27 julho 2012

Escolhi pregar expositivamente

Em 1994 fui para o Instituto Bíblico de Rondônia, ali iniciei os meus estudos teológicos. Então, comecei a pregar com preparo acadêmico ao aprender a normas e estruturas da homilética, entretanto, a ênfase era o modelo de sermão temático. Na época apenas li superficialmente acerca da pregação expositiva, e não conhecia nenhum pastor que pregasse deste modo. O sermão temático é fácil de preparar exigindo a imaginação e um simples jogo de palavras a partir do tema de um texto da Escritura. Mas sempre me causou insatisfação, sabendo que eu correria o risco de dizer algo que não estava no texto, ou até mesmo de pregar algo que não era o texto.

Durante os meus estudos no STPJMC recebi nova ênfase homilética. Desta vez, a pregação expositiva foi ensinada e exigida nas avaliações de prática de pregação. Li pelo menos três livros sobre pregação expositiva, pois não havia muita coisa em português, e os modelos pregadores brasileiros que eu conhecia eram ainda mais escassos. Terminei a minha graduação convencido que deveria pregar sermões expositivos, mas a prática não estava clara. Eu não sabia direito como isso poderia ser feito.

Após dois anos de pastorado pregando sermões temáticos abandonei este método. Quando decidi pregar expositivamente como parte permanente do meu ministério, não iniciei repentinamente. Primeiro comecei explicando à igreja que pastoreava, os motivos de doravante pregar expositivamente. Também expliquei que faria análises de textos continuados, e não apenas textos isolados a cada Domingo. Em cada sermão comecei a oferecer o contexto histórico, da intencionalidade do autor, da problematização dos destinatários e analisando a estrutura gramatical do texto no esforço de extrair o significado original que o autor inspirado quis comunicar. Confesso que algumas vezes tive receio de estar fazendo errado, e como pastoreava uma igreja do interior de Rondônia, e tinha pouco contato com o meio acadêmico bem como os grandes centros, tive que tentar descobrir e seguir as complicadas orientações que os autores de homilética ofereciam. Ainda continuo lendo, ouvindo, vendo acerca de sermões expositivos e atentamente aprendendo com pregadores que estão comprometidos com este método.

Se você ainda não se decidiu quanto a se prega ou não expositivamente, permita-me neste artigo sugerir que repense acerca da possibilidade de comprometer-se com a pregação expositiva.


Motivos práticos para pregar expositivamente

Posso elencar pelo menos três motivos para se pregar expositivamente: 1) pastoral, 2) exegético e, 3) homilética. Em breves sentenças farei algumas considerações para que você possa refletir e, o faço na esperança de que você assuma este compromisso. A minha intenção é compartilhar algumas sugestões de como fazer algo, que apesar da ampla divulgação recebida, ainda percebo dúvidas e erros no processo do fazer.


Algumas dicas pastorais

1. A direção do Espírito de Deus é vital para que o pregador exponha e aplique a Escritura Sagrada na igreja local. Ao escolher o que pregar, e isto não significa apenas um texto isolado, o pregador carece discernir que alimento deve entregar ao rebanho. Esta necessidade, seja de natureza preventiva ou corretiva, precisa ser identificada com santo discernimento e oração. O pregador que teme ao Senhor, também anseia por ser-lhe fiel, e ao mesmo tempo por amor e zelo, deseja ensinar e corrigir persuadindo os seus ouvintes acerca da vontade de Deus.

2. O pastor trabalha para que a igreja sob seus cuidados seja saudável. Para isto o seu sermão é fogo santo, pão do céu e poder de Deus para comunicar graça aos que ouvem, persuadir os que duvidam e fazer calar os que se opõe ao evangelho de Cristo! Tamanha tarefa não pode ser realizada superficialmente! Deste modo aconselho: ore, ore e ore! Estude, estude e estude! Sob o perigo de ainda assim, ser encontrado inapto para tão grandiosa tarefa. Este compromisso somos chamados para cumpri-lo dominicalmente diante de pessoas que estão sob o nosso cuidado.

3. É uma atitude irresponsável não ter um plano de pregação. Como relatei antes de ser persuadido da necessidade da pregação expositiva, iniciei meus dois primeiros anos de ministério pastoral pregando sermões temáticos. Confesso que cheguei algumas vezes próximo de 1 hora antes de começar o culto e não sabia o que pregaria naquela noite! Pregando expositivamente, especialmente livros inteiros, tenho o texto definido meses com antecedência oportunizando-me tempo para pesquisa, meditação e compreensão estrutural do livro. Outro aspecto prático é perceber que os membros interagem comigo no preparo do sermão, fornecendo dicas de leitura ou ilustrações de situações relacionadas ao texto que serão pregados na sequência.


Algumas dicas exegéticas

1. Eu poderia iniciar aqui pressupondo que você aprendeu a fazer exegese. Se você o sabe, perdoe-me se minhas dicas parecerem primárias, assim, peço que tenha paciência e continue lendo. Estas sugestões têm basicamente o intuito de ser um “como fazer”, e escrevi pensando em seminaristas, pastores inexperientes e pregadores leigos que desejam aperfeiçoar-se na honrada tarefa da pregação.

2. Ok, sigamos então selecionando o livro ou porção das Escrituras. Leia-o todo, e faça isso repetidas vezes, até que seu conteúdo esteja claro em sua mente e consiga resumi-lo em sentenças curtas.

3. Seja diligente em fazer a reconstrução do contexto histórico. Ao ler o texto a data, local, autoria, as circunstâncias, aspectos geográficos, político, culturais, etc. precisam estar vívidos em sua mente. Caso não possa adquirir manuais de introdução sobre o AT ou NT, tenha à mão uma Bíblia de Estudo de Genebra, porque ela oferece na parte introdutória de cada grupo de livros e em cada livro estas informações.

4. Descobrir o ensino intencional do autor é o objetivo do pregador. O que determina significado no texto é responder: o que ele quis dizer? Em havendo, qual problema atacava? Bem como qual dúvida ele esclarecia. E ainda o que ensinou neste texto aos seus leitores? Estruturalmente deve-se observar como do primeiro ao último versículo ele desenvolve o seu raciocínio. Isto resume ao abordar cada passagem qual era a interação do autor em relação aos seus destinatários no contexto original.

5. As conjunções devem ser respeitadas na divisão das perícopes a serem pregadas. E quando possível deve-se observá-las ao fazer as divisões do seu sermão. Estas divisões não são arbitrárias, mas direcionadas pela estrutura gramatical do próprio texto. Se o pregador tem noções gramaticais da língua original isto facilita muito, se não tem, então observe como as traduções mais recentes têm seguido as divisões das perícopes conforme a estrutura do idioma original.

6. No texto escolhido identifique as palavras-chaves ou expressões características do autor e como elas reforçam seu argumento. Verifique se ele recorre aos mesmos argumentos em outros livros que escreveu.

7. Faça a ponte da exegese para a homilética. A verdade descoberta exegeticamente precisa ser afirmada homileticamente. Em outras palavras, você precisa preparar frases tão curtas quanto possível, que resumam a ideia do autor, e fazer isso o mais didático possível. Neste ponto recomendo enfaticamente que você leia um livro de homilética, ou converse com um pregador experiente em como fazer isso. Não se esqueça: na pregação expositiva a estrutura homilética a ênfase do autor precisa ser colocada em relevo apontando a sequência do seu raciocínio em todo o livro.

8. Caso o pregador não domine a gramática das línguas originais recorra às diferentes versões. Entretanto, sempre é recomendável verificar como os tradutores percebem nuanças semânticas ou variações por causa da sintaxe ou da etimologia das línguas originais. Este recurso além de enriquece o conteúdo do sermão, também dinamiza a formulação das divisões do sermão.


Algumas dicas homiléticas

1. Por causa da inexperiência não corra o risco de se frustrar ou entediar seus ouvintes com exageros. Se você decidiu pregar expositivamente e não sabe como iniciar, sugiro que escolha pregar em pequenas porções, livros ou epístolas pequenas. Permita-me ser mais claro: não inicie preparando a sua série expositiva de sermões em livros como Isaías, Ezequiel, Jeremias, Provérbios, ou em Romanos, 1 Coríntios, Hebreus, pelo contrário, a humildade e a sensatez previnem e nos levam a pensar em começar com porções menores como os Dez Mandamentos, algum dos profetas menores, as Bem-aventuranças, ou mesmo todo o Sermão do Monte, Judas, Tiago, etc. Lembre-se se você não tem a experiência, nem a igreja local tem o costume de ouvir sermões, tome cuidado para não estragar algo tão bom por falta de tato pastoral.

2. Acompanhado o estudo de toda porção ou livro, identifique a estrutura dos assuntos. Isto pode ser verificado de dois modos: 1) Na introdução de cada livro da Bíblia de Estudo de Genebra há uma estrutura do conteúdo de todo o livro. Ou, 2) veja como as versões modernas trazem indicadores das divisões naturais. Aqui você saberá no seu planejamento quantos sermões pregará apenas subdividindo as perícopes.

3. Não comece cada sermão apenas pedindo para abrir no texto da sequência como algo mecânico. A introdução do sermão tem evocar a atenção, e convergir os pensamentos do público para a mensagem do texto. Há pregadores expositivos que entendiam os seus ouvintes no início do sermão, pois pensam que pregar lectio continua, ou seja, sequenciado texto após texto do mesmo livro dispensa uma introdução que apresente a relevância do sermão.

4. Lembre-se que um sermão expositivo não é mero comentário exegético do texto. Por vezes a pregação expositiva é antes de tudo um SERMÃO, e abrange todos os seus elementos essenciais. Alguns pregadores expositivos deixam de recorrer à proposição (chamadas por alguns de ideia homilética) e também pensam erroneamente ser dispensável o uso de divisões. Seja didático, você está instruindo e o modo como se faz a fixação da mensagem é importante. A fidelidade não dispensa a clareza.

5. Extraía do texto quais verdades ou princípios são ensinados e contra que pecados são aplicados. Aplique-os de modo prático, com linguagem que não desconsidere a inteligência nem a simplicidade dos seus ouvintes. A aplicação é uma das mais presentes falhas nos pregadores, que se preocupam apenas de expor, explicar, apresentar a verdade, indicar os princípios, mas em geral, omitem em aplicar e nisto não ensinam os presentes a viver de modo prático a Palavra de Deus.


Quais são alguns benefícios de se pregar expositivamente?

1. Edificar crentes com mentes treinadas a raciocinar sistemática, estrutural e gramaticalmente quando estudam e meditam no texto bíblico. A começar com o pregador que numa autodisciplina aprende a estudar e preparar sermões metodicamente construindo uma teologia mais bíblica a partir da exegese, ao mesmo tempo membros que ouvindo estes sermões aprendem como estudar e analisar a Escritura Sagrada. Assim, quer explicita ou implicitamente, pelo exemplo da pregação expositiva, demonstrará como os membros sob seu pastoreio podem efetivamente examinar as Escrituras.

2. O pregador torna a aquisição de literatura criteriosamente seletiva. Todo pregador precisa ter uma biblioteca básica que lhe seja útil no preparo de sermões. Por isso, ele não comprará aleatoriamente todo livro que lhe seduz, e sim aqueles que diante das necessidades de pregar, e adicionar conteúdo possa somar e facilitar o preparo do sermão, dentre as muitas tarefas pastorais.

3. O preparo do sermão expositivo é um hábito saudável no ministério pastoral. Nunca deixará de ser trabalhoso, mas com o tempo a experiência habilitará o pregador a ter facilidade e a satisfação de fazê-lo com menos embaraços técnicos. Uma vez familiarizado com este método possivelmente o pregador não se interessará em expor a Escritura doutro modo.

