18 março 2014

Os problemas de Mark Driscoll e os nossos

A crise na liderança americana evangélica

Escrito por Carl R. Trueman

A recente revelação de que Mars Hill Church, em Seattle, pagou uma empresa externa para impulsionar as vendas dos livros de seu pastor, levantou questões não apenas sobre a integridade pessoal, mas também sobre a própria cultura do evangelicalismo americano.

Como um presbiteriano inglês vivendo nos EUA, eu nunca tenho a certeza sobre se eu sou, ou não, um "evangélico" no padrão norte-americano. Quando volto para casa, eu sei que sou evangélico, sem dúvida, mas aqui é mais complicado. De fato, eu sustento uma fé protestante tradicional, ortodoxo, com uma forte inclinação existencial. Mas o evangelicalismo americano é mais (e, às vezes, muito menos) do que isso. Os compromissos políticos do movimento são, em geral, um mistério para mim. E, embora, o modelo de liderança celebridade do movimento é compreensível para mim em termos sociológicos, acho que é de mau gosto e duvidosamente não-bíblica. É muitas vezes parece representar exatamente o que Paulo estava criticando em 1 Coríntios 1 .

Aos que não estão familiarizados com a recente história evangélica americana, algumas informações do contexto: a seis ou sete anos atrás, o Calvinismo se tornou legal. Mais do que isso, o Calvinismo se tornou tão legal que começou a tornar-se uma mercadoria muito vendável e para atrair muito dinheiro. Um movimento amplo, eclético e dinâmico surgiu, apelidado do “Jovem, Inquietos e Reformados” após o título de um livro escrito por Collin Hansen. Com isto, as igrejas calvinistas pareciam crescer como as principais igrejas empenhadas na luta. O recrutamento em seminários reformados permaneceu aquecido, ao mesmo tempo em que foram recusados em outro lugar. Os jovens estavam lendo teologia séria e procuraram conectar a sua fé com todas as áreas de suas vidas.

Como professor em um seminário reformado e como um pastor de uma igreja presbiteriana, eu certamente, me alegrei com o interesse renovado pelo ensino dos reformadores que esse movimento ajudou a gerar. Eu, pessoalmente, fui beneficiado com o movimento de muitas maneiras. O seu advento foi oportunamente muito bem-vindo. Como o poeta disse: “Estar vivo era a felicidade matinal, / Mas ser jovem era algo celestial!"

No entanto, o movimento, tal como ele era, logo começou a mostrar sinais de tensão. Mark Driscoll e James MacDonald compartilharam de uma base comum cristã com T.D. Jakes, um pregador da prosperidade e um ministro em uma denominação unitarista. Como resultado, eles desceram do Gospel Coalition, a organização emblemática do movimento, com os melhores desejos para seu futuro ministério, mas com fortes indícios que nos bastidores a sua saída tinha sido menos amigável. Em seguida, outras questões vieram à tona: No ano passado, surgiu a notícia de que Mark Driscoll teria usado escritores fantasmas para produzir alguns dos seus livros, e que o material aparentemente teria sido retirado a partir de outros autores sem a devida citação. Finalmente, na semana passada, veio a revelação de que o seu livro sobre casamento teria se tornando num best-seller com o uso de mais recurso financeiro da igreja, do que muitas congregações têm em todo o seu orçamento anual.

Mark Driscoll é uma pessoa, um indivíduo singularmente talentoso. No entanto, ele também tem promovido problemas estruturais dentro do próprio movimento dos novos reformados. Apesar das diferenças e, em muitos aspectos, sofisticações na sua teologia o movimento “jovem , inquieto e reformado” sempre foi , de algum modo, simplesmente a mais recente manifestação dos aspectos mais fracos da América evangelicalismo. Foi, e é, um movimento construído sobre o poder de um grupo seleto de personalidades dinâmicas, competentes comunicadores, e pregadores talentosos que tem usado o marketing de forma muito atraente. Essas coisas podem ter grandes benefícios, mas quando não há prestação de contas real envolvido, quando acordos financeiros são obscuros ao extremo, e quando personalidades começam a suplantar a mensagem, sérios problemas nunca estão longe.

O quadro geral é de desastre. Dentro da igreja, eu suspeito que a maioria dos pastores olham com horror para a quantidade de dinheiro envolvido em alguns desses projetos e se afastará por desgosto. Fora da igreja, as pessoas conhecem com nitidez esta prática quando a veem, não importa o quão estritamente legal ela possa ser. A reputação da igreja sofre, e, infelizmente, ele não sofre neste caso injustamente.

Então, finalmente, há o silêncio. A única coisa que poderia manter o movimento unido seria uma liderança pública forte, transparente, que abertamente policiada em si e, portanto, anunciando a sua integridade para que todos possam ver. No entanto, a coisa mais notável sobre toda esta triste saga, foi a partir do envolvimento com Jakes, e que até agora, mantém-se o silêncio de muitos destes homens que se apresentam como líderes do movimento, e que estavam felizes, naquele momento, para beneficiar a reputação e influência de Mark Driscoll. Alguém pode interpretar esse silêncio como uma recusa apropriada de comentar diretamente sobre o ministério de homens que não têm qualquer ligação formal com suas próprias organizações.

No entanto, os líderes do “jovem, inquieto e reformado” não têm normalmente autorizado a redução dos seus antigos comentários. Muitos deles são francos, por exemplo, quanto ao ensino de Joel Osteen. Em seus primeiros dias, quando a Igreja Emergente estava disputando com o Novo Calvinismo pela prominência no mundo evangélico americano, eles fizeram com regularidade, e muitas vezes de modo minucioso, algumas críticas aos líderes emergentes. Em retrospectiva, no entanto, é evidente que estes eram alvos fáceis. A sua própria distância teológica os manteve seguros. Problemas mais perto de casa são sempre muito mais difíceis de falar, muito mais chances de ganhar o desprezo de amigos, e, portanto, muito mais propensos a serem ignorados. O resultado, porém, é que alguns líderes se tornam muito acostumados a sempre fazerem as coisas à sua maneira. Todos nós, que pensamos como evangélicos, ou reformados, viveremos com o fruto amargo daquele fracasso da liderança.


Escrito por Carl R. Trueman is Paul Woolley Professor of Church History at Westminster Theological Seminary.

Extraído de http://www.firstthings.com/web-exclusives/2014/03/mark-driscolls-problems-and-ours acessado às 9:30h, em 15 de Março de 2014.

16 março 2014

Os sistemas políticos e a ética cristã

Escrito por Francisco Lacueva

A fé cristã não está ligada a nenhum sistema político, e o crente é livre para simpatizar, aderir, votar, etc. a favor de qualquer partido ou sistema político que salvaguarde o conceito de autoridade, a liberdade e dignidade da pessoa humana e permita a confissão e testemunho público das crenças religiosas dos cidadãos. Há dois sistemas extremos que atentam contra estes princípios: o totalitarismo e o anarquismo.

1. O totalitarismo, ou seja, o fascista, nazista ou marxista, impõe de cima pra baixo uma única classe de filosofia de vida em todas as esferas sociais, perdendo a dignidade e liberdade da pessoa e absorvendo o controle total de todos os aspectos que afetam a vida social, incluindo o religioso. Um crente não pode admitir isto, e tem que repetir o que Pedro disse diante o Sinédrio (At 5:29).

2. O anarquismo, como o seu nome indica, se apõe a toda autoridade, o qual é igualmente inadmissível para todo crente. Paulo disse claramente: “de modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (Rm 13:2). Um terceiro sistema pode ser admitido.

3. A democracia que pode definir-se como “o governo do povo pelo povo e para o povo.” É um sistema que dá liberdade ao homem para seguir e expressar as suas convicções pessoais, e no que o povo tem nos organismos legislativo e administrativos do Estado como uma única representação. Contudo, esta democracia pode reverter de diversas formas (orgânica e inorgânica, socializante ou liberalizante, etc.) e implementada depende de muitos fatores étnicos e culturais. Permita-nos somente duas observações que afeta ao terreno ético em que nos movemos:
3.1. Os crentes podem e devem acatar e obedecer, em tudo o que não seja contra a sua consciência de cristãos, às autoridades de qualquer sistema político.
3.2. Estão no direito e dever de promover pacificamente um estado de coisas em que melhor se salvaguardem a verdade, a justiça e a liberdade. Em princípio diríamos que o melhor sistema político é a democracia pura, mas não se esqueça de que a democracia, como a liberdade, tem que merecê-las. A capacidade de convivência livre e democrática está em proporção direta com a educação social e política, assim como com a maturidade cultural, psíquica e moral (honestidade cívica) dos cidadãos. A responsabilidade desta educação cívica e política para tal democracia não incumbe somente aos indivíduos, mas principalmente aos governos e aos órgãos de formação e informação. O que não forma, o que não informa as mentes dos cidadãos com respeito aos valores da verdade, bem, justiça, etc., é eticamente mal. Vale a pena advertir algo de suma importância para um crente: o cristão tem direito de manter e expressar as suas opiniões políticas, mas, nunca deve entrar no debate político como crente, e sim como cidadão; do contrário, introduzirá na fé (na igreja), que é o fator de unidade, um elemento de divisão. Isto afeta especialmente aos ministros do Senhor, ou lideres de movimentos religiosos.


Extraído de Francisco Lacueva, Ética Cristiana – Curso de Formación Teológica Evangélica (Barcelona, Editorial CLIE, 1993), pp. 212-214.

Traduzido em 15 de Março de 2014.
Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

15 março 2014

A fé cristã é compatível com o socialismo marxista?

CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER COMENTADO
Por Johannes G. Vos

Pergunta 140. Qual é o oitavo mandamento?
R: O oitavo mandamento é: não furtarás.

Pergunta 141: Quais são os deveres exigidos no oitavo mandamento?
R: Os deveres exigidos no oitavo mandamento são a verdade, a fidelidade e a justiça nos contratos e no comércio entre os homens; dar a cada um aquilo que lhe é devido; restitui aos donos legítimos os bens tirados deles ilicitamente; dar e emprestar gratuitamente, conforme nossos recursos e as necessidades dos outros; moderar os nossos juízos, desejos e sentimentos relativos aos bens mundanos; o cuidado e a busca providente para obter, guardar, usar e dispor das coisas necessárias e convenientes à sustentação da nossa natureza e apropriadas á nossa condição; ter um meio de vida lícito e empenhar-se nele; a frugalidade; evitar processos judiciais, fianças ou outras demandas semelhantes; e o esforço, por todos os meios justos e lícitos, de procurar, preservar e aumentar a riqueza e o estado exterior, tanto de outros quanto o nosso próprio.

