22 outubro 2024

A Igreja primitiva guardava o sétimo dia da semana?

 por Ewerton B. Tokashiki

 

A igreja primitiva guardava o sétimo dia?

 Há abundantes provas de que a Igreja sempre guardou o primeiro dia da semana. No entanto, desde o movimento sabatista do sétimo dia, é proposta uma nova interpretação. Ellen G. White é conhecida como sendo uma das principais expoentes deste sabatismo moderno. Em seu mais lido livro O Grande Conflito afirma que

o imperador Constantino promulgou um decreto fazendo do domingo uma festividade pública em todo o Império Romano (ver Apêndice). O dia do sol era reverenciado por seus súditos pagãos e honrado pelos cristãos. Foi instado a fazer isto pelos bispos da igreja. Inspirados pela sede de poder, perceberam que, se o mesmo dia fosse observado tanto por cristãos quanto por pagãos, isto resultaria em maior poder e glória para a igreja. Mas, conquanto muitos cristãos tementes a Deus fossem, gradualmente, levados a considerar o domingo como possuindo certo grau de santidade, ainda mantinham o verdadeiro sábado e o observavam em obediência ao quarto mandamento.[1]

 Em conversa com sabatistas sempre ouvi que o imperador romano Constantino foi quem mudou a guarda do sétimo dia para o domingo, mas não sabia a fonte nem de onde procedia essa ideia, até que ganhei um exemplar de O Grande Conflito e pude lê-lo.

Ellen White simplesmente menciona um decreto promulgado por Constantino sem citar a fonte. Talvez, ela não soubesse que história se escreve com documentos. Entretanto, ela induz o leitor a crer que este texto foi responsável pela mudança da observância do descanso do sábado para o domingo. Conforme a sua interpretação histórica, a senhora White alega que interesses políticos e até evangelísticos fizeram com que os líderes cristãos contemporâneos do imperador romano, contribuíssem para a transição da guarda do sétimo para o primeiro dia da semana. Embora a autora não forneça nenhuma fonte da sua alegação, recentemente os editores do seu livro adicionaram o suposto documento. Contudo, a bibliografia que mencionada volta-se contra eles mesmos.[2] O historiador Albert H. Newman argumenta que a suposta conversão de Constantino [cerca de 310 d.C.] favorecia socialmente os cristãos no seu império. O Cristianismo não estava sofrendo mutações para adaptar-se aos romanos, mas o império pagão estava se moldando ao costumes cristãos.[3] Newman menciona uma série de favores que o imperador concedia aos cristãos, por exemplo, como os contidos no Edito de Milão (313 d.C.),[4] a isenção da liderança cristã do serviço militar e de impostos públicos (313 d.C.),[5] aboliu práticas e festividades pagãs que fossem públicas (315 d.C.), concedeu o direito privado às igrejas locais (321 d.C.) e tornou um dever civil o descanso no domingo, conforme era o costume cristão (321 d.C.).[6] Assim, o Dies Domini celebrado no primeiro dia da semana passou a ser descanso estatal.[7] O historiador Philip Schaff esclarece que Constantino

é o fundador, de no mínimo, da observância civil do Domingo, em que somente deste modo a sua observância religiosa na igreja poderia se tornar universal e propriamente assegurada. No ano de 321, ele editou uma lei proibindo o trabalho manual nas cidades e todas as transações judiciais, e posteriormente também o exercício militar no Domingo.[8]

 Em outras palavras, o domingo não se tornou obrigatoriamente um dia de descanso para os cristãos por causa da lei de Constantino. Mas, o decreto tornou um dever civil o que por séculos era o costume religioso dos cristãos.

Embora tenha origem metodista, Ellen G. White (1827-1915) recebeu influência do movimento milenarista e sabatista procedente de William Miller (1782-1849). Ele atraiu muitos seguidores ao profetizar a vinda de Cristo para o dia 22 de outubro de 1844, fato que nunca ocorreu. Após a família White ser excluída da Igreja Metodista, por divergência doutrinária, associaram-se ao grupo adventista, sendo que ela se tornou uma  das principais líderes e a profetiza do movimento.[9] Assim, durante um ministério de aproximadamente setenta anos, alegou ter recebido cerca de duas mil visões e sonhos proféticos.[10] Numa de suas profecias ela afirma que a guarda do domingo é a marca da besta.[11] Não perderei tempo analisando esse seu erro, visto que não há nada na Escritura Sagrada que autorize interpretar com este significado o texto de Ap 13, como o faz Ellen White e o movimento adventista.[12]

 

Evidências históricas anteriores à Constantino

É possível provar documentalmente que os cristãos guardaram o primeiro dia da semana desde os seus primórdios? Recordemos que o argumento de Ellen G. White é que o abandono do sétimo dia para a guarda do domingo somente ocorreu em 321 d.C. quando Constantino promulgou a “Lei Dominical”. Leiamos o que registraram os pais da Igreja, nos séculos que antecederam ao imperador romano, e a nossa conclusão poderá descansar sobre o firme alicerce da verdade.

 

Didaquê

O mais antigo manual de preparação de batismo e discipulado da Igreja Cristã (80-90 d.C.) conhecido por Didaquê instrui como deveria ser a vida comunitária. A orientação era de que “reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro.”[13] A expressão dia do Senhor, em grego kuriakê heméra e, em latim Dies Domini tornou-se o termo para indicar o primeiro dia da semana, a que chamamos de Domingo, o dia em que o Senhor ressuscitou!

 

Inácio de Antioquia

Inácio de Antioquia em sua Carta aos Magnésios (110 d.C.) declara que

aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte. Alguns negam isso, mas é por meio desse mistério que recebemos a fé e no qual perseveramos para ser discípulos de Jesus Cristo, nosso único Mestre.[14]

 A sistematização doutrinária exposta por Inácio aponta para a transição da antiga para a nova aliança. Esclarece que a ressurreição de Cristo é a causa da descontinuidade e acomodação para a nova ordem, e, isto inevitavelmente envolve a mudança do dia de descanso do sétimo para o primeiro dia da semana, inaugurando uma nova era.

