30 maio 2024

As duas novidades na doutrina da eucaristia segundo a Igreja Católica Romana

           A novidade da transubstanciação

A Igreja Católica Romana crê na doutrina eucarística da transubstanciação. Isso significa que a hóstia após o ato da consagração se transforma verdadeira, real e substancialmente no corpo e sangue de Cristo. Os papistas definiram a sua doutrina no Concílio de Trento (1545-1563). Esse concílio declarou que

disse Jesus Cristo nosso Redentor, que era verdadeiramente seu corpo que o oferecia sob a espécie do pão, a igreja de Deus acreditou perpetuamente e, também, declara novamente o santo concílio que pela consagração do pão e do vinho, são convertidas: a substância total do pão no corpo de nosso Senhor, e a substância total do vinho no sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, e essa transformação é oportuna e propriamente chamada de transubstanciação pela igreja católica.[1]

Quanto à doutrina da presença real de Jesus Cristo nosso Senhor na eucaristia, o concílio decretou que

claramente, e sinceramente confessa que depois da consagração do pão e do vinho, fica contido no saudável sacramento da santa eucaristia, verdadeira, real e substancialmente nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e homem, sob as espécies daqueles materiais sensíveis, pois não existe com efeito, incompatibilidade que o mesmo Cristo nosso salvador esteja sempre sentado, no céu, à direita do Pai, segundo o modo natural de existir e que ao mesmo tempo nos assista sacramentalmente com Sua presença, e em sua própria substância em outros lugares, com existência que ainda que apenas o possamos expressar com palavras, poderemos, não obstante, alcançar com nosso pensamento ilustrado pela fé, que é possível a Deus, e devemos firmemente acreditar. Assim pois, professaram clarissimamente todos os nossos antepassados que viveram a verdadeira Igreja de Cristo, e trataram deste santíssimo e admirável sacramento, a saber: que nosso Redentor o instituiu na última ceia, quando depois de ter benzido o pão e o vinho, atestou a seus apóstolos, com claras e enérgicas palavras que lhes dava seu próprio corpo e seu próprio sangue. E sendo fato consumado que as ditas palavras mencionadas pelos mesmos santos evangelistas e repetidas depois pelo apóstolo são Paulo, incluem em si mesmas aquele próprio e patentíssimo significado, segundo as entenderam os santos pais, é sem dúvida execrável a maldade com que certos homens pretensiosos e corruptos as distorcem, violentam e tentam explicar em sentido figurado, fictício ou imaginário, negando a realidade da carne e sangue de Jesus Cristo contra a inteligência unânime da Igreja, que sendo coluna e apoio da verdade, sempre detestou por serem diabólicas estas ficções expressas por homens ímpios e sempre conservou indelével a memória e gratidão deste tão sobressalente benefício que nos fez Jesus Cristo.[2]

A novidade de dar apenas a hóstia

O rito papista prescreve que somente a hóstia seja dada aos participantes.[3]  O Concílio de Trento, na sessão XXI, realizada sob o papado de Pio IV, em 16 de julho de 1562, ratificou a decisão do Concílio de Constança, declarando que

tendo presente o sacrossanto, ecumênico e geral Concílio de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos mesmos legados da Sé Apostólica, os vários e monstruosos erros que pelos malignos artifícios do demônio aparecem em diversos lugares acerca do imenso e santíssimo sacramento da eucaristia, pelos quais, parece que em algumas províncias, muitos se apartaram da fé e obediência à Igreja Católica, teve por bem expor agora a doutrina respectiva da comunhão em ambas as espécies e a comunhão das crianças. [...] Em continuidade, o mesmo Santo concílio, ensinado pelo Espírito Santo, que é o Espírito de sabedoria, inteligência, conselho e piedade, e seguindo o ditame do costume da Igreja, declara e ensina que os leigos e os clérigos que não celebram a missa, não estão obrigados, por preceito divino algum, a receber o sacramento da eucaristia sob as duas espécies, e que não cabe, absolutamente, dúvida nenhuma, sem faltar à fé, que lhes basta, para conseguir a salvação, a comunhão de apenas uma das espécies. Pois, ainda que Cristo, nosso Senhor, tenha instituído na última ceia este venerável sacramento nas espécies do pão e do vinho, e o tenha dado a seus apóstolos, sem dúvida, não tem por finalidade aquela instituição e comunhão estabelecer a obrigação de que todos os fiéis cristãos devam receber devido a esse estabelecimento de Jesus Cristo, uma e outra espécie. [...] Portanto, reconhecendo a santa mãe igreja essa autoridade que tem na administração dos sacramentos, mesmo tendo sido frequente o uso de comungar sob as duas espécies, desde o princípio da religião cristã, porém verificando, em muitos lugares, com o passar do tempo, a mudança nesse costume, aprovou, movida por muitas graves e justas causas, a comunhão sob uma só espécie, decretando que isso fosse observado como lei, a qual não é permitido mudar ou reprovar arbitrariamente sem a autorização expressa da igreja. [...] Declara o santo concílio depois disto, que ainda que nosso Redentor, como já disse antes, instituiu na última ceia este Sacramento nas duas espécies, e o deu a seus apóstolos, se deve confessar, porém, que também se recebe em cada uma única espécie a Cristo todo e inteiro e verdadeiro sacramento. E, que, por conseguinte, as pessoas que recebem uma única espécie, não ficam prejudicadas a respeito do fruto de nenhuma graça necessária para conseguir a salvação.[4]

 A igreja romana ratificou em seus concílios posteriores a sua compreensão dogmática acerca da eucaristia. Nenhuma mudança significativa ocorreu nos concílios Vaticano e Vaticano II que mereça referência.