4. Crie o hábito de ouvir pregadores expositivos. Há pregadores que atravessam o mundo para pregar, mas se indispõe em cruzar a rua para ouvir um sermão! Ouvindo os que sabem fazer é um excelente recurso para se aprender. Atualmente na internet há vídeos de como preparar sermões expositivos. Após ler este artigo acesso-os e continue aprendendo!

21 julho 2012

A ideia de mito na teologia

por Bernard Ramm


O conceito de mito não tem um significado uniforme na teologia contemporânea. A única forma em que este conceito pode ser tratado é observando como usam o termo os diferentes eruditos.

1. “Mito” usado no sentido bom. Emil Brunner y Reinhold Niebuhr são os teólogos que creem que as Escrituras contêm num bom sentido. O raciocínio básico destes homens é que a linguagem acerca de Deus deve, necessariamente, tomar a forma de um mito. As declarações acerca de Deus não são afirmações de fato, tais como as que fazem os cientistas, nem declarações vazias de significado tais como se encontram na mitologia pagã. O “mito” bíblico é o meio de comunicação pelo qual um Deus transcendente faz a sua vontade conhecida ao homem. O meio de expressar aquilo que é histórico e teológico acerca da existência do homem.

Brunner retorna ao conceito de mito diversas vezes em seus escritos. Segundo ele, o elemento importante do mítico no Cristianismo, é que conserva intacto o caráter histórico do Cristianismo. Se removermos o mítico do Cristianismo o fazemos não-histórico e então, se torna uma religião abstrata e insípida. Mas ao mesmo tempo o mito bíblico não foi confundido com o mito pagão. Segundo Brunner há quatro mitos principais: a criação, a queda, a reconciliação e a redenção. O assunto importante em cada um destes mitos é que se referem à linha divisória entre o tempo e eternidade. Também caracteriza o mítico como o que é supra-histórico, escatológico, remoto do sensorial, mas relacionado com este único e essencial. Na análise final é uma maneira balbuciante de expressar a verdade cristã, mas é melhor maneira disponível (TM, pp. 227-396; RR, cap. 26; D, II, 268ss).

O pensamento de Niebuhr é paralelo ao de Brunner de modo muito próximo. Ele contempla o mito como o modo necessário para o qual o Deus eterno se comunica com o homem temporal. (NDM). Cullmann também usa o conceito do mito de modo aprobatório. O princípio do tempo e o fim do tempo são representados miticamente na Escritura (CT, pp. 94ss).

2. “Mito usado num sentido mal, mas aceitável. Bultmann crê que o kerigma primitivo foi marcado por mitos judeus e gregos (KM, pp. 1ss). Bultmann aparentemente opera com dois critérios para assinalar o mitológico. Positivamente o mitológico é qualquer mito redentor gnóstico, típico do grego, ou qualquer mito apocalíptico judaico. Negativamente o mítico é aquilo que vai contra o entendimento científico de ordem do universo. Bultmann não crê que devamos aceitar o mito como tal, mas, por outro lado, não crê que devamos rejeitar abertamente o mito. O mito contém o kerygma, portanto, temos de adentrar através do mito e descobrir o kerygma original. Daí que propõe o seu famoso programa de demitologização para reiniciar a rejeição total do mito pelos eruditos do século XIX, que localizaram propriamente o mitológico das Escrituras cristãs, mas foram muito longe em sua rejeição. Com a ajuda da filosofia existencialista podemos desnudar o mito e indicar o evangelho original.

3. “Mito” usado num sentido mal e inaceitável. Karl Barth define os mitos como contos acerca dos deuses e, portanto, inaceitáveis na teologia cristã. Crê que há mitos, ou fragmentos de mitos nas Escrituras, mas estes mitos não pertencem à substância do testemunho da Escritura enquanto revelação. Por exemplo, diz que o relato de Gênesis da criação é lenda, não mito. “As histórias da criação da Bíblia, não são mitos, nem contos de fadas. Isto não é negar que haja mitos, e acaso contos de fadas nos materiais dos quais foram construídos.” (CD, III/1. p. 84). Enquanto ao programa total de demitologização de Bultmann, Barth foi um crítico persistente. Disse, por exemplo, que toda a primeira parte do Quarto Tema de sua Church Dogmatics é um debate intenso com Bultmann (CD, IV/1, p. ix). Por exemplo, Bultmann em relação à ressurreição declara que não crê no reavivamento de um cadáver (KM, p. 8). Barth, de modo contrário, defende fortemente a ressurreição corporal de Cristo.

Extraído de Bernard Ramm, Diccionario de Teología Contemporánea (El Paso, Casa Bautista de Publicaciones, 3ªed., 1978), pp. 93-95.

03 julho 2012

Indicação novo site reformado!


Queridos leitores

Recomendo a leitura assídua do site POLÍTICA REFORMADA criado pelo nosso irmão Lucas Grassi Freire. Segundo ele a proposta deste site é produzir textos que apresentem uma cosmovisão reformada. O próprio Lucas declara que
os princípios dos textos são: (1) Simplicidade conceitual e escrita, para alcançar pessoas sem muita educação formal; (2) Informativo, explicando o assunto primeiro e depois aplicando os princípios bíblicos; (3) confessional, omitindo quaisquer ensinos contrários à fé reformada; (4) irênico, levando em consideração que irmãos podem genuinamente ter opinião distinta em certas questões mais polêmicas; (5) profissional, emergindo de anos de estudo e ensino na área.

Além de serem escritos boa parte do material também será gravado para transmitir no radio e influenciar mais pessoas.

Expresso a minha admiração pelo zelo acadêmico e amor pela cosmovisão reformada firmemente defendida pelo Lucas.

04 junho 2012

Os 5 Artigos do Arminianismo - 1610

Introdução

O documento foi escrito pelo grupo dos remonstrantes, em 1610. O seu título holandês é De Remonstrantie en het Remonstrantisme [O protesto do protestantismo] e o latim trás Articuli Arminiani sive Remonstrantia [Os artigos arminianos com protesto]. Deve-se ter o cuidado de discernir que o termo “protestante” não é usado em seu significado comum. Diferente de como historicamente o termo “protestante” é usado, ou seja, uma reação contra a doutrina da Igreja Católica Romana, o partido arminiano protestava contra a posição teológica oficial do estado holandês, que era o Calvinismo.

Estou disponibilizando a tradução de Os 5 Artigos do Arminianismo para que estudantes de teologia tenham acesso ao conteúdo teológico essencial dos remonstrantes. Estou escrevendo um pequeno livro em que ofereço o contexto histórico e teológico da controvérsia que deu origem aos Arminianismo, se Deus quiser, pretendo publicá-lo. Aos que desejam ler a resposta calvinista que o Sínodo de Dort ofereceu aos remonstrantes acesse aqui.

Segue abaixo o texto dos arminianos traduzido na íntegra.[1]


Artigo 1
A eleição realizada com base na presciência
[2]

Que Deus, pelo propósito eterno e imutável em seu Filho Jesus Cristo, desde antes da fundação do mundo, Ele determinou a respeito da raça humana pecadora e caída, salvar em Cristo, pelo amor de Cristo e, através de Cristo, a quem, pela graça do Espírito Santo, crerão em seu Filho Jesus e perseverarão nesta fé e obediência da fé, por meio desta graça, até o final; e, por outra parte, deixar aos incorrigíveis e incrédulos no pecado e sob a ira, condená-los como alienados de Cristo, de acordo com a palavra no Evangelho de João 3:36: “O que crê no Filho tem a vida eterna; mas, o que se recusa a crer no Filho não verá a vida, senão que a ira de Deus permanece sobre ele”, e, também de acordo com outras passagens das Escrituras.


Artigo 2
A expiação ilimitada


Que, de acordo com isto, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos e cada um dos homens, de modo que, por sua morte na cruz, obteve para todos eles a redenção e o perdão dos pecados; ainda que, ninguém que não seja crente na realidade desfruta deste perdão, de acordo com João 3:16: “porque Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.” E, em 1 João 2:2: “e, é a propiciação por nossos pecados; e, não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo todo.”


Artigo 3
A incapacidade natural


Que o homem não tem a graça salvadora por si mesmo, nem pela energia do seu livre arbítrio, no entanto, como ele, em estado de apostasia e pecado, não é capaz dele e por ele mesmo pensar, desejar, nem mesmo fazer coisa alguma que seja realmente boa (tal como eminentemente é a fé salvadora); mas, que lhe é necessário nascer de novo de Deus em Cristo, por meio do Espírito Santo e, renovar o entendimento, inclinação ou vontade e todos os seus poderes, para que possa entender, pensar, desejar e efetuar corretamente o que é verdadeiramente bom, de acordo com a Palavra de Cristo em João 15:5: “separados de mim, nada podeis fazer.”


Artigo 4
A graça preveniente


Que esta graça de Deus é o princípio, continuidade e alcance de todo o bem, até o ponto em que o homem regenerado, sem a graça preveniente ou assistida, que desperta, continue e coopere, não pode pensar, desejar, nem fazer o bem e muito menos resistir as tentações do mal; de modo que, todas as obras e movimentos que se podem conceber são atribuídas à graça de Deus em Cristo. Mas, acerca do modo de como opera esta graça, não é irresistível, pois, está escrito acerca de muitos que resistiram ao Espírito Santo. Atos 7 e, também, em muitos outros lugares.


Artigo 5
A perseverança condicional

Aqueles que são incorporados em Cristo pela fé verdadeira e com ela se fizeram partícipes de seu Espírito doador da vida, tem por essa razão pode completo para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo e sua própria carne e, obter a vitória; entende-se bem que isto é sempre através da graça da assistência do Espírito Santo; e, que Jesus Cristo sempre os assiste em todas as suas tentações por meio de seu Espírito, estendendo-lhes a sua mão, e, se estão preparados para o conflito e, desejam o seu auxílio, e não estão inativos, [Cristo] os guarda de cair, de modo que, nem pela artimanha ou poder de Satanás, eles não se desviem, nem sejam arrebatados das mãos de Cristo, de acordo com a sua Palavra em João 10:28: “ninguém as arrebata de minha mão.” Mas, se eles são capazes por causa de sua negligência de esquecer dos começos de sua vida em Cristo, de retornar a este presente mundo mal, de apostar-se da sã doutrina que os libertou, de perder a boa consciência, de cair desprovidos da graça, e isto pode-se determinar mais particularmente pelas Santas Escrituras, antes do que ensinemos com a persuasão completa de nossas mentes.

Estes artigos que, afirmam e ensinam, os Remonstrantes considerando estar de acordo com a Palavra de Deus, idôneos para edificar, e apreciando este argumento como suficiente para a salvação, de modo que, eles não são necessários ou edificante para um ascensão mais alta, ou mais inferior.


NOTAS:
[1] Para a tradução dos 5 Artigos Arminianos recorri à tradução inglesa de Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 3, pp. 545-549. Schaff registra em colunas paralelas o texto holandês a partir da primeira edição de 1612, o texto latino da edição de 1616, e numa terceira coluna a sua tradução em inglês. Também revisei a partir de outra tradução de inglês moderno por Peter Y. De Jong, ed., Crisis in the Reformed Churches – Essays in Commemoration of the Great Synod of Dort 1618-1619 (Granville, Reformed Fellowship, Inc., 2008), pp. 243-245. Homer Hoeksema oferece uma tradução do holandês em seu livro The voice of our fathers – an exposition of the Canons of Dordrecht (Grand Rapids, Reformed Free Publishing Association, 1980), pp. 10-14.
[2] Os títulos de cada artigo não fazem parte do texto original, apenas os acrescentei para indicar o seu conteúdo.

04 maio 2012

Resumo: Afeições Religiosas de Jonathan Edwards

Jonathan Edwards (1703-1758) escreveu um tratado com o título The Religious Affections (As Emoções Religiosas). Esta é provavelmente a mais penetrante análise já produzida sobre o assunto da experiência espiritual.

