16 fevereiro 2024

Jonathan Edwards era um continuísta?

 

Jonathan Edwards é conhecido por produzir uma sadia teologia em tempos de avivamento nos Estados Unidos da América. Ele examinou experiências e supostas manifestações atribuídas ao Espírito Santo.
[1] Entretanto, ao contrário do que pentecostais e continuístas afirmam acerca do pensamento de Edwards sobre avivamento “ele não pensava que um tempo de dons extraordinários do Espírito Santo havia chegado, por isso negou (em contrário tanto a alguns radicais de seu tempo quanto aos pentecostais que surgiriam depois) que sinais de êxtase eram a melhor evidência de um verdadeiro derramamento do Espírito Santo”.[2] Hank Hanegraaff denunciou vários líderes do movimento Counterfeit Revival que propõem uma interpretação histórica revisionista distorcida do pensamento de Edwards, atribuindo a ele um continuísmo carismático.[3] Entretanto, numa leitura atenta aos textos de Edwards percebemos que ele, quanto aos dons revelacionais, era um cessacionista.

         Edwards adotava a categorização dos dons como ordinários e extraordinários. Por extraordinários ele diz

tais como o dom de línguas, de milagres, de profecia etc., são chamados extraordinários porque, como tais, não são dados no curso ordinário da providência divina. Não são outorgados do modo comum e providencial de Deus tratar com seus filhos, mas só em ocasiões extraordinárias, como foram outorgados aos profetas e apóstolos, tal como a capacidade de revelar a mente e vontade de Deus antes que o cânon das Escrituras fosse completado, e assim à igreja primitiva, para sua fundação e estabelecimento no mundo. Mas, desde que o cânon das Escrituras se completou e estas foram estabelecidas, estes dons extraordinários cessaram.[4]

 

         Noutro sermão ele reitera que

no conhecimento que o apóstolo diz que se desvanecerá está implícito um dom particularmente miraculoso que subsistia na igreja de Deus naqueles dias. Pois o apóstolo, como já vimos, está aqui comparando a caridade com os dons miraculosos do Espírito – aqueles dons extraordinários que eram comuns na igreja daqueles dias; um desses dons era o dom de profecia, e outro, o dom de línguas, ou o poder de falar em idiomas que nunca tinham sido aprendidos. Ambos esses dons são mencionados no texto; e o apóstolo diz que acabariam e cessariam. [...] É este dom miraculoso que o apóstolo afirma aqui que desapareceria, juntamente com os demais dons miraculosos dos quais ele fala, tais como profecia e o dom de línguas etc. Todos esses foram dons extraordinários outorgados por certo tempo para a introdução e estabelecimento do cristianismo no mundo; e, quando se atingiu seu propósito, todos eles desapareceram e cessaram.[5]

 

         Edwards declara que não há mais revelações hoje.

Se em algum momento alguém tem uma impressão extraordinária causada em sua mente, e crer que isso procede de Deus, a revelar-se algo que sucederá no futuro, isso, se fosse real, provaria ser um dom extraordinário do Espírito Santo, a saber, o dom de profecia; mas, à luz do que foi dito, é evidente que esse não seria um sinal seguro da graça ou de algo salvífico; sim, se fosse real, repito – pois, na verdade, não temos razão para considerar tais coisas, como se pretende em nossos dias, como sendo algo mais além do que ilusão.[6]

 

         Ele negava qualquer possibilidade de restauração dos dons extraordinários. A doutrina da luz divina no pensamento de Edwards é, por vezes, mal compreendida. Ela não pode ser confundida com o ensino dos entusiastas do século XVI, nem com os quackers no século XVII, em que se alegava uma comunicação revelacional imediata à alma pelo Espírito Santo. Ele define a luz divina como sendo “um verdadeiro sentido da excelência das coisas reveladas na Palavra de Deus, e convicção da verdade e da realidade que delas então emana.”[7] Ele negava que esta luz tenha natureza independe da Escritura Sagrada, ou que seja dada sem a sua mediação. Por isso, ele declara que

essa luz espiritual não é a sugestão de algumas novas verdades ou proposições não contidas na Palavra de Deus. Essa sugestão de novas verdades ou doutrinas à mente, independentemente de qualquer revelação anterior a essas proposições, seja em palavra ou escrita, é inspiração; como os profetas e apóstolos tiveram, e como alguns entusiastas pretendem ter. Mas essa luz espiritual da qual estou falando é coisa bem diferente da inspiração. Ela não revela nova doutrina, não sugere nova proposição à mente, não ensina coisa nova sobre Deus, ou Cristo, ou outro mundo, não ensinado na Bíblia, mas apenas dá uma apresentação correta dessas coisas que são ensinadas na Palavra de Deus.[8]

 

Apesar de Edwards aceitar com discernimento, interpretando à luz das Escrituras, as experiências sobrenaturais que ocorreram durante o Grande Despertamento, em nenhum momento ele admitiu a ocorrência dos dons revelacionais, ou a possibilidade de novas revelações pelo Espírito Santo à igreja em seus dias.


NOTAS:

[1] Um pastor contemporâneo de Edwards, em junho de 1743, escreveu: “não sabemos de visões, transes nem revelações; mas de exortações fraternais, com a mais modesta e afetuosa do que é representada”. Joseph Tracy, The Great Awekening (Edinburg, The Banner of Truth, 1976), p. 326.

[2] George Marsden, A breve vida de Jonathan Edwards (São José dos Campos, Editora Fiel, 2015), p. 107.

[3] Dentre eles James Ryle, John Arnott, Guy Chevreau, Gerald Coates, Patrick Dixon, William DeArteaga, Nick Needham, Rand Clark. Veja em Hank Hanegraaff, Counterfeit Revival – Looking for God in all the wrong places (Nashville, Word Publishing, 2001), pp. 95-115.

[4] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13 (São Paulo, Editora Fiel, 2015), pp. 50-51.

[5] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 342-343.

[6] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 65-66.

[7] Jonathan Edwards, A busca do crescimento (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010), p. 33.

[8] Jonathan Edwards, A busca do crescimento, p. 32.


18 novembro 2023

A papisa Joana: fato ou falsidade histórica?

De meados do século XIII ao século XVII, a tradição de que houve uma papisa, comumente, mas não invariavelmente, chamada Joana, em alguma data do século IX, X ou XI, foi quase universalmente aceita; ainda fornecia munição aos atacantes do papado e da Igreja Romana no final do século XIX. A história aparece pela primeira vez, entre 1240 e 1250, na Crônica Universal de Metz atribuída ao dominicano Jean de Mailly, segundo a qual Victor III (falecido em 1087) foi sucedido por uma mulher talentosa que, disfarçada de homem, a havia trabalhado subiu na cúria como notário e acabou sendo promovido a cardeal. Ela foi traída quando, montando em seu cavalo, deu à luz uma criança e foi ignominiosamente amarrada ao rabo do cavalo, arrastada pela cidade e depois apedrejada até a morte.

O dominicano Estêvão de Bourbon (d.c. 1262) e o franciscano de Erfurt que escreveu (cerca de 1265) a Crônica Menor fornecem relatos bastante semelhantes sobre o caso da “papa”, aquele que o situa cerca de 1100 e o outro aproximadamente em 915. A história, entretanto, ganhou forma definitiva e ampla difusão pelas edições posteriores da imensamente popular e influente Crônica de Papas e Imperadores, escrita pelo dominicano polonês Martinho de Troppau (falecido em 1297). De acordo com estes, Leon IV (falecido em 855) foi sucedido por Johan Anglicus, que reinou dois anos, sete meses e quatro dias, mas era na verdade uma mulher. Natural de Mainz, ela foi ainda menina, vestida com roupas de homem, mas escoltada pelo amante, para Atenas, onde teve uma brilhante carreira estudantil, e depois se estabeleceu em Roma, onde suas palestras atraíram públicos tão ilustres e sua vida foi tão edificante. que ela foi eleita papa por unanimidade. A sua impostura foi finalmente exposta quando, cavalgando em procissão de São Pedro até Iaterano, ela deu à luz uma criança numa rua estreita entre o Coliseu e São Clemente. Ela morreu no local e foi enterrada lá; por causa do episódio vergonhoso, os papas evitaram cuidadosamente atravessar a rua. Embora Martin dê seu nome como John (ou seja, Joan ou Joanna no feminino), outros relatos a chamam de Agnes, Gilberta ou Jutta, ou a deixam sem nome.

