por Michael
S. Horton
Com base
em relatos de testemunhas oculares, Gillian Lewis, de Oxford, observa: “A
cidade de Genebra possuía um significado simbólico e mítico. Seus amigos a viam
como espelho e modelo de piedade, um porto seguro, um ninho para jovens
discípulos e uma fortaleza para treinar e enviar ao exterior soldados do
Evangelho e ministros da Palavra”. Contudo, havia também inimigos — inimigos
que viam Genebra como “o santuário de Satanás, uma fonte de heresia, ateísmo e
libertinagem, e um centro de disseminação ativa de sedição”.(1)
Assim
que Genebra abraçou oficialmente a Reforma e rompeu seus laços de lealdade com
o bispo e o Duque de Saboia, a cidade foi inundada por refugiados de toda a
Europa. Da noite para o dia, Genebra tornou-se — depois de Wittenberg, Zurique
e Estrasburgo — uma capital da fé protestante. Visitantes estrangeiros
expressavam seu espanto ao observar os atrativos tanto teológicos quanto
práticos da cidade.
No
entanto, as impressões que recebemos de nossos professores do ensino médio,
muito provavelmente, tinham pouco em comum com aquelas relatadas por
testemunhas da época, fossem amigos ou inimigos. Abundam imagens de um tirano
de toga acadêmica preta, organizando um equivalente do século XVI à polícia
secreta para garantir que ninguém, em momento ou lugar algum, se divertisse. O
aspecto surpreendente disso não é a imagem em si, mas o fato de ela ter
persistido no imaginário público, apesar de ter sido refutada pelo consenso dos
principais historiadores do Renascimento e da Reforma em todo o mundo há mais
de meio século. A base desse mito público é a afirmação de que Genebra era uma
teocracia e Calvino, o seu papa.
O
Reformador Relutante
O
professor de Oxford, Alister McGrath, escreve: “Antes da Reforma, Genebra era
uma cidade episcopal em declínio.”(2) Em 1535, o conselho municipal aboliu a
missa, e o bispo reagiu excomungando a população de Genebra. Meses depois,
cunharam suas primeiras moedas, que traziam a inscrição: “Depois das trevas, a
luz!” A protestante Berna saiu em defesa militar de Genebra, e a cidade
conquistou sua independência do Duque de Saboia. No entanto, a cidade estava
profundamente endividada e em desordem administrativa — situação muito
semelhante à que costumamos ver nas novas repúblicas independentes da antiga
União Soviética. Enquanto o bispo ameaçava usar a força, o povo votou a favor
da Reforma em 25 de maio de 1536.
Mas isso
era apenas o começo. Sem uma liderança qualificada, Genebra estava à beira do
colapso. O que a nova república precisava desesperadamente era de um jovem
visionário.
João
Calvino tinha formação em teologia e direito — sendo o direito a área que
escolhera seguir —, tendo estudado com algumas das mentes mais brilhantes do
Renascimento; ele havia concluído sua primeira obra publicada, um comentário
sobre a obra *De Clementia* (Sobre a Clemência), de Sêneca. Combinando seus
interesses em linguagem e direito civil, esse trabalho explorava a preocupação
do filósofo romano (e, sem dúvida, também a de Calvino) com a clemência e a
compaixão na aplicação da justiça civil. Tanto Sêneca quanto Calvino viveram em
tempos difíceis, nos quais o poder era usado para benefício pessoal a tal ponto
que tanto a igreja quanto a sociedade haviam perdido a sua integridade moral.
Nessa
época, Calvino estava se tornando um “luterano” e lia todos os tratados
evangélicos que conseguia encontrar. Fugindo das autoridades de Paris, Calvino
partiu em 15 de julho de 1536 rumo à cidade reformada de Estrasburgo, onde
Martin Bucer estava estabelecido. No entanto, o rei da França e o imperador
estavam em guerra, o que bloqueava a estrada que ligava a França a Estrasburgo.
Frustrado, mas não desanimado, Calvino fez um desvio e passou a noite em
Genebra. Isso mesmo: apenas para passar a noite.
Calvino
mal sabia o que a providência divina lhe reservava. O principal pastor
reformado, Guilherme Farel — um senhor de idade e de temperamento austero —,
recebeu o jovem reformador. Calvino estava ali como um desconhecido e queria
que assim permanecesse. Eis o seu próprio relato:
Ninguém
ali sabia que eu era o autor [das Institutas] ... até que, finalmente,
Guillaume Farel me reteve em Genebra — não tanto por conselhos e argumentos,
mas por uma maldição terrível, como se Deus tivesse estendido a mão do céu para
me deter... Então, alguém... me reconheceu e revelou minha identidade aos
outros. Diante disso, Farel... empenhou-se ao máximo para me reter. E, ao saber
que eu tinha vários estudos particulares aos quais desejava me dedicar
livremente..., ele lançou uma imprecação, rogando a Deus que amaldiçoasse meu
lazer e a tranquilidade de estudo que eu buscava, caso eu partisse e me
recusasse a oferecer apoio e ajuda em uma situação de tamanha necessidade.
