12 agosto 2019

A Companhia de Pastores de Calvino - resenha

por Michael Horton[1]

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors[2] é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.
Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Conselho Menor que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

De fato, o caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.

NOTAS:
[1] O artigo foi publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019.
[2] O livro pode ser adquirido AQUI.

08 agosto 2019

Como se preparar espiritualmente para o exame de ordenação

Por Dr. Ryan M. McGraw[1]


Participar de um exame ministerial ou de ordenação deve ser um ato de piedade. Apegar-se a este pensamento é o melhor meio de se aproximar de um exame sem temer os homens que o examinarão. Em muitos aspectos a preparação para licenciamento e ordenação pode ser um dos melhores meios para se preparar para o pastorado. Se somos servos de Jesus Cristo, então não deveríamos nos preocupar em agradar aos homens (Gl 1.10). Ser examinado para o ministério é o primeiro ato entre muitos no ministério onde um homem enfrenta o conflito entre falar o que a sua consciência crê pela Palavra de Deus, ou dizer aos examinadores o que acha que eles desejam ouvir. A maneira como você encara os seus exames, geralmente, indica como você exercerá o seu ministério. Você deve, em espírito de oração, portar-se em seu exame de uma maneira que seja digna do ofício para o qual deseja entrar. Isso significa que você estará preparado para confessar a sua fé em Cristo e seu desejo de obedecê-lo com humildade, submissão e sinceridade, mas com ousadia.

Um exame ministerial é, acima de tudo, um teste do coração. Os seus examinadores podem discernir o que você lhes apresenta externamente, mas somente você pode sondar o seu coração e realizar seu exame como um ato de adoração ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Em todas as suas laboriosas preparações para o ministério, assegure-se de guardar o seu coração diligentemente, pois são as fontes da vida (Pv 4.23). Pela bênção do Deus trino as considerações a seguir o ajudarão abordar ao seu exame como um ato de piedade.

1. Considere o seu exame como um testemunho público ao Senhor Jesus Cristo e às verdades da sua Palavra. Você deve através dele confessar com a sua boca o que crê em seu coração (Rm 10.9). Isso deve tornar seu exame um ato de adoração. Isso é verdade sempre que você fala em nome do Senhor Jesus Cristo. Se o confessar diante dos homens, então ele o confessará diante de seu Pai que está no céu, mas se você o negar diante dos homens, então ele o negará diante de seu Pai no céu (Mt 10.32-33). Se você está confiante de que Cristo está satisfeito com suas respostas, então o presbitério também estará.

2. Submeta-se ao seu exame em oração e fé. O texto de Fp 4.6–7 afirma: “Não andeis ansiosos de cousa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.”[2] Houve momentos em meu ministério em que orei fervorosamente por essa passagem diariamente a fim de perseverar. Este texto fornece os meios bíblicos para lidar com a ansiedade na qualidade de uma ordenança e uma promessa. Orem através de todos os seus preparativos para assegurar que seus estudos sejam conduzidos ao seu coração e vida pela obra do Espírito Santo, e não negligenciem a gratidão! Quando damos graças ao Senhor por meio das e durante as circunstâncias que nos tentam para a ansiedade, então colocamos a nossa confiança nele e confessamos a sua soberana sabedoria.

3. Avalie a causa dos seus temores. Frequentemente, precisamos refletir acerca dos nossos medos. Por que tememos um exame mais do que o fato de que podemos potencialmente fracassar no ministério, além das demais consequências desse fracasso? Isso destaca um grande perigo no ministério. Uma vez que você foi ordenado e o medo de passar ou reprovar num exame seja removido, a tentação de se tornar negligente no ofício que você recebeu de Cristo se torna mais forte. Se você negligenciar o seu conhecimento da Palavra de Deus e deixar de crescer em seu estudo de teologia, então você não “falhará” num exame, mas você deve responder a Cristo pelas magras ovelhas enfraquecidas que estão sob seus cuidados, que são incapazes de enfrentar os ataques do maligno. O medo antes de um exame é “natural”, mas lembre-se: “Quem teme ao homem arma ciladas, mas o que confia no SENHOR está seguro” (Pv 29.25). “O Senhor é meu auxílio, não temerei; o que o homem pode fazer comigo?” (Hb 13.6; Sl 118.6). O Senhor advertiu Isaías que é audácia contra Deus um dos seus mensageiros temer aos homens: “Eu sou eu mesmo aquele vos consola. Quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal, ou o filho do homem, que não passa de erva” (Is 51.12).

4. Seja honesto e preserve uma consciência limpa diante de Deus e dos homens. Se você não sabe a resposta para uma pergunta, então seja honesto e diga-o. Você realmente gostaria de ficar diante de uma congregação e dizer: “assim diz o Senhor”, quando não tem certeza se ele realmente disse isso, ou não? Se assim for, então por que você desejaria fazê-lo diante de homens ordenados que estão examinando-o para o ministério? Além disso, dar uma resposta quando se está incerto ou inseguro quase sempre lhe causará problemas - especialmente num exame oral.

5. Lembre-se que o ministério é ousado. Alguns candidatos ao ministério objetam que eles não saem tão bem em exames orais como em testes escritos. Se for esse o caso, então o seu exame oral será ainda mais proveitoso para ajudar a preparar-se para o ministério. A maior parte do trabalho público de um ministro na igreja local é verbal e não escrito. Se você pretende falar em nome de Cristo no púlpito, então é bom que você aprenda a falar sem se envergonhar diante de um presbitério, ou diante duma comissão de exame. Embora muitas vezes intimidante, um presbitério (ou comissão de ordenação similar) é um ambiente relativamente amigável, enquanto que um mundo incrédulo e, às vezes, uma congregação, não o é. Imitemos os apóstolos orando por ousadia (At 4.29; Fp 1.19-20).

6. Lembre-se de que aqueles que estarão examinando você para o ministério, receberam uma incumbência sagrada do Senhor. Eles são mordomos dos mistérios de Deus (1Co 4.1). Quando eles admitem alguém em seu número através da imposição de mãos (1Tm 4.14, etc), devem ser cuidadosos para que não imponham as mãos sobre qualquer um apressadamente, para que não compartilhem dos pecados daqueles que provam serem desqualificados para o ofício (1Tm 5.22).[3] Seja humilde e respeite o encargo solene que recaiu sobre tais homens e que, se o Senhor quiser, você um dia compartilhará com eles. Seria do seu agrado que os seus examinadores ordenassem você ao ministério de maneira descuidada ou errada, por mais que eles pudessem desejar isso?

7. Olhe para o exame minucioso de ordenação como uma confirmação do seu chamado ao ministério. Lembre-se de que o Deus trino usa a sua Igreja para separar os homens para o ministério evangélico. Quando um homem tem um senso pessoal de chamado para o ofício da Igreja, e este chamado é confirmado tanto pela eleição de uma congregação local, como por um grupo de presbíteros previamente ordenados, então, e somente então, aquele homem saberá com confiança que o Espírito Santo fez dele um supervisor (At 20.28). O seu motivo para o ministério deve ser o amor ao Deus que primeiro o amou em Cristo (1Jo 4.19). O seu objetivo no ministério deve ser proclamar o amor do Pai, como é manifesto através da graça de Jesus Cristo, por meio da comunhão e consolo do Espírito Santo (Ef 2.18; 2Co 13.14). No entanto, o seu chamado para o ministério nunca será um desejo interno ou uma mera decisão individual. Facilmente nos enganamos. Os homens podem ter um invencível “senso de chamado” para o ministério em seus corações, mas a menos que a Igreja concorde que este é o caso, tanto no nível local, quanto no presbitério, a verdade é que tais homens não foram realmente "chamados" para o ministério. A simples razão para isto é que a Igreja ainda não lhe deu um chamado para trabalhar como um de seus ministros! Conheço homens que creem que são chamados para o ministério e, no entanto, praticamente ninguém na Igreja parece concordar com eles. Que você nunca se esqueça: "O que confia no seu próprio coração é insensato" (Pv 28.26). O seu exame não é formal nem supérfluo. Não há exemplo de um oficial ordinário no Novo Testamento que não foi eleito pelo povo e ordenado pela imposição das mãos de um presbitério. Um chamado para o ministério é sempre um assunto da Igreja. Se Cristo está chamando você para o ministério, então seu exame é parte de como ele está fazendo isso.

8. Lembre-se de que os seus examinadores são, em potencial, seus futuros colegas no ministério. Se eles foram devidamente chamados ao seu ofício, então o desejo deles é o bem da Igreja. Isso inclui o bem da sua alma. Você deve evitar ver esses homens como “inimigos”, mas olhe para eles como soldados companheiros no Senhor Jesus Cristo. Alguns deles são experientes veteranos de quem você muito tem a aprender. Quantas vezes os rapazes zombaram das críticas que descobriram mais tarde serem “palavras de sabedoria e instrução” (Pv 1.2)?

9. Considere que o exame de ordenação como um excelente exercício de autonegação. Quer você seja aprovado ou fracasse, o Senhor atua tanto em você quanto na Igreja por meio desse processo. Submeta-se à sua providência humildemente e, se for possível, com alegria. Um bom teste para saber se estamos nos negando é considerar se nos encontramos reclamando do processo. Alunos de teologia que se queixam de uma carga horária pesada, tornam-se candidatos que se queixam dos seus exames. Candidatos que se queixam dos seus exames, por sua vez, tornam-se ministros que se queixam das suas igrejas e presbíteros. Ministros fiéis e trabalhadores percebem rapidamente que o curso mais rigoroso de treinamento no seminário não pode ser comparado às dificuldades do pastorado. Se você se encontrar desenvolvendo um padrão pecaminoso nesta área, então negue-se, ore para que esteja contente em toda e qualquer situação em que você estiver (Fp 4.11), leia Nm 11 e continue regularmente!

10. Preparar-se para que o seu exame forneça uma base mais forte para o conhecimento bíblico e a piedade pessoal. Devemos evitar fazer uma distinção nítida entre conhecimento e piedade. Precisamos saber o que praticamos e devemos praticar o que sabemos. A verdade, como é revelada nas Escrituras, é de acordo com a piedade (Tt 1.1). Toda verdade da Escritura, incluindo - entre muitas outras - as duas naturezas de Cristo, o pacto das obras, a eficácia dos sacramentos, a lei de Deus e a Trindade, são ridicularizadas como "sutilezas" teológicas. Todavia, cada uma destas áreas tem implicações pastorais significativas. Se não vemos como a verdadeira teologia é “proveitosa para a doutrina, para a repreensão, para a correção, para a instrução na justiça” (2Tm 3.16), então, a culpa invariavelmente está mais em nós do que na Palavra do Deus trino. Pois, toda verdade teológica deve aumentar nossa comunhão pessoal com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para passar num exame da OAB, um futuro advogado deve conhecer as leis e como aplicá-las. Os mesmos padrões se aplicam à medicina e a outras disciplinas. Deveríamos esperar menos diligência e menor rigor em relação aos futuros ministros do evangelho? Estudar para um exame, frequentemente, força os homens a se unirem de forma mais abrangente do que aprenderam no seminário. Os candidatos devem usar essa rara oportunidade para orar essas verdades de maneira mais completa em seus corações e vidas. Preparar-se para o seu exame obriga-os a rever o seu conhecimento, mas deixe-o servir como uma ocasião para casar o seu conhecimento com a sua piedade. Se você buscar o seu exame para o ministério como um ato de piedade, então você nunca achará a experiência estéril ou infrutífera.