         Todos os reformadores rejeitaram a doutrina papista. Eles foram unânimes em reprovar o ensino da Igreja Romana, pois não encontraram nela fundamento bíblico, nem respaldo na própria tradição da igreja e ainda porque ela resulta em superstição. O dogma eucarístico nem sempre foi ensinado pelo critério adotado pelos próprios papistas, pois segundo a regra proposta por Vicent de Lérins[5] um dogma é estabelecido se teneamus quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est,[6] não consegue ser provada no caso desta doutrina. O tríplice critério universitatem, antiquitatem, consensionem reprova a transubstanciação, porque antes do Concílio de Trento não havia universalidade, antiguidade nem consenso quanto ao ensino desta doutrina no cristianismo ocidental até o século XII e continuou sendo questionada até o século XVI.[7] Assim, a Igreja Romana ensina e pratica uma novidade eucaristica que não era aceita universalmente no final da Idade Média e que somente foi dogmatizada num concílio de Contrarreforma.

 

Notas:

[1] Canones et Decretal Dogmatica Concilii Tridentini in: Philip Schaff, ed., The Creeds Christendom – with a history and critical notes, vol. 2, p. 130. Thomas A. Baima comenta que “os teólogos católicos explicam a conversão por meio de um tecnicismo chamado adução. Adução significa que Cristo vem ao sacramento sem deixar o céu, e sua presença se faz efetiva em milhares de lugares. Esta explicação responde a um número de objeções à doutrina da transubstanciação. Isso é muito importante para a compreensão católica do sacramento. Um sacramento é um sinal que dá lugar ao que significa. Isso significa que os acidentes não são acidentais. O sinal de comer e beber – sinais de alimentação – e a unidade dos elementos com nossos corpos dá lugar ao significado: o alimento espiritual e a unidade com Cristo”. Thomas A. Baima, “El punto de vista católico romano” in: John H. Armstrong, ed., Cuatro puntos de vista sobre la santa cena, p. 129.

[2] Canones et Decretal Dogmatica Concilii Tridentini in: Philip Schaff, ed., The Creeds Christendom – with a history and critical notes, vol. 2, pp. 126-127. Ludwig Ott observa que “as três expressões veré, realiter, substantialiter são dirigidas especialmente contra as teorias de Zwingli, Oecolampadio e Calvino, e excluem todas as interpretações metafóricas que pudessem ser dadas às palavras da instituição.” Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, p. 555.

[3] A decisão ocorreu no Concílio de Constança, que é o 16º ecumênico, de 5 novembro de 1414 a 22 abril de 1418, na sessão 13ª, de 15 junho de 1415, no Decreto Cum in nonnullis, confirmado pelo Papa Martinho V, em 1 setembro de 1425. Este decreto é repetido nas constituições de In eminentis de 1 setembro de 1425 (BarAE, ao ano de 1425, n. 18 / Theiner 28,27) e Apostolicae sedis praecellens de 25 de janeiro de 1426, declarando que “em algumas partes do mundo, alguns ousam temerariamente afirmar que o povo cristão deve receber o santo sacramento da Eucaristia sob as duas espécies do pão e do vinho e fazem comungar em geral a assembleia dos leigos não só com a espécie do pão, mas também com a do vinho, inclusive depois da refeição ou doutro modo sem jejum. Eles sustentam obstinadamente que este é o modo de se comungar, opondo-se ao louvável costume da Igreja, justificado também racionalmente, que de modo condenável procuram reprovar como sacrílego: por isso, este Concílio … declara, decreta e define que, se bem que Cristo tenha instituído e administrado depois da refeição aos apóstolos este venerando sacramento sob ambas as espécies do pão do vinho, não obstante isso, a admirável autoridade dos sagrados cânones e o autorizado costume da Igreja têm declarado e declaram que este sacramento não deve ser administrado depois da refeição nem a fiéis que não estão em jejum, salvo no caso de doença ou de outra necessidade, concedido ou admitido pelo direito ou pela Igreja. E como este costume foi introduzido, com razão, para evitar perigos e escândalos, com análoga ou maior razão foi introduzido e observado este outro: se bem que na Igreja primitiva este sacramento era recebido pelos fiéis sob ambas as espécies, mais tarde, porém, era recebido pelos consagrantes sob ambas as espécies, mas pelos leigos somente sob a espécie do pão, pois é preciso crer com toda a firmeza e sem sombra de dúvida que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos, na sua integridade, tanto sob a espécie do pão, como sob a do vinho. Portanto, visto que foi introduzido com boa razão pela Igreja e pelos santos Padres e observada durante muitíssimo tempo, este costume deve ser considerado como uma lei que não pode ser reprovada nem modificada arbitrariamente, sem o consentimento da Igreja. É errôneo sustentar que a observância deste costume ou lei é sacrílega ou ilícita; e os que se obstinam em sustentar o contrário devem ser tratados como hereges ...”. Heinrich Denzinger & Petrus Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral, pp. 347-348. A igreja oriental, em distinção da igreja romana, distribui ambos os elementos a todos os participantes na realização da eucaristia. Veja E.H. Klotsche, Christian Symbolic, p. 47.

[4] Canones et Decretal Dogmatica Concilii Tridentini in: Philip Schaff, The Creeds of Christendom - with a history and critical notes, vol. 2, pp. 170-176.

[5] Ele faleceu em 445 d.C..

[6] Ou seja: asseguremos que seja crido em outros locais, sempre e por todos. Reginald Stewart Moxon, ed., The Commonitorium of Vincentius of Lerins, p. xxxii.

[7] O teólogo romano Ludwig Ott explica que “a palavra transsubstantiatio, resp. transsubstantiare, foi criada pela teologia do século XII (Mestre Rolando [que mais tarde foi papa com o nome de Alexandre III] até 1150, Estevan de Tournai até 1160, Pedro Comestor 1160-1170), e é usada oficialmente pela vez primeira em um decreto (1202) de Inocêncio III e no Caput Firmiter do Concílio IV de Latrão.” Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, p. 562. A transubstanciação somente foi aprovada definitivamente no Concílio de Trento, na sessão XIII, realizada sob o papado de Júlio III, em 11 de outubro de 1551. Bem como é recente o rito em que ambos os elementos, pão e vinho, são comidos pelo clero, enquanto o fiel católico comum recebe apenas a hóstia. Esta prática é estranha ao cristianismo oriental e outros grupos cristãos no mundo, tendo iniciado pela igreja ocidental no século XV, e sendo rejeitada pelos pré-reformadores e reformadores.


