por Craig A. Carter
Talvez você tenha notado uma mudança na minha biografia no X e se perguntado por que agora consta: “Presbítero docente no Presbitério do Leste do Canadá da Presbyterian Church of America (PCA)”. Tendo sido batista durante toda a minha vida, tornei-me, agora, presbiteriano. Aqueles que me conhecem sabem bem que esse processo vinha ocorrendo há muito tempo. Finalmente, desliguei-me da minha igreja batista em setembro de 2025 e, desde então, tenho frequentado a Christ Church, em Toronto. Fui examinado pelo Presbitério do Leste do Canadá para a transferência da minha ordenação no dia 23 de outubro de 2026 e fui aprovado como presbítero docente (licenciado honrosamente) na PCA. No último ano, não comentei publicamente sobre questões relacionadas a essa mudança de filiação e de convicções; estive sob o cuidado dos presbíteros da Christ Church, que foram extremamente sábios e gentis tanto comigo quanto com minha esposa, Bonnie, durante este período de transição. Como as informações biográficas a meu respeito em diversos canais não me identificarão mais como batista, e considerando que meus textos abordam questões teológicas relacionadas a diferenças denominacionais, sinto que devo aos meus leitores e colegas uma explicação sobre essa mudança.
Levou muito tempo para chegar a este ponto, mas, como diz o ditado, “cachorro velho também aprende truques novos”! Meu amigo e antigo colega, Jim Beverley (que faleceu recentemente), certa vez entrevistou o filósofo Anthony Flew para a revista Christianity Today sobre sua conversão do ateísmo ao teísmo, aos 81 anos de idade. Nunca é tarde demais para mudar de ideia quando se estava equivocado. Embora eu esteja aposentado do ensino, não parei de escrever e, certamente, não parei de refletir. Mas como chegamos a este ponto?
A minha jornada espiritual
Em fevereiro, quando eu tinha oito anos, fui à frente em uma pequena igreja batista durante um culto noturno para professar minha fé em Cristo, sendo batizado pouco tempo depois. Fui criado em igrejas batistas por pais que frequentavam os cultos, na melhor das hipóteses, de forma esporádica. Um acampamento de verão batista serviu como uma âncora para mim durante a adolescência; foi lá que passei a acreditar que havia sido chamado para o ministério. Recusei ofertas de bolsas de estudo em algumas universidades para ingressar em uma faculdade cristã (na época, Atlantic Baptist College; hoje, Crandall University). Passei dois anos lá e, depois, transferi-me para a Mount Allison University, onde concluí um bacharelado com honras em filosofia. Durante a graduação, atuei como pastor de uma pequena igreja rural e, posteriormente, como pastor de jovens. Em seguida, cursei a Acadia Divinity School, obtendo o título de Mestre em Divindade (M.Div.) em 1983. Após a formatura, servi como pastor por sete anos em Prince Edward Island e em New Brunswick, antes de me mudar para Toronto, em 1990, para cursar um doutorado (Ph.D.) sob a orientação de John Webster.
Desde o ensino médio e a época da faculdade, eu era calvinista no que diz respeito à soteriologia, embora não pudesse afirmar que era, de fato, reformado. Durante os meus estudos para o mestrado, fui influenciado na direção do anabatismo pelo meu professor de história da igreja, o Dr. J.K. Zeman. Ironicamente, o Dr. Zeman era um ex-presbiteriano! Ele era amigo do teólogo menonita John Howard Yoder. No Wycliffe, dediquei-me principalmente à teologia de Karl Barth e escrevi uma tese sobre Yoder. Em 1992, assumi um cargo administrativo na Crandall. Por volta de 2000, quando fui contratado pelo presidente da Tyndale, Brian Stiller, para liderar a transição da instituição de uma faculdade bíblica para uma faculdade de artes liberais, eu era, essencialmente, um batista com inclinações anabatistas e barthianas (embora mantivesse reservas significativas quanto à teologia tanto de Barth quanto dos anabatistas). Entre 2004 e 2005, afastei-me da administração acadêmica, tirei um período sabático e, a partir de então, passei a dedicar-me integralmente ao ensino de teologia.
Durante o período sabático, comecei a escrever um livro sobre a doutrina de Deus. A minha intenção inicial era desenvolver uma compreensão social da Trindade, fundamentada em autores como Zizioulas, Volf, Grenz e Gunton, que servisse de base para uma ética social. Contudo, ao longo da minha pesquisa, tornou-se evidente que a narrativa defendida por Zizioulas e outros, segundo a qual os pais orientais (os capadócios) enfatizavam a trindade de Deus, enquanto os pais ocidentais (principalmente Agostinho) enfatizavam a unidade de Deus, não encontrava respaldo nos melhores estudos patrísticos. Fui influenciado por autores como Lewis Ayres e Michel René Barnes, que descreveram a teologia pró-nicena do século IV como um conjunto que, embora apresentasse certa diversidade, compartilhava características comuns, longe, portanto, das diferenças extremas postuladas por estudiosos como Zizioulas. Felizmente, esse livro nunca chegou a ser escrito. Anos mais tarde, publiquei Contemplating God with the Great Tradition [Contemplando a Deus com a Grande Tradição], uma obra de natureza bem distinta.
