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06 agosto 2026

A conversão repentina de João Calvino (a subita conversio)

 Por Willem Van’T Spijker

 

Calvino aparentemente seguia os desejos de seu pai por obediência quando Deus, mediante a rédea secreta de Sua providência, o conteve. Sua conversão foi guiada pelo próprio Deus. O que chama a atenção é a franqueza com que Calvino descreve quão “obstinadamente devotado” ele estava “às superstições do papado”, a ponto de não conseguir “libertar-se facilmente de um abismo de lama tão profundo”. Mesmo considerando sua idade, ele já estava “endurecido em tais questões”. Somente por meio de uma “conversão repentina” ele foi “subjugado e conduzido... a uma disposição dócil”. Com o termo “repentina” (subita), Calvino indica que essa não foi apenas uma mudança decisiva, mas também uma conversão inesperada e graciosa, que só poderia ser explicada como uma intervenção graciosa do próprio Deus.[1] Assim, ele se tornou um discípulo que, “tendo recebido algum gosto e conhecimento da verdadeira piedade”, passou a ser receptivo à “doutrina mais pura”. Em menos de um ano, todos os que desejavam tal doutrina o procuravam para aprender. Uma mudança radical havia ocorrido.

Ao que parece, devemos considerar a subita conversio como um conceito teológico que Calvino empregou em 1557, quando sua posição em Genebra já estava consolidada, para expressar a convicção de seu chamado. Portanto, o termo não visa, primordialmente, a uma definição cronológica. A conversio conduziu a uma vocatio à qual ele não podia se furtar. Ele foi subjugado à conversão pelo fato de que sua busca pela verdadeira piedade encontrou satisfação na purior doctrina. Contido pela providência divina, ele finalmente cedeu.

A questão sobre o que o retinha até aquele momento é respondida pelo próprio Calvino em sua carta a Sadoleto: a reverência pela igreja (ecclesiae reverentia).[2] Podemos presumir que Calvino fala aqui de maneira muito pessoal sobre a resistência que demonstrava em relação à doutrina purificada, à qual mal dava ouvidos. Contudo, quando abriu os ouvidos e permitiu ser instruído, percebeu que aquele receio de não demonstrar reverência suficiente pela igreja não tinha fundamento.[3]

O que antes lhe parecia uma afronta à dignidade, agora se apresentava como superstição. A reverência pela igreja deve vir acompanhada da reverência pelas Escrituras.[4] Para Calvino, essa volta às Escrituras estava ligada ao fato de que ele não encontrava a verdadeira paz de consciência em nenhum outro lugar senão na pregação bíblica. Ele não era do tipo que escrevia suas "confissões", como Agostinho. Também não falava com a mesma abertura sobre sua experiência de fé que Lutero costumava fazer. Na carta a Sadoleto, porém, ele nos deixa entrever algo de sua luta interior: "Pois sempre que eu mergulhava em mim mesmo ou elevava meu coração a Ti, um terror extremo se apoderava de mim — um terror que nenhuma expiação ou satisfação poderia curar". A essa angústia de consciência, o evangelho — que lhe chegara sob uma forma inteiramente nova, como doctrina, finalmente trouxe descanso quando ele se permitiu ser instruído. Em seu conteúdo, essa passagem da carta a Sadoleto concorda com a nota autobiográfica na introdução ao comentário sobre os Salmos. Talvez, em ambos os documentos, Calvino esteja descrevendo os motivos que o levaram a optar pelo movimento evangélico, mesmo quando isso tornava inevitável o rompimento com Roma.

A subita conversio, portanto, oferece um retrato do que foi, na verdade, um processo mais longo de desenvolvimento rumo a uma decisão definitiva, iniciado anteriormente. Em outro momento, Calvino fala de uma época em que experimentara um pouco da sã doutrina que começava a libertá-lo das trevas do papado. Isso ocorreu no início da controvérsia sobre a Ceia do Senhor, antes mesmo do Colóquio de Marburgo.[5] Esse detalhe coincide com o relato de Beza na biografia de Calvino, onde lemos que, em Orléans, Calvino reencontrou seu primo Pierre Robert Olivétan (Olivetanus), também natural de Noyon. Muito provavelmente, foi ele quem colocou Calvino em contato com a Reforma.[6] Segundo essas mesmas informações, durante o período de seus estudos em Orléans e Bourges, Calvino pregava regularmente na região. Tudo isso, contudo, ainda ocorria no contexto do humanismo religioso do círculo em torno de Lefèvre, que também se fazia presente em Orléans naquela época. Beza relata que foi após a estadia de Calvino em Paris que ele decidiu dedicar-se inteiramente a Deus.[7] Podemos presumir que essa decisão definitiva coincidiu com a subita conversio mencionada no comentário aos Salmos.


Notas:

[1] Institutas 1.8.11 (CO vol. 2, p. 67): Paulus vero non tantum ex professo hoste, sed etiam saevo et sanguinario, conversus in novum hominem, subita et insperata mutatione ostendit coelesti imperio se compulsum doctrinam quam oppugnaverat asserere. ["Mas Paulo, não apenas por ser um inimigo declarado, mas também por ser um homem selvagem e sedento de sangue, transformou-se em um novo homem, demonstrando, por meio de uma mudança repentina e inesperada, que foi compelido por um mandamento celestial a afirmar a doutrina que havia atacado." tradução de Ewerton B. Tokashiki].

[2] CO vol. 5, p. 412.

[3] Ibid.: Verum ubi aliquando aures aperui, meque doceri passus sum, supervacuum fuisse timorem illum intellexi, ne quid ecclesiae maiestati decederet. ["Mas quando finalmente abri meus ouvidos e me permiti ser ensinado, compreendi que o medo de que algo se perdesse na majestade da Igreja era desnecessário." tradução de Ewerton B. Tokashiki].

[4] Cf. Institutas 1.8.11 (CO vol. 2, p. 67).

[5] CO vol. 9, p. 51: Quum enim a tenebris papatus emergere incipiens, tenui sanae doctrinae gustu concepto ... . ["Pois quando o papado, começando a emergir das trevas, concebeu, com um vago apreço pela sã doutrina...". tradução de Ewerton B. Tokashiki].

[6] CO vol. 21, pp. 29-30, 54ss., 121-22: “Calvino fez parte da sua resolução de se entregar a todos os 4 dias, trabalhando com grandes frutos”, “tendo experimentado algo da religião pura por meio de um parente e amigo seu, chamado Pierre Robert, também conhecido como Olivetanus, ... ele começou a se distrair das superstições papais.” [tradução de Ewerton B. Tokashiki].

[7] CO 21:56: “Calvin done de sa part prenant dés lors resolution de se dedier du tout 4 Dieu, travailloit avec grand fruit.” ["Calvino, por sua vez, tomando a partir de então a resolução de se dedicar inteiramente a Deus, trabalhou com grandes frutos." tradução de Ewerton B. Tokashiki]


Willem Van'T Spijker, Calvin: A brief guide to his life and thought (Louisville, Wesminster John Knox Press, 2009), pp. 19-20.

25 fevereiro 2025

Um catecismo acerca do coração

 Por Sinclair Ferguson

 

Às vezes, as pessoas perguntam aos autores: "Qual dos seus livros é o seu favorito?" Na primeira vez que a pergunta é feita, a resposta provavelmente será "Não tenho certeza; nunca pensei realmente sobre isso". Mas, forçado a pensar sobre isso, minha própria resposta padrão se tornou: "Não tenho certeza de qual é meu livro favorito; mas meu título favorito é Um coração para Deus". Raramente me perguntam: "Por quê?", mas (caso você pergunte) o título simplesmente expressa o que eu quero ser: um cristão com um coração para Deus.

 Talvez isso seja em parte um reflexo do fato de que nos sentamos nos ombros dos gigantes do passado. Pense no selo e no lema de João Calvino: um coração sobre a palma da mão e as palavras "Eu ofereço meu coração a Ti, Senhor, pronto e sinceramente". Ou considere o hino de Charles Wesley:

Ó, por um coração para louvar meu Deus!

Um coração liberto do pecado.

 Alguns hinários não incluem o hino de Wesley, presumivelmente em parte porque ele é lido como uma expressão de sua doutrina de amor perfeito e plena santificação. (Ele pensou que seria possível ter seu anseio realizado neste mundo). Mas, o sentimento em si é certamente bíblico.

 Mas por trás dos gigantes da história da igreja está o testemunho das Escrituras. O primeiro e maior mandamento é amar o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração (Dt 6.5). É por isso que, ao substituir Saul como rei, Deus "procurou um homem segundo o seu coração" (1Sm 13.14), pois "o Senhor olha para o coração" (1Sm 16.7). É um truísmo dizer que, em termos de nossa resposta ao evangelho, o cerne da questão é uma questão do coração. Mas, sendo trivial ou não, é verdadeiro.

 Como isso se parece, como é desenvolvido, de que maneiras pode ser ameaçado e como se expressa será explorado pouco a pouco nesta nova coluna. Mas, neste estágio, talvez nos ajude se mapearmos algumas questões preliminares na forma de um catecismo sobre o coração:

 Questão 1. O que é o coração?

A. O coração é o núcleo central e o impulso da minha vida intelectualmente (envolve minha mente), afetivamente (molda minha alma) e totalmente (fornece a energia para minha vida).

 Questão 2. Meu coração é saudável?

A. Não. Por natureza, tenho um coração doente. Desde o nascimento, meu coração é deformado e antagônico a Deus. As intenções de seus pensamentos são continuamente más.

 Questão 3. Meu coração doente pode ser curado?

R. Sim. Deus, em sua graça, pode me dar um novo coração para amá-Lo e desejar servi-Lo.

 Questão 4. Como Deus faz isso?

R. Deus faz isso por meio da obra do Senhor Jesus por mim e do ministério do Espírito Santo em mim. Ele ilumina a minha mente por meio da verdade do evangelho, liberta minha vontade escravizada de sua escravidão ao pecado, purifica minhas afeições por sua graça e motiva-me interiormente a viver para Ele gravando a sua lei em meu coração para que eu comece a amar o que Ele ama. A Bíblia chama isso de "nascer do novo".

