Mostrando postagens com marcador Continuísmo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Continuísmo. Mostrar todas as postagens

16 fevereiro 2024

Jonathan Edwards era um continuísta?

 

Jonathan Edwards é conhecido por produzir uma sadia teologia em tempos de avivamento nos Estados Unidos da América. Ele examinou experiências e supostas manifestações atribuídas ao Espírito Santo.
[1] Entretanto, ao contrário do que pentecostais e continuístas afirmam acerca do pensamento de Edwards sobre avivamento “ele não pensava que um tempo de dons extraordinários do Espírito Santo havia chegado, por isso negou (em contrário tanto a alguns radicais de seu tempo quanto aos pentecostais que surgiriam depois) que sinais de êxtase eram a melhor evidência de um verdadeiro derramamento do Espírito Santo”.[2] Hank Hanegraaff denunciou vários líderes do movimento Counterfeit Revival que propõem uma interpretação histórica revisionista distorcida do pensamento de Edwards, atribuindo a ele um continuísmo carismático.[3] Entretanto, numa leitura atenta aos textos de Edwards percebemos que ele, quanto aos dons revelacionais, era um cessacionista.

         Edwards adotava a categorização dos dons como ordinários e extraordinários. Por extraordinários ele diz

tais como o dom de línguas, de milagres, de profecia etc., são chamados extraordinários porque, como tais, não são dados no curso ordinário da providência divina. Não são outorgados do modo comum e providencial de Deus tratar com seus filhos, mas só em ocasiões extraordinárias, como foram outorgados aos profetas e apóstolos, tal como a capacidade de revelar a mente e vontade de Deus antes que o cânon das Escrituras fosse completado, e assim à igreja primitiva, para sua fundação e estabelecimento no mundo. Mas, desde que o cânon das Escrituras se completou e estas foram estabelecidas, estes dons extraordinários cessaram.[4]

 

         Noutro sermão ele reitera que

no conhecimento que o apóstolo diz que se desvanecerá está implícito um dom particularmente miraculoso que subsistia na igreja de Deus naqueles dias. Pois o apóstolo, como já vimos, está aqui comparando a caridade com os dons miraculosos do Espírito – aqueles dons extraordinários que eram comuns na igreja daqueles dias; um desses dons era o dom de profecia, e outro, o dom de línguas, ou o poder de falar em idiomas que nunca tinham sido aprendidos. Ambos esses dons são mencionados no texto; e o apóstolo diz que acabariam e cessariam. [...] É este dom miraculoso que o apóstolo afirma aqui que desapareceria, juntamente com os demais dons miraculosos dos quais ele fala, tais como profecia e o dom de línguas etc. Todos esses foram dons extraordinários outorgados por certo tempo para a introdução e estabelecimento do cristianismo no mundo; e, quando se atingiu seu propósito, todos eles desapareceram e cessaram.[5]

 

         Edwards declara que não há mais revelações hoje.

Se em algum momento alguém tem uma impressão extraordinária causada em sua mente, e crer que isso procede de Deus, a revelar-se algo que sucederá no futuro, isso, se fosse real, provaria ser um dom extraordinário do Espírito Santo, a saber, o dom de profecia; mas, à luz do que foi dito, é evidente que esse não seria um sinal seguro da graça ou de algo salvífico; sim, se fosse real, repito – pois, na verdade, não temos razão para considerar tais coisas, como se pretende em nossos dias, como sendo algo mais além do que ilusão.[6]

 

         Ele negava qualquer possibilidade de restauração dos dons extraordinários. A doutrina da luz divina no pensamento de Edwards é, por vezes, mal compreendida. Ela não pode ser confundida com o ensino dos entusiastas do século XVI, nem com os quackers no século XVII, em que se alegava uma comunicação revelacional imediata à alma pelo Espírito Santo. Ele define a luz divina como sendo “um verdadeiro sentido da excelência das coisas reveladas na Palavra de Deus, e convicção da verdade e da realidade que delas então emana.”[7] Ele negava que esta luz tenha natureza independe da Escritura Sagrada, ou que seja dada sem a sua mediação. Por isso, ele declara que

essa luz espiritual não é a sugestão de algumas novas verdades ou proposições não contidas na Palavra de Deus. Essa sugestão de novas verdades ou doutrinas à mente, independentemente de qualquer revelação anterior a essas proposições, seja em palavra ou escrita, é inspiração; como os profetas e apóstolos tiveram, e como alguns entusiastas pretendem ter. Mas essa luz espiritual da qual estou falando é coisa bem diferente da inspiração. Ela não revela nova doutrina, não sugere nova proposição à mente, não ensina coisa nova sobre Deus, ou Cristo, ou outro mundo, não ensinado na Bíblia, mas apenas dá uma apresentação correta dessas coisas que são ensinadas na Palavra de Deus.[8]

