igrejas fazerem online a Ceia do Senhor, uma contra e outra favorável. Além disso, a Christianity Today publicou um artigo, escrito do ponto de vista sacramental protestante, que argumenta que a Ceia do Senhor pode realmente cumprir sua função como um meio de graça, mesmo quando celebrada online.

Não creio que as igrejas devam transmitir a Ceia do Senhor por razões bastante reformadas. A razão mais fundamental tem a ver com a natureza do próprio sacramento.

Um sacramento, no nível mais básico, é uma ação simbólica ordenada por Jesus Cristo à qual ele anexou a promessa de sua presença e bênção (Êx 20:24; Mt 28:18-20; Lucas 22:19; 1 Co 10:1-4, 16; 11:24-25). O “sinal”, nesse entendimento, não são simplesmente os “elementos” da água, pão e vinho. O sinal é a totalidade da ação simbólica que, no caso da Ceia do Senhor, é uma refeição compartilhada (1Co 10:17). Além disso, quando se trata da Ceia do Senhor, a ação simbólica de uma refeição compartilhada tem um contexto específico e divinamente ordenado: “quando vocês se reúnem” (1Co 11:33). O “sinal” da Ceia do Senhor é uma refeição compartilhada, participada na assembleia da Aliança, do povo de Deus, ou seja, a igreja reunida. A esta ação simbólica, Cristo anexou a promessa de sua presença e bênção: “ali te darei meu amor” (Ct 7:12).

Quando se trata da Ceia do Senhor, então, nenhuma refeição compartilhada, nenhuma assembleia da aliança significa nenhum sacramento. (Nota: a situação é diferente no batismo, cuja ação simbólica envolve uma pessoa lavando a outra pessoa com água). Embora a ação de uma refeição compartilhada e o contexto da assembleia da aliança não sejam condições suficientes para celebrar a Ceia do Senhor, são condições necessárias. Sem eles, realmente não se pode celebrar a Ceia do Senhor.

Aqueles que mais se afastaram dessa linha de argumentação o fizeram porque valorizam profundamente a Ceia do Senhor como um meio de graça. Que grande perda, argumentam eles, sem os meios divinamente designados de dar e receber o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, de fortalecer nossa fé e esperança, de receber e responder ao amor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Contra esse sentimento, não tenho argumentos. É realmente uma grande perda, talvez a maior perda entre muitas outras perdas que se seguem à nossa incapacidade de nos reunirmos na presença de Deus como povo da aliança de Deus no Dia do Senhor.

Mas a resposta adequada a essa grande perda não é tentar transmitir ao vivo a Ceia do Senhor. Por enquanto, o caminho para participar da Ceia do Senhor está fechado para todos nós. Por enquanto, não somos chamados para festejar, mas para jejuar.

O que leva ao que acredito ser a resposta pastoral apropriada em nossa atual crise. Em situações de perda como essa, precisamos aprender a lamentar, e devemos ensinar o povo de Deus a lamentar, algo bastante difícil para aqueles (como eu) que estão acostumados à gratificação instantânea.

A Ceia do Senhor é uma das maiores bênçãos que Jesus Cristo deu à sua igreja. Nossa incapacidade de celebrar a Ceia do Senhor por um período só pode ser, deve ser, apenas causa de tristeza e lágrimas. Por enquanto, não podemos celebrar essa lembrança do Senhor “provando” e “vendo” sua bondade (Sl 34:8).

Mas isso não significa que somos enviados a um estado de completo esquecimento. Não. Existe um tipo de lembrança que acompanha o exílio da cidade de Deus (Sl 137:5-6), a lembrança que leva a lágrimas fiéis (Sl 137:1-2) e que cultiva o desejo de restauração (Sl 63:1; 143:6), a lembrança daqueles que já provaram e que, pela graça de Deus, sabem que mais uma vez provarão e verão a bondade do Senhor, seja na sua mesa na assembleia da aliança ou na ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19:9). Este é o tipo de lembrança que somos chamados a cultivar em nós mesmos e em nossos rebanhos neste tempo.

Nosso presente jejum da Ceia do Senhor é necessário, mas lamentável. Nosso presente jejum também é uma oportunidade de cultivar um desejo sincero pelo Senhor e por seu povo que tornará nosso banquete à mesa do Senhor ainda mais alegre quando o tempo do nosso jejum chegar ao fim. Faremos um banquete na casa de Sião!


Scott R Swain é presidente e professor de Teologia Sistemática no Reformed Theological Seminary, em Orlando, Flórida, onde atua desde 2006. É ministro ordenado na Igreja Presbiteriana da América. Scott e sua esposa, Leigh, têm quatro filhos.
Tradução: Pr. Dilsilei Monteiro

Extraído de TGC - Coalizão Pelo Evangelho.

22 março 2020

D.A. Carson e sua interpretação imaginativa do dom de línguas

por Ewerton B. Tokashiki


índice

1. Qual o problema?
2. Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?
3. O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?
4. Anexo


Qual o problema?

Se tem um escritor que aprecio ler é D.A. Carson. De fato, ele é uma referência acadêmica de competência inquestionável. O primeiro livro dele que li foi “Exegese e suas falácias”[1] e, a partir daí, passei a admirar a capacidade de discernir erros exegéticos em grandes intérpretes da Bíblia. Todavia, a minha decepção veio com a leitura do seu livro “A manifestação do Espírito – a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14”. Quando soube que ele era um continuísta, fiquei muito curioso querendo saber como seria a abordagem exegética de alguém com a competência como a dele? A leitura do capítulo 3 “Profecia e línguas: buscando o que é melhor (14.1-19)” trouxe a inevitável frustração. Não vou me deter resumindo a parte introdutória do capítulo, que é de menor importância, mas de modo objetivo irei para a análise de sua opinião sobre o dom de línguas. Resumidamente, é necessário antecipar, por amor da clareza, que Carson faz uma distinção entre o dom de línguas de Atos e 1Coríntios e o falar em línguas na atualidade, e apesar disso, ele tenta explicar a relação entre estes diferentes fenômenos.


Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?

Há um aspecto muito positivo neste capítulo. Carson crê que tanto as ocorrências de línguas em Atos como 1Coríntios eram idiomas, e não manifestações extáticas. Ele declara que “devo simplesmente registrar minha convicção de que o que Lucas descreve em Pentecostes são idiomas existentes”.[2] Então, logo em seguida apresenta a conclusão de que
Paulo considerava o dom línguas um dom de idiomas existentes, ou seja, de línguas que eram cognitivas, fossem elas de homens, ou de anjos. Além disso, se ele sabia dos detalhes de Pentecostes (atualmente, uma opinião impopular no mundo acadêmico, mas totalmente defensável em minha opinião), seu entendimento sobre línguas deve ter sido moldado, até certo ponto, por esse evento. Certamente as línguas em Atos exerceram algumas funções diferentes das que eram exercidas em 1Coríntios; mas não há evidência substancial que sugira que Paulo pensasse as duas como essencialmente diferentes.[3]

Nesta parte a maioria dos cessacionistas concordam com ele. Digo, a maioria, porque há alguns cessacionistas que não creem que os dois eventos se refiram ao mesmo fenômeno. Mas, eu fecho plenamente com Carson neste ponto!


O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?

Ele divide a sua argumentação em três partes. Primeiro, ele expõe que apesar de não ter fundamento bíblico, a experiência é válida por ser funcionalmente benéfico para quem a usa. A primeira constatação que Carson faz sobre o moderno fenômeno de falar em línguas é de que “não é nenhum idioma humano. Os padrões e as estruturas exigidos por todo idioma humano conhecido simplesmente não estão presentes nesses exemplos. Ocasionalmente, uma palavra reconhecível escapa; mas isso é estatisticamente provável, dado o grande volume de verbalização”.[4] A sua próxima conclusão é que “as línguas atuais, em termos lexicais, são não comunicativas, e os poucos exemplos de casos de xenoglossia atuais são tão mal atestados que nenhum peso pode ser colocado neles.”[5] Em outras palavras, nas atuais manifestações do falar em línguas, segundo Carson, não há uma comunicação direta inteligível. E apesar disso, a sua conclusão tende para o pragmatismo, ao declarar que “o atual fenômeno parece fazer mais bem do que mal, tem ajudado muitos crentes no que diz respeito a adoração, oração e compromisso, e, por isso, deveria talvez ser avaliado como um bom dom de Deus, apesar de não ter nenhuma garantia bíblica explícita.”[6] O que vemos aqui é a completa negação do princípio fundamental sola Scriptura, a favor de uma experiência que não tem base na Escritura Sagrada, por meros motivos pragmáticos. Essa afirmação já seria suficiente para fechar o livro, e perder todo o interesse na explicação de Carson. Mas a minha curiosidade me obrigou a terminar a leitura do capítulo.

