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22 abril 2014

A incompatibilidade da fé cristã e do Marxismo [vídeo]

Tenho me preocupado vendo tantos cristãos comprometendo-se com o Marxismo, consciente ou inconscientemente, entendendo as premissas desta ideologia, ou apenas abracando-o pelos mais diferentes motivos. Por isso, resolvi fazer um vídeo explicando a incompatibilidade da fé cristã e do Marxismo. É algo amador, com uma filmagem simples, mas o foco é a argumentação. Apresento 5 pontos de tensão que precisam ser avaliados nesta rival relação entre o Cristianismo e o Marxismo:
1. Ambos propõe uma cosmovisão explicando toda a realidade.
2. Ambos têm uma proposta acerca de Deus.
3. Ambos apresentam um entendimento do que é o homem e o problema do mal moral.
4. Ambos possuem uma clara perspectiva acerca da religião.
5. Ambos afirmam algo essencial acerca da moralidade.

O meu intuito é denunciar esta confusão teológica e ideológica que está causando tanto prejuízo. Se formos coerentes nas premissas, a prática será uma consequência!

Para assistir o vídeo no YOUTUBE [acesse aqui].

17 abril 2014

Karl Marx contra a moralidade

Escrito por Allen Wood

1. Introdução

Os marxistas expressam frequentemente uma atitude depreciativa para com a moralidade, que (segundo dizem) não é mais do que uma forma de ilusão, uma falsa consciência ou ideologia. Mas, outros (tanto os que se consideram marxistas, como quem não) frequentemente consideram difícil de compreender esta atitude. Os marxistas condenam o capitalismo por explorar a classe trabalhadora e condenar à maioria das pessoas a levar uma vida alienada e insatisfeita. Quais razões podem oferecer para isto, e como podem esperar que outros façam o mesmo, se abandonam todo apelo à moralidade? Todavia, a rejeição marxista da moralidade começa com o próprio Marx. E esta é – segundo vou argumentar – uma concepção defensável, uma consequência natural, como a respeito dela disse Marx, da concepção materialista da história. Ainda que não aceitemos as ideias restantes de Marx, o seu ataque à moralidade estabelece questões importantes relativas à maneira em que devemos concebê-la.


2. O antimoralismo de Marx

Marx geralmente permanece em silêncio acerca do tipo de questões que interessam aos moralistas e aos filósofos éticos. Mas deve-se observar que claramente este silêncio não se deve a um complacente descuido. A sua atitude é de hostilidade aberta à teorização moral, aos valores morais e inclusive contra a própria moralidade. Contra Pierre Proudhon, Karl Heinzen e os “socialistas autênticos” alemães, Marx utiliza regularmente os termos “moralidade” e “crítica moralizante” como epítetos insultuosos. Condena amargamente a exigência de “salários justos” e “distribuição justa” do Programa de Gotha, afirmando que estas expressões “confundem a perspectiva realista da classe trabalhadora” com a “verborragia desatualizada” e o “lixo ideológico” que seu enfoque científico se torna obsoleto (MEW 19:22, SW 325). Quando outros persuadem a Marx a que inclua uma retórica moral suave nas regras para a Primeira Internacional, ele sente que deve desculpar-se com Engels por isto: “vi-me obrigado a introduzir duas expressões sobre “dever” e “o correto” ... ou seja, sobre “a verdade, a moralidade e a justiça”, mas, estão situadas de tal forma que não podem causar nenhum dano” (CW 42, p. 18).

Normalmente Marx descreve a moralidade, junto à religião e ao direito, como formas de ideologia taxando-a como “outros tantos preconceitos burgueses pelos quais se escondem outros tantos interesses ideológicos” (MEW 4, p. 472; CW 6, p. 494-495, cf. MEW 3, p. 26; CW 5, p. 36). Porém, não somente condena as ideias burguesas sobre a moralidade. Seu alvo é a própria moralidade, toda moralidade. A ideologia alemã afirma que a concepção materialista da história, ao mostrar a vinculação entre ideologia moral e interesses materiais de classe “quebrou o suporte de toda a moralidade”, independentemente de seu conteúdo ou filiação de classe (MEW 3, p. 404; CW 5, p. 419). Quando um crítico imaginário critica que “o comunismo anula toda a moralidade e religião, em vez de formá-las de novo”, o Manifesto Comunista responde não negando a verdade da acusação, mas por sua vez observando como a revolução comunista significará uma ruptura radical com todas as relações tradicionais de propriedade, também significará o corte mais radical ainda com todas as ideias tradicionais (MEW 4, p. 480-481; CW 6, p. 504). Evidentemente Marx pensou do mesmo modo que a abolição da propriedade burguesa será uma tarefa da revolução comunista, outra será a “abolição de toda moralidade”. Marx inclusive chega a unir-se ao mal moral contra o bem moral. Insiste que na história “é sempre o lado mal o que finalmente triunfa sobre o bem. Pois, o lado mal é o que indica o movimento da vida, o que faz a história levando a luta à sua maturidade” (MEW 4, p. 140; CW 6, p. 174).


[...] para leitura do texto completo [14 páginas] - acesse aqui!

18 março 2014

Como a ética evolucionária influenciou Adolf Hitler

Por Richard Weikart

Um ponto que eu explico no meu livro From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethic, and Racism in Germany, despertou considerável controvérsia, e inflamou-se ainda mais depois que Ben Stein me entrevistou para o documentário: Expelled: No Intelligence Allowed, que promoveu o Designer Intelligent. Esta controvérsia girou em torno da alegação de que Hitler e os nazistas foram influenciados profundamente pelo Darwinismo.

Quando comecei investigar o impacto do Darwinismo na ética, moralidade e pensamento social no final do século XIX na Alemanha, Hitler e o nazismo não eram o meu campo de pesquisa. No entanto, como eu comecei a descobrir as conexões entre o Darwinismo e a eugenia, eutanásia e extermínio racial, não pude deixar de notar como muitas ideias estão sendo promovidas em nome da ética evolucionista, e isto se assemelhava notavelmente semelhante a ideologia nazista. Afinal, os nazistas tinham desenvolvido o programa mais radical de esterilização obrigatório no mundo, a fim de tentar melhorar a hereditariedade humana. Tudo começou após a Segunda Guerra Mundial, com os milhares de assassinatos de deficientes.

Então, comecei a estudar a ideologia de Hitler em profundidade para descobrir o quão importante era o Darwinismo em sua cosmovisão. Muitos historiadores haviam comentado sobre a importância do Darwinismo social na ideologia de Hitler. No entanto, poucos tinham explorado isso a partir do ângulo da ética evolucionista. Eu descobri que, apesar de Hitler nunca ter usado o termo “ética evolutiva”, ele realmente baseou a sua moralidade sobre a evolução darwiniana.

Quando escrevi From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethic, and Racism in Germany apenas o capítulo final explicita o papel do darwinismo na cosmovisão de Hitler. Este capítulo provocou uma enorme controvérsia, porém, com alguns críticos da internet alegando que Hitler rejeitou o Darwinismo, e, portanto, ele era um criacionista. Assim, decidi escrever um livro inteiro dedicado ao papel da evolução na cosmovisão de Hitler: Hitler’s Ethic: The Nazi Pursuit of Evolutionary Progress. Então, demonstrei não apenas que Hitler acreditava na evolução darwiniana, incluindo a evolução dos seres humanos, mas também, demonstrei em detalhes que a ética evolucionista foi central para a cosmovisão de Hitler. Ela influenciou muitos elementos da ideologia nazista e política, incluindo:

1) A desigualdade racial:
Hitler acreditava que diferentes raças haviam se formado através de processos evolutivos e ocupavam diferentes níveis evolutivos. Ele pensava que a raça ariana ou nórdica (esses termos foram usados como sinônimos pelos nazistas) era a mais avançada. Estas opiniões não eram idiossincráticas, mas eram comuns entre os biólogos evolucionistas alemães no início do século XX.

2) A história como uma luta racial para a existência:
Hitler pensava que as raças estavam presas num inevitável conflito racial. Ele promoveu políticas que obviamente favoreciam aos arianos, enquanto que colocam em desvantagem outras raças supostamente, especialmente os judeus, a fim de ajudar os arianos vencer a luta pela existência. Naturalmente, os judeus e similares perderiam a luta e seriam eventualmente eliminados, de uma forma ou de outra, e os arianos receberiam todo o globo.

3) Políticas eugênicas, como esterilização obrigatória, abortos forçados e morte de pessoas com deficiência:
Estas políticas de eugenia foram projetadas para prevenir a degeneração biológica e ajudar ao longo do processo de evolução.

4) A unidade de expansão da população:
Darwin alegou em Descent of Man que a taxa de natalidade não deve ser limitada, porque uma taxa de natalidade mais elevada seria vantajosa para a evolução. Hitler concordou e muitas vezes, e expressou a mesma opinião.

5) A necessidade de adquirir espaço de vida (através de meios militares):
Esta ideia se originou com Friedrich Ratzel, um alemão biólogo darwiniano que se tornou um geógrafo, que argumentou que a luta pela existência era essencialmente uma luta por espaço. Hitler expressou muitas vezes a necessidade de espaço de vida em termos evolutivos. Ele vinculou a expansão da população com a luta racial. Ganhando espaço para viver, e expulsando os habitantes, a maneira de melhorar a espécie humana seria aumentando a corrida "mestre" em detrimento das raças “inferiores”.

6) A evolução dos traços morais:
Hitler, como muitos outros biólogos contemporâneos e psiquiatras, argumentou que as características morais foram biologicamente determinadas. Ele acreditava que os arianos tinham uma moralidade mais avançada, por serem supostamente mais leais, honestos, diligentes, etc.. Por outro lado, ele considerou os judeus biologicamente imorais, pois ele os culpava serem preguiçosos, mentirosos, sexualmente lascivos, gananciosos, e etc.. Assim, ao livrar o mundo dos judeus e substituí-los por arianos, Hitler em sua própria perspectiva pervertida, pensou que estaria melhorando o mundo, banindo a imoralidade e aumentando a moralidade.

Por que isso importa? Como muitos de meus críticos têm apontado, de fato, a maioria dos darwinistas não são nazistas. Então, por que devemos nos preocupar se os nazistas usaram o Darwinismo para seus próprios propósitos pervertidos?

