13 julho 2026

Genebra era uma teocracia?

por Michael S. Horton

 

 Com base em relatos de testemunhas oculares, Gillian Lewis, de Oxford, observa: “A cidade de Genebra possuía um significado simbólico e mítico. Seus amigos a viam como espelho e modelo de piedade, um porto seguro, um ninho para jovens discípulos e uma fortaleza para treinar e enviar ao exterior soldados do Evangelho e ministros da Palavra”. Contudo, havia também inimigos — inimigos que viam Genebra como “o santuário de Satanás, uma fonte de heresia, ateísmo e libertinagem, e um centro de disseminação ativa de sedição”.(1)

 Assim que Genebra abraçou oficialmente a Reforma e rompeu seus laços de lealdade com o bispo e o Duque de Saboia, a cidade foi inundada por refugiados de toda a Europa. Da noite para o dia, Genebra tornou-se — depois de Wittenberg, Zurique e Estrasburgo — uma capital da fé protestante. Visitantes estrangeiros expressavam seu espanto ao observar os atrativos tanto teológicos quanto práticos da cidade.

 No entanto, as impressões que recebemos de nossos professores do ensino médio, muito provavelmente, tinham pouco em comum com aquelas relatadas por testemunhas da época, fossem amigos ou inimigos. Abundam imagens de um tirano de toga acadêmica preta, organizando um equivalente do século XVI à polícia secreta para garantir que ninguém, em momento ou lugar algum, se divertisse. O aspecto surpreendente disso não é a imagem em si, mas o fato de ela ter persistido no imaginário público, apesar de ter sido refutada pelo consenso dos principais historiadores do Renascimento e da Reforma em todo o mundo há mais de meio século. A base desse mito público é a afirmação de que Genebra era uma teocracia e Calvino, o seu papa.

 

O Reformador Relutante

O professor de Oxford, Alister McGrath, escreve: “Antes da Reforma, Genebra era uma cidade episcopal em declínio.”(2) Em 1535, o conselho municipal aboliu a missa, e o bispo reagiu excomungando a população de Genebra. Meses depois, cunharam suas primeiras moedas, que traziam a inscrição: “Depois das trevas, a luz!” A protestante Berna saiu em defesa militar de Genebra, e a cidade conquistou sua independência do Duque de Saboia. No entanto, a cidade estava profundamente endividada e em desordem administrativa — situação muito semelhante à que costumamos ver nas novas repúblicas independentes da antiga União Soviética. Enquanto o bispo ameaçava usar a força, o povo votou a favor da Reforma em 25 de maio de 1536.

 Mas isso era apenas o começo. Sem uma liderança qualificada, Genebra estava à beira do colapso. O que a nova república precisava desesperadamente era de um jovem visionário.

 João Calvino tinha formação em teologia e direito — sendo o direito a área que escolhera seguir —, tendo estudado com algumas das mentes mais brilhantes do Renascimento; ele havia concluído sua primeira obra publicada, um comentário sobre a obra *De Clementia* (Sobre a Clemência), de Sêneca. Combinando seus interesses em linguagem e direito civil, esse trabalho explorava a preocupação do filósofo romano (e, sem dúvida, também a de Calvino) com a clemência e a compaixão na aplicação da justiça civil. Tanto Sêneca quanto Calvino viveram em tempos difíceis, nos quais o poder era usado para benefício pessoal a tal ponto que tanto a igreja quanto a sociedade haviam perdido a sua integridade moral.

 Nessa época, Calvino estava se tornando um “luterano” e lia todos os tratados evangélicos que conseguia encontrar. Fugindo das autoridades de Paris, Calvino partiu em 15 de julho de 1536 rumo à cidade reformada de Estrasburgo, onde Martin Bucer estava estabelecido. No entanto, o rei da França e o imperador estavam em guerra, o que bloqueava a estrada que ligava a França a Estrasburgo. Frustrado, mas não desanimado, Calvino fez um desvio e passou a noite em Genebra. Isso mesmo: apenas para passar a noite.

 Calvino mal sabia o que a providência divina lhe reservava. O principal pastor reformado, Guilherme Farel — um senhor de idade e de temperamento austero —, recebeu o jovem reformador. Calvino estava ali como um desconhecido e queria que assim permanecesse. Eis o seu próprio relato:

Ninguém ali sabia que eu era o autor [das Institutas] ... até que, finalmente, Guillaume Farel me reteve em Genebra — não tanto por conselhos e argumentos, mas por uma maldição terrível, como se Deus tivesse estendido a mão do céu para me deter... Então, alguém... me reconheceu e revelou minha identidade aos outros. Diante disso, Farel... empenhou-se ao máximo para me reter. E, ao saber que eu tinha vários estudos particulares aos quais desejava me dedicar livremente..., ele lançou uma imprecação, rogando a Deus que amaldiçoasse meu lazer e a tranquilidade de estudo que eu buscava, caso eu partisse e me recusasse a oferecer apoio e ajuda em uma situação de tamanha necessidade. Essas palavras me chocaram e comoveram de tal maneira que desisti da viagem que pretendia fazer.

 Contudo, consciente de minha timidez e do meu receio, eu não queria ficar obrigado a desempenhar quaisquer deveres específicos.(3)

O Dr. McGrath observa: “De personalidade reservada e inclinação intelectual, ele pouco demonstrava ter potencial para atuar no mundo de disputas acirradas da política de Genebra na década de 1530.”(4) Naquela época, Calvino não passava de um professor de Bíblia e teologia.