A história, muitas vezes, embelezada com detalhes fantásticos, foi aceita sem questionamentos nos círculos católicos durante séculos. Foi adotado por humanistas como Petrarca (falecido em 1374) e Boccaccio (falecido em 1375) e influenciou a iconografia; Joana figura entre os bustos de papas colocados na catedral de Siena, cerca 1400. Os críticos das reivindicações papais (por exemplo, John Huss no Concílio de Constança em 1415) foram capazes de explorar a história sem ser contrariado. Um escritor entusiasmado, Mario Equicola, de Alvito (perto de Caserta, cerca de 1525), chegou a argumentar que a providência tinha usado a elevação de Joana para demonstrar a igualdade das mulheres com os homens. A crítica católica à lenda tornou-se cada vez mais forte a partir de meados do século XVI; mas, foi um protestante francês, David Blondel (1590-1655), quem efetivamente a demoliu em tratados publicados em Amsterdã em 1647 e 1657.

Hoje em dia, dificilmente há necessidade de uma refutação meticulosa, pois não há provas contemporâneas de uma papisa em qualquer uma das datas sugeridas para o seu reinado, mas os fatos conhecidos dos respectivos períodos tornam impossível enquadrá-la neles. A origem da história, no entanto, nunca foi explicada de forma satisfatória. O seu cerne é geralmente considerado um antigo conto popular romano que foi ampliado por uma série de circunstâncias desnecessariamente consideradas suspeitas; por exemplo, o evitar deliberado de uma determinada rua pelas procissões papais (provavelmente por causa de sua estreiteza), a descoberta nesta rua de uma estátua enigmática que representava uma mulher amamentando uma criança e de uma inscrição intrigante perto da qual poderia ser distorcida para apoiar a lenda, e a crença popular (do final do século XIII) de que após a eleição de um papa, teria que se submeter a testes para comprovar que era realmente do sexo masculino. É provável, também, que a recordação de que no século X, o papado tinha sido dominado por mulheres inescrupulosas como Teodora, a Velha, Marozia e a jovem Teodora, tenha ajudado a dar valor à história.

  

Anexo: “Papisa Joana” in: J.N.D. Kelly, ed., The Oxford dictionary of popes (Oxford, Oxford University Press, 1989), pp. 329-330.

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

28 março 2022

A redescoberta dos puritanos no século XX

 

Os puritanos foram redescobertos indiretamente pela pregação e textos de Charles H. Spurgeon. O príncipe dos pregadores herdou de seu pai uma grande biblioteca, contendo muitas obras dos puritanos. No entanto, ele se preocupou mais em fazer conhecida a mensagem do que a história, o pensamento e obras dos puritanos. A tarefa de trazer o movimento ao público do século XX foi realizada por D.M. Lloyd-Jones e Iain H. Murray.

David Martyn Lloyd-Jones (1899–1981) foi um pastor galês, que por quase 30 anos ministrou na Capela de Westminster em Londres. Ele foi influente no despertamento calvinista do movimento evangélico britânico no século XX, na popularização no método expositivo de pregação e na redescoberta da teologia puritana.

Iain H. Murray serviu como pastor auxiliar de D. Martyn Lloyd-Jones na Capela de Westminster (1956–59) e, posteriormente, na Capela Grove em Londres (1961–69) e na Igreja Presbiteriana St. Giles, Sydney, Austrália (1981–84). Em 1957, ele e Jack Cullum fundaram a editora The Banner of Truth Trust, da qual ele continua sendo um administrador.

A editora The Banner of Truth Trust promoveu a reedição de muitas obras completas, biografias e monografias dos puritanos. O saudoso e querido Bill Barclay que serviu como missionário no Brasil fundou a PES, sendo a primeira editora a publicar textos dos puritanos em nosso país. Atualmente diversas editoras têm publicado desde sermões, biografias, textos resumidos a alguns volumes completos dos puritanos. Recentemente a editora Defesa do Evangelho lançou o curso em vídeo [com 2 livros-textos] do Joel R. Beeke de “Introdução aos Puritanos”. Um excelente material!

A biblioteca do Puritan Reformed Theological Seminary possui o maior acervo de fontes primárias dos puritanos. Dentre elas algumas raridades como um exemplo original da primeira edição e impressão da Confissão de Fé de Westminster. 

Os Simpósio Os Puritanos estará realizando a sua 29o. conferência em 2022. Todos os anos disponibilizam durante o evento uma livraria com literatura puritana e demais reformados. Além de palestras sobre o puritanismo.

Creio que será de grande proveito que você leia, conheça e, por si mesmo, descubra a riqueza da piedade puritana. Há muita distorção e maledicência, seja criterioso e examine. Tenho certeza que você terá uma experiência enriquecedora.


 Obs.* A Nadere Reformatie Publicações tem publicado excelentes textos dos puritanos em Kindle.

 

 


04 setembro 2021

Resumo das decisões do Supremo Concílio da IPB quanto ao Comunismo/Socialismo

Preparado por Pb. Edson Marques & Rev. Ewerton B. Tokashiki



Em 1954, quando Getúlio Vargas era o Presidente do Brasil, A Igreja Presbiteriana do Brasil se pronunciou contra o comunismo da seguinte forma: “SC-54-138 - Quanto à consulta do Presbitério do Botucatu sobre se um membro da IPB, com ideias francamente comunistas, pode tomar parte nos trabalhos da Igreja, como dirigir classe da Escola Dominical, etc., o SC resolve responder que há incompatibilidade entre o comunismo ateu e materialista e a doutrina bíblica e os símbolos de fé da IPB”.

 

Em 1956, a IPB teve que se posicionar sobre a atitude cristã quanto ao comunismo: “CE-56-096 - Quanto ao Documento Intitulado ‘Avaliação’, enviado pela CBM, a CE-SC/IPB resolve: [...] 7) Em referência à atitude cristã quanto ao comunismo, persistimos em pregar a realidade do poder transformador do evangelho de Cristo, crendo que o comunismo é uma filosofia de vida contrária ao espírito e à doutrina evangélica.”

 

Em 1965, o assunto ainda fomentava nos presbitérios ao ponto de vermos que as consultas continuavam a ser encaminhadas à Comissão Executiva: “CE-65-081 - Presbitério de Castro - Consulta - Quanto ao Doc. 10 - Consulta do PCST sobre atitude a ser tomada por Presbitério quando tiver obreiro comunista e sobre a posição da IPB em face do mesmo assunto - a CE-SC/IPB resolve aprovar Doc. III nos seguintes termos: 1) Declara que a esta CE-SC/IPB não padece qualquer dúvida sobre a idoneidade moral dos Presbitérios para considerarem a situação sócio-político-doutrinária de seus obreiros; 2) Encaminhar ao SC a consulta sobre a posição da IPB em face do assunto.”

 

Então, em 1966, no Governo de Humberto Castelo Branco, o Supremo Concílio da IPB tomou posição contra o comunismo e seus adeptos, como segue: “SC-66-074 – Presbitério de Castro - Consulta - Doc. XXXIV- Quanto ao Doc. 26 Consulta do PCST sobre atitudes do Presbitério quando tiver obreiro comunista, o SC resolve: 1) Reafirmar ser indispensável a qualquer pessoa que deseja filiar-se à IPB, em especial aos seus oficiais e ministros, a aceitação da Palavra de Deus como única regra de fé e prática, e seus símbolos de fé. Quando qualquer prova se possa fazer contra membro ou membros da IPB de que já não mais aceitam a Palavra de Deus e seus símbolos de fé, por adotarem uma filosofia em choque com os princípios cristãos, no todo ou em parte, a mesma prova deve ser apresentada ao Conselho competente para os devidos fins; 2) Reafirmar a resolução da Assembleia Geral de 1936 que declara: ‘Compete ao cristão obedecer as autoridades legitimamente constituídas e realizar os deveres do cidadão, nunca devendo adotar qualquer ideologia que atente contra os princípios evangélicos da liberdade civil e de consciência e de ordem e paz sociais’”.