Essas palavras me chocaram e comoveram de tal maneira que desisti da viagem que
pretendia fazer.
Contudo,
consciente de minha timidez e do meu receio, eu não queria ficar obrigado a
desempenhar quaisquer deveres específicos.(3)
O Dr.
McGrath observa: “De personalidade reservada e inclinação intelectual, ele
pouco demonstrava ter potencial para atuar no mundo de disputas acirradas da
política de Genebra na década de 1530.”(4) Naquela época, Calvino não passava
de um professor de Bíblia e teologia.
O
momento decisivo ocorreu, ao que parece, quando Berna — na tentativa de
converter Lausanne por meio de um debate público — convidou Farel para
representar a posição reformada, e Farel levou Calvino consigo. Diante de um
impasse sobre como responder à alegação do representante católico de que os
reformados ignoravam os Pais da Igreja, Calvino levantou-se para responder.
“Recitando uma sequência notável de referências às obras deles, inclusive
indicando onde se encontravam — aparentemente tudo de memória —, Calvino
praticamente destruiu a credibilidade de seu oponente.”(5) Após conquistar
Lausanne para a Reforma, Calvino foi convidado a redigir a Confissão de Fé da
cidade. Em seguida, foi nomeado pastor da Igreja de São Pedro, a catedral de
Genebra.
Após
anos de domínio clerical, o conselho municipal não estava disposto a conceder à
igreja sequer a sua legítima autoridade espiritual, muito menos poder civil.
“Ao contrário de seus antecessores católicos”, escreve McGrath, “eles não
detinham poder nem riqueza na cidade; de fato,
sequer eram cidadãos de
Genebra com acesso aos órgãos de decisão.”(6) A
tensão começou a crescer entre Calvino e o
conselho municipal. Calvino queria que a Ceia fosse administrada com frequência (preferencialmente, sempre
que a Palavra fosse pregada); ele insistia que a autoridade para a excomunhão deveria caber à igreja, e não ao Estado — este último frequentemente a utilizava
como ameaça contra adversários políticos. Em outras palavras,
Calvino desejava uma maior separação entre
as esferas religiosa e civil. No entanto, o conselho municipal, por motivos
políticos, negou a Calvino e Farel a implementação de suas reformas. Quando se
recusaram a tolerar a interferência do conselho municipal em questões
espirituais, ambos foram exilados para Estrasburgo.
O
Retorno Relutante
Em
Estrasburgo (1538-1541), Calvino sentia-se como se estivesse no céu. Martin
Bucer tornou-se seu mentor, e Calvino assumiu o pastorado da igreja reformada
francesa local. Nesse período, Calvino publicou algumas de suas obras mais
célebres e estabeleceu-se o suficiente para se casar com Idelette de Bure,
viúva de um amigo anabatista. A cada sucesso, Calvino sentia-se mais satisfeito
em Estrasburgo, mas, mais uma vez, Genebra o chamava.
Primeiro,
o conselho da cidade pediu a Calvino que escrevesse uma resposta ao apelo do
Cardeal Sadoleto para que os habitantes de Genebra retornassem ao rebanho
romano. Calvino assim o fez — produzindo uma defesa convincente —, e o
reformador considerou o projeto inofensivo, visto que poderia escrevê-lo com a
tranquilidade proporcionada pelo ambiente mais favorável de Estrasburgo.
Genebra emitiu sua retratação oficial e um apelo para que Farel e Calvino
retornassem, mas nenhum dos dois pareceu particularmente comovido com o
convite. Finalmente, em fevereiro de 1541, Farel persuadiu Calvino a voltar —
embora ele próprio não o tenha feito —, e Calvino chegou à cidade em 13 de
setembro.
O Dr.
McGrath destaca “quão profundamente o mito do ‘grande ditador de Genebra’ está
enraizado nos escritos religiosos e históricos populares” e aponta as obras de
Balzac e Huxley como exemplos de escritores que fizeram afirmações sem qualquer
embasamento em fatos históricos, mas que, ainda assim, parecem ter exercido
mais influência na formação da visão moderna sobre Calvino do que os fatos
históricos em si. (7) Ao reformador de Genebra foi “negado o acesso à estrutura
de tomada de decisões da cidade. Ele não podia votar; não podia candidatar-se a
cargos públicos”. (8) De fato, ele ainda tinha pouco poder sobre os assuntos de
sua própria igreja!