Apêndice: John Erskine (1721–1803)
Sobre a importância do exame de ordenação


Em 1750, John Erskine pregou um sermão intitulado “Sobre as Qualificações Necessárias para os Professores do Cristianismo”. Erskine foi um influente ministro escocês que ajudou a preparar para a publicação o livro A História da Obra da Redenção de Jonathan Edwards. Ele concluiu este sermão com uma exortação aos presbitérios sobre o seu envolvimento na ordenação de homens para o ministério do Evangelho. O material de Erskine reforça o que está escrito acima, observando os exames ministeriais do ponto de vista do corpo examinador. Dividi os enormes parágrafos originais em partes menores para facilitar a leitura.[4]

Quão terrível é a advertência de Paulo a Timóteo a todos os que estão preocupados em ordenar alguém ao ofício pastoral! Não imponha as mãos apressadamente sobre ninguém, nem participe dos pecados de outros homens: mantenha-se puro. Como se ele tivesse dito, embora você não tenha nenhuma razão particular para suspeitar da desqualificação de um candidato para o ministério, não seja por isso que avaliará de modo leviano e superficial as qualificações dele, mas examine, com o máximo cuidado e exatidão o seu caráter moral e aptidão para ensinar; pois, por indolência e descuido você deixará de fazer essas questionamentos, por meio dos quais poderia descobrir o que está errado; ou se, através de uma ternura excessiva pelos candidatos, através de temor de homens, que em si é uma armadilha, ou através de algum outro motivo indigno, você até agora for conivente com seus vícios ou defeitos conhecidos, de modo a conceder-lhe a ordenação, por essa conduta, você participa com ele, não apenas nos pecados que ele cometeu, mas também naqueles que posteriormente cometerá, enquanto ensina ou vive malignamente; e, portanto, você responderá por todas as consequências perniciosas da sua ordenação, arruinando a sua própria alma e as almas do seu rebanho. Caso outros ministros sejam imprudentemente precipitados neste assunto, e exortem-no a concordar com eles, não retroceda com o pedido ou autoridade deles, proceda contrário ao próprio julgamento, para que você não seja condenado com a culpa deles.

No verso que antecede essa advertência, os ministros são cobrados a não preferirem um antes do outro, e a nada fazerem por parcialidade, ou seja, não decidirem uma causa a favor ou contra uma pessoa, até ouvirem o que pode ser declarado de ambos os lados; não preferirem um antes do outro, onde não parece haver razão suficiente para tal preferência; e não serem influenciados pela amizade ou preconceito, sendo favorável a um e mais severo com outro do que deveríamos ser. E, no final do capítulo, encorajando essa diligência, o apóstolo nos informa que, se prosseguirmos com a devida deliberação, não perderemos nosso esforço, mas, ordinariamente poderemos formar um juízo sobre os candidatos. Os pecados de alguns homens são antecipadamente revelados, indo adiante deles para julgamento; no entanto, há alguns homens que seus pecados só se manifestam depois. Da mesma forma, também, as boas obras de alguns são manifestas de antemão; e, por exemplo as suas boas obras, que de outro modo, não podem ser escondidas. O significado é que os pecados de alguns homens são tão hediondos e notórios que antecedem o julgamento, pouco ou nenhum discernimento é necessário para descobri-los. E os pecados de outros os seguem para o julgamento; porque, embora menos notados, eles também podem, na maioria dos casos, pela devida investigação, serem trazidos à luz. Da mesma forma, as boas obras de alguns, e sua aptidão para a ordenação, são facilmente discernidas, mesmo antes de passarem por um julgamento formal; e aquelas boas obras que não são manifestas de antemão, mas que, pela modéstia ou pela obscura situação de quem as pratica, são pouco observadas, podendo muitas vezes, por uma busca diligente serem descobertas.

Desta notável passagem ... Grotius observa, que não devemos apenas perguntar se um candidato à ordenação é inocente de crimes atrozes, mas se a sua conduta é muito boa, vendo que as ações piedosas do eminente piedoso, raramente, são escondidas. E, de acordo com isso, Paulo exige, não apenas que um bispo seja irrepreensível, mas que tenha um bom testemunho dos de fora, para que ele não caia no opróbrio; de modo que o livramento de escândalos grosseiros, sem evidências positivas de uma disposição piedosa, não é garantia suficiente para que ordenemos alguém. É criminoso impor as mãos sobre um candidato, se não tivermos base positiva para esperar que ele pregue com proveito; e é igualmente criminoso fazê-lo, se não tivermos base positiva para esperar que seja um exemplo para os outros em palavra, conversação, caridade, espírito, fé e em pureza; pois a última qualificação é realmente uma parte do dever do ministro, e realmente um meio de ser usado para salvar almas, como o primeiro. As coisas, diz Paulo a Timóteo, de que ouviste de mim entre muitas testemunhas, o mesmo comprometa-se com os homens fiéis, que também ensinarão aos outros. Devemos ter provas verificáveis de sua fidelidade, bem como da sua capacidade de ensinar. Até mesmo os diáconos são primeiramente provados e somente depois, autorizados a ocuparem o ofício de diácono. É óbvio, então, que os ministros, cujo ofício é muito mais honroso e importante, não sejam autorizados a exercê-lo, até que a sua aptidão para isso seja devidamente provada.

Se alguém alegar que não haveria um número suficiente de ministros para todas as nossas igrejas, caso ordenássemos com tamanha cautela, eu respondo, é melhor arriscar nesse inconveniente do que quebrar uma lei expressa de Cristo, fazendo-nos menos exigentes na ordenação. Vamos nos importar com nosso dever e deixar os eventos para a providência. A rigidez nas admissões pode, de fato, desencorajar os que preferem morrer de fome ou envenenamento, do que alimentar as almas de seus rebanhos. Mas desencorajar tal coisa é altamente louvável: e um pequeno número de pastores capazes e fiéis, é mais desejável que uma multidão de inexperientes, ignorantes, noviços iletrados, incapazes de explicar ou defender a religião de Jesus; ou de educados que se apostatam do evangelho para a filosofia, que consideram o seu tempo mais útil e agradavelmente gasto no estudo de livros de ciência, do que em estudar as suas Bíblias; ou de mercenários contratados, de uma disposição tão mesquinha e sórdida quanto aquele que, conforme lemos em 1Sm 2.36, se subordinou para ser um sumo-sacerdote por um pedaço de prata e uma porção de pão, dizendo: “Põe-me, peço-te, como um dos ofícios dos sacerdotes, para que eu coma um pedaço de pão”.

Que Deus, em sua misericórdia, impeça que homens tão baixos e infelizes entrem na função sagrada! Que um ministério fiel, capaz e bem-sucedido seja a bênção da nossa terra! Que o glorioso cabeça da Igreja designe todas as moradas do monte Sião, e todas as suas igrejas, pastores segundo o seu próprio coração, para alimentar o seu povo com conhecimento e entendimento! E que ele, cujas palavras são operantes, diga à toda nossa igreja, e em particular a esta região: “Este é meu descanso para sempre; aqui habitarei; porque eu desejei isto. Abençoarei abundantemente a sua provisão; satisfarei com pão aos seus pobres. Também vestirei os seus sacerdotes com justiça, e os seus santos gritarão de alegria. Eu ordenei uma lâmpada para o meu ungido. Revestirei com vergonha os seus inimigos; mas sobre si a sua coroa florescerá.”

NOTAS:
[1] Ryan M. McGraw é um ministro da Presbyterian Church in America, em Conway, Carolina do Sul. Ele é graduado no Greenville Presbyterian Theological Seminary e na Universidade do Estado Livre, Bloemfontein, África do Sul. Este artigo foi originalmente publicado na revista Servo Ordenado Online, em Fevereiro de 2012. http://opc.org/os.html?article_id=294&issue_id=72 .
[2] As citações bíblicas são Almeida Revista e Atualizada. O Dr Ryan usou a New King James Version.
[3] Veja o “Apêndice” abaixo.
[4] Retirado de John Brown (de Edimburgo), ed., The Christian Pastor’s Manual: A Selection of Tracts on the Duties, Difficulties, and Encouragements of the Christian Ministry (orig. pub., Edinburgh, 1826, reprint, Ligonier, PA: Soli Deo Gloria Publications, 1991), 136–140. Infelizmente este excelente volume está esgotado. No entanto, pode ser baixado na íntegra de http://www.archive.org/details/christianpastor00brow .

29 julho 2019

Estudos da história e teologia do movimento Anabatista no século XVI

O estudo do movimento Anabatista no século XVI ainda é uma aérea de pesquisa pouco explorada no Brasil. O que existe são alguns capítulos de livros de História da Igreja ou História da Teologia. Infelizmente a pesquisa ad fontes é menos favorecida ainda. Listo abaixo uma bibliografia básica para quem se interessa nos estudos da história e teologia anabatista do século XVI.


1. Anthony Arthur, The Tailor-King The Rise and Fall of the Anabaptist Kingdom of Münster (New York, St. Martin’s Press, 2011).

2. C. Arnold Snyder & Linda A. Huebert Hecht, eds., Profiles of Anabaptist Women Sixteenth-Century Reforming Pioneers (Waterloo, Wilfrid Laurier University Press, 1996).

3. E. J. Furcha, ed., The Essential Carlstadt - Fifteen tracts by Andreas Bodenstein [Carlstadt] from Karlstadt (Waterloo, Herald Press, 1995).

4. Gary K. Waite, ed., David Joris and Dutch Anabaptism 1524-1543 (Waterloo, Wilfrid Laurier University Press, 1990).

5. Gary K. Waite, Eradicating the Devil’s Minions: Anabaptists and Witches in Reformation Europe, 1525–1600 (Toronto, University of Toronto Press, 2007).

6. George H. Williams, ed., Spiritual and Anabaptist Writers (Louisville, Published by Westminster John Knox Press, 2006).

7. J.C. Wenger, ed., The Complete Works of Menno Simons, c. 1496-1561 (Scottdale, Herald Press, 1986).

8. John D. Roth & James M. Stayer, eds., A Companion to Anabaptism and Spiritualism, 1521-1700 (Leiden, Koninklijke Brill NV, 2007).

9. John J. Friesen, ed., Peter Riedemann's Hutterite Confession of Faith (Waterloo, Herald Press, 1998).

10. John S. Oyer, Lutheran Reformers Against Anabaptists - Luther, Melanchthon and Menius and the Anabaptists of Central Germany (The Hague, Martinus Nijhoff, 1964).

11. Kat Hill, Baptism, Brotherhood, and Belief in Reformation Germany Anabaptism and Lutheranism, 1525–1585 (Oxford, Oxford University Press, 2015).