Em segundo lugar, após comentar a tese de Poythress que oferece três possíveis explicações para o fenômeno de falar em línguas,[7] Carson desdobra uma quarta possibilidade de significado do suposto dom. Ele propõe que esse fenômeno são “padrões de fala suficientemente complexos a ponto de poderem carregar todos os tipos de informação cognitiva em algum tipo de ordem codificada, ainda que linguisticamente esses padrões não sejam identificáveis como idioma humano”.[8] Alguns termos fogem de seu sentido comum, como “informação cognitiva” e “ordem codificada” e passam a ter o sentido de não-sei-o-que-significa. Carson não consegue perceber o nível de absurdo que a sua proposta o levou. Daí ele se admira porque é desprezada, apesar de, segundo ele, a sua proposta “é também logicamente possível, ainda que comumente seja ignorada; e ela satisfaz as restrições tanto daquilo que é apresentado nos documentos bíblicos do primeiro século quanto de alguns dos fenômenos atuais. Não entendo como isso possa ser ignorado.” Ele não explica o que é “logicamente possível”, nem a que fenômenos do primeiro século se refere, porque obviamente não é às experiências de Atos, nem de 1Coríntios.

O terceiro argumento é a tentativa de definir, por pressuposto, que o moderno falar em línguas é uma vocalização livre. A teoria é uma tentativa de justificar a irracionalidade de algo que não deveria ser classificado como um idioma.[9] A explicação segue que “Poythress nos relembra que tais vocalizações livres ainda podem carregar conteúdo além de uma imagem vaga do estado emocional do falante.”[10] Quando a explicação ficou questionavelmente estranha, Carson ainda propõe uma “ilustração criativa”, sem nenhuma fundamentação exegética! Vou transcrever a sua explicação:[11]

Imaginem que a mensagem é:

“Louvarei ao Senhor, pois seu amor dura para sempre.”

Ao retirarmos as vogais, obtemos:

LV SNHR OS MR DR PR SMPR.

Isso pode parecer um pouco estranho; contudo quando nos lembramos que o hebraico moderno é escrito quase sem vogais, podemos imaginar que, com certa prática, isso poderia ser lido com bastante tranquilidade. Agora, remova os espaços e, começando pela primeira letra, reescreva a sequência usando cada terceira letra repetidamente por toda a sequência até que todas as letras sejam usadas. O resultado é:

LNPMRSRSRSDRPVHSRDM.

Agora adicione um som de “a” depois de cada consoante e divida arbitrariamente a unidade em pedaços:

LANAPA MARA SARASARA SADARA PAVA HASARA PAMA.

Acredito que isso não é diferente das transcrições de certas línguas atuais. Certamente é muito parecido com algumas que já ouvi. Mas a questão importante é que isso transmite informação, desde que você conheça o código. Qualquer um que conheça os passos que dei poderia revertê-los a fim de voltar à mensagem original.


É inacreditável que esta seja a sua proposta sobre a prática atual de falar em línguas. O continuísmo de Carson o força a uma explicação no mínimo estranha. Todavia, ela não é apenas diferente de qualquer outra explicação, que até mesmo pentecostais e carismáticos já ofereceram, ela é assumidamente não bíblica! O autor reconhece a total ausência de correlação entre o seu correto entendimento do dom de falar em línguas, conforme At e 1Co, e oferece uma explicação, que segundo ele, é um “padrão de verbalização não poderia ser desprezado de forma legítima como se fosse uma linguagem sem nexo. Ele é tão capaz de possuir conteúdo proposicional e cognitivo, assim como qualquer outro idioma humano conhecido.”[12] Isso se assemelha a “língua do p” que os adolescentes usam para se comunicarem! Onde está o elemento sobrenatural do dom de línguas? Neste caso, Carson reconhece que isso seria apenas uma questão de saber a “chave hermenêutica” para decifrar o segredo do que se fala; em outras palavras, o falar e o interpretar não seriam dons sobrenaturais, mas apenas o conhecimento de técnicas de linguística.

Creio que D.A. Carson deveria escrever uma 3ª edição revisada de “Exegese e suas falácias”. Nesta versão ampliada seria interessante acrescentar um 6º capítulo sob o título: “Falácias imaginativas”. Confesso que esperava um melhor argumento continuísta do Carson. Sendo justo com o seu pensamento, confesso que concordo com a exegese de Carson sobre o falar em línguas em At e 1Co, mas não consigo digerir a sua interpretação da experiência contemporânea de falar em línguas.

Ele é um respeitável scholar de exegese em Novo Testamento. Ainda admiro o seu trabalho exegético, apesar de estar decepcionado com o seu insustentável continuísmo. Concordo com a sua interpretação das manifestações das línguas mencionadas em At e 1Co como sendo o mesmo fenômeno sobrenatural de falar um idioma humano, sem ter um aprendizado prévio, mas a sua explicação para as manifestações das “línguas contemporâneas” é absurdamente decepcionante.






Anexo


Caso você culpe o tradutor, ou a editora de distorcer “a ilustração imaginativa” de D.A. Carson, transcrevo o texto original para fins comparativos:[13]


Suppose the message is:

Praise the Lord, for his mercy endures forever.


Remove the vowels to achieve:

PRS TH LRD FR HS MRC NDRS FRVR.


This may seem a bit strange; but when we remember that modern Hebrew is written without most vowels, we can imagine that with practice this could be read quite smoothly. Now remove the spaces and, beginning with the first letter, rewrite the sequence using every third letter, repeatedly going through the sequence until all the letters are used up. The result is:

PTRRMNSVRHDHRDFRSLFSCRR.


Now add an ‘a’ sound after each consonant, and break up the unit into arbitrary bits:

PATARA RAMA NA SAVARAHA DAHARA DAFARASALA FASA CARARA.


I think that is indistinguishable from transcriptions of certain modern tongues. Certainly it is very similar to some I have heard. but the important point is that it conveys information provided you know the code [bold reflects Carson’s use of italics]. Anyone who knows the steps I have taken could reverse them in order to retrieve the original message.


NOTAS:

[1] Publicado pela Edições Vida Nova em 1992, e posteriormente, alterando o título numa 2ª edição em 2001 para “Perigos da interpretação bíblica”.
[2] D.A. Carson, A manifestação do Espírito– a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14 (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013), p. 82.
[3] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[4] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[5] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[6] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[7] A sua posição teológica está AQUI acessado em 22/03/2020. A refutação da posição de Pouthress está AQUI acessado em 22/03/2020.
[8] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[9] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[10] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[11] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, pp. 87-88. Os itálicos são do autor.
[12] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 88.
[13] D.A. Carson, Showing the Spirit – A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14 (Grand Rapids, Baker Books, 1987), pp. 85-86.

21 março 2020

Não deixem que a ansiedade os domine!

O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos da igreja de Filipos “Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se! Que a moderação de vocês seja conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não fiquem preocupados com coisa alguma, mas, em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Fp 4.4-7 NAA). Ele prescreve que as mentes dos cristãos não fossem dominadas pelo medo de sofrerem algum mal. Esse medo pode produzir uma nociva ansiedade que tiraria a alegria em Cristo Jesus.

Como evitar a ansiedade e o medo excessivo? A maioria dos motivos das nossas ansiedades e temores, talvez, nunca acontecerão. Mas estas emoções são reais e furtam a nossa alegria, paz, vigor e produtividade. Atualmente temos um contexto de pandemia do COVID-19 [coronavírus] que oferece riscos à nossa saúde e vida. Sabemos que há pessoas que exageram e causam um pânico desnecessário, mas não ignoramos que toda prevenção é salutar para combater a proliferação e contágio desse vírus. Sei que o assunto do coronavírus é massificado na mídia, redes sociais e nas conversas pessoais, mas, apesar de cansativo ele é necessário. Contudo, pensar nele o tempo todo nos leva a uma condição de ansiedade ininterrupta, cansaço emocional e desgaste mental. É sobre isso que Paulo nos adverte.

A Palavra de Deus no texto de Fp 4.4-7, sem nos alienar dos problemas, orienta a pensar nalgumas verdadeiras ideias que produzirão vigor físico e espiritual. Primeiro, ele nos lembra da alegria no Senhor [veja o verso 4]. A alegria no Senhor e não qualquer entretenimento, é a nossa fonte de revigoramento. Neemias vendo o desânimo dos judeus lhe orientou que: “Vão para casa, comam e bebam o que tiverem de melhor. E mandem porções aos que não têm nada preparado para si. Porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Portanto, não fiquem tristes, porque a alegria do Senhor é a força de vocês” (Ne 8.10, NAA). Paulo declarou duplamente que devemos nos alegrar no Senhor. Entendendo essa verdade Johannes Sebastian Bach compôs uma famosa música sob o título de “Jesus é a alegria dos homens” [disponível no Youtube].