24 maio 2024

Esposas de Presbíteros por Iver Martin

 

Não deveria ser surpresa que as esposas dos líderes da igreja recebam tal destaque em 1Tm 3. Quando o Senhor chama um homem para a liderança, Ele chama sua esposa para acompanhá-lo e apoiá-lo. O papel de “auxiliadora” em Gn 2.20 pressupõe uma tarefa para a qual o homem precisa de assistência. Ele não pode fazê-lo sozinho; portanto, Deus providencia uma companheira humana perfeita. As habilidades dela não são as mesmas que as dele, mas ela será parte do que ele precisa para cumprir a missão que Deus lhe deu. É evidente, a partir de 1Tm 3.11, que esse duo “complementarista” se manifesta na igreja, onde, ao compartilhar com sua esposa, um presbítero pode se beneficiar de uma perspectiva mais detalhada que seria tolice desprezar. Ele pode deixá-la quando vai a uma reunião de presbíteros, mas, na maior parte do tempo, enquanto cumpre suas responsabilidades regulares, ela está ao seu lado desempenhando um papel vital. Deus uniu presbíteros e diáconos a esposas que os complementam em caráter e dons.

Se assumirmos, por boa e necessária consequência, que as virtudes femininas listadas em 1Tm 3.11 se aplicam tanto às esposas dos presbíteros quanto às dos diáconos, as qualidades buscadas devem ser idênticas em ambos os grupos de esposas. A mesma passagem-chave também revela que as qualidades combinadas requeridas em presbíteros, diáconos e suas esposas são notavelmente semelhantes. Em vez de dissecar cada atributo conforme é atribuído ao presbítero, diácono ou esposa respectiva, talvez uma perspectiva mais holística de 1Tm 3 seja o reconhecimento de um grande e glorioso quadro da “casa de Deus”, supervisionada por um grupo de homens escolhidos, juntamente com suas esposas, para servir em um cuidado pastoral contínuo e natural. A solteirice não é impedimento para o presbiterato (na verdade, em algumas circunstâncias, é uma vantagem); no entanto, em geral, “melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho” (Ec 4.9).

As qualidades delas podem ser detalhadas em quatro descrições: “respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo” (1Tm 3.11). A respeitabilidade esperada de uma esposa de presbítero não é menor do que a esperada de seu marido: ambas devem ser exemplos de maturidade no Senhor, conduzindo-se de maneira paciente e cristã. Tal comportamento é mais evidente em momentos de tensão, quando há a tentação de reagir impulsivamente. O comportamento consistente dos oficiais e de suas esposas muitas vezes fará a diferença entre unidade e desintegração, paz ou inquietação.

O presbítero e sua esposa também serão discretos, “não maldizentes” (1Tm 3.11), o que obviamente significa que suas palavras são de extrema importância. É sempre sóbrio lembrar que uma conversa impensada ou um boato ocioso pode significar a diferença entre unidade ou ruína. O dano que pode ser causado até mesmo à comunidade mais vibrante por um comentário descuidado é incalculável. À medida que os presbíteros e suas esposas interagem com outros, a discrição significa o discernimento para saber o que falar, quando falar e quando ficar em silêncio.

Devido à sua posição na igreja, um presbítero ocasionalmente terá acesso a informações sensíveis. A questão da confidencialidade é complexa e deve ser abordada através da política dos presbíteros, discernimento prudente e bom senso piedoso. Há, é claro, situações extremamente delicadas que é preferível não compartilhar, mas essas devem ser óbvias, e uma esposa perspicaz ficará satisfeita em não ser informada sobre o que é considerado imprudente divulgar.

Felizmente, tais situações são raras. Na prática, problemas potencialmente difíceis normalmente podem ser resolvidos antecipadamente através da interação natural, enquanto a liderança, com o apoio de suas esposas, encara seriamente a responsabilidade de oferecer um cuidado pastoral significativo, sendo um modelo visível de casamento cristão consistente. A disciplina eclesiástica saudável não começa quando acusações são formalizadas, mas acontece de forma natural e regular durante almoços e cafés, onde palavras sábias podem fazer a diferença entre cura e dano, crescimento e retrocesso. Nessas situações preventivas, a contribuição única das esposas é absolutamente indispensável.

As esposas também são chamadas, juntamente com seus maridos (1Tm 3.3), a serem “sóbrias”. Essa qualidade descreve um estado de mente claro e equilibrado, especialmente em desafios imprevistos e difíceis, onde um equilíbrio crucial precisa ser alcançado pelo encontro de duas perspectivas. As esposas muitas vezes podem oferecer a avaliação objetiva e equilibrada que é vital para um discernimento “sóbrio”.

Da mesma forma, uma esposa que demonstra “fidelidade em tudo” compartilhará ativamente a visão pastoral de seu marido para a igreja e sua genuína e profunda preocupação com as pessoas em sua comunidade. Juntos, eles proporcionarão a estabilidade e a confiabilidade necessárias para manter o foco na centralidade da igreja e no que ela representa.

Nas complexidades da igreja contemporânea, a sabedoria combinada de um marido e esposa, geralmente, é essencial para fornecer conselhos equilibrados, especialmente em questões relacionais. Embora os homens sejam designados para “ofícios” específicos de liderança, seria um homem tolo aquele que não ouvisse atentamente a sabedoria da esposa piedosa que Deus lhe deu como parceira na obra do evangelho.

Finalmente, é importante lembrar que as esposas, frequentemente, suportam as tensões indiretas que inevitavelmente surgem das dificuldades relacionadas à liderança da igreja. Além disso, independentemente dos sacrifícios exigidos daqueles no ministério, as esposas, muitas vezes, estão dispostas a fazer sacrifícios ainda maiores, colocando de lado seus próprios interesses e confortos para apoiar seus maridos. Deus vê sua firmeza e paciência e lhes assegura que seu trabalho não é em vão no Senhor.

 

Sobre o autor: Pb. Iver Martin é diretor do Edinburgh Theological Seminary, na Escócia, e atua como presbítero regente na Igreja de Esk Valley, em Midlothian, Escócia.

Traduzido por Pb. Caio Jorge, presbítero na 4ª IPB de Boa Vista – RR.

