26 maio 2019

As Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra

por Philip Schaff[1]


Comparar com §83 (p. 352 ss) e §86 (p. 367 ss).[2] Calvino discute o ofício ministerial no capítulo três do quarto livro das suas Institutas.

Após considerar os princípios gerais de Calvino sobre o governo da Igreja, analisaremos a sua introdução e aplicação na pequena República de Genebra.

Vimos que em sua primeira entrevista com os Síndicos e o Conselho após seu retorno, em 13 de setembro de 1541, ele insistiu na introdução de uma constituição e disciplina eclesiásticas de acordo com a Palavra de Deus e a Igreja primitiva.[3] O Conselho cumpriu seu desejo, e confiou o trabalho aos cinco pastores (Calvino, Viret, Jacques Bernardo, Henrique de Ia Mare e Aymé Champereau) e seis conselheiros (decididos Guillermins), a quem foi acrescentado Jean Balard como membro consultor. O documento foi preparado sob sua direção influente, submetido aos Conselhos, ligeiramente alterado e, solenemente, ratificado por uma assembleia geral de cidadãos (o Conseil général), em 2 de Janeiro de 1542, como a lei fundamental da Igreja da República de Genebra.[4] As suas características essenciais passaram para a constituição e disciplina da maioria das igrejas reformadas e presbiterianas da Europa e da América.

O texto oficial das “Ordenanças” está preservado nos Registros da venerável Companhia” e inicia com a seguinte introdução:

Em nome do Deus Todo-Poderoso, nós, os Síndicos, do Pequeno e Grande Conselho, com o nosso povo reunido ao som da trombeta e do grande sino, de acordo com os nossos costumes antigos, consideramos que o assunto acima de todos os outros dignos de recomendação, sendo para preservar a doutrina do santo evangelho de nosso Senhor em sua pureza, proteger a Igreja Cristã, instruir fielmente os jovens e prover um hospital para o apoio apropriado dos pobres - tudo isso não pode ser feito sem um definitivo ordem e regra de vida, da qual todos o estado é instruído no dever de seu ofício. Por esta razão nós consideramos sábio reduzir o governo espiritual, como nosso Senhor nos mostrou e instituiu por sua Palavra, para uma boa forma de ser introduzido e observado entre nós, por isso ordenamos e estabelecemos a seguir e guardar em nossa cidade e território a seguinte política eclesiástica, tirada do evangelho de Jesus Cristo.[5]

O documento é inspirado por uma alta visão da dignidade e responsabilidade do ministério do evangelho, tal como encontramos nas Epístolas de Paulo aos Coríntios e Efésios. “Pode ser afirmado com confiança,” diz um historiador católico,[6] “que em nenhuma sociedade religiosa da Europa cristã o clero recebeu uma posição tão digna, proeminente e influente como na Igreja que Calvino construiu em Genebra.”

Calvino distingue em suas Institutas três ofícios extraordinários da Igreja - apóstolos, profetas, e evangelistas, - e quatro ofícios ordinários - pastores (bispos), mestres, presbíteros (leigos) e diáconos.[7]

Os oficiais extraordinários foram chamados pelo Senhor no começo de seu reino e são levantados em ocasiões especiais quando requeridos “pela necessidade dos tempos”. Os reformadores devem ser considerados como uma classe secundária de apóstolos, profetas e evangelistas. O próprio Calvino sugere o paralelo quando diz:[8] “Não nego que, desde aquele período [dos apóstolos], Deus tenha levantado apóstolos ou evangelistas em seu lugar, como fez em nosso próprio tempo. Pois havia uma necessidade para que essas pessoas recuperem a Igreja da deserção do Anticristo, no entanto, eu chamo isso de um ofício extraordinário, porque não tem lugar em igrejas bem constituídas.”[9]

Os ofícios extraordinários não podem ser regulados por uma lei. As Ordenanças, todavia, concedem direcionamento somente para os ofícios ordinários da Igreja.

1. Os pastores,[10] ou ministros do evangelho, como Calvino gostava de chama-los, teriam que “pregar a Palavra de Deus, instruir, admoestar, exortar e reprovar em público e privado, administrar os sacramentos, e, reunir com os presbíteros, exercer disciplina.”[11] Ninguém poderia ser um pastor que não fosse chamado, examinado, ordenado ou instalado. No exame, o candidato deveria dar evidências satisfatórias do seu conhecimento das Escrituras, sua solidez na doutrina, pureza de motivos e integridade de caráter. Se ele se mostrasse digno do cargo, ele receberia um testemunho do Conselho para que fosse apresentado à congregação. Se ele falhasse no exame, ele aguardaria outra ligação e se submeteria a outro exame. O melhor modo da instalação era pela oração e imposição das mãos, de acordo com a prática dos Apóstolos e da Igreja primitiva; mas seria feito sem superstição.

Todos os ministros deveriam realizar conferências semanais para instrução mútua, edificação, correção e encorajamento em seus deveres oficiais. Ninguém deve se ausentar sem uma boa desculpa. Este dever recai, também, sobre os pastores dos distritos do território. Se surgem controvérsias doutrinárias, os ministros as resolveriam por meio de debates; e se eles não conseguissem chegar a uma concordância, o assunto seria encaminhado para o Magistrado.

A disciplina seria estritamente exercida sobre os ministros, e eram especificados vários pecados e vícios que não seriam tolerados entre eles, como heresia, cisma, rebelião contra ordem eclesiástica, blasfêmia, impureza, falsidade, perjúrio, usura, avareza, danças, negligência no estudo das Escrituras.

As Ordenanças prescreviam para o Domingo um culto pela manhã, o Catecismo - isto é, a instrução das criancinhas - ao meio-dia, e um segundo sermão à tarde, às três horas. Três sermões devem ser pregados durante a semana - segunda, terça e sexta-feira. Para estes serviços eram necessários, na cidade, cinco ministros regulares e três ministros assistentes.

Calvino descreve, nas Institutas, o ofício de pastores como sendo o mesmo dos apóstolos, exceto na extensão do seu campo e autoridade. Eles são todos embaixadores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus (1Co 4.1). O que Paulo diz de si, se aplica a todos eles: "Ai de mim se não pregar o evangelho" (1Co 9.16).

2. O ofício dos Mestres[12] é para instruir os crentes na sã doutrina, de modo que a pureza do evangelho não seja corrompida pela ignorância ou falsas opiniões. Calvino derivou a distinção entre mestres e pastores de Ef. 4.11, e declara que a diferença consiste nisto, “que os mestres não têm nenhuma preocupação oficial com a disciplina, nem a administração dos Sacramentos, nem admoestações e exortações, mas somente com a interpretação da Escritura; considerando que o ofício pastoral inclui todos esses deveres.”[13] Ele também diz que os mestres mantêm a mesma semelhança com os antigos profetas que os pastores aos apóstolos. Ele mesmo tinha o dom profético de ensino de iluminar e convencer num raro grau. Mestres teológicos ocupam o mais alto nível entre os mestres.

3. Os presbíteros ou presbíteros leigos zelam pela boa conduta do povo. Eles são homens tementes a Deus e sábios, sem e acima de qualquer suspeita. Doze seriam escolhidos - dois do Pequeno Conselho, quatro do Conselho dos Sessenta e seis do Conselho dos Duzentos. Cada um deveria ser designado para um distrito especial da cidade. Este é um ofício muito importante nas igrejas presbiterianas. Nas Institutas, Calvino cita em seu apoio os dons do governo.[14] “Desde o começo”, ele diz,[15] “toda Igreja teve seu senado ou conselho, composto de homens piedosos, íntegros e santos, que foram investidos com essa jurisdição na correção dos vícios ... Esse ofício de governo é necessário em cada era.” Ele faz uma distinção entre duas classes de presbíteros - os presbíteros regentes e presbíteros docentes - com base em 1Tm 5.17: “os presbíteros que governam bem sejam considerados dignos de dupla honra, especialmente os que trabalham na palavra e no ensino.” O fundamento exegético para tal distinção é fraco, mas a posição de presbíteros leigos provou ser uma instituição muito útil e grande ajuda para o ministério de ensino.

4. Os diáconos deveriam cuidar dos pobres e doentes, e dos hospitais. Eles precisam prevenir a mendicância que era contrária à boa ordem.[16] Duas classes de diáconos eram distintas, aqueles que administravam as coletas, e aqueles que se dedicavam aos pobres e doentes.[17]

5. O batismo era realizado na igreja, e somente pelos ministros e seus assistentes. Os nomes das crianças e seus pais deveriam entrar nos registros da Igreja.

6. A Ceia do Senhor era administrado a cada mês em uma das igrejas, e também na Páscoa, Pentecostes e Natal. Os elementos deveriam ser distribuídos reverentemente pelos ministros e diáconos. Ninguém seria admitido sem antes receber a instrução no Catecismo e realizar a sua profissão de fé.

O restante das Ordenanças contém regulamentações acerca do casamento, sepultamento, a visitação aos doentes e prisioneiros.

Os ministros e presbíteros se reuniam semanalmente na Quinta-feira, para discutirem juntos a situação da igreja e exercer a disciplina. O objetivo da disciplina era conduzir o pecador de volta ao Senhor.[18]

As Ordenanças Eclesiásticas de 1541 foram revisadas e ampliada por Calvino, e adotada pelo Pequeno e Grande Conselho em 13 de Novembro de 1561. Esta edição também contém os votos de subscrição dos ministros, pastores, mestres, presbíteros, diáconos e os membros do Consistório, e as orientações mais completas acerca da administração dos Sacramentos, casamento, a visitação dos enfermos e prisioneiros, a eleição dos membros do Consistório e sobre a excomunhão.[19]

A nova revisão das Ordenanças foi realizada e adotada pelo Conselho Geral em 3 de Junho de 1576.


NOTAS:
[1] Philip Schaff, History of the Christian Church - The Swiss Reformation, Vol. 8, pp. 475-480.
[2] Schaff faz referência a paginação desta obra.
[3] Ele escreveu à Farel em 16 de Setembro de 1541 (em Opera, XI. 281; Herminjard, VII. 249): “Exposui (Senatui), non posse consistere ecclesiam, nisi certum regimen constitueretur, quale ex Verbo Dei nobis praescriptum est, et in veteri Ecclesia fuit observatum.”
[4] Veja acima, p. 440.
[5] O texto francês está em Opera, X. p.16. nota a.
[6] Kampschulte I. p.396.
[7] Nas “Ordenanças” eles são chamados de Pasteurs, Docteurs, Anciens, Diacres.
[8] Institutas IV.III.4.
[9] Isto confirma a concepção que tenho do chamado extraordinário de Calvino (§ 73, pp. 313 ss). Nesta Carta à Sadoleto ele expressa a sua firme convicção de que o seu ministério procedia de Deus. (Veja § 91, pp. 398 ss) Lutero possuía a mesma convicção acerca de sua própria missão. Sobre o seu retorno de Wartburg para Wittenberg, ele escreveu ao Príncipe Eleitor Frederico da Saxônia que ele tinha o seu evangelho não de homens, mas do céu, e que ele era um evangelista de Cristo.
[10] ποιμένες, pastores, Ef 4.11. Eles são o mesmo que bispos e presbíteros. “Em chamar aqueles que presidem sobre a Igreja pelos nomes de ‘bispos’, ‘presbíteros’ e ‘pastores’, sem qualquer distinção, sigo o uso da Escritura.” Institutas IV.III.8. Então, ele cita Fp 1.1; Tt 1.5, 7; At 20.17, 28. Veja acima, p. 469.
[11] "Faire les corrections fraternelles."
[12] διδάσκαλοι, doutores, Ef 4.11.
[13] Institutas IV.III.4.
[14] κυβερνήσεις, 1Co 12.28; compare com Rm 12.8.
[15] Institutas IV.III.8.
[16] At 6.1-3; Fp 1.1; 1Tm 3.8 ss; 5.9-10.
[17] Compare com as Institutas IV.III.9.
[18] "Les corrections ne soient sinon medicines pour reduyre les pecheurs a nostre Seigneur."
[19] Opera, X. Pars I. pp. 91-124.

