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11 setembro 2025

O Sínodo de Dordt acerca do Sabbath

By R. Scott Clark

 

Sessão 164, em 17 de maio de 1618.

 Regras sobre a observância do Sabbath, ou Dia do Senhor, com o acordo dos irmãos da Zelândia, os seguintes conceitos foram explicados e aprovados por professores doutores em Teologia.

  1. No quarto mandamento da lei divina, parte é cerimonial, parte é moral.
  2. O descanso do sétimo dia após a criação era cerimonial e sua rígida observância peculiarmente prescrita ao povo judeu.
  3. É moral, de fato, porque o dia fixo e duradouro do culto a Deus é designado, para todo o descanso necessário ao culto a Deus e à santa meditação nele.
  4. Com o Sabbath dos judeus tendo sido revogado, o Dia do Senhor é solenemente santificado pelos cristãos.
  5. Desde o tempo dos apóstolos, este dia sempre foi observado na antiga igreja católica.
  6. Este mesmo dia é, portanto, consagrado ao culto divino, para que nele se possa descansar de todas as obras servis (com exceção das que são obras de caridade e de necessidade crucial) e das recreações que impedem o culto a Deus.


Fonte: H.H. Kuyper, De Post-Acta of Nahandelingen van de nationale Synode van Dordrecht in 1618 en 1619 gehouden een Historische Studie (Amsterdam, 1899), 184–186. Traduzido do holandês por R. Scott Clark.


22 outubro 2024

A Igreja primitiva guardava o sétimo dia da semana?

 por Ewerton B. Tokashiki

 

A igreja primitiva guardava o sétimo dia?

 Há abundantes provas de que a Igreja sempre guardou o primeiro dia da semana. No entanto, desde o movimento sabatista do sétimo dia, é proposta uma nova interpretação. Ellen G. White é conhecida como sendo uma das principais expoentes deste sabatismo moderno. Em seu mais lido livro O Grande Conflito afirma que

o imperador Constantino promulgou um decreto fazendo do domingo uma festividade pública em todo o Império Romano (ver Apêndice). O dia do sol era reverenciado por seus súditos pagãos e honrado pelos cristãos. Foi instado a fazer isto pelos bispos da igreja. Inspirados pela sede de poder, perceberam que, se o mesmo dia fosse observado tanto por cristãos quanto por pagãos, isto resultaria em maior poder e glória para a igreja. Mas, conquanto muitos cristãos tementes a Deus fossem, gradualmente, levados a considerar o domingo como possuindo certo grau de santidade, ainda mantinham o verdadeiro sábado e o observavam em obediência ao quarto mandamento.[1]

 Em conversa com sabatistas sempre ouvi que o imperador romano Constantino foi quem mudou a guarda do sétimo dia para o domingo, mas não sabia a fonte nem de onde procedia essa ideia, até que ganhei um exemplar de O Grande Conflito e pude lê-lo.

Ellen White simplesmente menciona um decreto promulgado por Constantino sem citar a fonte. Talvez, ela não soubesse que história se escreve com documentos. Entretanto, ela induz o leitor a crer que este texto foi responsável pela mudança da observância do descanso do sábado para o domingo. Conforme a sua interpretação histórica, a senhora White alega que interesses políticos e até evangelísticos fizeram com que os líderes cristãos contemporâneos do imperador romano, contribuíssem para a transição da guarda do sétimo para o primeiro dia da semana. Embora a autora não forneça nenhuma fonte da sua alegação, recentemente os editores do seu livro adicionaram o suposto documento. Contudo, a bibliografia que mencionada volta-se contra eles mesmos.[2] O historiador Albert H. Newman argumenta que a suposta conversão de Constantino [cerca de 310 d.C.] favorecia socialmente os cristãos no seu império. O Cristianismo não estava sofrendo mutações para adaptar-se aos romanos, mas o império pagão estava se moldando ao costumes cristãos.[3] Newman menciona uma série de favores que o imperador concedia aos cristãos, por exemplo, como os contidos no Edito de Milão (313 d.C.),[4] a isenção da liderança cristã do serviço militar e de impostos públicos (313 d.C.),[5] aboliu práticas e festividades pagãs que fossem públicas (315 d.C.), concedeu o direito privado às igrejas locais (321 d.C.) e tornou um dever civil o descanso no domingo, conforme era o costume cristão (321 d.C.).[6] Assim, o Dies Domini celebrado no primeiro dia da semana passou a ser descanso estatal.[7] O historiador Philip Schaff esclarece que Constantino

