06 dezembro 2011

Os livros apócrifos da Bíblica católica

Nem sempre a Igreja Católica Apostólica Romana aceitou os Apócrifos como inspirados. Isto significa dizer que enquanto os reformadores não declararam "sola Scriptura" não provocou a resposta da Igreja Católica Romana sobre o que ela considerava "Escritura Sagrada". Hulrich Zwingli foi um dos primeiros a declarar formalmente o princípio da sola Scriptura em seu texto conhecido como as "67 Conclusões", considerada a primeira confissão doutrinária da Reforma.

No Concílio de Trento (1545-1563) na 4ª sessão de 8 de Abril de 1546 no Decreto Concernente às Escrituras Canônicas lemos a decisão:
Mas se alguém não recebê-los [os apócrifos] como sagrados e canônicos os livros completos e em todas as suas partes, conforme têm sido usados para leitura na Igreja Católica, como se contém na velha edição Vulgata; e conhecendo-a, conscientemente condenar as tradições citadas, que seja anátema.[1]

Esta decisão da Igreja Romana implicou que ao adotar a Vulgata Latina como texto padrão oficial, ela endossou todos os livros apócrifos que esta tradução continha. A Vulgata é uma tradução latina da Bíblia feita em 382-385 d.C., baseanda no Antigo Testamento na Septuaginta[2] e não do texto hebraico original. O seu tradutor foi Sofrônio Eusébio Jerônimo (340-420 d.C.). Em outras palavras a Vulgata Latina é uma tradução de outra tradução. O resultado foi que o cânon [coletânea] católico possui 7 livros a mais (Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc) e alguns acréscimos nos livros de Ester e Daniel, diferindo da original Bíblia Hebraica.[3]

NOTAS:
[1] Phillip Schaff, The Creeds of Christendom (Wm. B. Eerdmans Publishers), vol. 2, pág. 82.
[2] A Septuaginta (LXX) é a tradução do Antigo Testamento feita entre 200 a 150 a.C., por uma equipe de 70 judeus. Embora a tradução foi realizada à partir do texto hebraico, foram acrescentadas vários outros livros religiosos, escritos em grego, que circulavam entre judeus. Norman Geisler & William Nix, Introdução Bíblica (Editora Vida), pp. 196 e 213.
[3] Catecismo da Igreja Católica, Parte I, cap. II, art. 3. iv, (Editora Vozes), p. 43

5 comentários:

Carlos Jr disse...

excelente post gosto muito da orientação CFW :
III. Os livros geralmente chamados Apócrifos, não sendo de inspiração divina, não fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus, nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos humanos.

Luc. 24:27,44; Rom. 3:2; II Pedro 1:21.

Conhecereis a Verdade disse...

Quero informar que este post tem um erro.

O antigo Testamento da Vulgata não foi traduzido baseado na Septuaginta. Jerónimo traduziu o Antigo Testamento a partir do hebraico e não traduziu os apócrifos excepto Judite e Tobias que traduziu mais tarde do aramaico a pedido de uns amigos.

Os livros apócrifos que constam da Vulgata foram inseridos como estavam na Antiga Latina.

E diga-se que foram inseridos na Vulgata contra a vontade de Jerónimo que depois escreveu no prefácio do livro de Samuel e Reis a sua posição em relação a estes livros.

"Este prólogo às Escrituras pode servir como um prefácio com elmo [galeatus] para todos os livros que vertemos do hebreu para o latim, para que possamos saber – os meus leitores tanto como eu mesmo - que qualquer [livro] que esteja para lá destes deve ser reconhecido entre os apócrifos. Portanto, a Sabedoria de Salomão, como se a titula comummente, e o livro do Filho de Sirá [Eclesiástico] e Judite e Tobias e o Pastor não estão no Cânon."

Jerónimo traçou a diferença entre os livros canónicos e os eclesiásticos como se segue:

"Como a Igreja lê os livros de Judite e Tobite e Macabeus, mas não os recebe entre as Escrituras canónicas, assim também lê Sabedoria e Eclesiástico para a edificação do povo, não como autoridade para a confirmação da doutrina."

Ewerton B. Tokashiki disse...

Recomendo que você leia, se tiver acesso:
Angelo Di Berardino, Patrologia - La Edad de oro de la literatura patrística latina (Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2001), vol. III, pp. 259-266. Aponta para o fato de Jerônimo realmente não usou somente a Septuaginta, mas também outras traduções de livros do AT, às vezes, recorrendo ao Texto Massorético [Hebraico], e nunca chegou a dominar a língua original do AT.

Conhecereis a Verdade disse...

Jerónimo começou a traduzir da Septuaginta, mas verificou que para fazer um bom trabalho devia traduzir do texto hebraico. Assim abandonou a Septuaginta e começou a sua tradução do VT do hebraico para o latim que deu origem à Vulgata. Jerónimo fez este trabalho em Belém da Judéia e foi certamente dos Judeus da Palestina que obteve o texto hebraico para fazer a sua tradução. Ao contrário de Agostinho, Jerónimo dominava o hebraico suficientemente bem para podê-lo traduzir para o latim e sabia também aramaico (foi deste idioma que traduziu dois apócrifos. os únicos apócrifos que ele traduziu.

Os apócrifos já estavam na Antiga Latina por influência dos códices da Septuaginta que os traziam incorporados em número variável, e apesar de Jerónimo não ter gostado da ideia foram inseridos na Vulgata exatamente conforme estavam na Antiga Latina porque estes livros eram usados na Igreja como leitura proveitosa.

Conhecereis a Verdade disse...

As minhas fontes são:

Nicene and Post-Nicene Fathers, 2nd Series, vol 6, St. Jerome, p. xvii-xx e 488.

Smith, William (ed.), A Dictionary of the Bible, s.v. Vulgate. Hartford: S.S. Scranton & Co., 1899, p. 986-987.