 

A carta a Diogneto

O desconhecido escritor da Carta a Diogneto afirma que “não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados...”.[15] Em 120 d.C., o contraste entre cristãos e judeus estava estabelecido, de modo que a guarda do sétimo dia era visto pelos cristãos como sendo uma superstição judaica e não como algo normativo para a Igreja.

 

A carta de Barnabé

Um importante documento histórico apresenta alguns traços do Cristianismo do século II. A “carta de Barnabé” não tem autoria certa, mas pelo seu conteúdo a crítica literária especializada em patrística é de consenso datá-la entre 134-135 d.C. O autor interpreta o significado do sábado. Ele declara que

vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.[16]

 O seu conteúdo é abertamente contrário aos sistemas judaizantes. Nesta interpretação acerca do sábado, o autor contrasta entre o entendimento do Judaísmo e o Cristianismo.

 

Justino de Roma

O apologista cristão expressou que “no dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.” Em outro lugar ele continua

celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus transformando as trevas e a matéria, fez o mundo e, também, o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.[17]

 A preocupação de Justino não era de firmar novas doutrinas, mas apenas de expor aos seus inquisitores o que era crença e prática tradicional dentro do Cristianismo. A sua I Apologia é datada em 155 d.C. apontando para a proximidade da era apostólica, um período de pureza na fé cristã.

 

Irineu de Lião

Enquanto Justino defendia os cristãos diante dos governadores pagãos, Irineu se dedicava a atacar as heresias que brotavam dentro do cristianismo. Irineu como apologista analisava os desvios doutrinários que haviam se infiltrado dentre os cristãos. Especificamente para o nosso propósito selecionamos os heréticos que se nomeavam ebionitas,[18] que segundo Irineu eles “praticam a circuncisão e continuam a observar a Lei e os costumes judaicos da vida e até adoram Jerusalém como se fosse a casa de Deus.”[19] Além de negar a salvação somente pela graça e a sua suficiência em Cristo, os ebionitas ensinavam uma redenção por meio da obediência da lei. Dentre os “costumes judaicos da vida” incluíam a prática de guardar o sétimo dia. Eles não entenderam a cessação dos aspectos civis da lei, nem o seu cumprimento cerimonial em Cristo, de modo que, persistiam em exigi-los como complemento da salvação, e nisto consistia a sua heresia. O livro Contra as Heresias é datado entre 180 à 190 d.C.

 

Tertuliano

No início do século III os cristãos demonstravam desprezo pelos costumes judaizantes. Em seu livro Da Idolatria, escrito entre os anos 200 e 210 d.C., Tertuliano declara que “não temos praticado os sabbath ou, outras festividades judaicas, do mesmo modo que evitamos as práticas pagãs.”[20] A sua afirmação esclarece que, tanto a idolatria quanto práticas judaicas, eram evitadas no mesmo pé de igualdade. Não há dúvidas de que o descanso cristão no fim do século III era marcadamente o domingo, da mesma forma que o exclusivismo cristão testemunhava contra pagãos e judeus!

 

As leis promulgadas por Constantino incentivavam os cidadãos a adotarem a religião cristã. O império romano estava se adaptando ao Cristianismo e não o contrário. Assim, o primeiro dia da semana tornou-se descanso civil, por ser tradicionalmente desde o primeiro século um dia reservado para o culto cristão. Evidências históricas apontam ações do imperador favoráveis ao Cristianismo. O testemunho da Igreja nos primeiros séculos não somente evitava a guarda do sétimo dia, mas desprezava-a como sendo superstição, idolatria e heresia judaizante! Não há no puro Cristianismo nenhum grupo, em nenhum lugar e período que celebrasse o sábado como o dia de descanso entre os cristãos.

  

NOTAS:

[1] Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, Casa Publicadora Brasileira, 7ª ed., 2004), p. 33.

[2] Os editores no indicado “Apêndice” mencionam a Lei Dominical de Constantino apontam para a obra do historiador reformado Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. III, cap. 7. Todavia, na mesma seção [75], em seu primeiro parágrafo Schaff diz “a observância do domingo originou no tempo dos apóstolos, e as formas básicas da adoração pública, com o seu honrar, santificar e exultante influência em todas as terras cristãs”, p. 300. É estranho que a fonte que os editores citam para favorecer a tese de que a mudança era do período de Constantino (321 d.C.), inicie o texto com esta declaração!

[3] Outra obra citada no “Apêndice” como evidência a favor da tese da senhora White é o livro-texto do batista Albert H. Newman, A Manual of Church History. Mas, a discussão desenvolvida por Newman é contrária à tese sabatista!

[4] O édito encontra-se na sua íntegra transcrito na obra Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2000), vol. 15, pp. 491-494.

[5] Veja esse outro edito em Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, vol. 15, pp. 499-500.

[6] Kenneth S. Latourette, Historia del Cristianismo (El Paso, Casa Bautista Publicaciones, 1976), vol. 1, pp., 132-133.

[7] Albert H. Newman, A Manual of Church History (Philadelphia, The American Baptist Publication Society, 1953), vol. 1, pp. 306-307.

[8] Philip Schaff, History of the Christian Church (Albany, Ages Software, 1997), vol. 3, p. 301.

[9] No livro Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do 7º Dia declara: “18. O Dom de Profecia - Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é uma característica da Igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White. Como a mensageira do Senhor, seus escritos são uma contínua e autorizada fonte de verdade e proporcionam conforto, orientação, instrução e correção à Igreja. (Jl 2.28 e 29; At 2.14-21; Hb 1.1-3; Ap 12-17; 19.10)” extraído de http://www.adventistado7dia.org/iasd/crencas-fundamentais acessado em 7/10/2009.

[10] J.D. Douglas, White, Ellen Gould in: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã (São Paulo, Edições Vida Nova, 1990), vol. 3, p. 646.

[11] J.K. Van Baalen, O Caos das Seitas (São Paulo, Imprensa Bíblica Regular, 1970), p. 155.