Para acesso das Ordenanças Eclesiásticas da Igreja de Genebra veja AQUI. O texto também está disponível em E. Pfisterer, Übersetzung der Genfer Kirchenordnungen aus der Zeit Calvins (Neukirchen, Kr. Moers, 1937); e, G. Anrich: Straßburg und die Calvinische Kirchenverfassung (Universität Tübingen 25, 1928). Para acesso do fac-símile acesse AQUI. Também há uma edição fac-símile, disponível na internet da edição de 1561 nos arquivos da Bibliothèque de Genève. Jean Calvin, Les Ordonnances ecclesiastiques de l'Eglise de Geneve. Item, l'ordre des escoles de ladite cité (Geneva, Avec Privilege pour Artus Chawin, 1561), pp. 1-55.

Estou preparando um livro sob o título de "A influência de João Calvino na formação da Companhia de Pastores da Igreja de Genebra". Nele estará vários documentos preparados por Calvino para o direcionamento do trabalho pastoral, inclusive as Ordenanças Eclesiásticas, tanto na edição original de 1541, como a revisada de 1561.

25 maio 2019

A venerável Companhia e o Consistório da Igreja de Genebra [1541-1564]

por Philip Schaff[1]


A Igreja de Genebra consistia de todos os cristãos batizados e professos sujeitos à disciplina. Tinha, na época de Calvino, um credo uniforme; romanistas e adeptos de seitas eram excluídos. Foi representado e governado pela venerável Companhia e pelo Consistório.

1. A venerável Companhia era um corpo puramente clerical, consistindo de todos os pastores da cidade e do distrito de Genebra. Não possuía poder político. Foi confiada a supervisão geral de todos os assuntos estritamente eclesiásticos, especialmente a educação, qualificação, ordenação e instalação dos ministros do evangelho. Mas o consentimento do governo civil e da congregação era necessário para a indução final ao ministério. Assim, os pastores e as pessoas deveriam cooperar.

2. O Consistório ou Presbitério era um corpo misto de clérigos e leigos, e maior e mais influente que a venerável Companhia. Ela representou a união da igreja e do estado. Abrangeu, na época de Calvino, cinco pastores da cidade e doze Representantes ou Presbíteros, dois dos quais foram selecionados do Conselho dos Sessenta e dez do Conselho dos Duzentos. Os leigos, portanto, tinham a maioria; mas o elemento clerical era comparativamente fixo, enquanto os Presbíteros eram eleitos anualmente sob a influência do clero. Um síndico era o chefe constitucional.[2] Calvino nunca presidiu formalmente, mas governou o processo de fato, por sua inteligência superior e julgamento de persuasivo.[3]

O Consistório começou a sua atuação imediatamente após a adoção das Ordenanças Eclesiásticas e se reunia toda Quinta-feira. Os relatórios começaram a partir da décima reunião, realizada na quinta-feira, 16 de fevereiro de 1542.[4]

O dever do Consistório era a manutenção e a aplicação da disciplina eclesiástica. Cada casa deveria ser visitada anualmente por um Ministro e Presbítero. Para facilitar o funcionamento desse sistema, a cidade foi dividida em três paróquias: St. Pierre, a Madalena e St. Gervais. Calvin oficiou em Saint Pierre.

O Consistorial exercendo função de tribunal era o poder controlador da Igreja de Genebra. Muitas vezes, este concílio é deturpado como uma espécie de tribunal da Inquisição. Mas apenas poderia usar a espada espiritual, e não tinha nada a ver com punições civis e temporais, que pertenciam exclusivamente ao Concílio. Os nomes de Gruet, Bolsec e Serveto, nem aparecem em seus registros.[5]Calvino escreveu aos ministros de Zurique, em 26 de Novembro de 1553: “O Consistório não tem jurisdição civil, mas, apenas o direito de reprovar de acordo com a Palavra de Deus, e sua mais severa punição é a excomunhão”.[6] Ele sabiamente proveu a predominância do elemento leigo.

A princípio, o Conselho, seguindo o exemplo de Basileia e Berna, negou ao Consistório o direito de excomunhão.[7] As pessoas excluídas da Mesa do Senhor geralmente apelavam para o Conselho, que frequentemente intercedia em favor delas ou as orientava a fazer um pedido de desculpas ao Consistório. Houve também uma diferença de opinião quanto às consequências da excomunhão. O Consistório exigia que as pessoas excluídas da Igreja por ofensas graves e conduta escandalosa, fossem banidas do Estado por um ano, ou até que se arrependessem, mas o Conselho não concordou. Calvino nem sempre conseguia realizar a sua perspectiva, e agia de acordo com o princípio de tolerar o que não podia abolir.[8] Foi somente após sua vitória final contra os Libertinos, em 1555, que o Conselho concedeu ao Consistório o poder inconteste da excomunhão.[9]

A partir desses fatos, podemos julgar com que direito Calvino é, frequentemente, chamado de “o papa de Genebra”, principalmente por meio de reprovação.[10] No que diz respeito à descrição é verdade, é um tributo involuntário ao seu gênio e caráter. Pois ele não tinha apoio material e nunca usou a sua influência para obter benefícios ou interesses pessoais. Os genebrinos o conheciam bem e o obedeciam livremente.

NOTAS:
[1] Philip Schaff, History of the Christian Church - The Swiss Reformation, Vol. 8, pp. 480-484.
[2] A versão revisada de Eccles. Ordinances de 1561 prevê (Opera, X. P. I. 121) que um dos quatro Síndicos presida o Consistório com o apoio de polícia (avec son bâton), que significa jurisdição civil em vez de um regime espiritual “afin de mieux garder la distinction qui nous est monstrée en l’Escriture saincte entre le qlaive et authoritédu Magistrat, et la superintendence qui doit estre en Eglise.” Esta limitação de Calvino refuta a afirmação de Dyer (p. 142), de que "Calvino usurpava a perpétua presidência do Consistório” e que “ele desejava que Beza o sucedesse nesta presidência."
[3] “Mesmo que ele não fosse o presidente deste corpo, pode-se dizer que ele era a sua alma.” Merle d’Aubigné (VII. 120). Do mesmo modo Cramer, Roget e outros.
[4] Annal., XXI. 291, sub Février 16, 1542: “Dixième séance du Consistoire, première dont il existe un procès verbal, lequel mentionne entre autres la présence de Calvin et de Viret. Les autres ministres membres du C., sont Bernard, Henri, et Champeraux. Viret est mentionnépour la dernière fois le 18 juillet. Calvin assiste régulièrement aux séances pendant tout l’exercice 1542-43, exceptécinq fois.”
[5] A. Roget, l.c., p. 31: “Le Consistoire ne pouvait infliger aucune peine, et, chose remarquable, il n’avait aucune attribution doctrinale. L’ancien syndic Cramer, dans l’excellente préface qu’il a placée en tête des extraits des Registres du Consistoire, a fait observer que Gruet, Bolsec et Servet ne sant pas même nommés dans les documents qu’il a analysés; toutes les fois qu’un procès de doctrine est instruit, c’est le Conseil qui prononce, sur le préavis des pasteurs.”
[6] Opera, XIV. 675: "Nulla in Consistorio civilis jurisdictio, sed tantum reprehensiones ex Verbo Domini: ultima vero poena, excommunicatio."
[7] Em 19 de Março de 1543, o Conselho dos Sessenta resolveu que “que le Consistoire n’ait ni jurisdiction ni puissance de défendre la cène, sinon seulement d’admonester et puis faire relation en Conseil, afin que la Seigneurie avise de juger sur les délinquants suivant leur demerites.” Reg., citado por Roget, p. 37. Um mês antes o governo Berna categoricamente recusou o direito de excomunhão aos ministros de Lausanne. Ruchat, V. 211.
[8] “Tolero quod tollere non licet” como ele disse numa de suas cartas.
[9] Roget (p. 67): “Le point de vue soutenu par Calvin dans la question de la cène avait enfin triomphéirrévocablement et, dès 1555, nous trouvons le Consistoire en possession, d’une manière incontestée, du droit d’accorder ou de refuser la participation aux sacrements. Toutefois, le Conseil et les ministres ne sont pas complétement d’accord sur les consequences que doit entrainer l’excommunication.”
[10] Roget (p. 83 sq.) colecionou estas críticas exageradas de vários escritores franceses e refutou todos eles. Florimond de Raemond disse: "Calvin se rendit le maistre, l’évesque, le seigneur, disposant de la religion, de l’estat, de la ville, du gouvernement, de la police, comme bon luy sembloit." Duruy: "Calvin eut dès 1541 et exerça jusqu’àsa mort un pouvoir absolu. Il organisa le gouvernement de Genève au profit presque exclusif des ministres du culte réformé." Capefigue: "Calvin réunissait tons les fils du pouvoir suprême en sa personne." Paul Janet: "Calvin a étéle magistrat suprême d’une democratie." Rosseuw St. Hilaire: "Tout excès appelle une reaction en sens contraire, Calvin subordonne l’Etat àl’Eglise." Saisset: "L’Etat devenait une théocratie et les citoyens de Genève n’etaient plus que les sujets d’un petit nombre de ministres, sujets eux-mêmes de Calvin, lequel dominait les trois Conseils du sein du Consistoire et paraissait it la fois le roiet le pontifesouverain de la cite."

21 abril 2019

O problema teológico com a tal justiça social de Tim Keller

Por Jacob Brunton


A Igreja começou a abraçar amplamente a chamada justiça social, e muito disso é graças ao livro de Tim Keller, Generous Justice: How God’s Grace Makes Us Just.[1]

Certamente há muitas coisas boas no livro de Keller - a maior delas é o seu chamado para que a Igreja busque a justiça. No entanto, acho que Keller comete alguns erros graves quando se trata de identificar o que é a justiça, e como se deve buscá-la. Isso é mais óbvio em sua discussão sobre os aspectos econômicos da justiça social (às vezes chamada de “justiça econômica”).

O aspecto econômico da justiça social consiste tipicamente em algum tipo de apelo à igualdade econômica, onde o senso de justiça deduzido é o de aliviar as necessidades econômicas. Keller expressa essa visão dizendo: “se você não compartilha ativa e generosamente os seus recursos com os pobres, você é um ladrão. Você é injusto.” (p. 17)[2] Ele faz uma afirmação semelhante em seu artigo “The Gospel and the Poor” [O Evangelho e os Pobres], dizendo: “Falhar em compartilhar o que você tem não lhe faz alguém apenas desinteressado, mas desleal e injusto”. (pp. 19-20)


Justiça ou caridade?

No clima político atual, esse tipo de conversa pode cheirar a marxismo. Mas antes de assumir que Keller - e seus colegas defensores evangélicos da chamada justiça social - estão barganhando com noções marxistas, devemos considerar o que mais eles querem significar com esse tipo de linguagem. Uma das principais justificativas de Keller para usar a linguagem da “justiça” em vez de “caridade” quando se fala em doar aos pobres é que a palavra caridade “transmite uma atividade boa, mas opcional” (Generous Justice, p. 15); e dar aos pobres - aponta Keller - não é uma atividade opcional para o cristão.

É claro que Keller está certo de que dar aos pobres não é opcional para o cristão. Os cristãos são, de fato, ordenados a ajudar os pobres, a fim de apresentem uma imagem da graça de Deus. Mas esta é uma boa razão para se referir a esse ato como "justiça" e não como "caridade"? O mero fato de que algo é moralmente obrigatório é suficiente para mudar seu nome para “justiça”? Presumivelmente não. Há dezenas de coisas na vida cristã que não são opcionais (por exemplo, oração, comunhão, comunhão dos santos, etc.) e, ainda assim, seria absurdo mudar os nomes dessas atividades para “justiça” simplesmente porque eles são obrigatórios.

Existe uma categoria tradicional de justiça chamada justiça universal que, segundo Ronald Nash, “é coextensiva com toda a justiça, com toda a virtude” (Social Justice and the Christian Church, p. 30). Assim, pode-se dizer que a caridade é uma expressão da justiça universal, o que significa apenas que a caridade faz parte da vida moral do cristão. Nesse sentido, a falha do cristão em fazer o que é moralmente obrigatório (seja caridade, oração ou qualquer outra coisa) seria uma injustiça contra Deus. Mas está claro que Keller quer dizer mais do que isso ao se referir à ajuda aos pobres como "justiça".