COMENTÁRIO:
1. Qual é o alcance geral do oitavo mandamento?
O alcance geral do oitavo mandamento é o respeito à santidade da propriedade, da mesma sorte que o sexto impõe respeito á santidade da vida e o sétimo, à santidade do sexo. A propriedade ou a riqueza é criada por Deus e confiada ao homem para o seu uso na glorificação e no serviço a Deus. É, portanto, um compromisso administrativo atribuído ao homem e por isso tem de ser respeitado. O oitavo mandamento, portanto, requer não apenas que nos guardemos de roubar o bem do nosso próximo, mas que conquistemos e conservemos o nosso.

2. A Bíblia autoriza a propriedade privada?
Sim. A posse da propriedade privada, no estado pecaminoso em que a humanidade existe desde a queda, é necessária para que uma vida possa glorificar e gozar a Deus. A propriedade privada fundamenta-se não na mera invenção ou costume humanos, mas na lei moral de Deus. Está definitivamente autorizada pelo oitavo mandamento – “Não furtarás” – o qual só fará sentido se houver por trás dele uma ordenação divina para a propriedade privada. Mesmo fora da Bíblia, a revelação natural ensina a todos os homens que roubar é errado. Está profundamente equivocado quem hoje pensar que a propriedade privada é maligna. Os males que ele tem em mente procedem não da propriedade privada em si mesma, mas dos abusos da propriedade privada.

3. À luz da Bíblia, que devemos pensar do comunismo?
Segundo o que a Bíblia ensina, o comunismo é errado a princípio. Não é errado meramente em alguns de seus aspectos ou práticas, ou por causa dos abusos a ele associados, mas é errado e maligno na sua ideia fundamental. Se pudéssemos imaginar um “perfeito” estado de comunismo, em que não houvesse tirania, campos de concentração, policia secreta, propaganda politica, nem censura de informações, ele ainda seria inerentemente pecaminoso e maligno. O capitalismo viola a lei moral de Deus pelos males e abusos a ele vinculados; o comunismo viola a lei moral de Deus por sua própria natureza e ideia fundamental. O principio do comunismo é a posse coletiva da propriedade imposta pelo Estado. Isso pressupõe que a posse particular do indivíduo é um mal que só pode ser tolerado em pequena escala, como uma concessão à natureza humana. Isso é contrário à Bíblia, que ensina que a propriedade privada é um direito dado por Deus. O ser humano individual, como portador da imagem de Deus, deve ter o direito à propriedade conforme o propósito de Deus e para O glorificar plenamente na sua relação com o seu ambiente. A imagem de Deus no homem abrange a implicação de que o homem deve ter o domínio sobre a Terra (Gn 1.27-28); mas o homem é essencialmente um indivíduo, com alma e consciência individuais, com competência e habilidades individuais, com esperança e desejos individuais. O comunismo procura fundir o indivíduo à massa da humanidade e isso envolve o sacrifício do elemento essencial da personalidade do homem, como portador individual da imagem divina e mordomo de Deus com domínio sobre uma parcela da criação de Deus. O comunismo assume que o indivíduo existe por causa da massa, da sociedade, mas isso é contrário a Palavra de Deus, a qual nos ensina que a sociedade e todas as instituições sociais existem por causa do indivíduo, para que ele possa alcançar o propósito divino da sua vida e assim glorificar a Deus. É o indivíduo quem possui uma alma mortal, uma consciência e a capacidade para a comunhão com Deus. Essas coisas sobreviverão a esse mundo e existem para sempre. Elas é que dão dignidade e valor reais à vida humana. Qualquer sistema que considere o ser humano individual como sem importância e busca amalgamá-lo á massa supostamente pelo bem-estar da “sociedade” é fundamentalmente errado e anticristão. Isso se aplica tanto à propriedade coletiva compulsória quanto às outras subversões da individualidade da personalidade humana.

4. Segundo registra Atos (2.44; 4.32-27), a igreja primitiva não praticava o comunismo?
É verdade que existia um tipo de “comunismo” na igreja de Jerusalém, mas era totalmente diferente do comunismo que existe hoje. Deve-se observar que (a) era voluntária e não compulsória, como mostram as palavras de Palavras de Pedro a Ananias em Atos 5.4; 9 (b) era parcial e não total, como demonstra o fato de que a casa de Maria, mãe de João Marcos, não fora vendida; (c) logo surgiu uma murmuração acusatória de que as rações de comida não estavam sendo distribuídas de modo justo (At 6.1); (d) isso foi apenas temporário, sendo descontinuado mais tarde, provavelmente no tempo de grande perseguição que se seguiu ao martírio de Estevão, quando os crentes se espalharam a partir de Jerusalém (At 8.1-4); (e) não há menor indicação de que tenha sido implantado algum “comunismo” assim em nenhuma das Igrejas estabelecidas pelos apóstolos, além da igreja em Jerusalém. É claro, portanto, que o “comunismo” temporário da Igreja de Jerusalém não era uma questão de princípios, mas de contingência em face das condições peculiares àquele tempo e lugar. É extremamente insensato, antibíblico e anti-histórico apresentar o estado temporário das ocorrências na Igreja de Jerusalém como análogo ao comunismo moderno, ou como um padrão a ser imitado pelos crentes em Cristo de todos os lugares.

5. O socialismo é contrário ao cristianismo?
A palavra socialismo é usada com uma variedade tão grande de sentidos que é difícil falar categoricamente dela sem primeiro a definir, para sabermos precisamente o que quer dizer. O socialismo marxista, que é raiz do comunismo moderno, é indubitavelmente contrário à religião cristã. Embora haja uma forma limitada de socialismo que não é contrária ao ensinamento da Palavra de Deus. O governo operar serviço postal, em vez de deixa-lo à iniciativa de particulares ou de corporações, é uma forma de socialismo; mas não se pode achar que seja pecaminoso o envolvimento do Estado nesse empreendimento. Na maioria dos países do mundo as ferrovias, os serviços telefônicos e os de comunicação são operados ou majoritariamente ou exclusivamente pelo Estado. Podemos, ou não, achar que isso seja inteligente, mas dificilmente conseguiremos provar que seja contrário à Bíblia; assim mesmo faz-se necessário traçar um limite em algum ponto. Seria errado, com certeza, que o Estado controlasse e operasse todos os negócios e comércios. A operação de negócios pelo Estado deveria limitar-se a atividades como as do serviço postal, que são essenciais para todos os habitantes do país e por questão de economia requerem monopólio de alcance nacional. O Estado deve proporcionar as condições para que os negócios privados sigam adiante, e deve regulamentá-lo em prol da justiça, mas não deve suplantá-lo competindo contra ele. Deus instituiu o governo civil para promover o bem das pessoas pela manutenção da justiça na sociedade humana (Rm 13.4), e não para se firmar como um colossal empreendimento coletivo em concorrência com os seus próprios cidadãos.


Extraído de Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (São Paulo, Editora Os Puritanos, 2007), pp. 433-437.

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14 março 2014

Do Magistrado Civil e a Igreja - Confissão de Fé de Westminster

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER
CAPÍTULO XXIII - DO MAGISTRADO CIVIL


Comentado por G.I. Williamson

Aqui deixamos uma vez mais a ordem da Confissão de Fé para considerar juntas certas seções da Confissão que são difíceis de considerar em relação umas com as outras. Estes capítulos e estas seções são: o capítulo XXIII, 3 da e o capítulo XXXI, 1, 2. A dificuldade consiste em definir qual é o poder do magistrado civil com respeito aos assuntos eclesiásticos. A partir deste ponto, primeiro, procederemos discutindo as seções do capítulo XXIII que não são problemáticas; e segundo, as seções dos capítulos XXIII e XXXI que apresentam o problema e terceiro, as porções que ficaram do capítulo XXXI, ou seja, as seções 3,4, e 5.
1. Deus o supremo Senhor e Rei de todo o mundo, institui os magistrados civis, para estar abaixo dele e sobre o seu povo, para sua própria gloria e para o bem publico; para cujo fim lhes deu autoridade da espada, para defender e estimulo dos bons, e para castigo dos maus.
2. É licito que os cristãos aceitem e desempenhem o oficio de magistrados quando para isso forem vocacionado por Ele. Na administração deste oficio os cristãos devem manter especialmente a piedade, a justiça e a paz de acordo com as leis saudáveis de cada estado. Para tal fim, podem legalmente a luz do NT, fazer guerra em ocasiões justas e necessárias.
3. [...]
4. O povo tem o dever de orar pelos magistrados, honrar suas pessoas, pagar tributos e outros direito, obedecer aos seus mandamentos legítimos, e estar sujeitos a sua autoridade por causa de sua consciência. A infidelidade, ou a diferencia de religião não invalida a justa e legítima autoridade do magistrado, nem exime do povo a devida obediência a ele, do qual as pessoas eclesiásticas não estão excluídas, e muito menos tem o papa poder de jurisdição alguma sobre os magistrados, sobre seus domínios, ou sobre algum de seu povo; e muito menos para priva-los de seu domínio, suas vidas, sejam porque os julguem que são hereges, ou por qualquer outro pretexto.

XXIII, 1,2,3

ESTAS SEÇÕES DA CONFISSÃO DE FÉ NOS ENSINAM:
1) Que Deus estabeleceu o governo civil sobre a terra.
2) Que seu propósito e sua glória e o nosso bem.
3) Que nos deu os oficiais civis e o poder da espada.
4) Que os cristãos podem de forma lícita ter cargos civis e exercer o poder da espada em ocasiões necessárias e justas.
5) Que Deus requer que os cristãos exerçam o mandato, orem, se submetam aos que licitamente utilizam o seu cargo no governo civil.
6) Que esta responsabilidade não deixa de existir por causa das diferenças religiosas, e
7) Que o papa de Roma não tem nenhum direito sobre o poder civil.

A passagem clássica das escrituras que trata do estabelecimento do governo civil é:
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a devida condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (Rm 13:1-7).

Nesta passagem clássica das Escrituras se estabelece os ensinos desta seção da Confissão. “Todos devem se sujeitar as autoridades publicas” disse o apóstolo. Sem dúvida se requer do cristão que se submetam aos que estão como autoridades pela vontade de Deus. “Porque não há autoridade que não proceda de Deus, e as autoridades que existem foram por ele instituídas.” A. A. Hodge bem disse: “alguns imaginam que o direito e a autoridade legítima do governo humano tem seu fundamento final na aprovação dos governados,” bem como “na vontade da maioria”, ou, em algum pacto social imaginário feito pelos antepassados da raça na origem da vida social. Mas as Escrituras nos ensinam que o governo civil vem de Deus, e que tem sua autoridade pela vontade de Deus, e assim aprovação dos governos. Isto implica claramente que o cristão deve considerar o governo de fato, de qualquer país particular no qual pode residir como jure. Nenhuma forma de governo civil está designada nas Escrituras. O cristão não tem a liberdade de obedecer ou não dependendo do tipo de governo que exista. “Os poderes que existem foram estabelecidos por Deus”, disse Paulo. E se referia ao governo totalitário do Império Romano. Se Paulo e Jesus ensinaram que deveriam se sujeitar a Cesar, é difícil pensar em algum tipo de governo civil que não deveria ser obedecido pelos cristãos em assuntos civis. A luz deste contexto do período apostólico (quando o governo civil era totalitário), não cremos que os cristãos tivessem o direito de apoiar, ou, de participar na derrota violenta de uma autoridade civil, ou, seja uma monarquia ou democracia (ver Rm 13:2, I Pd 2:13-14, Tt 3:1 etc). Se todo o governo de fato é estabelecido por Deus, e a resistência é uma resistência diante do mandato de Deus então, não existe nenhuma outra conclusão.