 Questão 5. Isso significa que nunca mais pecarei?

R. Não. Continuarei a lutar contra o pecado até ser glorificado. Deus me deu um novo coração, mas no momento Ele quer que eu continue vivendo em um mundo caído. Então, dia após dia, enfrento as pressões do pecado que vêm do mundo, da carne e do Diabo. Mas a Palavra de Deus promete que sobre todos esses inimigos eu posso ser “mais que vencedor, por meio daquele que nos amou”.

 Questão 6. Quais são as quatro coisas que Deus me aconselha a fazer para que meu coração seja guardado para Ele?

  1. Devo guardar meu coração como se tudo dependesse dele. Isso significa que devo guardar meu coração como um santuário para a presença do Senhor Jesus e não permitir que nada nem ninguém entre.
  2. Devo manter meu coração saudável por meio de uma dieta adequada, fortalecendo-me com uma dieta regular da Palavra de Deus — lendo-a por mim mesmo, meditando sobre sua verdade, mas especialmente sendo alimentado por ela na pregação da Palavra. Também me lembrarei de que meu coração tem olhos e ouvidos. O Espírito me mostra o batismo como um sinal de que carrego o nome trino de Deus, enquanto a Ceia do Senhor estimula o amor do coração pelo Senhor Jesus.
  3. Devo fazer exercícios espirituais regulares, pois meu coração será fortalecido pela adoração quando todo o meu ser for entregue a Deus em expressões de amor e confiança nele.
  4. Devo entregar-me à oração na qual meu coração se apega às promessas de Deus, descansa em sua vontade e pede por sua graça sustentadora — e fazer isso não apenas por mim mesmo, mas com outros, para que possamos encorajar uns aos outros a manter um coração para Deus.

 Isso — e, muito mais — requer desenvolvimento, elaboração e exposição. Mas pode ser resumido em uma única frase bíblica. Ouça o apelo do seu Pai: “Meu filho, dá-me o teu coração.”

 

Extraído DAQUI

 

15 fevereiro 2025

5 coisas que você precisa saber sobre a teologia da aliança

 Por Harrison Perkins

 

 Alguns tópicos são abordados com frequência suficiente nas igrejas reformadas para que seja fácil perder a compreensão do básico. Um desses tópicos é a teologia da aliança. Vejamos cinco coisas que os cristãos precisam saber sobre a teologia da aliança.

 1. A teologia da aliança é sobre nosso relacionamento com Deus. Uma aliança é um relacionamento formal. O casamento exemplifica melhor esse tipo de relacionamento (Ml 2.14). O casamento é o vínculo mais íntimo que duas pessoas podem ter. Essa parceria supremamente pessoal e amorosa também é um acordo legal. As alianças funcionam de maneira semelhante.

 A teologia da aliança nos ajuda a apreciar melhor como Deus se relaciona conosco. Andar com o Senhor seria muito difícil se Ele não tivesse clareza sobre como é nosso relacionamento com Ele. Se tivéssemos que adivinhar sobre coisas como o que Deus sente por nós, se Ele nos aceita, como Ele nos aceita e as melhores maneiras de buscá-Lo, então frequentemente nos sentiríamos incertos sobre nossa posição com Ele.

 A teologia da aliança afirma que Deus explica claramente como deve ser nosso relacionamento com Ele. A Escritura Sagrada é a revelação clara e escrita de Deus de como podemos ter um relacionamento correto com Ele. Como uma aliança é um relacionamento formal, Deus nos dá certeza sobre nosso relacionamento com Ele, pois Ele se compromete conosco nesse vínculo fixo.

 2. A teologia da aliança nos ajuda a entender o relacionamento entre obras e graça. O texto de Ef 2.8–9 captura um aspecto crítico de como os protestantes da Reforma entenderam a salvação: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós; é dom de Deus, não resulta de obras, para que ninguém se glorie.” Às vezes, lutamos para explicar como essa oferta gratuita de salvação somente pela graça se relaciona com o ponto no versículo 10: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef. 2:10). Como mantemos unida a liberdade que a graça traz com nossa responsabilidade de viver bem? No entendimento tradicional reformado, a teologia da aliança distingue entre a aliança das obras e a aliança da graça. Deus fez a aliança das obras com Adão antes da queda, e ela tinha a condição de perfeita obediência. Na aliança da graça, trazida pelo segundo Adão, Jesus Cristo, Deus nos aceita como seu povo pela fé somente na obra expiatória de Cristo. Essas duas alianças esclarecem que obras e graça são duas maneiras diferentes e opostas de buscar garantir a salvação e a posição correta com Deus.

 A teologia da aliança nos ajuda a relacionar graça e obras, porque nossas obras não podem ser a base do nosso relacionamento com Deus, embora boas obras sejam produzidas nas vidas dos verdadeiros crentes. Porque nossas obras não são a condição da aliança de Deus com os crentes para a salvação, elas não podem ser a razão pela qual estamos certos diante de Deus.

 3. A teologia da aliança nos ajuda a ver Cristo em todas as Escrituras. O texto de Cl 2.17 explica que muitas características da vida religiosa de Israel “são sombras das coisas futuras, mas a substância pertence a Cristo”. Embora o período do Antigo Testamento impusesse muitas cerimônias ao povo de Deus, essas práticas os ensinavam sobre Aquele que havia sido prometido em Gn 3.15, o Redentor vindouro em quem eles deveriam depositar sua fé. Como a fé em Cristo tem sido o único caminho de salvação desde a queda, a teologia da aliança nos lembra que Cristo é a substância de todas as relações de Deus conosco nas Escrituras.

 4. A teologia da aliança nos ajuda a ver a importância da igreja. Na Grande Comissão em Mt 28.19–20, Jesus instruiu a igreja a discipular todas as nações “batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo o que eu vos ordenei”. Essas ordenanças externas de administrar os sacramentos e ensinar a Palavra de Deus são os meios de avançar nossa missão como povo de Deus.

 A teologia da aliança nos lembra não apenas que Cristo é a substância de todas as Escrituras, mas também que Ele vem ao Seu povo para fazer Sua obra espiritual sobre nós por meio dos meios ordinários de graça que Ele deu à Sua igreja. O Breve Catecismo de Westminster na pergunta 88 lembra-nos que os meios de graça da igreja são a Palavra, os sacramentos e a oração. Esses meios externos, que entregam Cristo como a substância da aliança aos crentes, têm sido frequentemente chamados de “administração externa” da aliança. A igreja é uma parte necessária da vida cristã porque é como participamos dessa administração externa onde encontramos Cristo.

 5. A teologia da aliança nos auxilia a ter uma certeza mais profunda à medida que buscamos a santidade. O texto de Ef 1.13–14 explica que a habitação do Espírito nos crentes em Cristo é a garantia da nossa vida eterna: “Nele [Cristo] vocês também, quando ouviram a palavra da verdade, o evangelho da sua salvação, e creram nele, foram selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é a garantia da nossa herança até que a alcancemos em possessão, para louvor da sua glória.” Temos este Ajudador divino para nos estimular em santidade à medida que andamos com Cristo.

 A teologia da aliança nos lembra que a nossa santidade fortalecida pelo Espírito é um presente que Cristo conquistou para nós. Cristo cumpriu todas as condições de perfeita obediência em nosso favor. Ele nos equipa com o seu Espírito para que possamos buscá-Lo em fidelidade. Este dom do Espírito é evidência de que já pertencemos a Cristo e temos a certeza da vida com Ele na eternidade.

 

Extraído DAQUI  

06 outubro 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 10

Existe outro método do diabo para impedir o serviço dos crentes, consiste em leva-los a pensar que há um pequeno número de pessoas que servem a Cristo e que essas pessoas são os menos importantes, os de menos influência e os mais pobres de todos. Satanás lhes dirá: “Garanto que não querem desperdiçar a sua vida no meio de um povo como este, sem poder, sem influência, ignorantes e pobres. Não vale a pena obedecer a Deus se seu povo é assim”. Como os crentes devem reagir quando o diabo lhes fala desta maneira?

Primeiro, devem recordar que ainda que Satanás chame aos seguidores de Cristo de pobres, e ainda que sejam pobres quanto aos bens do mundo, na realidade são os mais ricos. Não são ricos quanto ao dinheiro, ou quanto aos bens, mas ricos nas bençãos de Deus. Tiago falando deste assunto escreveu: “Meus amados irmãos ouçam: Não escolheu Deus aos pobres deste mundo, para que sejam ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que lhe amam?” (Tg 2.5). Estes poucos, pobres e insignificantes cristãos como Satanás lhes chamaria, na verdade são os mais ricos e poderosos do mundo. Ainda que tenham pouco em suas mãos, possuem muito em suas esperanças. Ainda que quase não tenham nada no tempo presente, são os herdeiros do glorioso reino de Deus.

Os crentes também devem recordar que ao longo da história humana, alguns dos crentes são ricos e famosos. Por exemplo Abraão e Jó são dois casos de crentes que eram ricos em bens materiais. Então, Satanás não tem razão em dizer que todos os crentes sempre foram pobres. Alguns crentes são ricos em bens deste mundo e todos são ricos em bençãos espirituais.

As bênçãos espirituais são maiores que todas as riquezas terrenas de todos os inconversos no mundo. O crente mais pobre com bênçãos espirituais, possui mais do que a pessoa mais rica da terra sem elas. As bençãos espirituais satisfazem quando as bênçãos materiais não podem fazê-lo. Jesus falou das bênçãos espirituais como água viva: “O que beber da água que eu lhe darei, jamais terá sede; mas a água que eu lhe darei será uma fonte de água viva para a vida eterna” (Jo 4.14). Os crentes têm bênçãos perduráveis que nunca poderão ser tiradas deles. As bênçãos dos crentes lhes acompanham em todo o tempo: na prisão, no tempo da enfermidade, na hora da morte e na eternidade. Nenhuma das riquezas terrenas podem fazer isto. Quem é realmente pobre? O que crente é chamado de “pobre”, ou o inconverso mais rico da terra?