Revisado por Pr Ewerton B. Tokashiki

Texto de https://tabletalkmagazine.com/article/2021/02/wives-of-elders/

27 abril 2024

5 Razões para obedecer aos Dez Mandamentos

por Kevin DeYoung

 

Os dez mandamentos não devem ser ignorados. É importante que os estudemos e compreendamos. Mas, é claro, é mais importante que nós os obedeçamos. Deus não fica impressionado com uma análise intelectualmente cuidadosa que coloca o Decálogo no centro do discipulado cristão. Ele requer que os discípulos realmente sigam esses mandamentos.

Mas que seja pelas razões corretas. É necessário muito esforço para obedecer aos Dez Mandamentos da motivação errada e para o fim errado é uma maneira infalível de viver nosso relacionamento com Deus de maneira errada. Deus deu os mandamentos para que eles fossem obedecidos - não para se obter a salvação, mas por causa de quem somos, quem é Deus em si mesmo, quem ele é para nós, onde estamos e o que ele fez.

 

Razão 1: Quem somos

Não perca o óbvio: Êxodo 19 vem antes de Êxodo 20. Deus já identificou os israelitas como "um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Êx 19.6). Eles são um povo separado. Isso também é verdade a nosso respeito. Como cristãos, nós também somos um reino de sacerdotes e uma nação santa (1Pe 2.9). Precisamos estar preparados para ficarmos sozinhos, para parecermos diferente e termos regras que o mundo não entende. Claro, nem sempre somos as pessoas santas que deveríamos ser, mas é o que ele nos chamou para que sejamos. É quem somos. Somos o povo de Deus, separados para viver de acordo com os caminhos de Deus.

 

Razão 2: Quem é Deus em si mesmo

Os versículos de abertura em Êxodo 20 não são apenas um preenchimento antes que os mandamentos comecem serem declarados. Eles estabelecem quem é Deus e por que devemos obedecê-lo. No verso 2, Deus se revela novamente como “o SENHOR”, isto é, como o SENHOR, seu Deus que guarda a aliança. Este é o Deus que falou com Moisés na sarça ardente. Este é o Deus que disse: "Eu sou quem Eu sou" (Êxodo 3:14). Este é o Deus criador soberano, autoexistente, autossuficiente e todo-poderoso. Este é o Deus das pragas e do Mar Vermelho e do maná no deserto. Este não é um Deus com quem se pode brincar. Se existe um Deus, e se ele é algo como o Deus revelado a nós nas Escrituras, então seria extremamente presunçoso, tolo e (por todas as razões) perigoso para nós sintetizar o nosso próprio código ético.

A lei é uma expressão do coração e do caráter do Legislador. Devemos pensar sobre isso antes de dizermos: "Não me importo com as leis" ou antes de sermos ríspidos com a ideia de "cumpri-las" ou "não". Os mandamentos não apenas nos mostram o que Deus quer; eles nos mostram como Deus é. Eles dizem algo sobre a sua honra, o seu valor e a sua majestade. Eles nos dizem o que importa para Deus. Não podemos desdenhar a lei sem desrespeitar o Legislador.

 

Razão 3: Quem é Deus para nós

O Deus dos Dez Mandamentos é revelado não apenas como o Senhor, mas como o "Senhor seu Deus" (Êx 20.2). Somos sua possessão preciosa (Êx 19.5; 1Pe 2.9). Este Deus de poder absoluto não é um tirano caprichoso, nem uma deidade excêntrica que exerce autoridade crua e desenfreada sem qualquer consideração por suas criaturas. Ele é um Deus pessoal e, em Cristo, ele sempre é a nosso favor (Rm 8.31). Seria assustador até o ponto da morte, se Deus trovejasse dos céus: "Eu sou o Senhor!" Mas a autorrevelação divina não para por aí. Ele continua acrescentando: “... seu Deus.” Ele está do nosso lado. Ele é o nosso Pai. Ele nos dá ordens para o nosso bem.

 

Razão 4: Onde estamos

A definição bíblica de liberdade não é “fazer o que você quiser”. A liberdade está em aproveitar os benefícios de fazermos o que devemos. Muitas vezes pensamos que os Dez Mandamentos nos restringem - como se os caminhos de Deus nos mantivessem em servidão de realizarmos os nossos sonhos e alcançarmos o nosso potencial. Esquecemos que Deus significa nos dar vida abundante (Jo 10.10) e verdadeira liberdade (Jo 8.32). As suas leis, 1Jo 5.3 nos diz que, não são pesadas.

Você acha que é pesaroso ter Dez Mandamentos? Você sabe quantas leis existem nos Estados Unidos? É uma pergunta complicada, porque ninguém sabe! Existem 20.000 leis nos livros que regulam apenas a posse de armas. Em 2010, cerca de 40.000 novas leis foram adicionadas em vários níveis em todo o país. O Código dos Estados Unidos, que contém apenas os princípios teóricos de leis federais e não inclui estatutos reguladores, tem mais de 50 volumes. Em 2008, um comitê da Câmara pediu ao Serviço de Pesquisa do Congresso para calcular o número de infrações penais na lei federal. Eles responderam, cinco anos depois, que lhes faltavam recursos humanos e recursos para responder a essa pergunta.

            Deus não está tentando nos esmagar com burocracia e regulamentos. Os Dez Mandamentos não são barras de prisão, mas leis de trânsito. Talvez existam alguns anarquistas que pensam: o mundo seria um lugar melhor sem nenhuma lei de trânsito. Mesmo que você fique impaciente no sinal vermelho, acelere no amarelo e vire numa curva proibida- no fim das contas, você não se alegra de haver alguma aparência de lei e ordem? As pessoas param e vão. As pessoas diminuem a velocidade ao dirigir próximo das escolas. Eles param para os ônibus escolares. Você não seria capaz de dirigir seu carro até o supermercado sem leis. Quando você dirige em uma curva ao passar por uma montanha, você amaldiçoa os trilhos de guarda que o impedem de mergulhar para uma morte prematura? Não, alguém os coloca lá com grande despesa, e para nosso bem, para que possamos viajar livremente e com segurança.

