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20 março 2024

O que Marx escondeu?

 por Ralph Buultjens

Em 14 de março de 1883, Karl Marx morreu em Londres. Hoje, um século depois, o homem e as suas ideias continuam a despertar paixões intensas. Para os verdadeiros crédulos, Marx é o pai messiânico dos conceitos científicos de socialismo chamados marxismo ou comunismo. Para muitos outros, ele é o profeta de uma doutrina insidiosa de conflito de classes, revolução e igualitarismo econômico. Tanto os proponentes como os opositores reconhecem a sua importância e o impacto da sua filosofia na nossa era.

O foco da maior parte da defesa e do antagonismo tem sido nas ideias de Marx. Houve uma cascata de biografias descrevendo sua vida e sua época, mas todo esse esforço e análise revela bem pouco sobre seu lado humano. Assombrado pela pobreza e por um irascível, mas gentil e amoroso pai, ele era um personagem paradoxal e atormentado. Ele era um pensador seminal e um homem pouco prático, buscando ansiosamente reconhecimento em um mundo que para ele parecia não ser afetado por suas teorias.

Grande parte do seu tormento – tensões que possivelmente afetaram o seu trabalho – estava alojada numa parte da sua vida que Marx procurava desesperadamente esconder. Ainda hoje, este segredo, que ele escondeu com sucesso durante a sua vida, não é muito conhecido. Em 1851, enquanto vivia em Londres, Marx teve um filho ilegítimo com Helen Demuth, a empregada de longa data da família. Temendo que esta indiscrição destruísse o seu casamento e prejudicasse a sua imagem pública, ele organizou um eficiente encobrimento, cujos participantes foram o amigo e colaborador de Marx, Friedrich Engels e Helen Demuth.

Engels fingiu ser o pai e a senhorita Demuth confirmou o engano. A criança, Fredrick Demuth, foi entregue para ser criada por uma família da classe trabalhadora em Londres. O segredo foi preservado por mais de quatro décadas. Em 1895, no seu leito de morte, Engels confessou a Eleanor Marx – uma das duas filhas sobreviventes de Marx. Ela ficou arrasada com a revelação. Três anos depois, ela suicidou. Em 1911, a outra filha de Marx, Laura, também cometeu suicídio. Freddy Demuth cresceu como uma criança abandonada e solitária. Marx não podia pagar nenhum apoio. Engels, de quem Marx dependia financeiramente, enviava remessas pequenas e pouco frequentes. Tanto Marx quanto Engels se distanciaram de Freddy. Marx nunca viu o menino. Freddy Demuth recebeu uma educação com pobreza. 

Durante a maior parte de sua vida, ele trabalhou como operário e fabricante de ferramentas. Após a morte de Marx, ele estabeleceu um contato mais próximo com sua mãe, que então se tornara governanta de Engels. Freddy a visitava semanalmente, mas só podia entrar na cozinha e nos quartos dos empregados pela porta dos fundos. Engels, tal como Marx, evitou-o. Após a morte de sua mãe em 1890, Freddy quase nunca via Engels.

Nem Marx nem Engels lhe forneceram uma herança. No entanto, as filhas de Marx deram a Freddy algum dinheiro de sua parte em ambas as propriedades. Em 1929, depois de uma vida difícil e obscura, Freddy morreu aos 78 anos em uma área pobre de Londres. Ninguém, nem mesmo sua mãe, lhe contou a verdade sobre sua paternidade e ele morreu acreditando ser um filho bastardo de Engels.

O segredo de Marx estava bem guardado. Durante a sua vida, apenas Helen e Engels partilharam desta confidência. Após sua morte, eles examinaram seus documentos para eliminar referências a Freddy. Mais tarde, na época da morte de Engels, alguns associados e familiares souberam do caso Demuth, mas o assunto não foi muito discutido. Ao pesquisar esta parte da vida de Marx, uma parte que contém muitas pistas para o desenvolvimento das suas ideias, convenci-me de que muitos marxistas construíram um muro de silêncio em torno deste segredo. Nenhum grande material biográfico soviético sobre Marx menciona Freddy. Outros marxistas consideram isso uma fofoca irrelevante. É claro que para o mundo marxista Fredrick Demuth não existiu, ou que o assunto é tabu. A heróica imagem proletária do pai da revolução não deve ser manchada pela evidência de sua duplicidade, hipocrisia e fragilidade.

