13 fevereiro 2020

Sobre a interpretação da IPB do CMW Perg. 158

A IPB fez uma reinterpretação da Pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster, em sua Reunião Ordinária do Supremo Concílio de 2018. A decisão ocorreu, hermeneuticamente, desprezando o sentido intencional dos autores do texto original, e oferecendo um significado estranho à Pergunta 158, mediante argumentos igualitaristas, sociológicos e pragmáticos para favorecer a pregação feminina.

Esse tipo de hermenêutica despreza a intencionalidade dos autores originais, fazendo com que o leitor atribua um significado de sua preferência no termo original office [ofício]. Creio que o significado correto se encontra na intencionalidade dos autores. Por isso, a única interpretação do significado de office está conforme os teólogos da Assembleia de Westminster determinaram nas Questões 158-159. Veja sobre a tradução - ACESSE AQUI. Corroborando com isso, temos Chad Van Dixhoorn que define office como “uma posição ou cargo na igreja, especialmente de caráter público, a certas tarefas a que estão obrigados; um cargo de confiança, autoridade ou serviço na igreja.” Chad Van Dixhoorn, “Glossary”: office, in: The Minutes and Papers of the Westminster Assembly 1643-1652 - Introduction (London, Oxford University Press, 2012), vol. 1, p. 237.

A decisão não se limitou a aprovar a pregação feminina. Outras mudanças nocivas estão implícitas nela:

1. O Catecismo Maior de Westminster [nas questões 158 e 159] não permite a prática da pregação, nem a ordenação feminina. Os mesmos argumentos que autorizam, oficialmente, a pregação feminina, servirão favoravelmente aos que advogam a ordenação feminina. Aprovou-se não somente a legitimidade do igualitarismo prático, mas se pavimentou o caminho para a ordenação feminina.
2. Negou-se a subscrição integral, incluindo um sentido discordante do sentido e contexto original dos Padrões de Westminster. Apesar dos casos extraordinários serem discutidos nas comissões da Assembleia de Westminster, o fato é que nunca os divines admitiriam a possibilidade de uma mulher ser uma pregadora. Eles criam que o pregador era o "Ministro da Palavra e dos Sacramentos", ele era o único responsável para ministração de ambos. Essa era sua prerrogativa.
3. Criou-se um critério de negação da identidade confessional. Apesar da CI-IPB art. 1 declarar que a nossa denominação adota como fiel interpretação das Escrituras, e exigir que seus membros subscrevam integralmente os Padrões de Westminster, com esta decisão tornou-se possível subscrever reinterpretando o sentido de frases ou partes indesejáveis. A reserva mental é oficialmente aprovada em nosso concílio maior como algo legítimo.

A minha oração é que reconheçamos que erramos com essa decisão de 2018, como o fizemos no caso da "unção com óleo". Que o SENHOR Deus conduza a nossa IPB ao arrependimento, e ocorra uma revisão dessa decisão, de modo que, nos submetamos e sejamos fiéis ao ensino das Escrituras, e conforme juramos em nossa subscrição aos Padrões de Westminster.

07 fevereiro 2020

Um breve história da Assembleia de Westminster

Wayne R. Spear


O dia 1° de julho de 1993 marcará o 350° aniversário do início da Assembleia de Westminster, uma reunião cujo trabalho moldou profundamente a teologia daquelas igrejas que carregam o nome de presbiteriana, além de outras igrejas como as Congregacionais e algumas Batistas. A Assembleia de Westminster não foi uma assembleia eclesiástica ordinária, mas uma comissão consultiva convocada pelo Parlamento inglês com o propósito de legislar a reestruturação da Igreja da Inglaterra em um tempo de grande turbulência social e política. A Assembleia foi composta por ministros (teólogos) e leigos que eram membros das Casas do Parlamento. Eles se encontraram na Abadia de Westminster por mais de cinco anos e meio, e, durante esse período, produziram documentos que são bastante conhecidos e utilizados hoje: a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Espera-se que a comemoração deste aniversário do início da Assembleia de Westminster venha a estimular um novo interesse na história da Assembleia e um novo estudo dos excepcionais documentos que ela produziu.


Antecedentes da Assembleia

Assembleia de Westminster não se reuniu num lugar de silêncio para uma reflexão teológica sem perturbações. Em vez disso, se reuniu na capital da nação, a poucos passos das Casas do Parlamento, numa época de guerra civil na Inglaterra.