Uma volta à Tradição
Graças às minhas leituras em patrística, passei a valorizar de uma nova forma o que antes se chamava simplesmente de “teísmo”. Após o surgimento do “teísmo de processo” de Alfred North Whitehead, o teísmo tradicional passou a ser designado como “teísmo clássico”. Percebi que a doutrina de Deus presente nos escolásticos pós-Reforma era a mesma de Tomás de Aquino, o qual, longe de inventar algo novo, estava, na verdade, sintetizando a tradição patrística. Esse foi o ponto de partida para a minha compreensão da “Grande Tradição”, que abrange desde os primeiros pais da Igreja, como Irineu, passando pela teologia pró-nicena de Atanásio e dos capadócios, seguindo por Agostinho até chegar aos escolásticos medievais, como Anselmo e, finalmente, Tomás de Aquino, o expoente clássico dessa tradição. Embora essa tradição tenha sido contestada pelo nominalismo e pelo voluntarismo no final da Idade Média e no início da Idade Moderna, ela permaneceu como um pressuposto fundamental para a maioria dos escolásticos protestantes que formularam as confissões reformadas. Mesmo quando divergiam em um ou outro ponto, a “Grande Tradição” constituía a estrutura de pensamento básica desses autores. A Grande Tradição foi rejeitada durante o Iluminismo do século XVIII, quando o nominalismo e o voluntarismo do final da Idade Média finalmente triunfaram, sob a influência de figuras como David Hume. Concordo com Thomas Oden que o que é erroneamente chamado de “Iluminismo” deveria, na verdade, ser chamado de “Obscurantismo”. Tratou-se de um desastre que se desenrolou lentamente e que perdura até hoje. Não vivemos na pós-modernidade, mas na modernidade tardia, um período em que as implicações práticas e éticas do nominalismo e do voluntarismo tornam-se dolorosamente evidentes.
O efeito de tudo isso foi tornar-me receptivo à Grande Tradição, incluindo a escolástica reformada, de uma maneira que jamais teria sido possível caso eu tivesse permanecido sob a influência de Barth. Em vez de encarar as confissões reformadas com desconfiança, como se estivessem distorcidas por um “racionalismo aristotélico”, passei a vê-las simplesmente como parte da Grande Tradição, fundamentadas na ortodoxia trinitária e cristológica dos credos ecumênicos dos cinco primeiros séculos. A obra de Richard Muller foi fundamental para reorientar a perspectiva de pessoas como eu, que haviam assimilado em demasia a narrativa de “Calvino contra os calvinistas”. Na verdade, foi Barth quem se mostrou excessivamente devedor da modernidade e, por conseguinte, alheio à Grande Tradição da ortodoxia cristã. Em vez de questionar os limites kantianos impostos à razão e ao nosso conhecimento de Deus, Barth tentou reformular a ortodoxia dentro das restrições severas do naturalismo pós-kantiano. Quanto mais refletia sobre o assunto, mais o seu ambicioso projeto, substituir a metafísica clássica por uma cristologia narrativa, parecia um fracasso. Contudo, se a tentativa de Barth, uma empreitada monumental, intelectualmente vigorosa e de enorme erudição, de reformular a ortodoxia num contexto moderno revelou-se um fracasso, a lição a ser extraída não é a de que Barth tenha sido, de alguma forma, incapaz para a tarefa, mas sim a de que tal tarefa é, por natureza, impossível.
Aprofundando-se no confessionalismo reformado
Foi isso que me abriu para os Padrões de Westminster e para as Três Formas de Unidade, compreendendo-os como a melhor exposição da ortodoxia cristã na história. A meu ver, as confissões reformadas possuem três grandes virtudes. Primeiro, elas pressupõem e se alicerçam na ortodoxia trinitária e cristológica da igreja primitiva, o que lhes confere um caráter católico. Segundo, elas incorporam o grande discernimento soteriológico da Reforma, a justificação somente pela fé, o que as torna “evangélicas” no sentido mais antigo do termo; isto é, o sentido em que a palavra era empregada no continente europeu durante o século XVII, como sinônimo de “protestante”. Em terceiro lugar, trata-se de confissões pré-modernas, fundamentadas em pressupostos filosóficos clássicos, como o realismo, e que, portanto, não foram corrompidas pelos ácidos da modernidade, tais como o nominalismo, o voluntarismo, o materialismo, o ceticismo e o relativismo, os quais praticamente destruíram as denominações protestantes liberais tradicionais. As confissões reformadas mantêm uma conexão vital com a ortodoxia histórica e oferecem uma base para igrejas que desejam evitar a corrupção pelo naturalismo filosófico, pelo ceticismo epistemológico e pela teoria crítica. Para o desgosto de seus críticos, a Presbyterian Church of America está crescendo e prosperando, apesar de estar alicerçada em uma confissão pré-moderna. Precisamos parar de considerar isso, de alguma forma, surpreendente. A robusta ortodoxia da Grande Tradição certamente sobreviverá à modernidade ocidental.