Satanás está ocultando parte da verdade quando diz que somente há crentes pobres no mundo. Ainda que pareça que seja assim, a realidade é outra. O número total de crentes no mundo é enorme. E o número de crentes que existe no decorrer da história também é expressivo. Apocalipse 7.9 diz que o apóstolo João viu “uma grande multidão a qual ninguém poderia contar, de todas as nações, tribos e povos e línguas, que estavam diante do trono e da presença do Cordeiro”. Ainda que seja possível que muitos crentes vivam em lugares onde existam poucos cristãos e muitos deles sejam pobres e humildes, nem sempre é assim. Em breve virá o dia em que estes crentes pobres e humildes brilharão como o sol. Paulo escreveu acerca de como Deus levantou aos crentes e os fez assentar nos lugares celestiais (Ef 2.6). Haverá um dia em que Deus mostrará ao mundo o quão bendito é o seu povo. Então os ricos da terra invejarão aos crentes, que antes julgaram como pobres.

26 setembro 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 9

Continuemos pensando em outras duas maneiras em que o diabo procura afastar os crentes de seu serviço a Deus. Primeiro, lhes fará pensar que tão difícil é seguir a Cristo. Ele lhes dirá que é difícil orar, é difícil pensar constantemente nas coisas espirituais, que é difícil ter comunhão com os outros crentes, difícil de obedecer, etc.

O primeiro remédio contra tal maquinação é o pensar mais na necessidade de servir a Cristo, que nas dificuldades que terão ao servi-lo. Os crentes devem servir a Cristo para mostrar-lhe o seu agradecimento. Os crentes necessitam crescer em santidade para que possam vencer o pecado. Necessitam ser obedientes a Deus para que possam cumprir a sua obra neste mundo. Os crentes necessitam seguir a Cristo para que o propósito de Deus seja cumprido em suas vidas. Não há dúvida que os crentes enfrentarão problemas e dificuldades ao seguir a Cristo, mas os crentes verdadeiros assumem esta responsabilidade, mesmo cientes dos problemas que possam sobrevir-lhes.

Segundo, os crentes devem recordar, que se realmente querem servir a Cristo, Ele lhes ajudará tanto que não lhes será difícil. Talvez, no início não lhes pareça fácil, mas enquanto forem cumprindo a vontade de Deus, descobrirão que experimentam grande gozo ao realiza-la. Enquanto serve a Deus, encontra de modo pessoal que Deus lhe está apoiando, fortalecendo, animando e guiando através do caminho mais difícil. Podemos ver na Bíblia como as pessoas zombavam de Neemias e dos demais judeus que pretendiam levantar novamente os muros de Jerusalém. Todavia, Neemias contava com a fortaleza de Deus como sua ajuda. Neemias 2.20 disse: “O Deus dos céus, Ele nos prosperará, e como seus servos nos levantaremos e edificaremos...”. Igualmente Isaías disse a respeito de Deus: “Saíste ao encontro de quem com alegria para a justiça, dos que acordavam de ti em teus caminhos...” (Is 64.5).

Também os crentes necessitam pensar muito acerca das dificuldades que o próprio Cristo sofreu, de como Ele nunca fugiu do sofrimento. Suportou os piores sofrimentos em corpo e alma para o nosso bem-estar espiritual e para o nosso bem eterno. Em Isaías 50.6 Cristo disse: “Dei meu corpo aos algozes, e minhas bochechas aos que me arrancavam a barba, não escondi o meu rosto das injúrias e dos escarros.” Cristo suportou a ira do Pai, a carga dos nossos pecados, a malícia de Satanás e o ódio do mundo. Porque Cristo sofreu tanto pelos nossos, devemos obedecer-lhe e viver para Ele, ainda que isto signifique que tenhamos que sofrer de alguma forma.

Os crentes devem perceber que servir a Cristo é difícil somente para o seu velho homem, os remanescentes de sua natureza caída. Todos os crentes estão obrigados a despojar-se do velho homem e a passada maneira de viver e a vestir-se do novo homem (Ef 4.22-23). O novo homem tem prazer em seguir a Cristo, é a sua natureza pecaminosa quem não gosta de servir a Deus. Em Romanos 7.22 o apóstolo Paulo disse: “Segundo o homem interior (o novo homem) me deleito na lei de Deus”. Para a nova criatura o jugo de Cristo é fácil e sua carga é leve (Mt 11.30). Para o novo homem os mandamentos de Deus não são pesados, mas sim causa de gozo. Todos os crentes sabem que esta é a verdade, e há algo em seu interior que lhes faz desfrutá-la agradando a Deus.

Finalmente, há grandes recompensas para aqueles que apesar de suas dificuldades seguem a Cristo fielmente. Há galardões no futuro. O céu recompensará tudo. No livro de Hebreus lemos acerca da fé de Moisés que teve por maiores riquezas o vitupério de Cristo que os tesouros dos egípcios, porque contemplava o galardão (Hb 11.26). Além disso, há recompensas nesta vida para aqueles que seguem a Cristo apesar das dificuldades. O Salmo 19.11 disse que ao guardar os mandamentos há grande recompensa. Quão néscios são os crentes que permitem que Satanás lhes roube este grande galardão.

Satanás pode usar outro método para conseguir que os crentes não sirvam à Deus. Pode tratar que pensem equivocadamente acerca do que Cristo fez em favor deles. Ele lhes sugerirá que por ter Cristo realizado tudo pelo seu povo, tendo lhes perdoado, justificado e garantido a sua chegada ao céu, então não há nada que fazer, a não ser contentar e satisfazer-se. Satanás deseja que pensem que pelo fato de Cristo ter sido castigado como seu substituto e que Cristo está no céu preparando um lugar para eles, então, não há necessidade de orar, arrepender-se, de estudar a Palavra, de reunir-se com outros crentes. Enfim, porque Cristo nos salvou, não há necessidade de que lhe sirvamos.

Ao fazer estas sugestões, Satanás está tomando uma parte da verdade e converte-a numa mentira. É certo que se não fosse pela obra salvadora de Cristo, não haveria nenhum crente. Todavia, ser um cristão incluí mais do que o mero receber o que Cristo fez. A Bíblia disse: “Não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por preço; glorificai, pois, a Deus em vosso corpo e vosso espírito aos quais são de Deus” (1Co 6.19-20). Os crentes pertencem a Cristo. Eles lhe pertencem a fim de que façam sua vontade motivados por gratidão e amor a Ele. Então Satanás mente quando sugere que uma vez que somos salvos por Cristo, não é necessário servir-lhe.

A verdade é que o que Cristo fez e continua realizando pelos crentes constitui o motivo mais forte para servir-lhe. Cristo lhes livrou do poder dominante do pecado, da ira de Deus, da amargura da morte, dos sofrimentos do inferno. Portanto, eles devem servir com alegria e com muita gratidão. Paulo disse a Tito que “Cristo Jesus entregou-se por nós, para redimir-nos de toda iniquidade e purificar para si um povo zeloso de boas obras” (Tt 2.14). O fato de que Cristo se entregou pelos crentes deve estimulá-los a serem zelosos para fazerem o bem. Esta é a razão do porque os verdadeiros crentes sempre são muito ativos no serviço de Cristo. Por outra parte, se não quiserem servir a Deus devem questionar-se se verdadeiramente são crentes. O apóstolo João escreveu: “O que disse que lhe conhece, mas não guarda seus mandamentos, este é mentiroso, e a verdade não está nele” (1Jo 2.4). Uma vez mais temos que observar o equívoco de Satanás: A pessoa salva não é negligente no serviço do seu Salvador. O verdadeiro crente deseja servir a Cristo de todo coração, custe o que custar, porque Cristo sofreu muito para salvar a cada crente.

28 julho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 6

Satanás conduz os crentes ao pecado fazendo-lhes pensar que os que se santificam sofrem muita oposição e dificuldades. Ele lhes diz que enquanto os pecadores gozam da “boa vida”, os que desprezam ao pecado somente experimentam tristezas e problemas. Satanás insiste em lhes inculcar que por serem justos e santos terão problemas. O sussurro do inimigo de que é muito melhor viver numa forma que não lhes ocasione tantos conflitos e que os pecadores não sofrem como os piedosos.

Como devem reagir, e o que pensar os crentes quando Satanás lhes inquieta com estas ideias?

Primeiro, devem recordar que todos os problemas que os filhos de Deus serão usados para o seu bem. Deus nunca envia aflições ao seu povo sem um bom propósito, ainda que no momento não seja possível entende-lo. Em seguida mencionarei alguns dos efeitos que sobrevêm aos piedosos como consequência da aflição: Aprendem acerca da maldade do pecado; o sofrimento lhes faz desprezar ao pecado; o sofrimento lhes faz ter cuidado com o pecado no futuro. O menino que se queima teme ao fogo. As aflições nos ajudam a mortificar ao pecado. As aflições são o crisol onde Deus purifica as impurezas do seu povo. Deus disciplina, corrige e instrui aos crentes para o seu bem, a fim de que participem de sua santidade (Hb 12.10-11). Ainda que a disciplina divina seja no momento dolorosa, produz a piedade e traz muitas bençãos aos crentes.

Deus está treinando ao seu povo: fazendo que estejam numa boa e saudável condição espiritual, o sofrimento é uma parte deste treinamento. O sofrimento lhes torna humildes e sensíveis ao ensino do Espírito Santo. O sofrimento aproxima de Deus e os motiva a orar duma forma mais intensa e sincera. O salmista disse: “Antes que eu fosse humilhado, andava desviado, mas agora guardo a tua Palavra” (Sl 119.67). Também o sofrimento fortalece aos crentes. Crescem mais fortes em seu amor a Deus e pelo seu povo; crescem mais fortes na fé, esperança e gozo.

