Por Willem Van’T Spijker
Calvino aparentemente seguia os desejos de seu pai por obediência quando Deus, mediante a rédea secreta de Sua providência, o conteve. Sua conversão foi guiada pelo próprio Deus. O que chama a atenção é a franqueza com que Calvino descreve quão “obstinadamente devotado” ele estava “às superstições do papado”, a ponto de não conseguir “libertar-se facilmente de um abismo de lama tão profundo”. Mesmo considerando sua idade, ele já estava “endurecido em tais questões”. Somente por meio de uma “conversão repentina” ele foi “subjugado e conduzido... a uma disposição dócil”. Com o termo “repentina” (subita), Calvino indica que essa não foi apenas uma mudança decisiva, mas também uma conversão inesperada e graciosa, que só poderia ser explicada como uma intervenção graciosa do próprio Deus.[1] Assim, ele se tornou um discípulo que, “tendo recebido algum gosto e conhecimento da verdadeira piedade”, passou a ser receptivo à “doutrina mais pura”. Em menos de um ano, todos os que desejavam tal doutrina o procuravam para aprender. Uma mudança radical havia ocorrido.
Ao que parece, devemos considerar a subita conversio como um conceito teológico que Calvino empregou em 1557, quando sua posição em Genebra já estava consolidada, para expressar a convicção de seu chamado. Portanto, o termo não visa, primordialmente, a uma definição cronológica. A conversio conduziu a uma vocatio à qual ele não podia se furtar. Ele foi subjugado à conversão pelo fato de que sua busca pela verdadeira piedade encontrou satisfação na purior doctrina. Contido pela providência divina, ele finalmente cedeu.
A questão sobre o que o retinha até aquele momento é respondida pelo próprio Calvino em sua carta a Sadoleto: a reverência pela igreja (ecclesiae reverentia).[2] Podemos presumir que Calvino fala aqui de maneira muito pessoal sobre a resistência que demonstrava em relação à doutrina purificada, à qual mal dava ouvidos. Contudo, quando abriu os ouvidos e permitiu ser instruído, percebeu que aquele receio de não demonstrar reverência suficiente pela igreja não tinha fundamento.[3]
O que antes lhe parecia uma afronta à dignidade, agora se apresentava como superstição. A reverência pela igreja deve vir acompanhada da reverência pelas Escrituras.[4] Para Calvino, essa volta às Escrituras estava ligada ao fato de que ele não encontrava a verdadeira paz de consciência em nenhum outro lugar senão na pregação bíblica. Ele não era do tipo que escrevia suas "confissões", como Agostinho. Também não falava com a mesma abertura sobre sua experiência de fé que Lutero costumava fazer. Na carta a Sadoleto, porém, ele nos deixa entrever algo de sua luta interior: "Pois sempre que eu mergulhava em mim mesmo ou elevava meu coração a Ti, um terror extremo se apoderava de mim — um terror que nenhuma expiação ou satisfação poderia curar". A essa angústia de consciência, o evangelho — que lhe chegara sob uma forma inteiramente nova, como doctrina, finalmente trouxe descanso quando ele se permitiu ser instruído. Em seu conteúdo, essa passagem da carta a Sadoleto concorda com a nota autobiográfica na introdução ao comentário sobre os Salmos. Talvez, em ambos os documentos, Calvino esteja descrevendo os motivos que o levaram a optar pelo movimento evangélico, mesmo quando isso tornava inevitável o rompimento com Roma.
A subita conversio, portanto, oferece um retrato do que foi, na verdade, um processo mais longo de desenvolvimento rumo a uma decisão definitiva, iniciado anteriormente. Em outro momento, Calvino fala de uma época em que experimentara um pouco da sã doutrina que começava a libertá-lo das trevas do papado. Isso ocorreu no início da controvérsia sobre a Ceia do Senhor, antes mesmo do Colóquio de Marburgo.[5] Esse detalhe coincide com o relato de Beza na biografia de Calvino, onde lemos que, em Orléans, Calvino reencontrou seu primo Pierre Robert Olivétan (Olivetanus), também natural de Noyon. Muito provavelmente, foi ele quem colocou Calvino em contato com a Reforma.[6] Segundo essas mesmas informações, durante o período de seus estudos em Orléans e Bourges, Calvino pregava regularmente na região. Tudo isso, contudo, ainda ocorria no contexto do humanismo religioso do círculo em torno de Lefèvre, que também se fazia presente em Orléans naquela época. Beza relata que foi após a estadia de Calvino em Paris que ele decidiu dedicar-se inteiramente a Deus.[7] Podemos presumir que essa decisão definitiva coincidiu com a subita conversio mencionada no comentário aos Salmos.
Notas:
[1] Institutas
1.8.11 (CO vol. 2, p. 67): Paulus vero non tantum ex professo hoste, sed etiam
saevo et sanguinario, conversus in novum hominem, subita et insperata mutatione
ostendit coelesti imperio se compulsum doctrinam quam oppugnaverat asserere.
[2]
CO
vol. 5, p. 412.
[3] Ibid.: Verum ubi aliquando aures aperui, meque doceri passus sum, supervacuum fuisse timorem
illum intellexi, ne quid ecclesiae maiestati decederet.
[4] Cf. Institutas 1.8.11 (CO vol. 2, p. 67).
[5] CO vol. 9, p. 51: Quum enim a tenebris papatus emergere
incipiens, tenui sanae doctrinae gustu concepto ... .
[6] CO vol. 21, pp. 29-30, 54ss., 121-22: “Calvino fez parte da sua resolução de se entregar a todos os 4 dias, trabalhando com grandes frutos”, “tendo experimentado algo da religião pura por meio de um parente e amigo seu, chamado Pierre Robert, também conhecido como Olivetanus, ... ele começou a se distrair das superstições papais.” [tradução de Ewerton B. Tokashiki].
[7] CO 21:56: “Calvin done de sa part prenant dés lors resolution de se dedier du tout 4 Dieu, travailloit avec grand fruit.” ["Calvino, por sua vez, tomando a partir de então a resolução de se dedicar inteiramente a Deus, trabalhou com grandes frutos." tradução de Ewerton B. Tokashiki]
Willem Van'T Spijker, Calvin: A brief guide to his life and thought (Louisville, Wesminster John Knox Press, 2009), pp. 19-20.
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