O episódio nos mostra quão essencialmente humano era Marx. Ele tinha os mesmos medos, desesperos e culpas que afligiam outros cidadãos comuns da Grã-Bretanha vitoriana. Estes traumas e o seu impacto na sua vida e no seu pensamento sugerem que a interpretação estritamente econômica da história feita por Marx é um instrumento insuficiente para explicar a motivação humana e a evolução da sociedade. A sua vida confundiu suas teorias. Esta ironia não teria passado despercebida ao muitíssimo inteligente Marx, e talvez seja por isso que o seu trabalho parece incompleto e inconclusivo.

A estatura de Marx justifica a comemoração da sua morte. Mas, ao fazê-lo, devemos lembrar-nos do homem como um todo, da sua humanidade, da sua vulnerabilidade - e não abstrair ou suprimir segmentos da sua vida para se adequar à nossa própria mitologia.

 

Ralph Buultjens  é autor do livro ''The Deadly Secret of Karl Marx.''

Fonte: https://www.nytimes.com/1983/03/14/opinion/what-marx-hid.html acessado em 20/03/2024.


04 setembro 2021

Resumo das decisões do Supremo Concílio da IPB quanto ao Comunismo/Socialismo

Preparado por Pb. Edson Marques & Rev. Ewerton B. Tokashiki



Em 1954, quando Getúlio Vargas era o Presidente do Brasil, A Igreja Presbiteriana do Brasil se pronunciou contra o comunismo da seguinte forma: “SC-54-138 - Quanto à consulta do Presbitério do Botucatu sobre se um membro da IPB, com ideias francamente comunistas, pode tomar parte nos trabalhos da Igreja, como dirigir classe da Escola Dominical, etc., o SC resolve responder que há incompatibilidade entre o comunismo ateu e materialista e a doutrina bíblica e os símbolos de fé da IPB”.

 

Em 1956, a IPB teve que se posicionar sobre a atitude cristã quanto ao comunismo: “CE-56-096 - Quanto ao Documento Intitulado ‘Avaliação’, enviado pela CBM, a CE-SC/IPB resolve: [...] 7) Em referência à atitude cristã quanto ao comunismo, persistimos em pregar a realidade do poder transformador do evangelho de Cristo, crendo que o comunismo é uma filosofia de vida contrária ao espírito e à doutrina evangélica.”

 

Em 1965, o assunto ainda fomentava nos presbitérios ao ponto de vermos que as consultas continuavam a ser encaminhadas à Comissão Executiva: “CE-65-081 - Presbitério de Castro - Consulta - Quanto ao Doc. 10 - Consulta do PCST sobre atitude a ser tomada por Presbitério quando tiver obreiro comunista e sobre a posição da IPB em face do mesmo assunto - a CE-SC/IPB resolve aprovar Doc. III nos seguintes termos: 1) Declara que a esta CE-SC/IPB não padece qualquer dúvida sobre a idoneidade moral dos Presbitérios para considerarem a situação sócio-político-doutrinária de seus obreiros; 2) Encaminhar ao SC a consulta sobre a posição da IPB em face do assunto.”