No entanto, afirmar que a autoridade a autoridade civil é de origem divina não é dizer que a mesma não tenha limites. Toda a autoridade divinamente estabelecida, em assuntos humanos, está limitada pelo decreto divino. O magistrado civil é estabelecido por Deus como “ministro” o servo de Deus “para o bem”. A sua responsabilidade é levar a espada do poder físico como terror contra as obras do mal. A sua responsabilidade é como vingador que demonstra a ira de Deus sobre quem fez o mal. Enquanto o governo civil se contenta restringindo e castigando o crime e a violência, proteger o bem e castigar o mal, o cristão deve apoiar, orar e honrar por esse governo. Mas quando esse governo castiga aos retos e recompensa ao malfeitor, tornando-se agressivo militarista, é a responsabilidade do cristão resistir esse poder porque subverte o mandato de Deus. Em muitos casos é sem dúvida, difícil determinar precisamente quando, até que ponto um cristão deve resistir a um governo civil em particular. Não é nossa intenção fazer que esta decisão pareça fácil. Mas certos princípios são muitos claros, e se aplicados corretamente, tornará possível para que o indivíduo tome a decisão correta em seu caso particular.
1. Devemos sempre obedecer aos “mandatos legítimos” de nosso governo. Em todas e cada uma das instâncias devemos estar “prontos a fazer toda boa obra” (Tt 3:1).
2. Sempre devemos obedecer a Deus antes que ao homem quando existe um conflito entre os dois. “É necessário obedecer a Deus antes que os homens” (At 5:29).
3. Podemos resistir, tanto ativa como passivamente, se for necessário, para obedecer a Deus. Quando uma autoridade civil se mostra um terror quanto às boas obras e não quanto o mal, cremos que os cristãos tem o direito defender–se ativamente. Tanto a “sua vida como a sua propriedade” conforme determina a lei “Salmo 82:4, Provérbios 24:11-12, etc.”. Assim “o fim imediato para o qual Deus instituiu os magistrados é o bem público e o fim último a manifestação de sua própria glória.”

Mas consideremos atentamente certos erros modernos que ganharam um amplo apoio, e que confunde a mente de muitos cristãos.

1. O primeiro que consideraremos é a intenção modernista de descontinuar a prática da pena de morte. Em nossa nação hoje em dia existe uma corrente cada vez mais forte a favor de abolir a pena de morte. E muitos grupos protestantes liberais aprovam esta mudança dizendo que não beneficia a sociedade, não reforma o criminoso nem reflete os ensinos humanitários do Novo Testamento. É dizer, por várias razões, que é muito popular hoje em dia negar ao governo o poder da espada para castigar o mal. Tal posição enquanto autoridade civil está ao menos completamente contra ao ensinamento bíblico. Não pensemos que se possa provar que a pena de morte não seja um beneficio para a sociedade. Cremos que seja, embora a única razão seja que a Escritura declara que o cumprimento fiel da justiça é uma punição para o mal e um alento para o bem. Pode ser possível que a pena de morte não reforme o criminoso. Mas, também é possível que a falta de punição contra a maldade também reforme o criminoso. Mas estamos convencidos de que ela promove a maldade. Sobretudo, nos opomos à ideia de que o poder e a autoridade civil devam refletir as ideias modernas de ensino humanitário do “Novo Testamento”. A justiça não é mais “humanitária” no Novo Testamento que no Antigo Testamento. E a instituição do governo civil não foi estabelecida para ensinar o Novo Testamento: é para castigar o crime e proteger os que fazem o bem. Sem motivos duvidamos que o esquema dos liberais que promovem abolição da pena de morte seja “humanitária”. Cremos que muitos dos crimes da atualidade se devem ao fato de que existe demasiada preocupação não bíblica pelo malfeitor e bem pouca preocupação bíblica pelos justos.

2. Outro ataque moderno contra a instituição do governo civil pode-se observar por aqueles que promovem a corrente pacifista. Os concílios da igreja modernista têm defendido tais coisas:
2.1. O completo desarmamento de nossa nação.
2.2. O desarmamento unilateral [ou seja, somente do cidadão de bem].
2.3. A negociação em vez da defesa armada ao serem confrontados com agressão criminosa.
2.4. O reconhecimento dos que são agressores sem nenhum tipo de castigo justo.

A Confissão de Fé insiste que os magistrados civis (ainda que sejam pessoas cristãs) “podem legitimamente, conforme o Novo Testamento, fazer atualmente guerra em ocasiões justas e necessárias. Os que apoiam a política que basicamente exige que nosso governo nacional renuncie o poder da espada e renuncie os esforços para ser um punidor dos malfeitores, e que renuncie a execução de vingança sobre eles, pedem nada menos que destruição do mandato de Deus em Romanos 13:1-5. É precisamente porque “se opõem a autoridade” então “se rebelam contra o que Deus instituiu”. Este pecado deve ser denunciado como ele realmente é. É um pecado contra Deus, é um pecado contra o nosso governo.

A última parte da seção número 4 deste capítulo trata dos males históricos associados com a Igreja Católica Romana.

3. O primeiro destes males é que lhes outorga um status privilegiado aos oficiais da igreja em assuntos civis. Existem em alguns países que são dominados pela Igreja Romana nos quais os sacerdotes não podem ser julgados nas cortes civis por seus crimes. Existe talvez um pouco de humor nos relatos tradicionais da vergonha da polícia irlandesa quando se deu conta de que havia prendido um sacerdote por excesso de velocidade. No entanto, as Escrituras ensinam que os cristãos, sejam oficiais da igreja ou não, não devem se considerar acima do poder civil. Cremos que a Confissão de Fé concorda com a Escritura quando diz que “as pessoas eclesiásticas não estão excluídas desta autoridade”. E a infidelidade, ou diferença de religião entre os cidadãos cristãos e o governo civil “não invalida a justa e legítima autoridade do magistrado”.

5. O outro mal que outorga autoridade ao Papa de Roma. Este foi e continua sendo uma reivindicação do Pontífice Romano, ele insiste que exerce tanto a espada espiritual como a temporal do poder e a autoridade. “Segundo a posição ultramontana estritamente lógica, sendo toda nação, em todos seus membros, uma porção da igreja universal, a organização civil está compreendida dentro da igreja para certos fins subordinados para o grande fim para o qual existe a igreja e assim, portanto, finalmente responsável diante dela para execução da autoridade delegada. Quando enfim o Papa se coloca na condição de exigir a sua autoridade, pondo o reino debaixo de edito emitido aos súditos exigindo o seu voto de fidelidade (civil), e demonstrando aos soberanos, baseando-se na suposta heresia da insubordinação dos líderes cívis no país”. (A A.Hodge, Ibid., p. 276). A Escritura anunciou o que a história demonstrou, ou seja, que tal usurpação resulta na perseguição aos verdadeiros crentes (Ap 13; 18:24).


PERGUNTAS PARA ESTUDO

1. Qual o fundamento da autoridade do governo civil? Prove biblicamente.
2. Que tipo de governo vem da autoridade divina?
3. Deve um cristão promover a derrota violenta de um governo civil?
4. Deve um cristão resistir licitamente ao governo?
5. Quando é que os cristãos devem obedecer ao seu governo?
6. Quando é que os cristãos devem desobedecer ao seu governo?
7. Enumere os erros modernos promovidos por cristãos liberais que estão contra a instituição divina do governo civil?
8. Por que estes estão contra a instituição divina do governo civil?
9. Quais são os erros refutados na seção número 4 da Confissão de Fé?


Extraído de G.I. Williamson, La Confesión de Fe de Westminster (Carlisle, El Estandarte de la Verdad, 2003), pp. 355-360.

Traduzido por Rev. Gaspar da Silva
Pastor da Igreja Presbiteriana de Pimenta Bueno
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

13 março 2014

Richard Hooker (1554-1600) - delineador da eclesiologia anglicana

Escrito por D.J. Atkinson

Ele é descrito como “Hooker, o sábio” como o teólogo anglicano por excelência. Durante a sua vida foi, sucessivamente, Fellow do Corpus Christi College, em Oxford (1577-1584) e professor de hebraico, reitor de Drayton Beauchamp, Master of the Temple (1585-1591), reitor de Boscombe, Wiltshire e, a partir de 1595, de Bishopsbourne, Kent. O máximo apologista de Elizabethan Settlement, desenvolveu a sua “via media” enquanto era Master of the Temple, em oposição a certos aspectos da teologia calvinista, e escreveu o Tratado sobre as leis da política eclesiástica (Livros I-IV, 1584; V, 1597; VI e VIII publicados postumamente em 1648; e VII em 1662).

Hooker entendia os nossos deveres morais à luz da lei da razão, porque as leis do universo se encontram fundamentadas na lei eterna do ser de Deus. Isto se confirma e interpreta pela lei das Escrituras que junto com a razão e a tradição é a fonte da autoridade para a fé e prática. Hooker se opõe ao uso puritano da Bíblia como um erro código de regras e contra as altas esferas eclesiásticas e romanas, no tocante a certos pressupostos sobre a igreja e o sacerdócio. Enfatiza a natureza orgânica da Igreja da Inglaterra, uma igreja reformada, ainda que em continuidade com a igreja medieval. A sua influente teologia do governo político foi, grande medida, uma teologia federal.


Extraído de D.J. Atkinson, “Hooker, Richard” in: David J. Atkinson, Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 662.
O autor: D.J. Atkinson, B.Sc., M.L.itt., Ph.D., M.A., reitor honorário do Canon da cátedra de Southwark, Londres; ex-membro do Corpus Christi College, Oxford, Inglaterra.
Traduzido em 12 de Março de 2014.

12 março 2014

Repressão política e religiosa

Durante os seus 71 anos de vida como uma ideologia política dominante o comunismo propagou por todo o mundo o ateísmo, frequentemente unido à repressão política ativa. Durante 1988-1991, antes da abolição do Partido Comunista Soviético, Mikhail Sergeyevich Gorbachev (1931- ) fomentou sua cooperação ativa com a religião, o qual produziu mudanças em todas as esferas.

Lenin (1870-1924) citou a Marx como sua justificação para perseguir a religião, iniciando um ataque frontal contra o clero. Sob Stalin (1879-1953) o ataque se tornou mais sistemático, incluindo a destruição de milhares de igrejas, monastérios, mesquitas e sinagogas. Somente durante a Segunda Guerra Mundial cessaram a perseguição. Stalin fomentou a reabertura das igrejas para oferecer apoio moral no momento em que a catástrofe pairava sobre o mundo.

