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28 fevereiro 2025

Evangelizar no Carnaval ou durante o Carnaval?

 por Rodrigo Gonçalez e Ewerton B. Tokashiki


A intenção de evangelizar no carnaval pode parecer nobre, mas é preciso cautela e discernimento. Muitos cristãos entram nesses ambientes de promiscuidade com “boas intenções”, mas acabam comprometendo o seu próprio testemunho. A Palavra de Deus nos exorta: “abstende-vos de toda forma de mal” (1Ts 5.22). Como pode um servo de Cristo anunciar a santidade de Deus em meio à imoralidade, à sensualidade e à embriaguez sem se contaminar ou se associar às obras das trevas? Como podemos expor nossos filhos (alguns ainda imaturos) a isso?

 A Escritura Sagrada também ensina: "Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo?" (2 Co 6.14-15). O carnaval é uma festa marcada por excessos e imoralidade que afrontam a santidade de Deus. Participar, ainda que com o propósito de “evangelizar”, pode trazer confusão para os crentes mais fracos e desviar a atenção do verdadeiro evangelho.

 O Senhor Jesus evangelizava pecadores, é verdade, mas nunca adotava os costumes deles para ganhar sua atenção. Ele se assentava com publicanos e pecadores (Lc 5.30-32), mas a sua presença os transformava, e não o contrário (porque Ele é Deus). Muitos que tentam evangelizar no carnaval acabam absorvendo a cultura do evento e perdem sua distinção como embaixadores de Cristo (2Co 5.20). O uso de método de “assemelhar-se” com o ambiente para fazer-se aceito, é uma negação da diferença e contraste que o evangelho exige de nós a fim de sermos sal e luz neste mundo.

 Além disso, a Palavra nos alerta: "Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes" (1Co 15.33). A evangelização deve ser feita com sabedoria, sem comprometer a integridade daquele que o faz. Há muitas formas eficazes de pregar a Palavra sem se expor a ambientes de pecado explícito e culto a demônios. Em vez de ir ao carnaval, por que não investir em intercessão, evangelismo de rua em locais estratégicos ou acolhimento para os que saem desse meio buscando transformação?

 As Escrituras dizem outra vez: "pelo contrário, segundo é santo aquele que vos chamou, tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso procedimento" (1Pe 1.15-16), e não há como evangelizar de maneira eficaz se não houver uma separação visível do pecado. Que nós possamos lembrar que nosso maior compromisso não é com estratégias humanas, mas com a fidelidade a Deus e à sua santa Palavra.

 Daí respondemos à questão inicial: evangelizar no Carnaval ou durante o Carnaval? A evangelização é um dever em todo o tempo e a todas as pessoas. No entanto, a prudência, a coerência e a santidade devem ser observadas, enquanto a aparência do mal, a exposição à tentação e o escândalo devem ser evitados.

13 janeiro 2025

O que é ouvir expositivamente? Por David Murray

 Você tem o direito de esperar que o púlpito da sua igreja seja preenchido por homens preparados pregando sermões bem-preparados. Você tem o direito de esperar pregadores que se prepararam espiritualmente e, também, passaram muitas horas preparando seus sermões. Você tem o direito de esperar que os pregadores se derramem ao pregar a Palavra de Deus para você. E você tem o direito de esperar que aqueles que pregam orem por você depois que o sermão terminar, para que Deus abençoe você com a Palavra. Antes, durante e depois do sermão, você tem o direito de esperar que os pregadores se esforcem e dediquem-se para o seu bem-estar espiritual.

 DIREITOS E RESPONSABILIDADE

Mas e você? Toda a atividade é do lado do pregador e apenas passividade do seu? Você faz pouco ou nada antes, durante ou depois do sermão? Você tem todos os direitos, mas nenhuma responsabilidade? De forma alguma! Você igualmente precisa se derramar, se esforçar e despender antes, durante e depois do sermão se quiser ter algum beneficiar dele. Na verdade, Charles Spurgeon disse que o ouvinte precisa se preparar ainda mais do que o pregador!

