27 setembro 2013

A disciplina de presbíteros e diáconos

O Senhor Jesus afirma que a quem maior autoridade é dada, maior será o grau de responsabilidade diante dele. Na parábola do servo vigilante lemos que “àquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor e fez cousas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas aquele quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e aquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc 12:48, ARA). Os presbíteros e diáconos são capacitados com dons específicos, e recebem o reconhecimento da igreja e são revestidos de autoridade por Cristo para liderarem o rebanho. Por estes motivos, não podem ser relapsos, nem irresponsáveis com os seus deveres cristãos em todas as áreas da sua vida. Eles prestarão contas, de um modo especial. Se fiéis em seu dever a sua honra será maior, entretanto, também será proporcional o escândalo se houver queda.[1]

A sábia orientação do apóstolo deve ser observada diligentemente. Escrevendo ao jovem pastor Timóteo adverte que “não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam (1 Tm 5:19-20, ARA). Não se deve aceitar qualquer acusação contra um presbítero, a não ser que seja endossado pelo testemunho verbal de duas ou três pessoas, e que sejam fidedignas. William Hendriksen comenta que “não se deve prejudicar desnecessariamente a reputação de um presbítero, e sua obra não deve sofrer uma interrupção desnecessária.”[2] O mesmo poderia ser concluído acerca dos diáconos. O livro de Provérbios observa que “mais vale o bom nome do que as muitas riquezas; e o ser estimado é melhor do que a prata e o ouro” (Pv 22:1).

Uma vez comprovado que um presbítero tenha realmente cometido pecado que exija disciplina pública os demais não podem se omitir de repreendê-lo. Hendriksen esclarece que
os presbíteros que andam por vias pecaminosas não devem ser poupados. Aliás, seus pecados devem ser punidos ainda com mais severidade do que os demais. A lei fazia a mesma distinção (Lv 4:22, 27). Timóteo devia não só fazer com que seu pecado ferisse sua consciência, mas que, no caso deles, isso fosse feito não privativamente, nem na presença de apenas uns poucos (Mt 18:15-17), mas publicamente, ou seja, na presença de todo o consistório, para que os demais presbíteros também viessem a sentir-se cheios de um piedoso temor de praticar o mal (cf. Gn 39:9; Sl 19:13).[3]

Porque Paulo evoca a indispensável presença de testemunhas para se acusar um presbítero? Este é um direito de todo crente, tanto na antiga como na nova Aliança (Nm 35:30; Dt 17:6; Mt 18:16; Jo 5:31; 8:14). Comentando este verso, João Calvino sugere que
ninguém é mais exposto a calúnias e insultos do que os mestres piedosos. E isso provém não só das dificuldades de seus deveres, os quais são às vezes tão volumosos que, ou vão a pique, ou cambaleiam, ou param hesitantes, ou dão um passo em falso, de maneira que os perversos encontram muitas ocasiões de deparar-se com algum defeito deles; mas também que, mesmo quando executam corretamente todos os seus deveres, e não cometem nem sequer um erro mínimo, jamais conseguem evitar mil e uma críticas. (...) Satanás faz com muitas pessoas, na verdade quase todas, sejam tão crédulas que, sem qualquer investigação, pressurosamente condenam seus pastores, cujo bom nome deveriam esforçar-se a defender.[4]

O reformador genebrino sabia pessoalmente o que era ser acusado, e ter o nome caluniado na boca de pessoas perversas. É inevitável as falsas acusações, o próprio Senhor Jesus as sofreu, mas, elas não devem encontrar provas. Não quero dizer com isto que os pecados devem ser encobertos, mas, sim, que o oficial deve ser irrepreensível, de tal modo que, não haja do que acusá-lo com provas!

Em seu ofício de governo os presbíteros não podem se iludir pensando que se tornaram intocáveis. O Conselho não possui imunidade diante da justiça de Deus. John Murray comenta que
é na igreja que a supervisão é exercida. Existe aqui uma sutil e necessária distinção. Enquanto a supervisão é sobre a igreja, ela não está acima de algo da qual os presbíteros se isentam. Os presbíteros não são senhores sobre a herança do Senhor; eles mesmos fazem parte do rebanho e devem ser exemplos para ele. A Escritura tem um modo singular de enfatizar a unidade e diversidade, e neste caso, a diversidade que reside no exercício do governo é mantida na mesma proporção em que lembramos que os presbíteros também são sujeitos ao governo que eles exercem sobre outros. Presbíteros são membros do corpo de Cristo e estão sujeitos à mesma espécie de governo da qual eles são administradores.[5]

Os pecados dos presbíteros e dos diáconos são como os de qualquer outro membro da igreja local. Mas, por causa da sua posição dentro do corpo de Cristo e a sua responsabilidade de ser exemplo dos fiéis, o seu escândalo tem maior repercussão.