Embora seja improvável que algo parecido com o Nazismo nunca mais surja novamente das premissas darwinistas, ainda hoje há muitas outras maneiras em que o Darwinismo está sendo usado para desvalorizar a vida humana (como eu mostrei no meu parte anterior). O aborto está desenfreado, e a eugenia bem como a eutanásia está, mais uma vez, tornando-se um assunto atual nos círculos acadêmicos. Embora o Darwinismo não seja a única causa dessa desvalorização da vida humana, muitos estudiosos proeminentes, tais como Peter Singer e Richard Dawkins, admitem que a teoria desempenha um papel significativo.


Sobre o autor: Richard Weikart é professor de história na California State University, Stanislaus, e autor de From Darwin to Hitler: Evolutionary Ethics, Eugenics, and Racism in Germany e Hitler’s Ethic: The Nazi Pursuit of Evolutionary Progress.

Extraído de http://www.credomag.com/2012/01/05/how-evolutionary-ethics-influenced-hitler-and-why-it-matters/ acessado em às 17:00h, em 18 de Março de 2014.


Traduzido em 18 de Março de 2014.
Rev Ewerton B. Tokashiki
Pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Porto Velho
Professor de Teologia Sistemática no SPBC-RO.

Os problemas de Mark Driscoll e os nossos

A crise na liderança americana evangélica

Escrito por Carl R. Trueman

A recente revelação de que Mars Hill Church, em Seattle, pagou uma empresa externa para impulsionar as vendas dos livros de seu pastor, levantou questões não apenas sobre a integridade pessoal, mas também sobre a própria cultura do evangelicalismo americano.

Como um presbiteriano inglês vivendo nos EUA, eu nunca tenho a certeza sobre se eu sou, ou não, um "evangélico" no padrão norte-americano. Quando volto para casa, eu sei que sou evangélico, sem dúvida, mas aqui é mais complicado. De fato, eu sustento uma fé protestante tradicional, ortodoxo, com uma forte inclinação existencial. Mas o evangelicalismo americano é mais (e, às vezes, muito menos) do que isso. Os compromissos políticos do movimento são, em geral, um mistério para mim. E, embora, o modelo de liderança celebridade do movimento é compreensível para mim em termos sociológicos, acho que é de mau gosto e duvidosamente não-bíblica. É muitas vezes parece representar exatamente o que Paulo estava criticando em 1 Coríntios 1 .

Aos que não estão familiarizados com a recente história evangélica americana, algumas informações do contexto: a seis ou sete anos atrás, o Calvinismo se tornou legal. Mais do que isso, o Calvinismo se tornou tão legal que começou a tornar-se uma mercadoria muito vendável e para atrair muito dinheiro. Um movimento amplo, eclético e dinâmico surgiu, apelidado do “Jovem, Inquietos e Reformados” após o título de um livro escrito por Collin Hansen. Com isto, as igrejas calvinistas pareciam crescer como as principais igrejas empenhadas na luta. O recrutamento em seminários reformados permaneceu aquecido, ao mesmo tempo em que foram recusados em outro lugar. Os jovens estavam lendo teologia séria e procuraram conectar a sua fé com todas as áreas de suas vidas.

Como professor em um seminário reformado e como um pastor de uma igreja presbiteriana, eu certamente, me alegrei com o interesse renovado pelo ensino dos reformadores que esse movimento ajudou a gerar. Eu, pessoalmente, fui beneficiado com o movimento de muitas maneiras. O seu advento foi oportunamente muito bem-vindo. Como o poeta disse: “Estar vivo era a felicidade matinal, / Mas ser jovem era algo celestial!"

No entanto, o movimento, tal como ele era, logo começou a mostrar sinais de tensão. Mark Driscoll e James MacDonald compartilharam de uma base comum cristã com T.D. Jakes, um pregador da prosperidade e um ministro em uma denominação unitarista. Como resultado, eles desceram do Gospel Coalition, a organização emblemática do movimento, com os melhores desejos para seu futuro ministério, mas com fortes indícios que nos bastidores a sua saída tinha sido menos amigável. Em seguida, outras questões vieram à tona: No ano passado, surgiu a notícia de que Mark Driscoll teria usado escritores fantasmas para produzir alguns dos seus livros, e que o material aparentemente teria sido retirado a partir de outros autores sem a devida citação. Finalmente, na semana passada, veio a revelação de que o seu livro sobre casamento teria se tornando num best-seller com o uso de mais recurso financeiro da igreja, do que muitas congregações têm em todo o seu orçamento anual.

Mark Driscoll é uma pessoa, um indivíduo singularmente talentoso. No entanto, ele também tem promovido problemas estruturais dentro do próprio movimento dos novos reformados. Apesar das diferenças e, em muitos aspectos, sofisticações na sua teologia o movimento “jovem , inquieto e reformado” sempre foi , de algum modo, simplesmente a mais recente manifestação dos aspectos mais fracos da América evangelicalismo. Foi, e é, um movimento construído sobre o poder de um grupo seleto de personalidades dinâmicas, competentes comunicadores, e pregadores talentosos que tem usado o marketing de forma muito atraente. Essas coisas podem ter grandes benefícios, mas quando não há prestação de contas real envolvido, quando acordos financeiros são obscuros ao extremo, e quando personalidades começam a suplantar a mensagem, sérios problemas nunca estão longe.

O quadro geral é de desastre. Dentro da igreja, eu suspeito que a maioria dos pastores olham com horror para a quantidade de dinheiro envolvido em alguns desses projetos e se afastará por desgosto. Fora da igreja, as pessoas conhecem com nitidez esta prática quando a veem, não importa o quão estritamente legal ela possa ser. A reputação da igreja sofre, e, infelizmente, ele não sofre neste caso injustamente.

Então, finalmente, há o silêncio. A única coisa que poderia manter o movimento unido seria uma liderança pública forte, transparente, que abertamente policiada em si e, portanto, anunciando a sua integridade para que todos possam ver. No entanto, a coisa mais notável sobre toda esta triste saga, foi a partir do envolvimento com Jakes, e que até agora, mantém-se o silêncio de muitos destes homens que se apresentam como líderes do movimento, e que estavam felizes, naquele momento, para beneficiar a reputação e influência de Mark Driscoll. Alguém pode interpretar esse silêncio como uma recusa apropriada de comentar diretamente sobre o ministério de homens que não têm qualquer ligação formal com suas próprias organizações.

No entanto, os líderes do “jovem, inquieto e reformado” não têm normalmente autorizado a redução dos seus antigos comentários. Muitos deles são francos, por exemplo, quanto ao ensino de Joel Osteen. Em seus primeiros dias, quando a Igreja Emergente estava disputando com o Novo Calvinismo pela prominência no mundo evangélico americano, eles fizeram com regularidade, e muitas vezes de modo minucioso, algumas críticas aos líderes emergentes. Em retrospectiva, no entanto, é evidente que estes eram alvos fáceis. A sua própria distância teológica os manteve seguros. Problemas mais perto de casa são sempre muito mais difíceis de falar, muito mais chances de ganhar o desprezo de amigos, e, portanto, muito mais propensos a serem ignorados. O resultado, porém, é que alguns líderes se tornam muito acostumados a sempre fazerem as coisas à sua maneira. Todos nós, que pensamos como evangélicos, ou reformados, viveremos com o fruto amargo daquele fracasso da liderança.


Escrito por Carl R. Trueman is Paul Woolley Professor of Church History at Westminster Theological Seminary.

Extraído de http://www.firstthings.com/web-exclusives/2014/03/mark-driscolls-problems-and-ours acessado às 9:30h, em 15 de Março de 2014.

12 março 2014

Repressão política e religiosa

Durante os seus 71 anos de vida como uma ideologia política dominante o comunismo propagou por todo o mundo o ateísmo, frequentemente unido à repressão política ativa. Durante 1988-1991, antes da abolição do Partido Comunista Soviético, Mikhail Sergeyevich Gorbachev (1931- ) fomentou sua cooperação ativa com a religião, o qual produziu mudanças em todas as esferas.

Lenin (1870-1924) citou a Marx como sua justificação para perseguir a religião, iniciando um ataque frontal contra o clero. Sob Stalin (1879-1953) o ataque se tornou mais sistemático, incluindo a destruição de milhares de igrejas, monastérios, mesquitas e sinagogas. Somente durante a Segunda Guerra Mundial cessaram a perseguição. Stalin fomentou a reabertura das igrejas para oferecer apoio moral no momento em que a catástrofe pairava sobre o mundo.

Ao final da guerra, a União Soviética mediante conquista adquiriu novas áreas além de suas fronteiras ocidentais, áreas contra as quais Stalin dirigiu uma nova onda de represálias, como fez contra os estados satélite da Europa central e oriental. Julgou os lideres católicos, protestantes e ortodoxos que foram invariavelmente condenados e alguns deles executados. A República Democrática Alemã foi a única que se livrou deste flagelo, todavia, exigiu-se aos líderes religiosos que contribuíssem com o processo de reconstrução nacional.

Os novos regimes comunistas da China, Coréia do Norte, Vietnã do Norte, Camboja, e eventualmente Cuba e (mais tarde) Etiopia, consideraram a perseguição religiosa um pré-requisito para se estabelecer um sistema político revolucionário.

Todavia, após a morte de Stalin, os países do bloco soviético começaram a desenvolver os seus próprios “caminhos para o socialismo”, os quais na prática significaram uma assimilação da religião. Em 1956, a denúncia de Stalin fez de Nikita S. Khrushchev (1894-1971) provocou a liberação de muitos prisioneiros políticos e em muitos países passaram os piores dias de perseguição. A União Soviética foi uma exceção, porque Khrushchev voltou a fechar muitas igrejas. O encarceramento daqueles que resistiam à perseguição aguçou um movimento de oposição no qual os batistas tiveram uma grande influência. A sua exigência central era a liberdade religiosa, que finalmente foi garantida sob a nova lei de 1990.

A Albânia foi o único país na história mundial que aboliu toda manifestação religiosa (1967), política que deixou de existir em 1991. Também a China e Coréia do Norte deram sinais de flexibilidade.

Em todos os países comunistas a campanha de erradicar a religião fracassou por completo. Na Polônia o crescimento do catolicismo, sobretudo, como força política após a eleição de 1978 do Papa João Paulo II (1920-), que conduziu a desestabilização num grau suficiente para minar o sistema comunista na Europa central e do leste. Na União Soviética, desde os anos 60, foi aumentando o desejo de descobrir um ideal cristão que substituísse a desacreditada moral do comunismo, e a Igreja Ortodoxa Russa reapareceu ao final para julgar um papel importante na sociedade.