[12] Para maiores detalhes veja A.A. Hoekema, Adventismo del Septimo Dia (Kalamazoo, SLC, 1990).

[13] Didaquê in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 357.

[14] Inácio de Antioquia – Epístola aos Magnésios – Padres Apostólicos in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 94.

[15] Carta a Diogneto – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 2, p. 21.

[16] Carta de Barnabé – Pais Apologistas in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 1995), vol. 1, p. 311.

[17] Justino de Roma, I Apologia in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ª ed., 1995), vol. 3, pp. 83-84.

[18] Sabe-se que “eram judeus que aceitavam Jesus como o Messias ao mesmo tempo em que continuavam a afirmar que Paulo era um apóstata da lei, negavam o nascimento virginal, praticavam a circuncisão, observavam o Sábado, a Páscoa e outras festividades judaicas”. Robert G. Clouse, et. al., Dois reinos (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), p. 33.

[19] Irineu de Lião, Contra as Heresias in: Patrística (São Paulo, Editora Paulus, 2ª ed., 1995), vol. 4, p. 108.

[20] Tertulian, On Idolatry in: Ante-Nicene Fathers, vol. 3, p. 70 citado em G.H. Waterman, Sabbath in: The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (Grand Rapids, Zondervan Publishing, 1977), vol. 5, p. 187. Este pai da Igreja é conhecido por causa da sua ortodoxia trinitária. O termo “Trindade” foi cunhado por ele, e Philip Schaff concede-lhe o título de fundador do Cristianismo Latino.

17 outubro 2024

Os 5 pilares da Reforma protestante

Quais são cinco pilares da Reforma?

As igrejas herdeiras da Reforma protestante do século XVI preservam a sua pureza conforme creem e praticam cinco princípios basilares da fé cristã. Os cinco pilares do nosso legado são:

Sola Scriptura: somente a Escritura Sagrada.

Sola gratia: somente a graça.

Solo Christo: somente em Cristo.

Sola fide: somente a fé.

Soli Deo gloria: somente a Deus seja a glória.

 

A sola Scriptura / somente a Escritura

Cremos que somente a Escritura Sagrada é a nossa única fonte e regra de fé e prática. Deus não usa outras modalidades revelacionais para falar conosco, somente a Escritura é a Palavra de Deus.

Negamos que a tradição, os decretos papais e decisões conciliares da Igreja Romana, bem como as experiências místicas, as antigas modalidades revelacionais [visões, sonhos, línguas e profecias] sejam verdadeiramente a revelada Palavra de Deus.

 

A sola gratia / somente pela graça

Cremos que somos salvos somente pela graça. Todo ser humano está morto em seus pecados e desobedece a lei de Deus, sendo merecedor de condenação eterna. O favor imerecido de Deus é a única causa do nosso perdão, reconciliação, adoção e aceitação diante dele. É Deus quem decreta, inicia, desenvolve e finaliza a graciosa salvação por causa dos méritos de Cristo.

Negamos que o ser humano seja capaz de fazer-se aceito diante de Deus, produzindo seus próprios méritos e satisfazendo a perfeita justiça divina.

 

O solo Christo / somente Cristo

Cremos que somente Jesus Cristo é o único mediador da nossa salvação. Cristo é o único Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo. Ele realizou uma obra salvadora que é perfeita, suficiente e completa a favor dos seus eleitos.

Negamos que haja outros mediadores ou que o ser humano tenha acesso a Deus Pai sem a pessoa e obra do Filho.

 

A sola fide / somente pela fé

Cremos que a fé é dom de Deus. O Espírito com a Palavra ilumina a mente produzindo um verdadeiro conhecimento do evangelho, uma firme confiança na obra de Cristo e um consentimento submisso às promessas de Deus. O pecador reconhece com arrependimento a sua reprovação e recebe a Cristo como seu Senhor. Assim, a justificação vem somente pela fé na obra de Cristo.

Negamos que a fé seja uma virtude humana, bem como não cremos que seja a causa da salvação, mas ela é o meio instrumental para recebermos o perdão e as demais bençãos de Deus. Apesar da salvação não ser por obras pessoais, a fé salvadora é operante e produz boas obras de santificação e obediência como evidência da salvação.

 

O soli Deo gloria / somente a Deus seja a glória

Cremos que o triuno Deus é o Senhor, Criador, Fonte de todo bem, Regente, Provedor e Consumador de tudo o que existe. Ele tem o absoluto controle sobre toda a criação e faz com que todas as coisas cooperem na realização da sua vontade. O soberano Deus não compartilha a sua glória com ninguém! Quanto mais estivermos satisfeitos nele, mais ele será glorificado, de modo que tudo o que somos, temos ou fazemos é um culto racional a ele. Assim, confessamos que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”.

Negamos que Deus exista para satisfazer as necessidades do homem, ou que possa ter a sua vontade divina resistida, frustrada ou mudada pela vontade humana, por qualquer outra criatura ou evento na criação. Não aceitamos que o culto ao Senhor Deus seja moldado pelas predileções, culturas, tendências temporais ou qualquer critério sociológico, ideologias políticas ou superstições e imaginações humanas.

03 outubro 2024

As lágrimas de Cunhaú

 Hoje, 3 de outubro, temos um feriado em referência a beatificação de pessoas da religião romanistas, estas morreram num ataque indígena em  Cunhau e Uruaçu no século 17. Existem alguns grupos que, de má fé,  defendem a história de que um pastor reformado calvinista a mando do governo holandês, realizou esse ataque. Como reformados calvinistas no Rio Grande do Norte que somos, temos como responsabilidade manter a honra dos irmãos do passado. É nossa responsabilidade contar a história como de fato ocorreu, sem paixões ou preferências. 

O pesquisador e pastor Francisco Leonardo, especialista em história holandesa, teve acesso a textos originais e oficiais que se encontram nos registros históricos do Governo Holandês. Com base em registros históricos, ele levanta três pontos que afastam a teoria de que um pastor reformado foi algoz em Cunhau e Uruaçu. 