 

Apesar de Edwards aceitar com discernimento, interpretando à luz das Escrituras, as experiências sobrenaturais que ocorreram durante o Grande Despertamento, em nenhum momento ele admitiu a ocorrência dos dons revelacionais, ou a possibilidade de novas revelações pelo Espírito Santo à igreja em seus dias.


NOTAS:

[1] Um pastor contemporâneo de Edwards, em junho de 1743, escreveu: “não sabemos de visões, transes nem revelações; mas de exortações fraternais, com a mais modesta e afetuosa do que é representada”. Joseph Tracy, The Great Awekening (Edinburg, The Banner of Truth, 1976), p. 326.

[2] George Marsden, A breve vida de Jonathan Edwards (São José dos Campos, Editora Fiel, 2015), p. 107.

[3] Dentre eles James Ryle, John Arnott, Guy Chevreau, Gerald Coates, Patrick Dixon, William DeArteaga, Nick Needham, Rand Clark. Veja em Hank Hanegraaff, Counterfeit Revival – Looking for God in all the wrong places (Nashville, Word Publishing, 2001), pp. 95-115.

[4] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13 (São Paulo, Editora Fiel, 2015), pp. 50-51.

[5] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 342-343.

[6] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 65-66.

[7] Jonathan Edwards, A busca do crescimento (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010), p. 33.

[8] Jonathan Edwards, A busca do crescimento, p. 32.


22 março 2020

D.A. Carson e sua interpretação imaginativa do dom de línguas

por Ewerton B. Tokashiki


índice

1. Qual o problema?
2. Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?
3. O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?
4. Anexo


Qual o problema?

Se tem um escritor que aprecio ler é D.A. Carson. De fato, ele é uma referência acadêmica de competência inquestionável. O primeiro livro dele que li foi “Exegese e suas falácias”[1] e, a partir daí, passei a admirar a capacidade de discernir erros exegéticos em grandes intérpretes da Bíblia. Todavia, a minha decepção veio com a leitura do seu livro “A manifestação do Espírito – a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14”. Quando soube que ele era um continuísta, fiquei muito curioso querendo saber como seria a abordagem exegética de alguém com a competência como a dele? A leitura do capítulo 3 “Profecia e línguas: buscando o que é melhor (14.1-19)” trouxe a inevitável frustração. Não vou me deter resumindo a parte introdutória do capítulo, que é de menor importância, mas de modo objetivo irei para a análise de sua opinião sobre o dom de línguas. Resumidamente, é necessário antecipar, por amor da clareza, que Carson faz uma distinção entre o dom de línguas de Atos e 1Coríntios e o falar em línguas na atualidade, e apesar disso, ele tenta explicar a relação entre estes diferentes fenômenos.


Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?

Há um aspecto muito positivo neste capítulo. Carson crê que tanto as ocorrências de línguas em Atos como 1Coríntios eram idiomas, e não manifestações extáticas. Ele declara que “devo simplesmente registrar minha convicção de que o que Lucas descreve em Pentecostes são idiomas existentes”.[2] Então, logo em seguida apresenta a conclusão de que
Paulo considerava o dom línguas um dom de idiomas existentes, ou seja, de línguas que eram cognitivas, fossem elas de homens, ou de anjos. Além disso, se ele sabia dos detalhes de Pentecostes (atualmente, uma opinião impopular no mundo acadêmico, mas totalmente defensável em minha opinião), seu entendimento sobre línguas deve ter sido moldado, até certo ponto, por esse evento. Certamente as línguas em Atos exerceram algumas funções diferentes das que eram exercidas em 1Coríntios; mas não há evidência substancial que sugira que Paulo pensasse as duas como essencialmente diferentes.[3]

Nesta parte a maioria dos cessacionistas concordam com ele. Digo, a maioria, porque há alguns cessacionistas que não creem que os dois eventos se refiram ao mesmo fenômeno. Mas, eu fecho plenamente com Carson neste ponto!


