13 março 2012

O princípio básico do Calvinismo

Escrito por H. Henry Meeter

Todo sistema unificado de pensamento é regido por um, ou vários princípios fundamentais que lhe são inerentes. Também é assim com o calvinismo. No princípio do século XX eruditos de diferentes escolas de opinião estudaram profundamente o gênio do movimento calvinista.[1] Entre estes houve alguns que nem chegaram a prever uma unidade orgânica de sistema e se contentaram tão somente em descobrir uma parcela do mesmo; assim, pois, chegaram a caracterizar ao calvinismo como um sistema religioso cuja característica era o espírito da democracia e a ânsia pela liberdade. Chegou a pensar-se que este sentir provinha do amor pela liberdade tão notável no povo suíço. Outros, cuja atenção centrou-se nos aspectos legais do movimento, assim como na nota de sua autoridade, fizeram disto a nota distintiva e a atribuíram à formação que Calvino recebeu como advogado. Outros creram ver o traço distintivo do calvinismo na maravilhosa ordem e sistematização que como pensamento ordenado ele exibe. Isto atribuí-se ao temperamento francês de Calvino que, como o mais famoso dos franceses, dizem que possuía uma assombrosa habilidade de ordenar e organizar fatos em um vasto sistema. Outros creem que o diferencial calvinista constituiu sua ruptura total com o escolasticismo da Idade Média, considerando assim a Calvino como um avançado liberal religioso de seu tempo. Essa característica foi atribuída à formação humanista que recebeu em sua juventude.

Enquanto estas apreciações contém certa verdade e assinalam algumas facetas distintivas do sistema, nenhuma delas, de per si, merece a distinção de ser considerada a característica predominante do calvinismo e muito menos o seu princípio básico. William Hastie chama a estas apreciações de “conjecturas de pensadores geniosos insuficientemente familiarizados com as condições do problema e cujas conclusões não se deveram a um exame completo e exaustivo das informações disponíveis.”[2] Aqueles que tiverem realizado um estudo exaustivo do problema, coincidirão com R. Seeberg ao dizer que “este francês de educação humanista era, acima de tudo, um cristão evangélico, e toda a sua concepção do mundo, de fato, era determinada pelo seu espírito evangélico.”[3]

O princípio básico radica precisamente na esfera das doutrinas evangélicas dos calvinistas, e nestas doutrinas concebidas, não como meras abstrações, senão como verdades vitais que chegam e condicionam tudo em suas vidas. Podemos afirmar, sem lugar para dúvidas, que o princípio básico concerne e se concentra na doutrina de Deus. Por mais científicas que sejam as descrições que os investigadores nos deem do princípio básico do calvinismo, num ponto todos coincidem com o filósofo W. Dilthey quando disse que o enfoque teológico é característico de todo o movimento calvinista em seus primeiros cento e cinquenta anos, e que durante todo este tempo o calvinista coloca em Deus o centro de seus pensamentos.[4] Um exame das confissões calvinistas, especialmente aquelas da primeira época da Reforma, apresenta ampla evidência sobre o particular.[5]

O pensamento central do calvinismo é, consequentemente, o pensamento de Deus. Como alguém pode notar, assim como o metodista põe em primeiro plano a ideia da salvação do pecador, e o batista o mistério da regeneração, e o luterano a justificação pela fé, e o morávio as feridas de Cristo, e o católico grego ortodoxo o misticismo do Espírito Santo e o romanista a catolicidade da Igreja, assim também o calvinista sempre coloca em primeiro plano o pensamento de Deus.[6] O calvinista não parte de certos interesses sobre o homem – por exemplo, a sua conversão, ou a sua justificação - , senão que o pensamento condicionante é sempre este: dar a Deus os seus direitos; procura levar a termo, como conceito regulador de sua vida, aquela verdade da Escritura que diz: “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre.”[7]

Sobre este ponto há ampla unanimidade entre os investigadores do calvinismo. Somente quando se trata de expressar esta ideia numa fórmula específica, surge o desacordo. Alguns sugerem que o atributo da existência própria de Deus (aseitas) – como o atributo mais fundamental que possamos afirmar acerca de Deus -, poderia considerar-se como o princípio fundamental do calvinismo. É duvidoso, todavia, que possamos expressar assim princípio básico já que não é algo em Deus – algum atributo específico de seu Ser – que vem a constituir o fundamento do sistema, senão o próprio Deus. Ademais, o termo “existência de per si”, exclui, ao menos diretamente, toda a relação de Deus com o mundo; relação que é necessária para expressar o princípio formativo da concepção calvinista do mundo. Deus existiria por si, ainda no caso de que não existisse mundo. Deve-se, pois, buscar outra expressão para indicar a relação que Deus mantém com o universo criado. Os termos que melhor parecem indicar esta relação são os da frase: a absoluta soberania de Deus; e, que na frase ainda mais específica se expressaria assim: a absoluta soberania de Deus nas esferas natural e moral.

