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17 agosto 2024

Jonathan Edwards era um presbiteriano?

 

Filadélfia, 12 de novembro de 1838.[1]

 

Rev. e Caro Senhor

 

Lembro-me, desde a última vez que o vi, que já foi publicado o fato, que então mencionei a você em conversa; e a respeito da qual você me solicitou que lhe fornecesse uma declaração por escrito. No Christian Advocate, o décimo volume – o volume para o ano de 1832, e no No. de março daquele ano, página 128 - depois de ter mencionado uma classe de congregacionais, que, em minha opinião, eram eminentes pela piedade genuína, acrescentei o seguinte:

"Deveríamos ter colocado aqui, o nome do grande Presidente Edwards; mas ele era, em termos de sentimento, um presbiteriano decidido, e deixou um manuscrito em favor do governo da igreja presbiteriana, pois seu filho, o segundo Presidente Edwards, admitiu-nos claramente, não muito antes de sua morte, como membro do Presbitério New Brunswick, no momento da sua morte, ou teria sido em breve, se a sua lamentada morte, pouco depois de se tornar presidente do Colégio de Princeton, não tivesse sido evitada."[2]

 

A admissão referida no extrato anterior foi realizada em consequência de uma consulta feita, por mim, ao Dr. Edwards,[2] enquanto ele e eu caminhávamos juntos para o local de reunião da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana, então em reunião nesta cidade. Não me lembro do ano. Eu tinha ouvido um relato, que creio ter vindo do meu pai ou do meu colega Dr. Sproat, ambos contemporâneos e admiradores do primeiro Presidente Edwards - que ele havia escrito um tratado, ou um ensaio, em favor do governo da igreja presbiteriana; e fiquei feliz em aproveitar a oportunidade que naquele momento se oferecia para averiguar de seu filho a veracidade ou falácia do relatório. A investigação resultou na clara admissão de que o relato que ouvi era verdadeiro.

 

Falei com o Dr. Edwards, da possibilidade de imprimir o tratado ou ensaio em questão; mas, ele não pareceu gostar da ideia e evitei pressioná-lo. Ele disse que o manuscrito mencionado estava entre vários outros artigos inéditos de seu pai, que, pelo que entendi, estavam então em suas mãos. Mas, é desconhecido para mim a cujas mãos passaram, desde a morte do Dr. Edwards.

 

Respeitosamente e carinhosamente, seu,

Ashbel Green[4] 


NOTA:

[1] A seguinte carta do Rev. Dr. Ashbel Green apareceu originalmente na The Baltimore Literary and Religious Magazine, uma publicação editada por Robert J. Breckinridge. E, posteriormente, foi reimpressa no The Presbyterian, e esse texto é aqui reproduzido.

[2] Ashbel Green, "Was Jonathan Edwards a Presbyterian?" The Presbyterian (12 de janeiro de 1839): 201.

[3] O Dr Ashebel Green refere-se ao Presidente Jonathan Edwards Jr. 

[4] Do site https://www.pcahistory.org/documents/presbyterianedwards.html acessado em 17/08/2024.


16 fevereiro 2024

Jonathan Edwards era um continuísta?

 

Jonathan Edwards é conhecido por produzir uma sadia teologia em tempos de avivamento nos Estados Unidos da América. Ele examinou experiências e supostas manifestações atribuídas ao Espírito Santo.
[1] Entretanto, ao contrário do que pentecostais e continuístas afirmam acerca do pensamento de Edwards sobre avivamento “ele não pensava que um tempo de dons extraordinários do Espírito Santo havia chegado, por isso negou (em contrário tanto a alguns radicais de seu tempo quanto aos pentecostais que surgiriam depois) que sinais de êxtase eram a melhor evidência de um verdadeiro derramamento do Espírito Santo”.[2] Hank Hanegraaff denunciou vários líderes do movimento Counterfeit Revival que propõem uma interpretação histórica revisionista distorcida do pensamento de Edwards, atribuindo a ele um continuísmo carismático.[3] Entretanto, numa leitura atenta aos textos de Edwards percebemos que ele, quanto aos dons revelacionais, era um cessacionista.