A cada um de acordo com a sua necessidade

Ele não quer dizer apenas que a falta de caridade é uma injustiça contra Deus, no senso universal de justiça. Ele quer dizer que é uma injustiça contra os pobres. É por isso que ele chama de roubo. Nesta ideia de justiça, a medida em que alguém é pobre é a medida em que eles foram roubados por aqueles que não são pobres. A necessidade, e a obrigação de aliviá-la, é o padrão sugerido de justiça.

Acontece que essa ideia de justiça está enraizada em noções marxistas, afinal - como expresso nessa famosa máxima, “de cada um de acordo com sua capacidade, para cada um de acordo com sua necessidade”. Você tem recursos de que outra pessoa precisa? Então essa visão de justiça exige que você dê até que as necessidades sejam atendidas. Se você não o fizer, então, você é um ladrão.

Admitido, Keller (pp. 29-31) - e muitos outros defensores evangélicos desta ideia de justiça (por exemplo, veja os artigos de Greg Forster)[3] e [4] - são rápidos em notar que eles não defendem, necessariamente, a ação do governo em distribuir esta justiça. Embora seja difícil entender por que não, se na verdade é "roubo". Mas podemos seguir em frente e aceitar a palavra deles, já que o envolvimento do governo não é, na verdade, o principal problema dessa visão. O principal problema são as implicações morais e teológicas de tal concepção marxista de justiça baseada na necessidade.


Deus - o ladrão cósmico ganancioso

Dê um passo atrás e pergunte-se o que significaria se aplicássemos essa ideia de justiça para Deus. "De cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com sua necessidade." Deus não é o ser mais capaz em todo o universo? E não somos infinitamente necessitados em relação a Ele? A justiça, então, parece exigir que Ele nos dê tudo o que precisamos.

Em vez disso, Ele faz exigências de nós. Ele ameaça nos punir se formos maus, e coloca condições em nos dar o céu de que precisamos. Mas somos carentes e, nessa visão de justiça, isso nos dá uma justa reivindicação contra ele. A medida em que Ele não alivia todas as nossas necessidades materiais e espirituais - sem condição - é o quanto ele está roubando de nós. Somos as pobres, inocentes e necessitadas vítimas, e Ele é o ladrão cósmico ganancioso, que se recusa a nos dar o que precisamos.

Não será necessário dizer que essa ideia de justiça baseada na necessidade só se aplica a nós e não a Deus. Toda a razão pela qual os cristãos presumivelmente devem dar aos pobres é pintar um quadro da graça - ou seja, dons imerecidos - do Deus no evangelho. Ao chamar a caridade de “justiça” e alegando que ela é merecida, a implicação é que a graça de Deus no evangelho é merecida. Portanto, não pode haver equívoco quando se discute a justiça de Deus e a justiça entre nós humanos sobre a questão de dar aos pobres.

O cristianismo ensina que Deus não nos deve nada. Essa assim chamada justiça social implica que Deus nos deve tudo. O Cristianismo ensina que Deus graciosamente nos dá bons dons imerecidos. A chamada justiça social ensina que não pode haver tal conceito como graça quando as necessidades estão em jogo; o que se merece é determinado pelas necessidades da pessoa. O Cristianismo ensina que seria injusto que Deus trouxesse pecadores para o céu e que a morte de seu Filho fosse necessária para torná-la justa (Romanos 3.23-25). A chamada justiça social implica que seria injusto para Deus não trazer pecadores para o céu, e que não havia necessidade da morte de seu Filho - a menos, é claro, que fosse pagar pelos pecados de Deus contra nós.

Considere o que isso significaria para a obra de Cristo na cruz. Cristo não estava realizando um ato indescritível de graça, deixando-nos sem palavras, humilhados e reverentes. Não. Ele estava pagando a dívida que nos devia pelo seu privilégio divino. Nós não lhe devemos graças. Ele nos deve graças por ter decidido perdoá-Lo - contanto que Ele produza fruto em consonância com o arrependimento, e não se exalte excessivamente novamente. Nós não chegamos à cruz, quebrantados e contritos de coração, para adorar. Viemos como pretensiosos solicitantes para julgar sobre Ele e para avaliar se seu sacrifício foi suficiente para aplacar a nossa causa justa contra Ele.
A única resposta cristã apropriada para isso é: para o inferno com tal blasfêmia. Para o inferno com o evangelho da chamada justiça social.


Redimindo o Evangelho que dá

É claro que os defensores cristãos da justiça social nunca diriam qualquer uma dessas coisas sobre Deus, Cristo ou o Evangelho. Mas isso não muda o fato de que o conceito deles de justiça exige que eles sejam verdadeiros. A chamada justiça econômica, entendida como devendo recursos aos necessitados, transforma o verdadeiro Deus da Bíblia - que enfaticamente afirma que não nos deve nada - a um monstro moral, e vira o evangelho de cabeça para baixo. Não há maneira de contornarmos isso.

Se não queremos mentir sobre a natureza e o caráter de Deus em nossa apresentação do Evangelho, então não devemos mentir sobre a doação. A cruz de Cristo não foi absolutamente um ato de justiça para nós. Ele não estava nos dando o era nosso direito. Cristo não nos devia nada. Deus não nos devia nada. Não, a cruz de Cristo foi uma realização da atordoante e imerecida graça. Considere o fato de que Ele deve ser recebido somente pela fé, sem obras - sem merecê-lo. Para receber o dom de Deus em Cristo, devemos recebê-lo como um dom - não como justiça. Do mesmo modo com o nosso anúncio.

Para retratar com precisão a bondade de Deus a nosso favor no evangelho, por meio de nosso anúncio, a única coisa que nunca devemos fazer é reivindicar que o recebedor do dom merece isso; que estamos cometendo um ato de justiça em favor deles em nosso anúncio. Por causa da integridade do evangelho, a proclamação do Evangelho nunca deve ser pensada como justiça. Não é justiça. É graça. É caridade.


NOTAS:
[1] Publicado no Brasil sob o título: Timothy Keller, Justiça generosa - a graça de Deus e a justiça social (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013). Nota do tradutor.
[2] Keller tenta justificar essa afirmação fazendo referência a Ezequiel 18: 5-8, onde “não comete nenhum roubo” é listado ao lado de “dá o seu pão aos famintos” em uma longa lista de descrições do homem justo. Mas não há nenhum argumento exegético claro para tomar o último como o meio de fazer o primeiro, como Keller o faz. Quando se considera que os problemas teológicos com a leitura de Keller são descritos abaixo, fica claro que se uma leitura alternativa estiver disponível (e eu acho que existe), então deve ser preferida.
[3] Aqui https://www.thegospelcoalition.org/article/why-jonathan-edwards-saw-economic-justice-as-gospel-concern/
[4] Aqui https://www.thegospelcoalition.org/article/how-should-we-talk-about-justice-and-the-gospel/

Jacob Brunton é Bacharel em Teologia pelo Bethlehem College & Seminary, em Minneapolis, MN. E também M.A. em Filosofia pelo Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort Worth, TX.

Fonte: https://christianintellectual.com/the-theological-problem-with-tim-kellers-so-called-social-justice/
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

15 abril 2019

As Ordenanças Eclesiásticas no século XVI

Por Robert M. Kingdon


Quando tornou-se claro que os primeiros protestantes não seriam capazes de realizar as reformas que desejavam dentro da estrutura da Igreja Católica Romana, eles começaram a criar novas instituições eclesiásticas. Para dar forma a essas instituições, eles redigiram novas leis ou decretos que, de fato, se tornaram constituições para as igrejas reformadas. Essas Ordenanças Eclesiásticas eram, normalmente, elaboradas inicialmente por um clérigo para uma cidade e depois adotadas, geralmente, com algumas revisões e emendas pelo governo da cidade. Muitas dessas Ordenanças foram, posteriormente, revisadas e ampliadas para cobrir áreas mais amplas, uma província inteira e até um reino. Talvez, o primeiro conjunto completo de Ordenanças Eclesiásticas foi elaborado para a cidade hanseática de Stralsund pelo teólogo luterano Johannes Aepinus (1499-1553) em 1525. Ele previa a seleção de clérigos cuja função primária seria pregar, proporcionando assim uma significativa ruptura com padres paroquiais católicos cuja função primordial era administrar os sacramentos. Previa que as escolas ensinassem habilidades básicas às crianças e a instrução das Escrituras, com provisão adicional de escolas latinas para que se preparasse os estudantes para profissões. Também previa o cuidado dos pobres através da criação de um cofre comunitário. O Conselho de Stralsund acrescentou a cláusula de que um dos pregadores teria o cargo geral de toda a instituição, tornando-se o seu superintendente.

Esse padrão foi, repetidas vezes, reproduzido pelos clérigos de toda a Europa. Houve alguns que se tornaram particularmente bem conhecidos pelas Ordenanças Eclesiásticas, que elaboraram e muitas vezes implementaram. Um deles foi Johannes Brenz (1499–1570), que elaborou uma Ordenança para a cidade de Hall e para o território circunvizinho em 1526, e depois se tornou um dos principais criadores e líderes de novas Ordenanças Eclesiásticas no principado de Württemberg. Outro foi Johannes Bugenhagen (1485-1558) que elaborou decretos para várias cidades importantes no norte da Alemanha, incluindo Braunschweig em 1528, Hamburgo em 1529 e Lübeck em 1531. Ele também ajudou a criar decretos para territórios mais amplos, incluindo a Pomerânia em 1535, a Dinamarca entre 1537 e 1539 e Schleswig-Holstein em 1542. As Ordenanças elaboradas por Bugenhagen seguiram o mesmo padrão básico que as de Aepinus e Brenz. Eles criaram um cargo modelo de superintendente e previam a seleção e supervisão da pregação do clero, o estabelecimento de escolas (tanto elementares quanto avançadas), e um cofre comum para financiar a igreja e ajudar aos pobres.

Eles também, no entanto, acrescentaram boas decisões. Bugenhagen começou a prática de acrescentar detalhes sobre os rituais que seriam praticados pelos clérigos que se tornariam uma característica cada vez mais importante das posteriores Ordenanças Eclesiásticas luteranas. Eles muitas vezes se tornaram manuais litúrgicos tanto quanto constituições, às vezes, até acrescentando todo um catecismo ou uma confissão de fé.

Um padrão significativamente diferente foi elaborado por João Calvino (1509-1564) para a cidade de Genebra em 1541. Diferente das Ordenanças Eclesiásticas luteranas, não previa um superintendente. Incluiu provisão para selecionar uma primeira ordem de ministros chamados pastores, com base em sua disposição de aceitar a teologia oficial, suas habilidades como pregadores e sua disposição de viver de acordo com rigorosos preceitos morais.

A segunda ordem de ministros, chamada de doutores, ensinava nas escolas, tanto nos níveis elementares quanto nos avançados. A quarta ordem de ministros, chamada de diáconos, coletava e administrava os bens para o conforto dos pobres. A sua inovação mais importante, no entanto, foi uma terceira ordem de ministros, chamada de presbíteros. A sua função era reunir com os pastores uma vez por semana, numa nova instituição chamada Consistório, supervisionar o comportamento de todos os membros da comunidade, e fazer com que os cidadãos genebrinos não apenas aceitassem a doutrina correta, mas também se comportassem de uma maneira verdadeiramente cristã; em suma, a sua tarefa era para que exercessem a disciplina. Os únicos poderes que eles usariam na execução de seus julgamentos, era a admoestação e a excomunhão, e demorou algum tempo até que seu direito de excomungar fosse geralmente aceito. Uma vez aceito, no entanto, moldaram a comunidade genebrina de forma poderosa e fizeram dela um modelo temido ou respeitado em toda a Europa.

Este padrão genebrino provou ser amplamente influente. Ele foi estendido e imitado em todas as partes da Europa que se tornaram reformadas ou calvinistas, ao invés de luteranas, e foi revisado e adaptado por algumas nações como sendo seus livros de disciplina, notavelmente adotado pelos protestantes da França em 1559 e pela Escócia em 1560.

As Ordenanças Eclesiásticas serviram, assim, em toda a Europa para consolidar a Reforma protestante e dar-lhe uma importante estrutura continuidade.