é o fundador, de no mínimo, da observância civil do Domingo, em que somente deste modo a sua observância religiosa na igreja poderia se tornar universal e propriamente assegurada. No ano de 321, ele editou uma lei proibindo o trabalho manual nas cidades e todas as transações judiciais, e posteriormente também o exercício militar no Domingo.[8]

 Em outras palavras, o domingo não se tornou obrigatoriamente um dia de descanso para os cristãos por causa da lei de Constantino. Mas, o decreto tornou um dever civil o que por séculos era o costume religioso dos cristãos.

Embora tenha origem metodista, Ellen G. White (1827-1915) recebeu influência do movimento milenarista e sabatista procedente de William Miller (1782-1849). Ele atraiu muitos seguidores ao profetizar a vinda de Cristo para o dia 22 de outubro de 1844, fato que nunca ocorreu. Após a família White ser excluída da Igreja Metodista, por divergência doutrinária, associaram-se ao grupo adventista, sendo que ela se tornou uma  das principais líderes e a profetiza do movimento.[9] Assim, durante um ministério de aproximadamente setenta anos, alegou ter recebido cerca de duas mil visões e sonhos proféticos.[10] Numa de suas profecias ela afirma que a guarda do domingo é a marca da besta.[11] Não perderei tempo analisando esse seu erro, visto que não há nada na Escritura Sagrada que autorize interpretar com este significado o texto de Ap 13, como o faz Ellen White e o movimento adventista.[12]

 

Evidências históricas anteriores à Constantino

É possível provar documentalmente que os cristãos guardaram o primeiro dia da semana desde os seus primórdios? Recordemos que o argumento de Ellen G. White é que o abandono do sétimo dia para a guarda do domingo somente ocorreu em 321 d.C. quando Constantino promulgou a “Lei Dominical”. Leiamos o que registraram os pais da Igreja, nos séculos que antecederam ao imperador romano, e a nossa conclusão poderá descansar sobre o firme alicerce da verdade.

 

Didaquê

O mais antigo manual de preparação de batismo e discipulado da Igreja Cristã (80-90 d.C.) conhecido por Didaquê instrui como deveria ser a vida comunitária. A orientação era de que “reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro.”[13] A expressão dia do Senhor, em grego kuriakê heméra e, em latim Dies Domini tornou-se o termo para indicar o primeiro dia da semana, a que chamamos de Domingo, o dia em que o Senhor ressuscitou!

 

Inácio de Antioquia

Inácio de Antioquia em sua Carta aos Magnésios (110 d.C.) declara que

aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte. Alguns negam isso, mas é por meio desse mistério que recebemos a fé e no qual perseveramos para ser discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre.[14]

 A sistematização doutrinária exposta por Inácio aponta para a transição da antiga para a nova aliança. Esclarece que a ressurreição de Cristo é a causa da descontinuidade e acomodação para a nova ordem, e, isto inevitavelmente envolve a mudança do dia de descanso do sétimo para o primeiro dia da semana, inaugurando uma nova era.

 

A carta a Diogneto

O desconhecido escritor da Carta a Diogneto afirma que “não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados...”.[15] Em 120 d.C., o contraste entre cristãos e judeus estava estabelecido, de modo que a guarda do sétimo dia era visto pelos cristãos como sendo uma superstição judaica e não como algo normativo para a Igreja.

 

A carta de Barnabé

Um importante documento histórico apresenta alguns traços do Cristianismo do século II. A “carta de Barnabé” não tem autoria certa, mas pelo seu conteúdo a crítica literária especializada em patrística é de consenso datá-la entre 134-135 d.C. O autor interpreta o significado do sábado. Ele declara que

vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.[16]

 O seu conteúdo é abertamente contrário aos sistemas judaizantes. Nesta interpretação acerca do sábado, o autor contrasta entre o entendimento do Judaísmo e o Cristianismo.