Ao final da guerra, a União Soviética mediante conquista adquiriu novas áreas além de suas fronteiras ocidentais, áreas contra as quais Stalin dirigiu uma nova onda de represálias, como fez contra os estados satélite da Europa central e oriental. Julgou os lideres católicos, protestantes e ortodoxos que foram invariavelmente condenados e alguns deles executados. A República Democrática Alemã foi a única que se livrou deste flagelo, todavia, exigiu-se aos líderes religiosos que contribuíssem com o processo de reconstrução nacional.

Os novos regimes comunistas da China, Coréia do Norte, Vietnã do Norte, Camboja, e eventualmente Cuba e (mais tarde) Etiopia, consideraram a perseguição religiosa um pré-requisito para se estabelecer um sistema político revolucionário.

Todavia, após a morte de Stalin, os países do bloco soviético começaram a desenvolver os seus próprios “caminhos para o socialismo”, os quais na prática significaram uma assimilação da religião. Em 1956, a denúncia de Stalin fez de Nikita S. Khrushchev (1894-1971) provocou a liberação de muitos prisioneiros políticos e em muitos países passaram os piores dias de perseguição. A União Soviética foi uma exceção, porque Khrushchev voltou a fechar muitas igrejas. O encarceramento daqueles que resistiam à perseguição aguçou um movimento de oposição no qual os batistas tiveram uma grande influência. A sua exigência central era a liberdade religiosa, que finalmente foi garantida sob a nova lei de 1990.

A Albânia foi o único país na história mundial que aboliu toda manifestação religiosa (1967), política que deixou de existir em 1991. Também a China e Coréia do Norte deram sinais de flexibilidade.

Em todos os países comunistas a campanha de erradicar a religião fracassou por completo. Na Polônia o crescimento do catolicismo, sobretudo, como força política após a eleição de 1978 do Papa João Paulo II (1920-), que conduziu a desestabilização num grau suficiente para minar o sistema comunista na Europa central e do leste. Na União Soviética, desde os anos 60, foi aumentando o desejo de descobrir um ideal cristão que substituísse a desacreditada moral do comunismo, e a Igreja Ortodoxa Russa reapareceu ao final para julgar um papel importante na sociedade.

Existem muitos outros lugares do mundo que praticam formas de discriminação religiosa, sobretudo, nos dominados pelo fundamentalismo islâmico. A atividade cristã está restringida, ainda que não seja ilegal em Israel. Há muitos países onde a motivação cristã tem levado a uma atividade política que o regime persegue: alguns países da América Latina, Malawi e, mais especialmente (até em recentes mudanças) no sul da África.


Extraído de M.A. Bourdeaux, “Represión Política” in: David J. Atkinson, Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 995.
O autor: M.A. Bourdeaux, B.D., M.A., diretor do Keston Institute, Oxford, Inglaterra.
Traduzido em 12 de Março de 2014.

A ética dos meios de comunicação

Escrito por E.D. Cock

O mundo dos meios de comunicação abrange os diversos meios dos livros, os periódicos, as revistas, o rádio, a televisão, o cinema, os discos, o CD, e o crescente âmbito dos ordenadores e os sistemas visuais e as táticas interativas. Os meios de comunicação controlam e processam massas de informação, oferecendo educação e conhecimento além do ócio. Levantam-se várias questões éticas sobre a natureza dos diversos meios. O impacto do visual e as imagens que emite, assim como as novas possibilidades que oferece a “realidade virtual”, que nos permite participar e experimentar sendo, ao mesmo tempo, meros expectadores, suscita perguntas fundamentais sobre os abusos do sistema e o controle necessário.

A centralidade da verdade e o perigo de manipulá-la, simplificando-a em excesso ou distorcendo-a para encaixar com o meio, o tempo disponível, a intenção do produtor e os desejos do proprietário da empresa, são temas importantes. A própria diversidade dos meios e as diferentes apresentações das mesmas notícias respaldam a crítica feita aos meios de comunicação por seus prejuízos e sua falta de objetividade.

É possível que o propósito da mídia de massa seja o de informar, educar ou o entretenimento. Os limites adequados a estes propósitos que concedem ao expectador/leitor a liberdade de formular os seus próprios juízos sobre a vida são cruciais. É importante considerar se os meios intentam controlar e conformar a opinião pública ou meramente refleti-la. Em questões políticas e morais isto pode levar a evitar que o poder resida em mãos de uns poucos proprietários de meios de comunicação, que não são eleitos pela maioria, nem são representantes dela.

A lei intenta controlar os meios de comunicação equilibrando a necessidade de liberdade de imprensa com a proteção de pessoas vulneráveis, mediante leis sobre o libelo e a difamação. A invasão de privacidade pode ser legislada, e no contexto de um tribunal, a informação ou as restrições de identidade protegem ao inocente, quando por exemplo, se salvaguarda o anonimato de uma vítima de violação. O governo limita os meios quando estão em jogo questões de segurança nacional.

Aqueles que trabalham em e para os meios de comunicação podem enfrentar-se com problemas morais relativos a conflitos de interesses, que podem afetar a sua objetividade e capacidade de informar adequada e justamente. A implicação com uma fonte de notícias ou a pressão de um superior para omitir ou acrescentar um ponto informativo pode criar outros problemas.

O impacto dos meios na vida social e na política suscita a questão moral de até que ponto deveriam respaldar ou questionar o status quo. As campanhas políticas são afetadas diretamente pela televisão, com sua ênfase nos “debates públicos”, a política das personalidades e as oportunidades de se usar fotografias inconvenientes.

A imprensa e os meios “sujos” são culpados de criar ambientes que induzem ao indivíduo a atuar de maneira criminal ou ofensiva. Isto encontra eco no “periodismo de cheque” que compra histórias e corre o risco de fazer uma montanha com apenas um grão de areia, enquanto se prende na ganância e vulnerabilidade das pessoas. Os meios somente regulam-se a si mesmos, como nas situações em que corre perigo a vida do repórter senão oculta as informações sobre um sequestro ou os detalhes de determinados crimes. O uso de fontes informativas anônimas nos leva a questionar como ele obteve a informação. Temas como o suborno e o pagamento de serviços prestados são questões morais.

Também é possível que um governo abuse dos meios e intente censurar a informação. A sociedade expressa seus pontos de vista sobre tais questões mediante a lei e seu cumprimento, mas as sociedades seculares estão profundamente divididas a respeito da liberdade dos indivíduos para criar e contemplar a pornografia, e sobre a necessidade de controlar o material sexualmente explícito e violento. Parte dessa preocupação centraliza-se no impacto que tais coisas têm sobre os vulneráveis e jovens. Não se chega a um acordo sobre o grau em que as pessoas se endurecem e se tornam insensíveis, convertendo-se em imitadores ou são estimulados. Frequentemente os meios de comunicação se limitam mediante a normativa de não emitir certos programas (com cenas sexuais ou violentas explicitas ou uma linguagem inconveniente) antes das nove da noite. Há certas organizações e autoridades nacionais que tratam as reclamações do público contra os meios, ainda que as penas impostas frequentemente pareçam ser ineficazes.

A publicidade, nas questões de dizerem a verdade, exagerar, criar imagens ou induzir a má interpretação são áreas morais nas quais as autoridades reguladoras da publicidade lutam incessantemente para manter alguns padrões de integridade elevados.

O interesse cristão centraliza-se na importância da verdade como parte das exigências e mandamentos divinos sobre a humanidade, assim como na verdade em sua plena e definitiva expressão em Cristo. A preocupação com o impacto da mídia nos vulneráveis e crianças deve ir conjugada ao que devemos sentir pelas imagens que projetam das mulheres, os grupos raciais e anciãos. O modo como a publicidade cria necessidade e conduz a uma dívida crescente dentro de uma sociedade baseada no consumo e egoísta, revela o poder dos meios para criar e reforçar valores. Há que revelar tais valores, provando-os para justificar a sua correspondência com os valores que devem manifestar os cristãos e segundo os quais devem viver.


Extraído de E.D. Cock, “Ética de los médios de comunicación, La in: David J. Atkinson, Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 559-561.
O autor: E.D. Cock, B.A., M.A., PhD, diretor do Whitefield Institute e capelão do Green College Oxford.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki, em 12 de Março de 2014.

07 março 2014

Será que Deus ama o pecador e odeia apenas os seus pecados?

Por Dr. John H. Gerstner

“Arrependam-se ou pereça” exige que as pessoas ponderem seriamente acerca do slogan popular: “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador.” É necessário haver um arrependimento consistente diante da afirmação “Deus ama o pecador?” Se Deus ama o pecador, enquanto ele está vivo, é estranho que Deus o envie para o inferno, assim quando ele morrer. Deus ama o pecador até a morte? E não o amaria no tormento eterno?

Há algo errado aqui. Ou, Deus ama o pecador e não irá mandá-lo para dentro da fornalha de Sua ira eterna, ou Ele o enviará para a Sua ira eterna e não o ama. Ou, “você está indo para o inferno a menos”, porque Deus odeia você, como você é. Ou, Deus te ama e “você está indo para o inferno a menos que” é falsa.

O que leva quase todos a crerem que Deus ama o pecador é por Ele fazer tão bem ao pecador. Ele concede tantos favores incluindo deixar que continue vivendo. Como Deus pode permitir que o pecador viva e lhe dê tantas bênçãos, a não ser que Ele o ame? Há um tipo de amor entre Deus e os pecadores. Nós o chamamos de “amor de benevolência.” Isso significa que é um amor de boa vontade. Benevolens - bem disposto. Fazer bem. Deus pode fazer bem para o pecador sem amá-lo com o outro tipo de amor. “Amor complacente”, um prazer em, afeição por, admiração de. Ele existe na perfeição entre o Pai e o Filho, “em quem me comprazo” ( Mt 3:17; Mc 1:11).

Deus é perfeitamente descontente com o pecador. O pecador odeia a Deus, desobedece a Deus, é ingrato a Deus por todos os Seus favores, e até mesmo mataria a Deus, se pudesse. Este pecador está morto em seus delitos e pecados (Ef 2:1). “Os pensamentos e desígnios de seu coração são continuamente maus” (Gn 6:5). Ele é escravo do pecado (João 8:34) e um servo do diabo (Ef 2:2).

Deus não tem em nada amor complacente para com o pecador. Ele tem um ódio perfeito dele, de fato, Ele diz que “odeio-os com ódio consumado” (Sl 139:22 ).

Neste mundo o pecador em nada tem satisfação, senão no amor benevolente de Deus. Cada experiência de dor, bem como o prazer é do amor de Deus - de benevolência. Mesmo a dor é do Seu amor, porque Ele tende a despertar o pecador do seu perigo. Deus realmente ama o pecador, a quem Ele odeia com um ódio perfeito, mas com um perfeito amor de benevolência.