Referências para leitura posterior:
1. Richter, Aemilius Ludwig, ed. Die evangelischen Kirchenordungen des sechzehnten. Jahrhunderts.
2. Nieuwkoop: B.de Graaf 1846, reprinted 1967. (Completa compilação das ordenanças eclesiásticas deste período).
3. Sehling, Emil, et al. Die evangelischen Kirchenordnungen des XVL Jahrhunderts. Leipzig: O.R.Reisland 1902.
4. Rivoire, Emile e Victor van Berchem. Les sources du droit du canton de Genève. Arau: Sauerländer, vol. 2. 1930, 377–390.


Extraído de Robert M. Kingdon, “Ecclesiastical Ordenances” in: Hans J. Hillerbrand, ed., The Encyclopedia of Protestantism (London, Routledge, 2004), vol. 2, pp, 163-164.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

01 abril 2019

Martinho Lutero seria culpado de antissemitismo?

Neste excerto extraído da Conferência Nacional 2017, Stephen Nichols e W. Robert Godfrey expõem se Martinho Lutero seria culpado de antissemitismo.[1] VEJA O VÍDEO AQUI.

Stephen Nichols: Você sabe, esta é uma pergunta que você ouve várias vezes, e acho que temos que olhar para o amplo contexto de Lutero e, então, precisamos dizer que carecemos entendê-lo nesse contexto, mas também não precisamos dar-lhe desculpas. Então, a primeira coisa que vemos em Lutero é que em seus escritos iniciais quando se refere ao povo judeu são muito favoráveis. Ele tem, realmente, nisso uma postura contracultura, e vai contra o consenso atual e realmente favorece um bom tratamento aos judeus. Quando a Reforma prosseguiu e, alguns anos depois, Lutero pensou plenamente que o bom tratamento para com os judeus resultaria em que eles dariam atenção ao evangelho e iriam a Cristo, mas ele não estava vendo isso acontecer. Então, ele começou a questionar, talvez, que havia facilitado muito para eles em seus escritos iniciais e que deveria ter pressionado mais, para que eles fossem mais advertidos e, talvez, fossem desafiados e seguissem o evangelho.

Então, em seus primeiros escritos eram muito favoráveis. Ele começa a repensar sobre isso, porém, em seus escritos posteriores, o texto que realmente fará Lutero dar um passo em falso é "Sobre os Judeus e Suas Detestáveis Mentiras". É nesse escrito que Lutero libera a sua retórica contra os judeus e é muito vigoroso em sua retórica. Entretanto, precisamos dizer que ele era um infrator de igualdade de oportunidades. Não foi apenas - essa retórica não foi apenas reservada - aos judeus, a mesma retórica que ele usou aos papistas, aos anabatistas e aos cristãos nominais, também utilizou aos judeus. Mas ele estava errado. Ele falou duramente, e acho que ele abusou de sua influência que tinha ao falar asperamente. E assim, precisamos dizer que Lutero estava errado nisso. Mas isso não é, necessariamente, antissemitismo, porque isso é, de fato, um fenômeno do século 20. O que Lutero estava interessado, realmente, em seguir o exemplo do apóstolo Paulo e o exemplo do Novo Testamento. Ele viu isso como uma traição de Cristo, uma traição ao evangelho, como uma falha em reconhecer a vinda de Jesus, como o Messias. E assim, não foi uma motivação étnica que levou Lutero a isso, foi uma questão teológica. Então, a resposta para isso é que precisamos entendê-lo em seu contexto, mas não devemos dar a ele uma isenção de culpa. E precisamos reconhecer que ele tem pernas de ferro, mas pés de barro. E este é um daqueles casos em que seus pés de barro realmente manifestam.

W. Robert Godfrey: Só para acrescentar mais uma coisa, isso é exatamente certo - mas, o pouco que deve ser adicionado é que Lutero, em toda a sua vida, ansiava que os judeus fossem convertidos e se unissem à Igreja. Hitler nunca quis que os judeus se juntassem ao Partido Nazista. Essa é a diferença entre ser antissemita e anti-judaizante. Lutero não se opunha aos judeus por causa do sangue deles. Ele se opunha aos judeus por causa da sua religião. Ele queria que eles se unissem à Igreja cristã. Se você é realmente antissemita, você é contra os judeus por causa do sangue deles e não há nada que os judeus possam fazer sobre isso. Não há mudanças ocorram para fazer a diferença.

Você está absolutamente certo, não devemos defender a linguagem de Lutero, porque é violenta contra os judeus. Não foi contra um povo étnico, como você disse, mas contra uma religião que ele reagiu de forma tão aguda.


Notas:
[1] Digitalizado por Nathan W. Bingham em 29 de Março de 2017. Publicado por Ligonier Resources - https://www.ligonier.org/blog/was-martin-luther-guilty-anti-semitism/ .
[2] Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

31 março 2019

A autoridade do pastor prevalece sobre a autoridade das Escrituras? Wayne Grudem

Alguns feministas evangélicos dizem que a mulher pode ensinar se estiver “debaixo da autoridade” dos pastores e dos presbíteros

Outra tendência liberal entre os evangélicos igualitaristas é a alegação de que uma mulher pode ensinar a Escritura para os homens se ela estiver “debaixo da autoridade do pastor ou de presbíteros”. Digo ser essa uma indicação de tendência liberal, porque em nenhuma área de atuação poderíamos dizer que alguém pode fazer algo que a Bíblia diz que não pode ser feito se o pastor e os presbíteros derem sua aprovação.

Essa posição é encontrada com frequência nas igrejas evangélicas. O que torna essa posição diferente das outras que tratamos até este ponto do livro é que muitos que tomam essa posição afirmam sinceramente querer manter a liderança masculina na igreja, e dizem estar mantendo a liderança masculina quando uma mulher ensina “debaixo da autoridade dos presbíteros” que são homens (ou do pastor, que é um homem).

Todavia, essa não é uma visão comum entre os principais autores igualitaristas ou aqueles que mantêm a Christians for Biblical Equality, por exemplo.[i] Esses escritores não pensam que apenas os homens devem ser presbíteros, então eles certamente não pensam que as mulheres precisem de qualquer aprovação de presbíteros para ensinar a Bíblia!

Mas esse ponto de vista aparece com certa frequência nas ligações telefônicas ou e-mails enviados ao escritório do Council on Biblical Manhood and Womanhood – CBMW[ii] – e eu geralmente ouço isso em conversas pessoais e discussões sobre as políticas da igreja.

É realmente verdade que uma mulher está obedecendo à Bíblia se ela pregar um sermão “debaixo da autoridade do pastor ou dos presbíteros”?

A questão aqui é o que diz a Bíblia? Ela não diz meramente “preserve algum tipo de autoridade masculina na congregação”. Ela não diz: “Uma mulher não pode ensinar a não ser que esteja debaixo da autoridade dos presbíteros”. Antes, ela diz: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12).

Pode um pastor ou os presbíteros de uma igreja dar a uma mulher permissão para desobedecer a essa declaração da Escritura? Certamente que não! Pode uma mulher fazer o que a Bíblia diz que não faça e justificar isso dizendo: “Eu estou debaixo da autoridade dos presbíteros”? Nós diríamos que os presbíteros de uma igreja podem dizer às pessoas que estão “debaixo de sua autoridade” que eles têm permissão para desobedecer a outras passagens da Escritura?

O que pensaríamos de alguém que dissesse: “Eu vou roubar um banco hoje porque preciso de dinheiro e meu pastor me deu permissão, e eu estou debaixo da autoridade dele”? Ou uma pessoa que dissesse: “Eu estou cometendo adultério porque sou infeliz em meu casamento e meus presbíteros me deram permissão, assim estou debaixo da autoridade dos meus presbíteros”? Ou se alguém diz: “Eu estou fazendo um juramento falso porque não quero ir para a cadeia e meu pastor me deu permissão, e eu estou debaixo de sua autoridade”? Iríamos descartar essas declarações como ridículas, mas elas revelam o princípio geral de que nenhum pastor ou presbítero da igreja ou bispo, ou qualquer oficial da igreja, tem autoridade para dar permissão às pessoas para desobedecerem à Palavra de Deus.

Alguém poderia dizer: “Mas nós estamos respeitando o princípio geral bíblico da liderança masculina na igreja”. Mas Paulo não diz “respeitem o princípio geral da liderança masculina na igreja”. Ele diz: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12). Não temos o direito de mudar o que a Bíblia diz e então obedecer a algum novo “princípio geral da Bíblia” que nós inventamos.

Não temos também o direito de tomar um ensinamento específico da Escritura e abstrair dele algum princípio geral (como o princípio da “liderança masculina”) e então dizer que esse princípio nos dá o direito de desobedecer ao comando específico da Escritura que está na base desse princípio. Não somos livres para abstrair princípios da Bíblia do modo que quisermos, e então inventar opiniões sobre como esses princípios serão aplicados às nossas situações. Esse procedimento poderá permitir que pessoas evitem qualquer mandamento da Escritura com o qual se sintam desconfortáveis. Podemos nos tornar nossa lei e não mais nos submetermos à autoridade da Palavra de Deus.

Podemos tentar esse mesmo procedimento com algumas passagens. Consideramos ser correto dizer que a Bíblia ensina que os homens devem orar levantando mãos santas sem ira e sem animosidade, a não ser que briguem debaixo da autoridade dos presbíteros (1Tm 2.8)? Ou que as mulheres devem adornar-se com modéstia e com senso, a não ser que os presbíteros lhes deem permissão para vestirem-se indecentemente (1Tm 2.9)? Ou diríamos que aqueles que são ricos no presente século devem ser generosos e prontos para repartir, a não ser que os presbíteros lhes deem permissão para serem avarentos e míseros (1Tm 6.17-19)? Porém, se não devemos adicionar “a não ser que os presbíteros deem permissão para fazer diferente, debaixo da autoridade deles” para quaisquer dos mandamentos da Escritura, tampouco podemos acrescentar esse escape a 1Tm 2.12.

Se uma mulher diz: “eu irei ensinar a Bíblia a homens somente quando estiver debaixo da autoridade dos presbíteros”, ela não se torna diferente dos homens que ensinam a Bíblia. Nenhum homem na igreja deve ensinar a Bíblia publicamente a não ser que ele também esteja debaixo da autoridade dos presbíteros (ou pastor, ou outro oficial da igreja) naquela igreja. O princípio geral é que qualquer pessoa que ensine a Bíblia em uma igreja deve estar sujeita à autoridade estabelecida naquela igreja, seja um presbitério, seja um diácono ou o conselho da igreja. Tanto o homem quanto a mulher, da mesma forma, estão sujeitos a essa exigência. Portanto, após refletirmos, fica evidente que a posição “debaixo da autoridade dos presbíteros” afirma essencialmente que não há diferença entre o que os homens podem fazer e o que as mulheres podem fazer quanto ao ensino da Bíblia aos homens.

Será que realmente pensamos que isso era o que Paulo quis dizer? Pensamos realmente que Paulo não pretendeu dizer algo que fosse aplicado somente às mulheres quando disse: “E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem” (1Tm 2.12)?

Permitir a uma mulher que desobedeça 1 Timóteo 2.12 dizendo que ela está fazendo isso “debaixo da autoridade dos presbíteros” é estabelecer um precedente perigoso, dizendo, com efeito, que os líderes da igreja podem dar permissão às pessoas para desobedecer à Escritura. Esse é, portanto, outro passo ao liberalismo.


FONTE: Wayne Grudem. O Feminismo Evangélico: Um Novo Caminho para o Liberalismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. pp. 93-95

[i] De fato, o autor igualitarista J. Lee Grady rejeita essa ideia. Ele escreve no contexto de uma palestra sobre mulheres que têm ministério de pregação pública: “E, em muitos casos, os líderes têm inocentemente torcido vários versículos bíblicos que sugerem que o ministério público de uma só mulher pode ser válido se ela tiver cobertura apropriada de um homem que esteja presente” (J. Lee Grady. Ten Lies the Church Tells Women. [Lake Mary, FL.: Creation House, 2000], pág. 89).

[ii] Conselho sobre a Condição Bíblica do Homem e da Mulher – (N. do T.).

18 março 2019

Os adversários teológicos da Assembleia de Westminster

David Dickson escreveu o primeiro comentário da CFW.[1] Ele fez uma lista com um breve resumo dos seus adversários teológicos. Segue abaixo a tradução do anexo preparado por Dickson.[2]


Lista de heresias

Segue abaixo a lista alfabética da nomenclatura e rótulos dos autores das antigas e recentes heresias refutadas em todo esse tratado.