O rei James I da Inglaterra, famoso por seu relutante apoio à versão “King James” da Bíblia, foi sucedido no trono por seu filho Charles, que era mais cruel, porém menos astuto do que seu pai. Charles I, com a impaciente assistência de William Laud, o arcebispo de Canterbury, tentou governar sem a assistência ou interferência do Parlamento durante onze anos. Além das políticas econômicas que muitos consideravam como desastrosas, ele também seguiu um curso de revisão da liturgia da Igreja da Inglaterra para torná-la mais parecida com muitas práticas da Igreja Católica Romana. Os que resistiram foram punidos com prisão, exílio e mutilação.

Os resistentes costumavam fazer parte de um grupo dentro da Igreja da Inglaterra que ficou conhecido por seus inimigos como “puritanos”. Profundamente influenciados pelos princípios da Reforma calvinista, eles lutaram desde o reinado de Elizabet I para trazer a greja para mais perto do ensino bíblico. Durante esse tempo, muitos futuros membros do Parlamento foram influenciados por pregadores puritanos. Na década de 1640, a resistência às políticas de Charles I moveu-se dos púlpitos e das ruas para o Parlamento, principalmente a Câmara dos Comuns. John Pym, presidente da casa, era um puritano convicto – e se tornou posteriormente membro da Assembleia de Westminster.

O tesouro de Charles se esgotou por causa dos seus esforços para reprimir a revolução dos Covenanters na Escócia, que começou com o Pacto Nacional de 1638; então, ele relutantemente convocou o Parlamento Inglês para obter mais impostos. O Parlamento recusou conceder receitas, a menos que Charles concordasse em responder às suas reivindicações. Entre as exigências do Parlamento estava uma mudança no governo da igreja, pois os Puritanos que lideravam a Câmara dos Comuns estavam determinados a remover do poder os bispos nos quais Charles encontrou alguns de seus mais fortes aliados.

Em 1642, quando as negociações falharam, Charles tentou invadir a Câmara dos Comuns para prender os líderes. Os guardas armados retiraram suas tropas e Charles se retirou de Londres. A grande Guerra Civil Inglesa havia começado.


O chamado e o trabalho da Assembleia

O Parlamento (excluindo aqueles que apoiavam o rei) adotou um decreto em 12 de Junho de 1643, convocando uma assembleia de “teólogos eruditos e piedosos” para auxílio no estabelecimento de um governo na igreja da Inglaterra que fosse “o mais agradável à santa Palavra de Deus, e o mais apto a obter e preservar a paz da igreja” (Mitchell, The Westminster Assembly, p. ix.). O decreto nomeou dez membros da Câmara dos Lordes, vinte membros da Câmara dos Comuns e cento e vinte e um ministros.

Nem todos os nomeados compareceram de fato; o rei proibiu a presença e alguns nomeados obedeceram. Sessenta e nove se reuniram para a sessão de abertura. À medida que a Assembleia ia se estendendo, alguns foram ficando doentes ou exaustos. A frequência habitual era provavelmente em torno de sessenta pessoas.

O Parlamento nomeou o moderador da Assembleia e dois escribas. Um debate quase ilimitado foi permitido; os membros frequentemente reclamavam da duração dos debates. Thomas Goodwin advertiu aos seus irmãos que se eles estudassem mais, debateriam menos. As decisões eram tomadas por maioria de votos. Um voto notável que passou por essa margem foi em favor das diaconisas; a ação foi silenciosamente interrompida na edição final.

As regras previam que se um membro tivesse uma discordância de qualquer decisão, poderia registrá-la e apresentar os seus argumentos. Num tempo de guerra civil, essa medida significava mais do que um simples alívio de consciência. Se o Parlamento perdesse a guerra, os membros da Assembleia enfrentariam julgamentos por traição, e um registro por escrito da dissidência poderia ser útil.

A princípio, a Assembleia se reuniu na ornamentada capela de Henry VII, atrás do principal santuário da Abadia. Quando veio o tempo frio, ela foi transferida para uma menor, a Câmara de Jerusalém, onde tinha “um bom fogo” (Robert Baillie, Letters and Journals, p. 107). Ali estavam assentados de acordo com a ordem, os lordes mais próximos do fogo.