Os títulos dos capítulos, que seguem como citação direta do tratado de Edwards, não apenas revelam o pensamento notável do autor, mas também fornecem um comentário revelador sobre no que consiste a experiência espiritual genuína.


Demonstrando que não há sinais seguros de que as emoções religiosas são verdadeiramente da graça, ou que não sejam, têm-se:

1. Que as emoções religiosas são muito grandes não é sinal
2. Grandes efeitos no corpo não são sinal
3. Fluência e fervor não são sinais
4. Que não são estimulados por nós não é sinal
5. Que vêm com textos da Escritura não é sinal
6. Que há uma aparência de amor não é sinal
7. Que as emoções religiosas são de muitos tipos não é sinal
8. Se a alegria acontece em uma certa ordem não é sinal
9. Muito tempo e muito zelo no dever não são sinal
10. Muita expressão de louvor não é sinal
11. Grande confiança não é sinal seguro
12. Testemunhos comovedores não são sinal


Mostrando quais são os sinais característicos de santas emoções provenientes verdadeiramente da graça, temos:

1. Emoções da graça são de influência divina
2. Seu objetivo é a excelência das coisas divinas
3. São fundadas na excelência moral de objetivos
4. Surgem de iluminação divina
5. São acompanhadas de uma convicção de certeza
6. São acompanhadas de humilhação evangélica
7. São acompanhadas de uma mudança de natureza
8. Geram e promovem o temperamento de Jesus
9. Emoções da graça enternecem o coração
10. Têm linda simetria e proporção
11. Emoções falsas se satisfazem em si mesmas
12. Emoções religiosas têm seus frutos na prática cristã
(i) A prática cristã é o principal sinal para os outros
(ii) A prática cristã é o principal sinal para nós

Resumo extraído de Errol Hulse, O Batismo do Espírito Santo (São José dos Campos: Fiel, 1995), p. 16.

27 abril 2012

A Bíblia como revelação de Deus


Escrito por H. Henry Meeter


Deus possui outro livro além da criação: a Bíblia. No princípio existia somente um livro, uma só revelação de Deus: a natureza. E no mundo vindouro de novo não haverá mais do que um livro: a nova natureza, na qual o homem verá a Deus e a sua vontade revelada. Os redimidos na eternidade, do mesmo que Adão, terão clara revelação da vontade de Deus em seus corações e da natureza que os cerca, e não terão, consequentemente, nenhuma necessidade de uma revelação especial como é a Bíblia.

Há um fato que explica o motivo da necessidade deste segundo livro: a Bíblia, ou revelação especial de Deus; este livro foi necessário por causa do pecado. Quando o homem caiu, tanto ele como a natureza mudou. A mente do homem chegou a entenebrecer-se de tal maneira, que não era capaz de ver as coisas tal como eram; e a natureza se viu alterada como parece deduzir-se da expressão: “produzirá também cardos e abrolhos” que encontramos no livro de Gênesis (Gn 3:18). Contudo, ainda hoje a natureza é um espelho em que se reflete a glória de Deus. Todavia, por causa do pecado pode-se dizer que este espelho esteja deformado. Como é sabido, um espelho torto reflete as coisas de uma forma grotesca e diferente de como realmente são. Como pode o homem agora com sua mente entenebrecida e numa natureza transtornada, descobrir a Deus de modo correto, ou chegar a conhecer a sua verdadeira natureza e propósito de sua existência? Estas se tornam as três perguntas fundamentais que o calvinista terá presente em sua cosmovisão.

Sob tais condições como pode o homem obter uma concepção adequada da realidade? A única solução seria se Deus desse outro livro: a Bíblia. Na Bíblia Deus revela ao homem de uma maneira clara e infalível a verdade sobre estes problemas, iluminando ao mesmo tempo com a luz do Espírito Santo a sua mente entenebrecida para que seja capaz de compreender as verdades bíblicas. Assim, podemos ver a relação que existe entre a Bíblia e o livro da natureza. A Bíblia não está no mesmo nível da natureza como revelação de Deus, senão que é um corretivo das ideias deformadas que possa dar-nos a natureza em seu estado decaído. Apresenta-nos uma revelação sobre Deus e o universo que a natureza não pode proporcionar de maneira adequada. Como disse Calvino, devemos olhar para a natureza através das lentes da Bíblia. Assim, pois, ainda que duas sejam as revelações que Deus deu as suas criaturas, a Bíblia constitui a máxima autoridade para uma cosmovisão. O cristão para interpretar corretamente a natureza e o mundo circundante necessita do enfoque bíblico.

Todavia, a Bíblia é mais do que um mero intérprete da natureza, já que ela contém uma revelação especial para a salvação do pecador. Esta informação tão importante não pode vir da natureza pela simples razão de que a natureza foi criada antes que se abrisse um caminho de salvação aos pecadores. Assim, como poderia a natureza informar-nos sobre isto? Contudo, ainda que a salvação do homem é na realidade o tema central da Bíblia, esta revelação está estreitamente vinculada a visão geral do universo e da vida humana.

Interpretaríamos mal o propósito da Bíblia se crêssemos que se trata de um mero livro de texto sobre diferentes conhecimentos. Não se trata disto. O estudante nos diferentes campos de investigação – natureza, história, psicologia, etc. – acumula evidência. Quando procede a interpretação ou de organizar esta evidência e a relacionar as verdades de alguma ciência em particular numa estrutura geral de conhecimentos, necessitará de interpretação unificadora das Escrituras. Não podemos ter uma concepção correta de Deus, do universo, do homem, ou da história sem a Bíblia.

Consequentemente, este livro além de mostrar-nos o caminho da salvação nos proporciona aqueles princípios que condicionarão toda a nossa vida, incluindo os nossos pensamentos e a nossa conduta moral. Não somente a ciência e a arte, senão que também a nossa vida familiar, os nossos negócios, os nossos problemas políticos e sociais devem estar processados e estruturados à luz e direção das verdades da Escritura.

Isto é assim, inclusive na filosofia. Pode-se supor que pelo fato da filosofia ser a ciência dos princípios, então que a filosofia cristã em última instância terá que fundamentar-se na razão e, tratará de todos os problemas da filosofia sobre uma base puramente racionalista, desprezando a Bíblia como autoridade final. Mas ainda aqui o calvinista não fundamenta a sua aceitação das verdades bíblicas em sua filosofia, pelo contrário, inicia com as verdades básicas da Bíblia para fundamentar a filosofia. A sua filosofia se fundamenta especificamente sobre a revelação. Da mesma maneira que todos os sistemas filosóficos partem de pressuposições básicas não provadas – hipóteses – assim, o cristão parte das verdades da revelação como pressupostos básicos. O proceder do calvinista não consiste em fundamentar a Bíblia na filosofia, senão que estrutura a sua filosofia cristã sobre a Bíblia.

Os princípios de fé e conduta que a Bíblia contém, do mesmo modo que as verdades do caminho da salvação surgem dentro de um contexto histórico vinculado aos acontecimentos dos homens e das nações. Consequentemente não se pode esperar que tudo o que a Bíblia ensina tenha o mesmo valor, e possa ser considerado como norma da vida para nossa conduta. Ela menciona alguns atos que na realidade são totalmente contrários a uma norma da vida padrão como, por exemplo, quando Absalão traiu de forma vergonhosa a seu pai Davi. Outras porções da Escritura contêm normas que não são para todas as épocas, senão que uma vigência específica num período ou ocasião determinada. Assim, Calvino nota que várias das leis civis de Moisés não eram para o nosso tempo, senão que encerram uma significação meramente transitória. Contudo, a Bíblia nos apresenta diretrizes básicas, ou princípios eternos à luz dos quais julga os atos históricos que contém, e nos insta a que também moldemos as nossas vidas. Estes princípios eternos se encontram não somente no Novo como também no Antigo Testamento.

Extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 27-30.

13 abril 2012

Breve histórico da Bíblia de Genebra (1560)


Escrito por Paulo Teixeira e Rudi Zimmer

A Bíblia de Genebra (Novo Testamento – 1557; Bíblia completa – 1560)

Assim como o Novo Testamento de Tyndale, a Bíblia de Genebra também foi uma edição desenvolvida no exílio durante um período de forte perseguição à fé reformada na Inglaterra, verificado especialmente sob o reinado da Rainha Maria, a Sanguinária, que reinou de 1553 a 1558.

Entre os que se viram forçados a deixar a Inglaterra naquela época estava William Whittingham (c. 1524-1579), cunhado de João Calvino. Whittingham e mais alguns teólogos refugiaram-se em Genebra, na Suíça, e ali produziram uma tradução de toda a Bíblia para o inglês, baseada no latim, mas consultando sempre os textos em hebraico e grego. O Novo Testamento foi lançado em 1557 e a Bíblia toda em 1560. Em 1599, a Bíblia de Genebra já estava disponível, ao menos em parte, também em francês.

A Bíblia de Genebra em inglês tornou-se muito popular. Cerca de duzentas edições foram publicadas entre 1560 e 1630. Logo na primeira edição, os livros apócrifos ou deuterocanônicos foram separados dos restantes livros do Antigo Testamento e receberam prefácios especiais. Apenas décadas depois a Bíblia de Genebra começou a ser impressa sem os apócrifos.

A Bíblia de Genebra foi a tradução inglesa mais usada por cerca de 100 anos, desde seu lançamento em 1560 até meados do século seguinte. Foi usada (e citada) por William Shakespeare, John Bunyan, John Milton, e trechos selecionados dela compuseram a famosa Bíblia de Bolso (1643) carregada pelos soldados do exército de Oliver Cromwell. A Bíblia de Genebra foi também a Bíblia trazida para os Estados Unidos pelos peregrinos.

Na história das versões inglesas, a Bíblia de Genebra é importante, pelo menos, por três razões:
1. A Bíblia de Genebra foi a primeira Bíblia inglesa a adotar a divisão do texto em versículos. [A divisão do Antigo Testamento em versículos surgiu por volta de 1440, por obra do rabino Isaque Nathan, que planejava elaborar uma concordância da Bíblia Hebraica. A divisão do Novo Testamento coube a Robert Stephanus (ou Estienne), que publicou uma edição bilíngue (grega e latina) do Novo Testamento em 1551.]
2. Foi a primeira Bíblia a usar o tipo de letra romano, muito mais fácil de ler do que a letra gótica;
3. Foi a primeira Bíblia a usar letra itálica para aquelas palavras que os tradutores precisaram usar para tornar claras as frases em inglês, mas que não estavam nas línguas originais.

Além disso, era uma Bíblia com um formato menor, muito mais leve que as outras e com preço muito acessível.

O prefácio e as notas interpretativas tiveram uma influência evangélica muito forte, principalmente da parte dos escritos de João Calvino. Foi a primeira Bíblia que não atribuiu a Epístola aos Hebreus a Paulo, o que testifica a alta qualidade acadêmica de seus editores.

A Bíblia de Genebra de 1560 inspirou, em nossos dias, a edição da Bíblia de Estudo de Genebra, cujas notas interpretativas, em número muito superior à da edição de 1560, seguem a orientação calvinista.

Extraído do Manual do Seminário de Ciências Bíblicas (Baureri, Sociedade Bíblica do Brasil, 2008).

06 abril 2012

A cultura numa perspectiva cristã reformada

Escrito por Leland Ryken


A cultura consiste nas instituições, tecnologias, arte, costumes e pautas sociais que se desenvolvem numa sociedade. A cultura é o contexto dentro do qual toda pessoa vive inevitavelmente a sua vida cotidiana.

O problema de “Cristo e cultura” somente se entende como a relação entre os cristãos e a cultura em que vivem. Mas esta ênfase obscurece uma importante questão: inclusive quando os cristãos rejeitam a cultura que os cerca, esta continua sendo o meio de sua existência, enquanto criam uma subcultura cristã. O Cristianismo acultural não existe.