Esse foi o contexto em que escrevi meu livro Interpreting Scripture with the GreatTradition: Recovering the Genius of Premodern Exegesis (2018). Críticos da tradição reformada, de modo geral, aprovaram o argumento de que devemos ver Cristo em todas as Escrituras. Muitos evangélicos apreciaram a tese, embora, para alguns, a sua novidade tenha causado certo desconforto. Os poucos que apresentaram críticas preocupavam-se, em geral, com o fato de eu não parecer suficientemente aberto à crítica histórica moderna. Em vez de tentar conciliar a interpretação teológica com uma abordagem crítico-histórica, como fizera Brevard Childs, contestei a própria epistemologia e a metafísica que sustentam a crítica histórica moderna. Essa tem sido a trajetória do meu pensamento desde então.
Em 2016, enquanto escrevia Interpreting Scripture, eu teria dito que discordava da Confissão de Fé de Westminster em apenas dois pontos: a eclesiologia congregacional e o batismo restrito a crentes. Eu considerava o primeiro aspecto como adiaphora (questão indiferente) e o segundo apenas como uma variação dentro da teologia da aliança, e não como uma divergência fundamental entre batistas e reformados. Era muito importante para mim que minha identidade fosse “reformada”, sendo o rótulo “batista” apenas uma variante dentro da tradição reformada como um todo. Nos últimos anos, minha admiração pelos Padrões de Westminster, bem como minha concordância com eles, cresceu de forma constante; passei a sentir uma tensão crescente entre as doutrinas que aprendi a amar tanto e a minha visão batista sobre o batismo e o governo eclesiástico congregacional. Comecei a me perguntar: “Um batista pode, de fato, ser reformado?”, e percebi que se tornava cada vez mais difícil responder afirmativamente. Nas próximas semanas, buscarei explicar as razões disso em uma série de artigos sobre confessionalismo, culto e teologia da aliança.
As questões fundamentais para mim
Estas são as três questões principais que me levaram a concluir que, por uma questão de coerência, eu precisava me tornar membro de uma igreja reformada confessional. Primeiro, convenci-me de que os batistas, mesmo com as melhores intenções do mundo, não podem ser confessionais, pois lhes falta a estrutura eclesiástica (o sistema de governo denominacional) necessária para implementar um verdadeiro confessionalismo. Obviamente, minha conclusão aqui depende de uma certa compreensão do que significa ser confessional; buscarei explicar isso no meu próximo artigo. Segundo, passei a me preocupar bastante com o declínio no culto das igrejas batistas e de outras denominações evangélicas. As minhas preocupações vão muito além de questões como gosto musical ou “estilo” de adoração. O culto evangélico tem se tornado cada vez mais centrado na experiência, em vez de ser centrado na Palavra, o que, em princípio, o torna modernista. Uma abordagem do culto centrada na Palavra e de caráter dialógico, que inclua uma presença abundante das Escrituras, credos e a confissão de pecados, passou a me parecer algo essencial, e não apenas desejável. Terceiro, ao aprofundar meu estudo sobre a teologia da aliança, percebi que a divergência entre a teologia batista e a teologia reformada não se limita apenas aos capítulos 28 (batismo) e 31 (governo eclesiástico) da Confissão de Fé de Westminster, mas também ao capítulo 7, que trata da natureza da aliança da graça. A unidade substancial da única aliança da graça constitui o cerne de uma forma de ler a Bíblia que sustenta toda a teologia reformada. Portanto, as controvérsias sobre a natureza da aliança da graça não podem ser reduzidas a um ou dois pontos de aplicação. A teologia reformada da aliança parece-me ser o fundamento das confissões reformadas; por isso, desvios dela, como o congregacionalismo batista, mostram-se, a meu ver, bastante problemáticos por diversas razões, as quais apresentarei oportunamente.
Ao longo das próximas semanas, pretendo publicar artigos sobre cada um desses três pontos, na esperança de que os leitores compreendam a minha perspectiva, independentemente de concordarem ou não comigo. O meu objetivo é, simplesmente, expor com a maior clareza possível as razões que me levaram a decidir ingressar na Presbyterian Church of America. Ao fazer isso, sigo a minha consciência, assim como ela foi moldada por décadas de estudo de teologia e filosofia. Oro para que Deus utilize os meus escritos, de alguma forma, para edificar a sua Igreja e fortalecer o nosso testemunho do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Artigo extraído AQUI.