 O momento decisivo ocorreu, ao que parece, quando Berna — na tentativa de converter Lausanne por meio de um debate público — convidou Farel para representar a posição reformada, e Farel levou Calvino consigo. Diante de um impasse sobre como responder à alegação do representante católico de que os reformados ignoravam os Pais da Igreja, Calvino levantou-se para responder. “Recitando uma sequência notável de referências às obras deles, inclusive indicando onde se encontravam — aparentemente tudo de memória —, Calvino praticamente destruiu a credibilidade de seu oponente.”(5) Após conquistar Lausanne para a Reforma, Calvino foi convidado a redigir a Confissão de Fé da cidade. Em seguida, foi nomeado pastor da Igreja de São Pedro, a catedral de Genebra.

 Após anos de domínio clerical, o conselho municipal não estava disposto a conceder à igreja sequer a sua legítima autoridade espiritual, muito menos poder civil. “Ao contrário de seus antecessores católicos”, escreve McGrath, “eles não detinham poder nem riqueza na cidade; de ​​fato, sequer eram cidadãos de Genebra com acesso aos órgãos de decisão.(6) A tensão começou a crescer entre Calvino e o conselho municipal. Calvino queria que a Ceia fosse administrada com frequência (preferencialmente, sempre que a Palavra fosse pregada); ele insistia que a autoridade para a excomunhão deveria caber à igreja, e não ao Estado este último frequentemente a utilizava como ameaça contra adversários políticos. Em outras palavras, Calvino desejava uma maior separação entre as esferas religiosa e civil. No entanto, o conselho municipal, por motivos políticos, negou a Calvino e Farel a implementação de suas reformas. Quando se recusaram a tolerar a interferência do conselho municipal em questões espirituais, ambos foram exilados para Estrasburgo.

 

O Retorno Relutante

Em Estrasburgo (1538-1541), Calvino sentia-se como se estivesse no céu. Martin Bucer tornou-se seu mentor, e Calvino assumiu o pastorado da igreja reformada francesa local. Nesse período, Calvino publicou algumas de suas obras mais célebres e estabeleceu-se o suficiente para se casar com Idelette de Bure, viúva de um amigo anabatista. A cada sucesso, Calvino sentia-se mais satisfeito em Estrasburgo, mas, mais uma vez, Genebra o chamava.

 Primeiro, o conselho da cidade pediu a Calvino que escrevesse uma resposta ao apelo do Cardeal Sadoleto para que os habitantes de Genebra retornassem ao rebanho romano. Calvino assim o fez — produzindo uma defesa convincente —, e o reformador considerou o projeto inofensivo, visto que poderia escrevê-lo com a tranquilidade proporcionada pelo ambiente mais favorável de Estrasburgo. Genebra emitiu sua retratação oficial e um apelo para que Farel e Calvino retornassem, mas nenhum dos dois pareceu particularmente comovido com o convite. Finalmente, em fevereiro de 1541, Farel persuadiu Calvino a voltar — embora ele próprio não o tenha feito —, e Calvino chegou à cidade em 13 de setembro.

 O Dr. McGrath destaca “quão profundamente o mito do ‘grande ditador de Genebra’ está enraizado nos escritos religiosos e históricos populares” e aponta as obras de Balzac e Huxley como exemplos de escritores que fizeram afirmações sem qualquer embasamento em fatos históricos, mas que, ainda assim, parecem ter exercido mais influência na formação da visão moderna sobre Calvino do que os fatos históricos em si. (7) Ao reformador de Genebra foi “negado o acesso à estrutura de tomada de decisões da cidade. Ele não podia votar; não podia candidatar-se a cargos públicos”. (8) De fato, ele ainda tinha pouco poder sobre os assuntos de sua própria igreja!

 

Calvino mandou queimar Serveto na fogueira?

Há, no entanto, um evento que se destaca em nossa mente no que diz respeito à liderança de Calvino na igreja de Genebra e que merece uma análise mais atenta: em 25 de outubro de 1553, o conselho municipal emitiu um decreto determinando que Miguel Serveto fosse queimado na fogueira por heresia.

 Será que Calvino “mandou queimar Serveto na fogueira”, como sugere a crença popular? A resposta, claramente, é não! Em primeiro lugar, Calvino havia mantido correspondência com Serveto, e existem evidências sugerindo que ele até tentou encontrar-se clandestinamente com o antitrinitário para tentar convencê-lo de seu erro. Após escapar de uma execução certa pelas mãos das autoridades católicas romanas na França e em Viena, Serveto chegou a Genebra e revelou sua presença a Calvino publicamente. Serveto foi preso e, embora Calvino fosse teólogo e advogado — tendo sido contratado pelo conselho municipal para redigir leis sobre assistência social, planejamento urbano, saneamento e áreas afins —, ele não atuou como promotor no caso. Lembre-se de que ele sequer possuía os direitos de um cidadão comum!

 Em segundo lugar, Calvino estava, naquela época, no auge de seus conflitos com o conselho municipal. Se ele tivesse, de fato, defendido a execução de Serveto, isso poderia ter sido justamente o que salvaria a vida da vítima! Quando Serveto teve a opção de ser julgado em Viena ou em Genebra, escolheu Genebra. Por algum motivo, ele deve ter pensado que suas chances de sobrevivência seriam maiores ali. No entanto, o conselho — então liderado pela facção opositora a Calvino — estava determinado a demonstrar que Genebra era uma cidade reformada confiável e comprometida com a defesa dos credos; assim, Serveto foi condenado à morte na fogueira. Calvino implorou ao conselho que executasse Serveto de uma maneira mais humana do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas, naturalmente, o conselho municipal rejeitou o apelo de Calvino. Farel visitou Calvino durante a execução e ficou, segundo relatos, tão perturbado que partiu sem sequer se despedir.