 

Justino de Roma

O apologista cristão expressou que “no dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.” Em outro lugar ele continua

celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus transformando as trevas e a matéria, fez o mundo e, também, o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.[17]

 A preocupação de Justino não era de firmar novas doutrinas, mas apenas de expor aos seus inquisitores o que era crença e prática tradicional dentro do Cristianismo. A sua I Apologia é datada em 155 d.C. apontando para a proximidade da era apostólica, um período de pureza na fé cristã.

 

Irineu de Lião

Enquanto Justino defendia os cristãos diante dos governadores pagãos, Irineu se dedicava a atacar as heresias que brotavam dentro do cristianismo. Irineu como apologista analisava os desvios doutrinários que haviam se infiltrado dentre os cristãos. Especificamente para o nosso propósito selecionamos os heréticos que se nomeavam ebionitas,[18] que segundo Irineu eles “praticam a circuncisão e continuam a observar a Lei e os costumes judaicos da vida e até adoram Jerusalém como se fosse a casa de Deus.”[19] Além de negar a salvação somente pela graça e a sua suficiência em Cristo, os ebionitas ensinavam uma redenção por meio da obediência da lei. Dentre os “costumes judaicos da vida” incluíam a prática de guardar o sétimo dia. Eles não entenderam a cessação dos aspectos civis da lei, nem o seu cumprimento cerimonial em Cristo, de modo que, persistiam em exigi-los como complemento da salvação, e nisto consistia a sua heresia. O livro Contra as Heresias é datado entre 180 à 190 d.C.

 

Tertuliano

No início do século III os cristãos demonstravam desprezo pelos costumes judaizantes. Em seu livro Da Idolatria, escrito entre os anos 200 e 210 d.C., Tertuliano declara que “não temos praticado os sabbath ou, outras festividades judaicas, do mesmo modo que evitamos as práticas pagãs.”[20] A sua afirmação esclarece que, tanto a idolatria quanto práticas judaicas, eram evitadas no mesmo pé de igualdade. Não há dúvidas de que o descanso cristão no fim do século III era marcadamente o domingo, da mesma forma que o exclusivismo cristão testemunhava contra pagãos e judeus!

 

As leis promulgadas por Constantino incentivavam os cidadãos a adotarem a religião cristã. O império romano estava se adaptando ao Cristianismo e não o contrário. Assim, o primeiro dia da semana tornou-se descanso civil, por ser tradicionalmente desde o primeiro século um dia reservado para o culto cristão. Evidências históricas apontam ações do imperador favoráveis ao Cristianismo. O testemunho da Igreja nos primeiros séculos não somente evitava a guarda do sétimo dia, mas desprezava-a como sendo superstição, idolatria e heresia judaizante! Não há no puro Cristianismo nenhum grupo, em nenhum lugar e período que celebrasse o sábado como o dia de descanso entre os cristãos.

  

NOTAS:

[1] Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, Casa Publicadora Brasileira, 7ª ed., 2004), p. 33.

[2] Os editores no indicado “Apêndice” mencionam a Lei Dominical de Constantino apontam para a obra do historiador reformado Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. III, cap. 7. Todavia, na mesma seção [75], em seu primeiro parágrafo Schaff diz “a observância do domingo originou no tempo dos apóstolos, e as formas básicas da adoração pública, com o seu honrar, santificar e exultante influência em todas as terras cristãs”, p. 300. É estranho que a fonte que os editores citam para favorecer a tese de que a mudança era do período de Constantino (321 d.C.), inicie o texto com esta declaração!

[3] Outra obra citada no “Apêndice” como evidência a favor da tese da senhora White é o livro-texto do batista Albert H. Newman, A Manual of Church History. Mas, a discussão desenvolvida por Newman é contrária à tese sabatista!

[4] O édito encontra-se na sua íntegra transcrito na obra Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2000), vol. 15, pp. 491-494.

[5] Veja esse outro edito em Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, vol. 15, pp. 499-500.

[6] Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo (El Paso, Casa Bautista Publicaciones, 1976), vol. 1, pp., 132-133.