Calvino
mandou queimar Serveto na fogueira?
Há, no
entanto, um evento que se destaca em nossa mente no que diz respeito à
liderança de Calvino na igreja de Genebra e que merece uma análise mais atenta:
em 25 de outubro de 1553, o conselho municipal emitiu um decreto determinando
que Miguel Serveto fosse queimado na fogueira por heresia.
Será que
Calvino “mandou queimar Serveto na fogueira”, como sugere a crença popular? A
resposta, claramente, é não! Em primeiro lugar, Calvino havia mantido
correspondência com Serveto, e existem evidências sugerindo que ele até tentou
encontrar-se clandestinamente com o antitrinitário para tentar convencê-lo de
seu erro. Após escapar de uma execução certa pelas mãos das autoridades
católicas romanas na França e em Viena, Serveto chegou a Genebra e revelou sua
presença a Calvino publicamente. Serveto foi preso e, embora Calvino fosse
teólogo e advogado — tendo sido contratado pelo conselho municipal para redigir
leis sobre assistência social, planejamento urbano, saneamento e áreas afins —,
ele não atuou como promotor no caso. Lembre-se de que ele sequer possuía os
direitos de um cidadão comum!
Em
segundo lugar, Calvino estava, naquela época, no auge de seus conflitos com o
conselho municipal. Se ele tivesse, de fato, defendido a execução de Serveto,
isso poderia ter sido justamente o que salvaria a vida da vítima! Quando
Serveto teve a opção de ser julgado em Viena ou em Genebra, escolheu Genebra.
Por algum motivo, ele deve ter pensado que suas chances de sobrevivência seriam
maiores ali. No entanto, o conselho — então liderado pela facção opositora a
Calvino — estava determinado a demonstrar que Genebra era uma cidade reformada
confiável e comprometida com a defesa dos credos; assim, Serveto foi condenado
à morte na fogueira. Calvino implorou ao conselho que executasse Serveto de uma
maneira mais humana do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas,
naturalmente, o conselho municipal rejeitou o apelo de Calvino. Farel visitou
Calvino durante a execução e ficou, segundo relatos, tão perturbado que partiu
sem sequer se despedir.
Vale
ressaltar que, nesse mesmo período, trinta e nove hereges foram queimados em
Paris, e a Inquisição estava sendo aplicada na Espanha, na Itália e em outras
partes da Europa. Embora muitos que buscavam refúgio em Genebra — fugindo das
autoridades católicas — tivessem visões pouco ortodoxas, Serveto foi o único
herege queimado na cidade durante a notável carreira de Calvino.
De fato,
cabe ressaltar que os judeus foram convidados pelas cidades reformadas a buscar
segurança contra a Inquisição. Mais tarde, o puritano Cromwell transformaria a
Inglaterra em um porto seguro para dissidentes — inclusive para aqueles com
quem ele próprio discordava — e, especialmente, para os judeus. O mesmo vale
para os Países Baixos e Estrasburgo. Não é de surpreender que, ao pensarmos em
direitos humanos e relações internacionais, essas capitais reformadas (ou
outrora reformadas) — Genebra, Estrasburgo (sede do Instituto Internacional de
Direitos Humanos, do Parlamento Europeu e de outras agências de assistência e
direitos humanos), Amsterdã e Londres — figurem no topo da lista.
Que o
Verdadeiro Calvino se Apresente
O fato é
que Calvino era um pastor zeloso que visitava pacientes moribundos, vítimas de
uma peste mortal e contagiosa, no hospital recém-organizado que ele mesmo havia
fundado, mesmo tendo sido alertado sobre os perigos do contato. Ele “não apenas
arriscou a própria vida”, segundo o historiador holandês L. Penning, “mas fez
mais pelos pacientes ao adotar medidas de higiene sofisticadas”. (9) Ele foi o
gênio por trás da criação da rede de diáconos que, segundo a Dra. Gillian
Lewis, “assumiu a responsabilidade pelo cuidado diário dos pobres enfermos e
incapazes de trabalhar”, conferindo ao cargo “a dignidade de fazer parte do
quádruplo ministério da igreja”.(10) Foi ele quem instou o conselho a garantir
empréstimos bancários a juros baixos para os exilados pobres, porém
empreendedores, que haviam sido capacitados em um ofício por meio da agência de
treinamento e emprego que funcionava como o diaconato.