Os Dez Mandamentos não são instruções sobre como sair do Egito. Eles são regras para um povo livre permanecer livre.

 

Razão 5: O que ele fez

Note mais uma vez que a lei vem depois do evangelho - depois das boas novas de libertação. Deus não veio ao povo, como escravos, e disse: “Eu tenho Dez Mandamentos. Eu quero que vocês façam tudo certo. Eu voltarei em cinco anos, e se vocês purificaram a sua vida, eu os libertarei do Egito.” É assim que algumas pessoas veem o Cristianismo: Deus tem regras, e se eu seguir as regras, Deus vai me amar e salvar. Não foi o que aconteceu na história do êxodo. Os israelitas eram um povo oprimido e Deus disse: “Eu ouço o seu clamor. Vou salvá-los porque eu os amo. E quando forem salvos, livres e perdoados, lhes darei uma nova maneira de viver.

            Precisamos ouvir isso novamente: a salvação não é a recompensa pela obediência; a salvação é a razão da obediência. Jesus não diz: "Se obedecerem aos meus mandamentos, eu os amarei". Primeiro, ele lava os pés dos discípulos e diz: "Se vocês me amam, guardarão os meus mandamentos" (Jo 14.15). Todo o nosso cumprir é apenas por causa do que ele primeiro fez por nós.

  

https://www.thegospelcoalition.org/blogs/kevin-deyoung/five-reasons-obey-ten-commandments/

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki


23 março 2024

Marxismo é uma religião secular


"Marx retoma e prolonga um dos grandes mitos escatológicos do mundo asiático mediterrânico, a saber, o papel redentor do justo (o “eleito”, o “ungido”, o “inocente”, o “mensageiro”; nos nossos dias, o proletariado), cujos sofrimentos são chamados a mudar o estatuto ontológico do mundo. Com efeito, a sociedade sem classes de Marx e a consequente desaparição das tensões históricas encontram seu precedente mais exato no mito da Idade do Ouro, que, segundo múltiplas tradições, caracteriza o começo e o fim da História. Marx enriqueceu este mito venerável de toda uma ideologia messiânica judaico-cristã: por um lado, o papel profético e a função soteriológica que ele atribuiu ao proletariado; por outro, a luta final entre o Bem e o Mal, que pode aproximar-se facilmente do conflito apocalíptico entre o Cristo e o Anticristo, seguido da vitória decisiva do primeiro. É até significativo que Marx resgata, por sua conta, a esperança escatológica judaico-cristã de um fim absoluto da História; distingue-se nisso dos outros filósofos historicistas (por exemplo Croce e Ortega y Gasset), para quem as tensões da história são consubstanciais à condição humana e, portanto, jamais poderão ser completamente abolidas."

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ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões (São Paulo: Martins Fontes, 2001), p. 99.

20 março 2024

O que Marx escondeu?

 por Ralph Buultjens

Em 14 de março de 1883, Karl Marx morreu em Londres. Hoje, um século depois, o homem e as suas ideias continuam a despertar paixões intensas. Para os verdadeiros crédulos, Marx é o pai messiânico dos conceitos científicos de socialismo chamados marxismo ou comunismo. Para muitos outros, ele é o profeta de uma doutrina insidiosa de conflito de classes, revolução e igualitarismo econômico. Tanto os proponentes como os opositores reconhecem a sua importância e o impacto da sua filosofia na nossa era.

O foco da maior parte da defesa e do antagonismo tem sido nas ideias de Marx. Houve uma cascata de biografias descrevendo sua vida e sua época, mas todo esse esforço e análise revela bem pouco sobre seu lado humano. Assombrado pela pobreza e por um irascível, mas gentil e amoroso pai, ele era um personagem paradoxal e atormentado. Ele era um pensador seminal e um homem pouco prático, buscando ansiosamente reconhecimento em um mundo que para ele parecia não ser afetado por suas teorias.

Grande parte do seu tormento – tensões que possivelmente afetaram o seu trabalho – estava alojada numa parte da sua vida que Marx procurava desesperadamente esconder. Ainda hoje, este segredo, que ele escondeu com sucesso durante a sua vida, não é muito conhecido. Em 1851, enquanto vivia em Londres, Marx teve um filho ilegítimo com Helen Demuth, a empregada de longa data da família. Temendo que esta indiscrição destruísse o seu casamento e prejudicasse a sua imagem pública, ele organizou um eficiente encobrimento, cujos participantes foram o amigo e colaborador de Marx, Friedrich Engels e Helen Demuth.

Engels fingiu ser o pai e a senhorita Demuth confirmou o engano. A criança, Fredrick Demuth, foi entregue para ser criada por uma família da classe trabalhadora em Londres. O segredo foi preservado por mais de quatro décadas. Em 1895, no seu leito de morte, Engels confessou a Eleanor Marx – uma das duas filhas sobreviventes de Marx. Ela ficou arrasada com a revelação. Três anos depois, ela suicidou. Em 1911, a outra filha de Marx, Laura, também cometeu suicídio. Freddy Demuth cresceu como uma criança abandonada e solitária. Marx não podia pagar nenhum apoio. Engels, de quem Marx dependia financeiramente, enviava remessas pequenas e pouco frequentes. Tanto Marx quanto Engels se distanciaram de Freddy. Marx nunca viu o menino. Freddy Demuth recebeu uma educação com pobreza. 

Durante a maior parte de sua vida, ele trabalhou como operário e fabricante de ferramentas. Após a morte de Marx, ele estabeleceu um contato mais próximo com sua mãe, que então se tornara governanta de Engels. Freddy a visitava semanalmente, mas só podia entrar na cozinha e nos quartos dos empregados pela porta dos fundos. Engels, tal como Marx, evitou-o. Após a morte de sua mãe em 1890, Freddy quase nunca via Engels.

Nem Marx nem Engels lhe forneceram uma herança. No entanto, as filhas de Marx deram a Freddy algum dinheiro de sua parte em ambas as propriedades. Em 1929, depois de uma vida difícil e obscura, Freddy morreu aos 78 anos em uma área pobre de Londres. Ninguém, nem mesmo sua mãe, lhe contou a verdade sobre sua paternidade e ele morreu acreditando ser um filho bastardo de Engels.