 

Em 1977, no governo de Ernesto Geisel, foi a vez da Organização Palavra de Vida flertar com o comunismo. Havia muitos jovens que participavam de seus eventos. A IPB se posicionou: “CE-77-007 - Atividade da Organização Palavra da Vida - Doc. XLIV - Quanto ao Doc. 40 - Informações do Sr. Presidente referente à Palavra da Vida. A Comissão Executiva do Supremo Concílio, considerando ser ambígua a doutrina implícita, sobre a compatibilidade ética do comunismo russo, marxista, com o cristianismo, esposado pela ‘Organização Palavra da Vida’ conforme publicação oficial feita no ‘Jornal Palavra da Vida’ em seus artigos ‘Eu chorei na Rússia’ e ‘Cristianismo na Rússia, uma existência inquieta’. Resolve: 1) Recomendar às Igrejas que, mediante doutrinação, aconselhem seus jovens e fiéis a não participarem das atividades da ‘Organização Palavra da Vida’; 2) Recomendar que os Presbitérios e as igrejas não encaminhem jovens nos cursos mantidos pela organização supracitada; 3) Encaminhar a presente resolução à Comissão Especial dos Seminários”.

 

O Rev. Boanerges Ribeiro como Vice-presidente e representando a IPB na Assembleia Geral da PCUSA, apresentou o seu parecer sobre a condição doutrinária daquela denominação. A CE - 1979 - DOC. XVI fez o seguinte registro: “Rev. Boanerges Ribeiro - Relatório de Comparecimento à Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos - Doc. XLV - Quanto ao Doc. 42 - Relatório do Sr. Vice-presidente do Supremo Concílio, Rev. Boanerges Ribeiro referente ao seu comparecimento â Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, como representante da Igreja Presbiteriana do Brasil - A Comissão Executiva do Supremo Concílio resolve: 1) Tomar conhecimento. 2) Ressaltar a ênfase dada no relatório do Rev. Boanerges de que a evangelização, tal como a compreendemos, ou seja: proclamação de que em Jesus Cristo, e somente pela fé nele pode o homem salvar-se, vem, naquela Igreja, perdendo relevo, face à orientação da ‘Igreja nativa’ para a ‘libertação’ em um entendimento marxista, histórico-materialista, que recebe ênfase, recursos e pessoal. 3) Alertar a Igreja Presbiteriana do Brasil contra a possível infiltração de pessoas oriundas de tal orientação. 4) Apreciar a atuação firme e fiel do Rev. Boanerges como representante da Igreja Presbiteriana do Brasil”.

 

Em 1990, A IPB produziu uma Pastoral de Ética Cristã Política que, entre outras coisas, recomenda: “Que se evite todo e qualquer apoio a candidatos reconhecidamente descompromissados com os ideais de democracia, justiça e paz propugnados pela nossa Igreja, que visam apenas o interesse pessoal, pactuam com os injustos e corruptos, aceitam subornos, negam justiça aos pobres (Is 5.18, 22-23), decretam leis injustas (Is 10.1) e se afastam da Palavra de Deus como ‘regra de fé e prática’”.



01 setembro 2021

O pequeno Mayflower

 

Em Nome de Deus, amém.


Nós, cujos nomes são inscritos, os súditos leais de nosso temível senhor soberano, Rei James, pela graça de Deus, rei da Grã-Bretanha, França, Irlanda, defensor da fé, etc., tendo empreendido para a glória de Deus e promoção da fé cristã, e honra de nosso reino e país, uma viagem para implantar a primeira colônia nas partes do norte da Virgínia, fazendo por esses que aqui estão presentes, solenemente e mutuamente na presença de Deus, e um do outro, compactuar e nos unir em um corpo político civil, para nossa melhor organização, preservação e promoção dos fins acima mencionados; e, em virtude deste instrumento, promulgar, constituir e enquadrar tais leis, ordenanças, atos, constituições e ofícios justos e iguais, de tempos em tempos, conforme for considerado mais adequado e conveniente para o bem geral da Colônia, ao qual prometemos toda a devida submissão e obediência.


 Em testemunho do que, aqui subscrevemos nossos nomes em Cape Cod, em 11 de novembro, no ano do reinado de nosso senhor e soberano, o Rei James, da Inglaterra, França e dia 18 na Irlanda e quinquagésimo quarto dia da Escócia.[1]


Anno Dom. 1620[2]

 

 Notas:

[1] W.F. Reddaway, ed., Select Documents of European History - 1492-1715 (London, Methuen & CO. Ltda., 1930), vol. 2, pp. 203-204. Este documento foi a declaração de submissão dos tribulantes do Mayflower, sendo a maioria deles puritanos que colonizaram os EUA.

[2] 11 de novembro de 1620

03 agosto 2020

A compaixão deve ser sábia - uma abordagem no trabalho diaconal

por John Sittema


Não são somente os diáconos que demonstram misericórdia, mas toda a igreja é chamada para esta tarefa. Levar a misericórdia é missão de toda a igreja, e de cada crente. O serviço especial que realizam os diáconos é estimular e coordenar a prática da misericórdia pelos demais membros do corpo. Todavia, às vezes este assunto da misericórdia chega a complicar-se. Os diáconos de minha igreja pedem-me conselhos para resolver problemas em seu trabalho. Estes problemas podem ser o orgulho que alguns têm, que lhes impede receber a ajuda que necessitam, ou o contrário - uma atitude de querer receber tudo sem esforço pessoal, o que contribui para a preguiça e perda da autoestima. Se acrescentar o ciúme e a avareza, pronto se poderá perceber alguns dos problemas que enfrentam os diáconos.

Este artigo tem como propósito dar alguns conselhos para ajudar aos diáconos a realizarem o seu trabalho nestes tempos em que muitos estão caindo no consumismo e no materialismo. Serão citadas muitas passagens das Escrituras, e um estudo mais detalhado de cada passagem seria necessário para uma maior compreensão do ponto. Rogo a Deus que este artigo estimule a discussão entre os diáconos, e que ajude a esclarecer assuntos chaves nos desafios que enfrentam.

A misericórdia é mais do que uma esmola

A igreja guiada por seus diáconos é chamada a praticar a compaixão, o amor e o apoio para com aqueles que levam pesadas cargas em suas vidas. Esta ajuda pode ser monetária, ou “um vaso de água” (Mc 9.41), ou uma palavra de ânimo em nome de Jesus. Nalgumas ocasiões as pessoas enfrentam um inimigo mais demolidor - a perda da esperança: “O coração alegre constitui bom remédio; mas o espírito triste, seca os ossos” (Pv 17.22). Nestes casos, serão urgentes as visitas fiéis pelos diáconos (e também pelos presbíteros e pastores!), abrindo a Palavra de Deus com eles. Por outro lado, a tarefa dos diáconos com frequência inclui dar o alerta de advertência, ou prover uma admoestação – coisa que muitos não gostam. Todavia, esta tarefa em particular provê uma faceta importante a longo prazo.

Uma boa passagem é 1Ts 5.12-15, onde Paulo disse que “admoestem os insubmissos, consoleis os desanimados ...”

A igreja não é um partido político socialista

A igreja recebe ofertas do povo de Deus, e deve usá-las com benevolência. Mas recordemos que a meta não é a “redistribuição das riquezas”. Pelo contrário, a meta é o avanço do reino de Deus, tanto no sentido amplo, como também no sentido individual (veja At 6.1-7 e 2Co 8-9. Em ambos os casos o ministério diaconal ajudou que a igreja crescesse e que o reino de Deus se estendesse).

Certamente as Escrituras fazem um chamado aos ricos que sejam generosos com os necessitados (1Tm 6.18); mas, também chamam tanto aos ricos como aos pobres para o contentamento, e que não se queixem diante sua condição (1Tm 6.7-8). Hoje em dia o descontentamento está transbordando - embora eles tenham “sustento e abrigo” muitos não estão felizes. Este é um problema espiritual com consequências sérias: “Porque os que querem enriquecer caem em tentação e ciladas, e em muitas cobiças néscias e danosas, que afundam os homens em destruição e perdição” (1Tm 6.9). Recordemos que sempre teremos os pobres entre nós - em parte para provar o coração dos ricos, e também para assegurar que todos tenhamos nossa meta em Jesus, e não nas possessões materiais. Os diáconos devem focar nos corações, não em algum sentido humano da “repartição justa” dos bens.