O pecador, como eu disse, torna em maldição cada bênção divina, incluindo o amor da benevolência de Deus. Isso ele faz por interpretar o amor de benevolência, como sendo um amor de complacência.

Tanto quanto “o ódio dos pecados” está relacionado, pois não existem pecados aparte do pecador. Deus odeia o pecar, ou seja, o matar, roubar, mentir, cobiçar, etc., mas isso faz alusão ao autor destes crimes.

Deus nunca odeia os remidos, mesmo quando eles pecam. Seria Ele um injusto admirador de pessoas? Não! (At 10:34) Deus odeia o pecador não redimido, mas ama os remidos, mesmo quando eles pecam por um motivo bom e justo. Deus ama os remidos, mesmo quando eles pecam, porque o Seu Filho, em quem Deus se compraz, vivendo sempre para interceder por eles (Rm 8:27, 34). Cristo morreu para expiar a culpa dos pecados de Seu povo. Quando eles pecam, estes são expiados - pelos pecados. Eles são pecados com sua culpa removida. Em certo sentido, estes pecados não são considerados. Deus não odeia o seu povo quando eles pecam, porque eles estão em Seu Filho, Cristo Jesus. E eles são feitos aceitáveis em seu Filho. Ele “nos faz aceitos no Amado” (Ef 1:6).

Nepotismo Divino? Não, o Seu Filho morreu por essas pessoas e pagou o preço por seus pecados passados, presentes e futuros. Eles são cancelados antes de serem cometidos. Essa é a verdade, não uma ficção. Justiça não é nepotismo favorecido. Na verdade, não é a sua relação original com Cristo que faz com que os seus pecados sejam sem culpa, mas a satisfação realizada por Cristo pelos seus pecados que criou o relacionamento como filhos adotados na família de Deus.

Quando o homem pecou, morreu espiritualmente e foi rejeitado da comunhão com Deus, seu criador e amigo (Gn 3; Rm 5:12). A ira de Deus estava sobre ele, o pesar no trabalho era a sua parte na maldição; bem como o sofrimento no parto; alienação e morte, como ameaçadas. Deus é santo; os seus olhos são tão puros que não podem contemplar a iniquidade. (Hq 1:13)

Esta foi uma terrível, mas santa ira. Deus estava usando o seu poder onipotente, mas segundo a Sua justiça perfeita. O homem foi afetado, mas ele mereceu. Não era mais, nem menos, do que ele merecia. Deus não é mais poderoso do que santo, nem mais sagrado do que poderoso.

Toda a glória a Deus por sua santa ira. (Jo 17:3; Rm 9:17).

Extraído de http://www.the-highway.com/lovesinner_Gerstner.html

Traduzido em 7 de Março de 2014.
Por Ewerton B. Tokashiki

14 fevereiro 2014

NOVO BLOG - Reformadores do século XVI


Novo blog atuando - REFORMADOS DO SÉCULO XVI.

A proposta deste blog é disponibilizar a tradução de textos produzidos pelos reformadores magistrais do século XVI. Ele oferece material para o incentivo da pesquisa ad fontes de modo que professores, estudantes, pastores e demais leitores tenham acesso à produção literária inicial da Reforma Protestante.

Acesse e conheça - reformadoseculo16.blogspot

Se tiver alguma sugestão é só deixar nos comentários. Grato!

25 janeiro 2014

Os pontos principais do Calvinismo

Escrito por H. Henry Meeter[1]

Até aqui os pontos desenvolvidos estavam centrados em temas que dizem respeito ao movimento calvinista em geral. A partir de agora desenvolveremos os princípios calvinistas em sua aplicação particular a determinados campos específicos, tais como o da religião, da política, da sociedade, da arte, etc.

Começaremos com a religião. Não é necessário, nem sequer intentar uma enumeração da grande variedade de princípios que se aplicam a este campo. Para aqueles que desejam alguma informação sobre os princípios calvinistas concernentes à religião, poderão encontrar abundante material nas obras de Dogmática Reformada, tais como os escritos dos grandes teólogos Abraham Kuyper,[2] Herman Bavink,[3] Charles Hodge,[4] Gerhardus Vos[5] e Louis Berkhof.[6] Permitam-me fazer aqui referência a dois excelentes compêndios dos princípios teológicos calvinistas: um é o de Louis Berkhof: Manual de Doutrina Reformada;[7] e o outro é de A.A. Hodge: Esboços de Teologia (em sua edição nova e ampliada).[8] Centraremos nossa discussão unicamente sobre os aspectos mais importantes da religião calvinista.

Certamente não há ninguém que supere ao calvinista em sua ênfase sobre a crença em Deus. Em todas as coisas o seu primeiro e último pensamento é Deus. Este é o fio de ouro que transpassa toda a teologia calvinista. Tudo depende de Deus. A religião, ainda que redunde em benção para o homem, não existe para o homem, senão que, em última análise, tem a Deus como meta. “Dele e por ele e para ele são todas as coisas.”

Consideremos a perspectiva calvinista com respeito ao universo das coisas criadas. O calvinista crê que tudo foi criado por Deus, e que tudo o que acontece, seja na natureza ou na vida humana, não é mais do que a manifestação do plano divino em todos os tempos. Inclusive o pecado não vem a ser um mero acidente; pois em sua vontade Deus permitiu o pecado, e permite que este opere segundo a sua natureza inerente. Mas ainda assim, Deus o controla para a sua própria glória. Deus realiza sobre a sua criação segundo um dos dois modos: (1) Através das operações normais do universo. Os homens, inclusive os pecadores, e a natureza se comportam livremente segundo os seus próprios impulsos, ou leis; contudo, não são mais que causas secundárias de seu próprio realizar: por trás deles está Deus como a Causa Primária de todas as coisas. Sem forçar as causas secundárias para que não atuem contrariamente a sua natureza ou eleição, Deus determina tudo o que sucede no universo. (2) O segundo método pelo qual Deus opera neste mundo é através de milagres; milagres como a revelação especial, a inspiração, a encarnação, a ressurreição física, a regeneração e a santificação, etc. Ao contemplar as operações normais da natureza, ou a revelação especial e miraculosa de Deus, o calvinista não encontra plena satisfação até que chega a ver todos os eventos em sua relação causal com Deus.

A mesma proeminência da ideia de Deus pode ser vista na atitude do calvinista em relação com a Bíblia. Este não é somente o livro que informa ao calvinista de como pode ser salvo, senão que é o livro de Deus; do Deus que fala em cada página e revela os seus planos e propósitos quanto a sua salvação e a suas obrigações em todas as esferas da vida.

Quando chegamos ao estudo do homem, de novo é o pensamento de Deus que permeia o todo. Inclusive o homem em seu estado de inocência,[9] comparado com o Deus majestoso não é mais que vaidade e nulidade. As nações todas não são mais do que o pó insignificante diante de sua presença. Quanto menos não será o homem em sua condição caída! Ele se encontra num estado de depravação total, incapaz de fazer algo de bom e inclinado a toda forma de maldade. Assim, seja por uma compulsão externa – como a que emana da autoridade civil -, ou, seja, por medo de um castigo, ou a opinião pública, ou as considerações egoístas, que lhe convencem de que vale a pena tratar de fazer o bem, ou ainda seja por amor àqueles que o amam, a realidade é que o homem pecador é levado pela graça comum de Deus a fazer certas coisas que o seu coração,[10] inclinado para o mal, de outro modo não desejaria fazer. Estes freios e incitamentos a fazer certas coisas que redundam para o bem da sociedade humana, não são resultado de algo bom no homem natural, senão que é o fruto da graça comum de Deus. Assim, pois, todo o bem que possamos ver no mundo, na sociedade, na arte, na ciência, na vida política, e inclusive nas terras pagãs, o calvinista o atribui diretamente a Deus e não ao coração pecador do homem.

Além do mais, esta triste condição de depravação total em que se encontra o homem não pode ser alterada a não ser por uma transformação sobrenatural operada por Deus. O homem está tão escravizado a seus hábitos pecaminosos como o alcoólatra a bebida; de modo que, por si mesmo, não pode nem está disposto a converter-se a Deus. “É Deus quem opera em vós tanto o querer como o realizar.”

Se fizermos um diligente estudo da redenção através de Cristo, encontraremos que a mesma preeminência é dada ao pensamento de Deus. O plano da redenção não teve origem na mente do homem, pois, por si o homem jamais haveria de voltar-se a Deus. Foi plano de Deus. O Salvador foi dado por Deus. Mas, Jesus não veio obter-nos tão somente aquela parte de nossa salvação que não poderíamos conseguir. Não poderíamos conseguir nada! Tão pouco ele fez expiação por aquilo que não poderíamos expiar. Ele fez tudo. Jesus cumpriu toda a obediência que era necessária para conseguir a vida eterna para nós; ele sofreu todo o castigo que implicava a culpabilidade do pecador. Consequentemente, a salvação nos vem puramente como uma benção que Deus outorga em sua livre graça, sem mérito algum de nossa parte.

Desenvolvamos mais amplamente este ponto. Talvez alguém diga: “Sendo que Deus idealizou o plano da salvação e em Cristo fez que fosse possível, então, agora o decidir a sua aceitação ou rejeição é algo que sou eu quem devo fazer.” Em certo sentido, é assim mesmo. Mas quem é que compele o cristão a aceitar a Cristo? “Pois todos nós estávamos desgarrados.” “Não há quem busque a Deus.” Cristo é quem envia o Espírito Santo aos nossos corações empedernecidos, os regenera e põe neles a fé e o amor a Deus, e restaura novas ambições e desejos. Ele faz isto com um poder irresistível, e não, como afirma o arminiano: porque nós o permitimos. Se fosse assim, nós por nossa vontade e de maneira espontânea jamais o permitiríamos. Somos envolvidos em nossa salvação, uma vez que Deus começou a operar em nós, tanto o querer como o realizar da sua boa vontade. Assim, pois, no que é essencial, a inteira obra da redenção é obra de Deus. Deus o Pai o planejou; Deus o Filho o conseguiu; e Deus o Espírito Santo o aplica, concedendo uma nova vida e um novo coração ao homem. Enquanto o modernista atribui a totalidade da salvação ao esforço do próprio homem, e o arminiano atribui a Deus somente uma parte e o resto ao homem, o calvinista atribui a Deus toda a glória. Inclusive a atividade pela qual o homem aceita a salvação, o calvinista a atribui ao poder de Deus.