Existem muitos outros lugares do mundo que praticam formas de discriminação religiosa, sobretudo, nos dominados pelo fundamentalismo islâmico. A atividade cristã está restringida, ainda que não seja ilegal em Israel. Há muitos países onde a motivação cristã tem levado a uma atividade política que o regime persegue: alguns países da América Latina, Malawi e, mais especialmente (até em recentes mudanças) no sul da África.


Extraído de M.A. Bourdeaux, “Represión Política” in: David J. Atkinson, Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 995.
O autor: M.A. Bourdeaux, B.D., M.A., diretor do Keston Institute, Oxford, Inglaterra.
Traduzido em 12 de Março de 2014.

A ética dos meios de comunicação

Escrito por E.D. Cock

O mundo dos meios de comunicação abrange os diversos meios dos livros, os periódicos, as revistas, o rádio, a televisão, o cinema, os discos, o CD, e o crescente âmbito dos ordenadores e os sistemas visuais e as táticas interativas. Os meios de comunicação controlam e processam massas de informação, oferecendo educação e conhecimento além do ócio. Levantam-se várias questões éticas sobre a natureza dos diversos meios. O impacto do visual e as imagens que emite, assim como as novas possibilidades que oferece a “realidade virtual”, que nos permite participar e experimentar sendo, ao mesmo tempo, meros expectadores, suscita perguntas fundamentais sobre os abusos do sistema e o controle necessário.

A centralidade da verdade e o perigo de manipulá-la, simplificando-a em excesso ou distorcendo-a para encaixar com o meio, o tempo disponível, a intenção do produtor e os desejos do proprietário da empresa, são temas importantes. A própria diversidade dos meios e as diferentes apresentações das mesmas notícias respaldam a crítica feita aos meios de comunicação por seus prejuízos e sua falta de objetividade.

É possível que o propósito da mídia de massa seja o de informar, educar ou o entretenimento. Os limites adequados a estes propósitos que concedem ao expectador/leitor a liberdade de formular os seus próprios juízos sobre a vida são cruciais. É importante considerar se os meios intentam controlar e conformar a opinião pública ou meramente refleti-la. Em questões políticas e morais isto pode levar a evitar que o poder resida em mãos de uns poucos proprietários de meios de comunicação, que não são eleitos pela maioria, nem são representantes dela.

A lei intenta controlar os meios de comunicação equilibrando a necessidade de liberdade de imprensa com a proteção de pessoas vulneráveis, mediante leis sobre o libelo e a difamação. A invasão de privacidade pode ser legislada, e no contexto de um tribunal, a informação ou as restrições de identidade protegem ao inocente, quando por exemplo, se salvaguarda o anonimato de uma vítima de violação. O governo limita os meios quando estão em jogo questões de segurança nacional.

Aqueles que trabalham em e para os meios de comunicação podem enfrentar-se com problemas morais relativos a conflitos de interesses, que podem afetar a sua objetividade e capacidade de informar adequada e justamente. A implicação com uma fonte de notícias ou a pressão de um superior para omitir ou acrescentar um ponto informativo pode criar outros problemas.

O impacto dos meios na vida social e na política suscita a questão moral de até que ponto deveriam respaldar ou questionar o status quo. As campanhas políticas são afetadas diretamente pela televisão, com sua ênfase nos “debates públicos”, a política das personalidades e as oportunidades de se usar fotografias inconvenientes.

A imprensa e os meios “sujos” são culpados de criar ambientes que induzem ao indivíduo a atuar de maneira criminal ou ofensiva. Isto encontra eco no “periodismo de cheque” que compra histórias e corre o risco de fazer uma montanha com apenas um grão de areia, enquanto se prende na ganância e vulnerabilidade das pessoas. Os meios somente regulam-se a si mesmos, como nas situações em que corre perigo a vida do repórter senão oculta as informações sobre um sequestro ou os detalhes de determinados crimes. O uso de fontes informativas anônimas nos leva a questionar como ele obteve a informação. Temas como o suborno e o pagamento de serviços prestados são questões morais.

Também é possível que um governo abuse dos meios e intente censurar a informação. A sociedade expressa seus pontos de vista sobre tais questões mediante a lei e seu cumprimento, mas as sociedades seculares estão profundamente divididas a respeito da liberdade dos indivíduos para criar e contemplar a pornografia, e sobre a necessidade de controlar o material sexualmente explícito e violento. Parte dessa preocupação centraliza-se no impacto que tais coisas têm sobre os vulneráveis e jovens. Não se chega a um acordo sobre o grau em que as pessoas se endurecem e se tornam insensíveis, convertendo-se em imitadores ou são estimulados. Frequentemente os meios de comunicação se limitam mediante a normativa de não emitir certos programas (com cenas sexuais ou violentas explicitas ou uma linguagem inconveniente) antes das nove da noite. Há certas organizações e autoridades nacionais que tratam as reclamações do público contra os meios, ainda que as penas impostas frequentemente pareçam ser ineficazes.

A publicidade, nas questões de dizerem a verdade, exagerar, criar imagens ou induzir a má interpretação são áreas morais nas quais as autoridades reguladoras da publicidade lutam incessantemente para manter alguns padrões de integridade elevados.

O interesse cristão centraliza-se na importância da verdade como parte das exigências e mandamentos divinos sobre a humanidade, assim como na verdade em sua plena e definitiva expressão em Cristo. A preocupação com o impacto da mídia nos vulneráveis e crianças deve ir conjugada ao que devemos sentir pelas imagens que projetam das mulheres, os grupos raciais e anciãos. O modo como a publicidade cria necessidade e conduz a uma dívida crescente dentro de uma sociedade baseada no consumo e egoísta, revela o poder dos meios para criar e reforçar valores. Há que revelar tais valores, provando-os para justificar a sua correspondência com os valores que devem manifestar os cristãos e segundo os quais devem viver.


Extraído de E.D. Cock, “Ética de los médios de comunicación, La in: David J. Atkinson, Diccionario de Ética Cristiana y Teología Pastoral (Barcelona, Editorial CLIE & Publicaciones Andamio, 2004), pp. 559-561.
O autor: E.D. Cock, B.A., M.A., PhD, diretor do Whitefield Institute e capelão do Green College Oxford.
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki, em 12 de Março de 2014.

13 dezembro 2012

Aos pastores, presbíteros e diáconos que mentiram em sua ordenação

A sua ordenação foi um ato de singular importância. No Conselho da Igreja local, ou numa Reunião do Presbitério, ou num culto público, você respondeu solenemente algumas perguntas, diante de Deus, das autoridades instituídas por Ele, tendo parte da Igreja de Cristo como testemunha. Após ter se comprometido com um claro e audível SIM, você se ajoelhou, num ato de submissão, e demonstrando verbalmente aceitação e compromisso confessional, foram impostas mãos sobre a sua cabeça para a ordenação como um oficial da IPB!

Alguns dias depois você começa em suas conversações a desdizer o que declarou publicamente. Os seus sermões, estudos, e simples conversas informais levantam discordância da identidade confessional da IPB. Apresenta-se mais "aberto", mais tolerante, e fala num tom mais inteligente e atraente do que os tradicionais, a quem se refere como obscurantistas e frios! Critica o crescimento da igreja local e da IPB, questiona a rigidez da teologia, bem como o desprezo gratuito pelo neopentecostalismo, e começa a afirmar que precisamos de sermos mais práticos, mais piedosos, mais fervorosos, entretanto, o seu discurso não é em direção da verdadeira piedade e sim para uma mudança de paradigma. A liderança adota nova linguagem: vivemos para relacionamentos e para uma nova visão! Assim, se investe em estrutura, marketing, slogans, expressões afetivas e menos conteúdo doutrinário, menos profundidade bíblica.

Em seguida, você fala abertamente de suas discordâncias doutrinárias. Por exemplo, afirma ser a favor da contemporaneidade dos dons revelacionais! Dá oportunidade para que os irmãos "manifestem" estes dons [línguas e profecias] casos os tenham ou queiram buscá-los! E que não tenham medo do presbitério, afinal, eles têm a chancela do pastor e dos presbíteros. Toda experiência espiritual é válida e deve ser buscada ...

O culto passa a ser mais musical, menos pregação, mais oportunidade aos irmãos, mais experiência e menos Escritura. O emocionalismo toma conta! O fervor emocional, sincero acima de tudo, domina o ambiente e faz com que as pessoas comecem a manifestar as suas experiências "com o Espírito". A partir daí algumas caem, outras choram, pulam, ou andam de um lado para o outro, e outros ficam assustados por não saberem discernir o que está acontecendo. Então o pastor declara, ratificando o momento, que tudo é obra do Espírito Santo. Duvidar é pecar contra Ele, é correr o risco de blasfemar! E, quem é que vai questionar?

A identidade confessional acabou. Acabou a ordem, acabou a centralidade da Escritura, findou a ordem e decência do culto, esgotou a vergonha de mentir, não existe mais qualquer compromisso com os juramentos feitos no dia da ordenação! A santidade divorciou-se da ética. Manter a palavra do juramento solene é algo completamente ignorado, senão intencionalmente desprezado. Nesta altura o "seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’" (Mateus 5:37) é esquecido. A desonestidade causa amnésia ética confessional.

Tudo virou uma mentira. Você é um oficial presbiteriano, quer seja pastor, presbítero ou diácono, mas na realidade, intencionalmente ignora, despreza, ou ridiculariza a identidade confessional da IPB. Tudo o que você herdou é substituído por modelos do pentecostalismo. Todo seu treinamento teológico é cambiado por livretos, doutrinas e materiais que afrontam as decisões do Supremo Concílio da IPB, bem como os Padrões de Fé de Westminster.


Por isso, desejo apenas lembrar as perguntas que algum tempo foram questionadas em sua ordenação:

Perguntas constitucionais de ordenação

1º. Vocês confessam crer que as Escrituras do Velho e Novo Testamento são a Palavra de Deus, e que esta palavra é a única regra infalível de fé e prática?

2º. Vocês recebem e adotam a Confissão de Fé e os Catecismos desta Igreja como fiel exposição do sistema de doutrina ensinado nas Santas Escrituras?

3º. Vocês sustentam e aprovam o Governo e a Disciplina da Igreja Presbiteriana do Brasil?

