1. O que
é um sacramento?
“Sacramento”
é uma cerimônia instituída no Evangelho para servir de testemunho da promessa
que pertence ao Evangelho, isto é, a promessa de reconciliação ou graça.[1]
2. Qual
é a diferença entre um sacramento e um sacrifício?
Um
sacramento é uma cerimônia ou obra na qual Deus nos apresenta aquilo que a
promessa associada à cerimônia oferece.[2] Um sacrifício é uma cerimônia ou
obra nossa que prestamos a Deus para honrá-lo; isto é, testemunhamos que
reconhecemos aquele a quem obedecemos como o verdadeiro Deus e, por essa razão,
lhe prestamos tal obediência.[3]
3. O que
é a Ceia do Senhor?
É a
comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecida nas
palavras do Evangelho.[4]
4. Onde
essas palavras estão escritas?
A
cerimônia é descrita por Mateus, Marcos, Lucas e Paulo.[5]
“Nosso
Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado
graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomem e comam; isto é o meu
corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim.
“Da
mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice e, tendo dado graças, deu-lho,
dizendo: ‘Bebam dele todos vocês; este cálice é a nova aliança no meu sangue,
que é derramado por vocês para remissão dos pecados. “Fazei isto, sempre que o
beberdes, em memória de mim” (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19-20; 1Co 11.23-25).
5. O que
cremos por meio dessas palavras?
Neste sacramento,
o Filho de Deus está verdadeiramente e substancialmente presente.[6] Por meio
deste ministério, Ele dá Seu próprio corpo e sangue àqueles que comem e bebem,
e testifica que aplica Seus benefícios graciosos aos crentes.[7]
6. Qual
o significado de “fazei isto em memória de mim”?
Pronunciamos
sua Palavra sobre o pão e o vinho e os distribuímos entre a congregação.[8]
Vocês não devem ouvir as palavras humanas da Ceia de outra forma senão como se
estivessem ouvindo o próprio Cristo falando com vocês.[9] Ele nos ordena a
fazer o que foi instituído, a saber: “tomem, comam e bebam disto, todos
vocês”.[10] É um sacramento quando todas as causas coincidem e a intenção de
seu propósito, para o qual foi instituído, é observada.[11]
7. Isso
deve ser entendido como um espetáculo vazio ou uma comemoração?
Este não
é um espetáculo vazio, e não devemos imaginar que seja um memorial a um homem
morto, como os espetáculos em honra de Hércules e outros semelhantes. Devemos
rejeitar essas noções profanas. Cristo está verdadeiramente presente não apenas
com a sua eficácia, mas também com a sua substância.[12]
8. De
que maneira Cristo está presente corporalmente no sacramento?
Alguns
querem encerrar Cristo no pão por diversos meios, conversão, transubstanciação
ou ubiquidade, mas tais noções contrárias à natureza eram desconhecidas dos
antigos doutores.[13] Embora não sustentemos a transubstanciação, nem
defendamos que o corpo e o sangue de Cristo estejam local ou espacialmente
encerrados no pão ou de qualquer outra forma permanentemente unidos a ele fora
da participação no sacramento, reconhecemos, contudo, que, mediante a união
sacramental, o pão é o corpo de Cristo; isto é, quando o pão é oferecido, o
corpo de Cristo está, ao mesmo tempo, presente e verdadeiramente oferecido.[14]
9. Quais
são os benefícios de comer?
O
benefício principal é confirmar a fé por meio deste testemunho e estabelecer
que, por este penhor ou selo, o próprio Filho de Deus assegura a você que Ele
lhe aplica os seus benefícios.[15] Pois aqui, no sacramento, a remissão dos
pecados é oferecida e aplicada ao crente.[16]
10. Quem
se aproxima dignamente da Ceia?
Aqueles
que se aproximam dignamente são os que se arrependem sinceramente. Instruídos
pelo testemunho e pela promessa da nova aliança, eles fortalecem a sua fé.[17]
Por meio desse ato de comer, a pessoa recebe o sacramento e obtém a remissão
dos pecados e o Espírito Santo.[18]
11. O
que recebem aqueles que comem de modo indigno?
Aqueles
que não possuem o temor de Deus e fé, ou arrependimento e fé, e persistem
conscientemente em pecados contrários à consciência, são indignos de comer.[19]
O ato de comer não traz benefício algum àqueles que não estão arrependidos e
continuam em seus pecados contra a consciência.[20] No entanto, visto que o
corpo e o sangue de Cristo estão verdadeira e substancialmente presentes e são
verdadeiramente distribuídos juntamente com o pão e o vinho, o corpo e o sangue
de Cristo são também verdadeiramente oferecidos aos indignos. Mas estes os
recebem para juízo, como diz são Paulo.[21]
12. Quem
pode ser admitido à Ceia?