Em segundo lugar, Paulo nos adverte que a nossa moderação deve influenciar aos que estão ao nosso redor. Em qualquer situação, seja diversão, festividade, dor, perda por falecimento, ou o contexto de pandemia que vivemos, não devemos tirar os freios das nossas emoções. Não podemos nos entregar ao desespero de modo que contribuamos para o pânico. Jó vendo a perda de seus bens e filhos não saiu gritando, xingando, blasfemando, ou agredindo os outros, pelo contrário, ele se levantou em meio à sua tristeza e louvou ao Senhor com uma das mais confortadoras declarações da Bíblia (Jó 1.20-21). Se, porventura, não sentirmos o consolo de Deus, se não entendermos o motivo do que está acontecendo, ainda assim, somos exortados a pensar que “perto está o Senhor”. Ele nos basta, porque a sua suficiência é maior do que tudo.

Em terceiro lugar, o apóstolo nos repreende a não andarmos ansiosos. A ansiedade em si não é pecado, porque ela, em geral, revela a maturidade e responsabilidade de quem sabe o que é sofrer, dos danos e consequências de enfermidades, dívidas, escassez, pobreza, ameaças e sofrimentos que vão além do nosso controle. Então, a ansiedade foi um desses sentimentos que Deus colocou no homem ao cria-lo, assim como a ira, o amor, a alegria e o medo são legítimos se exercidos com o propósito que Deus lhes deu, isto é, nos santificar e afastar do pecado e promover a nossa devoção à Deus. Por isso, não devemos “andar” ansiosos, ou seja, uma ansiedade incessante que domina todo o nosso comportamento, causando malefícios como descontrole, perturbação e insônia. A recomendação da Palavra de Deus é que coloquemos diante de Deus, por meio da oração, tudo o que nos rouba a paz e alegria em Cristo. Mas não é somente pedir. O texto bíblico [Fp 4.6b] nos orienta a orar “com ações de graças”. Isso significa agradecer a Deus, mesmo que o nosso coração lute usando armas de mortal amargura contra a viva esperança que vem do alto. É o SENHOR Deus quem define o valor do que temos na vida e, por isso, a importância do que fazemos é medido pelo quão gratos somos a Ele quando nos dá ou tira algo de nós. Deus nos ordena a sermos sempre agradecidos por tudo o que Ele faz conosco, porque tudo é para nosso bem e para a sua glória (1Ts 5.18). A gratidão cura o egoísmo e a amargura.

Em quarto lugar, Paulo nos dá uma promessa. Algumas pessoas não sabem o que é ter paz há muito tempo, e algumas, talvez, nunca experimentaram “a paz de Deus que excede todo o entendimento”. Certamente que Paulo como israelita não se refere apenas à ausência de conflitos ou tormentos, mas é possível que esteja pensando em shalom, que é um conceito hebraico muito mais rico em significado. A ideia de shalom, por vezes traduzida por “paz”, refere-se a perfeita ordem e funcionamento de todas as coisas produzindo o pleno bem-estar e contentamento em Deus. É algo que transcende às boas ou más circunstâncias, está além do estado de espírito, ou qualquer outro subjetivismo. O profeta Habacuque sob a eminente invasão dos babilônios, em 605 a.C., faz uma confissão de fé: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira; ainda que a colheita da oliveira decepcione, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas desapareçam do aprisco, e nos currais não haja mais gado, mesmo assim eu me alegro no Senhor, e exulto no Deus da minha salvação” (Hq 3.17-18). É a esta alegria que Paulo se refere ao declarar que esta paz “excede todo o entendimento” não está afirmando que ela é irreal, ou um “salto no escuro”, mas que não se limita a inconstância das nossas emoções, porque ela tem a sua fonte em Cristo e o seu valor é de acordo com o perfeito propósito de Deus (Rm 8.28-29).

A ansiedade descontrolada tem o poder de destruir a nossa concentração. Ela dispersa os nossos pensamentos, levando-nos à tentação de resolver todos os possíveis problemas que atormentam a nossa mente. A mente é induzida a um excessivo e nocivo ativismo. O problema é que quando somos dominados pela ansiedade temos drenado todo o nosso vigor. Por isso, somos incapazes de nos proteger das nossas disfunções emocionais e de pensamentos conflitantes. É aqui que se aplica a promessa de Deus: Ele “guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus”. Não são pensamentos de autoajuda, ou uma mente positiva, um espírito otimista, ou “alto astral” [usando uma linguagem pagã] que nos garantirá a saúde mental e espiritual. Somente Cristo é capaz de nos prover suficientemente em todas as nossas necessidades, dominar nossos conflitos, acalmar nossos temores e satisfazer os nossos reais anseios. Lembre-se: o Senhor Jesus, incessantemente, reina!

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre. Amém!” (Rm 11.36, NAA)

13 fevereiro 2020

Sobre a interpretação da IPB do CMW Perg. 158

A IPB fez uma reinterpretação da Pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster, em sua Reunião Ordinária do Supremo Concílio de 2018. A decisão ocorreu, hermeneuticamente, desprezando o sentido intencional dos autores do texto original, e oferecendo um significado estranho à Pergunta 158, mediante argumentos igualitaristas, sociológicos e pragmáticos para favorecer a pregação feminina.

Esse tipo de hermenêutica despreza a intencionalidade dos autores originais, fazendo com que o leitor atribua um significado de sua preferência no termo original office [ofício]. Creio que o significado correto se encontra na intencionalidade dos autores. Por isso, a única interpretação do significado de office está conforme os teólogos da Assembleia de Westminster determinaram nas Questões 158-159. Veja sobre a tradução - ACESSE AQUI. Corroborando com isso, temos Chad Van Dixhoorn que define office como “uma posição ou cargo na igreja, especialmente de caráter público, a certas tarefas a que estão obrigados; um cargo de confiança, autoridade ou serviço na igreja.” Chad Van Dixhoorn, “Glossary”: office, in: The Minutes and Papers of the Westminster Assembly 1643-1652 - Introduction (London, Oxford University Press, 2012), vol. 1, p. 237.

A decisão não se limitou a aprovar a pregação feminina. Outras mudanças nocivas estão implícitas nela:

1. O Catecismo Maior de Westminster [nas questões 158 e 159] não permite a prática da pregação, nem a ordenação feminina. Os mesmos argumentos que autorizam, oficialmente, a pregação feminina, servirão favoravelmente aos que advogam a ordenação feminina. Aprovou-se não somente a legitimidade do igualitarismo prático, mas se pavimentou o caminho para a ordenação feminina.
2. Negou-se a subscrição integral, incluindo um sentido discordante do sentido e contexto original dos Padrões de Westminster. Apesar dos casos extraordinários serem discutidos nas comissões da Assembleia de Westminster, o fato é que nunca os divines admitiriam a possibilidade de uma mulher ser uma pregadora. Eles criam que o pregador era o "Ministro da Palavra e dos Sacramentos", ele era o único responsável para ministração de ambos. Essa era sua prerrogativa.
3. Criou-se um critério de negação da identidade confessional. Apesar da CI-IPB art. 1 declarar que a nossa denominação adota como fiel interpretação das Escrituras, e exigir que seus membros subscrevam integralmente os Padrões de Westminster, com esta decisão tornou-se possível subscrever reinterpretando o sentido de frases ou partes indesejáveis. A reserva mental é oficialmente aprovada em nosso concílio maior como algo legítimo.

A minha oração é que reconheçamos que erramos com essa decisão de 2018, como o fizemos no caso da "unção com óleo". Que o SENHOR Deus conduza a nossa IPB ao arrependimento, e ocorra uma revisão dessa decisão, de modo que, nos submetamos e sejamos fiéis ao ensino das Escrituras, e conforme juramos em nossa subscrição aos Padrões de Westminster.

07 fevereiro 2020

Uma breve história da Assembleia de Westminster

Wayne R. Spear


O dia 1° de julho de 1993 marcará o 350° aniversário do início da Assembleia de Westminster, uma reunião cujo trabalho moldou profundamente a teologia daquelas igrejas que carregam o nome de presbiteriana, além de outras igrejas como as Congregacionais e algumas Batistas. A Assembleia de Westminster não foi uma assembleia eclesiástica ordinária, mas uma comissão consultiva convocada pelo Parlamento inglês com o propósito de legislar a reestruturação da Igreja da Inglaterra em um tempo de grande turbulência social e política. A Assembleia foi composta por ministros (teólogos) e leigos que eram membros das Casas do Parlamento. Eles se encontraram na Abadia de Westminster por mais de cinco anos e meio, e, durante esse período, produziram documentos que são bastante conhecidos e utilizados hoje: a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Espera-se que a comemoração deste aniversário do início da Assembleia de Westminster venha a estimular um novo interesse na história da Assembleia e um novo estudo dos excepcionais documentos que ela produziu.