4º. Vocês aceitam o ofício [presbíteros regentes e diáconos] desta Igreja, e prometem desempenhar fielmente todos os deveres deste cargo?

5º. Prometem, ainda, procurar manter e promover a paz, a unidade, a edificação e a pureza da Igreja?


A Escritura Sagrada adverte: "não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento, à imagem do seu Criador." (Colossenses 3:9-10)

06 abril 2012

A cultura numa perspectiva cristã reformada

Escrito por Leland Ryken


A cultura consiste nas instituições, tecnologias, arte, costumes e pautas sociais que se desenvolvem numa sociedade. A cultura é o contexto dentro do qual toda pessoa vive inevitavelmente a sua vida cotidiana.

O problema de “Cristo e cultura” somente se entende como a relação entre os cristãos e a cultura em que vivem. Mas esta ênfase obscurece uma importante questão: inclusive quando os cristãos rejeitam a cultura que os cerca, esta continua sendo o meio de sua existência, enquanto criam uma subcultura cristã. O Cristianismo acultural não existe.


AS POSTURAS HISTÓRICAS

O clássico livro de H. Richard Niebuhr com o título Christ and Culture[1] relata as cinco atitudes que os cristãos adotam historicamente frente à questão da cultura. Tanto na história como na vida individual do cristão, não existe uma resposta única frente à cultura.

A postura mais radical sustenta que Cristo está contra a cultura. Aqui se entende a cultura como um elemento hostil ao Cristianismo, tanto em teoria como na prática. Independentemente da sociedade em que se encontrem imersos os cristãos, são chamados a opor-se aos costumes e traços desta. A entrega a Cristo requer uma decisão entre ambas as coisas.

Uma segunda postura é a atitude de ver a Cristo na cultura, que permite a harmonia fundamental entre Cristo e a cultura. O próprio Cristo é considerado como um herói supremo da cultura. A sua vida e ensino é o maior benefício humano da história. Portanto, os seguidores de Cristo podem confiar que a cultural é essencialmente congruente com os seus próprios ideais, e não tem porque renunciar àquela em que se estão imersos.

Uma terceira possibilidade é a de que Cristo está por cima da cultura. Esta postura de síntese afirma tanto a Cristo como a cultura, mas mantendo a distinção entre eles. Cristo é algo mais que um simples herói cultural. Ele é superior e maior que a cultural e digno de uma fidelidade maior. Ma a cultura também exige a participação cristã. Como cidadãos de dois reinos, os cristãos podem viver com uma consciência limpa em ambos os mundos, do mesmo modo que fez Jesus, o Deus Homem.

Em quarto lugar, os teólogos como o apóstolo Paulo, ou Lutero enfatizaram a Cristo e a cultura de mundo paradoxo. Esta postura se baseia na dualidade que aceita a autoridade tanto de Cristo como da cultura. Consequentemente, os cristãos vivem experimentando uma desagradável tensão, tentando satisfazer as exigências de ambas autoridades, e desejando uma salvação eventual e meta-histórica que resolva essa situação.

Por último, se pode entender a Cristo como o transformador da cultura. A tradição de Agostinho e Calvino afirma que, considerando a condição da queda da cultura humana, o compromisso com Cristo permite à pessoa converter a cultura num objetivo santo. Devido ao fato de que Cristo converte as pessoas e as instituições sociais, os cristãos podem seguir com a obra de Deus mediante as suas atividades culturais ordinárias.


FUNDAMENTOS DOUTRINÁRIOS

O respaldo cristão da cultura começa com a doutrina da criação. Isto obriga aos cristãos a reivindicar o mundo para Deus, e fomenta a sua ira ao ver o grau em que o mundo de Deus foi dominado por Satanás e o mal. Os cristãos têm um chamado criacional e outro missionário.

Uma segunda doutrina chave é a Queda e o mal consequente que incide na natureza humana e as instituições sociais. Para um cristão a cultura é sempre uma prova, com tendências para a depravação (se bem que com mais em certas épocas e lugares que em outros). Como tudo o mais dentro de um mundo caído a cultura possui uma tendência permanente de cruzar a linha entre o bem e o mal.

Todavia, a Bíblia não localiza o mal em algumas formas externas per si. O mundo e a cultura humana são capazes de ser usados bem ou mal. O abuso que se faz de algo, não o invalida. O resultado é a necessidade da responsabilidade moral na busca da cultura.

O aforismo de Cristo que ordenou aos seus seguidores a “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22:21), resume o tema bíblico que diz que as instituições da sociedade formam parte do design que Deus fez da vida humana e, como tal são dignas de sua sinceridade legítima. Mas no centro do Cristianismo achamos a convicção de que o “que é de Deus” merece um maior respeito que o que é de César. A cultura é sempre um bem secundário.

A doutrina da vocação (crença de que Deus chama as pessoas para desempenhar trabalhos específicos e lhes concede a capacidade necessária para realizá-las) contribui igualmente para a afirmação cristã da cultura. A Bíblia aceita como fato (por exemplo: Gn 4:20-22) que Deus chama a certas pessoas a serem agricultores, outros para serem músicos, outras a serem arquitetos, chamamentos que todos eles tem conexões culturais.

A convicção cristã de que para uma pessoa redimida toda a vida pertence a Deus permanece resumida na frase do NT que diz: “assim, pois, quer comais ou bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10:31). Para um cristão, inclusive o projeto cultural mais corrente pode formar parte de uma vida centrada em Deus.


NOTA:
[1] H. Richard Niebuhr, Christ and Culture (New York, 1951).

Extraído de David J. Atkinson & David H. Field, orgs., Diccionario de ética Cristiana y teologia pastoral (Terrassa, CLIE, 2004), pp. 403-405.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
6 de Abril de 2012.

29 março 2012

Hendrikus Berkhof

Escrito por Juan Bosch Navarro

Foi um teólogo reformado holandês, nascido 11 de Junho de 1914, em Appeldorn, e faleceu em 17 de Dezembro de 1995 em Leiderdorp. Originário de uma família reformada com traços marcadamente confessionais. Entre 1925 a 1930 cursou no Instituto Reformado de Amsterdam. Após um ano de estudos teológicos na Universidade de Amsterdam, estuda teologia em Leiden. Interessado em especial pela história da Igreja e os seus dogmas. Pregador em Lemele (Overijsel) em 1938. Graduou-se com a tese titulada “A Teologia de Eusébio de Cesaréia” (1939), sob a direção de J.N. Bakhuizen van der Brink. Após contrair matrimônio com Cornelia van den Berg, em 1941, viu-se comprometido com várias atividades de ocupação. Nesse período começou a escrever a sua primeira investigação, que haveria de atrair a atenção dos círculos eclesiásticos durante anos: A História da Igreja (De Geschiedenis der Kerk). Foi nomeado pregador em Zeist (1940-1950). Terminada a Guerra europeia ingressa como docente em Driebergen, centro de renovação da Igreja Reformada Holandesa. Fundador e Reitor do Seminário de Driebergen (1950), cuja finalidade seria conciliar as diversas “tendências” da Igreja Reformada Holandesa. Delegado de sua Igreja na Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas em Amsterdam (1948), do qual será membro do seu Comitê Central durante vários anos (1954-1974). Professor de Teologia Dogmática e Bíblica na Faculdade de Teologia de Leiden (desde 1960). Diretor do Conselho Holandês de Igrejas (1974).

Hendrikus Berkhof foi um dos teólogos mais influentes na tradição calvinista do século XX. A partir de sua tese de doutorado sobre Eusébio de Cesaréia evidencia-se a sua orientação dogmática. A sua postura teológica define-se como a de uma teologia reformada ortodoxa, fortemente influenciada por Karl Barth e, orientada para a ética social. Durante uma breve temporada como estudante em Berlim, demonstra apreço pela Igreja Confessante na Alemanha, comparando a luta liderada por Atanásio ao defender a doutrina trinitária no século IV, com a luta da Igreja Confessante a favor do Evangelho e contra o Nacional Socialismo alemão. Em sua obra A História da Igreja (De Geschiedenis der Kerk) procura não somente descrever, senão que também avaliar o desenvolvimento da teologia cristã. Com ela adquire grande acolhida nos círculos protestantes ortodoxos, mas também desperta certa animosidade entre o protestantismo liberal, que encontra demasiado enfoque dogmático. Da época da guerra data a sua obra A Igreja e o Kaiser (De Kerk en de Keizer), sobre a relação entre a Igreja e o Estado no século IV com claros precedentes para a atual situação. A orientação social de Berkhof como teólogo se faz cada vez mais patente, aceitando que a fé ortodoxa outorga forças renovadoras para a sociedade.

Berkhof intencionou com a fundação do Seminário de Driebergen levar a cabo a aproximação das diferentes tendências doutrinárias dentro do calvinismo, sempre buscando a complementação. Deste período destacam-se duas publicações de grande influência: A crise da ortodoxia moderada (De Crisis der Midderorthodoxie) e Cristo e os poderes (Christus em de machten)[1]. Na primeira se mostra crítico com teologia barthiana. No segundo livro deixa transparecer, uma vez mais, o compromisso de Berkhof pelo ético e o social: a fé em Cristo não somente deve animar a vida do indivíduo, como também a vida da sociedade. Coerentemente, em seu Christus de zin der geschiedenis (Cristo o sentido da história), publicado em 1958, intenta unir duas linhas centrais do seu pensamento, a fé ortodoxa e o seu compromisso com a sociedade: Cristo preenche a sociedade em seu padecimento e na superação do padecimento através da ressurreição. A sua ativa participação nas atividades ecumênicas – seria membro do Comitê Central do Conselho Ecumênico das Igrejas durante vários anos – amplia a sua visão teológica e lhe ajuda a reconciliar distintas tendências.