Dizem-nos que os homens não devem pregar sem preparação. Isso é verdadeiro. Mas, acrescentamos que os homens não devem ouvir sem preparação. O que você acha que precisa de mais preparação: o semeador ou o solo? Eu gostaria que o semeador viesse com as mãos limpas, mas eu gostaria que o solo fosse bem arado e gradeado, bem revolvido e os torrões quebrados antes que a semente chegasse. Parece-me que há mais preparação necessária pelo solo do que pelo semeador, muito mais pelo ouvinte do que pelo pregador.

 PREGADOR E OUVINTE

Este tipo de preparação de pré-sermão é parte do que Ken Ramey chamou de “ouvir expositivamente”. Estamos acostumados a falar sobre pregação expositiva, o tipo de pregação que analisa, explica ou expõe sequencialmente os versículos das Escrituras. Mas o ponto de Ken é que a pregação expositiva requer um tipo especial de escuta, o ouvir expositivamente, que, como a pregação expositiva, requer trabalho antes, durante e depois do sermão. Ramey diz:

A pregação é um empreendimento conjunto no qual o ouvinte faz parceria com o pastor para que a Palavra de Deus cumpra seu propósito pretendido de transformar sua vida. Nada cria uma atmosfera mais poderosa, empolgante e transformadora do que quando os raios de um pregador capacitado pelo Espírito atingem os para-raios de um ouvinte iluminado pelo Espírito.

Christopher Ash colocou assim em “Ouça!” seu livreto sobre ouvir sermões:

A pregação que torna uma igreja semelhante a Cristo sob a graça exige um milagre duplo: o pregador, que ainda é um pecador, deve ser moldado pela graça para pregar; e os ouvintes, igualmente pecadores, devem ser despertados pela graça para ouvir juntos semana após semana em humilde expectativa.

 DESÂNIMO E ENCORAJAMENTO

A julgar pela parábola dos solos, esse tipo de ouvir expositivamente é bem raro (não mais do que um em cada quatro ouvintes) – isso é desanimador. No entanto, a mesma parábola também fala de uma semente sendo multiplicada para produzir trinta frutos, sessenta e até cem frutos. Esse é o poder encorajador e frutífero de ouvir expositivamente.

20 dicas de como ouvir sermões por David Murray

Em “Como escutar expositivamente”, vimos por que o modo como ouvimos sermões é tão importante quanto preparar e pregá-los. Hoje, consideraremos “20 maneiras de se tornar um melhor ouvinte de sermões”. Alguns desses pontos são retirados de três recursos úteis:

1. Escuta expositiva por Ken Ramey

2. Escute! por Christopher Ash

3. Cuide de como você escuta (e-book gratuito) por John Piper

 

ANTES DO SERMÃO

1. Leia e medite na Palavra de Deus todos os dias. A leitura diária da Bíblia aguça nosso apetite pelo prato principal no Dia do Senhor. Não podemos esperar estar prontos para digerir o alimento espiritual se não tivermos comido durante a semana. Não estrague o seu apetite banqueteando-se com o pecado.

2. Limite o consumo de mídia. A maioria das pessoas consomem de 9 a 11 horas de mídia por dia (Tiago 1.21). No artigo “Pregando para pessoas programadas: comunicação eficaz em uma sociedade saturada de mídia”, Timothy Turner explica como “assistir TV e pregar são diametralmente opostos um ao outro — um é visual, o outro é racional; um envolve os olhos, o outro envolve os ouvidos; um produz observadores passivos, o outro requer ouvintes ativos.” Depois de assistir TV, ir ao cinema e navegar na internet a semana toda, você vai à igreja e tem que sentar e ouvir um longo sermão que exige muita concentração e esforço aos quais você não está acostumado. Espera-se que você passe de um espectador passivo para um ouvinte comprometido, literalmente, da noite para o dia. Ouvir exige muita concentração e autodisciplina. (Ouvindo expositivamente, 42)

3. Use bem a noite de sábado. Prepare-se para o domingo, organize-se durante a semana, vá para a cama cedo, desencoraje os filhos de saírem tarde da noite no sábado.