Para não cair em concepções errôneas é conveniente entender bem em que sentido se usa esta frase: a soberania de Deus. Na mente de uma pessoa comum a frase parece suscitar a ideia de que para o calvinista Deus não é mais que um governante, ou senhor do mundo que promulga leis para criaturas – independentemente de seus atributos de amor e graça. Não deve surpreender-nos que A. Ritschl, entre outros eruditos, tenha interpretado assim o princípio calvinista da soberania de Deus, e o tenha considerado inadequado para expressar o princípio básico para a religião – que deve estruturar-se sobre a ideia do amor de Deus. Todavia, nenhum bom calvinista subscreveria uma concepção tão limitada da soberania de Deus. A soberania, mais do que um atributo, é concebido como uma prerrogativa de Deus. O que o calvinista quer dar a entender quando fala da soberania de Deus, é muito mais amplo que a mera ideia de que Deus é o Ser que promulga e sustenta as leis físicas e morais do universo. Deus não é somente o Supremo Legislador e Promulgador da lei, senão que também é o Supremo nas esferas da verdade, da ciência e da arte – tanto como é na esfera moral, na manifestação de seu amor e sua graça e todos os seus benefícios, e na revelação das leis para a conduta humana e nas que operam na natureza. O calvinista crê que Deus não procede arbitrariamente na distribuição dos seus dons, nem no controle providencial sobre o homem e da natureza. A ordem é a primeira lei do céu. As esferas da verdade e do amor, o plano científico e moral, do mesmo modo que no mundo e na natureza, estão sujeitos a uma lei e a uma ordem. Assim, pois, o calvinista descobre no universo criado por Deus e sustentado por sua providência um sistema maravilhoso de leis harmônicas e ordenadas. O calvinismo é um sistema que abrange o todo; é um sistema em que tudo procede e é determinado por Deus. Nesta distribuição e administração de todas as coisas, Deus permanece supremo: “dEle, e por Ele, e para Ele e para Ele são todas as coisas.”

Quando o termo soberania de Deus é corretamente entendido, não como uma frase meramente legalista, como se Deus fosse tão somente o Supremo Legislador e Criador das leis da natureza, senão no sentido mais rico que temos descrito, nada há que impeça que usemos o termo para indicar o princípio básico do calvinismo. Entendido assim, parece ser que este é precisamente o termo mais indicado para designar a absoluta supremacia de Deus em todas as coisas e, consequentemente, o termo apropriado quando se trata de estruturar um sistema no qual Deus seja o centro de tudo. O grande calvinista B.B. Warfield escreveu: “de tudo isto se desprende o princípio formativo do calvinismo. O calvinista é o homem que vê a Deus detrás de todo fenômeno, e em tudo o que acontece reconhece a mão de Deus operando a sua vontade; o calvinista, em todas as atividades de sua vida, adota uma atitude permanente de oração: o calvinista se entrega completamente à graça de Deus e exclui qualquer traço de autossuficiência em toda a obra da salvação.”[8]

Em outro lugar, o mesmo autor afirma que o princípio básico do calvinismo “há que buscá-lo numa profunda apreensão de Deus em toda a sua majestade; compreensão que necessariamente há de levar a um conhecimento exato da amarga realidade da nossa relação de criaturas e, em particular, da nossa relação como criaturas pecadoras ... . O calvinista é o homem que vê a Deus; e tendo visto a Deus em sua glória, por uma parte, experimenta um sentimento de indignidade para comparecer diante dEle como criatura e muito mais como pecador e, por outro lado, o calvinista está cheio do assombro reverente de que, apesar de tudo, Deus recebe aos pecadores. Aquele que sem reservas crer em Deus e, está convencido de que Deus será o seu Deus em todo o seu pensamento, sentimento e vontade – em toda a ampla gama de suas atividades intelectuais, morais e espirituais - e, através de todas as suas relações individuais, sociais e religiosas, é por força da lógica mais estrita um calvinista.”[9]

NOTAS:
[1] Para uma visão da literatura que existe sobre o tema consulte: The Theology of the Reformed Church in its Fundamental Principles (Edimburg, 1904); H. Voigt, Fundamental Dogmatik (Gothal, 1874); H. Bauke, Die Probleme der Theologie Calvins (Alfred Topelmann, Giessen, 1910); H.H. Meeter, The Fundamental Principle of Calvinism (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1930).
[2] W. Hastie, The Theology of the Reformed Church in its Fundamental Principles (Edinburgh, 1904), p. 142.
[3] Reinhold Seeberg, Lehrbuch der Dogmengeschichte, vol. 2, pp. 558-559. Deve-se levar em conta que o termo evangélico é usado aqui num sentido de compromisso com o evangelho, e não como o é usado em suas diferentes nuanças no contexto europeu, norte-americano ou latino. Nota do tradutor.
[4] W. Dilthey, Die Glaubenslehre der Reformation in Preuss, Jahrb. 1887, p. 80. H. Bauke, op. cit., p. 26.
[5] H.H. Meeter, The Fundamental Principle of Calvinism (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 1930), pp. 51-55.
[6] Mason W. Pressly, Calvinism and Science, artigo em Ev. Repertoire, 1891, p. 662.
[7] Rm 11:36.
[8] B.B. Warfield, Calvin as a Theologian and Calvinism Today em Presbyterian Board of Publication, Philadelphia, 1909, pp. 23-24.
[9] B.B. Warfield, op.cit., pp. 22-23.

Extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 13-18. Originalmente escrito em inglês sob o título de THE BASIC IDEAS OF CALVINISM.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostaria de saber sua opinião e que fizesse um post a respeito de um texto escrito em 2008 por um catolico criticando a biblia protestante
http://caiafarsa.wordpress.com/corrupcao-e-mutilacao-das-biblias-protestantes/