AS POSTURAS HISTÓRICAS

O clássico livro de H. Richard Niebuhr com o título Christ and Culture[1] relata as cinco atitudes que os cristãos adotam historicamente frente à questão da cultura. Tanto na história como na vida individual do cristão, não existe uma resposta única frente à cultura.

A postura mais radical sustenta que Cristo está contra a cultura. Aqui se entende a cultura como um elemento hostil ao Cristianismo, tanto em teoria como na prática. Independentemente da sociedade em que se encontrem imersos os cristãos, são chamados a opor-se aos costumes e traços desta. A entrega a Cristo requer uma decisão entre ambas as coisas.

Uma segunda postura é a atitude de ver a Cristo na cultura, que permite a harmonia fundamental entre Cristo e a cultura. O próprio Cristo é considerado como um herói supremo da cultura. A sua vida e ensino é o maior benefício humano da história. Portanto, os seguidores de Cristo podem confiar que a cultural é essencialmente congruente com os seus próprios ideais, e não tem porque renunciar àquela em que se estão imersos.

Uma terceira possibilidade é a de que Cristo está por cima da cultura. Esta postura de síntese afirma tanto a Cristo como a cultura, mas mantendo a distinção entre eles. Cristo é algo mais que um simples herói cultural. Ele é superior e maior que a cultural e digno de uma fidelidade maior. Ma a cultura também exige a participação cristã. Como cidadãos de dois reinos, os cristãos podem viver com uma consciência limpa em ambos os mundos, do mesmo modo que fez Jesus, o Deus Homem.

Em quarto lugar, os teólogos como o apóstolo Paulo, ou Lutero enfatizaram a Cristo e a cultura de mundo paradoxo. Esta postura se baseia na dualidade que aceita a autoridade tanto de Cristo como da cultura. Consequentemente, os cristãos vivem experimentando uma desagradável tensão, tentando satisfazer as exigências de ambas autoridades, e desejando uma salvação eventual e meta-histórica que resolva essa situação.

Por último, se pode entender a Cristo como o transformador da cultura. A tradição de Agostinho e Calvino afirma que, considerando a condição da queda da cultura humana, o compromisso com Cristo permite à pessoa converter a cultura num objetivo santo. Devido ao fato de que Cristo converte as pessoas e as instituições sociais, os cristãos podem seguir com a obra de Deus mediante as suas atividades culturais ordinárias.


FUNDAMENTOS DOUTRINÁRIOS

O respaldo cristão da cultura começa com a doutrina da criação. Isto obriga aos cristãos a reivindicar o mundo para Deus, e fomenta a sua ira ao ver o grau em que o mundo de Deus foi dominado por Satanás e o mal. Os cristãos têm um chamado criacional e outro missionário.

Uma segunda doutrina chave é a Queda e o mal consequente que incide na natureza humana e as instituições sociais. Para um cristão a cultura é sempre uma prova, com tendências para a depravação (se bem que com mais em certas épocas e lugares que em outros). Como tudo o mais dentro de um mundo caído a cultura possui uma tendência permanente de cruzar a linha entre o bem e o mal.

Todavia, a Bíblia não localiza o mal em algumas formas externas per si. O mundo e a cultura humana são capazes de ser usados bem ou mal. O abuso que se faz de algo, não o invalida. O resultado é a necessidade da responsabilidade moral na busca da cultura.

O aforismo de Cristo que ordenou aos seus seguidores a “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21), resume o tema bíblico que diz que as instituições da sociedade formam parte do design que Deus fez da vida humana e, como tal são dignas de sua sinceridade legítima. Mas no centro do Cristianismo achamos a convicção de que o “que é de Deus” merece um maior respeito que o que é de César. A cultura é sempre um bem secundário.

A doutrina da vocação (crença de que Deus chama as pessoas para desempenhar trabalhos específicos e lhes concede a capacidade necessária para realizá-las) contribui igualmente para a afirmação cristã da cultura. A Bíblia aceita como fato (por exemplo: Gn 4:20-22) que Deus chama a certas pessoas a serem agricultores, outros para serem músicos, outras a serem arquitetos, chamamentos que todos eles tem conexões culturais.

A convicção cristã de que para uma pessoa redimida toda a vida pertence a Deus permanece resumida na frase do NT que diz: “assim, pois, quer comais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10:31). Para um cristão, inclusive o projeto cultural mais corrente pode formar parte de uma vida centrada em Deus.


NOTA:
[1] H. Richard Niebuhr, Christ and Culture (New York, 1951).

Extraído de David J. Atkinson & David H. Field, orgs., Diccionario de ética Cristiana y teologia pastoral (Terrassa, CLIE, 2004), pp. 403-405.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
6 de Abril de 2012.

29 março 2012

Hendrikus Berkhof

Escrito por Juan Bosch Navarro

Foi um teólogo reformado holandês, nascido 11 de Junho de 1914, em Appeldorn, e faleceu em 17 de Dezembro de 1995 em Leiderdorp. Originário de uma família reformada com traços marcadamente confessionais. Entre 1925 a 1930 cursou no Instituto Reformado de Amsterdam. Após um ano de estudos teológicos na Universidade de Amsterdam, estuda teologia em Leiden. Interessado em especial pela história da Igreja e os seus dogmas. Pregador em Lemele (Overijsel) em 1938. Graduou-se com a tese titulada “A Teologia de Eusébio de Cesaréia” (1939), sob a direção de J.N. Bakhuizen van der Brink. Após contrair matrimônio com Cornelia van den Berg, em 1941, viu-se comprometido com várias atividades de ocupação. Nesse período começou a escrever a sua primeira investigação, que haveria de atrair a atenção dos círculos eclesiásticos durante anos: A História da Igreja (De Geschiedenis der Kerk). Foi nomeado pregador em Zeist (1940-1950). Terminada a Guerra europeia ingressa como docente em Driebergen, centro de renovação da Igreja Reformada Holandesa. Fundador e Reitor do Seminário de Driebergen (1950), cuja finalidade seria conciliar as diversas “tendências” da Igreja Reformada Holandesa. Delegado de sua Igreja na Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas em Amsterdam (1948), do qual será membro do seu Comitê Central durante vários anos (1954-1974). Professor de Teologia Dogmática e Bíblica na Faculdade de Teologia de Leiden (desde 1960). Diretor do Conselho Holandês de Igrejas (1974).

Hendrikus Berkhof foi um dos teólogos mais influentes na tradição calvinista do século XX. A partir de sua tese de doutorado sobre Eusébio de Cesaréia evidencia-se a sua orientação dogmática. A sua postura teológica define-se como a de uma teologia reformada ortodoxa, fortemente influenciada por Karl Barth e, orientada para a ética social. Durante uma breve temporada como estudante em Berlim, demonstra apreço pela Igreja Confessante na Alemanha, comparando a luta liderada por Atanásio ao defender a doutrina trinitária no século IV, com a luta da Igreja Confessante a favor do Evangelho e contra o Nacional Socialismo alemão. Em sua obra A História da Igreja (De Geschiedenis der Kerk) procura não somente descrever, senão que também avaliar o desenvolvimento da teologia cristã. Com ela adquire grande acolhida nos círculos protestantes ortodoxos, mas também desperta certa animosidade entre o protestantismo liberal, que encontra demasiado enfoque dogmático. Da época da guerra data a sua obra A Igreja e o Kaiser (De Kerk en de Keizer), sobre a relação entre a Igreja e o Estado no século IV com claros precedentes para a atual situação. A orientação social de Berkhof como teólogo se faz cada vez mais patente, aceitando que a fé ortodoxa outorga forças renovadoras para a sociedade.

Berkhof intencionou com a fundação do Seminário de Driebergen levar a cabo a aproximação das diferentes tendências doutrinárias dentro do calvinismo, sempre buscando a complementação. Deste período destacam-se duas publicações de grande influência: A crise da ortodoxia moderada (De Crisis der Midderorthodoxie) e Cristo e os poderes (Christus em de machten)[1]. Na primeira se mostra crítico com teologia barthiana. No segundo livro deixa transparecer, uma vez mais, o compromisso de Berkhof pelo ético e o social: a fé em Cristo não somente deve animar a vida do indivíduo, como também a vida da sociedade. Coerentemente, em seu Christus de zin der geschiedenis (Cristo o sentido da história), publicado em 1958, intenta unir duas linhas centrais do seu pensamento, a fé ortodoxa e o seu compromisso com a sociedade: Cristo preenche a sociedade em seu padecimento e na superação do padecimento através da ressurreição. A sua ativa participação nas atividades ecumênicas – seria membro do Comitê Central do Conselho Ecumênico das Igrejas durante vários anos – amplia a sua visão teológica e lhe ajuda a reconciliar distintas tendências.

A década de sessenta sacudiria o pensamento teológico em todo o mundo, o que suporia inclusive para Berkhof relegar em segundo plano a relevância dos aspectos puramente especulativos da teologia e incorporar as ciências humanas na educação teológica. Isto significaria um lento passo evolutivo do clássico calvinismo ortodoxo rumo a um calvinismo ecumênico. É perceptível esta evolução em sua visão dos antigos dogmas da igreja sobre a Trindade, a cristologia e a doutrina da graça. Berkhof gozava, até começo da década de sessenta, de grande confiança entre a maioria ortodoxa de sua Igreja. Isto era devido ao surgimento de sua História da Igreja, onde demonstrou sempre ser um fiel defensor dos pontos de vista ortodoxos. Mas lentamente sua visão de alguns temas centrais, como o da doutrina trinitária, estava evoluindo e se afastava gradativamente da ortodoxia comumente aceita. Nos anos sessenta, Berkhof critica pela primeira vez, em forma expressa, o dogma trinitário em sua obra La doctrina del Espiritu Santo.[2] Apesar de tudo, jamais romperia com os laços da tradição, mas buscou indagar cada vez mais a tradição reformada de maneira crítica. A mudança que se adverte em seu pensamento dá lugar a que seus seguidores dentro da Igreja perdessem a confiança nele e a partir de então, tivesse melhor acolhida entre a minoria progressista.

Também foi Berkhof docente de Teologia Bíblica. A exegese bíblica havia se distanciado desde meados dos anos sessenta das típicas questões teológicas, tornando-se mais histórico-analítica, o que significaria um desafio para a dogmática. Na realidade desde o início cria que a própria Escritura pressupunha uma crítica da dogmática. A sua evolução dogmática se explica pela sua leitura da Bíblia.