 Vale ressaltar que, nesse mesmo período, trinta e nove hereges foram queimados em Paris, e a Inquisição estava sendo aplicada na Espanha, na Itália e em outras partes da Europa. Embora muitos que buscavam refúgio em Genebra — fugindo das autoridades católicas — tivessem visões pouco ortodoxas, Serveto foi o único herege queimado na cidade durante a notável carreira de Calvino.

 De fato, cabe ressaltar que os judeus foram convidados pelas cidades reformadas a buscar segurança contra a Inquisição. Mais tarde, o puritano Cromwell transformaria a Inglaterra em um porto seguro para dissidentes — inclusive para aqueles com quem ele próprio discordava — e, especialmente, para os judeus. O mesmo vale para os Países Baixos e Estrasburgo. Não é de surpreender que, ao pensarmos em direitos humanos e relações internacionais, essas capitais reformadas (ou outrora reformadas) — Genebra, Estrasburgo (sede do Instituto Internacional de Direitos Humanos, do Parlamento Europeu e de outras agências de assistência e direitos humanos), Amsterdã e Londres — figurem no topo da lista.

 

Que o Verdadeiro Calvino se Apresente

O fato é que Calvino era um pastor zeloso que visitava pacientes moribundos, vítimas de uma peste mortal e contagiosa, no hospital recém-organizado que ele mesmo havia fundado, mesmo tendo sido alertado sobre os perigos do contato. Ele “não apenas arriscou a própria vida”, segundo o historiador holandês L. Penning, “mas fez mais pelos pacientes ao adotar medidas de higiene sofisticadas”. (9) Ele foi o gênio por trás da criação da rede de diáconos que, segundo a Dra. Gillian Lewis, “assumiu a responsabilidade pelo cuidado diário dos pobres enfermos e incapazes de trabalhar”, conferindo ao cargo “a dignidade de fazer parte do quádruplo ministério da igreja”.(10) Foi ele quem instou o conselho a garantir empréstimos bancários a juros baixos para os exilados pobres, porém empreendedores, que haviam sido capacitados em um ofício por meio da agência de treinamento e emprego que funcionava como o diaconato.

 Foi Calvino quem defendeu a educação universal e gratuita para todos os habitantes da cidade, assim como haviam feito Lutero e os outros reformadores; e, “a partir de 1541, ele sempre se levantava e ia dormir com esse pensamento predominante em sua mente: ‘Como podemos dar a Genebra uma universidade?’”(11) E foram seus alunos que disseminaram o evangelho, bem como ideais protodemocráticos, por todo o mundo ocidental.

 Para os reformadores em geral, e para Calvino em particular, soli Deo gloria era o propósito da vida; e as boas obras consistiam em cuidar do próximo, trabalhar pela justiça e pela retidão nas relações, e construir igrejas, tavernas, hospitais e universidades para a honra do grande Rei.

 Eis, então, o nosso “tirano de Genebra”, cujo ministério foi inicialmente rejeitado, depois solicitado com insistentes apelos, em seguida frustrado e, por fim, altamente honrado pelo povo que ele supostamente teria oprimido. Penning relata que, no final de sua vida, quando Calvino era visto nas ruas, cidadãos e “estrangeiros ilustres” diziam: “Olhem, lá vai o nosso Mestre Calvino!” Em 10 de março de 1564, o conselho decretou um dia de oração pela saúde de Calvino, e o reformador recuperou-se por algum tempo. No Domingo de Páscoa, 2 de abril, Calvino foi levado à Igreja de São Pedro em sua cadeira e, após receber a comunhão das mãos de Beza, seu sucessor, a congregação começou a chorar.

 O conselho, que anos antes havia determinado a duração dos sermões em Genebra e se oposto a grande parte de seu ministério pastoral, votou a concessão de uma quantia financeira significativa a Calvino; no entanto, o reformador recusou-se a aceitar qualquer dinheiro, visto que já não podia desempenhar suas funções. No sábado, 27 de maio, Calvino faleceu, aos cinquenta e cinco anos de idade. "Quando a notícia da morte de Calvino se espalhou, tarde da noite, houve muito choro na cidade — como uma nação chora ao perder seu benfeitor", escreve Penning. “A Cannon Street estava repleta de gente; formou-se uma peregrinação ao leito de morte do Reformador, e o governo teve de tomar medidas para conter a pressão excessiva da multidão.”(12) A cidade, com seus milhares de exilados, cidadãos e dignitários estrangeiros, acompanhou o cortejo fúnebre. Calvino havia insistido em ser colocado em um caixão simples de pinho e sepultado em uma cova sem identificação. Esse certamente não foi o funeral de um déspota.

 Mesmo os maiores heróis do passado têm falhas e tomaram decisões ou fizeram declarações que nos fazem estremecer — especialmente séculos mais tarde —, e Calvino não é exceção. Contudo, numa época em que pregadores — e muito menos políticos e celebridades — parecem oferecer modelos de conduta pouco heroicos, o homem tímido e relutante de Genebra parece ter resistido ao desprezo daqueles que, hoje como em sua própria época, não conseguem compreender o que significa ser possuído por uma paixão por Deus. Tom Wolfe, autor de Bonfire of the Vanities [A Fogueira das Vaidades], disse à revista revista TIME: “A nossa não é uma época propícia para produzir grandes heróis”. Que os herdeiros da Reforma que creem na Bíblia, nos dias de hoje, provem que ele está enganado.