Outra importante e bem discutida doutrina nos princípios da história do calvinismo em sua polêmica com o catolicismo romano é a doutrina da Igreja. Novamente aqui a concepção calvinista concede a Deus a preeminência. Aparentemente, tanto o católico romano como o calvinista partem de um ponto comum no que concerne à salvação sobrenatural, e ambos atribuem tudo a iniciativa divina. O católico romano, segundo uma concepção pelagiana,[11] crê que nas coisas de ordem natural o homem pode fazer toda classe de bem, mas no que se relaciona à salvação sobrenatural, o homem depende completamente de Deus. Além do mais, interpõe ao sacerdote entre Deus e o homem como dispensador da salvação. O Papa é o vicário de Cristo, o seu substituto na terra; leva a tiara papal, ou coroa tríplice, para revelar seu senhorio sobre a Igreja, o Estado e o purgatório. A Igreja distribui a salvação através dos sacramentos. Se desejarmos que nosso pecado original seja retirado, poderemos obter isto através da Igreja pelo sacramento do batismo; o perdão dos pecados diários é obtido pela penitência, ou confissão ao sacerdote; conseguimos a força espiritual pela missa, etc. Em tudo a salvação da alma depende da instrumentalidade da Igreja. Inclusive para adquirir conhecimento verdadeiro do caminho da salvação não podemos ir diretamente à Bíblia, senão que temos que nos submeter à interpretação que é feita pela própria Igreja.

O lugar que o católico romano coloca a Igreja, o calvinista põe a Deus o Espírito Santo. É ele quem ilumina a mente, de modo que o homem regenerado tem suficiente luz através do estudo da Bíblia, para conhecer o caminho da salvação. E é diretamente do Espírito Santo que o cristão recebe aquela dispensação da graça que segundo o catolicismo romano somente pode obter através do canal mediador da Igreja. No calvinismo a Igreja não se identifica com uma denominação determinada, nem com certa organização hierárquica, senão que é o corpo dos verdadeiros crentes de todos os tempos e em todos os lugares; estes constituem o corpo de Cristo e estão facultados para eleger os seus próprios ministros ao organizar em igrejas locais.

O governo da Igreja constitui outro elemento importante no calvinismo e faz com que o princípio fundamental da soberania de Deus adquira um relevo distinto. Isto pode ser percebido, de um modo muito especial, em dois aspectos: no da autoridade, e no da liberdade. Porquanto Cristo é a Cabeça da Igreja, ele é o único e verdadeiro Soberano, e a Igreja deve submeter-se totalmente à sua autoridade. Consequentemente, a Igreja se organiza segundo o esquema dos tempos apostólicos. A disciplina é exercida, não somente para purifica-la de membros ofensivos, mas também, para conseguir que seus membros e ministros – tanto em conhecimento como na conduta – se submetam fielmente à vontade de Cristo. O sistema apostólico proporciona, ao mesmo tempo, uma ampla margem de verdadeira liberdade. Os leigos elegem os seus próprios ministros, e juntamente com estes, na qualidade de presbíteros, governam as suas igrejas. As igrejas locais gozam de liberdade; estas não estão controladas por uma hierarquia, tal como sucede no sistema romano, mas por um presbitério local. Inclusive as reuniões dos presbitérios e os sínodos não possuem uma autoridade superior, senão mais compreensiva, já que é resultante de uma federação de presbitérios. Há liberdade quanto à relação da Igreja e com o Estado. Enquanto que o catolicismo romano coloca tudo, inclusive o Estado, sob o Papa como cabeça da Igreja, e enquanto os luteranos e outros põem a Igreja sob o Estado, os calvinistas lutam, inclusive com suas vidas, para conseguir a liberdade da Igreja do controle do Estado. Eles creem que Deus delegou a autoridade ao Estado, a Igreja e as outras organizações sociais, mas esta autoridade é autônoma em cada uma de suas respectivas esferas.

Temos que mencionar, todavia, outro aspecto sobressaliente da teologia calvinista: a sua distinta ênfase na moral, ou ética cristã. Se compararmos o calvinismo com o catolicismo romano, o luteranismo, o anabatismo, e o fundamentalismo[12] de nosso tempo, perceberemos que o calvinismo os supera em sua marcada ênfase na moral – como facilmente poderá comprovar todos os que conhecem a história destes grupos religiosos -. Existe uma razão definida que justifica esta distinção. Para o católico romano a Igreja ocupa o centro de sua teologia: o importante é chegar a ser um bom membro da Igreja – as demais coisas estão subordinadas a isto -. No caso do luterano ou do fundamentalista evangélico, o ponto central de seu interesse gira sobre algum aspecto da salvação do homem: o como ser salvo se converte na pergunta verdadeiramente importante. Alguns fundamentalistas de nosso tempo, como os batistas de alguns anos atrás, pretendem inclusive defender a ideia de que a lei[13] não tem vigência para o cristão; tal noção tende a minimizar as exigências da moral. Mas se Deus ocupa o centro de nosso sistema e o propósito de todas as coisas aponta para Deus e sua glória, tal como faz o calvinista, então a salvação do homem se converte num meio para conseguir uma meta mais alta: “ganhar para Deus um povo zeloso de boas obras.” Não é de se estranhar, pois, que aquele que põe a Deus no centro de sua vida, tal como faz o calvinista, empenha tanta ênfase numa ética mais elevada que a dos demais cristãos.

Todavia, há outra razão que explica o alto desenvolvimento moral da vida do calvinista: a consciência de sua depravação total. Noutros grupos cristãos com frequência se atribui ao homem algum poder inerente. É evidente que quanto mais confiemos em nós mesmos, menos dependeremos de Deus para obter forças. Por crer que o homem está totalmente depravado, o calvinista acentua mais do que os outros a necessidade do Espírito Santo. Inclusive Calvino é chamado de o teólogo do Espírito Santo, porque ele, mais do que ninguém, deu ênfase na importância do Espírito Santo em tudo o que concerne à santificação. Isto também explica por que se enfatiza a predestinação: se a salvação é só pela gratuita graça de Deus, então, segue que Deus decidiu de antemão salvar ao homem, e isto implica em predestinação. Os efeitos sobre a vida moral serão evidentes em todos aqueles que mostram tal dependência do poder de Deus. Quanto mais se convence o homem que por si não pode fazer nada, em maior grau dependerá de Deus, e consequentemente, obterá mais das riquezas da graça de Deus para uma vida moralmente exemplar (Is 57:15; Sl 51:17).

Esta ênfase numa vida santa para Deus também explica o reiterado acento que o calvinista dá sobre a doutrina bíblica do pacto da graça, e que não encontramos em nenhum outro grupo cristão. O pacto da graça aponta de um modo especial dois fatos: que a salvação é por pura graça; e, em segundo lugar, que nossa vida deve se conformar às exigências do pacto. A observação das obrigações do pacto entre os calvinistas está na razão direta ao grau de pureza moral que possa mostrar o calvinismo numa comunidade.

Mencionaremos outro fato com respeito à ênfase calvinista sobre a moral. O calvinista crê que quando Deus salva o homem, Deus salva a todo o homem. A totalidade do homem, consequentemente, deve se submeter à causa de Deus; não somente quando o crente está na igreja, senão que também quando realiza os seus negócios, ou intervém nas atividades políticas, ou sociais de qualquer ordem. Nenhuma esfera de sua vida pode ficar excluída; a vida, em sua totalidade, deve ser orientada para Deus; a política, as relações sociais e econômicas, as relações domésticas, a educação, a ciência, e a arte devem ter a Deus como o centro. Não existe, pois, nenhum aspecto da vida em que uma alta moralidade não tenha um eixo essencial. Deus deve controlar toda a vida. Assim, pois, não somente a ética individual é importante, mas também a moral social.

Desta maneira a religião alcança o seu cume mais elevado: Deus no centro da vida; a salvação somente como procedendo de Deus; tudo na vida para Deus e por um poder que ele mesmo concede. Não pode existir um ideal religioso mais elevado do que este.


Extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 53-61. Este livro originalmente foi publicado sob o título de THE BASIC IDEAS OF CALVINISM.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
24 de Janeiro de 2014.

NOTAS:
[1] H. Henry Meeter, Doutor em Teologia, foi presidente durante 30 anos do Departamento Bíblico do Calvin College, Grand Rapids, MI. Nota do tradutor.
[2] Em português temos Abraham Kuyper, Calvinismo e A Obra do Espírito Santo (ambos por Editora Cultura Cristã). Em inglês há o manual de introdução a teologia. Nota do tradutor.
[3] Em português temos Herman Bavink, Dogmática Reformada (Editora Cultura Cristã). Nota do tradutor.
[4] Em português temos Charles Hodge, Teologia Sistemática (Editora Hagnos). Nota do tradutor.
[5] Em português temos Gerhardus Vos, Teologia Bíblica (Editora Cultura Cristã). Nota do tradutor.
[6] Em português temos Louis Berkhof, Teologia Sistemática (Editora Cultura Cristã). Nota do tradutor.
[7] Em português sob o título de Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã (Editora Cultura Cristã). Publicado originalmente pelo CEIBEL/Patrocínio. Nota do tradutor.
[8] Em português temos A.A. Hodge, Esboços de Teologia (PES). A primeira edição em português ocorreu em 1895, por iniciativa do Rev. Francis J.C. Schneider. Esta edição teve o português completamente revisado e acrescido notas pelo Rev. Odair Olivetti. Merece menção a Confissão de Fé de Westminster Comentada (Editora Os Puritanos). Nota do tradutor.
[9] Antes da queda. Nota do tradutor.
[10] Nem todos os calvinistas concordam quanto à doutrina da graça comum. Os que rejeitam creem que o governo moral de Deus é um ato da sua providência em frear ou, entregar o homem a sua inclinação pecaminosa, bem como em estimula-lo com virtudes. Os calvinistas que adotam a doutrina da graça comum creem que Deus ama igualmente a todos, quer sejam eleitos ou réprobos; enquanto, que os que rejeitam creem que Deus ama somente os eleitos, e mesmo as coisas boas e virtudes que Deus dá aos réprobos são para manifestação da sua justa ira.
[11] A soteriologia da Igreja Católica Romana é semipelagiana. Nota do tradutor.
[12] H.H. Meeter se refere ao fundamentalismo evangélico de segunda e terceira geração do movimento nos EUA. Nota do tradutor.
[13] H.H. Meeter se refere à controvérsia antinomista e legalista, ou seja, quanto à validade e uso da lei moral na ética cristã. [14] Esta controvérsia entre os puritanos remonta ao século XVII, tornando-se mais acirrada no século XVIII. Entretanto, foi ressuscitada durante o Movimento Fundamentalista de segunda e terceira geração por causa do seu estreitamento como a perspectiva Dispensacionalista que acentua a descontinuidade entre o Antigo do Novo Testamento. Nota do tradutor.