Antecedentes da Assembleia

Assembleia de Westminster não se reuniu num lugar de silêncio para uma reflexão teológica sem perturbações. Em vez disso, se reuniu na capital da nação, a poucos passos das Casas do Parlamento, numa época de guerra civil na Inglaterra.

O rei James I da Inglaterra, famoso por seu relutante apoio à versão “King James” da Bíblia, foi sucedido no trono por seu filho Charles, que era mais cruel, porém menos astuto do que seu pai. Charles I, com a impaciente assistência de William Laud, o arcebispo de Canterbury, tentou governar sem a assistência ou interferência do Parlamento durante onze anos. Além das políticas econômicas que muitos consideravam como desastrosas, ele também seguiu um curso de revisão da liturgia da Igreja da Inglaterra para torná-la mais parecida com muitas práticas da Igreja Católica Romana. Os que resistiram foram punidos com prisão, exílio e mutilação.

Os resistentes costumavam fazer parte de um grupo dentro da Igreja da Inglaterra que ficou conhecido por seus inimigos como “puritanos”. Profundamente influenciados pelos princípios da Reforma calvinista, eles lutaram desde o reinado de Elizabet I para trazer a greja para mais perto do ensino bíblico. Durante esse tempo, muitos futuros membros do Parlamento foram influenciados por pregadores puritanos. Na década de 1640, a resistência às políticas de Charles I moveu-se dos púlpitos e das ruas para o Parlamento, principalmente a Câmara dos Comuns. John Pym, presidente da casa, era um puritano convicto – e se tornou posteriormente membro da Assembleia de Westminster.

O tesouro de Charles se esgotou por causa dos seus esforços para reprimir a revolução dos Covenanters na Escócia, que começou com o Pacto Nacional de 1638; então, ele relutantemente convocou o Parlamento Inglês para obter mais impostos. O Parlamento recusou conceder receitas, a menos que Charles concordasse em responder às suas reivindicações. Entre as exigências do Parlamento estava uma mudança no governo da igreja, pois os Puritanos que lideravam a Câmara dos Comuns estavam determinados a remover do poder os bispos nos quais Charles encontrou alguns de seus mais fortes aliados.

Em 1642, quando as negociações falharam, Charles tentou invadir a Câmara dos Comuns para prender os líderes. Os guardas armados retiraram suas tropas e Charles se retirou de Londres. A grande Guerra Civil Inglesa havia começado.


O chamado e o trabalho da Assembleia

O Parlamento (excluindo aqueles que apoiavam o rei) adotou um decreto em 12 de Junho de 1643, convocando uma assembleia de “teólogos eruditos e piedosos” para auxílio no estabelecimento de um governo na igreja da Inglaterra que fosse “o mais agradável à santa Palavra de Deus, e o mais apto a obter e preservar a paz da igreja” (Mitchell, The Westminster Assembly, p. ix.). O decreto nomeou dez membros da Câmara dos Lordes, vinte membros da Câmara dos Comuns e cento e vinte e um ministros.

Nem todos os nomeados compareceram de fato; o rei proibiu a presença e alguns nomeados obedeceram. Sessenta e nove se reuniram para a sessão de abertura. À medida que a Assembleia ia se estendendo, alguns foram ficando doentes ou exaustos. A frequência habitual era provavelmente em torno de sessenta pessoas.

O Parlamento nomeou o moderador da Assembleia e dois escribas. Um debate quase ilimitado foi permitido; os membros frequentemente reclamavam da duração dos debates. Thomas Goodwin advertiu aos seus irmãos que se eles estudassem mais, debateriam menos. As decisões eram tomadas por maioria de votos. Um voto notável que passou por essa margem foi em favor das diaconisas; a ação foi silenciosamente interrompida na edição final.

As regras previam que se um membro tivesse uma discordância de qualquer decisão, poderia registrá-la e apresentar os seus argumentos. Num tempo de guerra civil, essa medida significava mais do que um simples alívio de consciência. Se o Parlamento perdesse a guerra, os membros da Assembleia enfrentariam julgamentos por traição, e um registro por escrito da dissidência poderia ser útil.

A princípio, a Assembleia se reuniu na ornamentada capela de Henry VII, atrás do principal santuário da Abadia. Quando veio o tempo frio, ela foi transferida para uma menor, a Câmara de Jerusalém, onde tinha “um bom fogo” (Robert Baillie, Letters and Journals, p. 107). Ali estavam assentados de acordo com a ordem, os lordes mais próximos do fogo.


As visões representadas na Assembleia

Frequentemente, historiadores escrevem sobre os “partidos” da Assembleia. Não se tratava de grupos organizados ou facções políticas, mas de alianças inconstantes, que representavam pontos de vista divergentes sobre certas questões, geralmente associadas ao governo da igreja.

Alguns dos nomeados como membros da Assembleia estavam comprometidos com o governo da igreja episcopal, incluindo três bispos. Nenhum deles participou dos principais trabalhos da Assembleia.

Alguns dos ministros ingleses eram “presbiterianos pragmáticos”, abertos ao sistema de governo presbiteriano como a única opção viável nas circunstâncias, mas favorecendo o governo limitado dos bispos. Por exemplo, Edward Reynolds, que colaborou na redação da Confissão de Westminster, serviu posteriormente como bispo de Norwich.

Um pequeno número de membros da Assembleia foi chamado “erastianos”. Eles defendiam a supremacia do magistrado civil sobre a igreja. O seu porta-voz mais eminente era um membro do Parlamento, chamado John Selden. Eles tinham poderosos aliados no Parlamento, onde havia muito receio de uma igreja que operaria com alguma independência do Estado.

Havia muitos membros da Assembleia que eram convictamente comprometidos com o sistema de governo presbiteriano. Eles foram ensinados pelos líderes puritanos elisabetanos Thomas Cartwright e Walter Travers. Na maioria das questões, eles concordavam com os comissários escoceses.

Outro pequeno grupo, mas bastante influente, eram os ingleses “independentes” (esse nome foi dado pelos seus oponentes). Eles sustentavam que eram um caminho intermediário entre independência e presbiterianismo. Thomas Goodwin e Phillip Nye eram seus porta-vozes mais proeminentes. Dissidentes na Escócia, incluindo os presbiterianos reformados, vieram depois a adotar pontos de vista sobre a membresia da igreja que se assemelhavam aos deles.


A participação escocesa

Os membros da Assembleia de Westminster eram ingleses. Eles se reuniram em solo inglês para debaterem a doutrina, o culto e o sistema de governo da igreja da Inglaterra. O trabalho da Assembleia, entretanto, teve seu efeito mais duradouro na igreja da Escócia, e em suas igrejas filhas. A providência de Deus usou desenvolvimentos militares e políticos para trazer esse surpreendente resultado.

Em 1643, o Parlamento inglês parecia estar perdendo a guerra contra o rei. O Parlamento enviou uma delegação à Escócia, que resistiram com sucesso o rei Charles, para obter ajuda do exército escocês. O tratado sobre o qual a Escócia concordou em enviar assistência foi chamado Liga Solene e Aliança. Os seus termos incluíam um compromisso entre os países de procurar trazer as igrejas da Inglaterra, Irlanda e Escócia à “mais próxima união e uniformidade na religião, confissão de fé, sistema de governo, diretório para adoração e catecismo”.

Para cumprir essa promessa, os comissários foram enviados para participarem da Assembleia de Westminster. Os comissários eram os presbíteros Lord Maitland e Archibald Johnston, e os ministros Alexander Henderson, Samuel Rutherford, Robert Baillie e George Gillespie. Eles eram muito ativos nos debates e nos trabalhos da Assembleia, mas não votavam.


Os documentos da Assembleia

A composição de uma nova confissão não foi o principal propósito para o qual a Assembleia foi convocada. Contudo, essa situação foi mudada com a adoção da Liga Solene e Aliança, que reivindicava uma Confissão de Fé comum. Nem os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, nem a Confissão Escocesa de 1550 foram consideradas apropriadas para esse fim.

A Assembleia gastou aproximadamente três anos na produção da Confissão que veio a ter seu nome, de Agosto de 1644 até abril de 1647. A Confissão incorporou a fé reformada como desenvolvida em Genebra por João Calvino e transmitida por teólogos britânicos como Jeremiah Whitaker (o teólogo citado mais frequentemente nos debates), William Perkins e William Ames.

A Confissão de Fé de Westminster foi a única dentre as confissões reformadas a usar a teologia pactual como estrutura teológica básica.

Os catecismos eram conteúdo da educação cristã no século XVII. Alguns membros tinham publicado os seus próprios catecismos antes da reunião da Assembleia. Era natural, então, que a Assembleia providenciasse o ensino das doutrinas da Confissão por meio de Catecismos. Após um grande esforço para escrever um único catecismo, a Assembleia decidiu por dois: um curto e simples para aqueles que eram “leigos e sem instrução”, e outro para aqueles que eram “entendidos” (Mitchell, Westminster Assembly, p. 418).