A trajetória teológica de Berkhof não conclui, todavia, com a jubilação da docência acadêmica. Os frutos seriam recolhidos durante os próximos dez anos. Em 1985 apareceu a quinta edição de sua Christelijke Geloof[3] e seu novo livro 200 Jahre Theologíe Ein Reisebericht.[4] Na nova edição sobre a doutrina da fé, Berkhof repensa a evolução teológica dos dez anos anteriores e responde às críticas às quais haviam se submetido a sua obra a partir de diversas frentes. “A essência do livro, todavia, permanecia praticamente incólume.” É notório a sua mudança frente à chamada “teologia do processo”, cuja premissa não é que Deus está em perpétuo movimento, motivo que deseja incorporar à humanidade, senão que Deus em si evolui, visão na qual Deus também vem à existência pela humanidade. “Isto, segundo Berkhof, disputa com o pensamento básico da crença cristã no sentido de que Deus em sua soberana liberdade efetua a relação com os homens e realiza o mundo” (E.P. Meijering). Em 200 anos de Teologia é visível a mudança de Berkhof em sua forma de entender a teologia. Se no livro História da Igreja havia enfaticamente insistido que o desenvolvimento da teologia a partir do Iluminismo fora um grave erro e, era função da dogmática do século XX voltar ao essencial da Reforma, em 200 anos de Teologia mostra como a humanidade ao longo dos últimos dois séculos havia se esforçado pra precisamente obter isto. Retifica aqui o seu juízo anterior em torno dos teólogos críticos, mas equilibrado como era, Berkhof tratou também de fazer justiça aos teólogos desse período da história da Igreja, considerados como conservadores e confessionais.[5]

Berkhof é lembrado em ambientes calvinistas como crente, como pregador e como teólogo da sociedade num mundo em mudança a quem observou com assombrosa sensibilidade cristã.[6]

NOTAS:
[1] Este livro foi traduzido e publicado em espanhol. Veja* Hendrikus Berkhof, Cristo y los poderes (Grand Rapids, T.E.L.L., 1985). Nota do tradutor.
[2] Este livro foi traduzido e publicado em espanhol. Veja* Hendrikus Berkhof, La doctrina del Espiritu Santo (Buenos Aires, Editorial La Aurora, 1964). Nota do tradutor.
[3]Christelijke Geloof [A Fé Cristã]. Há a tradução em inglês como Hendrikus Berkhof, Christian Faith – An introduction to the study of the faith (Wm. Eerdmans Publishing Co., ed. rev., 1990). Nota do tradutor.
[4] 200 Jahre Theologie: Ein Reisebericht [200 anos de Teologia: Relação de um trajeto pessoal]. Nota do tradutor.
[5] Uma obra omitida pelo articulista, mas de importância para se avaliar a evolução final do pensamento de Berkhof é o seu livro Introduction to the study of dogmatics (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 1985) originalmente publicado em holandês em 1982. O autor nele apresenta em resumo as premissas e a metodologia e uma síntese de sua teologia comprometidamente com a neo-ortodoxia barthiana. Nota do tradutor.
[6] Por causa do seu distanciamento da histórica ortodoxia calvinista Hendrikus Berkhof dificilmente seria avaliado com tanta simpatia. Ele se manteve dentro da tradição reformada, mas não era confessionalmente comprometido com a teologia, nem subscrevia estritamente as confissões reformadas. Nota do tradutor.

Extraído de Juan Bosch Navarro, Diccionario de teólogos/as contemporáneos (Burgos, Editorial Monte Carmelo, 2004), pp. 124-126.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

14 março 2012

O princípio básico do Calvinismo

Escrito por H. Henry Meeter

Todo sistema unificado de pensamento é regido por um, ou vários princípios fundamentais que lhe são inerentes. Também é assim com o calvinismo. No princípio do século XX eruditos de diferentes escolas de opinião estudaram profundamente o gênio do movimento calvinista.[1] Entre estes houve alguns que nem chegaram a prever uma unidade orgânica de sistema e se contentaram tão somente em descobrir uma parcela do mesmo; assim, pois, chegaram a caracterizar ao calvinismo como um sistema religioso cuja característica era o espírito da democracia e a ânsia pela liberdade. Chegou a pensar-se que este sentir provinha do amor pela liberdade tão notável no povo suíço. Outros, cuja atenção centrou-se nos aspectos legais do movimento, assim como na nota de sua autoridade, fizeram disto a nota distintiva e a atribuíram à formação que Calvino recebeu como advogado. Outros creram ver o traço distintivo do calvinismo na maravilhosa ordem e sistematização que como pensamento ordenado ele exibe. Isto atribuí-se ao temperamento francês de Calvino que, como o mais famoso dos franceses, dizem que possuía uma assombrosa habilidade de ordenar e organizar fatos em um vasto sistema. Outros creem que o diferencial calvinista constituiu sua ruptura total com o escolasticismo da Idade Média, considerando assim a Calvino como um avançado liberal religioso de seu tempo. Essa característica foi atribuída à formação humanista que recebeu em sua juventude.

Enquanto estas apreciações contém certa verdade e assinalam algumas facetas distintivas do sistema, nenhuma delas, de per si, merece a distinção de ser considerada a característica predominante do calvinismo e muito menos o seu princípio básico. William Hastie chama a estas apreciações de “conjecturas de pensadores geniosos insuficientemente familiarizados com as condições do problema e cujas conclusões não se deveram a um exame completo e exaustivo das informações disponíveis.”[2] Aqueles que tiverem realizado um estudo exaustivo do problema, coincidirão com R. Seeberg ao dizer que “este francês de educação humanista era, acima de tudo, um cristão evangélico, e toda a sua concepção do mundo, de fato, era determinada pelo seu espírito evangélico.”[3]

O princípio básico radica precisamente na esfera das doutrinas evangélicas dos calvinistas, e nestas doutrinas concebidas, não como meras abstrações, senão como verdades vitais que chegam e condicionam tudo em suas vidas. Podemos afirmar, sem lugar para dúvidas, que o princípio básico concerne e se concentra na doutrina de Deus. Por mais científicas que sejam as descrições que os investigadores nos deem do princípio básico do calvinismo, num ponto todos coincidem com o filósofo W. Dilthey quando disse que o enfoque teológico é característico de todo o movimento calvinista em seus primeiros cento e cinquenta anos, e que durante todo este tempo o calvinista coloca em Deus o centro de seus pensamentos.[4] Um exame das confissões calvinistas, especialmente aquelas da primeira época da Reforma, apresenta ampla evidência sobre o particular.[5]

O pensamento central do calvinismo é, consequentemente, o pensamento de Deus. Como alguém pode notar, assim como o metodista põe em primeiro plano a ideia da salvação do pecador, e o batista o mistério da regeneração, e o luterano a justificação pela fé, e o morávio as feridas de Cristo, e o católico grego ortodoxo o misticismo do Espírito Santo e o romanista a catolicidade da Igreja, assim também o calvinista sempre coloca em primeiro plano o pensamento de Deus.[6] O calvinista não parte de certos interesses sobre o homem – por exemplo, a sua conversão, ou a sua justificação - , senão que o pensamento condicionante é sempre este: dar a Deus os seus direitos; procura levar a termo, como conceito regulador de sua vida, aquela verdade da Escritura que diz: “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre.”[7]

Sobre este ponto há ampla unanimidade entre os investigadores do calvinismo. Somente quando se trata de expressar esta ideia numa fórmula específica, surge o desacordo. Alguns sugerem que o atributo da existência própria de Deus (aseitas) – como o atributo mais fundamental que possamos afirmar acerca de Deus -, poderia considerar-se como o princípio fundamental do calvinismo. É duvidoso, todavia, que possamos expressar assim princípio básico já que não é algo em Deus – algum atributo específico de seu Ser – que vem a constituir o fundamento do sistema, senão o próprio Deus. Ademais, o termo “existência de per si”, exclui, ao menos diretamente, toda a relação de Deus com o mundo; relação que é necessária para expressar o princípio formativo da concepção calvinista do mundo. Deus existiria por si, ainda no caso de que não existisse mundo. Deve-se, pois, buscar outra expressão para indicar a relação que Deus mantém com o universo criado. Os termos que melhor parecem indicar esta relação são os da frase: a absoluta soberania de Deus; e, que na frase ainda mais específica se expressaria assim: a absoluta soberania de Deus nas esferas natural e moral.

Para não cair em concepções errôneas é conveniente entender bem em que sentido se usa esta frase: a soberania de Deus. Na mente de uma pessoa comum a frase parece suscitar a ideia de que para o calvinista Deus não é mais que um governante, ou senhor do mundo que promulga leis para criaturas – independentemente de seus atributos de amor e graça. Não deve surpreender-nos que A. Ritschl, entre outros eruditos, tenha interpretado assim o princípio calvinista da soberania de Deus, e o tenha considerado inadequado para expressar o princípio básico para a religião – que deve estruturar-se sobre a ideia do amor de Deus. Todavia, nenhum bom calvinista subscreveria uma concepção tão limitada da soberania de Deus. A soberania, mais do que um atributo, é concebido como uma prerrogativa de Deus. O que o calvinista quer dar a entender quando fala da soberania de Deus, é muito mais amplo que a mera ideia de que Deus é o Ser que promulga e sustenta as leis físicas e morais do universo. Deus não é somente o Supremo Legislador e Promulgador da lei, senão que também é o Supremo nas esferas da verdade, da ciência e da arte – tanto como é na esfera moral, na manifestação de seu amor e sua graça e todos os seus benefícios, e na revelação das leis para a conduta humana e nas que operam na natureza. O calvinista crê que Deus não procede arbitrariamente na distribuição dos seus dons, nem no controle providencial sobre o homem e da natureza. A ordem é a primeira lei do céu. As esferas da verdade e do amor, o plano científico e moral, do mesmo modo que no mundo e na natureza, estão sujeitos a uma lei e a uma ordem. Assim, pois, o calvinista descobre no universo criado por Deus e sustentado por sua providência um sistema maravilhoso de leis harmônicas e ordenadas. O calvinismo é um sistema que abrange o todo; é um sistema em que tudo procede e é determinado por Deus. Nesta distribuição e administração de todas as coisas, Deus permanece supremo: “dEle, e por Ele, e para Ele e para Ele são todas as coisas.”

Quando o termo soberania de Deus é corretamente entendido, não como uma frase meramente legalista, como se Deus fosse tão somente o Supremo Legislador e Criador das leis da natureza, senão no sentido mais rico que temos descrito, nada há que impeça que usemos o termo para indicar o princípio básico do calvinismo. Entendido assim, parece ser que este é precisamente o termo mais indicado para designar a absoluta supremacia de Deus em todas as coisas e, consequentemente, o termo apropriado quando se trata de estruturar um sistema no qual Deus seja o centro de tudo. O grande calvinista B.B. Warfield escreveu: “de tudo isto se desprende o princípio formativo do calvinismo. O calvinista é o homem que vê a Deus detrás de todo fenômeno, e em tudo o que acontece reconhece a mão de Deus operando a sua vontade; o calvinista, em todas as atividades de sua vida, adota uma atitude permanente de oração: o calvinista se entrega completamente à graça de Deus e exclui qualquer traço de autossuficiência em toda a obra da salvação.”[8]

Em outro lugar, o mesmo autor afirma que o princípio básico do calvinismo “há que buscá-lo numa profunda apreensão de Deus em toda a sua majestade; compreensão que necessariamente há de levar a um conhecimento exato da amarga realidade da nossa relação de criaturas e, em particular, da nossa relação como criaturas pecadoras ... . O calvinista é o homem que vê a Deus; e tendo visto a Deus em sua glória, por uma parte, experimenta um sentimento de indignidade para comparecer diante dEle como criatura e muito mais como pecador e, por outro lado, o calvinista está cheio do assombro reverente de que, apesar de tudo, Deus recebe aos pecadores. Aquele que sem reservas crer em Deus e, está convencido de que Deus será o seu Deus em todo o seu pensamento, sentimento e vontade – em toda a ampla gama de suas atividades intelectuais, morais e espirituais - e, através de todas as suas relações individuais, sociais e religiosas, é por força da lógica mais estrita um calvinista.”[9]

NOTAS:
[1] Para uma visão da literatura que existe sobre o tema consulte: The Theology of the Reformed Church in its Fundamental Principles (Edimburg, 1904); H. Voigt, Fundamental Dogmatik (Gothal, 1874); H. Bauke, Die Probleme der Theologie Calvins (Alfred Topelmann, Giessen, 1910); H.H. Meeter, The Fundamental Principle of Calvinism (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1930).
[2] W. Hastie, The Theology of the Reformed Church in its Fundamental Principles (Edinburgh, 1904), p. 142.
[3] Reinhold Seeberg, Lehrbuch der Dogmengeschichte, vol. 2, pp. 558-559. Deve-se levar em conta que o termo evangélico é usado aqui num sentido de compromisso com o evangelho, e não como o é usado em suas diferentes nuanças no contexto europeu, norte-americano ou latino. Nota do tradutor.
[4] W. Dilthey, Die Glaubenslehre der Reformation in Preuss, Jahrb. 1887, p. 80. H. Bauke, op. cit., p. 26.
[5] H.H. Meeter, The Fundamental Principle of Calvinism (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 1930), pp. 51-55.
[6] Mason W. Pressly, Calvinism and Science, artigo em Ev. Repertoire, 1891, p. 662.
[7] Rm 11:36.
[8] B.B. Warfield, Calvin as a Theologian and Calvinism Today em Presbyterian Board of Publication, Philadelphia, 1909, pp. 23-24.
[9] B.B. Warfield, op.cit., pp. 22-23.