 

Para leitura adicional

1. Ralph Hancock, Calvin and the Foundations of Modern Politics (NY: Cornell University Press).

2. J. McNeill, The History & Character of Calvinism (Oxford University Press).

3. Ronald Wallace, Calvin, Geneva, and the Reformation (Baker/Scottish Academic Press).

4. Alister McGrath, A Life of John Calvin (Basil Blackwell).

 

Notas:

1. Dr. Gillian Lewis, "Calvin and Geneva," in International Calvinism (Oxford Univ. Press), p. 39.

2. Dr. Alister McGrath, A Life of John Calvin (Cambridge: Basil Blackwell, 1991), p. 86.

3. Ibid., p. 95.

4. Ibid., p. 96.

5. Ibid., p. 97.

6. Ibid.

7. Ibid., pp. 105ss.

8. Ibid., p. 109.

9. L. Penning, Life and Times of Calvin, transl. by B.S. Berrington (London: Kegan, Trench, Trubner, 1912), p. 287.

10. Lewis, op. cit., p. 44.

11. Penning, op. cit., p. 288.

12. Ibid., p. 391. 


Texto original AQUI

11 julho 2026

Confissão de Fé de Westminster "capítulo 16 - As boas obras"

 1. Boas obras são somente aquelas que Deus ordena em sua santa palavra, não as que, sem autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego ou sob qualquer outro pretexto de boa intenção. 

Mq 6.8; Rm 12.2; Hb 13.21; Mt 15.9; Is 29.13; 1Pe 1.18; Jo 16.2; Rm 10.2; 1Sm 15.22; Dt 10.12-13; Cl 2.16, 17, 20-23.
 

 2. Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira; por elas os crentes manifestam a sua gratidão, robustecem a sua confiança, edificam os seus irmãos, adornam a profissão do Evangelho, tapam a boca aos adversários e glorificam a Deus, cuja feitura são criados em Jesus Cristo para isso mesmo, a fim de que, tendo o seu fruto em santificação, tenham no fim a vida eterna. 

Tg 218, 22; Sl 116-12-13; 1Pe 2.9; 1Jo 2.3,5; 2Pe 1.5-10; 2Co 9.2; Mt 5.16; 1Tm 4.12; Tt 2.5, 9, 12; 1Tm 6.1; 1Pe 2,12, 15; Fp 1.11; Jo 15.8; Ef 2.10; Rm 6.22.
 

 3. O poder de fazer boas obras não é de modo algum dos próprios fiéis, mas provém inteiramente do Espírito de Cristo. A fim de que sejam para isso habilitados, é necessário, além da graça que já receberam, uma influência positiva do mesmo Espírito Santo para obrar neles o querer e o perfazer segundo o seu beneplácito; contudo, não devem por isso tornar-se negligentes, como se não fossem obrigados a cumprir qualquer dever senão quando movidos especialmente pelo Espírito, mas devem esforçar-se por estimular a graça de Deus que há neles. 

Jo 15,4-6; Lc 11,13; Fp 2:13, e 4.13; 2Co 3.5; Ef 3.16; Fp 2.12; Hb 6.11-12; Is 64.7

 

4. Os que alcançam pela sua obediência a maior perfeição possível nesta vida estão tão longe de exceder as suas obrigações e fazer mais do que Deus requer, que são deficientes em muitas coisas que são obrigados a fazer. 

Lc 17.10; Gl 5.17.
 

 5. Não podemos, pelas nossas melhores obras, merecer da mão de Deus perdão de pecado ou a vida eterna, porque é grande a desproporção que há entre eles e a glória porvir, e infinita a distância que vai de nós a Deus, a quem não podemos ser úteis por meio delas, nem satisfazer pela dívida dos nossos pecados anteriores; e porque, como boas, procedem do Espírito e, como nossas, são impuras e misturadas com tanta fraqueza e imperfeição, que não podem suportar a severidade do juízo de Deus; assim, depois que tivermos feito tudo quanto podemos, temos cumprido tão somente, o nosso dever, e somos servos inúteis. 

Rm 3.20 e 4.2, 4, 6; Ef 2.8-9; Lc 17.10; Gl 5.22-23; Is 64.6; Sl 143.2 e 130.3.
 

 6. Não obstante o que havemos dito, sendo aceitas por meio de Cristo as pessoas dos crentes, também são aceitas nele as boas obras deles, não como se fossem, nesta vida, inteiramente puras e irrepreensíveis à vista de Deus, mas porque Deus considerando-as em seu Filho, é servido aceitar e recompensar aquilo que é sincero, embora seja acompanhado de muitas fraquezas e imperfeições. 

Ef 1.6; 1Pe 2.5; Sl 143.2; 2Co 8.12; Hb 6.10; Mt 25.21, 23.
 

 7. As obras feitas pelos não regenerados, embora sejam, quanto à matéria, coisas que Deus ordena, e úteis tanto a si mesmos como aos outros, contudo, porque procedem de corações não purificados pela fé, não são feitas devidamente - segundo a palavra; - nem para um fim justo - a glória de Deus; são pecaminosas e não podem agradar a Deus, nem preparar o homem para receber a graça de Deus; não obstante, o negligenciá-las é ainda mais pecaminoso e ofensivo a Deus. 

2Rs 10.30-31; Fp 1.15-16, 18; Hb 11.4, 6; Mc 10.20-21; 1Co 13.3; Is 1.12; Mt 6.2, 5, 16; Ag 2.14; Am 5.21-22; Mc 7.6-7; Sl 14.4; e 36.3; Mt 25.41-45 e 23.23.

08 julho 2026

Esboço de Regno de Christi de Martin Bucer

  O Reino de Cristo

por Martin Bucer[1]

  

Livro I

 

I. O reino de Cristo e suas funções

1. Terminologia bíblica (capítulo 1).

2. Comparação com os reinos terrenos (capítulo 2).

3. Evidências bíblicas (capítulo 3).

Digressão: As variações históricas da Igreja (capítulo 3).