[7] Albert H. Newman, A Manual of Church History (Philadelphia, The American Baptist Publication Society, 1953), vol. 1, pp. 306-307.

[8] Philip Schaff, History of the Christian Church (Albany, Ages Software, 1997), vol. 3, p. 301.

[9] No livro Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do 7º Dia declara: “18. O Dom de Profecia - Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma característica da Igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como a mensageira do Senhor, seus escritos são uma contínua e autorizada fonte de verdade e proporcionam conforto, orientação, instrução e correção à Igreja. (Jl 2.28 e 29; At 2.14-21; Hb 1.1-3; Ap 12-17; 19.10)” extraído de http://www.adventistado7dia.org/iasd/crencas-fundamentais acessado em 7/10/2009.

[10] J.D. Douglas, White, Ellen Gould in: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (São Paulo, Edições Vida Nova, 1990), vol. 3, p. 646.

[11] J.K. Van Baalen, O Caos das Seitas (São Paulo, Imprensa Bíblica Regular, 1970), p. 155.

[12] Para maiores detalhes veja A.A. Hoekema, Adventismo del Septimo Dia (Kalamazoo, SLC, 1990).

[13] Didaquê in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 357.

[14] Inácio de Antioquia – Epístola aos Magnésios – Padres Apostólicos in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 94.

[15] Carta a Diogneto – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 2, p. 21.

[16] Carta de Barnabé – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 311.

[17] Justino de Roma, I Apologia in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ª ed., 1995), vol. 3, pp. 83-84.

[18] Sabe-se que “eram judeus que aceitavam Jesus como o Messias ao mesmo tempo em que continuavam a afirmar que Paulo era um apóstata da lei, negavam o nascimento virginal, praticavam a circuncisão, observavam o Sábado, a Páscoa e outras festividades judaicas”. Robert G. Clouse, et. al., Dois reinos (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 33.

[19] Irineu de Lião, Contra as Heresias in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ª ed., 1995), vol. 4, p. 108.

[20] Tertulian, On Idolatry in: Ante-Nicene Fathers, vol. 3, p. 70 citado em G.H. Waterman, Sabbath in: The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids, Zondervan Publishing, 1977), vol. 5, p. 187. Este pai da Igreja é conhecido por causa da sua ortodoxia trinitária. O termo “Trindade” foi cunhado por ele, e Philip Schaff concede-lhe o título de fundador do Cristianismo Latino.

04 novembro 2017

Uma orientação cristã - por Samuel Rutherford

1. Que algumas horas do dia, em menor ou maior tempo, com a Palavra e a oração, sejam separadas para Deus; não evitando a duodécima hora, ou o meio do dia, mas que seja, então, dedicado um período mais curto.
2. Em meio as atividades mundanas, deve-se ocupar com alguns pensamentos sobre o pecado, morte, julgamento e eternidade, com pelo menos uma ou duas palavras de oração espontâneas a Deus.
3. Tenha cuidado com a inconstância do coração na oração privada.
4. Não se deixe dominar pela má vontade, se ao terminar a oração você se encontre sem o sentimento de alegria. A contrição, sentimentos de culpa e a ansiedade, são muitas vezes melhores para nós.
5. Que o Dia do Senhor, da manhã até a noite, seja sempre ocupado com o culto público ou privado.
6. Que as palavras sejam observadas, os pensamentos fúteis e ociosos sejam evitados, bem como a raiva repentina e desejos de vingança, mesmo que por causa da perseguição da verdade. Guarde-se contra tais pensamentos, pois muitas vezes misturamos nosso zelo com nosso fogo selvagem.
7. Que os pecados conhecidos, descobertos e revelados, que são contra a consciência, sejam evitados, prevenindo-se contra os mais perigosos meios para a dureza do coração.
8. Que ao lidar com os homens a fé e a verdade em acordos e negócios sejam consideradas, para que lidemos com todos os homens com sinceridade; que a consciência evite palavras vazias e mentirosas; e que nossa conduta seja tal, que os que a vejam, falem honradamente de nosso doce Mestre e do nosso testemunho de fé.