Adamitas: chamado assim por causa de Adam, o autor de sua seita, ou do primeiro homem Adão, cuja nudez eles imitam com seus aventais e locais de reuniões, à exemplo de Adão e Eva no paraíso.

Antropomorfitanos: chamados assim por causa de duas palavras gregas: anthropos, que significa “homem”, e morphe, que é “forma”, “figura”, ou “característica”, porque eles afirmavam que Deus tinha um corpo e era dotado de forma humana.

Arianos: natural de Anus, era líbio por nascimento, e presbítero de Alexandria por profissão de fé. Esta heresia surgiu sob o reinado de Constantino, em 290 depois de Cristo, e espalhou-se em grande parte do mundo da época. Ele foi condenado no primeiro famoso concílio de Nicéia, reunido sob recomendação de Constantino, no ano 325.

Arminianos: recebem este nome por causa de James Arminius, professor de teologia em Leiden, que em 1600, publicou e defendeu cinco artigos que ocasionaram tormenta na igreja de Deus e, firmemente, mantidos pelos seus seguidores, os remonstrantes. os cinco artigos são acerca da predestinação, redenção, a graça de Deus, o livre arbítrio e a perseverança na salvação.

Anabatistas: receberam este nome por rebatizarem, tinham por seu fundador Nicholas Storck, que fingia familiaridade com Deus, por meio de um anjo que lhe prometeu um reino, se ele reformasse a igreja e destruísse os príncipes que tentassem impedi-lo.

Antinomianos: eram chamados assim por causa de duas palavras gregas anti, que é “contra”; e nomos, ou seja, “a lei”. Eles surgiram sob influência de Johannes Agricola, que afirmou que a lei moral se tornara totalmente desnecessária, e que os cristãos não estavam obrigados à sua obediência. Esta seita surgiu, aproximadamente, no ano de 1535.

Arabianos: o nome indica que procedem da Arábia, o país onde a sua heresia desabrochou e se desenvolveu sob o reinado de Filipe, o imperador, no ano 217 depois de Cristo.

Brounistas: recebem este nome de seu autor, o Sr. Robert Broun, de Northamptonshire na Inglaterra, durante um período foi instrutor em Southwark, afirmava que não existia nenhuma igreja pura no mundo, senão entre eles, como ensinaram os antigos Donatistas.

Dominicanos: é uma das ordens papistas, o nome é por causa de Dominicus, um espanhol. Eles foram instituídos pelo Papa Inocente III, no ano de 1205. Este homem com doze abades, foi designado para pregar a doutrina dos Albigenenses, que por sua pregação promoviam a mesma religião com os antigos não-conformistas na Inglaterra, que eram chamados de puristas.

Donatistas: de Donatus, nascido em Humidia, na África, que por causa de Ceciliano se tornou o bispo preferido antes dele no episcopado de Cártago, acusando-o, bem como a todos os demais bispos, que o ordenaram, de serem traditores, ou seja, que por terem entregue as suas Bíblias para serem queimadas pelos idólatras, sob a perseguição do imperador Maximius.

Epicureus: de Epicurus, um antigo filósofo pagão, que colocou a felicidade do homem como sendo a principal satisfação da mente. Ele negou a providência e ensinou que o mundo se originou pela combinação dos átomos.

Eutiquianos: assim chamados por causa de Eutico, um abade de Constantinopla. A heresia deste homem foi condenada pelo quarto concílio geral reunido em Calcedônia, sob o imperador Martianus, no ano de 451.

Erastianos: nome procedente de Thomas Erastus, um médico de Heidelberg, na Alemanha, que foi dado aos que seguiam os passos deste homem. Ele tirou da igreja toda a disciplina e governo, e colocou nas mãos do magistrado civil.

Entusiastas: o nome procede da palavra grega enthusiasmos, ou euthusiao, e em latim fanático, que significa “inspirado”, ou “aquele que age com uma fúria divina ou profética”.

Franciscanos: é outra ordem papista, recebeu o seu nome de Francisco, um comerciante italiano, que antes da sua conversão, como os papistas descrevem, teve uma vida ímpia e debochada. Ele reuniu muitos discípulos, no ano 1198, e recomendou-lhes serem obedientes à Cristo e ao Papa.

Familistas: ou da Família do Amor, um de seus idealizadores foi Henry Nicholas, um holandês. O primeiro fundador foi David George de Delst, que se denominou de verdadeiro Davi, que poderia restaurar o reino de Israel. Eles possuem muitas perigosas opiniões.

Gregos: são aqueles que habitam na Grécia, por exemplo, Macedônia, Epirus, Bulgária, Moldavia, etc. Eles colocam a sua religião na adoração da virgem Maria; usando imagens pintadas, mas não esculpidas.

Hermerobatistas: assim chamados por causa de duas palavras gregas hermera, um dia, e baptizo, batizar, pois eles afirmam que homens e mulheres, conforme as suas falhas cometidas a cada dia, precisam diariamente serem batizados.

Jesuítas: recebem este nome por causa do bendito nome do Salvador Jesus, que eles falsamente assumem para si. Eles foram instituídos no ano 1540, por Ignácio de Loyola, que primeiramente foi um soldado. Eles são todos bem treinados em faculdades de filosofia e teologia, e em muitas outras artes e ciências e, portanto, são empregados como emissários do Papa e seu conclave para promover a religião papista.

Judaizantes: são chamados assim, porque eles pensam que as cerimônias judaicas ainda estão em vigor, e são obrigatórias para nós que vivemos sob o evangelho

Independentes: foram assim chamados, porque eles criam que cada congregação particular deveria ser governada por suas próprias leis, sem a dependência de uma igreja sobre a outra.

Libertinos: da liberdade e autonomia, de onde eles recorrem e permitem que outros cometam pecados. Eles primeiro inventavam que qualquer o bem, ou o mal, que realizamos, não foi produzido por nós, mas pelo Espírito de Deus em nós, e muitas outras opiniões blasfemas

Luteranos: os que assim se chamam, mentirosa e falsamente, de Martinho Lutero, aquele eminente homem de Deus.

Maniqueus: de Manos, um persa por nascimento, e escravo por condição. A seita maniqueísta era a convergência de todas as antigas heresias.

Macedonianos: receberam este nome por causa de Macedonus, bispo de Constantinopla, 312 anos após Cristo. A sua heresia foi condenada no segundo concílio geral, reunido em Constantinopla, por Gratian e Theodosius, no ano 380. seus seguidores foram chamados pneumatomaquianos, ou seja, lutadores contra o Espírito Santo; das palavras gregas, pneuma, espírito; e machesthai, que significa lutar.

Marcionitas: vem de Marcion, um paflagoniano,[3] próximo do Mar Euxine,[4] que era o erudito de Cerdon, um grande herege. Ele defendeu as heresias de Cerdon em Roma, cerca de 133 anos depois de Cristo.

Nestorianos: foram assim chamados por causa de Nestorius, patriarca de Constantinopla, que adotou seus erros sob Teodósio, o jovem, 400 anos depois de Cristo. Eles afirmavam que Cristo era duas pessoas, e tinha duas naturezas. Esta heresia foi condenada pelo terceiro concílio geral reunido em Éfeso, sob Theodosius, o jovem, no ano 431.

Novatianos: Assim chamado por causa de Novatus, viveu sob o imperador Decius, 220 depois de Cristo. Ele foi um africano por nascimento.

Origenistas: recebem este nome do famoso Orígenes: os seus erros começaram a se espalhar aproximadamente em 247, no ano de Cristo, sob o imperador Aurélio, e continuou até o ano 334.

Pneumatomaquianos: Veja Macedonianos.

Pelagianos: de Pelagius, um bretão, como descrito, por nascimento. Foi um monge em Roma e posteriormente, um presbítero, sob Teodósio, os jovens puristas, como os kathari, porque eles se consideravam mais puros e santos do que os outros.

Photinianos: de Photinius, nascido na Galácia menor. Ele começou a espalhar suas heresias sobre o ano 323 em Syrmium,[5] onde ele foi bispo sob o imperador Constantino.

Papistas são bem conhecidos: eles são encontrados em quase todas as páginas deste livro.

Quakers: são chamados assim, porque, algumas vezes, eles usaram de agitar e tremer enquanto profetizavam, ou quando eles entravam em êxtase.

Socinianos: receberam este nome de Faustus Socinus, um italiano de Stena. Eles colocam toda religião nas antigas heresias condenadas, seguindo seu assunto, um herege mais vil.

Sabelianos: assim chamado por causa de Sabellus, um africano de nascimento. As suas heresias começaram no 224 d.C.

Separatistas: assim chamado, porque eles se retiraram da comunhão cristã e seguiram outros na adoração a Deus.

Céticos: comumente chamados de Buscadores, afirmam que toda a igreja universal pereceu um pouco depois dos tempos dos apóstolos, e não foram restaurados até hoje, mas será somente quando Cristo do céu enviar novos apóstolos para levantar novamente a igreja visível.

Sabatarianos: assim chamados, porque eles guardavam o Sabbath conforme os judeus, imaginando que não há preceito ou exemplo no Novo Testamento para a guarda do primeiro dia da semana.

Triteístas, ou tritheotae: assim chamados, porque dividiram a indivisível essência da Divindade em três partes distintas; eles chamaram a uma de Pai, a outra de Filho e a terceira de Espírito Santo.

Tertulianistas: foram assim chamados, por causa do famoso advogado e teólogo Tertuliano, que viveu durante o reinado de Severus, cerca de 170 anos depois de Cristo.

Vorstianos: vem de Vorstus, um antigo herético, que ensinou que Deus tem um corpo e era composto de parte, do mesmo modo como os antropomorfitanos afirmaram.

Vaninianos: o termo vem de Vaninus, um grande promovedor do ateísmo. Ele foi queimado publicamente em Toulouse.[6]


NOTA:
[1] O livro foi originalmente publicado em inglês, em 1684.
[2] David Dickson, Truth’s victory over error – A Commentary on the Westminster Confession of Faith (Edimburgh, The Banner of Truth Trust, 2007), pp. 267-272. As definições de Dickson não são completas, ainda assim, a lista é útil para identificar as heresias e grupos religiosos que foram combatidos pela teologia da Assembleia de Westminster. Há pesquisas recentes, mais precisas e mais detalhadas dessas heresias. Nota do tradutor.
[3] Relativo da antiga região de Paphlagonia, no norte da Ásia Menor, ou seus habitantes. Nota do tradutor.
[4] Mar Negro. Nota do tradutor.
[5] Sirmium foi uma cidade romana na província de Pannonia. Sirmium está próximo do rio Sava, no local da moderna Sremska Mitrovica no norte da Sérvia. Nota do tradutor.
[6] Toulouse (Tolosa, grafia também usada em português) é a capital do departamento francês da Alta Garona e da região de Occitânia. A cidade fica nas margens do rio Garona, a 150 quilômetros do Mar Mediterrâneo, a 230 km do Atlântico e a 680 km de Paris. Nota do tradutor.

06 fevereiro 2019

Esboço do Breve Catecismo de Westminster

Para manifestar a importância, a plenitude e a ordem desse sistema de teologia estabelecido no Breve Catecismo da Assembleia de Westminster, é observável que contém:

I. O grande PROPÓSITO de toda a religião, [Pergunta 1]
II. O infalível Padrão dela, [Pergunta 2]
III. O RESUMO e as principais PARTES dela [Pergunta 3]. Que são três:
(1.) A parte DOUTRINÁRIA [Perguntas 4-38]
(2.) A parte PRÁTICA [Perguntas 39 -81]
(3.) A APLICAÇÃO de ambos conjuntamente [Perguntas 82-107].