Revisão das evidências bíblicas (capítulo 4).

4. Definição do reino de Cristo (capítulo 5).

5. Os ministérios da Igreja:

A) O ensino da doutrina (capítulo 6).

B) A administração dos sacramentos (capítulo 7).

C) A disciplina:

a) Disciplina moral (capítulo 8).

b) Disciplina penitencial (capítulo 9).

c) Disciplina cerimonial:

c.1) A santificação das igrejas (capítulo 10).

c.2) A santificação dos domingos e das festas cristãs (capítulo 11).

Apêndice: Os jejuns e a Quaresma (capítulo 12).

c.3) O culto e a liturgia (capítulo 13).

c.4) A assistência pública (capítulo 14).

 

II. A necessidade de uma restauração completa do reino de Cristo (capítulo 15)

 

Livro II

 

I. A introdução à Reforma

1. O dever religioso do soberano (capítulo 1).

2. O Conselho de Assuntos Religiosos (capítulo 2).

3. Sugestões práticas:

A) O plano de Reforma (capítulo 3).

B) A evangelização do país (capítulo 4).

C) A Reforma consensual (capítulo 5).

D) A formação de ministros e a Reforma das universidades (capítulo 6).

E) Questões financeiras e a nomeação de ministros (capítulo 7).

F) A proclamação oficial da Reforma (capítulo 8).

 

II. A legislação reformada

1. A educação religiosa (capítulo 9).

2. A santificação dos Domingos e dias santos (capítulo 10).

3. A santificação das igrejas (capítulo 11).

4. A Reforma do ministério da Igreja (capítulo 12).

5. A proteção dos bens da Igreja (capítulo 13).

6. A assistência pública (capítulo 14).

7. Casamento:

A) Introdução: A natureza civil do casamento (capítulo 15).

B) Impedimentos ao casamento:

a) Parentesco e aliança (capítulos 16 e 17).

b) Consentimento dos pais (capítulo 18).

C) Noivados e sua dissolução (capítulo 19).

D) A cerimônia religiosa (capítulo 20).

E) A proteção do casamento (capítulo 21).

F) O divórcio:

a) Divórcio na igreja primitiva (capítulos 22 a 24).

b) Exegese de passagens do Novo Testamento:

b.1) O valor duradouro da lei divina (capítulos 25 a 27).

b.2) Cristo não inovou em matéria de direito civil (capítulo 28).

b.3) As palavras de Cristo aplicam-se somente às circunstâncias que as motivaram (capítulo 29).

b.4) Harmonização das narrativas dos Evangelhos (capítulo 30).

c) Divórcio por adultério nos Evangelhos:

c.1) A natureza do divórcio (capítulo 31).

c.2) A obrigação de divorciar-se de uma mulher adúltera (capítulo 32).

c.3) Adultério punível com a morte (capítulo 33).

c.4) O caso da mulher inocente (capítulo 34).

d) Divórcio nas Epístolas Paulinas (capítulo 35).

e) Divórcio por motivos que não o adultério (capítulo 36).

e.1) Os motivos para o divórcio no Direito Imperial Romano (capítulo 37).

e.2) A natureza do casamento e sua definição (capítulos 38 e 39).

e.3) Conformidade do Direito Romano com a Lei Divina (capítulo 40).

e.4) O “abandono” (capítulo 41).

e.5) A incapacidade de cumprir os deveres conjugais (capítulo 42).

e.6) O divórcio em casos de recusa dos deveres conjugais ou incapacidade de cumpri-los está de acordo com as palavras de Cristo (capítulo 43).

e.7) Novo casamento de cônjuges culpados (capítulo 44).

g) A vocação divina para o matrimônio (capítulo 45).

h) O elogio do celibato (1Co 7) e seu significado (capítulo 46).

I) Conclusão: A importância moral e social da legislação sobre o casamento (capítulo 47).

8. A educação cívica e o combate à ociosidade:

A) O trabalho, mandamento de Deus (capítulo 48).

B) A instituição dos “paedonomes” (capítulo 48).

C) O ensino primário obrigatório (capítulo 48).

D) A formação profissional (capítulo 48).

E) A indústria da lã e a agricultura (capítulo 49).

Apêndice: O papel e a educação da nobreza (capítulo 49).

F) A regulamentação do comércio (capítulo 50).

Apêndice: A hotelaria (capítulo 51).

G) O controle das profissões e ofícios (capítulos 52 e 53).

H) A organização do lazer (capítulo 54).

9. A legislação suntuária (capítulo 55).

10. A Reforma e codificação da legislação Civil (capítulo 56).

11. O recrutamento e supervisão de funcionários públicos (capítulo 57).

12. Reforma dos abusos judiciais (capítulo 58).

13. A limitação da prisão preventiva e substituição de penas de prisão por trabalhos forçados (capítulo 59).

14. Direito penal e o restabelecimento da pena de morte nos casos previstos pela Lei Divina (capítulo 60).

 

III. Conclusão

Resposta a possíveis objeções; resumo da obra; lembrete das promessas relacionadas à restauração do reino de Cristo (capítulo final).