Mantenhamos uma abordagem bíblica do sofrimento

O sofrimento dói, mas o sofrimento não prejudica. Esta distinção é crucial. Cristo nos chama a aceitar os sofrimentos como mestre da alma. Em muitas partes do Novo Testamento há o ensino que os sofrimentos humilham aos orgulhosos (algo que todos necessitamos!), nos instrui a paciência, produzem perseverança e despertam a esperança.

Quando o crente clama ao Senhor debaixo de sofrimento, outros cristãos apressam-se para ajudar. Mas quando alguns assumem uma atitude de amargura diante do sofrimento, e exigem que os diáconos removam a dor - na realidade estão desafiando a Deus. Apeguemo-nos ao Catecismo de Heidelberg e confessemos que “as riquezas e a pobreza vêm não como pelo azar, mas por seu conselho e vontade paternal” (#27). Os diáconos devem entender que sua missão não é aliviar o sofrimento. Antes, a sua tarefa é ajudar a interpretar o sofrimento e ajudar a passá-lo (não evitar), e a crescer por haver passado. Se apontamos mal neste assunto, cortaremos os bons propósitos do Senhor.

Seria como não deixar que o nosso filho aprenda as duras lições da vergonha e do castigo quando descoberto roubando algo duma loja. Seria como o pai ou mãe que não disciplina ao seu filho somente porque chora. Passagens importantes são Hb 12.7ss; Tg 1.2-12; 1Pe 4.12-19.

Não seja partícipe do néscio em sua insensatez

A insensatez tem consequências. Escolhas néscias para gastar o dinheiro, decisões néscias na criação dos filhos, e a conduta moral néscia - todos colhem muitos problemas. As Escrituras nos dizem que não sejamos partícipes com os néscios: “Nunca respondas ao néscio de acordo com a sua tolice, para que não sejas também como ele” (Pv 25.4). Imaginemos uma situação em que os diáconos recebem uma solicitação de assistência financeira de alguém que gastou milhares e milhares de reais com seu cartão de crédito, e tem sérios problemas em pagá-lo. Se a causa de seus problemas foi um furacão, um incêndio, ou uma dívida com gastos médicos - seria uma cosa. Mas outra coisa é o gasto desenfreado de dinheiro com as últimas modas, novos eletrodomésticos, equipamento eletrônico, etc. Não seria sábio oferecer ajuda financeira neste último caso. O que se deve prover é assistência diaconal em fixar prioridades e desenvolver a disciplina de manejar as prioridades. Passagens relevantes são: 2Ts 3.10; Gl 6.7ss; e Pv 16.25, 26; 17.15,16,18, 22; 18.6-7 e 19).

Mantenha a abordagem global de vista

A instrução de At 6.3 requer que os diáconos sejam homens “cheios do Espírito e sabedoria”. Em 1Tm 3 exige homens que tenham sua casa em ordem, por que como cuidarão da casa de Deus? Por que encontramos estes requisitos? Não necessitam coletar a oferta nos dias de culto, nem mesmo que se fixe em que a usarão. Estes requisitos não têm sentido se a única coisa que os diáconos fazem é aliviar o sofrimento através de ajudas econômicas. A resposta deve ser óbvia para todos - isto NÃO é o trabalho dos diáconos! Pelo contrário, seu chamado é ajudar as pessoas a serem bons mordomos de suas vidas e recursos, a motivá-las para a generosidade, a evitar a cobiça e descontentamento, e a utilizar todos os seus recursos com sabedoria para o avanço do reino de Deus. A compaixão deve servir estes propósitos.

25 julho 2020

Uma das maiores ironias da história da Teologia Reformada

Por Kevin DeYoung


Benedict Pictet nasceu em 30 de maio de 1655 numa das principais famílias de Genebra. Ele estudou teologia com seu tio, Francis Turretin, e então completou a sua educação em Paris e Leiden, onde estudou com o conservador calvinista alemão Frederich Spanheim (o jovem). Depois de pouco tempo na Inglaterra, Pictet retornou a Genebra e, em 1686, tornou-se assistente de Turretin e Philippe Mestrezat no departamento de teologia. Pictet desenvolveu-se bem, sucedendo seu tio à cadeira de teologia e sendo procurado como sucessor de Spanheim em Leiden. Como professor e pastor em Genebra, Pictet era amplamente considerado não apenas por sua erudição, mas por sua pregação hábil, seu trabalho humanitário, seu hinário e sua elegante revisão francesa dos Salmos. As suas duas obras teológicas mais importantes foram Christian Morals (1692) e Christian Theology (1696). Pictet morreu em 10 de junho de 1724, gritando em seus momentos finais: “Ó, morte, onde está sua ferroada?”[1]

Além de Theologia Christiana, Pictet é mais lembrado por sua firme oposição à remoção do Consenso da Fórmula Helvética como um padrão confessional na Suíça. Durante a maior parte do século XVII, a teologia reformada estava envolvida em controvérsias em torno da Academia de Saumur, na França, como os líderes de Saumur - Moise Amyraut (1596-1664), Louis Cappel (1585-1658) e Josue de la Place (1596). -1665) - resistiu à ortodoxia reformada do Sínodo de Dort (1618-1619). Em 1637, Amyraut foi levado perante a Igreja Reformada Francesa para explicar as suas opiniões sobre a extensão universal da expiação e da redenção hipotética. [2] Quando ficou claro, nas décadas seguintes, que Amyraut não seria removido de seu posto ou pastorado em Saumur - e, de fato, a influência do Amyraldianismo estava se espalhando-as principais mentes da Suíça começaram a planejar uma resposta mais definitiva. Em 1669, Francis Turretin (1623-1687) iniciou a ideia com Johann Henry Heidegger (1633-1698) de um Consenso Suíço que trataria dos erros de Saumur: a saber, o enfraquecimento de Cappel da inspiração do texto hebraico do Antigo Testamento, de la Place a rejeição da imediata imputação do pecado de Adão, e a insistência de Amyraut de que Deus pretendia que a morte de Cristo fosse para todos (sob a condição de que eles cressem). Um rascunho do Consenso foi composto por Heidegger em Zurique, com Turretin de Genebra e Lucas Gernler (1625-1675) da assistência de Basileia. A Fórmula Consenso Helvética foi aprovado pela Dieta Evangélica da Suíça em 1675 e endossado pela Companhia dos Pastores da Igreja de Genebra, em 1678, e pelo Conselho em 1679.[3]

Uma geração depois, Genebra estava disposta para comprometer-se com o Consenso. Numa das reviravoltas irônicas da história teológica, o impulso para remover o Consenso foi liderado pelo filho de Turretin, Jean-Alphone Turretin (1671-1737), cujo principal oponente defendia o Consenso era seu primo mais velho (sobrinho de Francis), Benedict Pictet. Francis Turretin se casou mais tarde e seu filho Jean-Alphonse não nasceu até que seu pai tivesse quarenta e nove anos. Pictet e Francis Turretin tinham um relacionamento próximo: Turretin ensinou teologia a Pictet; Pictet sucedeu Turretin como professor de teologia na Academia; Pictet foi chamado à cabeceira de Turretin em seus últimos dias e, em 3 de novembro de 1687, foi Pictet (não Jean-Alphonse, 16 anos) que fez uma oração fúnebre hagiográfica em honra de Turretin. [4] Perto do final da oração, Pictet orou para que a morte de seu amado tio não "anunciasse qualquer coisa para nossa igreja" e que Deus mantivesse Genebra "segura e tranquila, um cenário invencível de seu poder e virtude".[5]