12. Marc Lienhard, ed., The Origins and Characteristics of Anabaptism / Les Debuts et les Caracteristiques de L'anabaptisme (The Hague, Martinus Nijhoff, 1977).

13. Peter Riedemann, Love is Like Fire – The Confession of na Anabaptist Prisoner (Robertsbridge, The Brudenhof Foundation, Inc., 2002).

14. William R. McGrath, Los anabaptistas (Farmington, Publicadora Lámpara y Luz, 2004).

15. Tom Scott, Thomas Müntzer - Theology and Revolution in the German Reformation (Nre York, St. Martin's Press, 1989).


P.S.* detenho todas essas obras.

26 maio 2019

As Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra

por Philip Schaff[1]


Comparar com §83 (p. 352 ss) e §86 (p. 367 ss).[2] Calvino discute o ofício ministerial no capítulo três do quarto livro das suas Institutas.

Após considerar os princípios gerais de Calvino sobre o governo da Igreja, analisaremos a sua introdução e aplicação na pequena República de Genebra.

Vimos que em sua primeira entrevista com os Síndicos e o Conselho após seu retorno, em 13 de setembro de 1541, ele insistiu na introdução de uma constituição e disciplina eclesiásticas de acordo com a Palavra de Deus e a Igreja primitiva.[3] O Conselho cumpriu seu desejo, e confiou o trabalho aos cinco pastores (Calvino, Viret, Jacques Bernardo, Henrique de Ia Mare e Aymé Champereau) e seis conselheiros (decididos Guillermins), a quem foi acrescentado Jean Balard como membro consultor. O documento foi preparado sob sua direção influente, submetido aos Conselhos, ligeiramente alterado e, solenemente, ratificado por uma assembleia geral de cidadãos (o Conseil général), em 2 de Janeiro de 1542, como a lei fundamental da Igreja da República de Genebra.[4] As suas características essenciais passaram para a constituição e disciplina da maioria das igrejas reformadas e presbiterianas da Europa e da América.

O texto oficial das “Ordenanças” está preservado nos Registros da venerável Companhia” e inicia com a seguinte introdução:

Em nome do Deus Todo-Poderoso, nós, os Síndicos, do Pequeno e Grande Conselho, com o nosso povo reunido ao som da trombeta e do grande sino, de acordo com os nossos costumes antigos, consideramos que o assunto acima de todos os outros dignos de recomendação, sendo para preservar a doutrina do santo evangelho de nosso Senhor em sua pureza, proteger a Igreja Cristã, instruir fielmente os jovens e prover um hospital para o apoio apropriado dos pobres - tudo isso não pode ser feito sem um definitivo ordem e regra de vida, da qual todos o estado é instruído no dever de seu ofício. Por esta razão nós consideramos sábio reduzir o governo espiritual, como nosso Senhor nos mostrou e instituiu por sua Palavra, para uma boa forma de ser introduzido e observado entre nós, por isso ordenamos e estabelecemos a seguir e guardar em nossa cidade e território a seguinte política eclesiástica, tirada do evangelho de Jesus Cristo.[5]

O documento é inspirado por uma alta visão da dignidade e responsabilidade do ministério do evangelho, tal como encontramos nas Epístolas de Paulo aos Coríntios e Efésios. “Pode ser afirmado com confiança,” diz um historiador católico,[6] “que em nenhuma sociedade religiosa da Europa cristã o clero recebeu uma posição tão digna, proeminente e influente como na Igreja que Calvino construiu em Genebra.”

Calvino distingue em suas Institutas três ofícios extraordinários da Igreja - apóstolos, profetas, e evangelistas, - e quatro ofícios ordinários - pastores (bispos), mestres, presbíteros (leigos) e diáconos.[7]

Os oficiais extraordinários foram chamados pelo Senhor no começo de seu reino e são levantados em ocasiões especiais quando requeridos “pela necessidade dos tempos”. Os reformadores devem ser considerados como uma classe secundária de apóstolos, profetas e evangelistas. O próprio Calvino sugere o paralelo quando diz:[8] “Não nego que, desde aquele período [dos apóstolos], Deus tenha levantado apóstolos ou evangelistas em seu lugar, como fez em nosso próprio tempo. Pois havia uma necessidade para que essas pessoas recuperem a Igreja da deserção do Anticristo, no entanto, eu chamo isso de um ofício extraordinário, porque não tem lugar em igrejas bem constituídas.”[9]

Os ofícios extraordinários não podem ser regulados por uma lei. As Ordenanças, todavia, concedem direcionamento somente para os ofícios ordinários da Igreja.

1. Os pastores,[10] ou ministros do evangelho, como Calvino gostava de chama-los, teriam que “pregar a Palavra de Deus, instruir, admoestar, exortar e reprovar em público e privado, administrar os sacramentos, e, reunir com os presbíteros, exercer disciplina.”[11] Ninguém poderia ser um pastor que não fosse chamado, examinado, ordenado ou instalado. No exame, o candidato deveria dar evidências satisfatórias do seu conhecimento das Escrituras, sua solidez na doutrina, pureza de motivos e integridade de caráter. Se ele se mostrasse digno do cargo, ele receberia um testemunho do Conselho para que fosse apresentado à congregação. Se ele falhasse no exame, ele aguardaria outra ligação e se submeteria a outro exame. O melhor modo da instalação era pela oração e imposição das mãos, de acordo com a prática dos Apóstolos e da Igreja primitiva; mas seria feito sem superstição.

Todos os ministros deveriam realizar conferências semanais para instrução mútua, edificação, correção e encorajamento em seus deveres oficiais. Ninguém deve se ausentar sem uma boa desculpa. Este dever recai, também, sobre os pastores dos distritos do território. Se surgem controvérsias doutrinárias, os ministros as resolveriam por meio de debates; e se eles não conseguissem chegar a uma concordância, o assunto seria encaminhado para o Magistrado.

A disciplina seria estritamente exercida sobre os ministros, e eram especificados vários pecados e vícios que não seriam tolerados entre eles, como heresia, cisma, rebelião contra ordem eclesiástica, blasfêmia, impureza, falsidade, perjúrio, usura, avareza, danças, negligência no estudo das Escrituras.

As Ordenanças prescreviam para o Domingo um culto pela manhã, o Catecismo - isto é, a instrução das criancinhas - ao meio-dia, e um segundo sermão à tarde, às três horas. Três sermões devem ser pregados durante a semana - segunda, terça e sexta-feira. Para estes serviços eram necessários, na cidade, cinco ministros regulares e três ministros assistentes.

Calvino descreve, nas Institutas, o ofício de pastores como sendo o mesmo dos apóstolos, exceto na extensão do seu campo e autoridade. Eles são todos embaixadores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus (1Co 4.1). O que Paulo diz de si, se aplica a todos eles: "Ai de mim se não pregar o evangelho" (1Co 9.16).

2. O ofício dos Mestres[12] é para instruir os crentes na sã doutrina, de modo que a pureza do evangelho não seja corrompida pela ignorância ou falsas opiniões. Calvino derivou a distinção entre mestres e pastores de Ef. 4.11, e declara que a diferença consiste nisto, “que os mestres não têm nenhuma preocupação oficial com a disciplina, nem a administração dos Sacramentos, nem admoestações e exortações, mas somente com a interpretação da Escritura; considerando que o ofício pastoral inclui todos esses deveres.”[13] Ele também diz que os mestres mantêm a mesma semelhança com os antigos profetas que os pastores aos apóstolos. Ele mesmo tinha o dom profético de ensino de iluminar e convencer num raro grau. Mestres teológicos ocupam o mais alto nível entre os mestres.

3. Os presbíteros ou presbíteros leigos zelam pela boa conduta do povo. Eles são homens tementes a Deus e sábios, sem e acima de qualquer suspeita. Doze seriam escolhidos - dois do Pequeno Conselho, quatro do Conselho dos Sessenta e seis do Conselho dos Duzentos. Cada um deveria ser designado para um distrito especial da cidade. Este é um ofício muito importante nas igrejas presbiterianas. Nas Institutas, Calvino cita em seu apoio os dons do governo.[14] “Desde o começo”, ele diz,[15] “toda Igreja teve seu senado ou conselho, composto de homens piedosos, íntegros e santos, que foram investidos com essa jurisdição na correção dos vícios ... Esse ofício de governo é necessário em cada era.” Ele faz uma distinção entre duas classes de presbíteros - os presbíteros regentes e presbíteros docentes - com base em 1Tm 5.17: “os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dupla honra, especialmente os que trabalham na palavra e no ensino.” O fundamento exegético para tal distinção é fraco, mas a posição de presbíteros leigos provou ser uma instituição muito útil e grande ajuda para o ministério de ensino.

4. Os diáconos deveriam cuidar dos pobres e doentes, e dos hospitais. Eles precisam prevenir a mendicância que era contrária à boa ordem.[16] Duas classes de diáconos eram distintas, aqueles que administravam as coletas, e aqueles que se dedicavam aos pobres e doentes.[17]

5. O batismo era realizado na igreja, e somente pelos ministros e seus assistentes. Os nomes das crianças e seus pais deveriam entrar nos registros da Igreja.

6. A Ceia do Senhor era administrado a cada mês em uma das igrejas, e também na Páscoa, Pentecostes e Natal. Os elementos deveriam ser distribuídos reverentemente pelos ministros e diáconos. Ninguém seria admitido sem antes receber a instrução no Catecismo e realizar a sua profissão de fé.

O restante das Ordenanças contém regulamentações acerca do casamento, sepultamento, a visitação aos doentes e prisioneiros.

Os ministros e presbíteros se reuniam semanalmente na Quinta-feira, para discutirem juntos a situação da igreja e exercer a disciplina. O objetivo da disciplina era conduzir o pecador de volta ao Senhor.[18]

As Ordenanças Eclesiásticas de 1541 foram revisadas e ampliada por Calvino, e adotada pelo Pequeno e Grande Conselho em 13 de Novembro de 1561. Esta edição também contém os votos de subscrição dos ministros, pastores, mestres, presbíteros, diáconos e os membros do Consistório, e as orientações mais completas acerca da administração dos Sacramentos, casamento, a visitação dos enfermos e prisioneiros, a eleição dos membros do Consistório e sobre a excomunhão.[19]

A nova revisão das Ordenanças foi realizada e adotada pelo Conselho Geral em 3 de Junho de 1576.