1. Em primeiro lugar, cumpre observar que não foi o governo holandês que ordenou a chacina. O que ocorreu foi uma vingança por parte dos indígenas em reação às notícias que corriam sobre as crueldades dos portugueses, ajudados por uma tribo selvagem da Bahia. Desde o início da revolta (13-06-1645), cada vez ficava mais claro que, onde quer que os portugueses restabeleciam seu poder, uma morte terrível esperava seus adversários, especialmente os índios.Conseqüentemente, os “brasilianos” (como eram chamados os índios tupis) refugiaram-se nas proximidades das fortificações holandesas, consideradas inexpugnáveis. Outros decidiram evitar o desastre aparentemente inevitável e pegaram em armas. Foi isto que aconteceu no Rio Grande do Norte, em Cunhaú. No Rio Grande, a população indígena consistia em grande parte de índios antropófagos (tapuias), sob a liderança do seu cacique Nhanduí. Para os holandeses, os tapuias significavam um bando de aliados um tanto inconstantes, pois eram um povo muito independente, que não aceitava ordens de ninguém, mas decidia por si o que era melhor para sua tribo. Um tal de Jacob Rabe, casado com uma índia e muito amigo da tribo, servia como ligação entre eles e o governo holandês.Entre os indígenas do extremo Nordeste em geral existia um grande ódio contra os portugueses, sem dúvida pela lembrança dos acontecimentos anteriores à chegada dos holandeses, que eram considerados como os libertadores da opressão lusa. E por várias vezes esses índios quiseram aproveitar-se da situação de derrota dos lusos, para vingar-se deles. Assim, em 1637, depois de Maurício de Nassau conquistar o Ceará, os índios procuraram matar todos os portugueses da região, que foram protegidos pelos holandeses por meio das armas. A mesma coisa aconteceu no Rio Grande do Norte, em 1645. Os tapuias sentiram que, com o início da revolta contra os holandeses, havia chegado a hora da verdade: eram eles ou os portugueses. No dia 15 de julho, começaram por Cunhaú, massacrando as pessoas que estavam na capela e posteriormente, numa luta armada, os restantes.

2. Em segundo lugar, de fato o nome de um pastor protestante está ligado a esse episódio. Porém, de modo exatamente contrário daquele que se supõe, porquanto não foi ele quem orientou a chacina, antes foi enviado pelo governo para refrear a selvageria dos silvícolas. Quando, no dia 25 de julho, o governo holandês no Recife soube dos terríveis acontecimentos do Rio Grande do Norte, despachou o Rev. Jodocus à Stetten, pastor da Igreja Cristã Reformada e capelão do exército, com o capitão Willem Lamberts e sua tropa armada “para refrear os tapuias e trazê-los para (o Recife), a fim de poupar o país e os moradores (portugueses)”. Os índios, porém, ficaram enfurecidos com os holandeses, não entendendo como estes podiam defender seus inimigos mortais, e até romperam a frágil aliança com os batavos. Antes de regressar para o sertão do Rio Grande, fizeram ainda outra incursão vingadora contra os portugueses, desta vez na Paraíba.

3. Em terceiro lugar, é importante lembrar o fim dos tapuias e de Jacob Rabe. Alguns meses depois do massacre, esse funcionário da Companhia das Índias Ocidentais, que havia recebido o mensageiro governamental, pastor Jodocus, de pistola em punho, foi morto por ordem do próprio governador da capitania do Rio Grande do Norte, Joris Garstman. O capitão Joris era casado com uma senhora portuguesa que havia perdido muitos parentes em Cunhaú. Quanto aos tapuias, após a expulsão dos holandeses e a restauração do domínio português, aqueles que não quiseram submeter-se à orientação político-religiosa de Lisboa foram massacrados, como diz o Dr. Tarcísio Medeiros, na “mais sangrenta guerra de extermínio que existiu neste Brasil”.

Conclusão

Esses três fatos complementares não diminuem em nada o sofrimento dessas vidas inocentes esmagadas pelos rolos compressores de uma luta armada. Porém, talvez possam eliminar em parte o veneno da história, por nos permitirem entender melhor o contexto daqueles dias cheios de angústia para ambos os lados. Escrever história objetivamente é muito difícil, mais ainda quando se trata de um caso controvertido como este, com muitos pormenores desconhecidos. Mas afirmar, como foi feito por certos porta-vozes, que as barbaridades de Cunhaú foram perpetradas a mando do próprio governo holandês, e ainda por cima orientadas por um pastor evangélico, simplesmente não corresponde à verdade. Convém distinguir os fatos e a interpretação dos fatos. O que não atenua, antes aumenta a nossa ansiosa expectativa do dia em que o Senhor enxugará todas as lágrimas, inclusive as de Cunhaú (Ap 7.17).


Rev. Francisco Leonardo Schalkwijk

(Adaptação Rev. Italo Reis)

Vote com consciência cristã

O nosso país realizará eleições municipais no próximo domingo. Você poderá exercer um dos seus deveres cívicos escolhendo em quais candidatos votar. Cada pessoa tem a liberdade, de acordo com as suas convicções, de escolher em quem votar. Somos cristãos presbiterianos e, por isso, observamos alguns princípios bíblicos, de modo que a nossa consciência e o nosso testemunho público glorifiquem a Deus. Permita-me apresentar alguns princípios históricos que seguimos, enquanto presbiterianos.

Cremos que há uma relação de equidistância entre Igreja e Estado, onde cada esfera tem a sua autonomia, embora haja alguma interação e, ao mesmo tempo, não interferência direta de uma esfera na outra. A Igreja nunca é um serviço do Estado, nem dependente do poder civil para a sua existência ou atuação. Entretanto, a Igreja tem “a voz profética”, segundo a Escritura, para denunciar, reclamar e declarar a vontade de Deus sobre todas as ações sociais ou falhas do Estado. A cosmovisão bíblica nos leva a entender as prerrogativas, deveres e limites de cada esfera, e que todas as esferas estão debaixo da autoridade de Cristo!