A década de sessenta sacudiria o pensamento teológico em todo o mundo, o que suporia inclusive para Berkhof relegar em segundo plano a relevância dos aspectos puramente especulativos da teologia e incorporar as ciências humanas na educação teológica. Isto significaria um lento passo evolutivo do clássico calvinismo ortodoxo rumo a um calvinismo ecumênico. É perceptível esta evolução em sua visão dos antigos dogmas da igreja sobre a Trindade, a cristologia e a doutrina da graça. Berkhof gozava, até começo da década de sessenta, de grande confiança entre a maioria ortodoxa de sua Igreja. Isto era devido ao surgimento de sua História da Igreja, onde demonstrou sempre ser um fiel defensor dos pontos de vista ortodoxos. Mas lentamente sua visão de alguns temas centrais, como o da doutrina trinitária, estava evoluindo e se afastava gradativamente da ortodoxia comumente aceita. Nos anos sessenta, Berkhof critica pela primeira vez, em forma expressa, o dogma trinitário em sua obra La doctrina del Espiritu Santo.[2] Apesar de tudo, jamais romperia com os laços da tradição, mas buscou indagar cada vez mais a tradição reformada de maneira crítica. A mudança que se adverte em seu pensamento dá lugar a que seus seguidores dentro da Igreja perdessem a confiança nele e a partir de então, tivesse melhor acolhida entre a minoria progressista.

Também foi Berkhof docente de Teologia Bíblica. A exegese bíblica havia se distanciado desde meados dos anos sessenta das típicas questões teológicas, tornando-se mais histórico-analítica, o que significaria um desafio para a dogmática. Na realidade desde o início cria que a própria Escritura pressupunha uma crítica da dogmática. A sua evolução dogmática se explica pela sua leitura da Bíblia.

A trajetória teológica de Berkhof não conclui, todavia, com a jubilação da docência acadêmica. Os frutos seriam recolhidos durante os próximos dez anos. Em 1985 apareceu a quinta edição de sua Christelijke Geloof[3] e seu novo livro 200 Jahre Theologíe Ein Reisebericht.[4] Na nova edição sobre a doutrina da fé, Berkhof repensa a evolução teológica dos dez anos anteriores e responde às críticas às quais haviam se submetido a sua obra a partir de diversas frentes. “A essência do livro, todavia, permanecia praticamente incólume.” É notório a sua mudança frente à chamada “teologia do processo”, cuja premissa não é que Deus está em perpétuo movimento, motivo que deseja incorporar à humanidade, senão que Deus em si evolui, visão na qual Deus também vem à existência pela humanidade. “Isto, segundo Berkhof, disputa com o pensamento básico da crença cristã no sentido de que Deus em sua soberana liberdade efetua a relação com os homens e realiza o mundo” (E.P. Meijering). Em 200 anos de Teologia é visível a mudança de Berkhof em sua forma de entender a teologia. Se no livro História da Igreja havia enfaticamente insistido que o desenvolvimento da teologia a partir do Iluminismo fora um grave erro e, era função da dogmática do século XX voltar ao essencial da Reforma, em 200 anos de Teologia mostra como a humanidade ao longo dos últimos dois séculos havia se esforçado pra precisamente obter isto. Retifica aqui o seu juízo anterior em torno dos teólogos críticos, mas equilibrado como era, Berkhof tratou também de fazer justiça aos teólogos desse período da história da Igreja, considerados como conservadores e confessionais.[5]

Berkhof é lembrado em ambientes calvinistas como crente, como pregador e como teólogo da sociedade num mundo em mudança a quem observou com assombrosa sensibilidade cristã.[6]

NOTAS:
[1] Este livro foi traduzido e publicado em espanhol. Veja* Hendrikus Berkhof, Cristo y los poderes (Grand Rapids, T.E.L.L., 1985). Nota do tradutor.
[2] Este livro foi traduzido e publicado em espanhol. Veja* Hendrikus Berkhof, La doctrina del Espiritu Santo (Buenos Aires, Editorial La Aurora, 1964). Nota do tradutor.
[3]Christelijke Geloof [A Fé Cristã]. Há a tradução em inglês como Hendrikus Berkhof, Christian Faith – An introduction to the study of the faith (Wm. Eerdmans Publishing Co., ed. rev., 1990). Nota do tradutor.
[4] 200 Jahre Theologie: Ein Reisebericht [200 anos de Teologia: Relação de um trajeto pessoal]. Nota do tradutor.
[5] Uma obra omitida pelo articulista, mas de importância para se avaliar a evolução final do pensamento de Berkhof é o seu livro Introduction to the study of dogmatics (Grand Rapids, Wm. Eerdmans Publishing Co., 1985) originalmente publicado em holandês em 1982. O autor nele apresenta em resumo as premissas e a metodologia e uma síntese de sua teologia comprometidamente com a neo-ortodoxia barthiana. Nota do tradutor.
[6] Por causa do seu distanciamento da histórica ortodoxia calvinista Hendrikus Berkhof dificilmente seria avaliado com tanta simpatia. Ele se manteve dentro da tradição reformada, mas não era confessionalmente comprometido com a teologia, nem subscrevia estritamente as confissões reformadas. Nota do tradutor.

Extraído de Juan Bosch Navarro, Diccionario de teólogos/as contemporáneos (Burgos, Editorial Monte Carmelo, 2004), pp. 124-126.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

29 fevereiro 2012

Presbíteros como defensores da fé cristã

A liderança da igreja local carece engajar na proteção os seus membros, e em especial os adolescentes e jovens, dos ataques do secularismo intelectual. Nos colégios e faculdades a fé cristã é questionada a sua credibilidade com argumentação inteligente e, ao mesmo tempo as instituições de ensino, quer estatais ou privadas, estão comprometidas com filosofias anticristãs altamente hostis ao Cristianismo. William L. Graig constata que
adolescentes cristãos são atacados intelectualmente por todas as formas de filosofias não cristãs, unidas com um relativismo avassalador. Sempre que falo em igrejas ao redor do país, constantemente me encontro com pais cujos filhos perderam a sua fé porque não havia ninguém na igreja para responder às suas perguntas.[1]

Os presbíteros docentes como regentes são responsáveis de preparar a igreja para dar razão da sua fé. Obviamente este dever pode ser realizado pela pregação ou pelo ensino exercido por eles, ou em realizar conferências especiais, trazendo especialistas para que possam instruir a igreja local. Entretanto, eles não podem negligenciar o estudo pessoal e precisam equipar-se de conhecimento apologético para assegurar aos membros a veracidade da fé cristã. Não se pode ignorar que a dúvida tem o seu papel saudável no crescimento de qualquer pessoa, entretanto, a partir do momento que ela é erroneamente respondida, ela corre o risco em converter-se em incredulidade. William L. Graig observa que “podemos desafiar as pessoas a pensarem a fé de forma mais profunda e rigorosa sem encorajá-los a duvidar de sua fé.”[2] Duvidar enquanto processo de pensar e entender a fé pode ser algo até necessário e salutar, entretanto, questionar a veracidade e desprezar a sua procedência divina é o caminho para o ateísmo. Enquanto que a intelectualidade não cristã desafia o conteúdo, a historicidade e a validade da fé, os presbíteros precisam desafiar a reflexão e edificação a fé (At 20:28-30).

Ser presbítero não é um trabalho para covardes. Aqueles que são chamados para expor o Evangelho encontrarão diante de si lobos travestidos de ovelhas, assassinos da verdade, hipócritas, falsos mestres, profetas da mentira, gananciosos mercenários, homens que distorcem o Evangelho com a finalidade de tirar proveito pessoal dele. Não devemos temê-los, mas denunciá-los com o antigo Evangelho de Cristo, proteger as verdadeiras ovelhas e conduzi-las sob a autoridade do Bom Pastor, o Senhor Jesus.

NOTAS:
[1] William L. Graig, Apologética para questões difíceis da vida (São Paulo, Edições Vida Nova, 2010), p. 29
[2] William L. Graig, Apologética para questões difíceis da vida, p. 37.

13 janeiro 2012

A Teologia da Esperança: Jürgen Moltmann

Escrito por Paul P. Enns

DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA TEOLOGIA DE MOLTMANN

Jürgen Moltmann (1926 - ) tornou-se famoso na década de 1960. Moltmann conheceu o filósofo marxista Ernst Bloch na Universidade de Tubinga e, este muito influenciou a teologia de Moltmann. Naqueles anos houve diálogo entre cristãos e marxistas em Tubinga que afetou a alguns jovens. Foi a raiz desta interação com os marxistas que Moltmann escreveu a sua Teologia da Esperança.[1] O livro é produto de um estudo bíblico que focaliza na esperança cristã do futuro. Tais teses continuaram o seu desenvolvimento em Religion, Revolution and the Future.

David Scaer observa que “para Moltmann o princípio hermenêutico é a escatologia e, a esperança é o tema principal na Bíblia.”[2] Mas, para Moltmann a igreja dá forma ao futuro e proporciona esperança por meio da interação social, particularmente a favor dos pobres.

AFIRMAÇÕES DOUTRINÁRIAS DA TEOLOGIA DE MOLTMANN

A teologia de Moltmann pode ser resumida da seguinte maneira.[3] Deus é parte do processo do tempo, em direção ao futuro. Portanto, não é absoluto, está a caminho do futuro, onde se cumprirão as suas promessas. O futuro é a natureza essencial de Deus. A ressurreição de Jesus Cristo enquanto um evento histórico não tem nenhuma importância. A importância na ressurreição de Cristo é escatológica e deve ser vista na perspectiva do futuro, porque dá a esperança de uma ressurreição geral. Em lugar de olhar a partir duma tumba vazia em direção ao futuro, Moltmann sugere olhar o futuro porque este legitima a ressurreição de Cristo. O homem também deve perceber-se na perspectiva do futuro. Ele diz que “o homem somente pode entender-se com referência à história continuamente em desenvolvimento em relação com o futuro de Deus.[4] A solução para o homem é associar-se com Deus que “se apresenta sempre que a humanidade se despreza ou brutaliza.” Moltmann o chama de teologia da cruz. O homem participa nesta teologia da cruz aceitando que os desafios da vida são momentos futuros que se rompem no presente.”[5] O homem deve participar ativamente na sociedade para transformá-la. Devem eliminar as diferenças de “raças, classes, status e igrejas nacionais.”[6] A igreja tem a capacidade de moldar o futuro e deve pregar para transformar a sociedade.[7] A igreja deve ver além da salvação “pessoal” para desafiar todas as barreiras e estruturas entre diferentes pessoas.[8] A igreja é o instrumento de Deus para a mudança, para reconciliar aos ricos com os pobres, as raças e as estruturas artificiais. A revolução pode ser um dos meios para que a igreja introduza mudanças.

AVALIAÇÃO DA TEOLOGIA DE MOLTMANN

Jürgen Moltmann nega a compreensão normal da história por causa da sua ênfase no futuro. Rejeita o significado da historicidade da ressurreição de Cristo. Dada a sua alienação da história com a escatologia, nega o verdadeiro significado da história e dos eventos históricos. Moltmann nega a imutabilidade de Deus (Ml 3:6), e sugere que Deus não é absoluto, senão que “se move para o futuro”.