As visões representadas na Assembleia

Frequentemente, historiadores escrevem sobre os “partidos” da Assembleia. Não se tratava de grupos organizados ou facções políticas, mas de alianças inconstantes, que representavam pontos de vista divergentes sobre certas questões, geralmente associadas ao governo da igreja.

Alguns dos nomeados como membros da Assembleia estavam comprometidos com o governo da igreja episcopal, incluindo três bispos. Nenhum deles participou dos principais trabalhos da Assembleia.

Alguns dos ministros ingleses eram “presbiterianos pragmáticos”, abertos ao sistema de governo presbiteriano como a única opção viável nas circunstâncias, mas favorecendo o governo limitado dos bispos. Por exemplo, Edward Reynolds, que colaborou na redação da Confissão de Westminster, serviu posteriormente como bispo de Norwich.

Um pequeno número de membros da Assembleia foi chamado “erastianos”. Eles defendiam a supremacia do magistrado civil sobre a igreja. O seu porta-voz mais eminente era um membro do Parlamento, chamado John Selden. Eles tinham poderosos aliados no Parlamento, onde havia muito receio de uma igreja que operaria com alguma independência do Estado.

Havia muitos membros da Assembleia que eram convictamente comprometidos com o sistema de governo presbiteriano. Eles foram ensinados pelos líderes puritanos elisabetanos Thomas Cartwright e Walter Travers. Na maioria das questões, eles concordavam com os comissários escoceses.

Outro pequeno grupo, mas bastante influente, eram os ingleses “independentes” (esse nome foi dado pelos seus oponentes). Eles sustentavam que eram um caminho intermediário entre independência e presbiterianismo. Thomas Goodwin e Phillip Nye eram seus porta-vozes mais proeminentes. Dissidentes na Escócia, incluindo os presbiterianos reformados, vieram depois a adotar pontos de vista sobre a membresia da igreja que se assemelhavam aos deles.


A participação escocesa

Os membros da Assembleia de Westminster eram ingleses. Eles se reuniram em solo inglês para debaterem a doutrina, o culto e o sistema de governo da igreja da Inglaterra. O trabalho da Assembleia, entretanto, teve seu efeito mais duradouro na igreja da Escócia, e em suas igrejas filhas. A providência de Deus usou desenvolvimentos militares e políticos para trazer esse surpreendente resultado.

Em 1643, o Parlamento inglês parecia estar perdendo a guerra contra o rei. O Parlamento enviou uma delegação à Escócia, que resistiram com sucesso o rei Charles, para obter ajuda do exército escocês. O tratado sobre o qual a Escócia concordou em enviar assistência foi chamado Liga Solene e Aliança. Os seus termos incluíam um compromisso entre os países de procurar trazer as igrejas da Inglaterra, Irlanda e Escócia à “mais próxima união e uniformidade na religião, confissão de fé, sistema de governo, diretório para adoração e catecismo”.

Para cumprir essa promessa, os comissários foram enviados para participarem da Assembleia de Westminster. Os comissários eram os presbíteros Lord Maitland e Archibald Johnston, e os ministros Alexander Henderson, Samuel Rutherford, Robert Baillie e George Gillespie. Eles eram muito ativos nos debates e nos trabalhos da Assembleia, mas não votavam.


Os documentos da Assembleia

A composição de uma nova confissão não foi o principal propósito para o qual a Assembleia foi convocada. Contudo, essa situação foi mudada com a adoção da Liga Solene e Aliança, que reivindicava uma Confissão de Fé comum. Nem os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, nem a Confissão Escocesa de 1550 foram consideradas apropriadas para esse fim.

A Assembleia gastou aproximadamente três anos na produção da Confissão que veio a ter seu nome, de Agosto de 1644 até abril de 1647. A Confissão incorporou a fé reformada como desenvolvida em Genebra por João Calvino e transmitida por teólogos britânicos como Jeremiah Whitaker (o teólogo citado mais frequentemente nos debates), William Perkins e William Ames.

A Confissão de Fé de Westminster foi a única dentre as confissões reformadas a usar a teologia pactual como estrutura teológica básica.

Os catecismos eram conteúdo da educação cristã no século XVII. Alguns membros tinham publicado os seus próprios catecismos antes da reunião da Assembleia. Era natural, então, que a Assembleia providenciasse o ensino das doutrinas da Confissão por meio de Catecismos. Após um grande esforço para escrever um único catecismo, a Assembleia decidiu por dois: um curto e simples para aqueles que eram “leigos e sem instrução”, e outro para aqueles que eram “entendidos” (Mitchell, Westminster Assembly, p. 418).