[1] François Wendel, ed., Martini Bvceri Opera Latina: De Regno Christi (Paris, Presses Universitaires de France, 1955), pp. lxvii-lxx. A obra De Regno Christi [O Reino de Cristo] de Martin Bucer, foi escrita enquanto ele estava exilado na Inglaterra. Ela serviu como uma orientação ao Rei Eduardo VI, que reinou de 1547 a 1553, sobre como promover, de maneira mais eficaz, a reforma da Igreja e da comunidade política inglesas, além de oferecer uma crítica construtiva ao que já havia sido realizado. O tratado sintetizava o pensamento de Bucer acerca da relação entre igreja e sociedade e sobre como o Evangelho deveria influenciar todos os aspectos da vida, resultando no estabelecimento do domínio de Cristo neste mundo. A obra divide-se em dois livros: o primeiro descreve a natureza do Reino de Cristo, enquanto o segundo apresenta um plano de ação fundamentado em quatorze leis para a reforma da igreja e de toda a sociedade. Embora não seja um tratado teológico em sentido estrito, a obra traz contribuições significativas para a doutrina da igreja, para as relações entre igreja e Estado e para a condução da vida cristã, especialmente, no que diz respeito à disciplina eclesiástica ou cristã. Nota do tradutor.

26 junho 2026

Um Catecismo da doutrina de Melanchthon sobre a Ceia do Senhor

 1. O que é um sacramento?

“Sacramento” é uma cerimônia instituída no Evangelho para servir de testemunho da promessa que pertence ao Evangelho, isto é, a promessa de reconciliação ou graça.[1]

 2. Qual é a diferença entre um sacramento e um sacrifício?

Um sacramento é uma cerimônia ou obra na qual Deus nos apresenta aquilo que a promessa associada à cerimônia oferece.[2] Um sacrifício é uma cerimônia ou obra nossa que prestamos a Deus para honrá-lo; isto é, testemunhamos que reconhecemos aquele a quem obedecemos como o verdadeiro Deus e, por essa razão, lhe prestamos tal obediência.[3]

 3. O que é a Ceia do Senhor?

É a comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecida nas palavras do Evangelho.[4]

 4. Onde essas palavras estão escritas?

A cerimônia é descrita por Mateus, Marcos, Lucas e Paulo.[5]

 “Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomem e comam; isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim.

“Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: ‘Bebam dele todos vocês; este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vocês para remissão dos pecados. “Fazei isto, sempre que o beberdes, em memória de mim” (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19-20; 1Co 11.23-25).

 5. O que cremos por meio dessas palavras?

Neste sacramento, o Filho de Deus está verdadeiramente e substancialmente presente.[6] Por meio deste ministério, Ele dá Seu próprio corpo e sangue àqueles que comem e bebem, e testifica que aplica Seus benefícios graciosos aos crentes.[7]

 6. Qual o significado de “fazei isto em memória de mim”?

Pronunciamos sua Palavra sobre o pão e o vinho e os distribuímos entre a congregação.[8] Vocês não devem ouvir as palavras humanas da Ceia de outra forma senão como se estivessem ouvindo o próprio Cristo falando com vocês.[9] Ele nos ordena a fazer o que foi instituído, a saber: “tomem, comam e bebam disto, todos vocês”.[10] É um sacramento quando todas as causas coincidem e a intenção de seu propósito, para o qual foi instituído, é observada.[11]

 7. Isso deve ser entendido como um espetáculo vazio ou uma comemoração?

Este não é um espetáculo vazio, e não devemos imaginar que seja um memorial a um homem morto, como os espetáculos em honra de Hércules e outros semelhantes. Devemos rejeitar essas noções profanas. Cristo está verdadeiramente presente não apenas com a sua eficácia, mas também com a sua substância.[12]

 8. De que maneira Cristo está presente corporalmente no sacramento?

Alguns querem encerrar Cristo no pão por diversos meios, conversão, transubstanciação ou ubiquidade, mas tais noções contrárias à natureza eram desconhecidas dos antigos doutores.[13] Embora não sustentemos a transubstanciação, nem defendamos que o corpo e o sangue de Cristo estejam local ou espacialmente encerrados no pão ou de qualquer outra forma permanentemente unidos a ele fora da participação no sacramento, reconhecemos, contudo, que, mediante a união sacramental, o pão é o corpo de Cristo; isto é, quando o pão é oferecido, o corpo de Cristo está, ao mesmo tempo, presente e verdadeiramente oferecido.[14]

 9. Quais são os benefícios de comer?

O benefício principal é confirmar a fé por meio deste testemunho e estabelecer que, por este penhor ou selo, o próprio Filho de Deus assegura a você que Ele lhe aplica os seus benefícios.[15] Pois aqui, no sacramento, a remissão dos pecados é oferecida e aplicada ao crente.[16]

 10. Quem se aproxima dignamente da Ceia?

Aqueles que se aproximam dignamente são os que se arrependem sinceramente. Instruídos pelo testemunho e pela promessa da nova aliança, eles fortalecem a sua fé.[17] Por meio desse ato de comer, a pessoa recebe o sacramento e obtém a remissão dos pecados e o Espírito Santo.[18]

 11. O que recebem aqueles que comem de modo indigno?

Aqueles que não possuem o temor de Deus e fé, ou arrependimento e fé, e persistem conscientemente em pecados contrários à consciência, são indignos de comer.[19] O ato de comer não traz benefício algum àqueles que não estão arrependidos e continuam em seus pecados contra a consciência.[20] No entanto, visto que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeira e substancialmente presentes e são verdadeiramente distribuídos juntamente com o pão e o vinho, o corpo e o sangue de Cristo são também verdadeiramente oferecidos aos indignos. Mas estes os recebem para juízo, como diz são Paulo.[21]

 12. Quem pode ser admitido à Ceia?

O sacramento é disponibilizado àqueles que desejam participar dele, após terem sido examinados e absolvidos.[22] Cabe aos pastores avaliar a doutrina e a fé dos indivíduos dentre o povo.[23] Pois o povo participa dele, mas somente após ter sido instruído e examinado.[24]