O segredo de Marx estava bem guardado. Durante a sua vida, apenas Helen e Engels partilharam desta confidência. Após sua morte, eles examinaram seus documentos para eliminar referências a Freddy. Mais tarde, na época da morte de Engels, alguns associados e familiares souberam do caso Demuth, mas o assunto não foi muito discutido. Ao pesquisar esta parte da vida de Marx, uma parte que contém muitas pistas para o desenvolvimento das suas ideias, convenci-me de que muitos marxistas construíram um muro de silêncio em torno deste segredo. Nenhum grande material biográfico soviético sobre Marx menciona Freddy. Outros marxistas consideram isso uma fofoca irrelevante. É claro que para o mundo marxista Fredrick Demuth não existiu, ou que o assunto é tabu. A heróica imagem proletária do pai da revolução não deve ser manchada pela evidência de sua duplicidade, hipocrisia e fragilidade.

O episódio nos mostra quão essencialmente humano era Marx. Ele tinha os mesmos medos, desesperos e culpas que afligiam outros cidadãos comuns da Grã-Bretanha vitoriana. Estes traumas e o seu impacto na sua vida e no seu pensamento sugerem que a interpretação estritamente econômica da história feita por Marx é um instrumento insuficiente para explicar a motivação humana e a evolução da sociedade. A sua vida confundiu suas teorias. Esta ironia não teria passado despercebida ao muitíssimo inteligente Marx, e talvez seja por isso que o seu trabalho parece incompleto e inconclusivo.

A estatura de Marx justifica a comemoração da sua morte. Mas, ao fazê-lo, devemos lembrar-nos do homem como um todo, da sua humanidade, da sua vulnerabilidade - e não abstrair ou suprimir segmentos da sua vida para se adequar à nossa própria mitologia.

 

Ralph Buultjens  é autor do livro ''The Deadly Secret of Karl Marx.''

Fonte: https://www.nytimes.com/1983/03/14/opinion/what-marx-hid.html acessado em 20/03/2024.


14 março 2024

Um resumo da vida e obra de Martinho Lutero

Antecedentes da Reforma

1456   Surge a Bíblia de Gutenberg, às vezes chamado Bíblia de Mazarino, a primeira ser impressa e início da prensa de impressão e dos tipos móveis.

1466 ou 1469   Nascimento de Erasmo.

1483   Nascimento de Martinho Lutero.

1505   Lutero apanhado em uma tempestade, entra para o mosteiro agostiniano de Erfurt.

1509   Nascimento de João Calvino.

1510   Lutero viaja a Roma para conhecer o Vaticano e tratar de assuntos de sua ordem agostiniana.

1511 Ocorre o Concílio de Pisa. Lutero se muda para Wittenberg.

1512   Lutero recebe o grau de doutor em teologia, e, inicia conferências teológicas em Wittenberg.

1512-17   Ocorre o Quinto Concílio de Latrão.

1513   Eleito o papa Leão X.

1514-17   Bíblia Poliglota Complutense (publicada somente em 1522).

1515   Conferências de Lutero sobre as epístolas aos Romanos [novo entendimento de Rm 1:17].

1516   Publicação do Novo Testamento de Erasmo em grego e de uma tradução original em latim Novum Instrumentum.

1517   Em 31 de outubro Lutero “afixa” ou “remete” as 95 Teses.

 

A sua vida

Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Saxônia Prussiana. Ele morreu nesta mesma cidade, durante uma viagem, no dia 18 de fevereiro de 1546. Durante muito tempo foi um monge agostiniano. No inverno de 1510-11, ele foi a Roma, uma cidade então cheia de entusiasmo pela Renascença, mas indiferente com o puro Cristianismo. Lutero ficou apavorado com a infidelidade e imoralidade do papado, uma impressão que sem dúvida foi instrumental para a sua conversão.

A sua carreira de ensino começou em 1508, na cidade de Wittenberg. Em 1512, ele recebeu o seu doutorado em teologia, e começou a ensinar a Bíblia. De 1513 a 1515, ele ensinou Salmos, e de 1515 a 1517, ensinou as epístolas de Romanos, Gálatas e Hebreus. Durante este período, os seus sentimentos de extrema imperfeição diante de Deus, foram intensificados. Ele foi assombrado com a compreensão de que um Deus de infinita justiça nunca poderia ser satisfeito com os seus miseráveis esforços em busca da pureza. Os seus estudos renderam-lhe a percepção de que a salvação é imerecidamente recebida pela fé em Jesus, e que pela justiça de Cristo somos salvos da condenação dos nossos pecados. Depois de muitos anos de dúvida e angústia acerca da sua salvação teve fim, quando entendeu que a salvação não dependia de seus méritos pessoais, mas somente da graça de Deus.

A doutrina da indulgência despertou o confronto entre Lutero e a Igreja Romana. Esta disputa teológica começou com as 95 teses.  Com o intuito de financiar a reconstrução da igreja de São Pedro em Roma, o Papa Julius II e depois dele, o Papa Leão X sancionaram a venda indiscriminada de indulgências. Na linguagem de Roma, indulgentia é um termo latino que se refere à anulação do castigo, em particular, a remissão dos castigos temporais (não eternos) pelo pecado, sob a condição de que a pessoa realizasse boas obras específicas e fizesse contribuições financeiras generosas para a Igreja de Roma. Segundo a doutrina católica somente Deus pode perdoar o castigo eterno pelo pecado, mas o pecador ainda deve suportar o castigo temporal pelo pecado, seja nesta vida ou no purgatório. Esta última penalidade estava sob o controle do papado e do sacerdócio. Assim, por um preço, a Igreja Romana podia reduzir tanto o grau como a duração do castigo no purgatório. Lutero descobriu que este horroroso ensino não se fundamentava nas Escrituras.

O desejo inicial de Lutero era de reformar a Igreja Romana, todavia, após a sua excomunhão, a sua frustração foi consumada. Através da bula papal Exsurge Domine, editada em 15 de junho de 1520, o Papa Leão X excomungou Lutero, exigiu a queima de seus livros, e condenou toda a Reforma protestante. Lutero respondeu jogando o documento no fogo, no dia 10 de dezembro de 1520.

