15 novembro 2014

Por que sou cessacionista?

Escrito por Thomas Schreiner

Não escrevi sobre este assunto por ter a resposta final sobre os dons espirituais, pois a matéria é difícil e cristãos que amam a Deus e a Bíblia, discordam a seu respeito. Os leitores sabem que Sam Storms e eu somos amigos. Amamos um ao outro, embora numa ou outra coisa diferimos acerca de temas secundários ou periféricos, entretanto, ao mesmo tempo sustentamos a importância da verdade. Com o passar dos anos tenho me convencido que alguns dos assim chamados dons carismáticos não são mais concedidos e que eles não tem regular atuação na vida da igreja. Penso que particularmente os dons do apostolado, profecia, línguas, curas, e milagres (bem como o discernimento de espíritos).

Por que alguém pensaria que alguns dos dons foram retirados? Argumentarei que uma leitura se encaixa melhor com a Escritura e a experiência. A Escritura recebe prioridade sobre a experiência, pois ela é a autoridade final, mas a Escritura também precisa estar conectada com a vida, e as nossas experiências nos provocam a reexaminar mais uma vez quando tivermos que ler a Bíblia corretamente. Nenhum de nós lê a Bíblia num vacuum, então, devemos retornar à Escritura repetidamente para certificarmos de que a lemos fielmente.

O fundamento dos apóstolos e profetas

Paulo diz que a igreja é “edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Ef 2:20). Concluo que tudo o que necessitamos conhecer para a salvação e santificação nos foi dado através do ensino dos apóstolos e profetas, e que agora, este ensino encontra-se nas Escrituras. Tendo Deus falado nestes últimos dias através do seu Filho (Hb 1:2), não necessitamos de mais palavras dele para explicar que Cristo consumou em seu ministério, morte e ressurreição. De fato, somos chamados a “batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” através dos apóstolos e profetas (Jd 3).

Permita-me colocar de outro modo. Não temos mais apóstolos como Paulo, Pedro, João ou os demais. Eles nos deram o autorizado ensino pelo qual a igreja continua vivendo até este dia, e que é o único ensino que precisaremos até o retorno de Jesus. Sabemos que novos apóstolos não apareceram desde que Paulo especificamente disse que ele era o último apóstolo (1 Co 15:8). E, quando Tiago, o irmão de João, morreu (At 12:2), ele não teve substituto. Os apóstolos, num sentido técnico, são restritos àqueles que viram o Senhor ressurreto e que foram comissionados por ele, e ninguém desde os tempos apostólicos preenche tal critério. Os apóstolos foram únicos a serem apontados para os primeiros dias da igreja a fim de estabelecerem a doutrina ortodoxa. Então, não há mandato para se dizer que atualmente há apóstolos. De fato, se alguém reivindica hoje ser um apóstolo, poderíamos nos preocupar, pois tal exigência abre a porta para o falso ensino e abuso de autoridade.

Se o dom do apostolado encerrou, então, outros dons podem igualmente terem cessado, desde que o fundamento foi estabelecido pelos apóstolos e profetas (Ef 2:20). Concluo deste ponto que o dom de profecia também findou, pois os profetas identificados aqui são do mesmo tipo que mencionados em outros lugares (cf. 1 Co 12:28; Ef 3:5; 4:11). As igrejas primitivas não possuíam o cânon completo ao mesmo tempo, e, portanto, um ministério profético autorizado e infalível era necessário para colocar o fundamento da igreja naqueles primeiros dias.