O Catecismo Maior foi debatido entre Abril e Outubro de 1647. É conhecido principalmente por sua exposição detalhada dos Dez Mandamentos. Tem muitas belas particularidades que merecem ser melhor conhecidas. Por exemplo, ecoa o Catecismo de Heidelberg tratando da obediência à lei de Deus como uma maneira de cada pessoa regenerada poder expressar gratidão a Deus pela graça no evangelho. Tem questões sobre a doutrina da revelação e a da Igreja (o que não há no Breve Catecismo). A aplicação da redenção é tratada sob os temas da união e comunhão com Cristo, enfatizando a dimensão prática da fé cristã.

O Breve Catecismo foi preparado inicialmente em Agosto de 1647, mas foi debatido somente por um breve período, entre o final de Outubro e Novembro, antes de ser aprovado. O Breve Catecismo foi o mais popular na Escócia e talvez o mais influente produto da Assembleia de Westminster. É até irônico que os comissários escoceses tenham contribuído muito pouco nessa composição; a maioria deles voltou para casa antes do Catecismo ser finalizado na Assembleia.

Outros documentos produzidos na Assembleia não são muito bem conhecidos. O principal objetivo da convocação da Assembleia foi produzir um plano para a reforma do governo da igreja. Sobre esse assunto, houve considerável desacordo entre os vários membros. A Assembleia ficou grandemente ocupada debatendo assuntos do governo da igreja de Setembro de 1643 até Dezembro de 1644. O material que ela aprovou nesse período é agora encontrado como um documento intitulado “The Form of Presbyterial Church-Government”. Esse documento era uma espécie de relatório em desenvolvimento, ainda não colocado na forma final.

A palavra final sobre o governo da igreja, incluindo muitos direcionamentos práticos e uma seção sobre disciplina eclesiástica, é encontrado no Diretório de Governo da Igreja. Esse documento nunca recebeu aprovação oficial nem na Inglaterra nem na Escócia, e assim é quase desconhecido hoje. Mereceu mais atenção, como uma expressão mais completa das visões da Assembleia, e reflete um processo editorial mais cuidadoso.

Os puritanos tinham uma preocupação de como a adoração da igreja poderia ser “de acordo com a Palavra de Deus”. Apesar de apreciarem muitas características do Livro de Oração Comum, eles estavam comprometidos em eliminar toda característica que parecia promover um retorno a práticas da igreja não reformada. A Assembleia de Westminster foi solicitada pelo Parlamento a produzir um “Diretório de Culto”. O trabalho da comissão do diretório começou em Dezembro de 1643, e a Assembleia foi capaz de aprovar um documento completo um ano depois. O Diretório inclui seções sobre a leitura pública da Escritura, a oração, a pregação (com uma maravilhosa descrição do “estilo simples de pregação puritana” e as qualidades necessárias para o pregador da Palavra), os sacramentos, o Dia do Senhor, casamento, cuidado com os doentes e sepultamento dos mortos, e os dias de jejum e de ação de graças (característica marcante da piedade neste tempo).

O Diretório Para a Adoração Pública de Deus tem um parágrafo sobre o cântico de Salmos no louvor. Para implementar uniformidade no louvor, a Assembleia produziu um saltério. Francis Rous, um membro leigo da Assembleia, produziu salmos metrificados. A Assembleia revisou seu trabalho e ordenou que apenas esse livro fosse usado no culto público da igreja.


Os resultados da Assembleia

A Assembleia de Westminster começou com grandes esperanças que o Cristianismo reformado prevalecesse nas ilhas britânicas. Na providência de Deus, aqueles que mantiveram essa esperança foram desapontados. A legislação preparada pela Assembleia de Westminster recebeu aprovação qualificada do Parlamento Inglês, que foi plenamente ratificada na Escócia. Essa aprovação durou pouco tempo.

Na Guerra Civil, um comandante de cavalaria chamado Oliver Cromwell teve muitas notáveis vitórias, e com seu sucesso militar o seu poder político cresceu. Quando ele veio a ser Lorde Protetor, Cromwell, um congregacional, colocou um fim nos esforços de instalar um sistema de governo presbiteriano na Igreja da Inglaterra. Quando ele invadiu a Escócia, ele restringiu a operação do governo presbiteriano em vigor.

O reinado de Cromwell foi sucedido pelo tirânico reinado de Charles II, que repudiou o seu próprio juramento de aderência ao Pacto e perseguiu ferrenhamente todos os que permaneceram fiéis.

Quando William e Mary chegaram ao trono, durante a Revolução de 1688, a igrejada Inglaterra manteve o governo episcopal, o Livro de Oração Comum e os Trinta e Nove Artigos, que caracterizaram a existência dessa igreja antes da reunião da Assembleia de Westminster.

Na Escócia, a Confissão de Westminster tornou-se o credo oficial da Igreja, mas nenhum outro documento da Assembleia de Westminster fez parte da lei eclesiástica da igreja escocesa. Os outros documentos, entretanto, continuaram a ter um impacto significativo na Escócia. Exceto pelo Diretório de Governo, eles foram encontrados numa coleção de documentos, sob o título "A Confissão de Fé de Westminster", que foram impressos quase continuamente até os dias atuais.

As igrejas presbiterianas dissidentes na Escócia, e as igrejas presbiterianas em outros países, deram um status oficial, não apenas à Confissão, mas também a vários outros documentos de Westminster. Especialmente o Breve Catecismo é conhecido e amado, uma vez que a memorização se tornou num requisito padrão para crianças nas igrejas presbiterianas. O interesse e a discussão dos Padrões de Westminster parecem ser crescentes.

A história da Assembleia de Westminster é tanto humilhante quanto encorajadora para os cristãos. É humilhante porque contém a história do fracasso dos cristãos sinceros em alcançar o que eles se propuseram a fazer: a completa reforma da igreja “de acordo com a Palavra de Deus”. Mas também é encorajadora, porque o Senhor tem usado a obra da Assembleia para dar claridade teológica e direção bíblica para as igrejas reformadas (e outras também) por três séculos e meio. Os pensamentos de Deus não são nossos pensamentos, nem os seus caminhos, os nossos caminhos.

A ele seja a glória para todo o sempre! Amém.


Acessado de https://www.christianstudylibrary.org/article/brief-history-westminster-assembly acessado em 30/01/2020.

Tradução de Daniel Tanure
Revisão por Rev. Ewerton B. Tokashiki.

30 janeiro 2020

Declarações da Posição das Igrejas Reformadas e o Abuso Sexual

por Rev. Wes Bredenhof


Eu gostaria de saber menos sobre abuso sexual. Na minha vida pessoal e pastoral, aprendi muito sobre a realidade horrível que alguns humanos são capazes de fazer aos outros em busca de seus próprios prazeres. No entanto, o conhecimento que Deus providencialmente me concedeu tem me motivado a defender os abusados. Desenvolvi as seguintes declarações de posição com o intuito de conscientização e provocação de discussões em nossas comunidades reformadas.

Deixe-me, primeiramente, definir alguns termos. Em geral, abuso é uma conduta imprópria em relação a outra pessoa. Pode ser um evento único ou um padrão de comportamento. Em particular, abuso sexual é “a exploração sexual de uma pessoa ou qualquer intimidade sexual imposta a uma pessoa (física ou não). O abuso sexual de crianças pode incluir tirar proveito de uma criança que não é capaz de entender atos sexuais e nem de resistir à coerção, que pode vir na forma de ameaças ou de presentes. O abuso sexual inclui assédio por meio de comportamento verbal, ou físico de natureza sexual, provocado por um indivíduo visando uma pessoa, ou grupo de pessoas em particular, com a intenção de obter favores sexuais”. Essas definições vêm da Child Abuse Policy of the Free Reformed Church of Launceston [Política de Abuso Infantil da Igreja Reformada Livre de Launceston]. Além disso, o abuso sexual infantil ocorre quando as leis da idade de consentimento são violadas. No Canadá, por exemplo, a idade de consentimento é 16 anos [ou seja, essa é a idade mínima em que, outra pessoa acima ou na idade de consentimento está autorizada a exercer atividade sexual com ela].

Quando, abaixo, eu escrevo “igrejas reformadas”, refiro-me às igrejas com as quais estou mais familiarizado: as igrejas reformadas canadenses e as igrejas reformadas livres da Austrália. Isso não significa que outras igrejas reformadas não sejam afetadas, nem que todas as congregações individuais da CanRC e da FRC sejam igualmente afetadas. Estou simplesmente comentando da perspectiva de alguém familiarizado com essas federações da igreja.