09 janeiro 2014

Calvinismo para crianças

A Escritura Sagrada nos ensina que devemos instruir aos nossos filhos o temor do Senhor porque eles são herdeiros do pacto (Dt 6:4-9). Entretanto, pais têm negligenciado a sua instrução espiritual. Crianças são capazes de aprender e isto não pode ser ignorado. Alguns pais pensam que seus filhos precisam ser maiores e mais inteligentes para serem ensináveis. Pensar assim é erro. Saiba que mesmo antes deles aprenderem falar, eles sabem aprender! Iain Murray corretamente comenta que
toda doutrina que pode ser ensinada aos teólogos também pode ser ensinada às crianças. Ensinamos uma criança que Deus é um Espírito, presente em todo lugar e que conhece todas as coisas; e ela consegue entender isto. Falamos a ela que Cristo é Deus e homem em duas distintas naturezas e uma pessoa para sempre. Isto para uma criança é leite, mas em si contêm alimento para os anjos. A verdade expressa nestas proposições pode ser expandida ilimitadamente, e fornecer alimento para o mais alto intelecto por toda eternidade. A diferença entre o leite e o alimento reforçado, de acordo com esta concepção, é simples, é a distinção entre o maior e o menor desenvolvimento do conteúdo ensinado.[1]

Primeiramente ensine ao seu filho que Deus é soberano. Explique que ele criou tudo, governa todas as coisas e tudo depende dele. Existimos para adorá-lo, e tudo o que fizermos desde que acordamos, durante todo o dia, e até mesmo enquanto dormimos é para a glória dele. Eles não precisam ter medo de nada, e ninguém é mais poderoso que o nosso Deus! Estamos protegidos porque o nosso Deus nos ama e tem uma aliança conosco. O nosso Deus prometeu ser o nosso Deus, e ele não mente.

Apresento abaixo um esboço simples dos 5 pontos do Calvinismo. Desejo ajudar aos pais que querem ensinar as doutrinas da graça aos seus filhos. Comprove que os seus filhos, mesmo que pequenos, são capazes de memorizar e entender, se forem didaticamente esclarecidos, acerca do que são as doutrinas da graça. Estas doutrinas serão um saudável alimento para toda a vida.

DEPRAVAÇÃO TOTAL
Todas as pessoas morrem por causa de seus pecados.

ELEIÇÃO INCONDICIONAL:
Deus escolheu salvar pecadores.

EXPIAÇÃO LIMITADA:
Jesus morreu somente pelos eleitos.

GRAÇA IRRESISTÍVEL:
O Espírito Santo salva com graça poderosa.

PERSEVERANÇA DOS SANTOS:
Sempre seremos salvos.

Hoje o João Marcos memorizou a TULIP e a recitou. Este feito encheu o meu coração de satisfação! [ ACESSE AQUI ]

Converso com meus filhos, desde que nasceram, afirmando que estão debaixo das promessas do pacto de Deus conosco. Mesmo eles não entendendo alguns termos como calvinista, reformado, presbiteriano, puritano ou Westminster, vão desde agora se familiarizando com eles. É até mesmo engraçado ouvir, e como a sua pequenina língua enrola quando tentam falar estas longas palavras! Mas entre risos e o aprendizado, eles descobrirão que as verdades dessas grandes e difíceis palavras tornarão a vida feliz diante do Senhor Deus. Moisés nos exorta que "quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: 'que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o SENHOR, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: éramos servos de Faraó, no Egito; porém, o SENHOR de lá nos tirou com poderosa mão" (Dt 6:20-21).

Hoje eles aprendem sobre a graça, mas espero no nosso Redentor, que chegue o dia em que o Espírito lhes aplique e os torne conhecedores desta maravilhosa graça!

NOTA:
[1] Iain Murray, Preface in: Collected Writings of John Murray (Edinburgh, The Banner of Truth Trust, 1989), vol. 1, p. xii.

11 dezembro 2013

O EVANGELHO E LEI - SIMILARIDADE E DIFERENÇA - Johannes Wollebius

1. Assim, pela lei, vemos a necessidade de redenção; agora precisamos considerar a verdade da redenção no evangelho.
2. O evangelho é as boas novas, ou ensino concernente ao Filho de Deus, que foi enviado ao mundo, de modo que, depois que assumisse a nossa natureza, ele pudesse sujeitar-se à maldição da lei em nosso lugar e pela sua perfeita obediência à ela, conquistasse a vida eterna por nós.

PROPOSIÇÕES

I. O evangelho é como a lei em ter as mesmas causas eficiente e instrumental: Deus e a palavra escrita. Eles diferem com respeito a externa causa instrumental; a lei foi obviamente dada mediante Moisés, e o evangelho por meio de Cristo; deste modo, eles diferem naquilo que a lei é também conhecida ao homem natural, e onde o evangelho é conhecido somente pela graciosa revelação de Deus.
II. Eles são similares por causa do seu comum conteúdo. Ambos exigem a obediência com promessas e com ameaças. Eles diferem por causa do especial conteúdo de cada um: a lei primariamente ensina o que deve ser feito, o evangelho, o que deve ser crido.
III. Eles são similares por causa de sua comum forma: ambos um modelo de perfeita obediência. Eles diferem por causa da especial forma de cada um: a lei ensina o que é perfeita retidão, agradável a Deus; o evangelho ensina onde e em quem podemos encontrar aquela perfeita retidão. A lei nos exige esta retidão; o evangelho a apresenta em Cristo.
IV. Eles são similares por causa de seu propósito final, que é a glória de Deus, e, o próximo em importância, que é a nossa salvação, que pode ser percebida em ambos. Eles diferem em seu especial propósito. A lei dá uma direção para buscarmos a Cristo; o evangelho nos revela Cristo.
V. Eles têm similaridade em seu comum objeto, isto é, o homem caído. Eles diferem em seu especial objeto. O especial objeto da lei é que o homem seja advertido e humilhado.
VI. Eles são similares por causa do comum complemento, santidade, bondade e perfeição, que são consideradas em si mesmos, cada um tendo igualmente. Eles diferem por causa da explicação de circunstâncias particulares, e de nossas fraquezas, a lei sem o evangelho não seria suficiente para salvar.
VII. Do que foi afirmado acima pode ser percebido naquele sentido que, na Escritura, a lei é oposta ao evangelho, e que naquele sentido ela é subordinada à ele.
VIII. Quando homens são considerados como não-regenerados ou regenerados, então, a lei e o evangelho precisam ser entendidos como opostos; quando os homens são considerados como regenerados, então a lei deve ser subordinada ao evangelho.

Tal é a oposição indicada pelo apóstolo: “não estais debaixo da lei, e sim, debaixo da graça” (Rm 6:14, ARA). Aqui ele aponta para o estado do homem antes e depois da regeneração. Do homem incrédulo é afirmado estar “sob a lei”, porque (1) ele é sujeito à maldição da lei; (2) ele é sujeito à severidade da lei, pela qual ela exige a perfeita retidão e obediência; e, (3) por isso, ele olha para a ocasião de pecar como explicação da lei, de acordo com o provérbio: “o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado.” (veja Rm 7:8, ARA).

Do homem fiel é afirmado que está debaixo da graça porque (1) ele está livre da maldição da lei; (2) ele está livre da severidade da lei e das exigências da perfeita retidão, desde que Cristo a satisfez; e (3) por isso ele está livre do pecado governando-o, de modo que, ele não cobiça desejos pecaminosos sobre a conta da lei, pelo contrário, começa a fazer o que a lei requer, através do Espírito Santo e por causa da sua gratidão.

A lei é apresentada como subordinada ao evangelho quando Cristo é chamado de “o fim da lei” (Rm 10:4); e a lei é “um tutor até Cristo” (Gl 3:24), e onde a lei diz para que não seja oposta, quem realiza as obras do espírito (Gl 5:22-23). De fato, o evangelho concede ao homem fiel, em Cristo, todas as justiças que a lei requer. E, embora não sejamos capazes de satisfazer a lei nesta vida, todavia, o novo nascimento, através do dom da santificação, iniciará a fazê-lo.

Extraído de John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 85-86.

27 novembro 2013

Johannes Wollebius e o seu Compedium Theologiae Christianae

John W. Beardslee III traduziu o pequeno manual de dogmática de Johannes W. Wollebius, e ofereceu em sua introdução uma breve descrição da importância desta obra.
Johannes Wollebius (1586-1629) nasceu e foi educado em Basiléia, onde se tornou pastor em 1611, e professor de Antigo Testamento e pregador da catedral em 1618. O Compendium Theologicae Christianae foi publicado em 1626, sendo várias vezes, reimpresso em Latim (Basiléia, 1634; Amsterdã, 1638; 1642; Oxford, 1657; Londres, 1760), e foi traduzido para o holandês e inglês. Ernst Bizer quem reeditou o original em nossa geração, poderia agora prevenir-nos contra superestimar a sua importância, concordando com diversos historiadores do século XIX, mas não seria possível negar que seu extenso uso durante o século XVII, a sua brevidade, clareza e fidelidade, não fosse uma positiva expressão característica dos teólogos reformados nos tempos do Sínodo de Dort e que poderia manter esta afirmação concedendo-lhe o título por considera-lo como uma avenida para uma completa descrição do entendimento “ortodoxo” aceito pela Fé Reformada – o “que comumente é ensinado com aceitação em nossas igrejas” e que pode ser encontrado em Voetius, Turretin e igualmente em outros.

Extraído de Johannes Wollebius, Compendium Theologiae Christianae in: John W. Beardslee III, ed. e transl., Reformed Dogmatics (Grand Rapids: Baker Books House, 1977), pp. 10-11.

Iniciei a tradução do Compendium Theologiae Christianae para o português. Entretanto, esta é uma tarefa a longo prazo e sem compromisso com data. Conforme for traduzindo os capítulos pretendo postar neste blog, e devo comunicar no facebook, mas recomendo que inscreva-se neste blog para receber as atualizações.

Ou você pode obter cópia digital do livro [tradução inglesa] acessando AQUI

22 novembro 2013

Crer e Observar: o cristão e a obediência - Resenha

Este é um livro que oferece um ensino claro para um assunto que necessita ser melhor conhecimento e com certa urgência. Bruce Bickel no prefácio denuncia o problema de nossa época. O pragmatismo e hedonismo predominam na motivação até mesmo dentre os cristãos. Além destes problemas seculares ainda conflita dentro do protestantismo o legalismo e o antinomianismo. Bem observou que o legalismo “comete delito contra a glória da graça e exalta o eu e fere a nossa paz”, enquanto que o antinomianismo “transforma a graça de Deus em licenciosidade, endurece a nossa consciência e nos torna piores do que os descrentes” (p. 9). A proposta destes artigos é mostrar como Deus realizou, em Cristo, a justificação do pecador, para que este crendo, possa viver uma vida de obediência ao Senhor. Assim, a adequação e propriedade das boas obras na vida cristã, se dará entendendo e vivendo harmonicamente a relação da lei e do evangelho.

O livro é de fácil leitura. Embora o assunto Lei e Evangelho seja um tanto complexo, os autores escolheram escrever em linguagem coloquial para torna-lo mais acessível ao público geral. Devido ao uso desgastado dos termos legalismo usando termos teológicos seguidos de breves definições para que o leitor tenha certeza semântica do vocábulo, e possa assimilar o conteúdo. Os autores além de teólogos qualificados possuem ministério pastoral. O conteúdo do livro será uma leitura proveitosa tanto para acadêmicos, como uma boa introdução do assunto, ao mesmo tempo, que também, esclarecedora e prática instrução aos membros da igreja local.