Extraído de H. Henry Meeter, La Iglesia y el Estado (Grand Rapids, TELL, 1963), pp. 13-18. Originalmente escrito em inglês sob o título de THE BASIC IDEAS OF CALVINISM.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

07 março 2012

O discipulado e a igreja local

O discipulado não é uma atividade em que somente os membros estão comprometidos. Os presbíteros docentes e regentes são chamados para liderar a igreja local, e neste processo de cuidar abrange o acompanhar o rebanho em suas necessidades:
1. Visitar os membros que necessitam de assistência.
2. Resolver os desentendimentos entre os membros.
3. Instar aos disciplinados no sincero arrependimento.
4. Orar por/com todas as famílias da igreja.
5. Consolar os aflitos e necessitados.
6. Ser um pacificador em assuntos controversos.
7. Lembrar aos membros da sua fidelidade ao Senhor Deus.
8. Supervisionar o bom andamento das atividades da igreja.

Além dessas atribuições a liderança deve supervisionar a atividade de discipulado dentro da igreja local. Vimos nesse programa que os princípios transmitidos aos discipuladores são também apresentados aos novos convertidos. A convicção favorece a sequência de toda uma estrutura de discipulado. Em primeiro lugar teremos um grupo de discipuladores formados, porém, o primeiro grupo de novos convertidos formados depois destes, já serão discipulados dentro desta visão, e se engajarão no programa como discipuladores. O objetivo é termo uma igreja discipuladora e não apenas um programa de discipulado. Assim, podemos resumidamente listá-los:

1. Formar discípulos com uma cosmovisão cristã. Treinamos o pensamento com premissas bíblicas. Ensinamos que em todas as esferas de sua vida estamos sob o senhorio de Jesus Cristo e, que devemos viver confiantemente.

2. Apresentar o evangelho aplicado para que vivamos relacionamentos saudáveis. O evangelho precisa estar doutrinariamente claro no entendimento de quem ensina, não há outro evangelho (Gl 1:6-9), nem mesmo se pode ensiná-lo com preferências pessoais, excluindo ou adicionando nele o que não procede da Escritura, nem por ela pode ser claramente provado (At 20:25-31; Ap 22:18-19).

3. Integramos do novo convertido nos relacionamentos e estrutura da igreja local. Transformado pela graça de Deus, o novo convertido torna-se membro da Igreja de Cristo e precisa ser preparado para o batismo, treinado para atuar com os seus dons e testemunhar do evangelho em todas as áreas da sociedade.

4. Acompanhamos o crescimento espiritual do novo convertido rumo à maturidade cristã. O modelo de cristãos que queremos formar aponta para a conformidade de Cristo (Rm 8:29).

O Conselho convicto desta ordenança de Cristo precisa estruturar a igreja de modo que facilite a relação de discipulado. Com isto em mente apresento o esboço de uma estruturada para prover uma igreja discipuladora.

I. CURSO PARA FORMAÇÃO DE DISCIPULADORES
A formação de qualquer projeto começa com treinamento. Embora o discipulado aparentemente se configure como um projeto, na realidade ele se delineia por princípios de formação. O discipulado não é apenas um programa, embora ele mantenha uma estrutura como já vimos até aqui. Como parte de sua identidade a liderança local necessita desafiar e, através do ensino bíblico apresentar a responsabilidade da igreja ser discipuladora.

O treinamento inicial de discipuladores que será motivado não pelo método, mas por princípios bíblicos da natureza do discipulado. Obviamente o método do como fazer é indispensável, mas não é o método que produzirá resultados, não é ele que em si é o cumprimento da comissão do Senhor Jesus. Por isso, qualquer tentativa de treinamento onde o claro entendimento da natureza essencial do que é o discipulado resultará no fracasso do método.

II. COORDENAÇÃO DOS DISCIPULADORES
Após o treinamento dos discipuladores eles devem ser coordenados para captarem os “discípulos em potencial”. Embora, por convicção, cada discipulador poderá ter a iniciativa de selecionar quem ele discipulará, enquanto organismo vivo, a igreja local precisa estruturar-se para viver o discipulado. Os supervisores poderão ser o pastor, os presbíteros ou membros designados pelo conselho da igreja local.

A função destes coordenadores é de fazer a ponte entre discipuladores e discípulos em potencial identificados no convívio da igreja local. A coordenação visando à escolha de um discipulador que melhor se identifique, ou que tenha disponibilidade e assim se estabeleça um vínculo de confiança entre discipulador e discípulo. Listo os seguintes casos:

1. Os filhos dos membros que também desejam se tornar membros comungantes da igreja local. Os pais poderão procurar o pastor, ou os coordenadores e manifestar o desejo de seus filhos que serão conduzidos ao discipulado.

2. Os coordenadores ou discipuladores ao identificar os visitantes assíduos deverão cuidar para que sejam procurados, antes ou após os cultos, e sejam abordados com a proposta de iniciarem um discipulado.

3. Deverão ser discipulados os novos convertidos que estão no convívio da igreja. Quem tomará a iniciativa de propor o discipulado para eles serão os coordenadores, embora os discipuladores mais atentos também o podem se oferecer para acompanhá-los.

4. Os membros vindos de outras comunidades evangélicas também deverão ser discipulados. Torna-se necessário este acompanhamento, tanto pelo motivo de integrá-los efetivamente na igreja, bem como visando esclarecer-lhes a identidade doutrinária da IPB. Assim, aquele que congrega na intenção de transferir-se para a igreja local, em seus primeiros momentos de convívio, ele será assistido por um membro maduro e convicto da confessionalidade reformada que o esclarecerá sobre a história, doutrina, disciplina, governo da nossa igreja.

5. Mesmo os casos de discipuladores que desenvolvem o estudo acompanhado com pessoas que não têm convívio com a igreja local precisam notificar o coordenar para que ele possa verificar a disponibilidade e não sobrecarregar alguns, enquanto outros se encontram disponíveis, ou ociosos.

III. ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL FORMATIVA
Todos os cristãos independentemente do estágio de maturação que atingiu sempre será um discípulo. Ele carecerá sempre de aprendizado contínuo. Certamente esse convívio com a estrutura de educação cristã da igreja local avançará a integração, o crescimento, e consequentemente a maturação de todos os membros comprometidos com a Escola Bíblica Dominical.

A Escola Bíblica Dominical é um indispensável recurso como parte do treinamento contínuo de discipulado. Entretanto, o modelo convencional de Escola Dominical que apresenta lições aleatórias, sem propor um currículo com um objetivo definido, e sem um alvo claramente direcionado, em geral, torna-se numa instituição que não usa todo o seu potencial educacional.

A proposta de uma Escola Bíblica Dominical Formativa intenciona oferecer cursos de treinamento para os membros da igreja local. Em vez, de se adotar revistas que sigam um currículo temático pronto, os professores são desafiados a preparar cursos para ser aplicados no decurso de um ano. Estes professores serão incentivados a adquirir literatura específica para que se especialize naquela área de estudo. Obviamente o pastor, como presbítero docente, terá a responsabilidade de treinar, orientar na preparação do plano de aulas, indicar a literatura básica e confiável, bem como coordenar a aquisição de textos, ou livros de identidade reformada.

O currículo da EBDF será formado a partir do objetivo de equipar os alunos com o conhecimento necessário em áreas cruciais para a maturação da vida cristã. Algumas sugestões de cursos para a Escola Bíblica Dominical Formativa:
1. Curso de Panorama de Antigo Testamento
2. Curso de Panorama de Novo Testamento
3. Curso de Panorama de História da Igreja Cristã
4. Curso Dons e Ministérios do Corpo de Cristo
5. Curso de Cosmovisão Cristã
6. Curso das Confissões Reformadas
7. Curso de Ética dos Dez Mandamentos
8. Curso dos Credos e das Confissões Reformadas
9. Curso de Lar Cristão

IV. CURSOS PARA TREINAMENTO DE LIDERANÇA
Como parte de sua identidade de igreja discipuladora serão oferecidos cursos de treinamento de liderança. Tanto os novos convertidos ou os membros maduros além do discipulado acompanhado pelo qual passaram, a sua assiduidade nos cultos de doutrina durante a semana, a sua participação como aluno de um dos cursos da Escola Bíblica Dominical Formativa, e mesmo participando dos cultos, ainda terão à sua disposição alguns cursos para liderança.

Estes cursos podem ser oferecidos em módulos que funcionarão no decorrer da semana, ou em finais de semana, dependendo da disponibilidade dos interessados. A proposta é dispor de um instrumento de ensino que facilite aos que interessam em aprender o que não seria ensinado de modo sistemático, num curto espaço de tempo e com didática direcionada.

29 fevereiro 2012

Presbíteros como defensores da fé cristã

A liderança da igreja local carece engajar na proteção os seus membros, e em especial os adolescentes e jovens, dos ataques do secularismo intelectual. Nos colégios e faculdades a fé cristã é questionada a sua credibilidade com argumentação inteligente e, ao mesmo tempo as instituições de ensino, quer estatais ou privadas, estão comprometidas com filosofias anticristãs altamente hostis ao Cristianismo. William L. Graig constata que
adolescentes cristãos são atacados intelectualmente por todas as formas de filosofias não cristãs, unidas com um relativismo avassalador. Sempre que falo em igrejas ao redor do país, constantemente me encontro com pais cujos filhos perderam a sua fé porque não havia ninguém na igreja para responder às suas perguntas.[1]

Os presbíteros docentes como regentes são responsáveis de preparar a igreja para dar razão da sua fé. Obviamente este dever pode ser realizado pela pregação ou pelo ensino exercido por eles, ou em realizar conferências especiais, trazendo especialistas para que possam instruir a igreja local. Entretanto, eles não podem negligenciar o estudo pessoal e precisam equipar-se de conhecimento apologético para assegurar aos membros a veracidade da fé cristã. Não se pode ignorar que a dúvida tem o seu papel saudável no crescimento de qualquer pessoa, entretanto, a partir do momento que ela é erroneamente respondida, ela corre o risco em converter-se em incredulidade. William L. Graig observa que “podemos desafiar as pessoas a pensarem a fé de forma mais profunda e rigorosa sem encorajá-los a duvidar de sua fé.”[2] Duvidar enquanto processo de pensar e entender a fé pode ser algo até necessário e salutar, entretanto, questionar a veracidade e desprezar a sua procedência divina é o caminho para o ateísmo. Enquanto que a intelectualidade não cristã desafia o conteúdo, a historicidade e a validade da fé, os presbíteros precisam desafiar a reflexão e edificação a fé (At 20:28-30).

Ser presbítero não é um trabalho para covardes. Aqueles que são chamados para expor o Evangelho encontrarão diante de si lobos travestidos de ovelhas, assassinos da verdade, hipócritas, falsos mestres, profetas da mentira, gananciosos mercenários, homens que distorcem o Evangelho com a finalidade de tirar proveito pessoal dele. Não devemos temê-los, mas denunciá-los com o antigo Evangelho de Cristo, proteger as verdadeiras ovelhas e conduzi-las sob a autoridade do Bom Pastor, o Senhor Jesus.