O sacramento
é disponibilizado àqueles que desejam participar dele, após terem sido
examinados e absolvidos.[22] Cabe aos pastores avaliar a doutrina e a fé dos
indivíduos dentre o povo.[23] Pois o povo participa dele, mas somente após ter
sido instruído e examinado.[24]
13. De
que modo a Ceia pode ser profanada?
É uma
profanação manifesta transportar parte da Ceia do Senhor para adorá-la;[25] bem
como afirmar que se está oferecendo o Filho de Deus pelos vivos e pelos mortos.
Mas Cristo diz: “tomai e comei” (Mt 26.26).[26] Deve-se manter como regra: nada
possui a natureza de sacramento fora do uso instituído por Deus.[27] Isto é,
não constitui um sinal de graça agradável a Deus quando algo é estabelecido
fora ou à parte da Palavra de Deus, ou quando a cerimônia é transformada em uma
obra de natureza diversa, isto é, quando se propõe um propósito diferente
daquele estabelecido por Deus.[28] Contudo, no uso ordenado, Cristo está
presente nesta comunhão, verdadeira e substancialmente, e o corpo e o sangue de
Cristo são, de fato, dados àqueles que a recebem.[29]
14. Como
devemos lidar com as controvérsias na Igreja Luterana acerca da Ceia?
Devem-se
proibir as contendas de ambos os lados e utilizar uma única e mesma forma de
palavras.[30] Nesta controvérsia, o melhor seria conservar as palavras de
Paulo: “O pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo” (1Co 10.16).[31]
Ele não diz que a natureza do pão é alterada, como afirmam os papistas. Ele não
diz que o pão é o corpo substancial de Cristo. Ele não diz que o pão é o
verdadeiro corpo de Cristo, mas que é uma koinōnian (comunhão), isto é, uma
união com o corpo de Cristo, a qual ocorre no uso.[32]
Notas:
[1] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559: Second
English Edition (St. Louis: Concorida, 2011), p. 255. Ap XIII.3-4.
[2] Robert Kolb, Timothy J. Wengert, and Charles P.
Arand, The Book of Concord: The Confessions of the Evangelical Lutheran Church
(Minneapolis, MN: Fortress Press, 2000), Ap XXIV.18.
[3] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 279.
Cf. “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis,” Corpus
Doctrinae Christinae, p. 724. Ap XXIV.18.
[4] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante
Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1 cf. 1Corintios 10.16.
[5] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.
[6] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante
Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap 10.1, 4
[7] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 271.
Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in
Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1
[8] Philip Melanchthon, Melanchthon on Christian
Doctrine: Loci Communes 1555, trans. Clyde L. Manschreck (New York: Oxford
University Press, 1965), p. 218.
[9] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.
[10] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis”
in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804. Ap XXIV.71; XXII.3
[11] Philip Melanchthon, "De
Transsubstantiatione" In Corpus Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb
Bretschneider, vol. IV, (Balis Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1837), p. 264.
[12] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. xx.
Ap XXIV.72
[13] Philip Melanchthon, "Responsio Philip.
Melanth. ad quaestionem de controversia Heidelbergensi" in: Corpus
Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb Bretschneider, Vol. IX, (Balis
Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1841), p. 963.
[14] Philip Melanchthon, “Appendix 3: The Wittenberg
Concord, 1536” in: The Wittenberg Concord: Creating Space for Dialogue
(Minneapolis: Fortress Press), p. 191.
[15] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante
Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 723.
[16] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 273.
[17] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, pp. 273-274.
[18] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 274.
[19] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.
[20] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.
[21] Ap X.1. Melanchthon, The Wittenberg Concord, p. 192.
[22] Melanchthon, Ap XXIV.1
[23] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.
[24] Melanchthon, Ap XXIV.49.
[25] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae”
in Corpus Doctrinae Christinae, p. 266.
[26] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.
[27] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis”
in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804.
[28] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.
[29] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae”
in Corpus Doctrinae Christinae, p. 263.
[30] Melanchthon, CR IX.964.
[31] Melanchthon, CR IX.963.
[32] Melanchthon, CR IX.962.
Sobre o autor:
O Rev. Matthew Fenn é pastor associado da Ascension
Lutheran Church em Waterloo, Iowa, e reitor do American Lutheran Theological
Seminary. Ele e sua esposa, Laurin, têm cinco filhos.