Segundo, os crentes devem recordar o que é mais importante do que seus problemas. Eles não podem mudar o fato de que Deus lhes ama. As aflições podem resultar em sofrimentos do corpo e da mente, e até mesmo leva-los a perder a vida, mas não podem separá-los do amor de Deus.

Terceiro, os crentes devem recordar que seus problemas na realidade são passageiros e de curta duração. “Por um momento será sua ira, mas o seu favor durará toda a vida. Pela noite durará o choro, mas a alegria virá pela manhã” (Sl 30.5). Na realidade há um breve tempo entre o conhecer da graça de Deus na terra e o gozar da glória de Deus no céu. “Porque ainda um pouco e o que há de vir virá e não tardará” (Hb 10.36-37). Este breve tempo de sofrimento terminará e os crentes estarão com Cristo para sempre. Este tempo de tormenta é o prelúdio da tranquilidade eterna.

Quarto, os crentes devem lembrar que os problemas que lhes ocorrem provêm do grande amor que Deus tem por eles. O Senhor Jesus disse: “Eu repreendo e castigo a todos os que amo” (Ap 3.19). Deus está preparando aos crentes para o céu e, às vezes, esta preparação resulta dolorosa. Todavia, o fato de que Deus procura que estejam preparados para o céu, é prova de que lhes ama grandemente.

Quinto, os crentes devem medir as aflições por seu resultado espiritual e não pela dor que ocasionam. É necessário que vejamos o propósito de Deus em nossos sofrimentos. José sofreu no Egito e foi encarcerado injustamente. Não obstante, o propósito de Deus foi, que por meio de José, salvasse a sua família. Do mesmo modo, Davi foi rodeado de inimigos e esteve em perigo constante no início de sua carreira. Todavia, tornou-se rei e foi honrado por seu povo. Em ambos os casos foi o sofrimento o que conduziu o cumprimento do propósito de Deus. Isto nos ensina que os crentes devem julgar seus sofrimentos não pela dor que produzem, senão por seus resultados espirituais.

Sexto, o propósito de Deus nas aflições nunca é para condenar, ou causar desespero nos crentes. Deus não quer enfraquece-los, ou arruiná-los com a tristeza. Deus quer provar e fortalece-los, seu pensamento nunca é destruí-los. Moisés recordava aos israelitas deste ponto: “Te recordarás de todo o caminho por onde Jehová, teu Deus, te conduziu estes quarenta anos no deserto, para afligir-te, para provar, e para saber o que estava em teu coração, se guardarias, ou não os seus mandamentos” (Dt 8.2). “Para provar”, esse foi o propósito de Deus, não para prejudicar ou destruir.

Finalmente, os crentes sempre devem recordar que as tristezas e as misérias que acompanham o pecado sempre serão maiores e pesadas que a tristeza que, às vezes, acompanha a santidade e a piedade. A tristeza que o pecado acarreta não tem nada de bom. Não possui nenhuma esperança, nem bom propósito. A tristeza que procede do pecado somente conduzido pelo que é temível e terrível, ou seja, o desprezo justo e santo de Deus e sua ira.


22 junho 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 4

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Neste capítulo poderemos observar outro método usado pelo Diabo para induzir aos crentes que caiam no pecado. Satanás lhes diz que é fácil arrepender-se, tão simples como confessálo ao sacerdote. Tudo o que se tem que dizer é: “Senhor tenha misericórdia de mim”, e ele o perdoará. Sussurrará em seu ouvido que o arrependimento é fácil.

Esta mentira do Diabo é muito perigosa. É uma mentira que é usada para enganar a muitos e coloca-los sob o controle e domínio do pecado. O arrependimento não é algo fácil de se obter; está além das forças humanas. Para arrepender-se é necessário o mesmo poder que levantou a Cristo dos mortos, ou seja, é necessário o poder de Deus.

O apóstolo Paulo escreveu a Timóteo que os servos de Deus devem ensinar a verdade com a esperança que Deus conceda arrepentimiento aos ouvintes (2Tm 2:25). O arrependimento não é fácil; o arrependimento é um dom de Deus. O profeta Jeremias perguntou: “O etíope mudará a cor de sua pele, e o leopardo as suas manchas? Assim também, podereis fazer bem, estando habituados a fazer o mal?” (Jr 13:23). As pessoas não podem transformar a si mesmas; falta-lhes o poder de Deus para que possam experimentar essa mudança. O simples fato de dizer: “Senhor tem misericórdia de mim,” não é o arrependimento verdadeiro. Os que usam esta linguagem, sem uma mudança genuína em suas vidas, estão se enganando. Muitos agora estão no inferno porque se equivocaram quanto à natureza do arrependimento.

Há três elementos essenciais no arrependimento. O primeiro elemento é uma mudança substancial; é dar as costas para o pecado e voltar-se para Deus. O arrependimento é deixar as trevas e volver-se para a luz. Isaías disse: “Deixe o ímpio o seu caminho, e o iníquo os seus pensamentos, e voltem-se para Deus” (Is 55:7). O arrependimento significa dar as costas a todo pecado, inclusive ao pecado mais amado. Significa também uma mudança de atitude para com Deus e em relação a tudo o que ele manda. Quando uma pessoa se arrepende verdadeiramente, sabe que não existe nada nela que agrade a Deus, e tudo o que ela possui é o seu pecado. Isto lhe faz voltar-se a Deus suplicando ajuda e perdão. O arrependimento não é fácil. Sempre é difícil e ocasiona dor e vergonha.

O segundo elemento no arrependimento verdadeiro é uma mudança completa de vida. O arrependimento significa uma mudança na vida interior, no que pensa e no que deseja. O arrependimento significa uma mudança tão poderosa na vida, que outros podem vê-la, uma transformação em sua maneira de viver, em seus hábitos, em sua perspectiva. Em Is 1:16 diz que “Lavai e limpai-vos; tirai a iniquidade de vossas obras diante de meus olhos; deixai de fazer o mal; aprendei a fazer bem”. Isto significa uma mudança externa e interna, uma alteração completa de vida.

O terceiro elemento do arrependimento é sua continuidade ao longo de toda a vida do crente. Arrepender-se significa sempre esforçar para guardar a lei de Deus de forma mais completa. Significa aproximar-se cada vez mais de Deus, ainda que ao mesmo tempo, saibamos que não podemos deixar de considerar-nos pecadores. A vida cristã consiste de um processo contínuo de mortificação do pecado. O apóstolo Paulo, que foi usado grandemente por Deus, disse: “Miserável homem que sou! Quem me livrará deste corpo de morte?” (Rm 7:24).

O arrependimento não é próprio da natureza humana. É necessário tanto do poder de Deus para arrepender-se, como para não pecar. “Vinde e voltemos a Jehová porque ele nos abateu e curará; nos feriu e tratará. Ele nos dará a vida depois de dois dias; no terceiro dia nos ressuscitará e viveremos diante dele” (Os 6:1-2). Convença-se que Deus é quem faz todas estas coisas a favor de seu povo. Ele os sara. Ele ata as suas feridas. Ele os vivifica e restaura. O poder e o amor de Deus estão atuando no arrependimento. Sem a misericórdia e o amor de Deus atuando, não é possível ocorrer o verdadeiro arrependimento.

É comum que Satanás diga que o arrependimento é fácil. Mas após ocorrer a queda no pecado, a sua mensagem mudará, pois dirá que o arrependimento é impossível. Uma vez que a pessoa se acostuma ao pecado, o Diabo dirá que o arrependimento é a coisa mais difícil que alguém poderá obter. Ele lhe dirá que é difícil abandonar aos pecados que fazem parte de sua vida. Dirá que não haverá a possibilidade de arrependimento, porque abusou da misericórdia de Deus e desprezou as advertências divinas. Satanás lhe falará de quantas vezes caiu e quão perversos são seus pecados. Ele lhe dirá: “É impossível arrepender-se.”

Os verdadeiros crentes buscarão o arrependimento enquanto há tempo, isto é, hoje! O arrependimento nunca é fácil, mas com a ajuda e com a misericórdia de Deus, é possível desprezar ao pecado e volver-se para Deus.

22 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 1

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Neste capítulo trataremos com uma das maneiras que Satanás procura conduzir aos crentes ao pecado. Este método consiste em mostrar-lhes que há prazer em pecar, ocultando-lhes a tristeza e as consequências que o pecado lhes trará. O pecado pode parecer muito prazeroso e Satanás quer que os crentes pensem acerca dele desta maneira. O diabo sabe que se cairmos no erro de pensar assim, o pecado nos parecerá muito atrativo e nos esqueceremos da verdade que o pecado é cruel e danoso. Deus disse a Adão e Eva que não comessem do fruto da árvore ou morreriam, além disso Satanás falou à mulher que comendo do fruto seriam como deuses. Satanás fez que a desobediência parecesse atrativa e prazerosa. Satanás continua fazendo o mesmo até hoje. Por exemplo, no deserto tentou a Jesus da mesma forma. Ele apresentou a Jesus todos os reinos e sua glória, oferecendo-lhes sob a condição de que Jesus lhe adorasse. Quão formoso e sedutor apresentou o pecado. Todavia, Jesus não foi seduzido pela astúcia do diabo.

Como os crentes conseguirão resistir a Satanás, quando faz com que o pecado seja tão atrativo? Há quatro remédios que podem nos ajudar para não sermos atraídos pelo pecado desta maneira. Primeiro, os crentes devem manter-se afastados do pecado tanto quanto consigam (1 Ts 5.22, Pv 5.8). Uma pessoa que caminha à beira do precipício, pode cair a qualquer momento. Se o crente caminha próximo do que é pecaminoso, não deve surpreender-se se é preso pelo pecado. Paulo disse aos cristãos que odiassem a maldade e que a odiassem intensamente (Rm 12.9).