O reformador alemão após vários debates teológicos, foi convocado a comparecer diante da Dieta de Worms, no dia 17 de abril de 1521, onde teria a oportunidade de se defender diante do imperador romano Carlos V. Neste concílio Lutero reafirmou todo o seu ensino, e recusou retratar-se de qualquer um dos seus escritos. Quando o reformador deixou a cidade de Worms, no dia seguinte foi sentenciado pelo imperador como “um herético notório”, que devia ser silenciado. Lutero foi chamado de criminoso, que cometeu alta traição e, consequentemente, recebeu uma sentença de morte.

Frederico, “o sábio”, o príncipe eleitor de Lutero, arranjou o seu sequestro durante a viagem de volta à Wittenberg. Lutero foi levado para o Castelo Wartburg, na Turíngia, região sul da atual Alemanha, e permaneceu ali por dois anos de exílio (1521-1522). Durante este tempo a Igreja Romana decretou proibida a leitura dos seus livros e uma recompensa pela sua captura foi anunciada. O próprio Lutero estava ativo, traduzindo o Novo Testamento para o alemão, bem como escrevendo, ou revisando os seus livros. Vários teólogos, professores universitários e governantes aderiram à Reforma proposta por Lutero. Este impetuoso movimento não poderia mais parar.

  

Obras escritas

        Martinho Lutero foi um escritor prolixo.[1] As suas obras foram produzidas no calor da controvérsia, e algumas delas chegaram inclusive a ser reescritas, tanto para revisão como ampliação devido à necessidade de esclarecimentos em pontos obscuros, bem como em novas questões. Assim, a lista selecionada abaixo indica apenas os textos que julgo importantes para se entender o pensamento do reformador alemão.[2]

1.   Die Bibel nach der übertsetzung Martin Luthers. [A Bíblia conforme a tradução de Martinho Lutero].

2.   Disputatio contra scholasticam theologiam [Debate contra a teologia escolástica] escrito em Agosto de 1517. Segundo Joachim Fischer “na evolução de Lutero, as teses representam a fase crítica. São o mais importante e testemunho escrito de seu rompimento com a escolástica e, assim, com o próprio passado teológico.”[3]

3.   Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum [Debate exigindo uma declaração acerca do valor das indulgências, ou as 95 Teses] anexado em 31 de Outubro 1517. Martin Dreher observa que a motivação de Lutero ao escrever este texto “nada mais pretendia que o esclarecimento teológico de uma questão que o envolvia como cura d’almas e que tinha implicações para a piedade de seu paroquiano: a indulgência.”[4]

4.   Von den guten werckenn [Das boas obras] escrito em Fevereiro de 1520.

5.   Eyn sermon von dem Bann Doct. Martini Luther Augustiner czu Wittenbergk [Um sermão sobre a excomunhão do Dr. Martinho Lutero, Agostiniano de Wittenberg] escrito em 1520.

6.   Eyn sermon von dem newen Testament, das ist von der heyligen Messe [Um sermão a respeito do Novo Testamento, isto é, a respeito da Santa Missa] escrito em 1520.

7.   An den Christlichen Adel deutscher Nation von des Christlichen standes besserung [À nobreza cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estamento cristã] escrito em 1520.

8.   De captivitate Babylonica ecclesiae [Do cativeiro babilônico da Igreja] escrito em 1520.

9.   Episola Lutheriana ad Leonem Decimum summum pontificem [Carta de Martinho Lutero a Leão X, Sumo Pontíficie] escrito em Outubro de 1520.

10. Tractatus de libertate christiana [Tratado da liberdade cristã] escrito em Outubro de 1520.

11. Dictio D. Martini Lutheri coram Caesare Carlo et principilus, Vormacie feria quinta post Misericordia Domini [Discurso do Dr. Martinho Lutero perante o Imperador Carlos e os príncipes, Quinta-feira depois de Misericórdias do Senhor] apresentado em 1521 diante da Assembléia de Worms.

12.  De servo arbitrio [Da vontade cativa] escrito em 1525.

13. Vom Abendmahl Christi [Da Santa Ceia de Cristo] escrito em 1528.

14. Deutsch Katechismus [Catecismo Alemão, ou Catecismo Maior] escrito em 1529.

15.  Enchiridion [Manual, ou Catecismo Menor] escrito em 1529.

16. Disputatio Domini Martini Lutheri de iustificatione [Debate do senhor Martinho Lutero acerca da justificação] escrito em 1536.

17. Disputatio contra Antinomistam [Debate contra os antinomistas] escritos em 1537 a 1538.

18. Von den Konziliis und Kirchen [Dos concílios e da Igreja] escrito em Março de 1539.

19. Disputatio Reverendi patris Domini D. Martini Lutheri de divinitate et humanitate Christi [Debate do Reverendo padre senhor  Martinho Lutero acerca da divindade e da humanidade de Cristo] escrito em 28 de Fevereiro de 1540.


NOTAS:

[1] A publicação comemorativa do aniversário de 500 anos do nascimento de Lutero, a Edição de Weimar abrange uma coleção de quase 100 volumes. do Martim C. Warth observa que o próprio Lutero ao escrever para Capito, em 9 de Julho de 1537, considerava como os mais importantes apenas dois: De Servo Arbitrio e o Katechismus. “Introdução” in: Obras Selecionadas de Martinho Lutero, vol. 7, p. 324.

[1] No Brasil a Comissão Interluterana de Literatura está traduzindo e publicando a partir dos originais latim e alemão, algumas Obras Selecionadas de Martinho Lutero.

[1] Joachim Fischer, “Introdução” do Debate sobre a Teologia Escolástica in: Joachim Fischer, ed., Obras Selecionadas de Martinho Lutero (São Leopoldo, Comissão Interluterana de Literatura, 1987), vol. 1, p. 14.

[1] Martin Dreher, “Introdução” do Debate para o esclarecimento do valor das indulgências in: Joachim Fischer, ed., Obras Selecionadas de Martinho Lutero, vol. 1, p. 21.