Primeiro, a parte DOUTRINÁRIA, que descreve o que devemos crer acerca de Deus e do homem.
1°. Acerca de DEUS, vemos:
(1.) A PERFEIÇÕES de sua NATUREZA [Pergunta 4-5]
(2.) As PESSOAS em sua ESSÊNCIA [Pergunta 6]
(3.) Os PROPÓSITOS de sua vontade [Pergunta 7]
(4.) O PRODUTO de seu poder [Pergunta 8], na
1. A obra da CRIAÇÃO [Pergunta 9]
2. A obra de PROVIDÊNCIA [Pergunta 11]
2°. Acerca do HOMEM em:
(1.) Seu ESTADO DE INOCÊNCIA que consistia em sua
1. Semelhança a Deus [Pergunta 10]
2. Aliança com Deus [Pergunta 12]
(2.) Seu ESTADO CAÍDO, em
1. Sua causa pecaminosa [Pergunta 13]; onde temos a natureza de:
a) o pecado em geral [Pergunta 14], e
b) o pecado particular pelo qual o homem caiu [Pergunta 15].
2. Sua extensão sobre toda a humanidade por esse pecado [Pergunta 16]
3. Sues temíveis INGREDIENTES [Pergunta 17] da PECAMINOSIDADE [Pergunta 18] e da MISÉRIA [Pergunta 19].
(3.) Seu ESTADO DE SALVAÇÃO; em que nos apresenta
1. Suas CAUSAS e MEIOS:
a) O AMOR pactual de Deus Pai [Pergunta 20],
b) A GRAÇA redentora do Filho, manifesta em sua ENCARNAÇÃO [Perguntas 21-22],
c) Os OFÍCIOS de profeta, sacerdote e rei [Perguntas 23-26],
d) Os estados de humilhação e exaltação [Perguntas 27-28]; e
e) A OBRA aplicadora do Espírito Santo [Perguntas 29-30].
2. As BENÇÃOS resultantes; como
a) A UNIÃO com Cristo no chamado eficaz [Pergunta 31]
b) JUSTIFICAÇÃO, ADOÇÃO, SANTIFICAÇÃO, e seus dons acompanhantes [Perguntas 32-36],
c) Uma morte feliz [Pergunta 37]; e
d) GLÓRIA completa e eterna [Pergunta 38].

Segundo, a parte PRÁTICA; que representa a NOSSA OBRIGAÇÃO em
1°. Sua NATUREZA [Pergunta 39],
2°. Sua REGRA [Perguntas 40-41],
3°. Sua SUBSTÂNCIA [Pergunta 42],
4°. As RAZÕES e OBRIGAÇÕES dela [Perguntas 43-44],
5°. Suas particulares PARTES e DIVISÕES, a saber:
(1.) O DEVER PARA COM DEUS; com respeito a:
a. A NATUREZA e OBJETO de culto, primeiro mandamento [Perguntas 45-48]
b. As ORDENANÇAS do culto, segundo mandamento [Perguntas 49-52]
c. O MODO da adoração, terceiro mandamento [Perguntas 51-56]; e
d. O TEMPO do culto, quarto mandamento [Perguntas 57-62]
(2.) O DEVER PARA COM O HOMEM; com respeito a:
a. As nossas RELAÇÕES com o próximo, quinto mandamento [Perguntas 63-66];
b. A VIDA, sexto mandamento [Perguntas 67-69],
c. A CASTIDADE, sétimo mandamento [Perguntas 70-72]
d. A PROPRIEDADE CIVIL, oitavo mandamento [Perguntas 73-75]
e. A REPUTAÇÃO, nono mandamento [Perguntas 76-78]
f. O CONTENTAMENTO e a CARIDADE, décimo mandamento [Perguntas 79-81].

Em terceiro lugar, a APLICAÇÃO; servindo:
1° Para o ESTADO de nossa debilidade, e do número, agressividade e merecimento de nossos pecados [Perguntas 82-84],
2° Para DIREÇÃO, como receber e melhorar a redenção preparada para nós em Cristo [Pergunta 85]:
(1) pela FÉ [Pergunta 86],
(2) pelo ARREPENDIMENTO para a vida [Pergunta 87],
(3) por um USO DILIGENTE dos meios de salvação instituídos por Deus [Pergunta 88]; especialmente:
a. A sua PALAVRA [Perguntas 89-90],
b. Os SACRAMENTOS; apresentando sua eficácia, natureza, número, sujeitos a quem ministrar e as diferentes formas de BATISMO e a CEIA DO SENHOR [Perguntas 91-97], e
c. A ORAÇÃO, a sua natureza e regra, particularmente a oração do Senhor em seu Prefácio, petições, acerca da glória de Deus e nossa felicidade, e sua conclusão se explicam [Perguntas 98-107].


John Brown de Haddington, “Preface” in: An essay towards an easy, plain, practical, and extensive explication of the Assembly’s Shorter Catechism (New York, Robert Carter & Brothers, 1834), pp. v-vi.

16 janeiro 2019

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 13

Outro método usado por Satanás para manter aos crentes num estado de dúvida e questionando se sua vida espiritual, dizendo-lhes que são falsas as evidências de que possuem a graça e o favor de Deus. Ele lhes dirá que suas evidências não são reais e que pessoas que não são crentes podem ter evidências semelhantes. Também dirá que sua fé não é o dom de Deus, mas uma ilusão de suas próprias mentes. Que sua preocupação pela obra de Deus não é superior da que muitas pessoas possuem nos assuntos mundanos. Satanás lhes dirá que não tiveram real crescimento espiritual, que pessoas enganadas podem alcançar um nível igual ou melhor que eles. Para enfrentar estas sugestões do Diabo, devemos recordar que Deus manifesta sua graça de duas formas distintas, primeiro sua graça comum e segundo sua graça especial, ou salvadora. Por meio de sua graça comum Deus concede bençãos a todos, mas sua graça especial outorga somente aos seus eleitos. Nunca devemos confundir a diferença entre estas duas classes da graça. É possível, por exemplo, que muitos que não são verdadeiros crentes pareçam como se fossem. Que manifestem certo entendimento da Palavra de Deus, podem viver uma vida moralista e religiosa, quando na realidade não são objetos da graça especial de Deus. Em continuação assinalaremos algumas distinções entre a graça comum a graça salvadora de Deus.

Primeiro, a graça salvadora transforma a pessoa, concedendo-lhe vida espiritual, uma nova natureza. Entretanto, que a graça comum somente obstrui o pecado, mantendo-lhe dentro de certos limites permitidos por Deus. A graça comum limita o pecado e controla seus efeitos, mas não transforma interiormente as pessoas. A graça salvadora de Deus transforma a pessoa em sua mente, suas emoções, sua vontade. Todos os aspectos de sua vida estão sendo mudados, limpos e renovados.

Segundo, a graça especial de Deus produz um interesse profundo e pessoal nas realidades espirituais e eternas: em Deus, em Jesus Cristo, nas promessas de Deus, em seu Reino, no céu. Os que são apenas objeto da graça comum de Deus podem ter certo conhecimento superficial da Bíblia, mas seu interesse em tais coisas é somente temporal e na realidade não querem conhecer a Deus, não é seu principal desejo. A Bíblia nos dá muitos exemplos de pessoas que foram objeto da graça comum, sem ser recebedores da graça salvadora de Deus (por exemplo, Judas, Demas, os fariseus, o rei Saul, etc).

Terceiro, a graça especial de Deus produz um prazer verdadeiro no serviço à Deus. Para os objetos da graça salvadora, os mandamentos de Deus não são ofensivos, o jugo de Cristo é suave e leve o seu fardo. Os recipientes da graça especial de Deus encontram gozo na oração, a leitura da Bíblia, a comunhão com outros crentes e a adoração à Deus. O salmista se referiu a esta classe de pessoa dizendo: “Na lei de Jeová está o seu prazer” (Sl 1.2). Para aqueles que são apenas objeto da graça comum, o serviço de Deus é pesaroso, entendiante e um fardo em lugar de prazer. O profeta Malaquias disse, “Vós dizeis: Inútil é servir a Deus; que nos aproveitou termos cuidado em guardar os seus preceitos e em andar de luto diante do SENHOR dos Exércitos?” (Mal.3:14). Este é o pensamento daqueles que somente conhecem a graça comum.

Quarto, a graça salvadora lhes faz temer a perversidade de seu próprio coração. Ao examinar cuidadosamente o seu próprio coração e ter cautela de sua conduta. A graça comum lhe faz satisfeito com um Cristianismo superficial. Aqueles que são crentes apenas nominalmente, concentram mais cuidadosamente nos outros que em si mesmos, pois julgam os outros antes que a eles mesmos.

Quinto, a graça salvadora com que amem e busquem a santidade mesmo quando é difícil e perigoso. Os que são crentes apenas nominais, aqueles que não são realmente salvos, não perseveram quando a vida cristã se torna difícil. Jesus falou de semelhantes pessoas na parábola do semeador (Mt 13.20-21). A semente que caiu entre as pedras representa a pessoa que ouve a Palavra e momentaneamente a recebe com alegria “mas não possui raíz, mas é passageira, pois ao virem as aflições ou, a perseguição por causa da Palavra, logo se ofende.” O verdadeiro crente segue a Cristo mesmo quando tudo está difícil.

Sexto, os que usufruem da benção da graça especial de Deus, querem obedecer a Deus por motivos espirituais. Desejam orar, querem servir a Deus, querem escutá-lo porque o amam e desejam agradá-lo. Aqueles que são apenas crentes nominais fazem algumas destas coisas, não porque amam a Deus, mas apenas para serem vistos pelos homens. Querem que outros pensem bem deles, no entanto, na realidade não querem agradar a Deus.
Sétimo, a graça salvadora, renovadora conduz ao desejo de abandonar, de deixar o pecado por completo e obedecer a todos os mandamentos de Deus. Os crentes são semelhantes a Calebe acerca de quem Deus disse: “visto que nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me” (Nm 14.24). Os que somente aparentam ser crentes, e não sendo, seguem a Deus parcialmente, são de ânimo dobre, somente obedecem quando lhes é conveniente. É necessário distinguir entre buscar a perfeição e deseja-la, entre o esforço para obedecer e o cumprimento. A alma renovada pode dizer: Ainda que não mortifiquei completamente nenhum pecado, como deveria e como desejo, todavia, odeio todos os pecados. Ainda que não obedeça perfeitamente a nenhum mandamento, como quero e deveria, entretanto, amo cada mandamento de Deus. Todos me são preciosos, e não há um sequer que não deseje cumprir. Este era o sentimento do apóstolo Paulo em Rm 7.15-22.

Oitavo, principal e sobretudo, aqueles que são abençoados com o amor e a graça especial de Deus, estimam a Cristo como a maior benção. Cristo é suficiente para satisfazer as suas almas. Podem usufruir de Cristo sem possuir riquezas, sem prazeres, sem o sorriso da prosperidade; em todas as circunstâncias estão contentes com Cristo. Cristo é tudo, o Sumo Bem para os que conhecem a graça salvadora. Se estamos enfermos, Ele é o médico; se temos sede, Ele é o manancial; se o pecado nos inquieta, Ele é a nossa justiça; se necessitamos de ajuda, Ele é poderoso para nos salvar; se tememos a morte, Ele é a vida; se estamos em trevas, Ele é a luz; se somos fracos, Ele é nossa fortaleza; se somos pobres, Ele é a plenitude; se desejamos o céu, Ele é o único caminho. Em contraste com os que apenas têm a aparência de crentes, que estimam mais as recompensas, os benefícios e o louvor que recebem professando o Cristianismo (mas que na realidade não estimam a Cristo acima de todas as coisas), os que possuem a Cristo não carecem de nada. Assim disse Paulo, “como não tendo nada, mas possuindo tudo” (1Co 6.10). Então, quem não possui a Cristo, nada tem. Você ama ao Senhor Jesus mais do que todas as demais coisas? Se sim, então não deve escutar ao Diabo quando quer fazê-lo duvidar e pensar que são falsas as suas evidências de salvação.

03 janeiro 2019

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 12

Satanás tem outro método para causar dano aos crentes. Se não pode conseguir que pequem, ou sejam distraídos, tratará de fazer-lhes infelizes e miseráveis como crentes. Isto procura fazê-lo induzindo-lhes a duvidar de sua salvação. Aprecia encher as mentes dos crentes com dúvidas e interrogações. “Sou realmente cristão? Está firme e segura minha esperança da vida eterna? É a satisfação cristã que sinto, uma boa emoção e nada mais? Um dos métodos de Satanás é atacar aos cristãos enchendo-lhes com interrogações, dúvidas, incertezas e miséria. Para conseguir isto, Satanás utiliza três métodos.