Segundo os crentes devem recordar que o prazer do pecado prontamente se converterá em amargura (Jó 20.12-14). O pecado pode celebrar o prazer por um instante e parecer-nos fácil no início (Hb 11.25); mas ao fim, a dor produzida é maior que o prazer que se recebe. É como a comida com veneno, tem bom sabor, mas se não é descartada é mortal. O pecado que se come na terra, terá que se digerir no inferno.

Terceiro, os crentes devem recordar que o pecado lhes fará perder aquilo que é realmente bom. Os que cedem ao pecado perdem o favor de Deus. O seu gozo espiritual se desvanece e perdem a paz em seu coração. O Espírito Santo é entristecido e sua influência vivificadora diminuí. O pecado lhes faz perder estas boas coisas. Então, o diabo lhes está enganando porque o pecado não é realmente prazeroso (o seu conforto sempre é temporal).

Quarto, os crentes devem fixar-se bem na forma como o pecado engana. O pecado é o maior enganador e é a causa de todo o engano que há no mundo. Em si mesmo, o pecado é sobremaneira pecaminoso. (Hb 3.13) Quando o pecado os engana, os crentes frequentemente se negam a admiti-lo e, pelo contrário, pensam que estão bem. O pecado lhes faz crer que o mal é bom. Basta pensar no que aconteceu com Faraó, Balaão e Judas, para percebermos que uma pessoa pode conduzir-se pecaminosamente pensando que está agindo bem. Em tais exemplos podemos observar como é que uma pessoa pode estar disposta a perder a Deus, o céu, Cristo e ainda a sua própria alma porque não quer deixar os seus pecados. Não há nada tão enganoso como o pecado.

Recorde-se de que o pecado não é prazeroso, pelo contrário, ele é amargo, e não importa que tão agradável lhe pareça. Não deixe que Satanás lhe afaste de Deus com um engano como este.

21 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Prefácio

Escrito por Thomas Brooks

Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Introdução

Este livro trata com as estratégias usadas por Satanás para induzir aos crentes a pecar. Satanás é o inimigo de Cristo e de todos os seus discípulos. Satanás quer desviá-los da vontade de Deus e que se afastem dele. Satanás é muito sútil em seu propósito. Deseja que os crentes sejam seduzidos sem que eles percebam. Quer que pequem, mas não quer que creiam, ou percebam que estão pecando.

Há quatro assuntos acerca dos quais os crentes devem aprender. Devem aprender de nosso Senhor Jesus Cristo, acerca da Bíblia, a respeito de si mesmos e acerca da astúcia de Satanás em seus intentos de afastá-los de Deus.

Satanás é um inimigo cruel. Ele demonstra o seu desprezo contra Deus e o seu povo em todas as formas que lhe seja possível. Satanás quer que o povo de Deus seja miserável e cheio de amargura. Sabe que não há nada que lhes faça mais miseráveis do que fazer-lhes cair em pecado. Satanás utiliza muitas maneiras enganosas para conseguir que os crentes pequem. Satanás é um inimigo forte, mais forte do que a nossa capacidade. Satanás pode ferir e causar muitos danos aos crentes. Em sua astúcia não quer que os crentes se informem de quão forte ele é, e, portanto, é necessário advertir a cada crente: Satanás é um inimigo forte e cruel. Desejo adverti-los de que maneiras Satanás procurará daná-los. Desejamos que todos os que lerem este livro sejam fortalecidos a fim de que possam resistir a Satanás em todas as suas conspirações.

Por isso não é suficiente apenas ler este livro, há que aprender e praticá-lo. Todo ensino cristão não é simplesmente para ajudar aos crentes que aprendam a verdade. Os crentes devem não somente entender a vontade de Deus, como também cumpri-la. Jesus disse, “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis se as fizerem.” (Jo 13.17)

Há muitos textos na Bíblia que nos advertem acerca da sutileza de Satanás. Os crentes necessitam ser fortalecidos para resistirem a Satanás. Em seguida citaremos alguns textos da Bíblia que nos advertem acerca de Satanás. O primeiro texto é 2 Co 2.11: “Para que Satanás não obtenha vantagem alguma sobre nós; pois não ignoramos os seus desígnios”. O apóstolo disse que sabe bem acerca das maquinações satânicas para danar aos crentes. Paulo estava consciente das distintas formas que Satanás usa para prejudicar aos crentes.

O segundo texto é Ef 6.11: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus para poderdes estar firmes contra as ciladas do diabo”. Paulo disse aos crentes que fossem como soldados, colocando a sua armadura para protegerem-se de seu inimigo. Paulo sabia que Satanás atacaria aos crentes de muitas maneiras diferentes. Às vezes fará armadilhas para atacá-los de repente, sem advertência. Em outras ocasiões buscará desviar-lhes do caminho e os atacará quando estiverem confusos. Também lhes tentará com uma armadilha de falsa segurança, para que depois lhes ataque quando estiverem desprevenidos. Satanás em todas estas maquinações deseja ferir o povo de Deus e conseguir que deixem de trabalhar e pelejar na causa de Deus. Os crentes necessitam da armadura e da força de Deus para lutar contra Satanás.

O terceiro texto é 2 Tm 2.26: “livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade”. Aqui o apóstolo Paulo se refere a pessoas que estão sendo levadas cativas como prisioneiras de guerra. Os prisioneiros sentem-se desesperados, sem nenhum poder para livrarem-se e estão sujeitos à vontade de outro. Do mesmo modo Satanás quer conseguir que os crentes sejam seus prisioneiros. Esta palavra é usada também para referir-se às aves quando são presas numa gaiola. Satanás quer que os crentes se sintam assim.

Tenham muito cuidado com as artimanhas de Satanás. Não se esqueçam de que Satanás é um inimigo forte e cruel, que se opõe a todos os verdadeiros crentes. Ele quer prejudica-los e fazer com que se tornem inúteis para o reino de Deus.

24 abril 2016

Somos uma igreja reformada

O que é ser um cristão reformado? Talvez, essa definição não seja tão fácil devido à forma tão elástica como alguns desejam dar à identidade reformada.[1] A fim de apresentarmos quem somos não é suficiente apenas descrevermos que historicamente descendemos da Reforma do século XVI. A genealogia da família reformada teve vários desdobramentos, alguns deles se apostataram da teologia reformada, mas Deus preservou uma linhagem fiel. Para provarmos a nossa identidade reformada precisamos justificar o nosso vínculo com o pensamento calvinista original.[2] Creio que podemos aceitar a definição de Joel R. Beeke em dizer que “ser reformado significa enfatizar o abrangente, soberano e amoroso senhorio de Deus sobre todas as coisas: cada área da criação, todos os esforços das criaturas e cada aspecto da vida do crente”.[3] Como cristãos reformados cremos que o nosso Deus criou tudo o que existe, governa todos os eventos pela sua providência, realiza eficazmente a salvação, e conduz tudo para o cumprimento do seu eterno propósito, de modo, que nada foge ao seu absoluto controle. Por isso, todas as demais doutrinas estão centradas em Deus.

O cristão reformado é alguém que vive sob a influência de que a Escritura é a sua única fonte e norma de fé e prática. H. Henry Meeter observa que
o calvinista sustenta que a autoridade da Bíblia é absoluta. Não considera a Bíblia simplesmente como um livro de bons conselhos que o homem pode adotar livremente, se assim o considera conveniente, ou rejeitar se assim lhe parece mais oportuno. A Bíblia é para o calvinista uma norma absoluta à que deve submeter-se totalmente. A Bíblia lhe dita o que deve crer e o que deve fazer; fala com força imperativa. Calvino era muito enfático neste ponto. Se a Bíblia fala, somente há uma alternativa: obedecer.[4]

O cristão reformado não é alguém que cegamente se submete a liderança de homens, instituições ou a movimentos. A sua submissão é ao Senhor Deus que revelou a sua vontade na Escritura Sagrada. Ele somente é sujeito a qualquer autoridade, desde que ela esteja de acordo com a Palavra de Deus. Alguns princípios norteiam o cristão calvinista em relação a Deus, ao próximo e a sua percepção da realidade ao derredor:[5]
1. Ele mantém uma mentalidade teocêntrica.
2. Possui um estado de espírito de contrição e de dependência.
3. É movido por um coração grato dominado pelo contentamento.
4. Suporta todas as coisas com uma vontade submissa.
5. Persevera na santidade pela obediência da lei moral.
6. Visa o propósito de glorificarmos a Deus em todas as esferas da sua vida.

É sempre relevante instruir que somos cristãos reformados e não meros evangélicos. Em meio à atual confusão, bem como as tendências pluralistas e inclusivas do evangelicalismo, precisamos nos distinguir. Vivemos um momento crítico de impureza doutrinária, e vemos ensinos nocivos se infiltrando até nas igrejas de origem reformada. Embora descrevendo o contexto das igrejas evangélicas nos EUA, James M. Boice e Philip G. Ryken diagnosticaram o que também parece ser a tendência do evangelicalismo brasileiro. Mas, infelizmente esta parece ser uma situação que começa a ser a realidade de algumas igrejas presbiterianas no Brasil. Eles denunciaram que
o que uma vez foi falado das igrejas liberais precisa ser dito das igrejas evangélicas: elas buscam a sabedoria do mundo, creem na teologia do mundo, seguem a agenda do mundo, e adotam os métodos do mundo. De acordo com os padrões da sabedoria mundana, a Bíblia torna-se incapaz de alimentar as exigências da vida nestes tempos pós-modernos. Por si mesma, a Palavra de Deus seria insuficiente de alcançar pessoas para Cristo, promover crescimento espiritual, prover um guia prático, ou transformar a sociedade. Deste modo, igrejas acrescentam ao simples ensino da Escritura algum tipo de entretenimento, grupo de terapia, ativismo político, sinais e maravilhosas – ou, qualquer promessa apelando aos consumidores religiosos. De acordo com a teologia do mundo, pecado é meramente uma disfunção e salvação significa desfrutar de uma melhor autoestima. Quando esta teologia adentra a igreja, ela coloca dificuldades em doutrinas essenciais como a propiciação da ira de Deus, substituindo-a por técnicas e práticas de auto-aceitação. A agenda do mundo é a felicidade pessoal, assim, o evangelho é apresentado como um plano para a realização pessoal, em vez de ser a caminhada de um comprometido discipulado. Para terminar, vemos que os métodos do mundo nesta agenda egocêntrica são necessariamente pragmáticos, sendo que as igrejas evangélicas estão se esforçando a todo o custo em refletir o modo como elas operam. Este mundanismo tem produzido o “novo pragmatismo” evangélico.[6]

Somos evangélicos no sentido de crermos no evangelho, todavia, preferimos não ser identificados no uso comum do termo. E, isto pelo simples motivo: para que não sejamos confundidos com esta tendência de desvio do antigo evangelho de Jesus. Os cultos de muitas igrejas evangélicas estão cheios de elementos estranhos, práticas místicas que se assemelham às seitas espíritas, doutrinas de homens e uma ausência da fiel exposição da Escritura, da correta ministração da ceia do Senhor, bem como da zelosa aplicação da disciplina bíblica. Essas comunidades por causa de sua infidelidade ao ensino da Escritura estão se tornando cada vez menos puras.