O argumento bíblico mais significativo contra o que estou dizendo é reivindicar que a profecia do Novo Testamento difere da profecia do Antigo Testamento, dizendo que a profecia do Antigo Testamento é infalível, mas que a profecia do Novo Testamento é misturada ao erro. Todavia, a ideia de que os profetas do Novo Testamento poderiam confundir-se não convence por várias razões: 1) o dever de provar está sobre aqueles que dizem que a profecia no Novo Testamento é de natureza diferente da profecia do Antigo Testamento. Profetas no Antigo Testamento somente eram considerados profetas de Deus se eles fossem infalíveis (Dt 18:15-22), e o mesmo é igualmente verdadeiro no Novo testamento. 2) A admoestação para julgar as profecias dos profetas (1 Co 14:29-32; 1 Ts 5:19-20), muitas vezes, é levado a mostrar que o dom é diferente no Novo Testamento. Mas este argumento não é convincente, pois o único modo de julgar os profetas em ambos os Testamentos é pelas suas profecias. Somente sabemos que profetas são ou não de Deus, se as suas profecias são falsas ou se as suas palavras contradizem o ensino da Escritura. 3) Não temos nenhum exemplo de profeta no Novo Testamento que tenha cometido erro. Ágabo não se confundiu em profetizar que Paulo poderia ser preso pelos judeus e entregue aos romanos (At 21:10-11). Ao dizer que ele errou, exige mais precisão do que profecias exigem. Sendo que, após Paul ser arrastado, ele apelou às palavras de Ágabo, dizendo que ele foi entregue aos romanos pelos judeus (At 28:17), assim, está claro que ele não pensava ter Ágabo feito confusão. Ágabo falou as palavras do Espírito Santo (At 11:28; 21:11), de modo que, não temos exemplo no Novo Testamento de que profetas e suas profecias estavam misturadas com erro.

Alguns contestam que a minha visão de profecia está errada porque existiram centenas e milhares de profecias no tempo do Novo Testamento que nunca foram incluídas no cânon. Mas, esta objeção não convence, pois o mesmo foi verdadeiro no Antigo Testamento. Muitas das profecias de Elias e Eliseu nunca foram escritas ou inclusas na Escritura. Ou, nós podemos pensar dos 100 profetas que foram poupados por Obadias (1 Rs 18:4). Aparentemente nenhuma de suas profecias foi inclusa nas Escrituras. No entanto, todas as profecias foram plenamente verdadeiras e livres de erro, pois, caso contrário, eles não poderiam ter sido profetas (Dt 18:15-22). O mesmo princípio se aplica às profecias dos profetas do Novo Testamento. As suas palavras não foram registradas para nós, todavia, se eles eram verdadeiros profetas, então, as suas palavras eram infalíveis.

O que algumas pessoas atualmente chamam de “profecias” são apenas impressões de Deus. Ele pode usar impressões para guiar e levar-nos, mas elas não são infalíveis e precisam sempre serem provadas pela Escritura. Também poderíamos consultar com sábios conselheiros antes de agir sob tais impressões. Eu amo meus irmãos e irmãs carismáticas, mas o que eles chamam hoje de “profecia” não é de fato o dom bíblico da profecia. Deus concede impressões o que não é a mesma coisa de profecias.

E o que dizer das línguas?

O dom de línguas é um tema um pouco mais difícil. Em Atos (2:1-4; 10:44-48; 19:1-7) este dom significa que o tempo da plenitude chegou quando se realizaram as promessas pactuais de Deus. Os textos de 1 Co 14:1-5 e At 2:17-18 também sugerem que as línguas interpretadas (ou entendidas) são equivalentes a profecia. Então, parece que a profecia e as línguas estão estreitamente relacionadas. Se profecia é algo que passou, então, as línguas igualmente findaram. Deste modo, está claro que em Atos, o dom envolve falar numa língua estrangeira (At 2), e que Pedro enfatiza no caso de Cornélio e seus amigos, que os gentios receberam o mesmo dom que os judeus (At 11:16-17).

Nem persuade ao dizer que o dom em 1 Co 12-14 é de uma natureza diferente (i.e., sons extáticos). A palavra línguas (glōssa) denota um código linguístico, uma linguagem estruturada e não livre vocalização. Quando Paulo diz não entender aqueles que falavam em línguas porque eles falavam mistério (1 Co 14:2), ele não está sugerindo que o dom é diferente daquele que encontramos descrito em Atos. Os que ouviram as línguas em Atos entenderam o que estava sendo falado, porque eles conheciam as línguas que os apóstolos estavam falando. Se ninguém conhece a língua, então o falador da língua permanece em mistério. Nem está 1 Co 13:1 (a língua dos anjos) sustentando a noção de que o dom de línguas consiste de declarações estáticas. Paulo usou de uma hipérbole em 1 Co 13:1-3. Ele estava claramente exagerando quando se refere ao dom de profecia (1 Co 13:2), pois ninguém que profetizava conheceria “todos os mistérios e ciência.”