A influência do Marxismo e do “Marxismo cristão” de Ernst Bloch é evidente em seu conceito de mudar a sociedade. Sem dúvida alguma, grande parte da Teologia da Libertação tem as suas raízes na teologia da revolução e da mudança social de Moltmann. Tal transformação não se alcançará pela salvação individual, a não ser que a igreja confronte a sociedade com estas injustiças.

A esperança futura de Moltmann também está ligada ao humanismo otimista e com a filosofia hegeliana: vê o caos no passado (tese), esperança no futuro (antítese) e a necessidade de que os atos presentes efetuem mudanças (síntese). Em resumo, Moltmann deve muito mais a Karl Marx do que às Escrituras.

NOTAS:
[1] Publicado no Brasil como Jürgen Moltmann, Teologia da Esperança (). Nota do tradutor.
[2] David Scaer, “Theology of Hope” in Stanley N. Gundry & Alan F. Johnson, eds., Tensions in Contemporary Theology (Chicago, Moody, 1976), p. 210.
[3] Para um resumo da teologia de Moltmann veja Scaer, “Theology of Hope”, pp. 212-218 e Harvie M. Conn, Contemporary World Theology (Nutley, Presbyterian & Reformed, 1974), pp. 59-65.
[4] Scaer, “Theology of Hope”, p. 212.
[5] Ibidem, p. 213.
[6] Jürgen Moltmann, The Experiment Hope (Philadelphia, Fortpress, 1975), p. 117.
[7] Conn, Contemporary World Theology, p. 62.
[8] S.M. Smith, “Hope, Theology of”, in Walter A. Elwell, ed., Evangelical Dictionary of Theology (Grand Rapids, Baker, 1984), p. 533.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Paul P. Enns, Compendio Portavoz de Teología (Grand Rapids, Portavoz, 2010), pp. 617-618.

06 janeiro 2012

A Teologia da História na perspectiva de Wolfhart Pannenberg

O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA TEOLOGIA DE PANNENBERG

Wolfhart Pannenberg (1928 - )[1] professor de teologia sistemática na Universidade de Munich, representa uma ruptura com o passado e uma nova ênfase na teologia alemã. Em seu intento de separar-se da ênfase existencial de Rudolf Bultmann, situou a sua teologia na história, particularmente na ressurreição de Jesus Cristo, que ele considera fundamental no Cristianismo. Por isso, a teologia de Pannenberg pode-se chamar de “teologia da história” ou “teologia da ressurreição”.

AFIRMAÇÕES DOUTRINÁRIAS NA TEOLOGIA DE PANNENBERG

Enfatiza a necessidade da historicidade dos eventos bíblicos para ter uma fé válida. Rejeita nisto a dicotomia de Karl Barth entre historie e geschichte. É impossível proclamar o evangelho sem pontuá-lo na história. Para Pannenberg toda a história é revelação. A revelação ocorre por meio dos eventos históricos num nível horizontal, e não na vertical proveniente de Deus. Assim, Pannenberg investiga a vida de Cristo a partir de uma perspectiva histórica, e não em termos da revelação direta de Deus.[2] A revelação através da história deriva dos eventos históricos, não somente das Escrituras ou de Deus. Não há distinção entre a revelação natural e a especial. A revelação por meio da história pode-se chegar a entender pela fé. A cegueira espiritual está fora da discussão; portanto, Pannenberg ignora a questão do pecado original.[3] O ponto culminante da revelação será no passado: a ressurreição de Cristo. A diferença de Bultmann, para Pannenberg é que a ressurreição não é um mito, mas sim um evento histórico.[4]

AVALIAÇÃO DA TEOLOGIA DE PANNENBERG

Ainda que Wolfhart tenha enfatizado a necessidade da historicidade da ressurreição de Cristo, há defeitos notórios em sua teologia.[5] Não identifica o homem em seu estado decaído e com necessidade da graça divina; e ainda, para ele, o homem natural tem a capacidade de entender a revelação na história. Com isto, rejeita a afirmação barthiana segundo a qual “a verdade do Cristianismo entra no coração dos cristãos somente pelo milagre da graça”.[6] Para Pannenberg a Bíblia não é a revelação. Continua a tese da crítica histórica, pois sugere que o nascimento virginal é um mito. Disse que a Bíblia contém erros, pois pois sugere imprecisões nos relatos da ressurreição. Segundo ele, Jesus estava equivocado com a sua rerrurreição, pois pensava que “coincidiria com o fim do mundo e a ressurreição geral de todos os crentes.”[7] Faz com que a história seja a autoridade, no lugar das Escrituras; e o indivíduo deve submeter-se ao intérprete da história, não as Escrituras.

Apesar da ênfase na história, Pannenberg não segue a ortodoxia histórica, porque rejeita a Bíblia enquanto a revelação de Deus para a humanidade. De fato, ele coloca a história como autoridade e não a Bíblia.

NOTAS:
[1] Estudou na Universidade de Berlim e doutorou-se em Teologia na Universidade de Heidelberg (1954), onde lecionou até 1958. Em seguida, ensinou em Wuppertal (1958-61), Mainz (1961-68) e Munique (1968-1993) – Nota do tradutor.
[2] David Scaer, “Theology of Hope” in Stanley N. Gundry e Alan F. Johnson, eds., Tensions in Contemporary Theology (Chicago, Moody, 1976), p. 219.
[3] Ibidem.
[4] Wolfhart Pannenberg, Faith and Reality (Philadelphia, Westminster, 1997), pp. 68-77.
[5] Harvie M. Conn, Contemporary World Theology (Nutley, Presbyterian & Reformed, 1974), pp. 70-72.
[6] Carl F.H. Henry, Frontiers in Modern Theology (Chicago, Moody, 1965), p. 74.
[7] Harvie M. Conn, Contemporary World Theology, p. 71.

Tradução Rev Ewerton B. Tokashiki
Extraído de Paul Enns, Compendio Portavoz de Teologia (Grand Rapids, Editorial PortaVoz, 2010), pp. 614-616.

25 dezembro 2011

Evangelicalismo enfermo

O que uma vez foi falado das igrejas liberais precisa ser dito das igrejas evangélicas: elas buscam a sabedoria do mundo, creêm na teologia do mundo, seguem a agenda do mundo, e adotam os métodos do mundo. De acordo com os padrões da sabedoria mundana, a Bíblia torna-se incapaz de alimentar as exigências da vida nestes tempos pós-modernos. Por si mesma, a Palavra de Deus seria insuficiente de alcançar pessoas para Cristo, promover crescimento espiritual, prover um guia prático, ou transformar a sociedade. Deste modo, igrejas acrescentam ao simples ensino da Escritura algum tipo de entretenimento, grupo de terapia, ativismo político, sinais e maravilhas - ou, qualquer promessa apelando aos consumidores religiosos.

De acordo com a teologia do mundo, pecado é meramente uma disfunção e salvação significa desfrutar de uma melhor auto-estima. Quando esta teologia adentra a igreja, ela coloca dificuldades em doutrinas essenciais como a propiciação da ira de Deus substituindo-a com técnicas e práticas de auto-aceitação. A agenda do mundo é a felicidade pessoal, assim, o evangelho é apresentado como um plano para a realização pessoal, em vez de ser a caminhada de um comprometido discipulado. Para terminar, vemos que os métodos do mundo nesta agenda egocêntrica é necessariamente pragmática, sendo que as igrejas evangélicas estão se esforçando a todo custo em refletir o modo como elas operam. Este mundanismo tem produzido o "novo pragmatismo" evangélico.

Extraído de James M. Boice & Philip G. Ryken, The Doctrines of Grace, pp. 20-21
Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

13 maio 2011

STF (o guardião da CF) - e suas decisões na versão Saltimbanco

Recentemente o Supremo Tribunal Federal deixou os brasileiros perplexos ao decidir pela não aplicação da Lei da Ficha Limpa no caso dos lapidadores dos cofres públicos, no último pleito eleitoral. (Joaquim Roriz, Jader Barbalho e seus contorcionistas agradecem). Faz-se desnecessário demonstrar os malabarismos a que foram obrigados a lançar mão na interpretação da lei para se chegar a essa decisão. O que o Supremo tem feito não é a conformidade do caso à Constituição, mas o contrário: a conformidade da Constituição ao caso, segundo o que se quer decidir.

Dando uma lida no informativo do STF desta semana (nº 625), fui verificar os fundamentos jurídicos utilizados na decisão que reconheceu a união homoafetiva. De cara já sabia que pelos métodos de interpretação da norma mais usuais de direitos (interpretação autêntica, jurisprudencial, literal, racional, sistemático ou histórico), seria incabível a União Estável que não fosse somente entre um homem e uma mulher, conforme Art 226 da CF, a seguir:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
§ 1º - O casamento é civil e gratuita a celebração.
§ 2º - O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.
§ 3º - Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
§ 4º - Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.
§ 5º - Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.


Vê-se que a união estável impõe, obrigatoriamente, gêneros diferentes. Qualquer coisa diferente disso, somente com o uso de trapézios e camas elásticas na interpretação da norma – e põe elasticidade nisso. Mas com o Cirque du Soleil à brasileira instalado na Praça dos Três Poderes, tudo é possível e há uma nova surpresa a casa instante.

Qual foi, então, o método utilizado para a “integração da norma” que tornou possível o reconhecimento da União Estável entre homossexuais? O Voto do Relator explica: aplicação analógica e interpretação extensiva (isso mesmo, não duvide, está lá: analogia e extensão. São métodos que torna a norma uma massa mole na mão do intérprete – dessa cartola pode sair de tudo).

Qual o fundamento? “preponderância da afetividade sobre a biologicidade”. Que absurdo; me desculpem se a pergunta parece vulgar, mas é absolutamente séria e cabível diante desse fundamento ainda mais vulgar: Será que nessa mesma lógica também não seria possível a união estável entre um homem e uma cabrita, por exemplo? E se o fundamento parece fraco, segure-se na poltrona que o picadeiro vai tremer agora: “princípio da dignidade da pessoal humana” (atenção senhores pedófilos: isso aqui deve servir pra alguma coisa pra vocês também). Será que o reconhecimento legal da promiscuidade não faz o inverso com a pessoa humana? Rm 1 responde!