NOTAS:
[1] Philip Schaff, History of the Christian Church - The Swiss Reformation, Vol. 8, pp. 475-480.
[2] Schaff faz referência a paginação desta obra.
[3] Ele escreveu à Farel em 16 de Setembro de 1541 (em Opera, XI. 281; Herminjard, VII. 249): “Exposui (Senatui), non posse consistere ecclesiam, nisi certum regimen constitueretur, quale ex Verbo Dei nobis praescriptum est, et in veteri Ecclesia fuit observatum.”
[4] Veja acima, p. 440.
[5] O texto francês está em Opera, X. p.16. nota a.
[6] Kampschulte I. p.396.
[7] Nas “Ordenanças” eles são chamados de Pasteurs, Docteurs, Anciens, Diacres.
[8] Institutas IV.III.4.
[9] Isto confirma a concepção que tenho do chamado extraordinário de Calvino (§ 73, pp. 313 ss). Nesta Carta à Sadoleto ele expressa a sua firme convicção de que o seu ministério procedia de Deus. (Veja § 91, pp. 398 ss) Lutero possuía a mesma convicção acerca de sua própria missão. Sobre o seu retorno de Wartburg para Wittenberg, ele escreveu ao Príncipe Eleitor Frederico da Saxônia que ele tinha o seu evangelho não de homens, mas do céu, e que ele era um evangelista de Cristo.
[10] ποιμένες, pastores, Ef 4.11. Eles são o mesmo que bispos e presbíteros. “Em chamar aqueles que presidem sobre a Igreja pelos nomes de ‘bispos’, ‘presbíteros’ e ‘pastores’, sem qualquer distinção, sigo o uso da Escritura.” Institutas IV.III.8. Então, ele cita Fp 1.1; Tt 1.5, 7; At 20.17, 28. Veja acima, p. 469.
[11] "Faire les corrections fraternelles."
[12] διδάσκαλοι, doutores, Ef 4.11.
[13] Institutas IV.III.4.
[14] κυβερνήσεις, 1Co 12.28; compare com Rm 12.8.
[15] Institutas IV.III.8.
[16] At 6.1-3; Fp 1.1; 1Tm 3.8 ss; 5.9-10.
[17] Compare com as Institutas IV.III.9.
[18] "Les corrections ne soient sinon medicines pour reduyre les pecheurs a nostre Seigneur."
[19] Opera, X. Pars I. pp. 91-124.

Para acesso das Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra veja AQUI. O texto também está disponível em E. Pfisterer, Übersetzung der Genfer Kirchenordnungen aus der Zeit Calvins (Neukirchen, Kr. Moers, 1937); e, G. Anrich: Straßburg und die Calvinische Kirchenverfassung (Universität Tübingen 25, 1928). Para acesso do fac-símile acesse AQUI. Também há uma edição fac-símile, disponível na internet da edição de 1561 nos arquivos da Bibliothèque de Genève. Jean Calvin, Les Ordonnances ecclesiastiques de l'Eglise de Geneve. Item, l'ordre des escoles de ladite cité (Geneva, Avec Privilege pour Artus Chawin, 1561), pp. 1-55.

Estou preparando um livro sob o título de "A influência de João Calvino na formação da Companhia de Pastores da Igreja de Genebra". Nele estará vários documentos preparados por Calvino para o direcionamento do trabalho pastoral, inclusive as Ordenanças Eclesiásticas, tanto na edição original de 1541, como a revisada de 1561.

25 maio 2019

A venerável Companhia e o Consistório da Igreja de Genebra [1541-1564]

por Philip Schaff[1]


A Igreja de Genebra consistia de todos os cristãos batizados e professos sujeitos à disciplina. Tinha, na época de Calvino, um credo uniforme; romanistas e adeptos de seitas eram excluídos. Foi representado e governado pela venerável Companhia e pelo Consistório.

1. A venerável Companhia era um corpo puramente clerical, consistindo de todos os pastores da cidade e do distrito de Genebra. Não possuía poder político. Foi confiada a supervisão geral de todos os assuntos estritamente eclesiásticos, especialmente a educação, qualificação, ordenação e instalação dos ministros do evangelho. Mas o consentimento do governo civil e da congregação era necessário para a indução final ao ministério. Assim, os pastores e as pessoas deveriam cooperar.

2. O Consistório ou Presbitério era um corpo misto de clérigos e leigos, e maior e mais influente que a venerável Companhia. Ela representou a união da igreja e do estado. Abrangeu, na época de Calvino, cinco pastores da cidade e doze Representantes ou Presbíteros, dois dos quais foram selecionados do Conselho dos Sessenta e dez do Conselho dos Duzentos. Os leigos, portanto, tinham a maioria; mas o elemento clerical era comparativamente fixo, enquanto os Presbíteros eram eleitos anualmente sob a influência do clero. Um síndico era o chefe constitucional.[2] Calvino nunca presidiu formalmente, mas governou o processo de fato, por sua inteligência superior e julgamento de persuasivo.[3]

O Consistório começou a sua atuação imediatamente após a adoção das Ordenanças Eclesiásticas e se reunia toda Quinta-feira. Os relatórios começaram a partir da décima reunião, realizada na quinta-feira, 16 de fevereiro de 1542.[4]

O dever do Consistório era a manutenção e a aplicação da disciplina eclesiástica. Cada casa deveria ser visitada anualmente por um Ministro e Presbítero. Para facilitar o funcionamento desse sistema, a cidade foi dividida em três paróquias: St. Pierre, a Madalena e St. Gervais. Calvin oficiou em Saint Pierre.

O Consistorial exercendo função de tribunal era o poder controlador da Igreja de Genebra. Muitas vezes, este concílio é deturpado como uma espécie de tribunal da Inquisição. Mas apenas poderia usar a espada espiritual, e não tinha nada a ver com punições civis e temporais, que pertenciam exclusivamente ao Concílio. Os nomes de Gruet, Bolsec e Serveto, nem aparecem em seus registros.[5]Calvino escreveu aos ministros de Zurique, em 26 de Novembro de 1553: “O Consistório não tem jurisdição civil, mas, apenas o direito de reprovar de acordo com a Palavra de Deus, e sua mais severa punição é a excomunhão”.[6] Ele sabiamente proveu a predominância do elemento leigo.

A princípio, o Conselho, seguindo o exemplo de Basileia e Berna, negou ao Consistório o direito de excomunhão.[7] As pessoas excluídas da Mesa do Senhor geralmente apelavam para o Conselho, que frequentemente intercedia em favor delas ou as orientava a fazer um pedido de desculpas ao Consistório. Houve também uma diferença de opinião quanto às consequências da excomunhão. O Consistório exigia que as pessoas excluídas da Igreja por ofensas graves e conduta escandalosa, fossem banidas do Estado por um ano, ou até que se arrependessem, mas o Conselho não concordou. Calvino nem sempre conseguia realizar a sua perspectiva, e agia de acordo com o princípio de tolerar o que não podia abolir.[8] Foi somente após sua vitória final contra os Libertinos, em 1555, que o Conselho concedeu ao Consistório o poder inconteste da excomunhão.[9]

A partir desses fatos, podemos julgar com que direito Calvino é, frequentemente, chamado de “o papa de Genebra”, principalmente por meio de reprovação.[10] No que diz respeito à descrição é verdade, é um tributo involuntário ao seu gênio e caráter. Pois ele não tinha apoio material e nunca usou a sua influência para obter benefícios ou interesses pessoais. Os genebrinos o conheciam bem e o obedeciam livremente.

NOTAS:
[1] Philip Schaff, History of the Christian Church - The Swiss Reformation, Vol. 8, pp. 480-484.
[2] A versão revisada de Eccles. Ordinances de 1561 prevê (Opera, X. P. I. 121) que um dos quatro Síndicos presida o Consistório com o apoio de polícia (avec son bâton), que significa jurisdição civil em vez de um regime espiritual “afin de mieux garder la distinction qui nous est monstrée en l’Escriture saincte entre le qlaive et authoritédu Magistrat, et la superintendence qui doit estre en Eglise.” Esta limitação de Calvino refuta a afirmação de Dyer (p. 142), de que "Calvino usurpava a perpétua presidência do Consistório” e que “ele desejava que Beza o sucedesse nesta presidência."
[3] “Mesmo que ele não fosse o presidente deste corpo, pode-se dizer que ele era a sua alma.” Merle d’Aubigné (VII. 120). Do mesmo modo Cramer, Roget e outros.
[4] Annal., XXI. 291, sub Février 16, 1542: “Dixième séance du Consistoire, première dont il existe un procès verbal, lequel mentionne entre autres la présence de Calvin et de Viret. Les autres ministres membres du C., sont Bernard, Henri, et Champeraux. Viret est mentionnépour la dernière fois le 18 juillet. Calvin assiste régulièrement aux séances pendant tout l’exercice 1542-43, exceptécinq fois.”
[5] A. Roget, l.c., p. 31: “Le Consistoire ne pouvait infliger aucune peine, et, chose remarquable, il n’avait aucune attribution doctrinale. L’ancien syndic Cramer, dans l’excellente préface qu’il a placée en tête des extraits des Registres du Consistoire, a fait observer que Gruet, Bolsec et Servet ne sant pas même nommés dans les documents qu’il a analysés; toutes les fois qu’un procès de doctrine est instruit, c’est le Conseil qui prononce, sur le préavis des pasteurs.”
[6] Opera, XIV. 675: "Nulla in Consistorio civilis jurisdictio, sed tantum reprehensiones ex Verbo Domini: ultima vero poena, excommunicatio."
[7] Em 19 de Março de 1543, o Conselho dos Sessenta resolveu que “que le Consistoire n’ait ni jurisdiction ni puissance de défendre la cène, sinon seulement d’admonester et puis faire relation en Conseil, afin que la Seigneurie avise de juger sur les délinquants suivant leur demerites.” Reg., citado por Roget, p. 37. Um mês antes o governo Berna categoricamente recusou o direito de excomunhão aos ministros de Lausanne. Ruchat, V. 211.
[8] “Tolero quod tollere non licet” como ele disse numa de suas cartas.
[9] Roget (p. 67): “Le point de vue soutenu par Calvin dans la question de la cène avait enfin triomphéirrévocablement et, dès 1555, nous trouvons le Consistoire en possession, d’une manière incontestée, du droit d’accorder ou de refuser la participation aux sacrements. Toutefois, le Conseil et les ministres ne sont pas complétement d’accord sur les consequences que doit entrainer l’excommunication.”
[10] Roget (p. 83 sq.) colecionou estas críticas exageradas de vários escritores franceses e refutou todos eles. Florimond de Raemond disse: "Calvin se rendit le maistre, l’évesque, le seigneur, disposant de la religion, de l’estat, de la ville, du gouvernement, de la police, comme bon luy sembloit." Duruy: "Calvin eut dès 1541 et exerça jusqu’àsa mort un pouvoir absolu. Il organisa le gouvernement de Genève au profit presque exclusif des ministres du culte réformé." Capefigue: "Calvin réunissait tons les fils du pouvoir suprême en sa personne." Paul Janet: "Calvin a étéle magistrat suprême d’une democratie." Rosseuw St. Hilaire: "Tout excès appelle une reaction en sens contraire, Calvin subordonne l’Etat àl’Eglise." Saisset: "L’Etat devenait une théocratie et les citoyens de Genève n’etaient plus que les sujets d’un petit nombre de ministres, sujets eux-mêmes de Calvin, lequel dominait les trois Conseils du sein du Consistoire et paraissait it la fois le roiet le pontifesouverain de la cite."