Mas não era para ser assim. Apesar dos protestos de Pictet e Bento Calandrini (1639-1720), em 1706, o Conselho de Genebra removeu a exigência de que os fossem ordenados subscrevessem a Fórmula. Mesmo uma medida mediadora exigindo que candidatos ministeriais concordem em não ensinar nada contra a Fórmula não poderia ser aprovada. Em 6 de setembro de 1706, o Conselho adotou um novo rito de ordenação que anulou a Fórmula, exigindo apenas que os ministros subscrevessem o Antigo e o Novo Testamento e não subscrevessem contra as confissões e o catecismo da igreja. [6] Ao contrário do jovem Turretin e da maioria da Companhia de Pastores, Pictet não acreditava que a Fórmula fosse um obstáculo à unidade com os holandeses, ou mesmo que isso dificultasse a união projetada com os luteranos. [7] Ele sustentou que se Genebra perdesse a Fórmula, eles perderiam Dordt e a confissão de fé, e que eventualmente o Arminianismo seria estabelecido, ou algo pior. "Temo que os espíritos deste século sejam extremamente dados a novidades", disse ele em defesa da Fórmula.[8]

O temor de Pictet provou ser presciente. Em 1725, um ano após a morte de Pictet, a fórmula de subscrição de 1706 foi posta de lado em favor de uma política ainda mais frouxa que exigia que os pastores apenas subscrevessem a Bíblia e o Catecismo de Calvino como um fiel resumo das Escrituras. Não havia requisitos para subscrever - nem mesmo um requisito para não ensinar contra - o Consenso da Fórmula Helvética, a Segunda Confissão Helvética ou os Cânones de Dordt. [9] Não é de admirar que Robert Wodrow, escrevendo na Escócia em 1730, tenha repassado com grande espanto a notícia de que “Turretin, o filho, havia derrubado tudo em Genebra”, lamentando ainda mais que “a subscrição das confissões não fosse mais necessária naquela cidade.”[10] A Genebra de Calvino foi efetivamente desconfessionalizada. A ortodoxia reformada estava em declínio.


NOTAS

[1] Informações biográficas tiradas de Martin I. Klauber, “Family Loyalty and Theological Transition in Post-Reformation Geneva: The Case of Benedict Pictet (1655-1724)” Fides et Historia 24: 1 (inverno / primavera de 1992), 54-67, Klauber; James I. Good, History of the Swiss Reformed Church Since the Reformation (Philadelphia: Publication and Sunday School Board, 1913), 176-178. A única biografia completa de Pictet é Eugne de Budé, Vie de Bénédict Pictet, theologien genevois (1655-1724) (Lausanne: Georges Bridel, 1874). Agradecimentos especiais a David Eastman, Professor Assistente de Religião da Ohio Wesleyan University, por traduzir partes do volume do Budé para o inglês para uso neste projeto.

[2] Para uma visão geral imparcial dos pontos de vista de Amyraut sobre a predestinação e a expiação, veja “Controversy on Universal Grace: A Historical Survey of Moïse Amyraut’s Brief Traitté de la Predestination” in From Heaven He Came and Sought Her: Definitive Atonement in Historical, Biblical, Theological, and Pastoral Perspective, ed. David Gibson and Jonathan Gibson (Wheaton, IL: Crossway, 2013), 165-199.

[3] Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation 4 vols., Compilada com introduções por James T. Dennison, Jr. (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2014), 4:516-530. Veja também Martin I. Klauber, “The Helvetic Formula Consensus (1675): An Introduction and Translation,” Trinity Journal 11 (1990): pp. 103-123; The Creeds of Christendom 3 vols., 6th edition, ed. Philip Schaff, rev. David S. Schaff (Grand Rapids: Baker Books, 1998), 477-489. A tradução de Klauber da Fórmula é usada em Confissões Reformadas, junto com o prefácio introdutório original traduzido por Richard Bishop.

[4] Para esta história veja Klauber, “Family Loyalty,” 57-60; veja também por Klauber, Between Reformed Scholasticism and Pan-Protestantism: Jean-Alphonse Turretin (1671-1737) and Enlightened Orthodoxy in the Academy of Geneva (London: Associated University Presses, 1994), 143-164.

[5] “Funeral Oration of Benedict Pictet Concerning the Life and Death of Francis Turretin” traduzido por David Lillegard in Francis Turretin, Institutes of Elenctic Theology 3 vols., trans. George Musgrave Giger, ed. James T. Dennison, Jr. (Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed, 1997), 3:676.

[6] Klauber, Between Reformed Scholasticism and Pan-Protestantism, 146-148, Good, History of the Swiss Reformed Church, pp. 177-178.

[7] Budé, Vie de Bénédict Pictet, p. 43.

[8] Ibid., 41. Cf. Klauber, “Reformed Orthodoxy in Transition: Benedict Pictet (1655-1724) and Enlightened Orthodoxy in Post-Reformation Geneva” in W. Fred Graham (ed.), Later Calvinism: International Perspectives, Sixteenth Century Essays an Studies 22 (Kirksville, MO: Sixteenth Century Journal, 1994), p. 98.

[9] Good, History of the Swiss Reformed Church, p. 178. Veja também James T. Dennison, Jr., “The Twilight of Scholasticism: Francis Turretin at the Dawn of the Enlightenment” in Protestant Scholasticism, eds. Trueman and Clark, 244-255.

[10] Robert Wodrow, Analecta: Materials for a History of Remarkable Providences mostly Relating to Scotch Ministers and Christians, 4 vols. (Edinburgh: Maitland Club, 1853), 4:149.

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

15 julho 2020

Respeitáveis pecados do mundo reformado

por Tim Challies


Jerry Bridges deu muitos presentes à igreja, dos quais o menos importante foi seu livro Respectable Sins, [Pecados respeitáveis] publicado em 2007. Neste livro ele cunhou um termo que descreve toda uma categoria de pecados que, de outra forma nos passariam desapercebidos. “Respectable Sins” são comportamentos que os cristãos (individual e, às vezes, corporativamente) são considerados aceitáveis, embora a Bíblia os descreva como pecaminosos. Eles são tão sutis ou refinados, de modo que podemos até vesti-los para que se tornem num tipo de virtude. Bridges oferece muitos exemplos: ansiedade, frustração, descontentamento, ingratidão, impaciência, irritabilidade, mundanismo e assim por diante.

Um aspecto complicado desta lista de pecados respeitáveis é que seu conteúdo pode mudar com o tempo. O que era respeitável em uma época pode ser escandaloso em outra, antes de voltar à respeitabilidade. Hoje gostaria de oferecer algumas sugestões de pecados que consideramos respeitáveis em 2020, com um foco especial naqueles que são promovidos e disseminados online.

Pecado da suspeita
Esta é uma era polarizada agravada pelos meios de comunicação e pelas redes sociais que prosperam em elogiar os informantes enquanto desacreditam os desinformados. O ideal de objetividade foi substituído pelo vício da suspeita. Embora a Bíblia elogie a sabedoria e o discernimento, rejeita a suspeita, especialmente em relação aos nossos irmãos. Não temos o direito de duvidar dos outros por negligência ou de desconfiar deles por cautela, como se fossem culpados até que se prove inocente. Não podemos nos permitir suspeitar das ações, motivos ou da salvação dos irmãos e irmãs no Senhor. Afinal, o amor é mostrado não apenas em nossas ações, mas também em nossas atitudes, pois “o amor suporta todas as coisas, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.7). Enquanto sempre precisamos estar alerta contra falsos ensinos e falsos mestres dentro da igreja, precisamos igualmente estar alerta contra suspeitas em nossos corações. Não há nada de respeitável nisso.

Pecado da fofoca
Os nossos onipresentes dispositivos digitais e as mídias sociais sempre ativas nos deram a capacidade de nos comunicar com velocidade e abrangência incomparáveis. Mas com esse grande poder vem uma responsabilidade preocupante, pois a Bíblia geralmente adverte sobre o poder das nossas palavras e nossa tendência a usá-las mal. Tanto a vida quanto a morte estão no poder da língua (Pv 18.21). Somos responsáveis não apenas por falar a verdade sobre os outros, mas também por nos afastar daqueles que não falam. Afinal, são necessárias duas pessoas para fofocar e, assim como é pecado falar mal dos outros, é pecado ouvir sem discernimento. No entanto, o mundo cristão e, talvez, em especial, o mundo cristão reformado, é absolutamente repleto de fofocas. Do púlpito ao banco, do auditório da conferência à transmissão ao vivo da conferência, as fofocas são desenfreadas. É sussurrado em nome de informações importantes e blogado em nome de discernimento - as duas maneiras de vesti-las com roupas respeitáveis. Mas se não é verdade, não é edificante e não é necessário, é fofoca. Verdadeiramente, as fofocas podem ser o pecado assolador deste movimento e um dos principais contribuintes para o seu colapso atual ou iminente.