E para fechar as cortinas com uma apresentação emotiva, o Relator realçou que “família seria, por natureza ou no plano dos fatos, vocacionalmente amorosa, parental e protetora dos respectivos membros, constituindo-se no espaço ideal das mais duradouras, afetivas, solidárias ou espiritualizadas relações humanas de índole privada, o que a credenciaria como base da sociedade (CF, art. 226, caput)”. Olha só no que está se tornando a base da sociedade brasileira! Está parecendo a proteção que se dá ao bandido em detrimento da do trabalhador. Daqui a pouco são nossas famílias que vão ter que dar licença pra que eles exerçam seus mais amplos e irrestritos direitos. Mas enquanto o Supremos os chamam de homoafetivos, para a Bíblia são o oposto: “sem afeição natural”.

Até Rui Barbosa é relevante aqui
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”. E já que lembramos de Rui, vai mais uma dele: “Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu”. (Rui Barbosa – Disc. E Conf., 263).

Mas é fácil entender essa produção circense toda diante das palavras do Apóstolo Paulo, quanto ao que o STF entende por princípio da dignidade da pessoal humana: “mudaram a verdade de Deus em mentira”.

Aliás, é por isso que eles não suportam o texto bíblico de Romanos 1. Diante de tão desmoralizante interpretação do STF, qualquer pessoa que tenha um pouquinho só de temor a Deus (ou até mesmo pudor humano), sentiria profunda dor na alma, nos ossos e até nas tripas diante dessa decisão, ao confrontá-la com as palavras do Apóstolo:
“Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos. Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia e os abandonou às paixões infames, para desonrarem seus corpos entre si; E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade...”



Em Uberlândia, 12 de maio de 2011
Ciderlei B Machado
Presbítero da 1a Igreja Presbiteriana de Porto Velho

03 abril 2011

Minha sincera preocupação com o "deus" da Teologia Relacional

Penso que o d_e_u_s do Teísmo Aberto ou Teologia Relacional deveria procurar um psiquiatra e tentar resgatar a sua identidade deslocada, e sair desta crise de descrença em si mesmo. Deveria repensar as suas dúvidas, e confiar um pouco mais no poder que tem, senão nem divindade poderá ser considerado.

Imagino adoradores que se curvam diante de um d_e_u_s protrado. Eu me pergunto: quem está mais embaixo com a cara no pó lamentando entre as frustrações e decepções diante das desgraças naturais, sofrimentos de pecadores, e atrocidades do subproduto pecaminoso, este d_e_u_s ou os seus devotos? Quem seria idiota o suficiente para confiar numa deidade tão inapta, impotente, desnorteada, angustiada, e tão, senão mais limitado que as reles criaturas lançadas à sorte da fortuna, já que ele, enquanto d_e_u_s não controla os eventos, os tempos nem a direção do futuro.

Há cerca de um século atrás o filósofo alemão Fredrich Nietizsche (1844-1900) declarou "Gott ist tot", ou seja, DEUS ESTÁ MORTO! O "deus" no entendimento do pensador, remodelado por ele, havia ido à óbito, e isto era inevitável a partir do Idealismo Alemão que era o Zeitgeist [pensamento predominante] de sua época, como hoje o é o Pós-modernismo. O que Nietizsche estava atacando era a possibilidade da Metafísica e da Epistemologia serem usadas à favor da Fé Cristã. Afinal, tudo condicionado pelo status quo da erudição da época. Por isso ele bradou

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje! — NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência, §125.


Uma premissa falha dos teólogos relacionais é que a sua teoria acerca da "descontrução clássica da doutrina de Deus" tem problemas seríssimos de base. Eles cometem, resgardadas as diferenças, o mesmo pecado que Nietzche incorreu, ou seja, negar a possibilidade da Metafísica e da Epistemologia como recurso instrumental para falarmos de Deus. Aqui resolvemos a questão, pressuposicionalmente - cremos: Deus falou por meio de homens! E o que Ele revelou acerca de Si mesmo, é absoluta verdade. Todo o resto é conseqüência.

A minha preocupação é que se esse d_e_u_s diante de sua crise e angústia resolva cometer suícidio, e se os seus fiéis se sintam constrangidos já que ele poderia dizer: "sejam meus imitadores." Talvez, isso ocorra somente como implicação final, por coerentização, pois os seus adeptos recorreram ao suicídio intelectual e, pior, ao espiritual quando abraçaram a crença numa divindade tão diminuta e estranha ao Deus soberano auto-revelado nas Escrituras.

17 abril 2007

A explosão das seitas marginais do Protestantismo

Desde a Reforma do século XVI, muitos movimentos têm surgido em redor do mundo. Há, por parte dos cristãos, várias atitudes em relação a isso. Mas, uma dessas atitudes é a que vemos no texto de Atos 5.33-39, a atitude de Gamaliel: “...dai de mão a estes homens, deixai-os...” (v.38). Analisemos rapidamente o texto de Atos. Os novos crentes estavam sendo perseguidos e ameaçados de morte. Levanta-se Gamaliel e faz alusão dos dois líderes de religiões ou seitas daqueles dias. Haviam juntado grande número de seguidores, porém, quando morreram, os grupos desapareceram. Depois desta referência ele faz uma recomendação aos perseguidores acerca da Igreja Cristã: “se esta obra vem de homens perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los...”.

Ao olharmos ao nosso redor e repararmos o crescimento vertiginoso das seitas em nossos dias, uma grande questão ficará sobre as nossas cabeças: “Será que o mesmo raciocínio de Gamaliel poderia ser aplicado às seitas atuais?” Obviamente que não! A própria Bíblia nos alerta de que “...haverá tempos em que não suportarão a sã doutrina...” (2Tm.4.3,4). Isto foi dito pelo apóstolo Paulo que, outrora, possivelmente, fizera parte do grupo que queria apedrejar os cristãos.
Se alguém possui o mesmo raciocínio de Gamaliel em nossos dias e não procura analisar os ensinamentos das seitas sob o padrão de nossa fé – a Bíblia, será tido como um ignorante em assuntos relativos à fé cristã. A fé evangélica pode e deve ser estudada, examinada, etc. Isto irá gerar o que chamamos crescimento espiritual. John Stott deu um título muito sugestivo a um de seus livros: “Crer é também pensar”.

Judas, em sua carta, versículo três, exorta “...a batalhardes diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”, pois nesta batalha não há lugar para alienação.

HISTÓRICO
Nesta parte do artigo iremos analisar historicamente a maneira que surgiram os vários grupos que constituem as seitas marginais do protestantismo nos nossos dias.

Seitas Proféticas
Seitas proféticas são aquelas seitas cujos líderes se acham investidos de uma “missão” e precisam proclamá-la, por acreditarem que o próprio Deus os comissionou para isso. Geralmente se baseiam em um sonho, uma revelação ou em uma interpretação descontextualizada das Escrituras Sagradas.

Ao longo da história do cristianismo encontramos exemplos de homens que, movidos por um sentimento puramente humano, tentam estabelecer novos preceitos que se chocam com a Palavra de Deus. Exemplo disso pode ser visto em Márciom[1], no ano 144 e, mais tarde, Ário[2], dentre outros.

Geralmente as seitas surgiam em um contexto de insatisfação com a religião dominante. Muitas dessas seitas proféticas, como por exemplo, Adventistas, Mormonismo, Testemunhas de Jeová, surgiram no final do século XIX, num contexto de grande desenvolvimento teológico, cultural, científico, etc. A maioria dessas seitas tinha uma perspectiva negativa da situação da humanidade e, em muitas delas, davam-se datas para a volta de Cristo e a destruição da humanidade. Já outros grupos surgiram em um contexto de guerra e pós-guerra, como a 1ª e a 2ª Guerras Mundial, tanto na Europa como nos Estados Unidos.

Com o fim da guerra, cresceu o interesse pela religião, principalmente pelas religiões orientais. Era o movimento hippie que surgia pregando a paz e o amor. Foi nessa época que surgiu a seita “Meninos de Deus”, apregoando uma revolução para Jesus.

No Brasil, vários movimentos encontraram boa acolhida, pelo caráter sincretista do próprio povo brasileiro. Muitos grupos usaram as próprias religiões estabelecidas (como é o caso da Congregação Cristã no Brasil que começaram seus trabalhos graças a uma cisão da Igreja Presbiteriana do Brás)[3]. Mas, veremos no decorrer do artigo, que as seitas que tiveram mais êxito entre o povo brasileiro são as de cunho pentecostal e neopentecostal.

Seitas Neopentecostais
Apesar das seitas proféticas terem, em algumas delas, aspectos pentecostais, é diferenciado do movimento pentecostal como veremos adiante. Iremos abordar o movimento pentecostal mais demoradamente por uma questão de prioridade no que diz respeito ao objetivo do artigoo, pois o mesmo não poderia abordar todos os movimentos religiosos, sendo, portanto, este movimento de maior expressão em nosso contexto brasileiro.

O neopentecostalismo tem suas raízes no pentecostalismo que, por sua vez, é devedor ao inglês John Wesley e seu movimento de santificação. Wesley estabeleceu uma distinção entre os crentes comuns e os santificados, ou seja, aqueles que foram batizados pelo Espírito Santo e aqueles que não foram.

Passaremos a abordar o surgimento do movimento pentecostal que, posteriormente, deu origem ao neopentecostalismo.

ESTADOS UNIDOS – (1906) Em Topeka, Kansas, na escola bíblica dirigida por Charles Parham, foi reconhecido o Dom de línguas como sinal de identificação do batismo do Espírito Santo. Dali se espalhou pelos Estados Unidos. O movimento pentecostal em Los Angeles teve início num velho templo metodista, em Azusa Street. Essa missão – Azusa Street Mission – pode ser considerada como o ponto de partida do movimento pentecostal mundial. O próprio Emílio Conde, que traçou as origens das Assembléias de Deus no Brasil, considerava o avivamento espiritual ocorrido em Azusa Street como o ponto de partida do movimento pentecostal no Brasil.

EUROPA – Expandiu-se pela Finlândia, Noruega, Suécia, Alemanha, Suíça, Grã-Bretanha, a partir de uma visita de B. Barrat, pregador metodista, aos Estados Unidos, para angariar fundos. Durante a viagem, escreveu cartas à Noruega, narrando sobre o avivamento que havia nos Estados Unidos. Quando voltou, foram realizadas grandes reuniões em Oslo (Noruega). A partir daí, se espalha por vários países da Europa.