21 abril 2019

O problema teológico com a tal justiça social de Tim Keller

Por Jacob Brunton


A Igreja começou a abraçar amplamente a chamada justiça social, e muito disso é graças ao livro de Tim Keller, Generous Justice: How God’s Grace Makes Us Just.[1]

Certamente há muitas coisas boas no livro de Keller - a maior delas é o seu chamado para que a Igreja busque a justiça. No entanto, acho que Keller comete alguns erros graves quando se trata de identificar o que é a justiça, e como se deve buscá-la. Isso é mais óbvio em sua discussão sobre os aspectos econômicos da justiça social (às vezes chamada de “justiça econômica”).

O aspecto econômico da justiça social consiste tipicamente em algum tipo de apelo à igualdade econômica, onde o senso de justiça deduzido é o de aliviar as necessidades econômicas. Keller expressa essa visão dizendo: “se você não compartilha ativa e generosamente os seus recursos com os pobres, você é um ladrão. Você é injusto.” (p. 17)[2] Ele faz uma afirmação semelhante em seu artigo “The Gospel and the Poor” [O Evangelho e os Pobres], dizendo: “Falhar em compartilhar o que você tem não lhe faz alguém apenas desinteressado, mas desleal e injusto”. (pp. 19-20)


Justiça ou caridade?

No clima político atual, esse tipo de conversa pode cheirar a marxismo. Mas antes de assumir que Keller - e seus colegas defensores evangélicos da chamada justiça social - estão barganhando com noções marxistas, devemos considerar o que mais eles querem significar com esse tipo de linguagem. Uma das principais justificativas de Keller para usar a linguagem da “justiça” em vez de “caridade” quando se fala em doar aos pobres é que a palavra caridade “transmite uma atividade boa, mas opcional” (Generous Justice, p. 15); e dar aos pobres - aponta Keller - não é uma atividade opcional para o cristão.

É claro que Keller está certo de que dar aos pobres não é opcional para o cristão. Os cristãos são, de fato, ordenados a ajudar os pobres, a fim de apresentem uma imagem da graça de Deus. Mas esta é uma boa razão para se referir a esse ato como "justiça" e não como "caridade"? O mero fato de que algo é moralmente obrigatório é suficiente para mudar seu nome para “justiça”? Presumivelmente não. Há dezenas de coisas na vida cristã que não são opcionais (por exemplo, oração, comunhão, comunhão dos santos, etc.) e, ainda assim, seria absurdo mudar os nomes dessas atividades para “justiça” simplesmente porque eles são obrigatórios.

Existe uma categoria tradicional de justiça chamada justiça universal que, segundo Ronald Nash, “é coextensiva com toda a justiça, com toda a virtude” (Social Justice and the Christian Church, p. 30). Assim, pode-se dizer que a caridade é uma expressão da justiça universal, o que significa apenas que a caridade faz parte da vida moral do cristão. Nesse sentido, a falha do cristão em fazer o que é moralmente obrigatório (seja caridade, oração ou qualquer outra coisa) seria uma injustiça contra Deus. Mas está claro que Keller quer dizer mais do que isso ao se referir à ajuda aos pobres como "justiça".


A cada um de acordo com a sua necessidade

Ele não quer dizer apenas que a falta de caridade é uma injustiça contra Deus, no senso universal de justiça. Ele quer dizer que é uma injustiça contra os pobres. É por isso que ele chama de roubo. Nesta ideia de justiça, a medida em que alguém é pobre é a medida em que eles foram roubados por aqueles que não são pobres. A necessidade, e a obrigação de aliviá-la, é o padrão sugerido de justiça.

Acontece que essa ideia de justiça está enraizada em noções marxistas, afinal - como expresso nessa famosa máxima, “de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”. Você tem recursos de que outra pessoa precisa? Então essa visão de justiça exige que você dê até que as necessidades sejam atendidas. Se você não o fizer, então, você é um ladrão.

Admitido, Keller (pp. 29-31) - e muitos outros defensores evangélicos desta ideia de justiça (por exemplo, veja os artigos de Greg Forster)[3] e [4] - são rápidos em notar que eles não defendem, necessariamente, a ação do governo em distribuir esta justiça. Embora seja difícil entender por que não, se na verdade é "roubo". Mas podemos seguir em frente e aceitar a palavra deles, já que o envolvimento do governo não é, na verdade, o principal problema dessa visão. O principal problema são as implicações morais e teológicas de tal concepção marxista de justiça baseada na necessidade.


Deus - o ladrão cósmico ganancioso

Dê um passo atrás e pergunte-se o que significaria se aplicássemos essa ideia de justiça para Deus. "De cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com sua necessidade." Deus não é o ser mais capaz em todo o universo? E não somos infinitamente necessitados em relação a Ele? A justiça, então, parece exigir que Ele nos dê tudo o que precisamos.

Em vez disso, Ele faz exigências de nós. Ele ameaça nos punir se formos maus, e coloca condições em nos dar o céu de que precisamos. Mas somos carentes e, nessa visão de justiça, isso nos dá uma justa reivindicação contra ele. A medida em que Ele não alivia todas as nossas necessidades materiais e espirituais - sem condição - é o quanto ele está roubando de nós. Somos as pobres, inocentes e necessitadas vítimas, e Ele é o ladrão cósmico ganancioso, que se recusa a nos dar o que precisamos.

Não será necessário dizer que essa ideia de justiça baseada na necessidade só se aplica a nós e não a Deus. Toda a razão pela qual os cristãos presumivelmente devem dar aos pobres é pintar um quadro da graça - ou seja, dons imerecidos - do Deus no evangelho. Ao chamar a caridade de “justiça” e alegando que ela é merecida, a implicação é que a graça de Deus no evangelho é merecida. Portanto, não pode haver equívoco quando se discute a justiça de Deus e a justiça entre nós humanos sobre a questão de dar aos pobres.

O cristianismo ensina que Deus não nos deve nada. Essa assim chamada justiça social implica que Deus nos deve tudo. O Cristianismo ensina que Deus graciosamente nos dá bons dons imerecidos. A chamada justiça social ensina que não pode haver tal conceito como graça quando as necessidades estão em jogo; o que se merece é determinado pelas necessidades da pessoa. O Cristianismo ensina que seria injusto que Deus trouxesse pecadores para o céu e que a morte de seu Filho fosse necessária para torná-la justa (Romanos 3.23-25). A chamada justiça social implica que seria injusto para Deus não trazer pecadores para o céu, e que não havia necessidade da morte de seu Filho - a menos, é claro, que fosse pagar pelos pecados de Deus contra nós.

Considere o que isso significaria para a obra de Cristo na cruz. Cristo não estava realizando um ato indescritível de graça, deixando-nos sem palavras, humilhados e reverentes. Não. Ele estava pagando a dívida que nos devia pelo seu privilégio divino. Nós não lhe devemos graças. Ele nos deve graças por ter decidido perdoá-Lo - contanto que Ele produza fruto em consonância com o arrependimento, e não se exalte excessivamente novamente. Nós não chegamos à cruz, quebrantados e contritos de coração, para adorar. Viemos como pretensiosos solicitantes para julgar sobre Ele e para avaliar se seu sacrifício foi suficiente para aplacar a nossa causa justa contra Ele.
A única resposta cristã apropriada para isso é: para o inferno com tal blasfêmia. Para o inferno com o evangelho da chamada justiça social.


Redimindo o Evangelho que dá

É claro que os defensores cristãos da justiça social nunca diriam qualquer uma dessas coisas sobre Deus, Cristo ou o Evangelho. Mas isso não muda o fato de que o conceito deles de justiça exige que eles sejam verdadeiros. A chamada justiça econômica, entendida como devendo recursos aos necessitados, transforma o verdadeiro Deus da Bíblia - que enfaticamente afirma que não nos deve nada - a um monstro moral, e vira o evangelho de cabeça para baixo. Não há maneira de contornarmos isso.

Se não queremos mentir sobre a natureza e o caráter de Deus em nossa apresentação do Evangelho, então não devemos mentir sobre a doação. A cruz de Cristo não foi absolutamente um ato de justiça para nós. Ele não estava nos dando o era nosso direito. Cristo não nos devia nada. Deus não nos devia nada. Não, a cruz de Cristo foi uma realização da atordoante e imerecida graça. Considere o fato de que Ele deve ser recebido somente pela fé, sem obras - sem merecê-lo. Para receber o dom de Deus em Cristo, devemos recebê-lo como um dom - não como justiça. Do mesmo modo com o nosso anúncio.

Para retratar com precisão a bondade de Deus a nosso favor no evangelho, por meio de nosso anúncio, a única coisa que nunca devemos fazer é reivindicar que o recebedor do dom merece isso; que estamos cometendo um ato de justiça em favor deles em nosso anúncio. Por causa da integridade do evangelho, a proclamação do Evangelho nunca deve ser pensada como justiça. Não é justiça. É graça. É caridade.


NOTAS:
[1] Publicado no Brasil sob o título: Timothy Keller, Justiça generosa - a graça de Deus e a justiça social (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013). Nota do tradutor.
[2] Keller tenta justificar essa afirmação fazendo referência a Ezequiel 18: 5-8, onde “não comete nenhum roubo” é listado ao lado de “dá o seu pão aos famintos” em uma longa lista de descrições do homem justo. Mas não há nenhum argumento exegético claro para tomar o último como o meio de fazer o primeiro, como Keller o faz. Quando se considera que os problemas teológicos com a leitura de Keller são descritos abaixo, fica claro que se uma leitura alternativa estiver disponível (e eu acho que existe), então deve ser preferida.
[3] Aqui https://www.thegospelcoalition.org/article/why-jonathan-edwards-saw-economic-justice-as-gospel-concern/
[4] Aqui https://www.thegospelcoalition.org/article/how-should-we-talk-about-justice-and-the-gospel/

Jacob Brunton é Bacharel em Teologia pelo Bethlehem College & Seminary, em Minneapolis, MN. E também M.A. em Filosofia pelo Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort Worth, TX.

Fonte: https://christianintellectual.com/the-theological-problem-with-tim-kellers-so-called-social-justice/
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

15 abril 2019

As Ordenanças Eclesiásticas no século XVI

Por Robert M. Kingdon


Quando tornou-se claro que os primeiros protestantes não seriam capazes de realizar as reformas que desejavam dentro da estrutura da Igreja Católica Romana, eles começaram a criar novas instituições eclesiásticas. Para dar forma a essas instituições, eles redigiram novas leis ou decretos que, de fato, se tornaram constituições para as igrejas reformadas. Essas Ordenanças Eclesiásticas eram, normalmente, elaboradas inicialmente por um clérigo para uma cidade e depois adotadas, geralmente, com algumas revisões e emendas pelo governo da cidade. Muitas dessas Ordenanças foram, posteriormente, revisadas e ampliadas para cobrir áreas mais amplas, uma província inteira e até um reino. Talvez, o primeiro conjunto completo de Ordenanças Eclesiásticas foi elaborado para a cidade hanseática de Stralsund pelo teólogo luterano Johannes Aepinus (1499-1553) em 1525. Ele previa a seleção de clérigos cuja função primária seria pregar, proporcionando assim uma significativa ruptura com padres paroquiais católicos cuja função primordial era administrar os sacramentos. Previa que as escolas ensinassem habilidades básicas às crianças e a instrução das Escrituras, com provisão adicional de escolas latinas para que se preparasse os estudantes para profissões. Também previa o cuidado dos pobres através da criação de um cofre comunitário. O Conselho de Stralsund acrescentou a cláusula de que um dos pregadores teria o cargo geral de toda a instituição, tornando-se o seu superintendente.