O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?

Ele divide a sua argumentação em três partes. Primeiro, ele expõe que apesar de não ter fundamento bíblico, a experiência é válida por ser funcionalmente benéfico para quem a usa. A primeira constatação que Carson faz sobre o moderno fenômeno de falar em línguas é de que “não é nenhum idioma humano. Os padrões e as estruturas exigidos por todo idioma humano conhecido simplesmente não estão presentes nesses exemplos. Ocasionalmente, uma palavra reconhecível escapa; mas isso é estatisticamente provável, dado o grande volume de verbalização”.[4] A sua próxima conclusão é que “as línguas atuais, em termos lexicais, são não comunicativas, e os poucos exemplos de casos de xenoglossia atuais são tão mal atestados que nenhum peso pode ser colocado neles.”[5] Em outras palavras, nas atuais manifestações do falar em línguas, segundo Carson, não há uma comunicação direta inteligível. E apesar disso, a sua conclusão tende para o pragmatismo, ao declarar que “o atual fenômeno parece fazer mais bem do que mal, tem ajudado muitos crentes no que diz respeito a adoração, oração e compromisso, e, por isso, deveria talvez ser avaliado como um bom dom de Deus, apesar de não ter nenhuma garantia bíblica explícita.”[6] O que vemos aqui é a completa negação do princípio fundamental sola Scriptura, a favor de uma experiência que não tem base na Escritura Sagrada, por meros motivos pragmáticos. Essa afirmação já seria suficiente para fechar o livro, e perder todo o interesse na explicação de Carson. Mas a minha curiosidade me obrigou a terminar a leitura do capítulo.

Em segundo lugar, após comentar a tese de Poythress que oferece três possíveis explicações para o fenômeno de falar em línguas,[7] Carson desdobra uma quarta possibilidade de significado do suposto dom. Ele propõe que esse fenômeno são “padrões de fala suficientemente complexos a ponto de poderem carregar todos os tipos de informação cognitiva em algum tipo de ordem codificada, ainda que linguisticamente esses padrões não sejam identificáveis como idioma humano”.[8] Alguns termos fogem de seu sentido comum, como “informação cognitiva” e “ordem codificada” e passam a ter o sentido de não-sei-o-que-significa. Carson não consegue perceber o nível de absurdo que a sua proposta o levou. Daí ele se admira porque é desprezada, apesar de, segundo ele, a sua proposta “é também logicamente possível, ainda que comumente seja ignorada; e ela satisfaz as restrições tanto daquilo que é apresentado nos documentos bíblicos do primeiro século quanto de alguns dos fenômenos atuais. Não entendo como isso possa ser ignorado.” Ele não explica o que é “logicamente possível”, nem a que fenômenos do primeiro século se refere, porque obviamente não é às experiências de Atos, nem de 1Coríntios.

O terceiro argumento é a tentativa de definir, por pressuposto, que o moderno falar em línguas é uma vocalização livre. A teoria é uma tentativa de justificar a irracionalidade de algo que não deveria ser classificado como um idioma.[9] A explicação segue que “Poythress nos relembra que tais vocalizações livres ainda podem carregar conteúdo além de uma imagem vaga do estado emocional do falante.”[10] Quando a explicação ficou questionavelmente estranha, Carson ainda propõe uma “ilustração criativa”, sem nenhuma fundamentação exegética! Vou transcrever a sua explicação:[11]

Imaginem que a mensagem é:

“Louvarei ao Senhor, pois seu amor dura para sempre.”

Ao retirarmos as vogais, obtemos:

LV SNHR OS MR DR PR SMPR.

Isso pode parecer um pouco estranho; contudo quando nos lembramos que o hebraico moderno é escrito quase sem vogais, podemos imaginar que, com certa prática, isso poderia ser lido com bastante tranquilidade. Agora, remova os espaços e, começando pela primeira letra, reescreva a sequência usando cada terceira letra repetidamente por toda a sequência até que todas as letras sejam usadas. O resultado é:

LNPMRSRSRSDRPVHSRDM.