BRASIL – Em muitos países da América Latina o pentecostalismo é o grupo evangélico mais importante. No Brasil, o movimento pentecostal é o mais importante, numericamente falando. O início, em 1910, das Assembléia de Deus no Pará, por Daniel Berg e Gunnar Vingren e da Congregação Cristã, por Luigi Francescon, pela mesma época, no Paraná e São Paulo, foi o ponto de partida para o movimento se espalhar para o restante do Brasil.

Os anos 60 foram decisivos para a religião. Devido à secularização e o modernismo os estudiosos apostavam na extinção da religião. Duas décadas mais tarde o que se observa é uma explosão de novas seitas. Surgem os neopentecostais, também chamado de pentecostalismo de terceira onda ou pentecostalismo autônomo (p. e., Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Comunidade Sara a Nossa Terra, Igreja Renascer em Cristo, Igreja Nacional Palavra da Fé, entre outras).

De uma maneira geral, esse neopentecostalismo enfatiza o exorcismo, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através de líderes carismáticos, etc. Esse neopentecostalismo ganhou força no mundo religioso norte-americano nos anos 70, período em que também começou a penetrar na América Latina, provocando o surgimento de novas igrejas, seitas e denominações, assim como cisões nas principais denominações protestantes brasileiras, entre elas Metodistas, Batistas, Presbiterianas, Congregacionais, etc.

DOUTRINA MAIS COMUM E SUA REFUTAÇÃO

Doutrinas
O neopentecostalismo é caracterizado como um grupo com mentalidade pentecostal, mas que se consideram adeptos de uma “renovação espiritual”.
Consideramos que existem hoje várias Igrejas com características neopentecostais, que podem ser classificadas como pentecostalismo clássico ou neopentecostalismo, depende do critério adotado pelo analista. Nós iremos considerar as Igrejas: Universal do Reino de Deus; Internacional da Graça de Deus; Comunidade Sara Nossa Terra; Renascer em Cristo e Igreja Nacional Palavra da Fé.
O movimento neopentecostal enfatiza, de uma forma geral, o exorcismo, cura divina, dons espirituais, continuidade da revelação divina através dos líderes carismáticos, e uma parte deste movimento aceita a “teologia da prosperidade”. Analisemos o seu conceito sobre possessão demoníaca.

Exorcismo
O exorcismo exerce a função de extirpar o medo e o caos. Todos os males recebem um nome, uma origem: o demônio. O ministro ou pastor, dotado de força de Deus, expulsa o maligno e resolve o problema pela raiz.

A visão neopentecostal é tripartida. Separam o Cosmo em três dimensões: Céu, morada de Deus e de seus anjos; Terra, uma criação divina entregue aos seres humanos; Inferno, regiões inferiores destinadas a acolher as almas dos mortos e demônios. O mundo é a arena, onde se dá a luta entre Deus, satanás e seus anjos, essas disputas são conhecidas como batalhas espirituais.
Acreditam que o mal está personificado nos demônios. O que é notado nos hábitos de “amarração de demônios”, que se baseia na premissa de que os demônios estão soltos e podem entrar em animais, objetos, pessoas, principalmente no momento do culto. Esta é uma atividade constante nos movimentos neopentecostais, porque estão sempre escapando dos laços do exorcista. Por isso é preciso constantemente “colocar os demônios sob os pés”, “pisá-los com energia”, demonstrando-se assim o poderio do Senhor Jesus Cristo sobre as forças do mal. Em alguns templos da Comunidade Sara Nossa Terra, durante a celebração da eucaristia, as pessoas pisoteiam os copos plásticos que foram utilizados, para declararem publicamente a derrota dos demônios, que com este gesto são publicamente pisados e humilhados. Algum tempo atrás no templo da Comunidade Sara Nossa Terra em Passos, o pastor após o sermão e celebração da Eucaristia, e com uma bacia com água e um corante vermelho, orou e depois chamou os fiéis até altar para limpá-los com o sangue de Cristo.

Na visão neopentecostal os demônios são espíritos revoltados, porque na criação dos seres humanos, Deus teria deixado de dar a eles – espíritos puros – a predominância original que eles tinham; por isso os demônios se apoderam das pessoas, movidos de inveja, em uma feroz luta, com o objetivo de destruí-los de todas as maneiras possíveis. Uma das maneiras, comum entre IURD[4] e Comunidade Sara Nossa Terra, é através da hereditariedade, pois, há casos de demônios que perseguem várias gerações. Uma outra maneira, é que há pessoas que se tornam possessas ao participarem, diretamente ou não, de rituais espíritas, ou por terem sido alvo de trabalhos, despachos e bruxarias, ou até mesmo por passarem perto, de carro ou a pé, dos lugares que foram utilizados para este tipo de trabalho, ou macumba. Se a pessoa que passou perto deste local, não tem o Espírito Santo na sua vida, fatalmente terá maléficos resultados.

Há também uma corrente que disputa o tempo todo no momento de culto, com os poderes das trevas. E existem ainda, como é freqüente nos templos da IURD, os cultos de guerra cósmica ou batalha espiritual; são conhecidas como “correntes de fé” ou “campanhas”. Dessa maneira, cada milagre, conversão e exorcismo são pequenas amostras de decisivas vitórias de Deus contra as forças diabólicas.

As Igrejas neopentecostais se diferenciam das pentecostais nos rituais de exorcismo, porque os pastores neopentecostais fazem um tipo de entrevista com as entidades diabólicas. A eficiência do exorcismo depende da legitimidade de quem pratica o ato e da instituição ao qual está vinculado o exorcista, o que a IURD atribui para si a autenticidade do exorcismo.

Um outro objetivo do diabo é tornar seres humanos seus prisioneiros, e a ação da Igreja é oferecer tratamento espiritual, atuando como um pronto socorro espiritual. O ritual de exorcismo na IURD deve ser dirigido por pastores e obreiros cuja vida espiritual é supostamente exemplar, exigindo-se por isso mesmo, um longo preparo através de períodos longos de oração e jejum. As pessoas no auditório podem também participar através das suas orações, com declarações (queima Jesus; queima Jesus), com cânticos (sai, sai, sai, em nome de Jesus; ou, tá na hora, tá na hora do diabo ir embora) ou com ações que incluem o bater dos pés no chão, expressando que o diabo esta sendo pisado.

Refutação
Entendemos que estes rituais e atividades desenvolvidas nas Igrejas Neopentecostais são modismos e falta de ensinamento bíblico adequado. A respeito do exorcismo respondemos que, ao invés da pessoa buscar em métodos e rituais uma forma de libertação, ele primeiramente deveria buscar a Deus, todas as vezes que lhe ocorreram pensamentos, atos e atitudes contrárias à vontade Dele. No movimento neopentecostal há pouco, ou nenhum, espaço para os métodos antigos, como arrependimento, confissão e admissão da própria culpa, e uma vida em santificação. Tiago orienta ao crente resistir ao diabo (Tg 4.7). Não se resolve culpa pessoal com exorcismo, nem se substitui a responsabilidade individual por demonização. Estes movimentos privam o cristão de participar da única e verdadeira libertação do domínio do pecado em sua vida. O apóstolo Paulo sugere a mortificação da natureza pecaminosa como um exercício diário (Rm 6, 6; 8,13), e a solução para as obras da carne não é a expulsão de espíritos que supostamente escravizam os cristãos e incita-os a praticar estes pecados, mas é viver uma vida no Espírito (Gl 5, 16-26).

Pode um cristão ter demônios habitando seu corpo, o qual é igualmente habitado pelo Espírito Santo? A questão é realmente aguda, pois a Escritura ensina que o cristão está assentado com Cristo nos lugares celestiais, acima de todos os principados e potestades (Ef 1, 21-22). O cristão está em Cristo, e Cristo nada tem a ver com o maligno (Jo 14,30). E, naturalmente, o diabo não toca os que são de Cristo (1 Jo 5,18), pois o que está no cristão (Espírito Santo) é maior que os espíritos malignos que habitam este mundo (1 Jo 4,4).

O NT não diz absolutamente nada a respeito de cristãos que foram possuídos, e apenas descreve o encontro de Jesus e dos apóstolos com pessoas endemoninhadas, mas em nenhum caso revela como o endemoninhamento aconteceu, se foi causa de pecados pessoais, pelos pecados dos outros, por maldições hereditárias, ou qualquer outro dos motivos alegados pelos proponentes do movimento neopentecostal. Não devemos tentar satisfazer as nossas curiosidades baseadas em especulações e experiências pessoais. Cremos que é possível hoje um descrente ser de tal forma, oprimido e atacado por Satanás o ponto de ocorrer a possessão.
A pergunta 26 do Catecismo Menor diz:
Como exerce Cristo as funções de Rei?
Cristo exerce as funções de Rei sujeitando-nos a si mesmo, governando-nos e protegendo-nos, contendo e subjugando todos os seus e os nossos inimigos.

BIBLIOGRAFIA
1. CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, Templo e Mercado: organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis, R.J.: Vozes; São Paulo: Simpósio Editora e Universidade Metodista de São Paulo, 1997.
2. GONZALEZ, Justo L., A Era dos Novos Horizontes. São Paulo: Vida Nova, 1989.
3. _______________, A Era Inconclusa. São Paulo: Vida Nova, 1995.
4. LEITE FILHO, Tácito da Gama, Seitas Proféticas. Rio de Janeiro: Juerp, 1987.
5. ______________________, Seitas Neopentecostais. Rio de Janeiro: Juerp, 1991.
6. STOTT, John R. W. Crer é também pensar. São Paulo: ABU, 1994.
Notas:
[1] González, Vol.1, p.99. Márciom acreditava que o presente mundo era mau e, portanto, fora criado por um deus igualmente mau. Então, ele fez uma distinção entre o deus do A.T. (Jeová) e o Pai de Jesus Cristo do N.T. (Deus Supremo) superior a Jeová.
[2] González, vol.2, p.90, 91. Segundo Ário, Jesus havia sido criado por Deus, sendo, portanto, uma criatura. Mesmo sendo, no dizer de Ário, a principal criatura de Deus. o que estava em jogo era a divindade de Jesus.
[3] Tácito, Seitas Neopentecostais, p.31.
[4] Igreja Universal do Reino de Deus.

Rev Baltazar L. Fernandes