Esse padrão foi, repetidas vezes, reproduzido pelos clérigos de toda a Europa. Houve alguns que se tornaram particularmente bem conhecidos pelas Ordenanças Eclesiásticas, que elaboraram e muitas vezes implementaram. Um deles foi Johannes Brenz (1499–1570), que elaborou uma Ordenança para a cidade de Hall e para o território circunvizinho em 1526, e depois se tornou um dos principais criadores e líderes de novas Ordenanças Eclesiásticas no principado de Württemberg. Outro foi Johannes Bugenhagen (1485-1558) que elaborou decretos para várias cidades importantes no norte da Alemanha, incluindo Braunschweig em 1528, Hamburgo em 1529 e Lübeck em 1531. Ele também ajudou a criar decretos para territórios mais amplos, incluindo a Pomerânia em 1535, a Dinamarca entre 1537 e 1539 e Schleswig-Holstein em 1542. As Ordenanças elaboradas por Bugenhagen seguiram o mesmo padrão básico que as de Aepinus e Brenz. Eles criaram um cargo modelo de superintendente e previam a seleção e supervisão da pregação do clero, o estabelecimento de escolas (tanto elementares quanto avançadas), e um cofre comum para financiar a igreja e ajudar aos pobres.

Eles também, no entanto, acrescentaram boas decisões. Bugenhagen começou a prática de acrescentar detalhes sobre os rituais que seriam praticados pelos clérigos que se tornariam uma característica cada vez mais importante das posteriores Ordenanças Eclesiásticas luteranas. Eles muitas vezes se tornaram manuais litúrgicos tanto quanto constituições, às vezes, até acrescentando todo um catecismo ou uma confissão de fé.

Um padrão significativamente diferente foi elaborado por João Calvino (1509-1564) para a cidade de Genebra em 1541. Diferente das Ordenanças Eclesiásticas luteranas, não previa um superintendente. Incluiu provisão para selecionar uma primeira ordem de ministros chamados pastores, com base em sua disposição de aceitar a teologia oficial, suas habilidades como pregadores e sua disposição de viver de acordo com rigorosos preceitos morais.

A segunda ordem de ministros, chamada de doutores, ensinava nas escolas, tanto nos níveis elementares quanto nos avançados. A quarta ordem de ministros, chamada de diáconos, coletava e administrava os bens para o conforto dos pobres. A sua inovação mais importante, no entanto, foi uma terceira ordem de ministros, chamada de presbíteros. A sua função era reunir com os pastores uma vez por semana, numa nova instituição chamada Consistório, supervisionar o comportamento de todos os membros da comunidade, e fazer com que os cidadãos genebrinos não apenas aceitassem a doutrina correta, mas também se comportassem de uma maneira verdadeiramente cristã; em suma, a sua tarefa era para que exercessem a disciplina. Os únicos poderes que eles usariam na execução de seus julgamentos, era a admoestação e a excomunhão, e demorou algum tempo até que seu direito de excomungar fosse geralmente aceito. Uma vez aceito, no entanto, moldaram a comunidade genebrina de forma poderosa e fizeram dela um modelo temido ou respeitado em toda a Europa.

Este padrão genebrino provou ser amplamente influente. Ele foi estendido e imitado em todas as partes da Europa que se tornaram reformadas ou calvinistas, ao invés de luteranas, e foi revisado e adaptado por algumas nações como sendo seus livros de disciplina, notavelmente adotado pelos protestantes da França em 1559 e pela Escócia em 1560.

As Ordenanças Eclesiásticas serviram, assim, em toda a Europa para consolidar a Reforma protestante e dar-lhe uma importante estrutura continuidade.

Referências para leitura posterior:
1. Richter, Aemilius Ludwig, ed. Die evangelischen Kirchenordungen des sechzehnten. Jahrhunderts.
2. Nieuwkoop: B.de Graaf 1846, reprinted 1967. (Completa compilação das ordenanças eclesiásticas deste período).
3. Sehling, Emil, et al. Die evangelischen Kirchenordnungen des XVL Jahrhunderts. Leipzig: O.R.Reisland 1902.
4. Rivoire, Emile e Victor van Berchem. Les sources du droit du canton de Genève. Arau: Sauerländer, vol. 2. 1930, 377–390.


Extraído de Robert M. Kingdon, “Ecclesiastical Ordenances” in: Hans J. Hillerbrand, ed., The Encyclopedia of Protestantism (London, Routledge, 2004), vol. 2, pp, 163-164.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

01 abril 2019

Martinho Lutero seria culpado de antissemitismo?

Neste excerto extraído da Conferência Nacional 2017, Stephen Nichols e W. Robert Godfrey expõem se Martinho Lutero seria culpado de antissemitismo.[1] VEJA O VÍDEO AQUI.

Stephen Nichols: Você sabe, esta é uma pergunta que você ouve várias vezes, e acho que temos que olhar para o amplo contexto de Lutero e, então, precisamos dizer que carecemos entendê-lo nesse contexto, mas também não precisamos dar-lhe desculpas. Então, a primeira coisa que vemos em Lutero é que em seus escritos iniciais quando se refere ao povo judeu são muito favoráveis. Ele tem, realmente, nisso uma postura contracultura, e vai contra o consenso atual e realmente favorece um bom tratamento aos judeus. Quando a Reforma prosseguiu e, alguns anos depois, Lutero pensou plenamente que o bom tratamento para com os judeus resultaria em que eles dariam atenção ao evangelho e iriam a Cristo, mas ele não estava vendo isso acontecer. Então, ele começou a questionar, talvez, que havia facilitado muito para eles em seus escritos iniciais e que deveria ter pressionado mais, para que eles fossem mais advertidos e, talvez, fossem desafiados e seguissem o evangelho.

Então, em seus primeiros escritos eram muito favoráveis. Ele começa a repensar sobre isso, porém, em seus escritos posteriores, o texto que realmente fará Lutero dar um passo em falso é "Sobre os Judeus e Suas Detestáveis Mentiras". É nesse escrito que Lutero libera a sua retórica contra os judeus e é muito vigoroso em sua retórica. Entretanto, precisamos dizer que ele era um infrator de igualdade de oportunidades. Não foi apenas - essa retórica não foi apenas reservada - aos judeus, a mesma retórica que ele usou aos papistas, aos anabatistas e aos cristãos nominais, também utilizou aos judeus. Mas ele estava errado. Ele falou duramente, e acho que ele abusou de sua influência que tinha ao falar asperamente. E assim, precisamos dizer que Lutero estava errado nisso. Mas isso não é, necessariamente, antissemitismo, porque isso é, de fato, um fenômeno do século 20. O que Lutero estava interessado, realmente, em seguir o exemplo do apóstolo Paulo e o exemplo do Novo Testamento. Ele viu isso como uma traição de Cristo, uma traição ao evangelho, como uma falha em reconhecer a vinda de Jesus, como o Messias. E assim, não foi uma motivação étnica que levou Lutero a isso, foi uma questão teológica. Então, a resposta para isso é que precisamos entendê-lo em seu contexto, mas não devemos dar a ele uma isenção de culpa. E precisamos reconhecer que ele tem pernas de ferro, mas pés de barro. E este é um daqueles casos em que seus pés de barro realmente manifestam.

W. Robert Godfrey: Só para acrescentar mais uma coisa, isso é exatamente certo - mas, o pouco que deve ser adicionado é que Lutero, em toda a sua vida, ansiava que os judeus fossem convertidos e se unissem à Igreja. Hitler nunca quis que os judeus se juntassem ao Partido Nazista. Essa é a diferença entre ser antissemita e anti-judaizante. Lutero não se opunha aos judeus por causa do sangue deles. Ele se opunha aos judeus por causa da sua religião. Ele queria que eles se unissem à Igreja cristã. Se você é realmente antissemita, você é contra os judeus por causa do sangue deles e não há nada que os judeus possam fazer sobre isso. Não há mudanças ocorram para fazer a diferença.

Você está absolutamente certo, não devemos defender a linguagem de Lutero, porque é violenta contra os judeus. Não foi contra um povo étnico, como você disse, mas contra uma religião que ele reagiu de forma tão aguda.


Notas:
[1] Digitalizado por Nathan W. Bingham em 29 de Março de 2017. Publicado por Ligonier Resources - https://www.ligonier.org/blog/was-martin-luther-guilty-anti-semitism/ .
[2] Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

31 março 2019

A autoridade do pastor prevalece sobre a autoridade das Escrituras? Wayne Grudem

Alguns feministas evangélicos dizem que a mulher pode ensinar se estiver “debaixo da autoridade” dos pastores e dos presbíteros

Outra tendência liberal entre os evangélicos igualitaristas é a alegação de que uma mulher pode ensinar a Escritura para os homens se ela estiver “debaixo da autoridade do pastor ou de presbíteros”. Digo ser essa uma indicação de tendência liberal, porque em nenhuma área de atuação poderíamos dizer que alguém pode fazer algo que a Bíblia diz que não pode ser feito se o pastor e os presbíteros derem sua aprovação.

Essa posição é encontrada com frequência nas igrejas evangélicas. O que torna essa posição diferente das outras que tratamos até este ponto do livro é que muitos que tomam essa posição afirmam sinceramente querer manter a liderança masculina na igreja, e dizem estar mantendo a liderança masculina quando uma mulher ensina “debaixo da autoridade dos presbíteros” que são homens (ou do pastor, que é um homem).

Todavia, essa não é uma visão comum entre os principais autores igualitaristas ou aqueles que mantêm a Christians for Biblical Equality, por exemplo.[i] Esses escritores não pensam que apenas os homens devem ser presbíteros, então eles certamente não pensam que as mulheres precisem de qualquer aprovação de presbíteros para ensinar a Bíblia!

Mas esse ponto de vista aparece com certa frequência nas ligações telefônicas ou e-mails enviados ao escritório do Council on Biblical Manhood and Womanhood – CBMW[ii] – e eu geralmente ouço isso em conversas pessoais e discussões sobre as políticas da igreja.

É realmente verdade que uma mulher está obedecendo à Bíblia se ela pregar um sermão “debaixo da autoridade do pastor ou dos presbíteros”?

A questão aqui é o que diz a Bíblia? Ela não diz meramente “preserve algum tipo de autoridade masculina na congregação”. Ela não diz: “Uma mulher não pode ensinar a não ser que esteja debaixo da autoridade dos presbíteros”. Antes, ela diz: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12).