Oramos pelos governantes em todos os três poderes.  Isso não significa que endossamos todas as suas motivações, ideologias ou as ações deles. Obviamente reprovamos a corrupção e desvios de verba pública, rejeitamos ideologias anticristãs ou o favorecimento ilícito e imoral de qualquer grupo. Cremos que o governo civil tem como prioridade promover a boa ordem social, a justiça comum e a segurança pública.

Temos o compromisso da obediência civil. Isso não significa que concordemos com tudo o que o governo, quer municipal, estadual ou federal faça. Enquanto o governo civil agir de acordo com os preceitos bíblicos, somos devedores de obediência; todavia, somos chamados à desobediência civil se em algum momento uma autoridade pública nos impedir de obedecer a Deus, pois, “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).  O nosso compromisso com o ensino da Escritura Sagrada exige que nos posicionemos contra ideias, práticas e, até mesmo, contra políticos que sejam inimigos do evangelho e da Igreja de Cristo.

O presbiterianismo nunca foi apolítico. Isso não significa que abraçamos a política com uma bandeira partidária ou que cedamos nossos púlpitos à candidatos ou a políticos em exercício de mandato. Rejeitamos essa postura eleitoreira de algumas denominações e líderes eclesiásticos. Defendemos ideias que promovam a liberdade, a propriedade privada, a família, valores morais cristãos, boa ordem social etc.; assim, temos, exercemos e expressamos opiniões políticas que sejam coerentes com nossas doutrinas cristãs. Igualmente, rejeitamos ideias e agendas políticas que vão contra a fé cristã.

Somos chamados a exercer a liberdade de consciência. A nossa consciência e a nossa liberdade são submissas à princípios cristãos. A Confissão de Fé de Westminster declara que

Aqueles que, sob o pretexto de liberdade cristã, cometem qualquer pecado ou toleram qualquer concupiscência, destroem, por isso mesmo, o propósito da liberdade cristã; pelo contrário, sendo livres das mãos de nossos inimigos, sem medo sirvamos ao Senhor em santidade e justiça, diante dele, todos os dias de nossa vida. [CFW 20.3].

 Não impomos um nome ou partido em quem você deve votar. Além de ser criminoso é algo imoral, mas precisamos lembrá-lo do seu compromisso de exercer a cidadania com consistência cristã e fidelidade ao ensino bíblico. Por exemplo, é incoerente orar pela vida e apoiar políticos que seguem uma agenda abortista, orar pela segurança dos nossos filhos e votar em candidatos que, abertamente, defendem a ideologia de gênero, o exercício imoral da sexualidade ou propostas políticas danosas para a família. Se somos cristãos por convicção, igualmente, sejamos em nossa consciência política e em nosso voto. Não se esqueça que “quando os justos se engrandecem, o povo se alegra, mas quando o ímpio domina, o povo geme (Pv 29.2).

02 outubro 2024

A bula Inter Caetera [4 de maio de 1493]

O contexto histórico[1]

 A descoberta de Cristovam Colombo, em 1492, de terras supostamente asiáticas nos mares ocidentais ameaçou as relações instáveis ​​entre os reinos de Portugal e Castela, que vinham disputando posição e posse de territórios coloniais ao longo da costa africana por muitos anos. O rei de Portugal afirmou que a descoberta estava dentro dos limites estabelecidos nas bulas papais de 1455, 1456 e 1479. O rei e a rainha de Castela contestaram isso e buscaram uma nova bula papal sobre o assunto.

O papa Alexandre VI, natural de Valência e amigo do rei castelhano, respondeu com três bulas, datadas de 3 e 4 de maio, que eram altamente favoráveis ​​a Castela. Embora bulas posteriores tenham sido emitidas sobre o assunto da rivalidade colonial portuguesa e espanhola, a bula Inter caetera tornou-se um documento importante no desenvolvimento de doutrinas legais subsequentes sobre reivindicações de império no “novo mundo”. A bula atribuiu a Castela o direito exclusivo de adquirir território, negociar ou mesmo se aproximar das terras situadas a oeste do meridiano situado cem léguas a oeste das Ilhas dos Açores e Cabo Verde. No entanto, uma exceção foi feita para quaisquer terras realmente possuídas por qualquer outro príncipe cristão além deste meridiano antes do Natal de 1492. A bula Inter caetera resultaria no Tratado de Tordesilhas, editado em 1494.

 

O texto

 Alexandre, bispo, servo dos servos de Deus, aos ilustres soberanos, nosso muito querido filho em Cristo, Fernando, rei, e nossa mui querida filha em Cristo, Isabel, rainha de Castela, Leon, Aragão, Sicília e Granada, saúde e bênção apostólica. Entre outras obras bem agradáveis ​​à divina majestade e estimadas de nosso coração, esta seguramente ocupa o lugar mais alto, que em nossos tempos, especialmente, a fé católica e a religião cristã sejam exaltadas e sejam em todos os lugares aumentadas e divulgadas, que a saúde das almas seja cuidada e que as nações bárbaras sejam dominadas e trazidas à própria fé. Portanto, visto que, pelo favor da clemência divina, nós, embora com méritos insuficientes, fomos chamados a esta santa Sé de Pedro, reconhecendo que, como verdadeiros reis e príncipes católicos, como sempre soubemos que vocês são, e como seus ilustres feitos já conhecidos por quase todo o mundo declaram, vocês não apenas desejam ansiosamente, mas com todo esforço, zelo e diligência, sem levar em conta dificuldades, despesas, perigos, com o derramamento até mesmo de seu sangue, estão trabalhando para esse fim; reconhecendo também que vocês há muito dedicaram a esse propósito toda a sua alma e todos os seus esforços — como testemunhado nestes tempos com tanta glória ao Nome Divino na recuperação do reino de Granada do jugo dos sarracenos —, portanto, somos corretamente levados e consideramos nosso dever conceder-lhes, de nossa própria vontade e em seu favor, aquelas coisas pelas quais, com esforço cada dia mais intenso, vocês sejam habilitados para a honra do próprio Deus e a propagação da regra cristã, a levar adiante seu santo e louvável propósito, tão agradável ao Deus imortal.