Mas, por que conhecer a própria identidade? Transcrevo aqui o sábio conselho de Beeke em que ele adverte que
se não conhecermos nossa herança reformada, a ignorância levará à indiferença, e a indiferença ao abandono. Aconselho-o a que estude o pensamento reformado. Mergulhe nos escritos de calvinistas firmes e renomados. [...] Se não apreciarmos a nossa herança reformada, a nossa fé perderá a autenticidade. Ninguém sentirá interesse pelo calvinismo, porque nos faltará paz, alegria e humildade verdadeiras. E, se não vivermos nossa herança reformada, não seremos sal na terra. Quando o sal perde a sua salinidade, não presta para nada, exceto para ser lançado fora e ser pisado pelos homens (Mt 5:13).[7]

Quando vivemos a tradição reformada honramos os milhares de servos que Deus usou para forjá-la. Não adoramos a tradição em si, mas cremos que ela é útil para identificar as nossas origens. Ela tem o papel de preservar a herança que recebemos dos reformadores. Quando subscrevemos estes documentos estendemos a nossa destra para irmãos de diferentes períodos e países que viveram pela fé reformada, e ao lado deles glorificamos ao soberano Deus.

NOTAS:
[1] Por exemplo, refiro-me ao que fez John Leith agregando à tradição reformada homens e mulheres, bem como denominações e movimentos doutrinários bem pluralistas que negam a nossa tradição confessional reformada. Veja John Leith, A tradição reformada – uma maneira de ser a comunidade cristã (São Paulo, Associação Evangélica Literária Pendão Real, 1996).
[2] Holmes Rolston III afirmou um afastamento de Calvino e os teólogos de Westminster dizendo que “inovações teológicas eram a obra de seus sucessores” in: John Calvin versus the Westminster Confession (1972), p. 23 citado por Paul Helm, “Calvin and the Covenant: Unity and Continuity” in: The Evangelical Quarterly, p. 66. Entretanto, o que Joel R. Beeke declarou acerca da doutrina da segurança da salvação, também podemos concluir das demais áreas teológicas, que a diferença entre Calvino e o calvinistas posteriores, especialmente os teólogos de Westminster, em relação ao desdobramento teológico da teologia reformada é quantitativamente além, mas não qualitativamente contraditória às de Calvino. Veja Joel R. Beeke, A Busca da Plena Segurança – O Legado de Calvino e Seus Sucessores (São Paulo, Editora Os Puritanos, 1999), pp. 19-20.
[3] Joel R. Beeke, Vivendo para a glória de Deus – uma introdução à fé reformada (São José dos Campos, Editora Fiel, 2010), p. 57.
[4] H. Henry Meeter, The basic ideas of Calvinism (Grand Rapids, Baker Books, 6a.ed. rev., 1990), p. 28.
[5] Adaptado de James M. Boice & Philip G. Ryken, The doctrines of grace – rediscovering the evangelical gospel (Wheaton, Crossway Books, 2002), pp. 179-199.
[6] James M. Boice & Philip G. Ryken, The doctrines of grace – rediscovering the evangelical gospel, pp. 20-21.
[7] Joel R. Beeke, “Prefácio” in: Vivendo para a glória de Deus – uma introdução à fé reformada, p. 16.

19 dezembro 2014

Eu creio nos 5 solas da Reforma

Somos uma igreja herdeira da Reforma protestante do século XVI. Os 5 pilares da nossa herança são:
Sola Scriptura: somente a Escritura Sagrada
Solus Christus: somente em Cristo
Sola gratia: somente a graça
Sola fide: somente a fé
Soli Deo gloria: somente a Deus toda glória

1. Somente a Escritura Sagrada: é a nossa única fonte e regra de fé e prática
O calvinismo possui o seu sistema doutrinário centrado na Escritura Sagrada. Desde a Reforma do século XVI foi ensinada a doutrina da sola Scriptura – ou seja, que a Escritura é a única fonte e regra de autoridade. Entretanto, a autoridade da Escritura resultado do fato dela ser a Palavra de Deus. John H. Armstrong corretamente observa que “a autoridade é encontrada no próprio Deus soberano. O Deus que ‘soprou’ as palavras por meio dos escritores humanos está por trás de toda afirmação, toda doutrina, toda promessa e toda ordem contidas na Escritura”.[1] Se rejeitarmos a Escritura Sagrada estamos desprezando a vontade preceptiva de Deus.

A Bíblia tem autoridade porque ela é revelação da vontade de Deus. Por isso, “as inspiradas Escrituras, revelando a vontade transcendente de Deus em forma escrita e objetiva, são a regra de fé e conduta através da qual Jesus exerce sua autoridade divina na vida do crente.”[2] Em outras palavras, esta doutrina significa que a base da nossa doutrina, forma de governo de igreja, culto e todas as esferas da vida, não se fundamentam no tradicionalismo, no subjetivismo, no relativismo, no pragmatismo, ou no pluralismo, mas é extraída somente na Escritura Sagrada. Cremos que suficientemente ela é a verdade absoluta, porque somente a Escritura é a Palavra de Deus (2 Tm 3:16-17; 2 Pe 1:19-20).

2. Somente Cristo: o único mediador da nossa salvação
O nosso Senhor Jesus se fez um de nós para ser o nosso substituto. Ele é o nosso único representante diante de Deus. O Pai firmou o pacto da redenção que estipulava que o Filho viesse ao mundo para cumprir a sua vontade (Jo 4:34; 6:38-40; 10:10). A Confissão de Fé de Westminster declara que
aprouve a Deus em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo; e deu-lhe desde toda a eternidade um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido, chamado, justificado, santificado e glorificado.[3]

Não temos outro mediador pelo qual possamos ser reconciliados com Deus, a não ser Jesus Cristo (At 4:11-12; 1 Tm 2:5). A sua obra lhe confere autoridade para declarar justo todos quantos o Pai lhe deu (Jo 6:37,39,65). Toda a obra expiatória de Jesus é suficiente para a nossa salvação (Rm 8:1). Somente através da perfeita obra de Cristo seremos salvos. A nossa culpa e merecida condenação caiu sobre ele (Hb 2:10). A sua obediência ativa cumpriu todas as exigências da Lei, bem como submetendo passivamente à condenação, fez com que pela sua humilhação, obtivesse plena satisfação da justiça de Deus. O Pai retirou o seu consolo e derramou sobre Cristo a sua ira divina, punindo nele o nosso pecado. As nossas iniquidades estavam sobre o Filho, e a justa ira de Deus veio sobre o nosso pecado na cruz (Hb 2:10). Jesus tornou-se amaldiçoado em nosso lugar sobre o madeiro (2 Co 5:21). O Filho de Deus sofreu os tormentos do inferno intensivamente na cruz, o que sofreríamos extensivamente na eternidade. Cremos que a sua morte expiatória na cruz satisfez a justiça de Deus e, eliminou completamente a nossa condenação futura (Rm 3:24-25), redimindo-nos de todos os nossos pecados (Ef 1:7).

3. Somente a graça: a única causa da nossa aceitação
Cremos que a salvação do homem não é resultado de algum mérito pessoal (Rm 3:20, 24, 28; Ef 2:1-10). Todo ser humano possui uma disposição moral totalmente corrompida, de modo que, ele é incapaz de satisfazer perfeitamente a Lei de Deus (Tg 2:8-10). O empenho de merecer a salvação pelas boas obras somente resulta em condenação. Sem a graça a nossa predisposição natural é somente para o pecado (Rm 7:13-25).

A Escritura nos revela que todo ser humano em seu estado natural é inimigo de Deus (Rm 3:23; 5:10). O teólogo puritano Stephen Charnock observou que “todo pecado é uma espécie de amaldiçoar a Deus no coração. O homem tenta destruir e banir Deus do coração, não realmente, mas virtualmente; não na intenção consciente de cada iniquidade, mas na natureza de cada pecado.”[4] A dureza de coração lhe é normal, porque ele está rígido como uma pedra (Ez 36:26-27).

O livre arbítrio perdeu-se com a Queda.[5] Esta capacidade de agir contrário à própria natureza foi perdida com a escravidão do pecado. No início, Adão criado em santidade, foi capaz de escolher contrário à sua inclinação natural de perfeita santidade e, decidiu pecar. O primeiro homem livremente passou a agir de acordo com a escravidão dos desejos mais fortes da sua alma corrompida pela iniquidade. Ele é livre, mas a sua liberdade é usada tendenciosamente para pecar conforme os impulsos de sua inclinação para o pecado. Se ele for deixado para si mesmo, ele sempre agirá de acordo com a sua disposição interna, ou seja, naturalmente escolherá pecar (Rm 1: 24-32; 3:9-18; 7:7-25; Gl 5:16-21; Ef 2:1-3).