 13. De que modo a Ceia pode ser profanada?

É uma profanação manifesta transportar parte da Ceia do Senhor para adorá-la;[25] bem como afirmar que se está oferecendo o Filho de Deus pelos vivos e pelos mortos. Mas Cristo diz: “tomai e comei” (Mt 26.26).[26] Deve-se manter como regra: nada possui a natureza de sacramento fora do uso instituído por Deus.[27] Isto é, não constitui um sinal de graça agradável a Deus quando algo é estabelecido fora ou à parte da Palavra de Deus, ou quando a cerimônia é transformada em uma obra de natureza diversa, isto é, quando se propõe um propósito diferente daquele estabelecido por Deus.[28] Contudo, no uso ordenado, Cristo está presente nesta comunhão, verdadeira e substancialmente, e o corpo e o sangue de Cristo são, de fato, dados àqueles que a recebem.[29]

 14. Como devemos lidar com as controvérsias na Igreja Luterana acerca da Ceia?

Devem-se proibir as contendas de ambos os lados e utilizar uma única e mesma forma de palavras.[30] Nesta controvérsia, o melhor seria conservar as palavras de Paulo: “O pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo” (1Co 10.16).[31] Ele não diz que a natureza do pão é alterada, como afirmam os papistas. Ele não diz que o pão é o corpo substancial de Cristo. Ele não diz que o pão é o verdadeiro corpo de Cristo, mas que é uma koinōnian (comunhão), isto é, uma união com o corpo de Cristo, a qual ocorre no uso.[32]

Notas:

[1] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559: Second English Edition (St. Louis: Concorida, 2011), p. 255. Ap XIII.3-4.

[2] Robert Kolb, Timothy J. Wengert, and Charles P. Arand, The Book of Concord: The Confessions of the Evangelical Lutheran Church (Minneapolis, MN: Fortress Press, 2000), Ap XXIV.18.

[3] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 279. Cf. “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis,” Corpus Doctrinae Christinae, p. 724. Ap XXIV.18.

[4] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1 cf. 1Corintios 10.16.

[5] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.

[6] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap 10.1, 4

[7] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 271. Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1

[8] Philip Melanchthon, Melanchthon on Christian Doctrine: Loci Communes 1555, trans. Clyde L. Manschreck (New York: Oxford University Press, 1965), p. 218.

[9] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.

[10] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804. Ap XXIV.71; XXII.3

[11] Philip Melanchthon, "De Transsubstantiatione" In Corpus Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb Bretschneider, vol. IV, (Balis Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1837), p. 264.

[12] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. xx. Ap XXIV.72

[13] Philip Melanchthon, "Responsio Philip. Melanth. ad quaestionem de controversia Heidelbergensi" in: Corpus Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb Bretschneider, Vol. IX, (Balis Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1841), p. 963.

[14] Philip Melanchthon, “Appendix 3: The Wittenberg Concord, 1536” in: The Wittenberg Concord: Creating Space for Dialogue (Minneapolis: Fortress Press), p. 191.

[15] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 723.

[16] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 273.

[17] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, pp. 273-274.

[18] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 274.

[19] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.

[20] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.

[21] Ap X.1. Melanchthon, The Wittenberg Concord, p. 192.

[22] Melanchthon, Ap XXIV.1

[23] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[24] Melanchthon, Ap XXIV.49.

[25] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 266.

[26] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[27] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804.

[28] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[29] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 263.

[30] Melanchthon, CR IX.964.

[31] Melanchthon, CR IX.963.

[32] Melanchthon, CR IX.962.


Sobre o autor:

O Rev. Matthew Fenn é pastor associado da Ascension Lutheran Church em Waterloo, Iowa, e reitor do American Lutheran Theological Seminary. Ele e sua esposa, Laurin, têm cinco filhos.

03 junho 2026

O livro de Atos dos Apóstolos prescreve o socialismo?

por Dr. Art Lindsley

28 de maio de 2013

 

“Algo verdadeiramente estranho aconteceu com o cristianismo americano”, escreve Gregory Paul para o blog “On Faith” do The Washington Post. Ele afirma que os cristãos que defendem o livre mercado estão em profunda contradição, porque Atos 2-5 é “socialismo puro e simples, do tipo descrito milênios depois por Marx — que provavelmente tirou a ideia geral dos Evangelhos”.

 Será que Atos 2-5 realmente prega o socialismo? Uma leitura rápida desses capítulos pode levar a essa impressão. Atos 2.44-45 diz que, imediatamente após o Pentecostes, “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens e distribuíam o produto entre todos, segundo a necessidade de cada um”. E Atos 4.32-35, referindo-se à congregação primitiva, diz:

Ora, a multidão dos que creram era de um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade exclusiva de ninguém o que possuía, mas todas as coisas lhes eram comuns. ...” Não havia necessitado algum entre eles, pois todos os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos, e este era distribuído a cada um conforme a sua necessidade.

 Embora essas passagens possam soar como socialismo para o leitor médio, uma leitura superficial pode deixar passar o que uma análise mais atenta do texto revela. Há três razões principais pelas quais Atos 2-5 não ensina o socialismo.

 Este não é um exemplo de verdadeira partilha comunitária. — Atos 2-5 retrata um espírito de partilha comunitária, e não uma comuna propriamente dita. As pessoas não venderam tudo o que possuíam para fins legais, como normalmente acontece em uma comuna. Isso fica evidente pelo uso de verbos no imperfeito ao longo das passagens. Craig Blomberg afirma em seu estudo Neither Poverty nor Riches [Nem Pobreza nem Riqueza]: “[Capítulo 2] os versículos 43-47 são dominados por verbos no imperfeito bem marcados, enquanto normalmente se espera o uso do aoristo [ações definitivas] em narrativas históricas. Não há aqui uma abdicação definitiva de bens, mas atos periódicos de caridade conforme a necessidade surgia.”