Pecado da calúnia
Intimamente ligada à fofoca está a calúnia. Quando caluniamos outra pessoa, proferimos declarações falsas destinadas a prejudicar a sua reputação. A maneira como podemos tornar esse pecado respeitável é insistirmos que estamos alertando os outros para que se afastem de um falso mestre e que estamos protegendo ovelhas ingênuas e desamparadas. Estamos apenas prejudicando a reputação dessa pessoa porque temos tanto amor e preocupação pelos outros! O que tendemos a fazer, então, é transmitir informações que ouvimos através dos canais de fofocas, mas não verificamos, nem analisamos a sua validade. E assim, seguimos o exemplo de pessoas que fabricam informações para os motivos mais feios e as espalhamos como se fossem verdade. Embora nossos motivos possam ser bons (ou, pelo menos, não totalmente depravados), as nossas ações ainda são pecaminosas. Esteja avisado: “Digo a vocês que, no Dia do Juízo, as pessoas darão conta de toda palavra inútil que proferirem” (Mt 12.36).

Pecado da intromissão
Neil Postman certa vez fez esta pergunta: “Quantas vezes ocorre que as informações fornecidas no rádio ou no noticiário da manhã ou no jornal da manhã fazem com que você altere os seus planos para o dia, ou adote alguma ação que, de outra forma, não seria a opção? Ou dão informações sobre algum problema que você precisa resolver?” Na maioria dos casos, a resposta é “não com muita frequência”. Pode-se pedir o mesmo das informações que obtemos das mídias sociais ou de outras fontes de notícias e informações cristãs. Quantas vezes fazemos algo sobre isso? E, talvez ainda melhor, com que frequência é realmente nossa responsabilidade fazer algo sobre isso? Postman lamentou o ciclo impotente no qual “as notícias suscitam de você uma variedade de opiniões sobre as quais você nada pode fazer, exceto para oferecê-las como mais notícias, acerca das quais você não faz nada”. Estou convencido de que experimentamos algo semelhante hoje em que recebemos notícias sobre as quais nada podemos fazer; portanto, o que fazemos é transmiti-las, transmitindo a nossa opinião, alegria ou indignação. Mas repassar a informação adiante não é um ato neutro. De fato, pode ser um ato de intromissão, isto é, a ação de um intrometido. Difundir opiniões sobre situações que ocorreram muito distantes de nós, que não nos interessam, sobre as quais nada podemos fazer e acerca das quais pouco sabemos, parece corresponder à própria definição de intromissão.

Pecado da ociosidade
Toda nova tecnologia traz benefícios e desvantagens, e a mídia social não é exceção. As pessoas podem usar as mídias sociais para serem tremendamente produtivas - para liberar seus dons, talentos, tempo, energia e entusiasmo pelo bem dos outros e para a glória de Deus. Mas as pessoas também podem usar as mídias sociais para serem tremendamente improdutivas. O uso das mídias sociais pode refletir a ociosidade e a indolência. Podemos dar uma aparência ao nosso uso das mídias sociais como plataforma de construção ou expressão de discernimento ou incentivo. Mas se formos honestos conosco mesmos, para muitos de nós, é um meio de escapar do mundo real e das nossas vidas reais. É preguiça, não produtividade, e a Bíblia tem repetidas e preocupantes advertências sobre aqueles que são preguiçosos (por exemplo, Ec 10.18, Pv 19.15 e 1Ts 5.14). Ironicamente, as pessoas que são mais ativas nas mídias sociais, igualmente, podem ser as mais inativas.

Pecado da impugnação
Impugnar é questionar a verdade, validade ou honestidade dos motivos de outra pessoa. Intimamente ligado à contestação dos motivos da outra pessoa, está a sugestão de que você sabe a verdade por trás deles. Hoje em dia, existe muito disso no mundo cristã e gera tão pouca desaprovação, que é algo classificado como respeitável. No entanto, uma simples introspecção guiada pela Bíblia nos revela que, muitas vezes, nem conhecemos nossos próprios motivos e, se não conhecemos nossas intenções, como poderíamos conhecer de outras pessoas? O texto de Tg 3.17–18 nos desafia que “a sabedoria do alto é primeiro pura, depois pacífica, gentil, aberta à razão, cheia de misericórdia e bons frutos, imparcial e sincera”. E, 1Co 4.5 adverte que “não devemos pronunciar juízo antes do tempo, antes que o Senhor venha, porque trará à luz as coisas que estão ocultas nas trevas e revelará os propósitos do coração”. Se quisermos pressupor algum sentimento sobre os motivos de outra pessoa, devemos assumir o melhor, não o pior. Quando se trata de um irmão ou irmã em Cristo, é pecado assumir más motivações; é pecaminoso deixar de nutrir bons motivos.

Cada um de nós é um santo, mas cada um de nós ainda é um pecador. Como tal, continuamos atraídos por certos pecados e propensos a revesti-los com roupas respeitáveis. Por isso, é uma boa e necessária disciplina a prática do autoexame, a fim de ponderarmos se evitamos apenas os pecados que consideramos mais feios, mas também aqueles que consideramos mais bonitos. Façamos isso sabendo que mesmo o mais “respeitável” dos nossos pecados é odioso a Deus e, por esse motivo, deve ser igualmente odioso para o seu povo.


Acesse o artigo original AQUI acessado em 15 de Julho de 2020.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

01 julho 2020

The Concise Marrow of Christian Theology - Johann H Heidegger RESENHA

Uma resenha por Ryan McGraw


Johan Heinrich Heidegger (1633-1698) provavelmente não é um nome familiar nos círculos reformados hoje. No entanto, Heidegger serviu como professor em Heidelberg e Zurique, no que é conhecido como o período da alta ortodoxia da ortodoxia reformada. Francis Turretin (1623-1687) se referia a ele regularmente em seus famosos Compêndio de Teologia Apologética, e ele era bem conhecido em seu tempo. Heidegger também escreveu três sistemas de teologia, dos quais este era o mais curto. A presente obra é breve e a tradução é bem fluente para a leitura. Heidegger oferece aos leitores modernos uma excelente visão do pensamento clássico reformado sem atolá-los em um texto com vários volumes. Este livro recompensará àqueles que assimilarem o seu conteúdo, dando-lhes um vislumbre da cuidadosa precisão, fidelidade bíblica e piedade do pensamento histórico reformado.

O Compêndio de Heidegger cobre todo o sistema de doutrina em aproximadamente duzentas páginas. Ele não é tão completo ou preciso quanto alguns manuais de teologia abreviados mais conhecidos, como os de William Ames ou Johannes Wollebius. No entanto, Heidegger apresenta aos leitores todos os termos e distinções teológicas básicas que eles precisam para entender o sistema da doutrina reformada. Isso ajudará as pessoas a compreenderem a essência do pensamento reformado, deixando muitas perguntas subdesenvolvidas. Heidegger também removeu quase todas as referências a outros autores, incluindo os pais da igreja, optando por apresentar aos leitores as passagens mais relevantes das Escrituras que substanciam as suas afirmações. As suas definições são simples e claras, mas este será um texto inicial mais difícil do que o de Ames e Wollebius mencionados acima. Os alunos eram obrigados a memorizar um texto como este, a fim de servir como uma ponte para a leitura de tratamentos mais complexos da teologia.