NOTAS:
[1] William L. Graig, Apologética para questões difíceis da vida (São Paulo, Edições Vida Nova, 2010), p. 29
[2] William L. Graig, Apologética para questões difíceis da vida, p. 37.

23 fevereiro 2012

Abraham Kuyper

Escrito por Juan Bosch Navarro


Nascido em Maasluis, Rotterdam, em 29 de Outubro de 1837, e falecido em 8 de Novembro de 1920. Era um teólogo reformado, Doutor em Teologia pela Universidade de Leiden (1855-1862). Ministro ordenado da Igreja Reformada Holandesa, e pastor em Beest (1863-1868), Utrecht (1868-1870) e em Amsterdam (1870-1874). Era editor do diário De Standaard [1](1872-1876 e 1878-1919) e do semanário De Heraut [2](1878-1919). Eleito membro da Segunda Câmara do Parlamento Holandês em 1874, 1894, 1901 e 1908. Fundador da Universidade Livre de Amsterdam (1880). Professor de Teologia na Universidade Livre de Amsterdam (1880-1908). Líder do movimento da renovação eclesiástica e da secessão (1886), fundando em 1886 a Christelijke Gereformeerde Kerken.[3] Em 1889 participa das Stone Lectures da Universidade de Princeton, que dá origem ao seu livro Calvinismo.[4] Tornou-se Primeiro Ministro da Holanda (1901-1905), Ministro de Estado no Governo Holandês (1908-1912). Eleito membro da Primeira Câmara do Parlamento Holandês (1913). Retirado da vida ativa, morre em La Haya em 1920.

Abraham Kuyper é uma figura fundamental nos Países Baixos, durante o último terço do século XIX e as duas primeiras décadas do XX. Homem polivalente, a sua biografia abrange cinco campos nos quais ele sobressai de maneira notável: teologia, educação em nível universitário, reforma eclesiástica, periodismo e política nacional. Educado no seio de uma família clerical dentro da tendência liberal da Igreja Nacional Reformada Holandesa e, tendo estudado na Universidade de Leyden, onde obteve o Doutorado em Teologia (1862) num ambiente teológico igualmente liberal, é ordenado pastor em 1865. Kuyper experimenta uma verdadeira “conversão” já durante os seus primeiros anos como ministro de uma pequena paróquia, cuja congregação professava um sólido calvinismo da velha escola, que o conduz ao calvinismo mais estrito, deixando pra trás a teologia aprendida na Universidade de Leyden.

O “neocalvinismo” de Kuyper se sustenta num núcleo capital: a soberania divina sobre todas as “esferas” da vida e que abrange, logicamente, não somente os aspectos propriamente eclesiásticos, mas também aqueles outros que foram abandonados da área privada, ou pública pelo liberalismo teológico. Portanto, a família, como todo o referente às instituições laicas da “res publica”, a política, o trabalho e a economia, a educação e a universidade, as artes e a imprensa, etc., são esferas que devem voltar para estarem sob a soberania divina, o que explica, por outro lado, o interesse máximo de Kuyper em intervir em todos os assuntos que concernem ao governo do mundo. Fomenta a criação da imprensa escrita, intervém de maneira direta na alta política do país, cria a Universidade Livre de Amsterdam (1880). Entretanto, o arminianismo e o deísmo que haviam se introduzido na Igreja Nacional Reformada Holandesa a muito tempo atrás, se encontra em franca oposição ao liberalismo teológico e ao legado da Revolução Francesa que se respirava nos ambientes cultos da Holanda, detestando no âmbito político-social os movimentos revolucionários socialistas e comunistas. Percebe-se a necessidade imperiosa de se criar um forte movimento de renovação eclesiástica que concluirá com a fundação da Igreja Reformada Livre (1886).

Tão grande obra, com múltiplas dimensões, cuja influência seria sentida em todos os níveis da sociedade holandesa com grande eficácia. Trata-se para Kuyper de fazer presente na vida pública a contribuição e os valores cristãos desde a compreensão estritamente calvinista. Para o teólogo holandês o calvinismo é muito mais que uma tradição confessional ou eclesiástica; na realidade é uma cosmovisão (Weltanschauung), uma compreensão da vida e do mundo, um sistema de pensamento e de vida oposto radicalmente ao modernismo reinante. Kuyper pressentindo que o problema e a sua solução dependem da opção que se tome diante desta alternativa: ou aceitar a idolatria do homem e do Estado que exercem o seu atrativo em cada rincão da existência, ou aceitar a soberania divina que deve exercer nas esferas da família e da escola, sem as mediações do Estado ou da Igreja. A acusação de ele queria se passar como restaurador da velha ideia da teocracia não tem fundamento, pois se bem que Kuyper advogará sempre pela recristianisação da nação, nunca o fará desejando ou pedindo privilégios eclesiásticos, senão que fomentando a atividade voluntária dos cristãos nas Igrejas Livres e em diferentes organizações de inspiração cristã. Para isto propôs – desde suas oposições políticas – um sistema de educação que respeitava a pluralidade e diversidade religiosa.

Aquela tese da soberania divina sobre as “esferas” da vida, todavia, não significava que Kuyper elas se confundissem sob o imperativo divino. Mas que cada uma delas – a família, a economia, a política, a vida universitária, etc. – tem o seu próprio âmbito, objetivos e identidade que devem respeitar-se escrupulosamente, pois estão fixadas por Deus, desde o princípio. E isto, de tal maneira, que a confusão e indiscriminada mistura destas esferas, significa a transgressão das leis estabelecidas pelo próprio Deus. Assim, se faz necessário uma atenta supervisão para que não se transgrida tais espaços. Kuyper crê que ao Estado corresponde manter especial vigilância, de modo a salvaguardar a identidade de cada âmbito. Kuyper justifica este ponto de vista ao valorizar a importância que cada “esfera” tem para o desenvolvimento comum da humanidade, dando especial ênfase às esferas intermediárias – família e Igreja – porque constituem como o muro de contenção dos dois perigos que espreitam a sociedade devido à presença do pecado: por uma parte, a tendência ao individualismo que resulta no isolamento; por outro lado, as tendências globalizantes e totalitárias que tolera o Estado moderno. E é que apesar do papel de vigilância que na prática Kuyper concede ao Estado, é consciente da necessidade de moderar o poder do mesmo. Como bom calvinista reconhece que toda instituição, inclusive o Estado, está sujeita à penetrante realidade do pecado. Há que se dizer, todavia, que Kuyper não chegou até o extremo de desconectar completamente cada um dos âmbitos ou esferas da vida. São parte integrante da uma realidade criada cuja unidade interna se compreende, graças à visão do propósito do criador, unificante e redentor de Deus manifesto nas Escrituras Sagradas. A partir daí, dificilmente poderia recorrer-se a Kuyper para justificar ao sistema sul-africano do apartheid. Nas conferências pronunciadas na Universidade de Princeton (1898) – durante o ciclo das famosas “Stone Lectures” – e dissertando sobre o calvinismo, Kuyper afirmaria textualmente: “a mescla de sangue sempre contribuiu para uma grande prosperidade (...) A história ensina que as nações onde o calvinismo floresceu mais amplamente revela esta mesma mescla de raças.”

As palestras feitas sobre a obra teológica de Kuyper são plurais. Para alguns foi um estrito calvinista, inclusive em sua forma eclesiástica; E. Troeltsch opina que intentou modernizar a Calvino; também acredita-se que o seu afastamento do reformador de Genebra se deve às teses de Kuyper sobre a pluriformidade da Igreja e sobre a tolerância política; finalmente, para os conservadores, o neocalvinismo propugnado pelo teólogo holandês nada tem a ver com Calvino. Todavia, o veredicto sobre a obra em conjunto de Abraham Kuyper está recolhido num texto pronunciado durante a celebração nacional em honra de Kuyper, em seus septuagésimo quinto ano de aniversário: “A história dos Países Baixos, na Igreja, no Estado, na sociedade, na imprensa, na Escola e nas Ciências dos últimos quarenta anos, não poderia escrever-se sem mencionar o seu nome em cada uma de suas páginas, já que durante este período a biografia do Dr. Kuyper em boa medida, é a história da Holanda.”


NOTAS:
[1] Tradução: “O Estandarte”. Nota do tradutor.
[2] Tradução: “O Arauto”. Nota do tradutor.
[3] Tradução: “Igreja Cristã Reformada”. Nota do tradutor.
[4] O livro Calvinismo foi publicado pela Editora Cultura Cristã. Também há em português outro clássico escrito por Abraham Kuyper com o título A Obra do Espírito Santo.

Extraído de Juan B. Navarro, ed., Diccionario de Teólogos/as Contemporáneos (Burgos, Editorial Monte Carmelo, 2004), pp. 591-594.
Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
23 de Fevereiro de 2012.

O método crítica da forma de Martin F. Dibelius

Escrito por Juan Bosch Navarro


Nascido em Dresde, em 14 de Setembro de 1883, e falecido em Heidelberg, em 11 de Novembro de 1947. Filho de família de pastores da Igreja Luterana, fez os estudos de Filosofia e Teologia em Neuchatel, Leipzig, Tubing e Berlim. Catedrático da Universidade de Berlim (1910). Professor de Novo Testamento na Universidade de Heidelberg (1915), sucedendo a Johannes Weiss na cátedra de Exegese e Crítica do Novo Testamento. Trabalha com o “método da história das formas” aplicando-o aos evangelhos sinópticos. A partir de seu Die Formgestchichte des Evangeliums (1919)[1] o método se universaliza na exegese mais liberal. Muito atrativo no movimento ecumênico, especialmente em “Fé e Constituição.”

Martin Dibelius passou para a história da exegese como um dos pioneiros e autores mais expressivos no emprego do método da história das formas (Formegeschichte) aplicado a investigação sinóptica. Este método também foi utilizado por outros autores como H. Gunkel, aplicando-o ao livro dos Salmos; por K.L. Schmidt, G. Bertram e, mais tarde, por R. Bultmann. A sua intenção consistiu em interpretar os textos evangélicos de acordo com as suas próprias leis. Dibelius partia da convicção de que nos sinópticos – como em qualquer outro monumento da literatura – deveria distinguir entre os vários gêneros literários, chamados, às vezes, “formas” (hinos, parábolas, poesia, relatos históricos, etc.) em ordem a determinar a identidade, os condicionamentos sócio-religiosos em que surge cada um dos textos sinópticos. Este método implicava também a comparação com outras formas literárias extra-bíblicas provenientes do contexto do Oriente Médio para investigar as possíveis dependências e inter-relações e também a originalidade. O importante para Dibelius era analisar as palavras do escritor bíblico, mas sempre enquadrado num contexto muito mais amplo que a sua própria individualidade no que aparecesse a mentalidade e estilos literários do ambiente. A personalidade do hagiógrafo não era o mais importante, pois o seu estilo está condicionado e em direta dependência de algumas formas fixas e típicas anteriormente existentes.[2]

Em seu livro Die Formgeschichte des Evangeliums (1919), recorda que os evangelistas sinópticos pertencem à literatura menor. Com isso afirmava que ainda que os seus escritos não sejam obras literárias no sentido exato do termo, todavia, não são escritos privados, senão que possuem um caráter público. Neste sentido, como indica, os “autores” podem ser somente considerados escritores no sentido mais lato do termo, já que fundamentalmente são “simples compiladores, transmissores ou redatores.” Para Dibelius a atividade dos sinópticos, especialmente Mateus e Marcos, “consiste sobretudo em transmitir, agrupar e reelaborar um material recebido.” Então, a participação do evangelista na redação do texto se torna, na realidade, muito limitada e de mínima importância. Dibelius opina logicamente que os evangelistas receberam “um material configurado”, ou seja, pequenas unidades ou fragmentos literários, e que, portanto, a “história das formas do evangelho” não começava com os evangelistas, senão que com as “unidades menores.” Portanto, se tratará de conhecer as regras pela quais se regiam essas unidades, a situação histórico-social em que nasceram e se desenvolveram aquelas primeiras formas literárias. Em outras palavras, é conhecer o seu “Sitz im Leben”. Não interessa tanto conhecer o gênio pessoal dos autores, senão a vida da comunidade cristã primitiva, o verdadeiro autor dos fragmentos que chegaram aos hagiógrafos.