         Edwards adotava a categorização dos dons como ordinários e extraordinários. Por extraordinários ele diz

tais como o dom de línguas, de milagres, de profecia etc., são chamados extraordinários porque, como tais, não são dados no curso ordinário da providência divina. Não são outorgados do modo comum e providencial de Deus tratar com seus filhos, mas só em ocasiões extraordinárias, como foram outorgados aos profetas e apóstolos, tal como a capacidade de revelar a mente e vontade de Deus antes que o cânon das Escrituras fosse completado, e assim à igreja primitiva, para sua fundação e estabelecimento no mundo. Mas, desde que o cânon das Escrituras se completou e estas foram estabelecidas, estes dons extraordinários cessaram.[4]

 

         Noutro sermão ele reitera que

no conhecimento que o apóstolo diz que se desvanecerá está implícito um dom particularmente miraculoso que subsistia na igreja de Deus naqueles dias. Pois o apóstolo, como já vimos, está aqui comparando a caridade com os dons miraculosos do Espírito – aqueles dons extraordinários que eram comuns na igreja daqueles dias; um desses dons era o dom de profecia, e outro, o dom de línguas, ou o poder de falar em idiomas que nunca tinham sido aprendidos. Ambos esses dons são mencionados no texto; e o apóstolo diz que acabariam e cessariam. [...] É este dom miraculoso que o apóstolo afirma aqui que desapareceria, juntamente com os demais dons miraculosos dos quais ele fala, tais como profecia e o dom de línguas etc. Todos esses foram dons extraordinários outorgados por certo tempo para a introdução e estabelecimento do cristianismo no mundo; e, quando se atingiu seu propósito, todos eles desapareceram e cessaram.[5]

 

         Edwards declara que não há mais revelações hoje.

Se em algum momento alguém tem uma impressão extraordinária causada em sua mente, e crer que isso procede de Deus, a revelar-se algo que sucederá no futuro, isso, se fosse real, provaria ser um dom extraordinário do Espírito Santo, a saber, o dom de profecia; mas, à luz do que foi dito, é evidente que esse não seria um sinal seguro da graça ou de algo salvífico; sim, se fosse real, repito – pois, na verdade, não temos razão para considerar tais coisas, como se pretende em nossos dias, como sendo algo mais além do que ilusão.[6]

 

         Ele negava qualquer possibilidade de restauração dos dons extraordinários. A doutrina da luz divina no pensamento de Edwards é, por vezes, mal compreendida. Ela não pode ser confundida com o ensino dos entusiastas do século XVI, nem com os quackers no século XVII, em que se alegava uma comunicação revelacional imediata à alma pelo Espírito Santo. Ele define a luz divina como sendo “um verdadeiro sentido da excelência das coisas reveladas na Palavra de Deus, e convicção da verdade e da realidade que delas então emana.”[7] Ele negava que esta luz tenha natureza independe da Escritura Sagrada, ou que seja dada sem a sua mediação. Por isso, ele declara que

essa luz espiritual não é a sugestão de algumas novas verdades ou proposições não contidas na Palavra de Deus. Essa sugestão de novas verdades ou doutrinas à mente, independentemente de qualquer revelação anterior a essas proposições, seja em palavra ou escrita, é inspiração; como os profetas e apóstolos tiveram, e como alguns entusiastas pretendem ter. Mas essa luz espiritual da qual estou falando é coisa bem diferente da inspiração. Ela não revela nova doutrina, não sugere nova proposição à mente, não ensina coisa nova sobre Deus, ou Cristo, ou outro mundo, não ensinado na Bíblia, mas apenas dá uma apresentação correta dessas coisas que são ensinadas na Palavra de Deus.[8]

 

Apesar de Edwards aceitar com discernimento, interpretando à luz das Escrituras, as experiências sobrenaturais que ocorreram durante o Grande Despertamento, em nenhum momento ele admitiu a ocorrência dos dons revelacionais, ou a possibilidade de novas revelações pelo Espírito Santo à igreja em seus dias.


NOTAS:

[1] Um pastor contemporâneo de Edwards, em junho de 1743, escreveu: “não sabemos de visões, transes nem revelações; mas de exortações fraternais, com a mais modesta e afetuosa do que é representada”. Joseph Tracy, The Great Awekening (Edinburg, The Banner of Truth, 1976), p. 326.

[2] George Marsden, A breve vida de Jonathan Edwards (São José dos Campos, Editora Fiel, 2015), p. 107.

[3] Dentre eles James Ryle, John Arnott, Guy Chevreau, Gerald Coates, Patrick Dixon, William DeArteaga, Nick Needham, Rand Clark. Veja em Hank Hanegraaff, Counterfeit Revival – Looking for God in all the wrong places (Nashville, Word Publishing, 2001), pp. 95-115.

[4] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13 (São Paulo, Editora Fiel, 2015), pp. 50-51.

[5] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 342-343.

[6] Jonathan Edwards, Caridade e seus frutos – um estudo sobre o amor em 1 Coríntios 13, pp. 65-66.

[7] Jonathan Edwards, A busca do crescimento (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2010), p. 33.

[8] Jonathan Edwards, A busca do crescimento, p. 32.