DECLARAÇÕES DE POSIÇÃO

1. As igrejas reformadas devem condenar inequívoca e publicamente todas as formas de abuso
Embora devamos sempre acolher pecadores verdadeiramente arrependidos, nossas igrejas nunca devem dar a impressão de ser um porto seguro para abusadores. Em vez disso, nós devemos refletir o coração compassivo do nosso Deus para aqueles que são oprimidos e aflitos (Salmo 34.18). Além disso, nós devemos procurar criar um ambiente seguro e de cura em nossas igrejas para aqueles que sofreram abusos. Finalmente, nós devemos ser igreja onde a justiça e a retidão são mantidas, onde as vítimas não são mais abusadas e os criminosos são devidamente responsabilizados pelos seus pecados. Tudo isso começa com uma clara condenação do abuso, quando apropriado, em nossos sermões, artigos, etc.

2. O abuso sexual tem ocorrido em nossas igrejas
Embora eu não conheça qualquer dado oficial, evidências pessoais certamente indicam muitos casos de abuso sexual. Não se sabe se esses casos são desproporcionais à população em geral (certamente são dignos de um estudo competente). No entanto, com pesar, devemos admitir humildemente que isso aconteceu no passado. Poderíamos esperar que isso não mais acontecesse; porém, como as igrejas são constituídas de seres humanos pecadores e, também, de uma mistura de crentes e incrédulos (Confissão Belga, art. 29), devemos esperar, de modo real, ocorrências contínuas. No entanto, devemos fazer todo o possível para erradicar esse mal da igreja de Cristo.

3. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e espiritualidade doentia
Vítimas de abuso frequentemente lutam em seu relacionamento com Deus. Devido ao mal terrível infligido a eles (geralmente quando bem jovens), eles podem questionar a bondade, o amor e a providência de Deus. Se eles foram abusados pelo pai ou por uma figura de autoridade, eles podem ter dificuldade em se relacionar com Deus como um Pai amoroso. Eles podem também ter dificuldades em entender, e se apossarem do ensinamento bíblico sobre sexualidade, família e estruturas de autoridade matrimonial. As consequências espirituais do abuso podem ser profundas e aumentar a culpa carregada pelos agressores.

4. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e problemas de saúde mental
O abuso sexual é uma forma de trauma. É uma atrocidade que pode esmagar quem a experimentou. Qualquer tipo de trauma pode ter implicações na saúde mental. Depressão, ansiedade, automutilação, distúrbios de personalidade múltipla, vícios e outros efeitos podem resultar do abuso sexual, especialmente se não abordado. Esses problemas de saúde mental também podem apresentar desafios à saúde espiritual de uma vítima de abuso sexual.

5. Há um vínculo entre pornografia e abuso sexual contra crianças e cônjuges
Em geral, a pornografia torna pessoas em objetos como um meio de gratificação sexual. Isso predispõe um indivíduo que usa pornografia a ser um abusador. Esse efeito é agravado pela maneira como o uso da pornografia mergulha em níveis cada vez mais depravados. A extensa disponibilidade de pornografia violenta e abusiva aumenta, comprovadamente, o predomínio do abuso sexual. Consequentemente, as igrejas reformadas devem se manifestar sobre os perigos da pornografia, bem como fornecer recursos para que seus membros escapem da escravidão desse pecado.

6. Ao pregar e ensinar o Quinto Mandamento, as igrejas reformadas também devem abordar o abuso de autoridade
Evidências pessoais relatam que, algumas vezes, abusadores invocam o Quinto Mandamento (“honra teu pai e tua mãe”) como forma de justificar e continuar seus abusos. Igrejas reformadas regularmente pregam o Quinto Mandamento (com o Dia do Senhor 39 do Catecismo de Heidelberg) e devem aproveitar a oportunidade para enfatizar que esta lei não tolera comportamentos abusivos. Devemos deixar claro que o abuso é contrário à vontade de Deus; e que os abusadores que usam a lei de Deus para se justificar são duplamente condenados.

7. As igrejas reformadas devem desenvolver políticas de abuso para lidar com abusos do passado e prevenir futuros abusos
Quando colocamos as coisas no papel, indicamos que as levamos a sério. Uma questão tão importante quanto o abuso sexual não deve ser negligenciada. Embora nem todas as circunstâncias possam ser previstas, algumas diretrizes gerais para líderes e membros da igreja podem ajudar bastante a lidar efetivamente com abusos recentes na igreja. Além disso, políticas para impedir futuros abusos também devem estar em vigor como uma questão de devida diligência na proteção das ovelhas e cordeiros do rebanho de Deus.

8. Qualquer igreja local que facilite o abuso, acobertando-o ou recusando-se a denunciá-lo, põe em questão seu status de verdadeira Igreja de Cristo
Uma das marcas da verdadeira igreja é o fiel exercício da disciplina. Se uma igreja local permite que o abuso permaneça encoberto, em vez de atribuir a esse pecado a maior gravidade que existe, ela está dramaticamente longe dessa marca. Se os oficiais de uma igreja se recusam a denunciar abusos às autoridades apropriadas, eles também mostram uma falha significativa em lidar adequadamente com o pecado. Uma igreja verdadeira leva a sério os pecados sérios e os trata de acordo, tanto pelas chaves do reino dos céus quanto pela cooperação com as autoridades civis, quando apropriado.

9. Há esperança para os abusadores e os abusados no evangelho do Senhor Jesus Cristo
Para aqueles que sofreram abusos, as feridas podem ser saradas. Eles podem ser curados quando o bálsamo do evangelho é aplicado, assim, aprendemos a entender melhor a insondável graça de Deus para conosco e para com os outros. Os autores de abusos no passado também podem encontrar ajuda e cura na cruz. Se eles verdadeiramente se arrependerem dos seus pecados, se eles forem humildes e honestos, se eles olharem apenas para Cristo como sua justiça, eles poderão receber perdão de um Deus gracioso e uma mudança significativa em suas vidas pelo poder do Espírito Santo. No entanto, isso de forma alguma diminui as consequências pessoais, criminais ou eclesiásticas desse pecado.


NOTAS:
[1] Extraído de https://yinkahdinay.wordpress.com/2018/10/30/position-statements-on-reformed-churches-and-sexual-abuse/
[2] Nota do autor: eu não reivindico exaustividade a essas declarações, nem afirmo que elas são a melhor e final maneira de enquadrar os problemas abordados. Se outros desejarem melhorá-las, certamente serão bem-vindos.

Tradução de Daniel Tanure
Revisado por Rev Ewerton B. Tokashiki

04 janeiro 2020

O que fazer na visitação pastoral?

por Pr Ewerton B. Tokashiki


A visitação pastoral é uma prática que recebe pouca atenção na teologia pastoral. É algo tão comum e esperado que, às vezes, se pressupõe que todos sabem como fazê-lo. Imagina-se que é só ir à casa dos membros ou interessados, fazer-se agradável na conversação, com o objetivo de manter a proximidade na relação pastoral com aqueles que congregam na igreja que pastoreia. Apesar da preocupação da boa relação pastor e membro fazer parte da visitação pastoral, resumi-la a essa ideia é empobrecer tão importante atividade espiritual no cuidado do rebanho.

Sabe-se que há, por vezes, alguns membros que reclamam de pastores e presbíteros que não se dedicam à visitação. Essa falha aumenta a sua gravidade quando a presença da liderança no lar destas famílias é uma real necessidade. Se há problemas, então, há urgência de abordagem, acompanhamento e orientação visando soluciona-los.

A visitação pode ter diferentes propósitos. Há visitas que são de caráter preventivas e outras são remediativas. As visitas preventivas envolvem desde a manutenção do bom convívio pastoral, verificação do conhecimento bíblico e confessional, supervisão da saúde espiritual das famílias, e integração dos novos convertidos e interessados no evangelho. A visita remediativa implica na resolução de todos os conflitos, desvios, e qualquer crise doutrinária, relacionamentos, ou partidarismos no meio da igreja.

Quais são os motivos da visitação pastoral?

1. A visita ocorre a pedido da família? Há famílias que apreciam a presença regular do seu pastor em suas casas. Elas são agradáveis e muito fraternas em sua recepção. Geralmente, por causa da confiança e companheirismo em relação à liderança, essas são visitas que visam conversar sobre melhorias na estrutura e eventos da igreja local. Entretanto, há casos em que um membro da família, buscando socorro pastoral para alguma situação de crise, solicita a visita para aconselhamento. É possível que notifique com antecedência, mas há pessoas que preferem esclarecer o motivo do pedido de visita quando se está em sua casa. Assim, se possível, pergunte o motivo da visita, mas se a pessoa não quiser revela-lo, vá em oração, e esteja disposto a cuidar com o necessário sigilo dessa família.