Agora adicione um som de “a” depois de cada consoante e divida arbitrariamente a unidade em pedaços:

LANAPA MARA SARASARA SADARA PAVA HASARA PAMA.

Acredito que isso não é diferente das transcrições de certas línguas atuais. Certamente é muito parecido com algumas que já ouvi. Mas a questão importante é que isso transmite informação, desde que você conheça o código. Qualquer um que conheça os passos que dei poderia revertê-los a fim de voltar à mensagem original.


É inacreditável que esta seja a sua proposta sobre a prática atual de falar em línguas. O continuísmo de Carson o força a uma explicação no mínimo estranha. Todavia, ela não é apenas diferente de qualquer outra explicação, que até mesmo pentecostais e carismáticos já ofereceram, ela é assumidamente não bíblica! O autor reconhece a total ausência de correlação entre o seu correto entendimento do dom de falar em línguas, conforme At e 1Co, e oferece uma explicação, que segundo ele, é um “padrão de verbalização não poderia ser desprezado de forma legítima como se fosse uma linguagem sem nexo. Ele é tão capaz de possuir conteúdo proposicional e cognitivo, assim como qualquer outro idioma humano conhecido.”[12] Isso se assemelha a “língua do p” que os adolescentes usam para se comunicarem! Onde está o elemento sobrenatural do dom de línguas? Neste caso, Carson reconhece que isso seria apenas uma questão de saber a “chave hermenêutica” para decifrar o segredo do que se fala; em outras palavras, o falar e o interpretar não seriam dons sobrenaturais, mas apenas o conhecimento de técnicas de linguística.

Creio que D.A. Carson deveria escrever uma 3ª edição revisada de “Exegese e suas falácias”. Nesta versão ampliada seria interessante acrescentar um 6º capítulo sob o título: “Falácias imaginativas”. Confesso que esperava um melhor argumento continuísta do Carson. Sendo justo com o seu pensamento, confesso que concordo com a exegese de Carson sobre o falar em línguas em At e 1Co, mas não consigo digerir a sua interpretação da experiência contemporânea de falar em línguas.

Ele é um respeitável scholar de exegese em Novo Testamento. Ainda admiro o seu trabalho exegético, apesar de estar decepcionado com o seu insustentável continuísmo. Concordo com a sua interpretação das manifestações das línguas mencionadas em At e 1Co como sendo o mesmo fenômeno sobrenatural de falar um idioma humano, sem ter um aprendizado prévio, mas a sua explicação para as manifestações das “línguas contemporâneas” é absurdamente decepcionante.






Anexo


Caso você culpe o tradutor, ou a editora de distorcer “a ilustração imaginativa” de D.A. Carson, transcrevo o texto original para fins comparativos:[13]


Suppose the message is:

Praise the Lord, for his mercy endures forever.


Remove the vowels to achieve:

PRS TH LRD FR HS MRC NDRS FRVR.


This may seem a bit strange; but when we remember that modern Hebrew is written without most vowels, we can imagine that with practice this could be read quite smoothly. Now remove the spaces and, beginning with the first letter, rewrite the sequence using every third letter, repeatedly going through the sequence until all the letters are used up. The result is:

PTRRMNSVRHDHRDFRSLFSCRR.


Now add an ‘a’ sound after each consonant, and break up the unit into arbitrary bits:

PATARA RAMA NA SAVARAHA DAHARA DAFARASALA FASA CARARA.


I think that is indistinguishable from transcriptions of certain modern tongues. Certainly it is very similar to some I have heard. but the important point is that it conveys information provided you know the code [bold reflects Carson’s use of italics]. Anyone who knows the steps I have taken could reverse them in order to retrieve the original message.


NOTAS:

[1] Publicado pela Edições Vida Nova em 1992, e posteriormente, alterando o título numa 2ª edição em 2001 para “Perigos da interpretação bíblica”.
[2] D.A. Carson, A manifestação do Espírito– a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14 (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013), p. 82.
[3] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[4] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[5] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[6] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[7] A sua posição teológica está AQUI acessado em 22/03/2020. A refutação da posição de Pouthress está AQUI acessado em 22/03/2020.
[8] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[9] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[10] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[11] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, pp. 87-88. Os itálicos são do autor.
[12] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 88.
[13] D.A. Carson, Showing the Spirit – A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14 (Grand Rapids, Baker Books, 1987), pp. 85-86.