 

Então, em 1966, no Governo de Humberto Castelo Branco, o Supremo Concílio da IPB tomou posição contra o comunismo e seus adeptos, como segue: “SC-66-074 – Presbitério de Castro - Consulta - Doc. XXXIV- Quanto ao Doc. 26 Consulta do PCST sobre atitudes do Presbitério quando tiver obreiro comunista, o SC resolve: 1) Reafirmar ser indispensável a qualquer pessoa que deseja filiar-se à IPB, em especial aos seus oficiais e ministros, a aceitação da Palavra de Deus como única regra de fé e prática, e seus símbolos de fé. Quando qualquer prova se possa fazer contra membro ou membros da IPB de que já não mais aceitam a Palavra de Deus e seus símbolos de fé, por adotarem uma filosofia em choque com os princípios cristãos, no todo ou em parte, a mesma prova deve ser apresentada ao Conselho competente para os devidos fins; 2) Reafirmar a resolução da Assembleia Geral de 1936 que declara: ‘Compete ao cristão obedecer as autoridades legitimamente constituídas e realizar os deveres do cidadão, nunca devendo adotar qualquer ideologia que atente contra os princípios evangélicos da liberdade civil e de consciência e de ordem e paz sociais’”.

 

Em 1977, no governo de Ernesto Geisel, foi a vez da Organização Palavra de Vida flertar com o comunismo. Havia muitos jovens que participavam de seus eventos. A IPB se posicionou: “CE-77-007 - Atividade da Organização Palavra da Vida - Doc. XLIV - Quanto ao Doc. 40 - Informações do Sr. Presidente referente à Palavra da Vida. A Comissão Executiva do Supremo Concílio, considerando ser ambígua a doutrina implícita, sobre a compatibilidade ética do comunismo russo, marxista, com o cristianismo, esposado pela ‘Organização Palavra da Vida’ conforme publicação oficial feita no ‘Jornal Palavra da Vida’ em seus artigos ‘Eu chorei na Rússia’ e ‘Cristianismo na Rússia, uma existência inquieta’. Resolve: 1) Recomendar às Igrejas que, mediante doutrinação, aconselhem seus jovens e fiéis a não participarem das atividades da ‘Organização Palavra da Vida’; 2) Recomendar que os Presbitérios e as igrejas não encaminhem jovens nos cursos mantidos pela organização supracitada; 3) Encaminhar a presente resolução à Comissão Especial dos Seminários”.

 

O Rev. Boanerges Ribeiro como Vice-presidente e representando a IPB na Assembleia Geral da PCUSA, apresentou o seu parecer sobre a condição doutrinária daquela denominação. A CE - 1979 - DOC. XVI fez o seguinte registro: “Rev. Boanerges Ribeiro - Relatório de Comparecimento à Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos - Doc. XLV - Quanto ao Doc. 42 - Relatório do Sr. Vice-presidente do Supremo Concílio, Rev. Boanerges Ribeiro referente ao seu comparecimento â Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, como representante da Igreja Presbiteriana do Brasil - A Comissão Executiva do Supremo Concílio resolve: 1) Tomar conhecimento. 2) Ressaltar a ênfase dada no relatório do Rev. Boanerges de que a evangelização, tal como a compreendemos, ou seja: proclamação de que em Jesus Cristo, e somente pela fé nele pode o homem salvar-se, vem, naquela Igreja, perdendo relevo, face à orientação da ‘Igreja nativa’ para a ‘libertação’ em um entendimento marxista, histórico-materialista, que recebe ênfase, recursos e pessoal. 3) Alertar a Igreja Presbiteriana do Brasil contra a possível infiltração de pessoas oriundas de tal orientação. 4) Apreciar a atuação firme e fiel do Rev. Boanerges como representante da Igreja Presbiteriana do Brasil”.

 

Em 1990, A IPB produziu uma Pastoral de Ética Cristã Política que, entre outras coisas, recomenda: “Que se evite todo e qualquer apoio a candidatos reconhecidamente descompromissados com os ideais de democracia, justiça e paz propugnados pela nossa Igreja, que visam apenas o interesse pessoal, pactuam com os injustos e corruptos, aceitam subornos, negam justiça aos pobres (Is 5.18, 22-23), decretam leis injustas (Is 10.1) e se afastam da Palavra de Deus como ‘regra de fé e prática’”.