Primeiro, Satanás procurará que os crentes sempre estejam preocupados acerca de seus pecados. Fará que seus pecados lhes pareçam tão grandes que não possam pensar noutra coisa, especialmente que não pensem em seu Salvador. Nenhum crente deve pensar no pecado desta maneira. É certo que o pecado rodeia aos crentes e que estes ainda pecam. Não obstante, o pecado não tem poder para condená-los. O Senhor Jesus não retira todos e cada um dos pecados dos crentes, ou seja, eles ainda são imperfeitos. Todavia, retira a condenação do pecado. “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Cristo também lhes livra do reino e do poder dominante do pecado (Rm 6.14). Os crentes não pecam de modo livre, nem com felicidade. Não são escravos do pecado, advertem seu perigo e pelejam contra ele. Ainda que o pecado ainda habite neles e se rebela, não pode controlar, nem dominá-los totalmente. O poder do pecado foi destruído por Cristo. Portanto, o crente não deve cair no erro de pensar somente em seus pecados.

Segundo, os crentes devem guardar na mente, que Deus promete o perdão do pecado na Bíblia. É certo que devem lutar contra o pecado e, todavia, neste mundo o pecado não será erradicado de suas vidas. Não devem se fixar tanto nos pecados, de modo que percam de vista a grandeza do perdão do pecado. Deus disse: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados não me lembro”. (Is 43.25) Cristo pagou pelos pecados de seu povo, nenhum outro o pode fazer. Paulo disse: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2Co 5.21). Os crentes não se sentiriam miseráveis se outra pessoa pagasse uma dívida sua. Cristo pagou a dívida dos pecados que cada crente devia a Deus. Portanto, os crentes não devem se sentir miseráveis e deprimidos como se sua dívida não estivesse quitada.

Terceiro, isto não quer dizer que os crentes devem tornar-se descuidados com o pecado. Satanás quer que estejam alarmados e aterrorizados por seus pecados. Os motivos de Deus em permitir que os crentes estejam preocupados com o pecado são outros. Deus quer que os crentes se mantenham em humildade. Quer que busquem sua ajuda para mortificar o pecado. Quer que dependam de Cristo para seu perdão e fortaleza. Quer que tenham compaixão por aqueles que estão sujeitos às mesmas debilidades e para os que caem em pecado. Também quer que anelem profundamente a libertação completa do pecado no céu. Deus alcança estes propósitos deixando que lutem e que sejam exercitados com os resquícios do pecado.

Os crentes que estão deprimidos, miseráveis e aterrorizados por causa de seus pecados, devem arrepender-se desse estado mental. Sua depressão é ocasionada por sua própria ignorância e incredulidade. Devem entender que o amor de Deus é completo, livre, eterno e abundante; a morte e os sofrimentos de Cristo são suficientes para perdoar todos os seus pecados para sempre. Devem compreender melhor o valor, a glória e a suficiência da justiça de Cristo, a qual lhes foi imputada. Devem crer mais na gloriosa e indestrutível realidade de sua união espiritual com Cristo. Se tão somente os crentes cressem mais na verdade destas coisas, não seriam deprimidos e enganados por Satanás, nem por seus pecados.

Há outra forma em que Satanás faz com que os crentes se sintam miseráveis, culpados e inúteis. Ele lhes leva a pensar que as normas para ser um crente são tão altas que nunca poderá alcança-las, fazendo-lhes duvidar, assim, de sua salvação. Agrada a Satanás fazer com que os crentes pensem que sua fé não é verdadeira. Quer persuadi-los que a fé é um dom tão especial e tão raro que poucos a têm. Satanás insinua aos crentes que a fé significa nunca duvidar de sua salvação e sempre crer que seus pecados são perdoados. Se em algum momento os crentes duvidam, questionam, ou caem em ansiedade, então, Satanás lhes diz que não têm a fé verdadeira.

Primeiro, Satanás ao fazer tudo isto, está insinuando que a fé signifique mais do que a Bíblia diz. Deus disse na Bíblia que os crentes podem ter a fé verdadeira, sem ter a certeza de que a têm. Se assim não fosse, o apóstolo João não escreveria: “Estas coisas vos escrevi a fim de que creiais no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna” (1Jo 5.13). Eles creram, mas não tinham certeza se tinham a vida eterna. João escreveu para mostrar-lhes que tinham a vida eterna. Antes que soubessem que tinham a vida eterna, eles haviam crido, pois tinham fé. Então pode-se ter fé sem ter certeza de sua salvação.

Segundo, Deus nos disse que a fé significa receber a Cristo: “Mas a todos quanto o receberam, aos que creram em seu nome, lhes deu o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Satanás quer que os crentes pensem que a fé signifique sempre ter certeza e nunca duvidar de que Deus lhes ama e de que seu destino é o céu. A verdade é que pode existir a fé verdadeira, mesmo quando hajam muitas dúvidas. Por exemplo, Mt 14.31 disse: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” Uma pessoa pode crer verdadeiramente, e não obstante, às vezes, duvidar. Este foi o caso de Pedro; cria, tinha fé e, todavia, ainda duvidava.

Terceiro, a segurança é um efeito, ou um fruto da fé, portanto não deve ser confundido com a fé. Ter a certeza de que somos cristãos, não é a mesma coisa que crer em Cristo. A fé é o que vem primeiro e a segurança vem depois. A fé não pode se perder, a segurança sim. A terceira tática do Diabo para promover a dúvida nos crentes, que se deprimam e se sintam miseráveis e inúteis, é que julguem equivocadamente a providência divina. Satanás quer que os crentes pensem que Deus está contra eles e que está lhes tratando duramente. Satanás deseja que creiam que por causa da vida que levam, dificilmente Deus lhes ama. Oram e pedem algo a Deus, mas não lhes contesta, ou lhes responde negativamente. Esperam receber algo bom, mas são decepcionados e se sentem prejudicados. Se esforçam para obedecer a Deus, mas logo seus sonhos são frustrados. Então começam a pensar que Deus não se preocupa com eles.

Em tais circunstâncias os crentes devem recordar o seguinte:

Primeiro, que muitas coisas podem estar contra seus desejos e seus sonhos sem serem contrários ao seu bem. Abraão, Moisés, Paulo, Jonas sempre receberam o que queriam? Não. Encontraram-se em muitas circunstâncias providenciais contrárias aos seus desejos, mas não contra o seu bem espiritual. A providência pode operar contra os nossos desejos, mas nunca contra o nosso bem.
Segundo, a mão de Deus pode estar contra uma pessoa, ao mesmo tempo que seu amor e seu coração estão a seu favor. A mão de Deus parecia estar contra Jó, quando na realidade Deus lhe muito amava. O amor de Deus pelos crentes não muda ainda e quando sua providência pareça estar se realizando contrária a eles.

Terceiro, as coisas difíceis que sobrevêm aos crentes na providência de Deus têm um bom propósito (Rm 8.28). Todas as circunstâncias estranhas, obscuras, dolorosas em que os crentes se encontram, sempre lhes prosperam em seu caminho para o céu, em sua peregrinação para a felicidade. Quando Deus está operando na vida de um crente, as coisas difíceis e duras sempre lhe conduzem às bençãos e para a prosperidade espiritual. José teve uma vida dura quando foi vendido como escravo e quando foi encarcerado, mas posteriormente foi usado por Deus para salvar a sua família. A vida pode ser confusa e, às vezes, muito dura para os crentes; mas a Bíblia ensina que em todas estas coisas Deus nunca está operando contra, mas para o seu bem e o benefício de outros. Deus se preocupa com seu povo. Portanto, os crentes não devem permitir que Satanás lhes amargure, ou induza a duvidar do amor de Deus.

01 janeiro 2019

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 11

Concentremos a nossa atenção em outros dois métodos usados pelo diabo para desanimar aos crentes em seu serviço para o Senhor.

Primero, Satanás tratará de encher sua mente com maus pensamentos, ou ainda com pensamentos sujos. Isto ele faz frequentemente quando os crentes estão orando, lendo suas Bíblias, ou pensando em Deus.

Em segundo lugar, se esforçará para que se sintam satisfeitos com sua vida cristã a fim de que não se preocupem com o seu crescimento espiritual. Com o primeiro método, Satanás consegue desanimar a muitos em seu serviço ao Senhor. Com esta persuasão muitos são atrapalhados em suas orações, em seu estudo da Palavra, porque sempre se sentem distraídos. Chegam até mesmo a sentir-se frustrados, perdem a sua alegria e se sentem inúteis no serviço de Deus, tudo por causa dos fúteis pensamentos que o diabo coloca em suas mentes. O que podem fazer os crentes quando lhes é difícil orar, ler suas Bíblias, em consequência destes ataques?

Primeiro, os crentes devem esforçar-se em serem mais afetados pela grandeza de Deus, sua santidade, sua majestade e sua glória. Quando os crentes têm pensamentos superficiais e pequenos acerca de Deus, Satanás pode distraí-los facilmente. Quando começam a compreender melhor sua onipotência, sua pureza, sua grandeza, então os pensamentos vãos perdem muito de seu poder. Uma visão da perfeição de Deus, sua onipotência, sua onisciência, sua onipresença, sua santidade, ajudará muito para acabar com os pensamentos vãos. Quanto mais a nossa mente estiver cheia com pensamentos acerca de Deus, seremos menos afetados com os pensamentos do diabo. Filipenses 4.8 diz: “Portanto irmãos, tudo o que é verdadeiro, honesto, justo, puro, amável, tudo o que é de bom nome; se alguma virtude há, e se algo digno de louvor, nisto pensai.”

Segundo, os crentes podem superar esta tentação perseverando na oração, na leitura da Bíblia e em seus pensamentos acerca de Deus. Muitos crentes descobriram que Satanás lhes deixa em paz quando perseveram nestas coisas. Quando o diabo percebe que esta tática faz com que os crentes busquem a Deus com mais empenho, então se dá por vencido. Quando Jesus resistiu a Satanás no deserto, então este o deixou. Se os crentes perseveram em buscar a Deus apesar de todos os intentos do diabo por distrair-lhes, então também o diabo fugirá deles. “Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

Terceiro, devemos recordar que os pensamentos vazios, néscios e blasfemos são pecaminosos, e sempre não são bem-vindos, mas devem ser rejeitados e mortificados. Em outras palavras, não devemos fazer caso de tais pensamentos. Há muitos pensamentos que molestam e inquietam aos crentes, mas tais pensamentos não são pecaminosos se os crentes não permitem que se alojem em suas mentes. Tais pensamentos chegam a ser pecado quando são recebidos e abrigados na mente dos crentes.

Quarto, o fato de resistir a tais pensamentos, de lamentá-los e esforçar em acabar com eles, é uma forte evidência de que a graça de Deus está operando (Sl 139.23-24). É uma boa evidência quando alguém quer levar cativo os seus pensamentos em obediência a Cristo (2Co 10.4-5). Os pensamentos pecaminosos afetam a vida, pois frequentemente conduzem a atos pecaminosos. Portanto, os crentes devem pelejar contra os pensamentos vãos e pecaminosos. Enquanto vigiarmos e estivermos constantes em resistí-los e afugentá-los não nos causará dano.

Quinto, os crentes podem afastar dos pensamentos vãos sendo cheios com as coisas espirituais e celestiais (Cl 3.1-2). Paulo fala em Efésios da necessidade de ser cheios do Espírito e ainda deseja que todos os crentes sejam cheios de toda a plenitude de Deus (Ef 3.19). Quanto mais nos enchemos de pensamentos espirituais e celestiais, menos lugar teremos para os maus pensamentos.

Sexto, é necessário que os crentes cresçam em seu amor pelas coisas santas. Inevitavelmente pensamos mais acerca do que mais amamos. “Quanto amo tua lei! Todo o dia é ela minha meditação” (Sl 119.97). O salmista amava a Palavra de Deus, portanto, ela era a sua meditação todo o tempo. Se apenas amássemos mais a santidade, pensaríamos mais nela.

Finalmente, se os crentes não querem ser distraídos pelos pensamentos fúteis, não devem deter-se demasiadamente nas atividades deste mundo. O excesso de assuntos mundanos somente encherá as suas mentes com ansiedade e afã. As suas mentes lhes encherão constantemente de preocupações, ainda quando estiverem buscando as coisas de Deus. Os crentes devem lutar para livrar as suas mentes nas ansiedades acerca desta vida e fixar seus pensamentos na grandeza e a glória de Deus. Então Satanás não os distrairá tão facilmente com pensamentos indignos.

