14 agosto 2007

Breve avaliação da Teologia Relacional

Os teólogos adeptos do Open Theism, ou Teologia Relacional, têm usado como munição argumentos que questionam a chamada “concepção clássica de Deus”. Como este movimento de “reformar nosso entendimento de quem Deus é” ainda está desenvolvendo os seus tentáculos, não podemos generalizar todos os seus intérpretes, e esperar que todos tenham o mesmo raciocínio e conclusões, nem os teólogos americanos ou brasileiros, mesmo porque cada um tem as suas particularidades pessoais. Todavia, todos têm elementos em comum: se o próprio Deus não se conhece totalmente, logo, tudo o que se disser acerca dEle é questionável[1] Entretanto, parece-nos que o único atributo de que podemos ter alguma certeza é o amor. Assim, este "deus relacional" ama humanamente, e considera espúrio toda a presença do mal, mesmo não podendo ser soberano sobre ele. Tudo o que envolve sofrimento é indesejável e não pode proceder deste "deus relacional".

Mas, o que diremos do inferno? Um "deus relacional" condenaria pobres humanos que viveram na ignorância do Evangelho, e por causa de sua cultura pagã tiveram uma vida miserável, e ainda por fim seriam condenados a sofrer a punição divina por toda eternidade, não tendo em vida, nem após a morte, um instante de alívio de seu sofrimento existencial? Não é de se estranhar que o próprio Clark H. Pinnock tenha abandonado a crença de uma punição final eterna.[2] Ora, somente é possível concluir que o deus que não tem supremacia para decidir sobre os vivos, não pode condená-los após a sua morte!

Se o principal atributo de Deus é amor, e não podemos aceitar absolutos, então não deveria Ele também amar os demônios? Se os demônios são suas criaturas, como os seres humanos, por que razão Ele os despreza tanto? Deus na eternidade não sabia da conspiração de Satanás, ou não pôde evitá-la? Mas, mesmo depois de caídos e contaminados pelo mal, Deus não poderia, por amor, dar uma segunda chance? Afinal, qualquer um poderia se encontrar na mesma condição se estivesse absolutamente sem a influência da graça de Deus! Deus não se importa com o sofrimento dos demônios? Por que deste prefencialismo pelo ser humano? Estas são questões que sinceramente desejaria que um adepto da Teologia Relacional respondesse coerentemente.

Podemos imaginar adeptos da Teologia Relacional parafraseando Gn 1:26: façamos Deus a nossa imagem e semelhança. Esta tem sido a tarefa destes teólogos. Reconstruir uma teologia de Deus que limita a si mesmo, tornando-se mais frágil e um pouco mais humano. A sua transcendência deixa de ser uma de suas perfeições que O revela como sendo totalmente outro.[3] Entretanto, devemos ouvir o que o profeta Isaías registra declarando “com quem vocês vão me comparar? Quem se assemelha a mim? Pergunta o Santo” (Is 40:25).

Redefinir a nossa concepção de Deus não enxugará de ninguém as suas lágrimas. A Teologia Relacional não é capaz de consolar ninguém. Que consolo pode ter alguém ao ouvir: Deus quis, mas não pôde fazer nada! Ou, Deus não previu este acidente. Ouvir que Deus está chorando comigo, porque não pôde fazer nada, não conforta, apenas aumenta a incredulidade e o desespero. Quem afinal governa o mundo? Seria a pergunta mais responsável a se fazer.

Deus não fica impassível diante do sofrimento. Na boca do profeta Ezequiel Ele diz: “teria eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do Soberano, o SENHOR. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?” (Ez 18:23, NVI). O Senhor consola os abatidos. É Ele quem ordena “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra” (Sl 46:10, ARA). Ele em sua Providência sustenta toda a criação “porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mt 5:45, NVI). Sendo que “toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes” (Tg 1:17, NVI). No fim, quando Ele retirar a maldição e restaurar toda a criação (Rm 8:18-25), então “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Ap 21:4, NVI).

Notas:
[1] Clark H. Pinnock, Deus Limita Seu Conhecimento in: Predestinação e Livre-Arbítrio (São Paulo, Ed. Mundo Cristão, 1996), pp. 173-197.
[2] Clark H. Pinnock, The Destruction of the Finally Impenitent in: Criswell Theological Review, Spring 1990, vol. 4, número 2, pp. 243-259.
[3] Cuidadosamente uso o termo totalis aliter de Karl Barth.

Um comentário:

lindoberg disse...

Querido pastor, o Sr. teria material sobre "Teologia do processo" que pudesse me enviar?! estou precisando para montar um seminário e apresentar onde estudo.... se puder me mandar ficarei grato: lindembergh@gmail.com

Abraços reformados!