Somos cientes, de fato, que vocês, durante muito tempo têm a intenção de procurar e descobrir certas ilhas e continentes remotos e desconhecidos e até então não descobertos por outros, com o fim de levar ao culto de nosso Redentor e à profissão da fé católica seus moradores e habitantes, tendo estado até o momento muito empenhados no cerco e recuperação do próprio reino de Granada, não puderam realizar este santo e louvável propósito; mas, tendo o referido reino finalmente sido reconquistado, como era do agrado do Senhor, vocês, com o desejo de realizar seu desejo, escolheram nosso amado filho, Cristovam Colombo, homem seguramente digno e das mais altas recomendações e apto para tão grande empreendimento, a quem forneceram navios e homens equipados para semelhantes projetos, não sem as maiores dificuldades, perigos e despesas, para fazer diligente busca por estes continentes e ilhas remotos e desconhecidos através do mar, onde até então ninguém havia navegado; e, finalmente, com ajuda divina e com a máxima diligência navegando no mar oceano, descobriram certas ilhas mui remotas e até mesmo continentes que até então não tinham sido descobertos por outros; onde moram muitos povos vivendo em paz e, como relatado, andando sem roupa e não comendo carne. Além disso, como seus enviados supracitados são da opinião, esses mesmos povos que vivem nessas referidas ilhas e países creem em um Deus, o Criador no céu, e parecem suficientemente dispostos a abraçar a fé católica e ser treinados nos bons costumes. Então, espera-se que, se eles forem instruídos, o nome do Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, será facilmente introduzido nos referidos países e ilhas. Além disso, em uma das principais dessas ilhas supracitadas, o dito Cristovam já fez com que fosse montada e construída uma fortaleza bastante equipada, onde ele instalou como guarnição certos cristãos, companheiros seus, que devem fazer buscas por outras ilhas e continentes remotos e desconhecidos.

Nas ilhas e países que foram descobertos são encontrados ouro, especiarias e muitas outras coisas preciosas de diversos tipos e qualidades. Portanto, como convém a reis e príncipes católicos, após consideração séria de todos os assuntos, especialmente da ascensão e disseminação da fé católica, como era o costume de seus ancestrais, reis de memória renomada, vocês se propuseram com o favor da clemência divina a conduzir sob seu domínio os referidos continentes e ilhas com seus residentes e habitantes e trazê-los à fé católica. Portanto, recomendando de coração no Senhor este seu santo e louvável propósito, e desejosos de que isso seja devidamente cumprido, e que o nome do nosso Salvador seja levado a essas regiões, nós os exortamos e, muito sinceramente no Senhor, pela sua recepção do santo batismo, pelo qual vocês estão vinculados aos nossos mandamentos apostólicos, e pelas entranhas das misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, ordenamos estritamente que, na medida em que com zelo ansioso pela verdadeira fé, vocês planejem equipar e despachar esta expedição, também proponham-se, como é seu dever, a liderar os povos que vivem nessas ilhas e países a receber a religião cristã; de modo que, em nenhum momento deixem que perigos ou dificuldades os impeçam desse propósito, com a firme esperança e confiança em seus corações de que Deus Todo-Poderoso promoverá seus empreendimentos.

E, para que entrem em tão grande empreendimento com maior prontidão e cordialidade, dotados do benefício do nosso favor apostólico, nós, por nossa própria vontade, não por causa de sua solicitação nem a pedido de qualquer outra pessoa a seu respeito, mas por nossa própria e única generosidade e conhecimento certo e da plenitude do nosso poder apostólico, pela autoridade de Deus Todo-Poderoso conferida a nós no bem-aventurado Pedro e pelo vigário de Jesus Cristo, que mantemos na terra, fazemos pelo teor destes presentes, caso alguma das referidas ilhas tenha sido encontrada por algum dos seus enviados e capitães, damos, concedemos e atribuímos a vocês e aos seus herdeiros e sucessores, reis de Castela e Leon, para sempre, juntamente com todos os seus domínios, cidades, acampamentos, lugares e aldeias, e todos os direitos, jurisdições e pertences, todas as ilhas e continentes encontrados e a serem encontrados, descobertos e a serem descobertos em direção ao oeste e ao sul, traçando e estabelecendo uma linha do polo Ártico, ou seja, o norte, ao polo Antártico, ou seja, o sul, não importa quer as ditas terras e ilhas se encontrem ou sejam encontradas na direção da Índia ou em direção a qualquer outro quadrante, estando a dita linha distante cem léguas para oeste e sul de qualquer uma das ilhas comumente conhecidas como Açores e Cabo Verde. No entanto, com esta condição de que nenhuma das ilhas e continentes, encontrados e a serem encontrados, descobertos e a serem descobertos, além daquela dita linha em direção ao oeste e ao sul, esteja na posse real de qualquer rei ou príncipe cristão até o aniversário de nosso Senhor Jesus Cristo, logo após o começo do qual o presente ano de mil quatrocentos e noventa e três.

E nós fazemos, nomeamos e delegamos você e seus referidos herdeiros e seus sucessores como senhores com pleno e livre poder, autoridade e jurisdição de todo tipo; com esta condição, no entanto, de que por esta nossa doação, concessão e cessão nenhum direito adquirido por qualquer príncipe cristão, que esteja na posse real das ditas ilhas e continentes antes do dito aniversário de nosso Senhor Jesus Cristo, deve ser entendido como retirado ou tirado. Além disso, ordenamos a vocês, em virtude da santa obediência, que, empregando toda a devida diligência nas instalações, como vocês também prometeram — e não duvidamos de sua concordância acerca disso, de acordo com sua lealdade e grandeza real de espírito — vocês devem nomear para os mencionados continentes e ilhas homens dignos, tementes a Deus, cultos, habilidosos e experientes, a fim de instruir os mencionados habitantes e residentes na fé católica e treiná-los nos bons costumes. Além disso, sob pena de excomunhão tardia a ser incorrida ipso facto, caso alguém assim infrinja, proibimos estritamente todas as pessoas de qualquer posição, mesmo imperial e real, ou de qualquer estado, grau, ordem ou condição, de ousar, sem sua permissão especial ou a de seus herdeiros e sucessores supramencionados, ir para fins comerciais ou qualquer outro motivo às ilhas ou continentes, encontrados e a serem encontrados, descobertos e a serem descobertos, em direção ao oeste e ao sul, traçando e estabelecendo uma linha do polo Ártico ao polo Antártico, não importando se os continentes e ilhas, encontrados e a serem encontrados, estão na direção da Índia ou em direção a qualquer outro quadrante, a referida linha deve estar distante cem léguas em direção ao oeste e ao sul, como é supracitada, de qualquer uma das ilhas comumente conhecidas como Açores e Cabo Verde; constituições e ordenanças apostólicas e outros decretos em contrário.