O Catecismo Maior foi debatido entre Abril e Outubro de 1647. É conhecido principalmente por sua exposição detalhada dos Dez Mandamentos. Tem muitas belas particularidades que merecem ser melhor conhecidas. Por exemplo, ecoa o Catecismo de Heidelberg tratando da obediência à lei de Deus como uma maneira de cada pessoa regenerada poder expressar gratidão a Deus pela graça no evangelho. Tem questões sobre a doutrina da revelação e a da Igreja (o que não há no Breve Catecismo). A aplicação da redenção é tratada sob os temas da união e comunhão com Cristo, enfatizando a dimensão prática da fé cristã.

O Breve Catecismo foi preparado inicialmente em Agosto de 1647, mas foi debatido somente por um breve período, entre o final de Outubro e Novembro, antes de ser aprovado. O Breve Catecismo foi o mais popular na Escócia e talvez o mais influente produto da Assembleia de Westminster. É até irônico que os comissários escoceses tenham contribuído muito pouco nessa composição; a maioria deles voltou para casa antes do Catecismo ser finalizado na Assembleia.

Outros documentos produzidos na Assembleia não são muito bem conhecidos. O principal objetivo da convocação da Assembleia foi produzir um plano para a reforma do governo da igreja. Sobre esse assunto, houve considerável desacordo entre os vários membros. A Assembleia ficou grandemente ocupada debatendo assuntos do governo da igreja de Setembro de 1643 até Dezembro de 1644. O material que ela aprovou nesse período é agora encontrado como um documento intitulado “The Form of Presbyterial Church-Government”. Esse documento era uma espécie de relatório em desenvolvimento, ainda não colocado na forma final.

A palavra final sobre o governo da igreja, incluindo muitos direcionamentos práticos e uma seção sobre disciplina eclesiástica, é encontrado no Diretório de Governo da Igreja. Esse documento nunca recebeu aprovação oficial nem na Inglaterra nem na Escócia, e assim é quase desconhecido hoje. Mereceu mais atenção, como uma expressão mais completa das visões da Assembleia, e reflete um processo editorial mais cuidadoso.

Os puritanos tinham uma preocupação de como a adoração da igreja poderia ser “de acordo com a Palavra de Deus”. Apesar de apreciarem muitas características do Livro de Oração Comum, eles estavam comprometidos em eliminar toda característica que parecia promover um retorno a práticas da igreja não reformada. A Assembleia de Westminster foi solicitada pelo Parlamento a produzir um “Diretório de Culto”. O trabalho da comissão do diretório começou em Dezembro de 1643, e a Assembleia foi capaz de aprovar um documento completo um ano depois. O Diretório inclui seções sobre a leitura pública da Escritura, a oração, a pregação (com uma maravilhosa descrição do “estilo simples de pregação puritana” e as qualidades necessárias para o pregador da Palavra), os sacramentos, o Dia do Senhor, casamento, cuidado com os doentes e sepultamento dos mortos, e os dias de jejum e de ação de graças (característica marcante da piedade neste tempo).

O Diretório Para a Adoração Pública de Deus tem um parágrafo sobre o cântico de Salmos no louvor. Para implementar uniformidade no louvor, a Assembleia produziu um saltério. Francis Rous, um membro leigo da Assembleia, produziu salmos metrificados. A Assembleia revisou seu trabalho e ordenou que apenas esse livro fosse usado no culto público da igreja.


Os resultados da Assembleia

A Assembleia de Westminster começou com grandes esperanças que o Cristianismo reformado prevalecesse nas ilhas britânicas. Na providência de Deus, aqueles que mantiveram essa esperança foram desapontados. A legislação preparada pela Assembleia de Westminster recebeu aprovação qualificada do Parlamento Inglês, que foi plenamente ratificada na Escócia. Essa aprovação durou pouco tempo.

Na Guerra Civil, um comandante de cavalaria chamado Oliver Cromwell teve muitas notáveis vitórias, e com seu sucesso militar o seu poder político cresceu. Quando ele veio a ser Lorde Protetor, Cromwell, um congregacional, colocou um fim nos esforços de instalar um sistema de governo presbiteriano na Igreja da Inglaterra. Quando ele invadiu a Escócia, ele restringiu a operação do governo presbiteriano em vigor.