16 fevereiro 2024

Jonathan Edwards era um continuísta?

 

Jonathan Edwards é conhecido por produzir uma sadia teologia em tempos de avivamento nos Estados Unidos da América. Ele examinou experiências e supostas manifestações atribuídas ao Espírito Santo.
[1] Entretanto, ao contrário do que pentecostais e continuístas afirmam acerca do pensamento de Edwards sobre avivamento “ele não pensava que um tempo de dons extraordinários do Espírito Santo havia chegado, por isso negou (em contrário tanto a alguns radicais de seu tempo quanto aos pentecostais que surgiriam depois) que sinais de êxtase eram a melhor evidência de um verdadeiro derramamento do Espírito Santo”.[2] Hank Hanegraaff denunciou vários líderes do movimento Counterfeit Revival que propõem uma interpretação histórica revisionista distorcida do pensamento de Edwards, atribuindo a ele um continuísmo carismático.[3] Entretanto, numa leitura atenta aos textos de Edwards percebemos que ele, quanto aos dons revelacionais, era um cessacionista.

         Edwards adotava a categorização dos dons como ordinários e extraordinários. Por extraordinários ele diz

tais como o dom de línguas, de milagres, de profecia etc., são chamados extraordinários porque, como tais, não são dados no curso ordinário da providência divina. Não são outorgados do modo comum e providencial de Deus tratar com seus filhos, mas só em ocasiões extraordinárias, como foram outorgados aos profetas e apóstolos, tal como a capacidade de revelar a mente e vontade de Deus antes que o cânon das Escrituras fosse completado, e assim à igreja primitiva, para sua fundação e estabelecimento no mundo. Mas, desde que o cânon das Escrituras se completou e estas foram estabelecidas, estes dons extraordinários cessaram.[4]

 

         Noutro sermão ele reitera que

no conhecimento que o apóstolo diz que se desvanecerá está implícito um dom particularmente miraculoso que subsistia na igreja de Deus naqueles dias. Pois o apóstolo, como já vimos, está aqui comparando a caridade com os dons miraculosos do Espírito – aqueles dons extraordinários que eram comuns na igreja daqueles dias; um desses dons era o dom de profecia, e outro, o dom de línguas, ou o poder de falar em idiomas que nunca tinham sido aprendidos. Ambos esses dons são mencionados no texto; e o apóstolo diz que acabariam e cessariam. [...] É este dom miraculoso que o apóstolo afirma aqui que desapareceria, juntamente com os demais dons miraculosos dos quais ele fala, tais como profecia e o dom de línguas etc. Todos esses foram dons extraordinários outorgados por certo tempo para a introdução e estabelecimento do cristianismo no mundo; e, quando se atingiu seu propósito, todos eles desapareceram e cessaram.[5]

 

         Edwards declara que não há mais revelações hoje.

Se em algum momento alguém tem uma impressão extraordinária causada em sua mente, e crer que isso procede de Deus, a revelar-se algo que sucederá no futuro, isso, se fosse real, provaria ser um dom extraordinário do Espírito Santo, a saber, o dom de profecia; mas, à luz do que foi dito, é evidente que esse não seria um sinal seguro da graça ou de algo salvífico; sim, se fosse real, repito – pois, na verdade, não temos razão para considerar tais coisas, como se pretende em nossos dias, como sendo algo mais além do que ilusão.[6]

 

         Ele negava qualquer possibilidade de restauração dos dons extraordinários. A doutrina da luz divina no pensamento de Edwards é, por vezes, mal compreendida. Ela não pode ser confundida com o ensino dos entusiastas do século XVI, nem com os quackers no século XVII, em que se alegava uma comunicação revelacional imediata à alma pelo Espírito Santo. Ele define a luz divina como sendo “um verdadeiro sentido da excelência das coisas reveladas na Palavra de Deus, e convicção da verdade e da realidade que delas então emana.”[7] Ele negava que esta luz tenha natureza independe da Escritura Sagrada, ou que seja dada sem a sua mediação. Por isso, ele declara que

essa luz espiritual não é a sugestão de algumas novas verdades ou proposições não contidas na Palavra de Deus. Essa sugestão de novas verdades ou doutrinas à mente, independentemente de qualquer revelação anterior a essas proposições, seja em palavra ou escrita, é inspiração; como os profetas e apóstolos tiveram, e como alguns entusiastas pretendem ter. Mas essa luz espiritual da qual estou falando é coisa bem diferente da inspiração. Ela não revela nova doutrina, não sugere nova proposição à mente, não ensina coisa nova sobre Deus, ou Cristo, ou outro mundo, não ensinado na Bíblia, mas apenas dá uma apresentação correta dessas coisas que são ensinadas na Palavra de Deus.[8]

 

Apesar de Edwards aceitar com discernimento, interpretando à luz das Escrituras, as experiências sobrenaturais que ocorreram durante o Grande Despertamento, em nenhum momento ele admitiu a ocorrência dos dons revelacionais, ou a possibilidade de novas revelações pelo Espírito Santo à igreja em seus dias.


NOTAS:

[1] Um pastor contemporâneo de Edwards, em junho de 1743, escreveu: “não sabemos de visões, transes nem revelações; mas de exortações fraternais, com a mais modesta e afetuosa do que é representada”. Joseph Tracy, The Great Awekening (Edinburg, The Banner of Truth, 1976), p. 326.

[2] George Marsden, A breve vida de Jonathan Edwards (São José dos Campos, Editora Fiel, 2015), p. 107.

[3] Dentre eles James Ryle, John Arnott, Guy Chevreau, Gerald Coates, Patrick Dixon, William DeArteaga, Nick Needham, Rand Clark. Veja em Hank Hanegraaff, Counterfeit Revival – Looking for God in all the wrong places (Nashville, Word Publishing, 2001), pp. 95-115.

[4] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13 (São Paulo, Editora Fiel, 2015), pp. 50-51.

[5] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 342-343.

[6] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 65-66.

[7] Jonathan Edwards, A busca do crescimento (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010), p. 33.

[8] Jonathan Edwards, A busca do crescimento, p. 32.