Confiamos naquele de quem impérios e governos e todas as coisas boas procedem, que, se vocês, com a orientação do Senhor, prosseguirem com este empreendimento santo e louvável, em pouco tempo suas dificuldades e esforços atingirão o resultado mais feliz, para a felicidade e glória de toda a cristandade. Mas, visto que seria difícil enviar estas cartas presentes para todos os lugares onde fosse desejável, queremos, e com acordo e conhecimento semelhantes decretamos, que para cópias delas, assinadas pela mão de um notário público comissionado para isso, e seladas com o selo de um oficial eclesiástico ou tribunal eclesiástico, o mesmo respeito seja mostrado no tribunal e fora dele, bem como em qualquer outro lugar, como seria dado a estes presentes, caso fossem assim exibidos ou mostrados. Portanto, que ninguém infrinja, ou com ousadia precipitada contrarie, esta nossa recomendação, exortação, requisição, doação, concessão, cessão, constituição, delegação, decreto, mandato, proibição e testamento. Se alguém presumir tentar isso, saiba que incorrerá na ira de Deus Todo-Poderoso e dos benditos apóstolos Pedro e Paulo. Dado em Roma, em São Pedro, no ano da encarnação de nosso Senhor mil quatrocentos e noventa e três, quatro de maio e o primeiro ano do nosso pontificado.


Graça por ordem do nosso mais santo senhor, o papa.

Junho. Referendado por J. Bufolinus, A. de Mucciarellis, A. Santoseverino, L. Podocatharus.



NOTA:

[1] A terceira dessas bulas, a bula Inter caetera, é reproduzida abaixo, em uma tradução para o inglês publicada em European Treaties bearing on the History of the United States and its Dependencies to 1648 por Frances Gardiner Davenport (Carnegie Institution of Washington, 1917, Washington, D.C.), nas pp. 75-78. O texto original em latim está no mesmo volume, nas pp. 72-75. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

 

31 agosto 2024

O culto público deve ser preferido aos devocionais privados

O Rev. David Clarkson pregou um sermão sobre a importância do culto público. Em seus dias, semelhantes aos de hoje, muitos cristãos creem ser suficiente viver o seu cristianismo em seu lar, de modo privado, sem exercer a comunhão com outros irmãos e sem participar do culto público. Ele enumera alguns possíveis motivos:
1. Talvez por individualismo: O que realmente importa é o que eu faço por mim mesmo, ou o que Deus me diz pessoalmente. 
2. Talvez por orgulho: "Eu posso cuidar de mim mesmo espiritualmente; não preciso de pastores, presbíteros, diáconos e outros líderes cristãos".
3. Para alguns, a tentação pode estar na autopreservação: Talvez, você tenha sido gravemente ferido por outros cristãos e queira se proteger se afastando do convívio da igreja. 
4. Para outros, pode ser arrogância: Você não gosta de ser confrontado acerca dos seus pecados; seus ouvidos coçando, querem ouvir apenas coisas boas, agradáveis ​​e encorajadoras. 
5. Talvez você seja um pouco introvertido e ache exaustivo e assustador estar entre as pessoas. Até as melhores igrejas são lugares confusos e frustrantes. Se você colocar muitos pecadores — mesmo pecadores que estão sendo santificados — em um só lugar, haverá problemas. As pessoas dirão coisas insensíveis, haverá perspectivas diferentes, haverá cristãos fracos e imaturos para lidar. Seria muito mais fácil ficar em casa e evitar completamente essa situação!

E, em seguida, oferece alguns argumentos para que, além do exercício particular de devocionais, os cristãos participem dos cultos públicos:

1. O Senhor é melhor glorificado pela adoração pública do que pela privada. Deus é glorificado por nós quando reconhecemos que ele é glorioso, e ele é mais glorificado quando esse reconhecimento é público.

2. Há mais da presença do Senhor na adoração pública do que na privada. Ele está presente com seu povo no exercício da adoração pública de uma maneira especial, mais eficaz, constante e intimamente.

3. Deus se manifesta mais claramente na adoração pública do que na privada. Por exemplo, em Apocalipse, Cristo é manifesto "no meio das igrejas".

4. Há mais vantagem espiritual na realização da adoração pública. Qualquer benefício espiritual que seja encontrado em deveres privados, isso e muito mais é esperado da adoração pública quando usada corretamente.

5. A adoração pública é mais edificante do que a privada. Em privado, você provê para o seu próprio bem, mas em público você faz o bem tanto para si mesmo quanto para os outros.

6. A adoração pública é uma segurança melhor contra a apostasia do que a privada. Aquele que carece ou rejeita a adoração pública, quaisquer que sejam os meios privados que ele desfrute, está em perigo de apostasia.

7. O Senhor opera suas maiores obras na adoração pública. Entre elas a conversão, regeneração, etc., e, geralmente, são realizadas por meio dos cultos públicos.

8. A adoração pública é a semelhança mais próxima do céu. Nas representações bíblicas do céu, não há nada feito em particular, nada em segredo, pois toda a adoração dessa gloriosa comunhão é pública.

9. Os mais renomados servos de Deus preferiram a adoração pública à privada. O Senhor não se retirou das ordenanças públicas, apesar de estarem corrompidas. A adoração pública era mais preciosa para os apóstolos do que sua segurança, liberdade e vidas.