O reinado de Cromwell foi sucedido pelo tirânico reinado de Charles II, que repudiou o seu próprio juramento de aderência ao Pacto e perseguiu ferrenhamente todos os que permaneceram fiéis.

Quando William e Mary chegaram ao trono, durante a Revolução de 1688, a igrejada Inglaterra manteve o governo episcopal, o Livro de Oração Comum e os Trinta e Nove Artigos, que caracterizaram a existência dessa igreja antes da reunião da Assembleia de Westminster.

Na Escócia, a Confissão de Westminster tornou-se o credo oficial da Igreja, mas nenhum outro documento da Assembleia de Westminster fez parte da lei eclesiástica da igreja escocesa. Os outros documentos, entretanto, continuaram a ter um impacto significativo na Escócia. Exceto pelo Diretório de Governo, eles foram encontrados numa coleção de documentos, sob o título "A Confissão de Fé de Westminster", que foram impressos quase continuamente até os dias atuais.

As igrejas presbiterianas dissidentes na Escócia, e as igrejas presbiterianas em outros países, deram um status oficial, não apenas à Confissão, mas também a vários outros documentos de Westminster. Especialmente o Breve Catecismo é conhecido e amado, uma vez que a memorização se tornou num requisito padrão para crianças nas igrejas presbiterianas. O interesse e a discussão dos Padrões de Westminster parecem ser crescentes.

A história da Assembleia de Westminster é tanto humilhante quanto encorajadora para os cristãos. É humilhante porque contém a história do fracasso dos cristãos sinceros em alcançar o que eles se propuseram a fazer: a completa reforma da igreja “de acordo com a Palavra de Deus”. Mas também é encorajadora, porque o Senhor tem usado a obra da Assembleia para dar claridade teológica e direção bíblica para as igrejas reformadas (e outras também) por três séculos e meio. Os pensamentos de Deus não são nossos pensamentos, nem os seus caminhos, os nossos caminhos.

A ele seja a glória para todo o sempre! Amém.


Acessado de https://www.christianstudylibrary.org/article/brief-history-westminster-assembly acessado em 30/01/2020.

Tradução de Daniel Tanure
Revisão por Rev. Ewerton B. Tokashiki.

30 janeiro 2020

Declarações da Posição das Igrejas Reformadas e o Abuso Sexual

por Rev. Wes Bredenhof


Eu gostaria de saber menos sobre abuso sexual. Na minha vida pessoal e pastoral, aprendi muito sobre a realidade horrível que alguns humanos são capazes de fazer aos outros em busca de seus próprios prazeres. No entanto, o conhecimento que Deus providencialmente me concedeu tem me motivado a defender os abusados. Desenvolvi as seguintes declarações de posição com o intuito de conscientização e provocação de discussões em nossas comunidades reformadas.

Deixe-me, primeiramente, definir alguns termos. Em geral, abuso é uma conduta imprópria em relação a outra pessoa. Pode ser um evento único ou um padrão de comportamento. Em particular, abuso sexual é “a exploração sexual de uma pessoa ou qualquer intimidade sexual imposta a uma pessoa (física ou não). O abuso sexual de crianças pode incluir tirar proveito de uma criança que não é capaz de entender atos sexuais e nem de resistir à coerção, que pode vir na forma de ameaças ou de presentes. O abuso sexual inclui assédio por meio de comportamento verbal, ou físico de natureza sexual, provocado por um indivíduo visando uma pessoa, ou grupo de pessoas em particular, com a intenção de obter favores sexuais”. Essas definições vêm da Child Abuse Policy of the Free Reformed Church of Launceston [Política de Abuso Infantil da Igreja Reformada Livre de Launceston]. Além disso, o abuso sexual infantil ocorre quando as leis da idade de consentimento são violadas. No Canadá, por exemplo, a idade de consentimento é 16 anos [ou seja, essa é a idade mínima em que, outra pessoa acima ou na idade de consentimento está autorizada a exercer atividade sexual com ela].

Quando, abaixo, eu escrevo “igrejas reformadas”, refiro-me às igrejas com as quais estou mais familiarizado: as igrejas reformadas canadenses e as igrejas reformadas livres da Austrália. Isso não significa que outras igrejas reformadas não sejam afetadas, nem que todas as congregações individuais da CanRC e da FRC sejam igualmente afetadas. Estou simplesmente comentando da perspectiva de alguém familiarizado com essas federações da igreja.