Pensemos acerca da segunda tática usada pelo Diabo para impedir aos crentes em seu serviço a Deus. Ele lhes faz sentir satisfeitos com suas orações, com a leitura da Bíblia, com seu serviço cristão, então começam a sentir que podem relaxar um pouco, e não se esforçam tanto. Diante desta tática os crentes devem recordar quatro fatos importantes:

Primeiro, tudo o que os crentes fazem e tudo o que farão é imperfeito. Há pecado em tudo o que fazem. Mesmo em suas orações, as leituras da Bíblia e todas as demais atividades cristãs que fazem estão manchadas por sua debilidade e seu pecado. Os crentes não têm motivo algum para orgulhar-se. Podemos dizer como o profeta, que todas as nossas obras de justiça são como trapos de imundícia (Is 64.6).

Segundo, os crentes não são salvos por suas obras, suas orações ou seu serviço cristão, senão somente pelo que Cristo fez por eles. Eles têm que confiar somente em Cristo para que sejam salvos do pecado.

Terceiro, a confiança em nossas atividades religiosas é um enorme pecado que terminará por destruir-nos (Fp 3.3-9).

Quarto, não devemos esquecer o que nosso Senhor disse: “Quando tiveres feito tudo o que vos tenho mandado, dizei: Servos inúteis somos, porque fizemos apenas o que deveríamos fazer” (Lc 17.10).

31 dezembro 2018

A adoração reformada explicada

Mike Brown e Ewerton B. Tokashiki


O culto semanal de adoração pública é a atividade mais importante na vida cristã.[1] Deus se encontra nele com o seu povo. Ele nos fala em sua Palavra e sacramentos, e nós respondemos em oração, confissão e com cânticos. Ele se inclina para alimentar nossas almas, fortalecer nossa fé e nos edificar como o corpo de Cristo. Estamos prontos para ouvir, receber e para agradá-lo.

Hoje em dia, os cultos de adoração costumam mais agradar a nós mesmos do que a Deus. Tornou-se comum que os atos do culto se concentrem em entreter o público, parecendo mais como concertos de rock e palestras motivacionais, do que a santa adoração do Deus Trino. Mas a Bíblia nos ordena a “oferecer a Deus a adoração aceitável, com reverência e temor, pois o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb 12.28-29).

Numa igreja reformada que pratica o Princípio Regulador do Culto você não encontrará o último modismo dos cultos evangélicos.[2] Não há bandas de rock, efeitos especiais ou pastores contando histórias irreverentes. Em vez disso, encontrará adoração alegre e reverente ao Deus vivo, uma liturgia bíblica e Cristo sendo proclamado a partir de toda a Escritura, em cada ato do culto.


O QUE É LITURGIA?
A palavra “liturgia” refere-se simplesmente à organização da adoração em um serviço público. Toda igreja tem alguma forma de liturgia. A liturgia que você vivencia numa igreja presbiteriana/reformada tem precedentes históricos: cada parte pode ser encontrada nas liturgias da igreja cristã histórica, especialmente naquelas da Reforma do século XVI e dos primeiros pais da igreja.

Mais importante ainda é que a nossa liturgia está totalmente de acordo com a Palavra de Deus e é cuidadosamente planejada para nos conduzir em um diálogo com o nosso Criador e Redentor. É um diálogo em que Deus fala ao seu povo através da sua Palavra e dos sacramentos, e nós respondemos em nossa oração, confissão e canto.

Deus entra nesse diálogo com o seu povo a cada semana no culto público para renovar conosco o seu pacto da graça. Abaixo está uma breve explicação de cada parte da liturgia reformada.


CONVOCAÇÃO À ADORAÇÃO
O culto inicia com o Deus Trino convocando-nos com sua Palavra para adorá-lo com reverência e respeito. Um texto bíblico, muitas vezes um salmo, é lido como uma convocação ao povo de Deus: “Oh, vamos adorar e curvar-nos; ajoelhem-se diante do Senhor nosso Criador!” (Sl 95.6). Ele nos chama para adorá-lo e receber de sua mão bondosa as boas dádivas que Ele fornece às nossas almas.

O culto não é uma iniciativa humana, mas Deus nos despertando, convencendo, atraindo, estimulando e promovendo a sua santidade em nós, para que correspondamos ao seu chamado e obedeçamos a sua ordenança de adorá-lo. Sabemos que “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). E Agostinho escreveu que “fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em ti”.


INVOCAÇÃO
Tendo ouvido o chamado de Deus para adorá-lo, respondemos em oração. Como o povo que possui um pacto com Deus invocamos o nome de Deus, confessando que “o nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra” (Sl 124.8).

Esta é a resposta de Deus ao seu povo invocando seu nome. Ele anuncia a sua graça e paz a todos que vêm a ele através de Jesus Cristo. Como ministro designado de Deus, o ministro levanta as mãos e anuncia a bênção de Deus em sua Palavra: “Graça a ti e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Rm 1.7).


LEITURA DA LEI
Deus nos revela a sua vontade para nossas vidas em sua lei, isto é, os mandamentos das Escrituras. A lei de Deus nos diz claramente como devemos viver e o que Deus espera de nós. Também revela a santidade de Deus, bem como a nossa pecaminosidade, pois “se não fosse pela lei, eu não teria conhecido o pecado” (Rm 7.7).


CONFISSÃO DE PECADO
Tendo ouvido Deus falar conosco em sua lei, somos levados a confessar nossos pecados. Em primeiro lugar, fazemos isso pública e coletivamente, confessando a Deus como povo, “contra ti somente pequei e fiz o que é mal diante dos teus olhos” (Sl 51.4). Então, fazemos isso em silêncio, confessando nossos próprios pecados.


LEITURA DO EVANGELHO
Somos incapazes de obedecer perfeitamente a lei de Deus como Ele requer, por isso, tornamo-nos merecedores de sua ira. Todavia, “não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). A leitura de textos com a instrução, promessas e a certeza da salvação para os que creem em Cristo Jesus complementam, logicamente, a leitura da lei de Deus.


DECLARAÇÃO DE PERDÃO
Tendo confessado nossos pecados a Deus, ouvimos o alegre anúncio de sua promessa de que “se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Como o embaixador de Cristo, o ministro declara o perdão a todos os que confiam em Cristo e se arrependem de seus pecados.


CONFISSÃO DE FÉ
Confessamos juntos o Credo dos Apóstolos, o Niceno ou Calcedônio, ou um parágrafo da Confissão de Westminster, ou questão do Catecismo de Heidelberg. Fazemos isso não apenas para sermos instruídos na fé cristã, mas também como uma oração a Deus na qual declaramos estar unidos na verdade que ele revelou: “Um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de tudo ”(Ef 4.5-6). Os credos e confissões resumem com beleza essa verdade revelada.


ORAÇÃO PASTORAL
O ministro ora em favor da congregação, trazendo “o fruto dos lábios que reconhecem o seu nome” (Hb 13.15), bem como a intercessão pela igreja e pelo mundo. Este ato pode ser concluído com a congregação recitando juntos a oração do Senhor.


CÂNTICOS DE LOUVOR
Tendo ouvido a bênção de Deus, nós respondemos levantando nossas vozes para ele e cantando um salmo, um hino ou cântico bíblico. Como está ordenado: “Vinde à sua presença cantando!” (Sl 100.2). As palavras que cantamos ao Senhor são cuidadosamente escolhidas, pois o conteúdo de cada canção deve estar de acordo com as Escrituras e deve nos proporcionar uma compreensão mais profunda de Deus.


OFERTÓRIO
Nós respondemos à graça de Deus com nossas ofertas e dízimos, que são para a propagação do evangelho no mundo e para a formação de discípulos. Fazemos isto como um ato de adoração, sabendo que “cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria” (2 Cor 9.7).


CÂNTICO DE PREPARAÇÃO
Cantamos em preparação para a refeição que Deus está prestes a nos dar para as nossas almas na pregação de sua Palavra. Cantamos outro salmo, cântico ou hino, essencialmente dizendo ao Senhor: “A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 119.105).


ORAÇÃO POR ILUMINAÇÃO
Chamamos o Senhor novamente, desta vez pedindo-lhe para que nos dê “o Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dele, tendo os olhos de nossos corações iluminados, que possamos saber qual é a esperança que Ele nos chamou, quais são as riquezas de sua herança gloriosa nos santos, e qual é a imensurável grandeza de seu poder em relação a nós, os que cremos” (Ef 1.17-19).


O SERMÃO
Tendo pedido a Deus que abra os nossos ouvidos e corações para recebermos a sua Palavra, nós o ouvimos falar enquanto a sua Palavra é lida. Igualmente - “a leitura pública da Escritura” (1Tm 4.13) - é um ato de adoração.

Deus continua a falar enquanto a sua Palavra é explicada e proclamada. Como o apóstolo Paulo disse ao pastor Timóteo: “Prega a Palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (2Tm 4.2-4). O ministro faz uma exposição fiel do texto, que finalmente nos chama ao arrependimento do pecado e para a fé em Cristo.


CEIA DO SENHOR
Tendo ouvido uma breve instrução da nossa aliança de Deus em sua Palavra, agora nos reunimos com Ele em uma refeição pactual. Como a Palavra pregada nos prometeu o favor de Deus, em Cristo, assim também nosso Pai celestial acrescenta esta confirmação visível de sua promessa imutável. Celebramos juntos para comungar e participar do corpo e sangue de Cristo (1Co 10.16). Não acreditamos que os elementos da ceia se transformem, ou contenham o corpo físico de Cristo, mas cremos que, o pão e o vinho permanecem inalterados, e a presença espiritual de Cristo nos comunica graça, por meio deles, para a nossa santificação.


CÂNTICO DE RESPOSTA
Tendo ouvido a Palavra de Cristo e participado no seu corpo e sangue, “deixamos a Palavra de Cristo habitar em nós, ricamente, cantando salmos e hinos e cânticos espirituais, com ações de graças em nossos corações a Deus” (Cl 3.16).


BENÇÃO FINAL
No culto de adoração, o Deus Trino dá a primeira palavra e a palavra final. E ambas são anúncios de sua graça. Com as mãos erguidas, o ministro abençoa o povo de Deus com a Palavra de Deus, que está disponível a todos os que o recebem por meio da fé: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.14).


CÂNTICO DO TRÍPLICE “AMÉM”
Tendo recebido a benção apostólica, cantamos “amém” [que significa “assim seja”] em resposta a cada benção proferida em relação às Pessoas da Trindade.


APRESENTAÇÃO DE VISITANTES E AVISOS
Encerrado o culto solene os visitantes poderão ser apresentados. Deve-se usar de discrição, respeito e alegria pela sua presença, convidando-os a retornar mais vezes, e a continuarem no conhecimento de Cristo.

Os avisos, de modo apropriado, são entregues para notificar, orientar, ou esclarecer as atividades da agenda da igreja local ou situações urgentes.


NOTAS:
[1] Traduzido e adaptado de http://www.christurc.org/reformed-worship-explained/ . Este é apenas um modelo de liturgia reformada de um culto comum, obviamente, há elementos que foram omitidos como batismo, votos e juramentos de ordenação, etc. A ordem, o modo e outros detalhes de como realizar os elementos do culto são chamados de circunstâncias do culto, e devem ser decididos pelo pastor junto aos presbíteros. Barry Gritters observa que “a pregação está no coração e no centro de cada culto de adoração reformado” in: Public Worship ant the Reformed Faith, p. 18. Por isso, o Princípio Regulador do Culto é parte essencial da identidade do culto reformado.
[2] D.G. Buttrick afirma que “o que distingue a adoração Reformada é mais a sua teologia do que a sua prática particular. A tradição presbiteriana/reformada de culto a Deus é para a glória a Deus. O nosso “principal fim” é glorificar a Deus. Assim, a adoração nas igrejas Reformadas tem muitas vezes designada pelo objetivo – o foco é Deus e não os sentimentos religiosas.” D.G. Buttrick, “Worship, Presbyterians and,” in: Mark A. Noll, ed., Dictionary of the Presbyterian & Reformed Tradition in America, p. 281.