A sua estrutura é composta de seis capítulos e um posfácio. No primeiro capítulo, R.C. Sproul pressupondo a continuidade pactual da lei demonstra que o nosso amor pela lei testifica a nossa comunhão com o povo de Deus, tanto no antigo como no novo pacto. A sua argumentação identifica uma disseminada rejeição pela lei do Antigo Testamento. Mas, a distinção, bem como a relação de lei e evangelho, segundo o autor, encontra igualmente no Antigo como no Novo Testamento. A sua tese é que na unidade pactual de ambos os testamentos o povo escolhido deve amar a Deus, porque a sua lei o revela, em outras palavras, amar a lei de Deus é amar o Deus da lei.

Michael Horton se valendo da metáfora bíblica das roupas, expõe a perfeição da justiça de Cristo imputada ao eleito. Desde o Jardim do Éden, é relatado que o homem, em seu pecado, tentou prover para si uma veste de justiça. Entretanto, com reprovação a Escritura declara que as melhores virtudes e obras do homem merecem condenação, por não satisfazer o perfeito padrão revelado na lei de Deus. A preocupação se a justificação não inibiria a santidade é respondida de duas formas. Primeiro denunciando como desvios como o pelagianismo, antinomianismo místico e perfeccionismo, na verdade não cumpriram a sua proposta de promover uma vida superior, pelo contrário, eles produziram afastamentos irreversíveis do evangelho e falharam em produzir verdadeira piedade na igreja. A segunda metade da resposta é que a doutrina da justificação precisa ser o centro do nosso entendimento em como somos aceitos por Deus. Então, uma correta distinção entre lei e evangelho produz o equilíbrio necessário para uma vida cristã saudável, como também, a confusão destes dois lados da Palavra de Deus causará dano. Horton identifica na atual pregação elementos de moralismo polido, com recomendações úteis para uma vida abundante, todavia, sem ter nela a lei como condenação da ira de Deus. O risco é que uma ignorância da lei os leva a uma segurança com motivações pecaminosas. O autor denuncia que tanto legalistas, como antinomianos erram em crer que a graça leva à licenciosidade “porque nenhum deles compreendeu verdadeiramente o poder de santidade que existe no evangelho” (p. 36).

No terceiro capítulo “obediência: amor ou legalismo?” John MacArthur recorda de uma longa controvérsia sobre o senhorio de Cristo, que alega que alguém pode ser salvo, sem viver uma a obediência cristã. O autor apresenta o ensino das Escrituras de que a obediência nos não torna salvos, porque ela não é uma condição para isso, mas ela deve ser parte da vida cristã, por ser fruto daqueles que vivem um verdadeiro cristianismo. Assim, a sua tese neste capítulo é de que a obediência cristã à lei é um dever, permeada com alegria e gratidão pela salvação, porque obedecer não é algo opcional. A sua interpretação da expressão paulina “sob a lei” como sendo estar “sob a lei como um meio de justificação”, segue de perto a opinião reformada sobre os usos da lei, ou seja, de que não estamos debaixo da lei cerimonial, nem que devemos a nossa justificação por obediência da lei. O único modo de Deus justificar o ímpio é através da obediência impecável de Cristo, que obteve perfeito mérito. Assim, o único mérito aceito por Deus é o mérito de Cristo que e atribuído a nosso favor. MacArthur esclarece que o legalismo é mortal por ser outro evangelho que procura estabelecer a própria justiça como critério de aceitação diante de Deus, enquanto que a obediência cristã diferente do legalismo, tem na doutrina da justificação o seu mais alto incentivo. É dever obedecer a lei, por ser declarado justo, por amar a Cristo, e viver sob a sua misericórdia. Digno de nota é a surpresa que MacArthur causa, pois sendo um teólogo dispensacionalista, que advoga a ruptura entre o antigo e novo pacto, consiga sistematizar a sua interpretação da lei e evangelho de forma correta.

John Armstrong escreve sobre a obediência por fé. Infelizmente parece que o autor falha parcialmente na apresentação seu artigo. Ele dedica uma longa parte introdutória, cerca de dez páginas, interpretando a expressão “obediência por fé” de Rm 1:5, em que cita a opinião de alguns comentaristas, e oferece uma conclusão que não contribuiu em nada, afirmando que “parece melhor para preservar a ambiguidade erudita de Paulo.” O desenvolvimento de sua argumentação é confusão, pois uma subdivisão não se desdobra logicamente com a próxima. É surpreendente ao apresentar corretamente a posição reacionária dos reformadores contra a posição de Roma, de que ela confunde a justificação com a santificação, de modo, que a obediência torna-se meio de justiça própria, mas em seguida, cita com aprovação o escritor Don Garlington que diz “difícil pensar que ‘justificação’ e ‘santificação’ sejam radicalmente distintas porquanto ambas, no emprego principal que é feito dessas palavras no Novo Testamento, fazem referência ao mesmo evento” (p. 77). É isso que a Igreja Romana ensina! O artigo de Armstrong careceu de uma clara definição do que ele crê sobre a doutrina da justificação. Esse capítulo, na minha opinião, é o mais fraco do livro, porque o artigo além de vagar numa argumentação sem desenvolvimento lógico, e fazer afirmações heterodoxas, não cumpriu em esclarecer como a obediência ocorre por fé.

Jonathan Gerstner produz uma rica contribuição para a discussão. A preocupação com o correto entendimento da doutrina da justificação leva o autor a pensar nas implicações soteriológicas daqueles que negando-a, ou de protestantes que aceitam como salvos, aqueles que rejeitam a suficiência da justiça de Cristo. O debate se estende ainda contra os legalistas e antinomistas e a partir de exemplos históricos, alguns bem recentes, Gerstner denuncia sérios desvios de diferentes formas de legalismo, que criaram o seu próprio critério de “boas obras”. O autor vê nesse desejo de ser aceito pela obediência de boas obras um reflexo do pacto das obras, que nunca foi revogado. O problema é a incapacidade causada pela queda no pecado.

Gerstner nota que o legalismo é uma das mais antigas heresias no seio da Igreja. Esta foi a heresia dos gálatas, e reapareceu no período medieval, e foi combatida pelos reformadores. Entretanto, o legalismo manifesta-se na igreja do tempo presente pelo arminianismo, que vê na fé uma obra que participa da sua salvação, ou dos curadores radicais que descrevem a cura como dependente da fé, mas, mais escandaloso é o documento Evangelicals and Catholics Together. Gerstner adverte quanto ao uso desgastado e incorreto do termo “legalismo” percebendo que o mau uso da palavra, em geral, procede de pessoas que atacam grupos que pensam que a lei de Deus exige algum tipo de comportamento, que ela crê não deveria ser exigido. A tradução em geral é de boa qualidade.

Entretanto, algumas falhas precisam ser denunciadas quando se traduz “aquele grupo faz parte de culto legalista e não de uma igreja” (that group to be a legalistic cult and not a church: “aquele grupo é uma seita legalista e não uma igreja”. Trust and Obey, p. 137). O juízo do autor contra o desvio doutrinário do legalismo é mais grave do que a tradução sugere. É interessante a percepção pastoral e conciliadora que o autor demonstra advertindo que o mau emprego do termo legalismo não deveria ser usado contra pessoas que inconscientemente erram nas suas inferências da aplicação de algum princípio bíblico.

O antinomianismo não é menos criticado, nem considerado menos pernicioso. O problema do antinomiano é sua crença que a fé que justifica permite uma vida de imoralidade. Gerstner aponta para alguns casos como Bill Bright, que crê que uma pessoa pode aceitar Jesus como Salvador, mas não necessariamente como Senhor, implicando que ela pode ser salva, mas não ter o senhorio de Cristo. Ainda menciona o dispensacionalismo que em seu sistema teológico causa uma ruptura entre lei e evangelho, criando uma doutrina antinomiana de rejeição à obediência à lei por ser ela de uma dispensação ultrapassada. Por último, cita o que ele chama de “embainhadores” de espada, ou seja, eles rejeitam o antinomianismo, mas diluem o seu ensino ou pregação quando ao que a Escritura afirma contra o pecado. A sua solene advertência final àqueles que pecam por legalismo, ou por antinomia, pesa a seriedade de sua ofensa contra o Deus que justifica.

Em dupla autoria este capítulo encerra apresentando a gratidão como a motivação correta para a obediência no terceiro uso da lei. O terceiro uso da lei, ou uso didático, se refere ao uso diário na vida do cristão em como ele deve expressar sua gratidão a Deus pela justificação. O assim chamado terceiro uso da lei é primeiramente encontrado no pensamento de Melanchthon, embora haja debate se Lutero o ensinou, pelo menos por implicação. Em Calvino a doutrina encontra-se mais amadurecida do que seus antecessores, Beeke observa que ele foi o único e o primeiro dentre os primeiros reformadores a “enfatizar essa terceira função da lei como norma e guia para o crente, é o seu uso ‘exato e principal’” (p. 114). A obediência da lei é entendida não como sendo compulsória, mas agradecida, porque a lei promove uma ética de gratidão, que ao mesmo tempo o encoraja a obediência e o adverte contra o pecado.

Os autores oferecem um estudo de caso baseado no quarto mandamento. Eles demonstram a legitimidade de sua observância, apesar de sofrer a resistência da mentalidade secularizada, do prejuízo teológico causado pelos modernistas quanto à autoridade da Escritura e dos dispensacionalistas em romper com a autoridade da lei do Antigo Testamento. A tradução é prejudicada porque o termo hebraico sabbath que deveria ser preservado, como os escritores de língua inglesa o fizeram, foi traduzido por “sábado” o que pode levar um leitor desavisado a confundir, e talvez não entender o argumento do autor. Parece que este problema é repetido, devido ao fato de que outros livros que abordam o assunto, ou mencionam o termo, também o traduzem por “sábado” (Crer e Observar, pp. 118-127; compare com Trust and Obey, pp. 173-187). A correta obediência da lei em seu uso didático fornece aos cristãos um amor espontâneo e uma autêntica liberdade em Cristo.

Apesar de ser agradável a diagramação, infelizmente a editora optou em colocar as notas no fim do livro. Este modelo torna cansativa a leitura e desestimula com as várias idas e vindas do texto para as notas, por vezes, quebrando o raciocínio do argumento. O livro sendo de brochura possui um acabamento bom, por não ser apenas colado, mas também costurado, aumentando assim a sua vida útil.

FONTE:
Don Kislter, org., Crer e Observar – o cristão e a obediência. São Paulo: Editora Cultura Cristã. 2009.
Don Kistler, org., Trust and Obey – Obedience and the Christian. Morgan: Soli Deo Gloria Publications. 1996.