DECLARAÇÕES DE POSIÇÃO

1. As igrejas reformadas devem condenar inequívoca e publicamente todas as formas de abuso
Embora devamos sempre acolher pecadores verdadeiramente arrependidos, nossas igrejas nunca devem dar a impressão de ser um porto seguro para abusadores. Em vez disso, nós devemos refletir o coração compassivo do nosso Deus para aqueles que são oprimidos e aflitos (Salmo 34.18). Além disso, nós devemos procurar criar um ambiente seguro e de cura em nossas igrejas para aqueles que sofreram abusos. Finalmente, nós devemos ser igreja onde a justiça e a retidão são mantidas, onde as vítimas não são mais abusadas e os criminosos são devidamente responsabilizados pelos seus pecados. Tudo isso começa com uma clara condenação do abuso, quando apropriado, em nossos sermões, artigos, etc.

2. O abuso sexual tem ocorrido em nossas igrejas
Embora eu não conheça qualquer dado oficial, evidências pessoais certamente indicam muitos casos de abuso sexual. Não se sabe se esses casos são desproporcionais à população em geral (certamente são dignos de um estudo competente). No entanto, com pesar, devemos admitir humildemente que isso aconteceu no passado. Poderíamos esperar que isso não mais acontecesse; porém, como as igrejas são constituídas de seres humanos pecadores e, também, de uma mistura de crentes e incrédulos (Confissão Belga, art. 29), devemos esperar, de modo real, ocorrências contínuas. No entanto, devemos fazer todo o possível para erradicar esse mal da igreja de Cristo.

3. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e espiritualidade doentia
Vítimas de abuso frequentemente lutam em seu relacionamento com Deus. Devido ao mal terrível infligido a eles (geralmente quando bem jovens), eles podem questionar a bondade, o amor e a providência de Deus. Se eles foram abusados pelo pai ou por uma figura de autoridade, eles podem ter dificuldade em se relacionar com Deus como um Pai amoroso. Eles podem também ter dificuldades em entender, e se apossarem do ensinamento bíblico sobre sexualidade, família e estruturas de autoridade matrimonial. As consequências espirituais do abuso podem ser profundas e aumentar a culpa carregada pelos agressores.

4. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e problemas de saúde mental
O abuso sexual é uma forma de trauma. É uma atrocidade que pode esmagar quem a experimentou. Qualquer tipo de trauma pode ter implicações na saúde mental. Depressão, ansiedade, automutilação, distúrbios de personalidade múltipla, vícios e outros efeitos podem resultar do abuso sexual, especialmente se não abordado. Esses problemas de saúde mental também podem apresentar desafios à saúde espiritual de uma vítima de abuso sexual.

5. Há um vínculo entre pornografia e abuso sexual contra crianças e cônjuges
Em geral, a pornografia torna pessoas em objetos como um meio de gratificação sexual. Isso predispõe um indivíduo que usa pornografia a ser um abusador. Esse efeito é agravado pela maneira como o uso da pornografia mergulha em níveis cada vez mais depravados. A extensa disponibilidade de pornografia violenta e abusiva aumenta, comprovadamente, o predomínio do abuso sexual. Consequentemente, as igrejas reformadas devem se manifestar sobre os perigos da pornografia, bem como fornecer recursos para que seus membros escapem da escravidão desse pecado.

6. Ao pregar e ensinar o Quinto Mandamento, as igrejas reformadas também devem abordar o abuso de autoridade
Evidências pessoais relatam que, algumas vezes, abusadores invocam o Quinto Mandamento (“honra teu pai e tua mãe”) como forma de justificar e continuar seus abusos. Igrejas reformadas regularmente pregam o Quinto Mandamento (com o Dia do Senhor 39 do Catecismo de Heidelberg) e devem aproveitar a oportunidade para enfatizar que esta lei não tolera comportamentos abusivos. Devemos deixar claro que o abuso é contrário à vontade de Deus; e que os abusadores que usam a lei de Deus para se justificar são duplamente condenados.

7. As igrejas reformadas devem desenvolver políticas de abuso para lidar com abusos do passado e prevenir futuros abusos
Quando colocamos as coisas no papel, indicamos que as levamos a sério. Uma questão tão importante quanto o abuso sexual não deve ser negligenciada. Embora nem todas as circunstâncias possam ser previstas, algumas diretrizes gerais para líderes e membros da igreja podem ajudar bastante a lidar efetivamente com abusos recentes na igreja. Além disso, políticas para impedir futuros abusos também devem estar em vigor como uma questão de devida diligência na proteção das ovelhas e cordeiros do rebanho de Deus.

