DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA TEOLOGIA DE TILLICH
Paul Tillich (1886-1965) nasceu na Prússia, filho de um pastor luterano que o educou nas crenças tradicionais. Todavia, sua mãe incentivou-o a abrir-se. O seu amor pela natureza de seu ambiente rural permaneceu com ele toda a sua vida. A sua família mudou-se para Berlim quando ainda era jovem. Depois estudou em Berlim, Tubinga, Halle e obteve um doutorado em Filosofia em Breslau; foi ordenado pastor luterano em 1902. Tornou-se capelão da Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1924 começou ensinar teologia em Masburg, onde também foi influenciado pela Filosofia Existencialista de Martin Heidegger. Acabou sendo expulso da Universidade de Frankfurt em 1933 por sua aberta oposição a Adolf Hitler. Migrou para os EUA, onde exerceu a docência no Union Theological Seminary em New York, em Harvard e na Universidade de Chicago. Escreveu uma Teologia Sistemática em três volumes,[1] assim como muitos outros volumes.
Seria chamado de o “teólogo dos teólogos” e seus escritos não eram fáceis de se entender. A sua teologia era considerada liberal na Alemanha, mas neo-ortodoxa nos EUA. Poderia chamar-se de teologia dialética.[2] Tillich dizia estar no limite entre o liberalismo e a neo-ortodoxia.[3] Representava a ala radical da neo-ortodoxia, enquanto que Karl Barth representava a ala conservadora.
AFIRMAÇÕES DOUTRINÁRIAS DE TILLICH
Teologia própria. Paul Tillich buscava entender a Deus numa abordagem mais filosófica do que teológica. Assim, os termos tradicionais como Deus são símbolos e nada mais. Não via Deus como um ser pessoal, senão como o “Ser” em si. Deus é o Fundamento ou o Poder do Ser. Deus está “além das coisas que pertencem ao ser finito ... . Todas as coisas finitas existem. Mas Deus simplesmente é.”[4] Deste modo, Tillich dizia que “é tão ateu afirmar a existência de Deus como nega-la ... Deus é ser em si, não um ser.”[5]
Hamartologia. O pecado se descreve como um alienação do verdadeiro ser ou do fundamento do nosso ser. A Queda não foi um evento histórico, antes “é uma transição não-temporal da essência para a existência. É uma “queda” e é trágica, pois provoca a situação em que o homem está alienado de seu ser essencial.”[6] Para Tillich o caráter essencial do pecado é a interrupção da unidade essencial com Deus. Ele afirma que “na existência o homem está alienado do fundamento de seu ser, dos outros seres e de si mesmo.”[7]
Soteriologia. A salvação não se expressa em termos tradicionais, para Tillich a salvação está no novo Ser, que é “a preocupação última” da classe de vida vista em Cristo, porque Cristo evidenciou uma preocupação real. Entende-se a preocupação última como a preocupação principal sobre todas as demais; que se relaciona com o “ser” ou o “não ser”. O homem contempla com esperança a Cristo (não usado no sentido ortodoxo), a quem o resgatará de sua alienação.
Cristologia. Não se entende, nem se descreve a Jesus Cristo usando uma terminologia tradicional, muito menos se entende como uma pessoa histórica. Cristo é “um simbolo do ‘Novo Ser’ em que se dissolveu toda força da alienação que intente dissolver sua unidade com Deus.”[8] Portanto, Tillich rejeitou a crença na encarnação e na ressurreição de Cristo.
AVALIAÇÃO DA TEOLOGIA DE TILLICH
Paul Tillich foi mais filósofo do que teólogo. Tratou mais com ideias e conceitos do que com os eventos históricos das Escrituras. Por este motivo Tillich deu demasiado crédito a razão humana. Mais pontualmente o seu enfoque na interpretação das Escrituras é uma forma moderna de alegoria. Atribuiu significados novos às palavras bíblicas. Negou a personalidade de Deus e se referiu a ele como sendo “Fundamento último da existência”. Rejeitou o pecado pessoal e a rebelião contra Deus; também rejeitou o evento histórico da queda no Edem. O pecado do homem é sua falta de preocupação. A salvação não está na pessoa histórica de Cristo, senão que num símbolo; na teologia de Tillich, Jesus Cristo não é a pessoa histórica das Escrituras. A salvação não se alcança através da expiação dos pecados, mas pela preocupação última.
O enfoque de Tillich sobre as Escrituras violentou todas as grandes doutrinas históricas sustentadas pela fé cristã.
NOTAS:
[1] No Brasil publicada pela Editora Sinodal num único volume – nota do tradutor.
[2] Teologia Dialética na realidade é um termo muito amplo que pode se aplicar a muitos teólogos, começando na era neo-ortodoxa. Bernard Ramm define assim a teologia dialética “não cria na classe direta de afirmações sobre Deus e o homem dos antigos teólogos ortodoxos e os liberais religiosos mais recentes. Acreditava que a relação entre Deus e o homem era de tensão. Teria uma dimensão existencial. A única lógica adequada para a situaçãoé a dialética, com o seu SIM e NÃO, com sua afirmação e contra-afirmação. Deste modo, não se chegava adequadamente a uma verdade teológica até havê-la formulado paradoxicamente mediante a proposição e uma contra-proposição.” A Handbook of Contemporary Theology (Grand Rapids, Eerdmans, 1966), pp. 35-36. Deste modo, Tillich aplicou o conceito de dialética a tudo e, portanto, a sua teologia poderia ser chamada de dialética. Compare com Vernon C. Grounds, “Pacestters for Radical Theologians of the Sixties and Seventies” in Stanley N. Gundry e Alan F. Johnson, eds., Tensions in Contemporary Theology (Chicago, Moody, 1978), pp. 85-91.
[3] William E. Hordern, A Layman’s Guide to Protestant Theology (London, Macmillan, 1968, ed.rev.), p. 171.
[4] Kenneth Hamilton, “Paul Tillich” in Philip Edgcumbe Hughes, ed., Creative Minds in Contemporary Theology (Grand Rapids, Eerdmans, 1969), p. 455.
[5] Ibidem.
[6] Ibidem, p. 458.
[7] Ibidem.
[8] Harvey M. Conn, Contemporary World Theology (Nutley, Presbyterian & Reformed, 1974), p. 89.
Traduzido por Rev Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Paul Enns, Compendio Portavoz de Teologia (Grand Rapids, Editorial PortaVoz, 2010), pp. 594-595.

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