NOTAS:
[1] Na eclesiologia presbiteriana os ofícios são apenas dois: presbíteros e diáconos. Entretanto, o presbítero pode ser regente ou docente, sendo este último, comumente chamado de pastor.
[2] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito (São Paulo, Editora Cultura Cristã), p. 228.
[3] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito, p. 228.
[4] João Calvino, Comentário do Novo Testamento das Pastorais – 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito (São Paulo, Edições Parácletos), p. 150, 151.
[5] John Murray, Collected Writings: The Claims of Truth (Edinburgh, The Truth of Trust), vol.1, p. 262.

21 setembro 2013

Para estudar o Catecismo de Heidelberg

A minha primeira leitura do Catecismo de Heidelberg foi quase fortuita. Eu era um calouro no Seminário Teológico Presbiteriano JMC e havia recebido alguns livros do Editorial FeLiRe, dentre eles veio uma cópia do CH[1] em espanhol. Desde a primeira leitura fiquei fascinado pela simplicidade da linguagem e profundidade teológica contida numa estrutura tão bem elaborada. Recordo que no decorrer dos cinco anos de estudos teológicos, por motivo devocional, li o texto pelo menos dez vezes. E desde então, continuo estudando e sendo confortado e instruído por ele. O meu interesse em usá-lo com certa assiduidade aumentou, apesar de não ser um documento confessional exigido pela IPB.

O que desejo fazer neste breve artigo, que melhor seria nomeado de nota sugestiva, é indicar alguns recursos literários para o estudo continuado e tirar melhor proveito do Catecismo de Heidelberg. Há pouca produção literária no Brasil acerca do CH. Embora a Editora Cultura Cristã e a Editora Os Puritanos tenham publicado boas traduções e tornado acessível ao público comum para o uso litúrgico [em especial como diretório para pregação], ou discipulado e preparo de novos membros e, ou ainda como estudo continuado para treinamento de líderes das igrejas locais, há muito o que se estudar acerca do Catecismo de Heidelberg, bem como do seu conteúdo. Comemorando hoje os 450 anos do CH, deixo esta introdução como um desafio aos novos estudantes de teologia do século XXI.

TEXTOS DO CATECISMO DE HEIDELBERG DE DIFERENTES TRADUÇÕES
1. Claúdio A. Marra, ed., Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2005). Tradução pela comissão da Missão Reformada no Brasil a partir do texto francês.

2. Heraldo F. de Almeida, ed., As Três Formas de Unidade – Confissão Belga, Catecismo de Heidelberg e Cânones de Dort (Recife, CLIRE, 2ª ed., 2009). Tradução pelo Marcos Vasconcelos a partir do texto inglês.

3. Philip Schaff, “The Heidelberg Catechism” in: The Creeds of Christendom – with a History and Critical Notes (Grand Rapids, Baker Books, 6ª ed., 2007), vol. 3, pp. 307-355. Tradução feita em 1859 pela comissão da Igreja Reformada Alemã dos EUA [GRCUS] a partir do texto alemão.

4. El Catecismo de Heidelberg – Enseñanza de la Doctrina Cristiana (Barcelona, FeLiRe, 1993). Traduzido por Juan T. Sanz a partir do francês e latim.

5. James T. Dennison, Jr., org., “The Heidelberg Catechism (1563)” in: Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English Translation – 1552-1566 (Grand Rapids, Reformed Heritage Books, 2008), vol. 2, pp. 769-799. Tradução feita em 1978 pela comissão da Igreja Reformada dos EUA [RCUS] a partir do texto alemão.

Recentemente foram publicadas outras traduções comemorativas dos 450 anos do CH. Estas foram vertidas para o inglês moderno com breves notas históricas. Embora existam versões inglesas preparadas por comissões denominacionais que exprimem a pesquisa crítica de variantes e a comparação de traduções antigas como o alemão, latim e francês, as traduções recentes propõe apresentar o texto numa linguagem contemporâneo com qualidade acadêmica. Estas novas traduções podem ser compradas em alguns sites.


RECURSOS DIGITAIS PARA O ESTUDO DO CH:
1. Uma tradução livre do texto do catecismo – [ clique aqui ]

2. Um artigo introdutório da histórica - [ clique aqui ]

3. Site com subsídios para estudo do CH - [ clique aqui ]


RECURSO PARA A PESQUISA HISTÓRICA
1. Lyle D. Bierma, org., A Firm Foundation – An Aid to Interpreting the Heidelberg Catechism – Capar Olevianus (Carlisle, Paternoster Press & Grand Rapids, Baker Books, 1995). O texto é uma tradução do comentário de Caspar Olevianus, escrito em 1567 sobre parte do CH. Este comentário é feito a partir da seção da “Nossa Libertação” – Domingos 7 e 8 - abrangendo as perguntas 20 a 25 que é o Credo Apostólico. O título original “Um firme fundamento, que são os artigos da antiga, verdadeira e indubitável fé cristã” revela a importância do Credo Apostólico para Olevianus.