8. Qualquer igreja local que facilite o abuso, acobertando-o ou recusando-se a denunciá-lo, põe em questão seu status de verdadeira Igreja de Cristo
Uma das marcas da verdadeira igreja é o fiel exercício da disciplina. Se uma igreja local permite que o abuso permaneça encoberto, em vez de atribuir a esse pecado a maior gravidade que existe, ela está dramaticamente longe dessa marca. Se os oficiais de uma igreja se recusam a denunciar abusos às autoridades apropriadas, eles também mostram uma falha significativa em lidar adequadamente com o pecado. Uma igreja verdadeira leva a sério os pecados sérios e os trata de acordo, tanto pelas chaves do reino dos céus quanto pela cooperação com as autoridades civis, quando apropriado.

9. Há esperança para os abusadores e os abusados no evangelho do Senhor Jesus Cristo
Para aqueles que sofreram abusos, as feridas podem ser saradas. Eles podem ser curados quando o bálsamo do evangelho é aplicado, assim, aprendemos a entender melhor a insondável graça de Deus para conosco e para com os outros. Os autores de abusos no passado também podem encontrar ajuda e cura na cruz. Se eles verdadeiramente se arrependerem dos seus pecados, se eles forem humildes e honestos, se eles olharem apenas para Cristo como sua justiça, eles poderão receber perdão de um Deus gracioso e uma mudança significativa em suas vidas pelo poder do Espírito Santo. No entanto, isso de forma alguma diminui as consequências pessoais, criminais ou eclesiásticas desse pecado.


NOTAS:
[1] Extraído de https://yinkahdinay.wordpress.com/2018/10/30/position-statements-on-reformed-churches-and-sexual-abuse/
[2] Nota do autor: eu não reivindico exaustividade a essas declarações, nem afirmo que elas são a melhor e final maneira de enquadrar os problemas abordados. Se outros desejarem melhorá-las, certamente serão bem-vindos.

Tradução de Daniel Tanure
Revisado por Rev Ewerton B. Tokashiki

04 janeiro 2020

O que fazer na visitação pastoral?

por Pr Ewerton B. Tokashiki


A visitação pastoral é uma prática que recebe pouca atenção na teologia pastoral. É algo tão comum e esperado que, às vezes, se pressupõe que todos sabem como fazê-lo. Imagina-se que é só ir à casa dos membros ou interessados, fazer-se agradável na conversação, com o objetivo de manter a proximidade na relação pastoral com aqueles que congregam na igreja que pastoreia. Apesar da preocupação da boa relação pastor e membro fazer parte da visitação pastoral, resumi-la a essa ideia é empobrecer tão importante atividade espiritual no cuidado do rebanho.

Sabe-se que há, por vezes, alguns membros que reclamam de pastores e presbíteros que não se dedicam à visitação. Essa falha aumenta a sua gravidade quando a presença da liderança no lar destas famílias é uma real necessidade. Se há problemas, então, há urgência de abordagem, acompanhamento e orientação visando soluciona-los.

A visitação pode ter diferentes propósitos. Há visitas que são de caráter preventivas e outras são remediativas. As visitas preventivas envolvem desde a manutenção do bom convívio pastoral, verificação do conhecimento bíblico e confessional, supervisão da saúde espiritual das famílias, e integração dos novos convertidos e interessados no evangelho. A visita remediativa implica na resolução de todos os conflitos, desvios, e qualquer crise doutrinária, relacionamentos, ou partidarismos no meio da igreja.

Quais são os motivos da visitação pastoral?

1. A visita ocorre a pedido da família? Há famílias que apreciam a presença regular do seu pastor em suas casas. Elas são agradáveis e muito fraternas em sua recepção. Geralmente, por causa da confiança e companheirismo em relação à liderança, essas são visitas que visam conversar sobre melhorias na estrutura e eventos da igreja local. Entretanto, há casos em que um membro da família, buscando socorro pastoral para alguma situação de crise, solicita a visita para aconselhamento. É possível que notifique com antecedência, mas há pessoas que preferem esclarecer o motivo do pedido de visita quando se está em sua casa. Assim, se possível, pergunte o motivo da visita, mas se a pessoa não quiser revela-lo, vá em oração, e esteja disposto a cuidar com o necessário sigilo dessa família.