 Este ponto fica ainda mais claro em Atos 4-5. A tradução da NVI de Atos 4:34b-35 diz: “De tempos em tempos, os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos”. Blomberg comenta:

Novamente, temos aqui uma série de verbos no imperfeito, desta vez explicitamente refletidos no “de tempos em tempos” da NVI. A venda periódica de propriedades confirma nossa interpretação de Atos 2:44 acima. Não se tratava de uma venda única de todos os bens. O tema “conforme a necessidade” também reaparece. Curiosamente, o que não aparece neste parágrafo é qualquer declaração de completa igualdade entre os crentes.

 John Stott corrobora as conclusões de Blomberg sobre a propriedade na igreja primitiva, destacando também o uso do pretérito imperfeito por Lucas:

Nem Jesus nem seus apóstolos proibiram a propriedade privada a todos os cristãos. [...] É importante notar que, mesmo em Jerusalém, a partilha de bens e posses era voluntária [...] Também é digno de nota que o tempo verbal de ambos os versículos no versículo 45 é imperfeito, o que indica que a venda e a doação eram ocasionais, em resposta a necessidades específicas, e não definitivas.

 Há também razões suficientes para crer que os primeiros seguidores de Cristo não vendiam tudo o que possuíam, mas sim, ocasionalmente, vendiam parte de seus bens e entregavam o valor arrecadado aos apóstolos para distribuição. Por exemplo, em Atos 5, Ananias vendeu uma propriedade (v. 1) e reteve uma parte do valor para si e para sua esposa, Safira. O problema não era que eles fossem obrigados a vender seus bens e entregar todo o valor arrecadado com a venda das terras aos apóstolos, mas sim que Ananias mentiu sobre o verdadeiro preço que recebeu pelas terras (v. 7). Pedro ressalta que ele poderia ter dado ou ficado com o dinheiro como bem entendesse (v. 4), mas mesmo assim mentiu para Pedro e para o Espírito Santo (v. 5).

 Mas mesmo que, para fins de argumentação, admitíssemos que todos os crentes venderam todos os seus bens e os redistribuíram entre a comunidade, isso ainda não provaria que o socialismo é bíblico. Os dois motivos a seguir explicam o porquê.

 O ato em Atos foi totalmente voluntário — o socialismo implica coerção por parte do Estado, mas esses primeiros crentes contribuíram com seus bens livremente. Não há menção ao Estado em Atos 2-5. Em outras passagens das Escrituras, vemos que os cristãos são instruídos a dar dessa maneira, livremente, pois “Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:8). Mesmo que os crentes tivessem vendido todos os seus bens e os redistribuído entre a comunidade, isso ainda não provaria que o socialismo é bíblico, visto que o Estado não é o agente que vende propriedades aos necessitados. Há também muitos indícios de que os direitos de propriedade privada ainda estavam em vigor; portanto, isso sequer seria considerado socialismo se o termo fosse usado para se referir a um sistema regulamentado de propriedade comunitária.

 A narrativa não era um mandamento universal. — Para provar que Atos 2-5 ordena o socialismo, seria necessário demonstrar que esse precedente histórico é uma prescrição obrigatória para todos os cristãos posteriores. Não se pode inferir o imperativo (todos os cristãos deveriam fazer isso) do indicativo (alguns dos primeiros cristãos faziam isso). O fato de alguns cristãos "compartilharem todas as coisas" não constitui um mandamento para que todos os cristãos sigam seu exemplo, pois isso não é claramente ensinado em outras passagens das Escrituras.

 R.C. Sproul explica como os cristãos devem interpretar as narrativas bíblicas sob a perspectiva do ensino cristão mais amplo: "Devemos interpretar as passagens narrativas das Escrituras pelas porções didáticas ou de 'ensino'. Se tentarmos encontrar muita teologia nas passagens narrativas, podemos facilmente extrapolar o objetivo da narrativa e incorrer em erros graves."

 A partilha comunitária em Atos 2-5 não era prática da igreja primitiva no restante do Novo Testamento, portanto, fica claro que essa prática não é um mandamento obrigatório. Assim, mesmo que Atos 2-5 fosse socialismo, não teria nada além de interesse histórico para os crentes posteriores e não teria poder vinculativo sobre a igreja posterior.

 Certamente, a partilha comunitária ilustrada em Atos 2-5 foi uma bela demonstração de generosidade e amor. Mas é impossível demonstrar que essas passagens ensinam o socialismo, dada a sua natureza temporária, voluntária e estritamente narrativa.

 

Traduzido DAQUI 

 Art Lindsley, Ph.D., é vice-presidente de Theological Initiatives at the Institute for Faith, Work & Economics [Iniciativas Teológicas do Instituto para a Fé, o Trabalho e a Economia]. Ele atuou como coeditor e autor colaborador das obras do IFWE "Counting the Cost: Christian Perspectives on Capitalism" (Abilene Christian University Press) e "For the Least of These: A Biblical Answer to Poverty" (Zondervan). Autor e professor renomado, o Dr. Lindsley é cofundador do Reformed Theological Seminary do campus de Washington, D.C. Ele obteve seu bacharelado em Química pela Seattle Pacific University, um mestrado em Divindade pelo Pittsburgh Theological Seminary e um doutorado em Estudos da Religião pela University of Pittsburgh.