Foi
Calvino quem defendeu a educação universal e gratuita para todos os habitantes
da cidade, assim como haviam feito Lutero e os outros reformadores; e, “a
partir de 1541, ele sempre se levantava e ia dormir com esse pensamento
predominante em sua mente: ‘Como podemos dar a Genebra uma universidade?’”(11)
E foram seus alunos que disseminaram o evangelho, bem como ideais
protodemocráticos, por todo o mundo ocidental.
Para os
reformadores em geral, e para Calvino em particular, soli Deo gloria era
o propósito da vida; e as boas obras consistiam em cuidar do próximo, trabalhar
pela justiça e pela retidão nas relações, e construir igrejas, tavernas,
hospitais e universidades para a honra do grande Rei.
Eis,
então, o nosso “tirano de Genebra”, cujo ministério foi inicialmente rejeitado,
depois solicitado com insistentes apelos, em seguida frustrado e, por fim,
altamente honrado pelo povo que ele supostamente teria oprimido. Penning relata
que, no final de sua vida, quando Calvino era visto nas ruas, cidadãos e
“estrangeiros ilustres” diziam: “Olhem, lá vai o nosso Mestre Calvino!” Em 10
de março de 1564, o conselho decretou um dia de oração pela saúde de Calvino, e
o reformador recuperou-se por algum tempo. No Domingo de Páscoa, 2 de abril,
Calvino foi levado à Igreja de São Pedro em sua cadeira e, após receber a
comunhão das mãos de Beza, seu sucessor, a congregação começou a chorar.
O
conselho, que anos antes havia determinado a duração dos sermões em Genebra e
se oposto a grande parte de seu ministério pastoral, votou a concessão de uma
quantia financeira significativa a Calvino; no entanto, o reformador recusou-se
a aceitar qualquer dinheiro, visto que já não podia desempenhar suas funções.
No sábado, 27 de maio, Calvino faleceu, aos cinquenta e cinco anos de idade.
"Quando a notícia da morte de Calvino se espalhou, tarde da noite, houve
muito choro na cidade — como uma nação chora ao perder seu benfeitor",
escreve Penning. “A Cannon Street estava repleta de gente; formou-se uma
peregrinação ao leito de morte do Reformador, e o governo teve de tomar medidas
para conter a pressão excessiva da multidão.”(12) A cidade, com seus milhares
de exilados, cidadãos e dignitários estrangeiros, acompanhou o cortejo fúnebre.
Calvino havia insistido em ser colocado em um caixão simples de pinho e
sepultado em uma cova sem identificação. Esse certamente não foi o funeral de
um déspota.
Mesmo os
maiores heróis do passado têm falhas e tomaram decisões ou fizeram declarações
que nos fazem estremecer — especialmente séculos mais tarde —, e Calvino não é
exceção. Contudo, numa época em que pregadores — e muito menos políticos e
celebridades — parecem oferecer modelos de conduta pouco heroicos, o homem
tímido e relutante de Genebra parece ter resistido ao desprezo daqueles que,
hoje como em sua própria época, não conseguem compreender o que significa ser
possuído por uma paixão por Deus. Tom Wolfe, autor de Bonfire of the Vanities [A
Fogueira das Vaidades], disse à revista revista TIME: “A nossa não é uma época
propícia para produzir grandes heróis”. Que os herdeiros da Reforma que creem
na Bíblia, nos dias de hoje, provem que ele está enganado.
Para
leitura adicional
1. Ralph Hancock, Calvin and the Foundations of Modern
Politics (NY: Cornell University Press).
2. J. McNeill, The History & Character of
Calvinism (Oxford University Press).
3. Ronald Wallace, Calvin, Geneva, and the Reformation
(Baker/Scottish Academic Press).
4. Alister McGrath, A Life of John Calvin (Basil
Blackwell).
Notas:
1. Dr. Gillian Lewis, "Calvin and Geneva,"
in International Calvinism (Oxford Univ. Press), p. 39.
2. Dr. Alister McGrath, A Life of John Calvin
(Cambridge: Basil Blackwell, 1991), p. 86.
3. Ibid., p. 95.
4. Ibid., p. 96.
5. Ibid., p. 97.
6. Ibid.
7. Ibid., pp. 105ss.
8. Ibid., p. 109.
9. L. Penning, Life and Times of Calvin, transl. by
B.S. Berrington (London: Kegan, Trench, Trubner, 1912), p. 287.
10. Lewis, op. cit., p. 44.
11. Penning, op. cit., p. 288.
12. Ibid., p. 391.
Texto original AQUI