Os editores listam três razões para estudar textos clássicos reformados como este (ix). Primeiro, eles fornecem a base intelectual da teologia moderna. Segundo, eles representam parte da herança daqueles que se identificam com a confissão reformada. Terceiro, a ortodoxia reformada foi um movimento espiritual vital que merece nossa atenção. Heidegger cumpre todos esses objetivos, e ainda, de modo admirável. Ele pretendia que este livro fosse uma obra de transição para obras teológicas maiores (xx). Como Ryan Glomsrud observa na introdução, “Heidegger pretendia apresentar a seus leitores um resumo de consenso da tradição reformada como um todo” (xxiv). A este respeito, é agora um ponto de partida para os leitores ingleses modernos no mundo mais amplo do pensamento reformado clássico.


Referência bibliográfica: Johan Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Christian Theology (Reformation Heritage Books, 2018), 256 páginas.

Texto original da resenha AQUI

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

25 abril 2020

"A Companhia de Pastores de Calvino" - resenha por Michael Horton

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.

Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Pequeno Conselho que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

O caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.


Artigo extraído de https://www.thegospelcoalition.org/reviews/calvins-company-pastors/ artigo publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

23 abril 2020

Estudando a Confissão de Fé de Westminster

Se você pretende estudar o contexto histórico e a estrutura teológica da Confissão de Fé de Westminster, permita-me sugerir alguns livros que são indispensáveis para uma pesquisa proveitosa. A lista de livros e textos não pretende ser exaustiva, mas apenas uma amostra do que está disponível para incentivar aos pesquisadores.

HISTÓRIA DA ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER

1. A. Craig Troxel, “Divine Right” Presbyterianism and Church Power (Diss. PhD., Westminster Theological Seminary, 1998).

2. Acts of the General Assembly of the Church Scotland 1632-1842 – Reprinted from the original edition, under the superintendence of The Church Law Society (Edinburgh, The Edinburgh Printing and Publishing Company, 1898).

3. B.B. Warfield, "The Westminster Assembly and its work" in: The Works of B.B. Warfield (Grand Rapids, Baker Book, 2003), vol. 6

4. Chad van Dixhoorn, The Minutes and Papers of Westminster Assembly 1643-1652 (Oxford, Oxford University Press, 2012), 5 vols.

5. David R. Ehalt, The Development of Early Congregational Theory of the Church, with Special Reference to the Five "Dissenting Brethren" at the Westminster Assembly (Diss. PhD., Claremont Graduate School and University Center, 1969).

6. Ethyn Williams Kirby, “The English Presbyterians in the Westminster Assembly” in: Church History, Vol. 33, No. 4 (Cambridge University Press on behalf of the American Society of Church History, Dec., 1964), pp. 418-428.

7. George Gillespie, The Works of George Gillespie (AB Canada: Still Waters Revival Books, 1991), vol. 2.

8. Guilherme Kerr, A Assembleia de Westminster (São José dos Campos, Editora Fiel, 1992).

9. James Kevin Culberson, For Reformation and Uniformity”: George Gillespie (1613-1648) and the Scottish Covenanter Revolution (Diss. PhD., University of North Texas, 2003).

10. John H. Leith, Assembly at Westminster – Reformed Theology in the Making (Atlanta, John Knox Press, 1978).

11. J. Ligon Duncan, III, ed., The Westminster Confession into the 21st Century (Ross-shire, Mentor Imprint, 2005), 3 vols.

12. John Lightfoot, The Journal of the Proceedings of the Assembly of Divines: From January 1, 1643, to December 31, 1644 in: The Whole Works of the Rev. John Lightfoot, D. D., editado por John Rogers, Vol. 13.

13. John R.H. Corbett, The Churches in England and Scotland, 1603-1649: A Study in Church Union (Thes. S.T.M., McGill University, 1970).

14. Larry Jackson Hglley, The Divines of the Westminster Assembly - A Study of Puritanism and Parliament (Diss. PhD., Yale University, 1979).

15. Paul Joseph Smith, The Debates on Church Government at the Westminster Assembly of Divines, 1643-1646 (Diss. PhD., Boston University Graduate School, 1975).

15. Robert Baillie, The Letters and Journals of Robert Baillie (Edinburgh, A. Laurie Publisher, 1842) 3 vols.

16. Robert Letham, The Westminster Assembly – Reading its Theology in Historical Context (Phillipsburg, P&R Publishing, 2009).

17. Samuel R. Gardiner, ed., Constitutional Documents of the Puritan Revolution of from 1628-1660 (Oxford, Oxford University Press, The Clarendon Press, 1889).

18. Wayne R. Spear, Covenanted Uniformity in Religion: The Influence of the Scottish Commissioners upon the Ecclesiology Assembly of the Westminster (Pittsburgh, University of Pittsburgh, Diss. Ph.D., 1976).

19. William M. Hetherington, History of the Westminster Assembly of Divines (Elgin, Puritan Publications, 2006).


COMENTÁRIOS DA CONFISSÃO DE FÉ

1. Chad van Dixhoorn, Guia de estudos da Confissão de Fé de Westminster (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017).

2. David Dickson, Truth’s victory over error – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Edinburgh, The Banner of Truth, 2007).

3. G.I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes (Edinburgh, The Banner of Truth, 1964).

4. Gordon H. Clark, What do Presbyterians believe? (Unicoi, The Trinity Foundation, 2001).

5. Hodge, A.A., Confissão de Fé de Westminster Comentada (São Paulo, Editora Os Puritanos, 1999).

6. Robert Shaw, The Reformed Faith – an exposition of the Westminster Confession of Faith (Inverness, Christian Focus Publications, 1973).

7. Wayne R. Spear, Faith of our fathers – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Pittsburgh, Crown & Covenant Publications, 2006).


SITES

1. www.westminsterconfession.org [a biografia, documentos e as obras dos membros da Assembleia de Westminster].

2. www.prdl.org [as obras dos teólogos e os documentos da Assembleia de Westminster e diversos outros]

14 abril 2020

Os estudantes de teologia da Academia de Genebra

Este é um trecho do Estatuto da Academia de Genebra.[1] O documento completo é parte de um projeto/livro com traduções de vários diretórios eclesiásticos que João Calvino escreveu para a Companhia de Pastores da Igreja de Genebra.

Os estudantes públicos,[2] assim como são declarados, procurarão o reitor para registrar os seus nomes e assinar com as próprias mãos a Confissão de Fé. Eles devem se comportar com modéstia e no temor de Deus.

Aqueles que desejam estudar as Sagradas Escrituras escreverão os seus nomes em um catálogo e, no sábado, das duas às três horas, tratarão em público alguma passagem das Escrituras na presença de alguns ministros, que conduzirão a reunião. Então eles ouvirão as críticas do ministro que está liderando. Nesta crítica, é permitido a todos que estão presentes manifestarem modestamente a sua opinião e no temor de Deus. Esses mesmos alunos, por sua vez, prepararão e escreverão, a cada mês, algumas proposições que não serão meras curiosidades, nem sofismas, nem sustentarão falsas doutrinas, e as comunicarão em tempo hábil ao professor de teologia. Então, eles as defenderão num debate público contra aqueles que queiram discuti-las. Naquele momento será permitido que todos falem. Serão banidos todo sofisma, curiosidade insolente e audaciosa que corrompe a Palavra de Deus e, da mesma forma, toda contenda maligna e orgulho contumaz.

Pontos de doutrina serão tratados com reverência e religiosamente pelos dois lados da disputa. O professor de teologia que presidirá a debate conduzirá tudo de acordo com sua prudência e dará, pela Palavra de Deus, a solução para as dificuldades que foram submetidas.