2. Karin Maag, ed., Melanchthon in Europe – His Work and Influence beyond Wittenberg (Carlisle, Paternoster Press & Grand Rapids, Baker Books, 1999). O livro pesquisa o contexto histórico, o desenvolvimento e a influência teologia de Philip Melanchthon na Europa. O Dr. Lyle D. Bierma, no capítulo 5, dedica-se a resolver a problematização de como o preceptor da Alemanha teria influenciado na teologia do CH. Como o assunto é tema de debate, Bierma levanta a questão com o provocador título “What hath Wittenberg to do with Heidelberg? Philip Melanchthon and the Heidelberg Catechism” [Qual a relação de Wittenberg com Heidelberg? Philip Melanchthon e o Catecismo de Heidelberg]. O artigo aponta e examina os argumentos da vasta literatura que sugere a dependência direta, temática e estrutural. Entretanto, apesar de encontrar similaridades, e de Zacharias Ursinus ter se formado sob a tutela de Melanchthon, Bierma questiona a relação de ambos a partir de desenvolvimentos contextuais temáticos comuns a possibilidade de dependência indireta, bem indica outras possíveis fontes literárias para a formação do CH. No fim de seu artigo ele conclui que “a dificuldade de demonstrar a influência é agravada pelo fato de que conhecemos tão pouco da verdadeira preparação do catecismo e do que Frederick III estava buscando com um consenso confessional entre os partidos protestantes de Heidelberg.”[2] Assim, se houve uma influência de Melanchthon sobre a teologia do CH esta foi indireta, pela formação de Ursinus e por desenvolvimento dos temas que concorriam no contexto reformado alemão, tanto luterano como calvinista.

3. Lyle D. Bierma, ed., Introdução ao Catecismo de Heidelberg – fonte, história – teologia (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010). O livro é resultado de um desafio proposto pelo Dr. Fred H. Klooster ao Dr. Bierma para a produção de artigos acadêmicos sobre o CH. O livro é dividido em 2 partes: na primeira parte [pp. 15-151], os autores oferecem uma introdução histórica abrangendo a Reforma no Palatinado, bem como as origens, autoria, fontes e a orientação teológica do CH. A Dra. Karin Y. Maag prepara o capítulo 4 indica as primeiras edições e traduções do CH. E, para quem deseja continuar os estudos nesta área, o capítulo 5 apresenta uma vasta bibliografia de pesquisa sobre o CH desde 1900. Na segunda parte [pp. 155-239], Bierma trás uma tradução revisada dos Catecismos de Zacharias Ursinus, acrescida uma introdução histórica. A importância destes dois documentos confessionais é que eles constituem em fonte para o CH, e possibilidade um estudo comparativo do que seria a posição teológica exclusiva de Ursinus.

4. Lyle D. Bierma, The Theology of the Heidelberg Catechism: A Reformation Synthesis – Columbia Series in Reformed Theology (Louisville, Westminster John Konx Press, 2013).

5. Jon D. Payne & Sebastian Heck, org., A Faith Worth Teaching: The Heidelberg’s Enduring Heritage (Grand Rapids, Reformed Heritage Books, 2013).


COMENTÁRIOS DO CATECISMO:
1. Fred H. Klooster, Our only comfort: a comprehensive commentary on the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, CRC Publications, 2001), 2 volumes.

2. J.C. Janse, La confesión de la iglesia – comentario al Catecismo de Heidelberg (Barcelona, FeLiRe, 2000).

3. Herman Hofman, El Catecismo de Heidelberg – uma explicación (Moral de Calatrava, Editorial Peregrino, 2010).

4. G.H. Kersten, The Heidelberg Catechism in Fifty-two Sermons (Sioux Center, Netherlands Reformed Book and Publishing, 1992).

5. Herman Hoeksema, Triple Knowledge – An exposition of the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, Reformed Free Publishing Association., 1990), 3 volumes.

6. George W. Bethune, Guilt, Grace and Gratitude: Lectures on Heidelberg Catechism (Edinbrugh, The Banner of Truth, 2001), 2 volumes.

7. G.I. Williamson, The Heidelberg Catechism: A Study Guide (Philladelphia, P&R Publishing Company, 1993).

8. Otto Thelemann, An aid to the Heidelberg Catechism (Grand Rapids, Douma Publications, 1959).

9. Zacharias Ursinus, The Commentary of Dr. Zacharias Ursinus on the Heidelberg Catechism (Phillipsburg, P&R Publishing Company, s./d.).


NOTAS:
[1] Doravante usarei a sigla CH para Catecismo de Heidelberg.
[2] Lyle D. Bierma, “What hath Wittenberg to do with Heidelberg? Philip Melanchthon and the Heidelberg Catechism” in: Melanchthon in Europe – His work and influence beyond Wittenberg, p. 120.