2. É uma visita de manutenção? É importante que o pastor tenha um programa ou roteiro de visitação de todas as famílias da igreja local. A comunidade local é formada de famílias, e elas precisam de contato pastoral. O melhor lugar para conhecer as suas ovelhas é nos lares dos membros. Nesse caso a visita não precisa ter um motivo de urgência, ou de gravidade, mas visa o contato com as famílias no decorrer do ano. Talvez, não seja possível ir à casa de todas as famílias durante um ano, pois isso exige a possibilidade dentro da agenda do pastor e das ovelhas, e ainda, das programações da igreja. Mas, não se deve desistir da intenção de fazer-se próximo de suas ovelhas, em especial, pela visitação nos lares.

3. Está ocorrendo alguma crise familiar? Não é problema ter problemas, mas é uma situação complicada, não querer trata-los. Quando um membro de uma família recorre ao seu pastor solicitando a visita, por motivo de crise conjugal, ou de desentendimento entre pais e filhos, então a prioridade, entre as muitas atividades pastorais, é a visitação deste lar. Mesmo que a família não informe, ou não queira que a liderança saiba de seus problemas, todavia, se esses problemas chegam ao conhecimento do pastor, é seu dever, por vocação e dons recebidos por Deus, que ele procure as ovelhas que o Cristo lhe confiou cuidar. Quando se tarda em confrontar, e solucionar crises, elas tendem a piorar e, talvez, até destruir.

4. Há algum problema de relacionamento entre membros da igreja? No convívio de pessoas pode ocorrer atritos, conversas difamatórias, desentendimentos diversos, ou diferentes pecados que ferem a prática da comunhão entre os irmãos. Quanto a prática de Mt 18 falha por parte dos membros que entraram em contenda, o pastor deverá facilitar a obediência e conciliação entre eles.

5. Existem dúvidas ou discordância doutrinária a serem resolvidas? É possível que membros não entendam corretamente algum tema bíblico, ou nalgum momento sejam contaminados por algum erro doutrinário, ou seduzido por alguma ideologia anticristã. A conversação numa visita poderá examinar, ou descobrir inseguranças, ou desvios teológicos, e então, corrigi-los.

6. Há pecados públicos a serem tratados? Se há rumores, ou, de fato, o conhecimento de pecados públicos que necessitarão de condução disciplinar, a visita pastoral é um excelente remédio no processo de restauração do membro. A visitação propicia a possibilidade da confrontação na expectativa de que o irmão se torne em réu confesso, e se submeta voluntariamente à disciplina bíblica.

Proponho aos pastores, presbíteros e diáconos algumas sugestões práticas para uma efetiva visitação:
1. Converse
2. Leia as Escrituras
3. Aconselhe
4. Ore

O que conversar numa comum visita pastoral? Não se pode desperdiçar esse contato da liderança com os membros da igreja. O momento de conversa não pode ser preenchido com trivialidades, assuntos supérfluos, ou irrelevantes para a verificação da saúde espiritual e bom desenvolvimento da família na fé cristã. Afinal, o pastor é chamado para auxiliar as suas ovelhas na instrução do evangelho e santificação do rebanho. Assim, como supervisor espiritual daqueles que lhe foram confiados, ele deverá examinar se as famílias estão comprometidas no exercício espiritual como membros da igreja. Segue abaixo algumas questões sugestivas:
1. Há a realização regular do culto doméstico?
2. Há leitura continuada de toda a Bíblia?
3. Há instrução dos filhos com o Breve Catecismo de Westminster [outro documento confessional]?
4. Há participação assídua dos cultos e reuniões da igreja?
5. Os membros da família estão comprometidos com a prática do discipulado de interessados no evangelho, ou novos convertidos?

Há pastores que descuidam da prática da visitação. É um prejuízo incalculável negligenciar o contato pessoal das ovelhas, porque é impossível conhecer pessoas sem se aproximar delas, ou sem se relacionar estreitamente com elas. O pastor precisa ter o cheiro das suas ovelhas, e para isso, ele carece conviver com elas. As ovelhas confiam em seu pastor quando elas sabem da sua fidelidade bíblica e sua preocupação cuidadora com suas famílias.

“Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.17)

27 dezembro 2019

A Convocação da Assembleia de Westminster - por John Murray

Deve ser aceito, sem medo de inteligente contradição, que a Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos Maior, e Menor, são as melhores formulações de credo da fé cristã que a igreja de Cristo já produziu. Isso não é negar que, em certos aspectos, alguns outros credos podem superar esses Padrões de Westminster, nem significa que esses padrões tenham atingido tal grau de perfeição que eles não possam, possivelmente, serem melhorados. Mas isso significa que eles são as mais perfeitas exibições de credo que possuímos da verdade revelada na Escritura Sagrada. Muitas pessoas estão familiarizadas com a Confissão e os Catecismos e ainda sabem muito pouco sobre a história da Assembleia que produziu esses documentos.

Um dos Parlamentos mais importantes que existiu na Inglaterra foi o chamado Parlamento Longo. Ele continuou de Novembro de 1640, até que foi dissolvido por Oliver Cromwell em Abril de 1653. Este Parlamento foi responsável pela convocação da Assembleia dos teólogos de Westminster.

Logo depois que o Parlamento Longo iniciou o seu trabalho, a Câmara dos Lordes nomeou uma comissão composta por dez bispos e vinte nobres para considerarem todas as inovações na igreja concernentes à religião. No outono e inverno de 1641, foi preparada o que é conhecido como a Grande Remonstrância da Câmara dos Comuns. Nesse documento expressou-se o desejo de que houvesse “um sínodo geral dos mais importantes, piedosos, eruditos e sensatos teólogos desta ilha, auxiliados por alguns participantes estrangeiros que professam a mesma religião conosco, a considerar todas as coisas necessárias para a paz e bom governo da Igreja”.

Em 1642, uma declaração do Parlamento da Inglaterra foi enviada à Assembleia Geral da Igreja da Escócia. Esta declaração possuía um apelo de prevenção contra a guerra civil. A resposta da Assembleia Geral da Igreja da Escócia lamentou o atraso com que a reforma da religião progrediu, e sustentou que a religião não é apenas o meio do serviço de Deus e a salvação das almas, mas também "a base e o fundamento dos reinos e dos estados". Também reiterou o apelo "de que em todos os domínios de sua Majestade poderia haver uma Confissão de Fé, um Diretório de Adoração, um Catecismo público e uma forma de Governo da Igreja".

Em 19 de abril de 1642, a Casa dos Comuns ordenou que os nomes dos teólogos que seriam consultados fossem apresentados. Em menos de uma semana, essa lista foi concluída. Ela consistia de dois teólogos de cada condado da Inglaterra, dois de cada universidade, dois das Ilhas do Canal, um de cada condado do País de Gales e quatro da cidade de Londres.

[O TEXTO CONTINUA AQUI]

25 dezembro 2019

A PCUSA, a IPB e o abandono da prática da subscrição integral

A PCUSA é um exemplo de como a apostasia ocorreu lentamente com o abandono da subscrição integral. Ela primeiro permitiu a subscrição com escrúpulos, ou seja, desde que o subscritor declarasse as suas discordâncias e exceções de crença com os Padrões de Westminster, ele poderia, se aprovado pela comissão de exame, ser ordenado. Em seguida, ela permitiu que os seus presbitérios decidissem pela subscrição integral ou ampla, conforme a conveniência, ou decisão conciliar regional. Depois, a Assembleia Geral passou a reinterpretar declarações doutrinárias dos Padrões de Westminster que conflitassem com as mudanças da denominação.[1] O próximo passo foi a anulação da obrigatoriedade da subscrição, eliminando a necessidade de penas dos tribunais conciliares, em caso de negação de doutrinas essenciais. E, por último, a PCUSA procurou redefinir-se teologicamente na Confissão de 1967, que representou uma ruptura final com os Padrões de Westminster.[2] Assim, qualquer oficial, ou concílio, poderia assumir crenças e práticas completamente discordantes, sem o risco de sofrer intervenções ou a disciplina eclesiástica.[3]

A IPB “ainda” oficialmente adota a subscrição integral como modalidade de uso de seus Padrões de Fé.[4] Infelizmente estamos seguindo os passos da nossa igreja-mãe, a PCUSA, ao negar o significado original intencionado pelos teólogos da Assembleia de Westminster. Não estamos coerentemente praticando, em nosso concílio maior, a submissão integral aos nossos Padrões de Fé. Um cenário de caos está se criando para a completa negação desta modalidade de subscrição. Cada vez mais são tomadas decisões que diluem, reinterpretam afrouxando, ou alterando o significado original dos nossos documentos doutrinários.

As decisões conciliares somente são legítimas se estiverem de acordo com a nossa confessionalidade, fora disso, é apostasia.