NOTA:
[1] A tradução foi realizada a partir de W. Stanford Reid, “Calvin and the Founding of the Academy of Geneva,” Westminster Theological Journal 18, no. 1 (1955): 22–33, recorrendo aos textos originais em francês e latim. Há disponível fac-símile do texto latino Leges Academiae Genevensis Estatutos da Academia de Genebra] editado por Oliva Roberti Stephani, 1559, em Genebra; e uma edição francesa L’ordre du College de Genève de L’Olivier De Robestienne, publicação de 1559, em Genebra; e, outra sob o título Les Ordonnances Ecclesiastiques de l’Egllise de Genève. Item, l’ordre des escoles de ladite cité [As Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra. Bem como, a ordem das escolas da referida cidade] publicada por Artus Chauvin, edição de 1561, em Genebra. Em 29 de Maio de 1559 é promulgado o Estatuto da Academia de Genebra com o título de L’ordre establi au College de Geneve par nos Magnifique & treshonorez seigneurs Syndiques & Conseil [A Ordem estabelecida para a Academia de Genebra pelos nossos magníficos e honrados senhores síndicos e Conselho]. A edição de 1561 traz um título mais longo, que diz: L’ordre des escoles de Genève. La publication des loix concernans l’ordre des Escoles de ladite cité en la presence de nos magnifiques & treshonnorez Seigneurs, Syndiques & Conseil [A Ordem das escolas de Genebra. A publicação das leis concernentes à ordem das Escolas da referida cidade na presença de nossos magníficos e honrados senhores, síndicos e Conselho] publicada por Artus Chauvin. Entretanto, os textos em francês de 1559 e 1561 têm o mesmo conteúdo. Mas o texto latino altera o título para Promulgatio Legu Academiae Genevensis [A Publicação dos Estatutos da Academia de Genebra] e, também, omite a "Forma da Confissão dos Estudantes Públicos". Os textos fac-símiles estão no site www.e-rara.ch e na Bibliothèque de Genève, o texto impresso encontra-se em Opera Calvini, vol. IX, pp, 721-726.

[2] David W. Hall comenta que “a Academia de Calvino, anexa à Catedral de Saint Pierre, oferecia dois níveis de currículos: uma para a educação pública da juventude de Genebra (o colégio ou schola privata), e o outro, um seminário para o treinamento de ministros (schola publica). Não se deve diminuir o impacto que se deu pela educação pública da juventude, especialmente quando a educação normalmente estava reservada somente para os descendentes da aristocracia, ou membros das sociedades católicas. Iniciada em 1558, com Calvino e Theodore Beza como presidentes da faculdade de teologia, o edifício da Academia foi dedicado em 5 de Junho de 1559, com 600 pessoas presentes na Catedral de Sainct Pierre. Calvino arrecadou dinheiro para a escola e muitos expatriados doaram para ajudar na arrecadação. A escola pública, a qual tinha sete graus, matriculou 280 estudantes em seu ano inaugural, e o seminário da Academia se expandiu a 162 estudantes em apenas três anos. Na morte de Calvino, em 1564, havia 1.200 estudantes no colégio e 300 no seminário. Ambas as escolas, como observam os historiadores, eram gratuitas e ‘precursoras da educação pública moderna’. Poucas instituições europeias nalgum momento viram um crescimento tão rápido.” David W. Hall, The legacy of John Calvin – His influence on the Modern World (Phillipsburgh, P&R Publishing, 2008), p. 13.

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki
14 de abril de 2020.

07 abril 2020

Devemos transmitir a ceia do Senhor Online?

por Scott R. Swain


Durante a semana passada, estive envolvido em várias conversas sobre se as igrejas devem transmitir ao vivo a Ceia do Senhor.

Na maioria dos casos, as conversas não foram sobre se a transmissão ao vivo da Ceia do Senhor é válida em circunstâncias normais […]. A maioria das conversas em que participei foi entre ministros reformados e presbiterianos com um entendimento compartilhado da igreja, ministério pastoral e sacramentos. A questão nessas conversas foi se as circunstâncias extraordinárias da vida em quarentena permitem maneiras extraordinárias de administrar a Ceia do Senhor.

O The Gospel Coalition publicou duas perspectivas batistas sobre a questão de as igrejas fazerem online a Ceia do Senhor, uma contra e outra favorável. Além disso, a Christianity Today publicou um artigo, escrito do ponto de vista sacramental protestante, que argumenta que a Ceia do Senhor pode realmente cumprir sua função como um meio de graça, mesmo quando celebrada online.

Não creio que as igrejas devam transmitir a Ceia do Senhor por razões bastante reformadas. A razão mais fundamental tem a ver com a natureza do próprio sacramento.

Um sacramento, no nível mais básico, é uma ação simbólica ordenada por Jesus Cristo à qual ele anexou a promessa de sua presença e bênção (Êx 20:24; Mt 28:18-20; Lucas 22:19; 1 Co 10:1-4, 16; 11:24-25). O “sinal”, nesse entendimento, não são simplesmente os “elementos” da água, pão e vinho. O sinal é a totalidade da ação simbólica que, no caso da Ceia do Senhor, é uma refeição compartilhada (1Co 10:17). Além disso, quando se trata da Ceia do Senhor, a ação simbólica de uma refeição compartilhada tem um contexto específico e divinamente ordenado: “quando vocês se reúnem” (1Co 11:33). O “sinal” da Ceia do Senhor é uma refeição compartilhada, participada na assembleia da Aliança, do povo de Deus, ou seja, a igreja reunida. A esta ação simbólica, Cristo anexou a promessa de sua presença e bênção: “ali te darei meu amor” (Ct 7:12).

Quando se trata da Ceia do Senhor, então, nenhuma refeição compartilhada, nenhuma assembleia da aliança significa nenhum sacramento. (Nota: a situação é diferente no batismo, cuja ação simbólica envolve uma pessoa lavando a outra pessoa com água). Embora a ação de uma refeição compartilhada e o contexto da assembleia da aliança não sejam condições suficientes para celebrar a Ceia do Senhor, são condições necessárias. Sem eles, realmente não se pode celebrar a Ceia do Senhor.

Aqueles que mais se afastaram dessa linha de argumentação o fizeram porque valorizam profundamente a Ceia do Senhor como um meio de graça. Que grande perda, argumentam eles, sem os meios divinamente designados de dar e receber o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, de fortalecer nossa fé e esperança, de receber e responder ao amor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Contra esse sentimento, não tenho argumentos. É realmente uma grande perda, talvez a maior perda entre muitas outras perdas que se seguem à nossa incapacidade de nos reunirmos na presença de Deus como povo da aliança de Deus no Dia do Senhor.

Mas a resposta adequada a essa grande perda não é tentar transmitir ao vivo a Ceia do Senhor. Por enquanto, o caminho para participar da Ceia do Senhor está fechado para todos nós. Por enquanto, não somos chamados para festejar, mas para jejuar.

O que leva ao que acredito ser a resposta pastoral apropriada em nossa atual crise. Em situações de perda como essa, precisamos aprender a lamentar, e devemos ensinar o povo de Deus a lamentar, algo bastante difícil para aqueles (como eu) que estão acostumados à gratificação instantânea.

A Ceia do Senhor é uma das maiores bênçãos que Jesus Cristo deu à sua igreja. Nossa incapacidade de celebrar a Ceia do Senhor por um período só pode ser, deve ser, apenas causa de tristeza e lágrimas. Por enquanto, não podemos celebrar essa lembrança do Senhor “provando” e “vendo” sua bondade (Sl 34:8).

Mas isso não significa que somos enviados a um estado de completo esquecimento. Não. Existe um tipo de lembrança que acompanha o exílio da cidade de Deus (Sl 137:5-6), a lembrança que leva a lágrimas fiéis (Sl 137:1-2) e que cultiva o desejo de restauração (Sl 63:1; 143:6), a lembrança daqueles que já provaram e que, pela graça de Deus, sabem que mais uma vez provarão e verão a bondade do Senhor, seja na sua mesa na assembleia da aliança ou na ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19:9). Este é o tipo de lembrança que somos chamados a cultivar em nós mesmos e em nossos rebanhos neste tempo.

Nosso presente jejum da Ceia do Senhor é necessário, mas lamentável. Nosso presente jejum também é uma oportunidade de cultivar um desejo sincero pelo Senhor e por seu povo que tornará nosso banquete à mesa do Senhor ainda mais alegre quando o tempo do nosso jejum chegar ao fim. Faremos um banquete na casa de Sião!


Scott R Swain é presidente e professor de Teologia Sistemática no Reformed Theological Seminary, em Orlando, Flórida, onde atua desde 2006. É ministro ordenado na Igreja Presbiteriana da América. Scott e sua esposa, Leigh, têm quatro filhos.
Tradução: Pr. Dilsilei Monteiro

Extraído de TGC - Coalizão Pelo Evangelho.