A nossa salvação é resultado da ação da livre e soberana graça do nosso Deus. A Confissão de Fé de Westminster declara que
todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso, dispostos pela sua graça.[6]

Somente a ação soberana e eficaz do Espírito Santo é capaz de regenerar corações implantando uma nova disposição santa. O resultado é a libertação da escravidão do pecado. Esta obra Deus a realiza pela graça somente.

4. Somente a fé: é o único instrumento de posse da nossa salvação
A fé é o meio normal pelo qual o Espírito Santo aplica o processo da salvação nos eleitos. Entretanto, devemos lembrar que a fé é dom de Deus e não uma virtude humana (Rm 4:5; 10:17; Ef 2:8-9; Fp 1:9). O Breve Catecismo de Westminster define este dom: “fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no Evangelho.”O Catecismo de Heidelberg esclarece que
a verdadeira fé é a convicção com que aceito como verdade tudo aquilo que Deus nos revelou em sua Palavra. É também a firme certeza de que Deus garantiu – não só aos outros como também a mim – perdão de pecados, justiça eterna, e salvação por pura graça e somente pelos méritos de Cristo. O Espírito Santo realiza essa fé em meu coração por meio do evangelho.[7]

Por isso, a teologia reformada entende que a verdadeira fé é o resultado de um iluminado conhecimento, da plena concordância verdade e da firme confiança na Palavra de Deus.

A justificação vem pela fé somente na obra de Cristo. Nenhum homem pode ser salvo, a não ser que creia na expiação realizada por Cristo, confiando exclusivamente nele (Rm 1:17; Tt 3:4-7; 1 Jo 5:1). A justiça de Cristo que é imputada sobre nós concede, garante e mantém-nos aceitos na comunhão eterna de Deus.

A verdadeira fé conduz as boas obras que evidenciam a salvação e glorificam a Deus. A salvação é pela fé somente, mas a fé salvadora nunca está sozinha. A fé salvadora produz amor prático ao próximo, santidade pessoal em obediência à Palavra de Deus. A Escritura Sagrada declara que “pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2:10).

5. Somente a Deus toda glória: o único objetivo da nossa salvação
Cremos no único Deus, que é Senhor da história e do universo, “que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1:11). É nossa convicção que a finalidade principal da vida não é necessariamente o bem-estar, a saúde física, a prosperidade, a felicidade, ou mesmo a salvação do homem, mas, a glória de Deus e na manifestação de todos os seus atributos. Johannes G. Vos comentando o Catecismo Maior de Westminster observa que “quem pensa em gozar a Deus sem o glorificar corre o risco de supor que Deus existe para o homem, e não o homem para Deus. Enfatizar o gozar a Deus mais do que o glorificar a Deus resultará num tipo de religião falsamente mística ou emocional.”[8] Deus não existe para satisfazer as necessidades do homem, embora ele o faça por amor de si mesmo (Ez 20:14). O homem foi criado para o louvor da glória de Deus (Rm 11:36; Ef 1:6-14).[9]

É verdade que a glória de Deus transcende ao nosso entendimento, mas ela pode ser percebida pela sua manifestação na criação e pela revelada Palavra da Deus. João Calvino no início de suas Institutas escreve que
a soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos. Quanto ao primeiro, deve-se mostrar não somente que há um só Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede.[10]

Mas, por que a nossa felicidade depende da glória de Deus? Simplesmente porque a nossa dignidade e satisfação dependem de vivermos sem a insensatez, vícios e destruição causados pelo pecado. Somente quando obedecemos à vontade de Deus, segundo as Escrituras, podemos andar aceitáveis em sua presença e desfrutar dos benefícios das suas promessas. Aurélio Agostinho em sua obra Confissões declarou que “Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.”[11] Assim, quanto maior for a nossa satisfação em Deus, ele será mais glorificado em nós!

O soberano Senhor não compartilha a sua glória com ninguém! O nosso orgulho é uma ofensa gravíssima ao nosso Deus. Não é em vão que ele denúncia a sua rejeição aos soberbos (Tg 4:6-10). Somente ele é o Altíssimo, enquanto o pecador consegue em suas fúteis pretensões ser apenas uma ilusória altivez. Não podemos esquecer de que somos chamados para ser servos do seu reino, e de que toda a abrangência de nossa vida está ao seu serviço (Rm 11:36).

O profeta Jeremias disse que "assim diz o SENHOR: não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR." (Jr 9:23-24). Assim, em compromisso, confessamos que “porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Rm 11:36).

NOTAS:
[1] John H. Armstrong, “A autoridade da Escritura” in: Bruce Bickel, ed., Sola Scriptura numa época sem fundamentos, o resgate do alicerce bíblico (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2000), p. 90.
[2] Carl F.H. Henry, “A autoridade da Escritura” in: Philip W. Comfort, ed., A origem da Bíblia (Rio de Janeiro, CPAD, 1998), p. 28.
[3] Confissão de Fé de Westminster VIII.1.
[4] Stephen Charnock, The Existence and the Attributes of God (Grand Rapids, Baker Books, 2000), vol. 1, p. 93.
[5] A tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio da seguinte forme: “o livre arbítrio é dividido em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para o bem e para o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. No estado de inocência o homem era capaz de não pecar [posse non peccare]. No estado de miséria ele é incapaz de não pecar. No estado de graça, o pecado não pode governar o homem. No estado de glória ele se tornará incapaz de pecar.” Johannes Wollebius, Compendium Theologicae Christianae in: John W. Beardslee III, ed., Reformed Dogmatics (Grand Rapids, Baker Books, 1977), p. 65. Este manual de teologia de Wollebius [1586-1629] influenciou os teólogos que elaboraram os Padrões de Westminster.
[6] Confissão de Fé de Westminster, X.1.
[7] Catecismo de Heidelberg, Domingo 7, perg./resp. 21.
[8] Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (Editora Os Puritanos), pág. 32.
[9] Breve Catecismo de Westminster, perg./resp. 1.
[10] João Calvino, Institutas, (edição estudo de 1541), vol. I, p. 55.
[11] Santo Agostinho, Confissões(Editora Paulus), vol. 10, p. 19.

23 outubro 2014

Perecerão os que nunca ouviram do Evangelho?

David N. Steele & Curtis C. Thomas

Todos os homens são culpados diante de Deus por duas causas. Primeiro, por causa do pecado de Adão, que foi imputado a todo o gênero humano; e segundo, por causa dos próprios pecados cometidos ao transgredir a lei de Deus. A única forma em que os pecadores podem ser livres da culpa é por meio de sua fé em Cristo Jesus. Mas, e aqueles que nunca ouviram falar de Cristo e, portanto, não podem crer nEle? Estão perdidos? Perecerão no Inferno? A resposta de Paulo é: sim! Pois como explica em Rm 10:14-17, a menos que o Evangelho seja pregado aos perdidos (isto inclui a todos os perdidos, tanto pagãos como os judeus), e estes creiam nEle, eles não poderão escapar da ira de Deus. Referindo-se a Cristo, Pedro declara: “e não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12, ARA).

Aqueles que não viveram debaixo da iluminação da Palavra de Deus, não serão julgados de maneira tão rígida como aqueles que viveram sob esta Palavra, entretanto, recusam ouvir as suas advertências e aceitar as suas promessas. Isto é o que Cristo nos ensina em Lc 12:47-48: “aquele servo, porém, que conheceu a vontade do seu Senhor, não se preparou, nem obedeceu conforme a sua vontade, receberá muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez cousas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão.” Como Charles Hodge disse: “os homens serão julgados pela luz que desfrutaram individualmente. A base do juízo são as suas obras; a regra para julgá-los é o seu conhecimento.”[1] Sendo que os pagãos pecam contra Deus por transgredir a lei escrita em seus corações, é óbvio que perecerão, a menos que alguém lhes leve a mensagem de Cristo; pois, não há justificação para os pecadores, senão pela fé em Cristo. Deus salva aos seus escolhidos por meio do Evangelho de Jesus Cristo; e são chamados externamente pela mensagem evangélica e interiormente pelo Espírito Santo, que lhes capacita a crer na mensagem. “Entretanto, devemos sempre dar graças a Deus por vós, irmãos amados pelo Senhor, porque Deus vos escolheu desde o principio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade, para o que também vos chamou mediante o nosso evangelho para alcançardes a glória de nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Ts 2:13-14, ARA).

Há quem crê que aqueles que nunca ouviram o Evangelho não poderão ser condenados. O seu argumento é de que “Deus não pode ser tão injusto ao condenar para o Inferno aqueles que nunca tiveram a oportunidade de aceitar ou rejeitar a Cristo.” Todavia, os mesmos que assim falam defendem o envio de missionários àqueles que ainda não ouviram o Evangelho e que, segundo o seu ponto de vista, não podem ser condenados. Parece contraditório manter a ideia de que o paganismo está seguro porque não ouvem o Evangelho, e ao mesmo tempo apoiar o movimento missionário; pois se os pagãos não podem ser condenados sem antes ouvir o Evangelho, e se depois de haverem ouvido alguns deles o rejeitam, então, não devemos pensar que os missionários, em lugar de levar a esperança e possibilidade de salvação ao pagão, lhes levam somente a condenação para aqueles que rejeitam a Cristo depois de haver ouvido a mensagem? Mas como Paulo demonstra em Romanos, os homens se perdem não porque rejeitam a Cristo, mas por causa dos seus pecados. E, se vão crer no Evangelho de Cristo, que lhes liberta da culpa do pecado, deverão primeiro ouvi-lo. Portanto, o envio de missionários é absolutamente um imperativo, se quisermos que o incrédulo seja salvo.