Pode um pastor ou os presbíteros de uma igreja dar a uma mulher permissão para desobedecer a essa declaração da Escritura? Certamente que não! Pode uma mulher fazer o que a Bíblia diz que não faça e justificar isso dizendo: “Eu estou debaixo da autoridade dos presbíteros”? Nós diríamos que os presbíteros de uma igreja podem dizer às pessoas que estão “debaixo de sua autoridade” que eles têm permissão para desobedecer a outras passagens da Escritura?

O que pensaríamos de alguém que dissesse: “Eu vou roubar um banco hoje porque preciso de dinheiro e meu pastor me deu permissão, e eu estou debaixo da autoridade dele”? Ou uma pessoa que dissesse: “Eu estou cometendo adultério porque sou infeliz em meu casamento e meus presbíteros me deram permissão, assim estou debaixo da autoridade dos meus presbíteros”? Ou se alguém diz: “Eu estou fazendo um juramento falso porque não quero ir para a cadeia e meu pastor me deu permissão, e eu estou debaixo de sua autoridade”? Iríamos descartar essas declarações como ridículas, mas elas revelam o princípio geral de que nenhum pastor ou presbítero da igreja ou bispo, ou qualquer oficial da igreja, tem autoridade para dar permissão às pessoas para desobedecerem à Palavra de Deus.

Alguém poderia dizer: “Mas nós estamos respeitando o princípio geral bíblico da liderança masculina na igreja”. Mas Paulo não diz “respeitem o princípio geral da liderança masculina na igreja”. Ele diz: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12). Não temos o direito de mudar o que a Bíblia diz e então obedecer a algum novo “princípio geral da Bíblia” que nós inventamos.

Não temos também o direito de tomar um ensinamento específico da Escritura e abstrair dele algum princípio geral (como o princípio da “liderança masculina”) e então dizer que esse princípio nos dá o direito de desobedecer ao comando específico da Escritura que está na base desse princípio. Não somos livres para abstrair princípios da Bíblia do modo que quisermos, e então inventar opiniões sobre como esses princípios serão aplicados às nossas situações. Esse procedimento poderá permitir que pessoas evitem qualquer mandamento da Escritura com o qual se sintam desconfortáveis. Podemos nos tornar nossa lei e não mais nos submetermos à autoridade da Palavra de Deus.

Podemos tentar esse mesmo procedimento com algumas passagens. Consideramos ser correto dizer que a Bíblia ensina que os homens devem orar levantando mãos santas sem ira e sem animosidade, a não ser que briguem debaixo da autoridade dos presbíteros (1Tm 2.8)? Ou que as mulheres devem adornar-se com modéstia e com senso, a não ser que os presbíteros lhes deem permissão para vestirem-se indecentemente (1Tm 2.9)? Ou diríamos que aqueles que são ricos no presente século devem ser generosos e prontos para repartir, a não ser que os presbíteros lhes deem permissão para serem avarentos e míseros (1Tm 6.17-19)? Porém, se não devemos adicionar “a não ser que os presbíteros deem permissão para fazer diferente, debaixo da autoridade deles” para quaisquer dos mandamentos da Escritura, tampouco podemos acrescentar esse escape a 1Tm 2.12.

Se uma mulher diz: “eu irei ensinar a Bíblia a homens somente quando estiver debaixo da autoridade dos presbíteros”, ela não se torna diferente dos homens que ensinam a Bíblia. Nenhum homem na igreja deve ensinar a Bíblia publicamente a não ser que ele também esteja debaixo da autoridade dos presbíteros (ou pastor, ou outro oficial da igreja) naquela igreja. O princípio geral é que qualquer pessoa que ensine a Bíblia em uma igreja deve estar sujeita à autoridade estabelecida naquela igreja, seja um presbitério, seja um diácono ou o conselho da igreja. Tanto o homem quanto a mulher, da mesma forma, estão sujeitos a essa exigência. Portanto, após refletirmos, fica evidente que a posição “debaixo da autoridade dos presbíteros” afirma essencialmente que não há diferença entre o que os homens podem fazer e o que as mulheres podem fazer quanto ao ensino da Bíblia aos homens.

Será que realmente pensamos que isso era o que Paulo quis dizer? Pensamos realmente que Paulo não pretendeu dizer algo que fosse aplicado somente às mulheres quando disse: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12)?

Permitir a uma mulher que desobedeça 1 Timóteo 2.12 dizendo que ela está fazendo isso “debaixo da autoridade dos presbíteros” é estabelecer um precedente perigoso, dizendo, com efeito, que os líderes da igreja podem dar permissão às pessoas para desobedecer à Escritura. Esse é, portanto, outro passo ao liberalismo.


FONTE: Wayne Grudem. O Feminismo Evangélico: Um Novo Caminho para o Liberalismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. pp. 93-95

[i] De fato, o autor igualitarista J. Lee Grady rejeita essa ideia. Ele escreve no contexto de uma palestra sobre mulheres que têm ministério de pregação pública: “E, em muitos casos, os líderes têm inocentemente torcido vários versículos bíblicos que sugerem que o ministério público de uma só mulher pode ser válido se ela tiver cobertura apropriada de um homem que esteja presente” (J. Lee Grady. Ten Lies the Church Tells Women. [Lake Mary, FL.: Creation House, 2000], pág. 89).

[ii] Conselho sobre a Condição Bíblica do Homem e da Mulher – (N. do T.).

18 março 2019

Os adversários teológicos da Assembleia de Westminster

David Dickson escreveu o primeiro comentário da CFW.[1] Ele fez uma lista com um breve resumo dos seus adversários teológicos. Segue abaixo a tradução do anexo preparado por Dickson.[2]


Lista de heresias

Segue abaixo a lista alfabética da nomenclatura e rótulos dos autores das antigas e recentes heresias refutadas em todo esse tratado.

Adamitas: chamado assim por causa de Adam, o autor de sua seita, ou do primeiro homem Adão, cuja nudez eles imitam com seus aventais e locais de reuniões, à exemplo de Adão e Eva no paraíso.

Antropomorfitanos: chamados assim por causa de duas palavras gregas: anthropos, que significa “homem”, e morphe, que é “forma”, “figura”, ou “característica”, porque eles afirmavam que Deus tinha um corpo e era dotado de forma humana.

Arianos: natural de Anus, era líbio por nascimento, e presbítero de Alexandria por profissão de fé. Esta heresia surgiu sob o reinado de Constantino, em 290 depois de Cristo, e espalhou-se em grande parte do mundo da época. Ele foi condenado no primeiro famoso concílio de Nicéia, reunido sob recomendação de Constantino, no ano 325.

Arminianos: recebem este nome por causa de James Arminius, professor de teologia em Leiden, que em 1600, publicou e defendeu cinco artigos que ocasionaram tormenta na igreja de Deus e, firmemente, mantidos pelos seus seguidores, os remonstrantes. os cinco artigos são acerca da predestinação, redenção, a graça de Deus, o livre arbítrio e a perseverança na salvação.

Anabatistas: receberam este nome por rebatizarem, tinham por seu fundador Nicholas Storck, que fingia familiaridade com Deus, por meio de um anjo que lhe prometeu um reino, se ele reformasse a igreja e destruísse os príncipes que tentassem impedi-lo.

Antinomianos: eram chamados assim por causa de duas palavras gregas anti, que é “contra”; e nomos, ou seja, “a lei”. Eles surgiram sob influência de Johannes Agricola, que afirmou que a lei moral se tornara totalmente desnecessária, e que os cristãos não estavam obrigados à sua obediência. Esta seita surgiu, aproximadamente, no ano de 1535.

Arabianos: o nome indica que procedem da Arábia, o país onde a sua heresia desabrochou e se desenvolveu sob o reinado de Filipe, o imperador, no ano 217 depois de Cristo.

Brounistas: recebem este nome de seu autor, o Sr. Robert Broun, de Northamptonshire na Inglaterra, durante um período foi instrutor em Southwark, afirmava que não existia nenhuma igreja pura no mundo, senão entre eles, como ensinaram os antigos Donatistas.

Dominicanos: é uma das ordens papistas, o nome é por causa de Dominicus, um espanhol. Eles foram instituídos pelo Papa Inocente III, no ano de 1205. Este homem com doze abades, foi designado para pregar a doutrina dos Albigenenses, que por sua pregação promoviam a mesma religião com os antigos não-conformistas na Inglaterra, que eram chamados de puristas.

Donatistas: de Donatus, nascido em Humidia, na África, que por causa de Ceciliano se tornou o bispo preferido antes dele no episcopado de Cártago, acusando-o, bem como a todos os demais bispos, que o ordenaram, de serem traditores, ou seja, que por terem entregue as suas Bíblias para serem queimadas pelos idólatras, sob a perseguição do imperador Maximius.

Epicureus: de Epicurus, um antigo filósofo pagão, que colocou a felicidade do homem como sendo a principal satisfação da mente. Ele negou a providência e ensinou que o mundo se originou pela combinação dos átomos.

Eutiquianos: assim chamados por causa de Eutico, um abade de Constantinopla. A heresia deste homem foi condenada pelo quarto concílio geral reunido em Calcedônia, sob o imperador Martianus, no ano de 451.

Erastianos: nome procedente de Thomas Erastus, um médico de Heidelberg, na Alemanha, que foi dado aos que seguiam os passos deste homem. Ele tirou da igreja toda a disciplina e governo, e colocou nas mãos do magistrado civil.

Entusiastas: o nome procede da palavra grega enthusiasmos, ou euthusiao, e em latim fanático, que significa “inspirado”, ou “aquele que age com uma fúria divina ou profética”.

Franciscanos: é outra ordem papista, recebeu o seu nome de Francisco, um comerciante italiano, que antes da sua conversão, como os papistas descrevem, teve uma vida ímpia e debochada. Ele reuniu muitos discípulos, no ano 1198, e recomendou-lhes serem obedientes à Cristo e ao Papa.

Familistas: ou da Família do Amor, um de seus idealizadores foi Henry Nicholas, um holandês. O primeiro fundador foi David George de Delst, que se denominou de verdadeiro Davi, que poderia restaurar o reino de Israel. Eles possuem muitas perigosas opiniões.

Gregos: são aqueles que habitam na Grécia, por exemplo, Macedônia, Epirus, Bulgária, Moldavia, etc. Eles colocam a sua religião na adoração da virgem Maria; usando imagens pintadas, mas não esculpidas.

Hermerobatistas: assim chamados por causa de duas palavras gregas hermera, um dia, e baptizo, batizar, pois eles afirmam que homens e mulheres, conforme as suas falhas cometidas a cada dia, precisam diariamente serem batizados.

Jesuítas: recebem este nome por causa do bendito nome do Salvador Jesus, que eles falsamente assumem para si. Eles foram instituídos no ano 1540, por Ignácio de Loyola, que primeiramente foi um soldado. Eles são todos bem treinados em faculdades de filosofia e teologia, e em muitas outras artes e ciências e, portanto, são empregados como emissários do Papa e seu conclave para promover a religião papista.

Judaizantes: são chamados assim, porque eles pensam que as cerimônias judaicas ainda estão em vigor, e são obrigatórias para nós que vivemos sob o evangelho

Independentes: foram assim chamados, porque eles criam que cada congregação particular deveria ser governada por suas próprias leis, sem a dependência de uma igreja sobre a outra.