2. É uma visita de manutenção? É importante que o pastor tenha um programa ou roteiro de visitação de todas as famílias da igreja local. A comunidade local é formada de famílias, e elas precisam de contato pastoral. O melhor lugar para conhecer as suas ovelhas é nos lares dos membros. Nesse caso a visita não precisa ter um motivo de urgência, ou de gravidade, mas visa o contato com as famílias no decorrer do ano. Talvez, não seja possível ir à casa de todas as famílias durante um ano, pois isso exige a possibilidade dentro da agenda do pastor e das ovelhas, e ainda, das programações da igreja. Mas, não se deve desistir da intenção de fazer-se próximo de suas ovelhas, em especial, pela visitação nos lares.

3. Está ocorrendo alguma crise familiar? Não é problema ter problemas, mas é uma situação complicada, não querer trata-los. Quando um membro de uma família recorre ao seu pastor solicitando a visita, por motivo de crise conjugal, ou de desentendimento entre pais e filhos, então a prioridade, entre as muitas atividades pastorais, é a visitação deste lar. Mesmo que a família não informe, ou não queira que a liderança saiba de seus problemas, todavia, se esses problemas chegam ao conhecimento do pastor, é seu dever, por vocação e dons recebidos por Deus, que ele procure as ovelhas que o Cristo lhe confiou cuidar. Quando se tarda em confrontar, e solucionar crises, elas tendem a piorar e, talvez, até destruir.

4. Há algum problema de relacionamento entre membros da igreja? No convívio de pessoas pode ocorrer atritos, conversas difamatórias, desentendimentos diversos, ou diferentes pecados que ferem a prática da comunhão entre os irmãos. Quanto a prática de Mt 18 falha por parte dos membros que entraram em contenda, o pastor deverá facilitar a obediência e conciliação entre eles.

5. Existem dúvidas ou discordância doutrinária a serem resolvidas? É possível que membros não entendam corretamente algum tema bíblico, ou nalgum momento sejam contaminados por algum erro doutrinário, ou seduzido por alguma ideologia anticristã. A conversação numa visita poderá examinar, ou descobrir inseguranças, ou desvios teológicos, e então, corrigi-los.

6. Há pecados públicos a serem tratados? Se há rumores, ou, de fato, o conhecimento de pecados públicos que necessitarão de condução disciplinar, a visita pastoral é um excelente remédio no processo de restauração do membro. A visitação propicia a possibilidade da confrontação na expectativa de que o irmão se torne em réu confesso, e se submeta voluntariamente à disciplina bíblica.

Proponho aos pastores, presbíteros e diáconos algumas sugestões práticas para uma efetiva visitação:
1. Converse
2. Leia as Escrituras
3. Aconselhe
4. Ore

O que conversar numa comum visita pastoral? Não se pode desperdiçar esse contato da liderança com os membros da igreja. O momento de conversa não pode ser preenchido com trivialidades, assuntos supérfluos, ou irrelevantes para a verificação da saúde espiritual e bom desenvolvimento da família na fé cristã. Afinal, o pastor é chamado para auxiliar as suas ovelhas na instrução do evangelho e santificação do rebanho. Assim, como supervisor espiritual daqueles que lhe foram confiados, ele deverá examinar se as famílias estão comprometidas no exercício espiritual como membros da igreja. Segue abaixo algumas questões sugestivas:
1. Há a realização regular do culto doméstico?
2. Há leitura continuada de toda a Bíblia?
3. Há instrução dos filhos com o Breve Catecismo de Westminster [outro documento confessional]?
4. Há participação assídua dos cultos e reuniões da igreja?
5. Os membros da família estão comprometidos com a prática do discipulado de interessados no evangelho, ou novos convertidos?

Há pastores que descuidam da prática da visitação. É um prejuízo incalculável negligenciar o contato pessoal das ovelhas, porque é impossível conhecer pessoas sem se aproximar delas, ou sem se relacionar estreitamente com elas. O pastor precisa ter o cheiro das suas ovelhas, e para isso, ele carece conviver com elas. As ovelhas confiam em seu pastor quando elas sabem da sua fidelidade bíblica e sua preocupação cuidadora com suas famílias.

“Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.17)