A Escritura guarda silêncio quanto à salvação daqueles que são incapazes de compreender e crer no Evangelho (isto é, as crianças e os doentes mentais, etc.). Mas, é suficiente conhecer e saber que o Juiz do mundo fará o que é correto. Que estes necessitam da salvação está claro pelo fato de que a raça humana foi contaminada com o pecado de Adão (Rm 5:12-19); mas não nos diz nada a respeito da provisão feita por eles. Uma coisa é certa: se forem para o céu, terão que ir pelos méritos de Cristo, e não por serem inocentes, ou por estarem livres da culpa. Quando consideramos este assunto devemos ter em conta as palavras de Dt 29:29: “As coisas secretas pertencem ao SENHOR o nosso Deus; mas as reveladas são para nós e para os nossos filhos”.

NOTA:
[1] Charles Hodge, Romans - Geneve Series of Commentaries (Edimburgh, The Banner of Truth, 2009), p. 53.

Extraído de David N. Steele & Curtis C. Thomas, Romanos Un Bosquejo Explicativo pp. 121-123.
Tradução livre:
Rev. Ewerton B. Tokashiki

06 junho 2014

Os Três Pontos da Graça Comum conforme a Christian Reformed Church

A resolução da Christian Reformed Church acerca da Graça Comum


Numa reunião Sinodal da Christian Reformed Church (CRC), que começou em 18 de junho de 1924, em Kalamazoo, no Michigan, após uma longa controvérsia, a CRC adotou o que veio a ser conhecida como os "Três Pontos da Graça Comum." Porque alguns ministros dentro da CRC se recusaram a assinar os "Três Pontos", eles (com a maioria de seus consistórios) foram suspensos ou deposto dos seus cargos. Este foi o início das Protestant Reformed Church na América. Estes ministros, e outros depois deles, escreveram respostas à decisão que foi tomada. Naquela época, e desde então, a Protestant Reformed Church tem alertado que estes "Três Pontos" eram não somente contrário à Escritura e as Confissões Reformadas, mas também serviu como uma ponte para o mundo e daria a desculpa para introduzir o mundanismo na igreja.

Citamos literalmente os três pontos:

I. O Primeiro Ponto:
"Em relação ao primeiro ponto, que diz respeito à atitude favorável de Deus para com a humanidade em geral e não apenas para os eleitos, o Sínodo declara que é possível afirmar de acordo com a Escritura e as Confissões que, além da graça salvadora de Deus apresentado apenas àqueles que são eleitos para a vida eterna, há também certo favor ou graça de Deus que Ele mostra às Suas criaturas em geral. Isto é evidente a partir das passagens bíblicas citadas e dos Cânones de Dordrecht II: 5 e III- IV: 8,9, que tratam da oferta geral do Evangelho, ao mesmo tempo que também aparece as citações feitas a partir de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada que nossos escritores reformados do passado favoreceram este ponto de vista. (Prova bíblica: Salmo 145:9; Mt 5:44, 45; Lc 6:35-36; At 14:16-17; 1 Tm 4:10; Rm 2:4 ; Ezequiel 33:11 ; Ezequiel 18:23)”

II. O Segundo Ponto:
"Em relação ao segundo ponto no que diz respeito à restrição do pecado na vida do homem individual e na comunidade, o Sínodo declara que há tal restrição do pecado, segundo as Escrituras e a Confissão. Isto é evidente a partir das citações das Escrituras e da Confissão dos Países Baixos, Art. 13 e 36, que ensinam que Deus pelas operações gerais do Seu Espírito, sem renovar o coração do homem, restringe os efeitos do pecado, de modo que a vida humana na sociedade continua a ser possível; e quanto a isto também é evidente a partir das citações de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada, que desde os tempos antigos nossos pais reformados eram da mesma opinião. (Prova bíblica: Sl 81:11-12 ; Gn 6:3; At 7:42; Rm 1:24; Rm 1:26, 28; 2 Ts 2:6-7).”

III. O Terceiro Ponto:
"Em relação ao terceiro ponto, no que diz respeito à questão da justiça civil realizada pelo não-regenerado, o Sínodo declara que de acordo com a Escritura e as Confissões o não-regenerado, embora seja incapaz de fazer qualquer coisa dita boa, pode fazer o bem civil. Isto é evidente das citações das Escrituras e dos Cânones de Dordrecht, III- IV: 4, e da Confissão dos Países Baixos, Art. 36, que ensinam que Deus, sem renovar o coração, ainda assim influencia o homem de modo que ele seja capaz de realizar o bem civil; ao mesmo tempo que isto é evidente das citações de escritores reformados do período mais florescente da Teologia Reformada que nossos pais reformados desde os tempos antigos eram da mesma opinião. (Prova bíblica: 2 Rs 10:29-30; 2 Rs 12:2; 14:3 ; Lc 6:33; Rm 2:14).”


Extraído http://www.prca.org/resources/categories/articles/item/291-the-three-points-of-common-grace de 8 de Março de 2014.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

Para acesso aos documentos do sínodo da Christian Reformed Church - ACESSE AQUI

07 março 2014

Será que Deus ama o pecador e odeia apenas os seus pecados?

Por Dr. John H. Gerstner

“Arrependam-se ou pereça” exige que as pessoas ponderem seriamente acerca do slogan popular: “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” É necessário haver um arrependimento consistente diante da afirmação “Deus ama o pecador?” Se Deus ama o pecador, enquanto ele está vivo, é estranho que Deus o envie para o inferno, assim quando ele morrer. Deus ama o pecador até a morte? E não o amaria no tormento eterno?

Há algo errado aqui. Ou, Deus ama o pecador e não irá mandá-lo para dentro da fornalha de Sua ira eterna, ou Ele o enviará para a Sua ira eterna e não o ama. Ou, “você está indo para o inferno a menos”, porque Deus odeia você, como você é. Ou, Deus te ama e “você está indo para o inferno a menos que” é falsa.

O que leva quase todos a crerem que Deus ama o pecador é por Ele fazer tão bem ao pecador. Ele concede tantos favores incluindo deixar que continue vivendo. Como Deus pode permitir que o pecador viva e lhe dê tantas bênçãos, a não ser que Ele o ame? Há um tipo de amor entre Deus e os pecadores. Nós o chamamos de “amor de benevolência.” Isso significa que é um amor de boa vontade. Benevolens - bem disposto. Fazer bem. Deus pode fazer bem para o pecador sem amá-lo com o outro tipo de amor. “Amor complacente”, um prazer em, afeição por, admiração de. Ele existe na perfeição entre o Pai e o Filho, “em quem me comprazo” ( Mt 3:17; Mc 1:11).

Deus é perfeitamente descontente com o pecador. O pecador odeia a Deus, desobedece a Deus, é ingrato a Deus por todos os Seus favores, e até mesmo mataria a Deus, se pudesse. Este pecador está morto em seus delitos e pecados (Ef 2:1). “Os pensamentos e desígnios de seu coração são continuamente maus” (Gn 6:5). Ele é escravo do pecado (João 8:34) e um servo do diabo (Ef 2:2).

Deus não tem em nada amor complacente para com o pecador. Ele tem um ódio perfeito dele, de fato, Ele diz que “odeio-os com ódio consumado” (Sl 139:22 ).

Neste mundo o pecador em nada tem satisfação, senão no amor benevolente de Deus. Cada experiência de dor, bem como o prazer é do amor de Deus - de benevolência. Mesmo a dor é do Seu amor, porque Ele tende a despertar o pecador do seu perigo. Deus realmente ama o pecador, a quem Ele odeia com um ódio perfeito, mas com um perfeito amor de benevolência.

O pecador, como eu disse, torna em maldição cada bênção divina, incluindo o amor da benevolência de Deus. Isso ele faz por interpretar o amor de benevolência, como sendo um amor de complacência.

Tanto quanto “o ódio dos pecados” está relacionado, pois não existem pecados aparte do pecador. Deus odeia o pecar, ou seja, o matar, roubar, mentir, cobiçar, etc., mas isso faz alusão ao autor destes crimes.

Deus nunca odeia os remidos, mesmo quando eles pecam. Seria Ele um injusto admirador de pessoas? Não! (At 10:34) Deus odeia o pecador não redimido, mas ama os remidos, mesmo quando eles pecam por um motivo bom e justo. Deus ama os remidos, mesmo quando eles pecam, porque o Seu Filho, em quem Deus se compraz, vivendo sempre para interceder por eles (Rm 8:27, 34). Cristo morreu para expiar a culpa dos pecados de Seu povo. Quando eles pecam, estes são expiados - pelos pecados. Eles são pecados com sua culpa removida. Em certo sentido, estes pecados não são considerados. Deus não odeia o seu povo quando eles pecam, porque eles estão em Seu Filho, Cristo Jesus. E eles são feitos aceitáveis em seu Filho. Ele “nos faz aceitos no Amado” (Ef 1:6).

Nepotismo Divino? Não, o Seu Filho morreu por essas pessoas e pagou o preço por seus pecados passados, presentes e futuros. Eles são cancelados antes de serem cometidos. Essa é a verdade, não uma ficção. Justiça não é nepotismo favorecido. Na verdade, não é a sua relação original com Cristo que faz com que os seus pecados sejam sem culpa, mas a satisfação realizada por Cristo pelos seus pecados que criou o relacionamento como filhos adotados na família de Deus.

Quando o homem pecou, morreu espiritualmente e foi rejeitado da comunhão com Deus, seu criador e amigo (Gn 3; Rm 5:12). A ira de Deus estava sobre ele, o pesar no trabalho era a sua parte na maldição; bem como o sofrimento no parto; alienação e morte, como ameaçadas. Deus é santo; os seus olhos são tão puros que não podem contemplar a iniquidade. (Hq 1:13)

Esta foi uma terrível, mas santa ira. Deus estava usando o seu poder onipotente, mas segundo a Sua justiça perfeita. O homem foi afetado, mas ele mereceu. Não era mais, nem menos, do que ele merecia. Deus não é mais poderoso do que santo, nem mais sagrado do que poderoso.

Toda a glória a Deus por sua santa ira. (Jo 17:3; Rm 9:17).

Extraído de http://www.the-highway.com/lovesinner_Gerstner.html

Traduzido em 7 de Março de 2014.
Por Ewerton B. Tokashiki