10. A adoração pública é o melhor meio para obter as maiores misericórdias, bem como prevenir e remover os maiores julgamentos.

11. O precioso sangue de Cristo está mais interessado na adoração pública. A adoração privada era exigida e realizada por Adão e sua posteridade, mesmo em um estado sem pecado, mas a pregação pública do evangelho e a administração dos sacramentos têm uma dependência necessária da morte de Cristo.

12. As promessas de Deus são dadas mais à adoração pública do que à privada. Há mais promessas à adoração pública do que à privada, e mesmo as promessas que parecem ser feitas a deveres privados são aplicáveis ​​e mais poderosas para a adoração pública.


Adaptado do site The Banner of Truth Trust acessado em 31/08/2024. 


Obs.* Obviamente o autor não está reprovando o necessário exercício dos nossos devocionais diários e particulares, mas acentuando porque eles não são suficientes, e como o culto público é superior e mais completo para nos alimentar na nossa comunhão com Deus.


Sobre David Clarkson (1622-1686). Ele nasceu em Bradford, Yorksire, onde foi batizado em 3 de março de 1622. Tornou-se membro do Conselho do Clare Hall, Cambridge, onde foi tutor de muitos alunos; também trabalhou como pastor em Martlake, Surrey, até 1662 quando foi exonerado por inconformismo. Foi, por um período, assistente de John Owen em Londres, vindo a sucedê-lo após a morte de Owen, em 1683. Ele publicou diversos livros, as suas obras escritas somam 3 volumes.

17 agosto 2024

Jonathan Edwards era um presbiteriano?

 

Filadélfia, 12 de novembro de 1838.[1]

 

Rev. e Caro Senhor

 

Lembro-me, desde a última vez que o vi, que já foi publicado o fato, que então mencionei a você em conversa; e a respeito da qual você me solicitou que lhe fornecesse uma declaração por escrito. No Christian Advocate, o décimo volume – o volume para o ano de 1832, e no No. de março daquele ano, página 128 - depois de ter mencionado uma classe de congregacionais, que, em minha opinião, eram eminentes pela piedade genuína, acrescentei o seguinte:

"Deveríamos ter colocado aqui, o nome do grande Presidente Edwards; mas ele era, em termos de sentimento, um presbiteriano decidido, e deixou um manuscrito em favor do governo da igreja presbiteriana, pois seu filho, o segundo Presidente Edwards, admitiu-nos claramente, não muito antes de sua morte, como membro do Presbitério New Brunswick, no momento da sua morte, ou teria sido em breve, se a sua lamentada morte, pouco depois de se tornar presidente do Colégio de Princeton, não tivesse sido evitada."[2]

 

A admissão referida no extrato anterior foi realizada em consequência de uma consulta feita, por mim, ao Dr. Edwards,[2] enquanto ele e eu caminhávamos juntos para o local de reunião da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana, então em reunião nesta cidade. Não me lembro do ano. Eu tinha ouvido um relato, que creio ter vindo do meu pai ou do meu colega Dr. Sproat, ambos contemporâneos e admiradores do primeiro Presidente Edwards - que ele havia escrito um tratado, ou um ensaio, em favor do governo da igreja presbiteriana; e fiquei feliz em aproveitar a oportunidade que naquele momento se oferecia para averiguar de seu filho a veracidade ou falácia do relatório. A investigação resultou na clara admissão de que o relato que ouvi era verdadeiro.

 

Falei com o Dr. Edwards, da possibilidade de imprimir o tratado ou ensaio em questão; mas, ele não pareceu gostar da ideia e evitei pressioná-lo. Ele disse que o manuscrito mencionado estava entre vários outros artigos inéditos de seu pai, que, pelo que entendi, estavam então em suas mãos. Mas, é desconhecido para mim a cujas mãos passaram, desde a morte do Dr. Edwards.

 

Respeitosamente e carinhosamente, seu,

Ashbel Green[4] 


NOTA:

[1] A seguinte carta do Rev. Dr. Ashbel Green apareceu originalmente na The Baltimore Literary and Religious Magazine, uma publicação editada por Robert J. Breckinridge. E, posteriormente, foi reimpressa no The Presbyterian, e esse texto é aqui reproduzido.

[2] Ashbel Green, "Was Jonathan Edwards a Presbyterian?" The Presbyterian (12 de janeiro de 1839): 201.

[3] O Dr Ashebel Green refere-se ao Presidente Jonathan Edwards Jr. 

[4] Do site https://www.pcahistory.org/documents/presbyterianedwards.html acessado em 17/08/2024.


19 junho 2024

A Escritura Sagrada acima da Tradição

Vincent de Lérins [faleceu em 445 d.C.] escreveu a obra Commonitorium, c. 434, que oferece orientação no ensino ortodoxo do Cristianismo. Os católicos romanos alegam usar o tríplice critério da tradição [universitatem, antiquitatem et consensionem] que declara teneamus quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est [tenhamos o que foi sempre crido em outros locais e por todos]. Vincent de Lérins no início do Commonitorium declara que

tantas vezes tenho feito perguntas sérias e diligentes a homens notáveis ​​pela sua santidade e erudição, procurando distinguir, por alguma regra segura e, por assim dizer, universal, entre a verdade da fé católica e a falsidade da perversidade herética, eu receberia de quase todos a seguinte resposta: Se eu ou qualquer outra pessoa desejasse desmascarar as fraudes dos hereges à medida que elas surgem, e evitar suas armadilhas, e com fé saudável permanecer sãos e íntegros, nós, com a permissão do Senhor, auxiliados e fortalecidos duplamente a nossa própria fé, primeiro, é claro, isso seria pela autoridade da lei divina e, segundo, pela tradição da Igreja Católica. [Vincent of Lerins: The Commonitory in: George E. McCracken, ed., Early Medieval Theology, p. 37]

Assim, a autoridade da Bíblia, a qual ele chama de autoridade da lei divina, antecede como critério de ortodoxia cristã à tradição. Os protestantes subscrevem o critério de Vincent de Lérins, não os papistas.