NOTAS:
[1] Um exemplo recente desta prática ocorreu com a reinterpretação da Pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster, em sua Reunião Ordinária do Supremo Concílio de 2018. O ato ocorreu, hermeneuticamente, desprezando o sentido intencional dos autores do texto original, e oferecendo um significado estranho à Pergunta 158, mediante argumentos igualitaristas, sociológicos e pragmáticos para favorecer a pregação feminina. O uso do termo office [ofício, ou ministério] no texto original indica “uma posição ou cargo na igreja, especialmente de caráter público, a que está obrigado a certas tarefas; um cargo de confiança, autoridade ou serviço na igreja.” Chad Van Dixhoorn, “Glossary”: office, in: The Minutes and Papers of the Westminster Assembly 1643 1652 - Introduction (London, Oxford University Press, 2012), vol. 1, p. 237. Veja sobre a tradução - https://www.academia.edu/35814174/Catecismo_Maior_de_Westminster_Perg._Resp._-_158
[2] R. Scott Clark observa que “com a adoção da Confissão de 1967, que suplantou qualquer autoridade remanescente que os Padrões de Westminster ainda tinham até aquele momento, todos os documentos confessionais foram reduzidos, nos segundos votos realizados na ordenação ministerial, como a mera ‘orientação’, a ‘históricas e fiéis testemunhas da palavra de Deus’.” Recovering the Reformed Confession – Our Theology, Piety, and Practice (Phillipsburg, P&R Publishing, 2008), p. 167.
[3] A irreversibilidade do seu desvio confessional continuou ao redefinir, em sua Assembleia Geral de 1972, o entendimento sobre “Lealdade Doutrinária” tornando-a ampla e relativizada. Entretanto, nessa decisão ela também redefine o significado e lugar da Escritura Sagrada como “regra de fé e prática”, nega a sua infalibilidade, oficializa a subscrição ampla, e declara que o ato de submeter-se aos Padrões de Westminster é “na situação atual, muito mais ambíguo, e se ainda pode ser útil dependerá em parte do grau de unanimidade teológica agora desejada pela igreja.” Morton H. Smith, How is the gold become dim – The decline of the Presbyterian Church, U.S., as reflected in its Assembly Actions (Greenville, Southern Presbyterian Press, 3ª edição, 1973), p. 226. Veja também Gary North, Crossed Fingers - How the Liberals Captured the Presbyterian Church (Tyler, Institute for Christian Economics, 1996). Os antigos liberais, os "reformados não-confessionais" e os evangelicais pragmáticos têm algo em comum: eles rejeitam a subscrição integral e qualquer definição doutrinária clara e estrita.
[4] SC-2014 Doc. XL: Quanto ao documento 193 - Consulta para que se envide esforços para melhor definição sobre confessionalidade em nossa Igreja. CONSIDERANDO QUE [...]. O SC/IPB 2014 RESOLVE: 1. Quanto à pergunta “Há diferença nos termos lealdade e fidelidade, como alguns argumentam?”, responder que não há diferença; 2. Quanto à pergunta “O juramento de lealdade aos Símbolos de Fé adotados pela IPB, feito pelos oficiais, se refere a cada capítulo e seção, ao sistema geral, como um todo, tal qual apresentados por eles?”, responder que a reafirmação no momento da ordenação implica na aceitação integral, em todos os seus termos, dos Símbolos de Fé, conforme CI-IPB Artigo 119, parágrafo único; 3. Quanto à pergunta “Qual é o exato significado da expressão ‘fiel exposição do sistema de doutrina’ contido no juramento prestado por todos os oficiais presbiterianos no momento de sua ordenação?”, responder que o significado da expressão “fiel exposição do sistema de doutrina”, significa uma correta interpretação das Escrituras Sagradas, Antigo e Novo Testamento, com uma apresentação sistematizada.

Escrito por Rev. Ewerton B. Tokashiki

20 dezembro 2019

O que é Theotokos?

O termo grego Theotokos se relaciona estreitamente com o tópico de Cristologia. Apesar da expressão se referir diretamente à pessoa da mãe do Redentor, na verdade indica, segundo o Credo de Calcedônia, a afirmação da união das duas naturezas e a declaração que ele é Deus-homem [theantropico]. Então, negar o termo, implica numa negação dogmática da ortodoxia cristológica. Esse foi o erro denunciado em Nestorius.

É verdade que há muita e desnecessária confusão no uso deste termo, tanto por papistas como por protestantes. Os católicos romanos tendem a erros devido à tradição da mariolatria [vide* hiperdulia], que se desenvolveram nos escritos de teólogos do período da patrística e medievais, e solidificaram-se nas decisões conciliares de Trento, Vaticano I e Vaticano II.

Os protestantes incorrem também, em geral, em erros. O equívoco destes é por não entenderem, ou não interpretarem, corretamente o contexto histórico e dogmático da controvérsia nestoriana, que culminou no Concílio de Calcedônia [451 d.C.], e talvez, também, por um errôneo sentimento anti-Maria. Entretanto, o risco aqui é alinhar-se com a heresia nestoriana, negando a tradição ortodoxa da Igreja Cristã.

Ambos os erros são perigosos e devem ser evitados. Assim, ao sermos ensináveis, espera-se que é melhor aprender com os melhores historiadores reformados na área de teologia histórica. Abaixo está o Credo de Calcedônia e, em seguida, duas boas definições sobre Theotokos. Espero que o assunto se esclareça um pouco mais, e ocorra o desafio de estudarmos melhor a teologia dos Pais da Igreja, bem como os concílios deste período e suas resoluções confessionais.

Declaração de Fé Calcedônia [451 d.C.]
(...) Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [hommousios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [Theotókos]; um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis;[1] a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu.[1]

Philip Schaff nos oferece numa nota, após fornecer o texto do Credo em grego, latim, e sua tradução para o inglês, a seguinte explicação:
O predicado θεοτόκος, a portadora de Deus, Dei genitrix (al. quæ Deum peperit, ou desde divini numinis creatrix), é diretamente contra Nestorius, originalmente não pretendia exaltar a virgem Maria, mas afirmar a verdadeira divindade de Cristo e a realidade da encarnação. Basil de Seleucia: Θεὸν σαρκωθέντα τεκοῦσα θεοτόκος ὀνομάζεται. É imediatamente após qualificado pela frase κατὰ τὴν ἀνθρωπότητα (secundum humanitatem), em distinção de κατὰ τὴν θεότητα (secundum deitatem). Essa é uma limitação muito importante e necessária para se proteger contra a mariolatria e a noção pagã, blasfema e contraditória de que o Deus eterno, que não foi criado, pode nascer no tempo. Maria era a mãe não apenas da natureza humana de Jesus de Nazaré, mas da pessoa theantrópica de Jesus Cristo; ainda não da sua eterna divindade (the λόγος ἄσαρκος), mas de sua pessoa encarnada, ou o Logos unido à humanidade (o λόγος ἔνσαρκος). Do mesmo modo, o sujeito da Paixão era a pessoa theantrópica; todavia, não de acordo com sua natureza divina, que por si só, é incapaz de sofrer, mas de acordo com sua natureza humana, que era o objeto do sofrimento. Não há dúvida, porém, que os termos não bíblicos θεοτόκος, Dei genitrix, Deipara, mater Dei, que lembram uma das mães pagãs dos deuses, promoveram grandemente a mariolatria, mas que ajudaram a derrotar Nestório no Concílio de Éfeso, 431 d.C.. É mais seguro aderir à designação do Novo Testamento de Maria como μήτηρ Ἰησοῦ, ou μήτηρ τοῦ Κυρίου (Lucas 1.43).[2]

Richard A. Muller define, como um dos melhores historiadores contemporâneos, a expressão assim
Theotokos: portadora de Deus; um título dado à virgem Maria pelos teólogos alexandrinos e capadócios dos séculos IV e V, baseado numa communicatio idiomatum in abstracto (q.v.) a comunicação dos atributos divinos à humana. A negação polêmica de Nestorius do título Theotokos acusando-a de ser uma heresia ariana e apolinariana, provocou a controvérsia que levou ao Concílio de Calcedônia (451 d.C.).[3]

A Cristandade tem a unidade na crença comum dos três primeiros Credos. Estamos unidos ao rejeitar as heresias que estes documentos combateram e, ainda, é nossa batalha pela fé na afirmação da soberania de Cristo (Jd 3-4). Não precisamos negar a doutrina calcedônica acerca de Theotokos, mas compreendê-la corretamente, sem correr o risco de errar, nem criar uma aparência do mal sujeita à acusação de heresia, ou mesmo gerar confusões naqueles que desconhecem o assunto.

NOTAS:
[1] Henry Bettenson, Documentos da Igreja Cristã (SP: ASTE/Simpósio, 1998), p. 101.
[2] Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2006), vol.
[3] Richard A. Muller, “Theotokos” in: Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 2, nota 3, p. 64.