Creio que o que acontece nos círculos carismáticos, em relação ao dom de línguas, pode-se considerar de modo similar ao que dissemos do dom de profecia. O dom é redefinido ao concluir ser livre vocalização, e com isto as pessoas reivindicam ter o dom descrito na Escritura. Ao fazer isso, eles definem o dom acomodando-o à experiência contemporânea. Assim, são demoníacas as línguas contemporâneas? Eu penso que não. E concordo com J.I. Packer que a experiência é apenas uma forma de relaxamento psicológico.

Milagres e curas

O que dizer acerca dos milagres e curas? Primeiro, creio que Deus poderia curar e realizar coisas miraculosas ainda hoje, e podemos orar por isto. A Escritura não é tão clara sobre este assunto, então, é possível que estes dons ainda existam hoje. A primária função destes dons foi dar credibilidade à mensagem do evangelho, confirmando que Jesus era tanto Senhor como o Cristo. Entretanto, tenho dúvidas de que o dom de milagres e curas ainda exista hoje, pois não é evidente que homens e mulheres em nossas igrejas tenham tais dons. A reivindicação por milagres e curas carece ser verificada, do mesmo modo que as pessoas verificaram a cura do cego em Jo 9. É ordenado um tipo de ceticismo bíblico.

Deus poderia nas distantes situações missionárias garantir milagres, sinais e maravilhas pra creditar o evangelho como ele o fez nos tempos apostólicos? Sim. Mas, não é o mesmo que possuir estes dons como uma capacidade regular no andamento diário da igreja. Se os sinais e maravilhas dos apóstolos retornaram, poderíamos ver o cego recebendo a sua vista, o aleijado andar, e o morto ressuscitar. Deus cura hoje (às vezes, de modo dramático), mas, a cura de resfriados, de gripe, de dores estomacais, e dores nas costas não estão na mesma categoria que as curas encontradas nas Escrituras. Se há pessoas que verdadeiramente têm o dom de curas e milagres, eles devem demonstrar apenas realizando o mesmo tipo de curas e milagres encontrados na Bíblia.

1 Corinthians 13:8-12 contradizem a sua percepção?

Consideremos uma objeção à noção de que alguns dos dons tenham cessado. O texto de 1 Corinthians 13:8-12 ensina que os dons permanecerão até a volta de Jesus? Certamente este texto ensina que os dons permancerão até a vinda de Jesus. Não há um ensino definitivo na Bíblia que eles tenham cessado. Podemos esperá-los até a segunda vinda. Mas, vemos algumas dicas de Ef 2:20 e de outros textos, que os dons exercem um papel fundacional. Então, concluo que 1 Co 13:8-12 permite, mas não requer que os dons continuarão até a segunda vinda. Assim, os dons como o são praticados hoje, não se encaixam com a descrição bíblica daqueles dons.

Por razões como estas os reformadores bem como a tradição protestante até o século 20 creram que os dons cessaram. Concluo que tanto a Escritura como a experiência comprova o seu julgamento sobre o assunto.

Nota do editor: Veja também o artigo de Sam Storm "Why I Am a Continuationist"

Thomas Schreiner é o professor de Novo Testamento James Buchanan Harrison de Interpretação e deão associado de Escritura e Interpretação no Southern Baptist Theological Seminary em Louisville, Kentucky.

Acessado http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2014/01/23/why-i-am-a-cessationist/ em 23/01/2014.

Tradução livre de 14 de Novembro de 2014
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

2 comentários:

Valderi Felizado da Silva disse...

Até que enfim um irmão cessacionista abandonou a interpretação furada de que "o que é perfeito" se referia ao cânone, e assim, determinaria que os dons acabarem por volta do ano 95 dC. No resto, tem mais passagens em todo o NT dizendo que os dons continuaria, caso o crente o buscasse, que, hipoteticamente, cessasse. O que não caso não há uma única linha em todo a Bíblia. A não ser o caso quando o Perfeito vier.

António Jesus Batalha disse...

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