Esta obra fundamental corrigida a partir da segunda edição de 1933, é hoje um clássico da literatura bíblica e apesar de suas limitações a sua leitura é de consulta obrigatória. Os onze capítulos iniciam o leitor no apaixonado mundo do processo de redação da literatura sinóptica, tratando destes temas: 1. A história das formas; 2. A pregação; 3. O paradigma; 4. A breve narração; 5. A lenda; 6. Analogias; 7. A história da paixão; 8. A obra de compilação; 9. A parênesis; 10. O mito; 11. Forma, história e teologia. Se a finalidade de um relato evangélico consiste em expressar e expor a fé existente de modo a tornar coerente a própria comunidade cristã, ou para que em terreno missionário expor aos judeus e pagãos, na realidade o texto definitivo não responderia por completo o gênio do autor, senão apontaria para a comunidade primitiva que havia experimentado aquela fé.

A história das formas recebeu críticas e foram expostos os seus limites. E se é verdade que este método “não carece de razões para considerar aos Evangelhos como obra de compilação”, é também verdade que “entre os resultados seguros a que se chegaram os estudos recentes sobre os sinópticos deve-se enumerar a afirmação de que a atividade dos evangelistas não se limitava simplesmente a compilar um patrimônio recebido, senão que deve ser considerada como uma atividade literária consciente nascida de uma concepção teológica refletida. No que se refere aos Evangelhos, deve-se corrigir, portanto, o juízo da história das formas” (G. Iber). E se é verdade que ninguém dúvida de que os estudos mais recentes “foram mais longe do que o método da história das formas em certos pontos essenciais”, haverá de estar de acordo com o citado especialista que também “os mesmos trabalhos demonstram que esse método tem se focalizado na exegese e uma importância permanente na história da teologia.”[3]

NOTAS:
[1] Tradução: “A narrativa da forma dos Evangelhos.” Nota do tradutor.
[2] Este método exegético estabelece-se sobre premissas deístas, ou seja, uma base antissobrenaturalista, o seu primeiro axioma é a negação da imanência de Deus, em que ele se revela e comunica de modo proposicional. A sua segunda premissa é negar que os hagiógrafos como autores, eram as testemunhas oculares dos atos e ensino de Cristo, bem como dos eventos originais.
[3] A sua importância é medida pela quantidade de adeptos. Entretanto, o tradutor não adota este método por entender que ele é teoricamente insustentável, bem como teologicamente incoerente com a identidade reformada.


Extraído de Juan B. Navarro, ed., Diccionario de Teólogos/as Contemporáneos (Burgos, Editorial Monte Carmelo, 2004), pp. 286-287.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
23 de Fevereiro de 2012.

17 fevereiro 2012

Biografia cronológica de João Calvino

10/07/1509 Nascimento de João Calvino, Noyon, norte da França.
1510 Lutero viaja a Roma para tratar de assuntos de sua ordem agostiniana.
1511 Lutero se muda para Wittenberg.
1512 Lutero recebe o grau de doutor e inicia conferências teológicas em Wittenberg.
1514-17 Bíblia Poliglota Complutense (publicada somente em 1522).
1515 Conferências de Lutero sobre as epístolas de São Paulo aos Romanos.
1516 Publicação do Novo Testamento de Erasmo em grego e de uma tradução original em latim Novum Instrumentum.
31/10/1517 Lutero “afixa” ou “remete” as 95 Teses.
4-5/1518 Debate em Heidelberg: Lutero defende sua teologia numa reunião do Capítulo da Ordem Agostiniana. Em Outubro, Lutero encontra o cardeal Cajetan em Ausburg.
7/1519 Debate de Leipzip, inclusive entre Lutero e Johann Eck. Em 1 de janeiro Uldrich Zwinglio inicia o seu ministério na Gross Münster de Zurique.
1520 (15 de junho) Lutero ameaçado de excomunhão na bula papal Exsurge Domine. (agosto-setembro) Lutero publica Carta à Nobreza Cristã da Nação Germânica e Prelúdio ao Cativeiro Babilônio da Igreja. (novembro) Tratado Da Liberdade Cristã de Lutero. (dezembro) Queima da bula Exsurge Domine e da lei canônica em Wittenberg.
1521 (janeiro) Excomunhão de Lutero formalmente proclamada na bula Decet Romanum Pontificem. (abril) Dieta de Worms. (maio) Lutero levado a Wartburg onde permanece até março de 1522 e onde traduz o Novo Testamento. Henrique VIII escreve Assertio septem sacramentorum e recebe o título de Defensor da Fé outorgado pelo papa Leão X.
1522-23 Experiências religiosas de Inácio de Loyola em Manresa (próximo a Barcelona) das quais se originam seus Exercícios Espirituais.
1523 Lutero escreve Autoridade Secular: Até que Ponto Deve Ser Obedecida. Martinho Buccer inicia seu ministério em Estrasburgo (e com ele Wolfgang Capito e Caspar Hedio, reunidos a Matthias Zell). (janeiro) Primeiro debate público sobre a Reforma em Zurique. (outubro) Segundo debate público em Zurique, que leva à remoção de imagens das igrejas (junho de 1524). Gustavo Vasa inicia seu reinado e um longo processo de reforma na Suécia.
1523-25 Início do movimento anabatista em Zurique.
1524-25 Guerra dos Camponeses.
1525 (abril) Fim da missa em Zurique. (junho) Lutero se casa com Katharine Von Bora.
1526 Impressão em Worms da tradução do Novo Testamento para o inglês, feita por Wiliam Tyndale.
Genebra começa a libertar-se do domínio da Savóia, entrando em aliança e dependência de Berna.
1527 Saque de Roma. A Confissão de Schleitheim procura unir os primeiros anabatistas contra “papistas e antipapistas.”
1528 (janeiro) Debate público em Berna, que leva à adoção da Reforma seguindo as linhas de Zurique. Fundação da ordem dos Capuchinhos (franciscanos reformados).
1529 Distúrbios iconoclastas em Basiléia. Abolição da missa em Estrasburgo. O chamado Parlamento da Reforma se reúne na Inglaterra (março-abril); (segunda) Dieta de Worms ordena a observância do Édito de Worms. (julho) O protesto dos grupos evangélicos dá origem ao termo “protestantes.” Colóquio de Marburgo; Lutero insiste em hoc est corpus meum e se recusa a reconciliar-se com os Zwinglianos e os habitantes de Estrasburgo.
1530 Dieta de Augsburgo; preparação da Confissão de Augsburgo por Filipe Melanchthon e sua apresentação à Dieta.
1531 Formação da Liga de Schmalkalden. Segunda eclosão da guerra intercantonal na Suíça; batalha de Kapel (11 de outubro) na qual Zwinglio morre; substituição de Zwinglio como antistes por Heinrich Bullinger.
1533 Nomeação de Thomas Cranmer como arcebispo de Canterbury; Lei de Restrição de Apelações, “este reino da Inglaterra é um império.” Cranmer declara a nulidade do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão e coroa Ana Bolena como rainha.
1534 Lei de Supremacia, que reconhece Henrique VIII como chefe supremo da Igreja da Inglaterra. Restauração do duque Ulrich no ducado de Württemberg e introdução da reforma no sul da Alemanha. Eleição de Alessandro Farnese como papa Paulo III, reformador pouco provável. Caso dos placards em Paris leva à polarização religiosa na França e à emigração de Calvino.
1534-35 Governo anabatista em Münster.
1535 Execução de Sir Thomas More. Publicação da primeira Bíblia completa impressa em inglês.
1536 Primeira edição das Institutas, de Calvino, em Basiléia. (maio) Genebra se compromete a viver “segundo a santa lei do Evangelho.” (julho) Calvino chega a Genebra e é forçado a ficar por Guillaume Farel.
1536-40 Dissolução progressiva dos mosteiros ingleses.
1537 Calvino apresenta aos magistrados de Genebra a primeira versão de seus Regulamentos Eclesiásticos. Apresentação do Consilium de Emendada Ecclesia a Paulo III. Introdução da Reforma henriquina na Irlanda. Implementação oficial da reforma Luterana na Dinamarca no reinado Cristiano III.
1538 Expulsão de Calvino e Farel de Genebra; Calvino se retira para Estrasburgo.
1539 Publicação da segunda edição ampliada dos Institutos, de Calvino, em Estrasburgo. Publicação na Inglaterra da Grande Bíblia oficialmente autorizada.
1539-40 Reação religiosa na Inglaterra: Lei dos Seis Artigos e execução do ministro reformador de Henrique VIII, Thomas Cromwell
1540 Publicação em Veneza do Trattato utilissimo del Beneficio di Jesu Christo crocifisso. Fundação da Sociedade de Jesus (jesuítas) pela bula papal Regimini militastes Eclesiais.
1541 Dieta de Regensburg, discussões teológicas entre luteranos e o cardeal Contarini; quase-acordo sobre a doutrina da redenção. A tradução da edição francesa das Institutas de Calvino, a Institution de la Religion Chrestienne.
1541-42 Regresso de Calvino a Genebra (setembro de 1541) e estabelecimento da ordem calvinista da igreja (Regulamentos Eclesiásticos, novembro de 1541).
1542 Estabelecimento da Inquisição Romana pela bula papal Licet ab initio.
1545 (dezembro) Abertura do Concílio de Trento.
1546-47 Guerra de Schmalkalden.
1547 (abril) Transferência do Concílio para Bolonha. Ascensão de Eduardo VI e inauguração de um regime protestante na Inglaterra.
1548 Interinidade Imperial (ou de Augsburg).
1549 Negociação do Concensus Tigurinus entre Calvino e Bullinger reúne Genebra e Zurique, especialmente quanto à doutrina da Eucaristia. Primeiro Livro Inglês de Orações; rebelião do Livro de Orações no oeste da Inglaterra.
1551-52 Segunda sessão do Concílio de Trento.
1552 Segundo Livro Inglês de Orações (mais radicalmente reformado).
1553 Ascensão de Mary Tudor ao trono da Inglaterra. Execução de Michael Servetus na fogueira em Genebra.
1555 Paz religiosa de Augsburg—cuius regio, eius religio. Derrocada da facção perrinista e outros adversários de Calvino em Genebra. Primeiros pastores treinados em Genebra seguem para a França.
Eleição de Gian Pietro Carafa como papa Paulo V. Governo de Mary começa a executar hereges na fogueira na Inglaterra (arcebispo Cranmer queimado em Oxford, 1556).
1558 (novembro) Ascensão de Elizabeth I da Inglaterra.
1559 Fundação da Academia de Genebra. Solução religiosa elizabetana na Inglaterra, também, em vigor por lei na Irlanda. (março) Primeiro sínodo nacional das igrejas francesas reformadas, em Paris. Index de livros proibidos.
1559-60 Edições definitivas dos Institutos de Calvino em latim e em francês.
1560 Revolução na Escócia; criação de uma igreja reformada. O Tratado de Edimburgo põe fim ao controle francês sobre a Escócia, preserva a Reforma escocesa e abre caminho para maior “amizade” com a Inglaterra.
1562 Eclosão da primeira das guerras de religião na França.
1562-63 Terceira e última sessão do Concílio de Trento.
1563 Catecismo de Heidelberg marca o estabelecimento do Calvinismo no Palatinado da Renânia pelo Eleitor Frederico III.
1564 A morte de Calvino e sucessão de Théodore de Bèze como moderador da Companhia dos Pastores de Genebra.