Libertinos: da liberdade e autonomia, de onde eles recorrem e permitem que outros cometam pecados. Eles primeiro inventavam que qualquer o bem, ou o mal, que realizamos, não foi produzido por nós, mas pelo Espírito de Deus em nós, e muitas outras opiniões blasfemas

Luteranos: os que assim se chamam, mentirosa e falsamente, de Martinho Lutero, aquele eminente homem de Deus.

Maniqueus: de Manos, um persa por nascimento, e escravo por condição. A seita maniqueísta era a convergência de todas as antigas heresias.

Macedonianos: receberam este nome por causa de Macedonus, bispo de Constantinopla, 312 anos após Cristo. A sua heresia foi condenada no segundo concílio geral, reunido em Constantinopla, por Gratian e Theodosius, no ano 380. seus seguidores foram chamados pneumatomaquianos, ou seja, lutadores contra o Espírito Santo; das palavras gregas, pneuma, espírito; e machesthai, que significa lutar.

Marcionitas: vem de Marcion, um paflagoniano,[3] próximo do Mar Euxine,[4] que era o erudito de Cerdon, um grande herege. Ele defendeu as heresias de Cerdon em Roma, cerca de 133 anos depois de Cristo.

Nestorianos: foram assim chamados por causa de Nestorius, patriarca de Constantinopla, que adotou seus erros sob Teodósio, o jovem, 400 anos depois de Cristo. Eles afirmavam que Cristo era duas pessoas, e tinha duas naturezas. Esta heresia foi condenada pelo terceiro concílio geral reunido em Éfeso, sob Theodosius, o jovem, no ano 431.

Novatianos: Assim chamado por causa de Novatus, viveu sob o imperador Decius, 220 depois de Cristo. Ele foi um africano por nascimento.

Origenistas: recebem este nome do famoso Orígenes: os seus erros começaram a se espalhar aproximadamente em 247, no ano de Cristo, sob o imperador Aurélio, e continuou até o ano 334.

Pneumatomaquianos: Veja Macedonianos.

Pelagianos: de Pelagius, um bretão, como descrito, por nascimento. Foi um monge em Roma e posteriormente, um presbítero, sob Teodósio, os jovens puristas, como os kathari, porque eles se consideravam mais puros e santos do que os outros.

Photinianos: de Photinius, nascido na Galácia menor. Ele começou a espalhar suas heresias sobre o ano 323 em Syrmium,[5] onde ele foi bispo sob o imperador Constantino.

Papistas são bem conhecidos: eles são encontrados em quase todas as páginas deste livro.

Quakers: são chamados assim, porque, algumas vezes, eles usaram de agitar e tremer enquanto profetizavam, ou quando eles entravam em êxtase.

Socinianos: receberam este nome de Faustus Socinus, um italiano de Stena. Eles colocam toda religião nas antigas heresias condenadas, seguindo seu assunto, um herege mais vil.

Sabelianos: assim chamado por causa de Sabellus, um africano de nascimento. As suas heresias começaram no 224 d.C.

Separatistas: assim chamado, porque eles se retiraram da comunhão cristã e seguiram outros na adoração a Deus.

Céticos: comumente chamados de Buscadores, afirmam que toda a igreja universal pereceu um pouco depois dos tempos dos apóstolos, e não foram restaurados até hoje, mas será somente quando Cristo do céu enviar novos apóstolos para levantar novamente a igreja visível.

Sabatarianos: assim chamados, porque eles guardavam o Sabbath conforme os judeus, imaginando que não há preceito ou exemplo no Novo Testamento para a guarda do primeiro dia da semana.

Triteístas, ou tritheotae: assim chamados, porque dividiram a indivisível essência da Divindade em três partes distintas; eles chamaram a uma de Pai, a outra de Filho e a terceira de Espírito Santo.

Tertulianistas: foram assim chamados, por causa do famoso advogado e teólogo Tertuliano, que viveu durante o reinado de Severus, cerca de 170 anos depois de Cristo.

Vorstianos: vem de Vorstus, um antigo herético, que ensinou que Deus tem um corpo e era composto de parte, do mesmo modo como os antropomorfitanos afirmaram.

Vaninianos: o termo vem de Vaninus, um grande promovedor do ateísmo. Ele foi queimado publicamente em Toulouse.[6]


NOTA:
[1] O livro foi originalmente publicado em inglês, em 1684.
[2] David Dickson, Truth’s victory over error – A Commentary on the Westminster Confession of Faith (Edimburgh, The Banner of Truth Trust, 2007), pp. 267-272. As definições de Dickson não são completas, ainda assim, a lista é útil para identificar as heresias e grupos religiosos que foram combatidos pela teologia da Assembleia de Westminster. Há pesquisas recentes, mais precisas e mais detalhadas dessas heresias. Nota do tradutor.
[3] Relativo da antiga região de Paphlagonia, no norte da Ásia Menor, ou seus habitantes. Nota do tradutor.
[4] Mar Negro. Nota do tradutor.
[5] Sirmium foi uma cidade romana na província de Pannonia. Sirmium está próximo do rio Sava, no local da moderna Sremska Mitrovica no norte da Sérvia. Nota do tradutor.
[6] Toulouse (Tolosa, grafia também usada em português) é a capital do departamento francês da Alta Garona e da região de Occitânia. A cidade fica nas margens do rio Garona, a 150 quilômetros do Mar Mediterrâneo, a 230 km do Atlântico e a 680 km de Paris. Nota do tradutor.

06 fevereiro 2019

Esboço do Breve Catecismo de Westminster

Para manifestar a importância, a plenitude e a ordem desse sistema de teologia estabelecido no Breve Catecismo da Assembleia de Westminster, é observável que contém:

I. O grande PROPÓSITO de toda a religião, [Pergunta 1]
II. O infalível Padrão dela, [Pergunta 2]
III. O RESUMO e as principais PARTES dela [Pergunta 3]. Que são três:
(1.) A parte DOUTRINÁRIA [Perguntas 4-38]
(2.) A parte PRÁTICA [Perguntas 39 -81]
(3.) A APLICAÇÃO de ambos conjuntamente [Perguntas 82-107].

Primeiro, a parte DOUTRINÁRIA, que descreve o que devemos crer acerca de Deus e do homem.
1°. Acerca de DEUS, vemos:
(1.) A PERFEIÇÕES de sua NATUREZA [Pergunta 4-5]
(2.) As PESSOAS em sua ESSÊNCIA [Pergunta 6]
(3.) Os PROPÓSITOS de sua vontade [Pergunta 7]
(4.) O PRODUTO de seu poder [Pergunta 8], na
1. A obra da CRIAÇÃO [Pergunta 9]
2. A obra de PROVIDÊNCIA [Pergunta 11]
2°. Acerca do HOMEM em:
(1.) Seu ESTADO DE INOCÊNCIA que consistia em sua
1. Semelhança a Deus [Pergunta 10]
2. Aliança com Deus [Pergunta 12]
(2.) Seu ESTADO CAÍDO, em
1. Sua causa pecaminosa [Pergunta 13]; onde temos a natureza de:
a) o pecado em geral [Pergunta 14], e
b) o pecado particular pelo qual o homem caiu [Pergunta 15].
2. Sua extensão sobre toda a humanidade por esse pecado [Pergunta 16]
3. Sues temíveis INGREDIENTES [Pergunta 17] da PECAMINOSIDADE [Pergunta 18] e da MISÉRIA [Pergunta 19].
(3.) Seu ESTADO DE SALVAÇÃO; em que nos apresenta
1. Suas CAUSAS e MEIOS:
a) O AMOR pactual de Deus Pai [Pergunta 20],
b) A GRAÇA redentora do Filho, manifesta em sua ENCARNAÇÃO [Perguntas 21-22],
c) Os OFÍCIOS de profeta, sacerdote e rei [Perguntas 23-26],
d) Os estados de humilhação e exaltação [Perguntas 27-28]; e
e) A OBRA aplicadora do Espírito Santo [Perguntas 29-30].
2. As BENÇÃOS resultantes; como
a) A UNIÃO com Cristo no chamado eficaz [Pergunta 31]
b) JUSTIFICAÇÃO, ADOÇÃO, SANTIFICAÇÃO, e seus dons acompanhantes [Perguntas 32-36],
c) Uma morte feliz [Pergunta 37]; e
d) GLÓRIA completa e eterna [Pergunta 38].

Segundo, a parte PRÁTICA; que representa a NOSSA OBRIGAÇÃO em
1°. Sua NATUREZA [Pergunta 39],
2°. Sua REGRA [Perguntas 40-41],
3°. Sua SUBSTÂNCIA [Pergunta 42],
4°. As RAZÕES e OBRIGAÇÕES dela [Perguntas 43-44],
5°. Suas particulares PARTES e DIVISÕES, a saber:
(1.) O DEVER PARA COM DEUS; com respeito a:
a. A NATUREZA e OBJETO de culto, primeiro mandamento [Perguntas 45-48]
b. As ORDENANÇAS do culto, segundo mandamento [Perguntas 49-52]
c. O MODO da adoração, terceiro mandamento [Perguntas 51-56]; e
d. O TEMPO do culto, quarto mandamento [Perguntas 57-62]
(2.) O DEVER PARA COM O HOMEM; com respeito a:
a. As nossas RELAÇÕES com o próximo, quinto mandamento [Perguntas 63-66];
b. A VIDA, sexto mandamento [Perguntas 67-69],
c. A CASTIDADE, sétimo mandamento [Perguntas 70-72]
d. A PROPRIEDADE CIVIL, oitavo mandamento [Perguntas 73-75]
e. A REPUTAÇÃO, nono mandamento [Perguntas 76-78]
f. O CONTENTAMENTO e a CARIDADE, décimo mandamento [Perguntas 79-81].

Em terceiro lugar, a APLICAÇÃO; servindo:
1° Para o ESTADO de nossa debilidade, e do número, agressividade e merecimento de nossos pecados [Perguntas 82-84],
2° Para DIREÇÃO, como receber e melhorar a redenção preparada para nós em Cristo [Pergunta 85]:
(1) pela FÉ [Pergunta 86],
(2) pelo ARREPENDIMENTO para a vida [Pergunta 87],
(3) por um USO DILIGENTE dos meios de salvação instituídos por Deus [Pergunta 88]; especialmente:
a. A sua PALAVRA [Perguntas 89-90],
b. Os SACRAMENTOS; apresentando sua eficácia, natureza, número, sujeitos a quem ministrar e as diferentes formas de BATISMO e a CEIA DO SENHOR [Perguntas 91-97], e
c. A ORAÇÃO, a sua natureza e regra, particularmente a oração do Senhor em seu Prefácio, petições, acerca da glória de Deus e nossa felicidade, e sua conclusão se explicam [Perguntas 98-107].


John Brown de Haddington, “Preface” in: An essay towards an easy, plain, practical, and extensive explication of the Assembly’s Shorter Catechism (New York, Robert Carter & Brothers, 1834), pp. v-vi.