4. Ore por você e pelo pastor. Faça isso diariamente, mas especialmente no domingo. De muitas maneiras: “você receberá aquilo pelo que ora”.

5. Treine-se para ouvir. Existem vários recursos sobre como pregar, mas, além dos poucos mencionados acima, muito poucos sobre como ouvir. Os pregadores têm muitos recursos para treiná-los e equipá-los para tornarem-se melhores pregadores, mas os ouvintes dificilmente têm recursos para treiná-los e equipá-los para tornarem-se melhores ouvintes. Isso é surpreendente quando você considera que o número de ouvintes excede em muito o número de pregadores e ainda mais quando você percebe que a Bíblia diz mais sobre a responsabilidade do ouvinte de ouvir e obedecer à Palavra de Deus do que sobre a responsabilidade do pregador de explicar e aplicar a Palavra de Deus. De capa a capa, a Bíblia está abarrotada de versículos e passagens que falam sobre a necessidade vital de ouvir e obedecer à Palavra de Deus. Deus está muito preocupado com a forma como os pregadores pregam. Mas com base na grande quantidade de referências bíblicas sobre o ouvir e escutar, é inconfundível que Deus está tão, se não mais, preocupado com a forma como os ouvintes ouvem. (Ouvindo expositivamente, 3)

 

QUANTO AO SERMÃO

1. Chegue à igreja na hora certa para ficar calmo, estabelecido e focado.

2. Respeite o silêncio no templo. Isso inclui instruir seus filhos para não distrair as outras pessoas.

3. Envolva seu corpo e alma na adoração e oração. Desperte todo o seu corpo, mente e alma na adoração antes do sermão.

4. Diga a si mesmo que Deus está prestes a falar consigo. Continue orando para que Ele fale com você por meio de sua Palavra.

5. Reconheça que este é um esforço de equipe e assuma a sua responsabilidade. É um empreendimento conjunto entre o pregador e o ouvinte. Sermões bem-sucedidos resultam da união do ouvinte com o pregador, assim como um receptor trabalha em uníssono com um arremessador. Tanto o arremessador quanto o receptor têm um papel importante a desempenhar no processo de arremesso. A responsabilidade não recai toda sobre os ombros do arremessador. (Ouvindo expositivamente, 4)

6. Faça anotações breves. O suficiente para ajudá-lo a concentrar-se, mas não tantas anotações a ponto de se transformarem em uma palestra que envolva apenas a sua cabeça.

7. Verifique se o pregador está pregando a Palavra de Deus. Não com um espírito farisaico crítico (Lc 11.54), mas com um espírito bereano perspicaz (At 17.11).

8. Aceite que haverá momentos em que a Palavra o machucará. Não reaja contra isso e se feche, mas receba e tente ganhar com isso.

9. Crie uma boa vontade em relação ao pregador. A má vontade ou malícia em relação ao pregador endurece o coração. Ela bloqueia a Palavra de Deus.

10. Tente encontrar uma coisa para se beneficiar. Normalmente, você pode encontrar uma migalha ou duas até mesmo no sermão mais pobre de qualquer pregador.

 

APÓS O SERMÃO

1. Fale sobre o sermão com outras pessoas. Compartilhe o que o ajudou com amigos e familiares.

2. Coloque em prática. Obedeça e cumpra a Palavra.

3. Seja paciente na busca por resultados. Semear e dar frutos pressupõe um processo gradual e demorado de desenvolvimento.

4. Trabalhe em seu solo. O solo pode mudar de ruim para bom e muito bom. Somos responsáveis ​​por preparar o solo de nossos corações (Mc 4.1-20).

5. Dê feedback. Encoraje os pregadores de tempos em tempos com detalhes sobre como determinados sermões o ajudaram e de que maneira. Comente com o seu pastor o que aconteceu de bom quando você seguiu todas essas 20 dicas, mas precisa dar uma opinião de volta de algo que não conseguiu cumprir.

24 maio 2024

Esposas de Presbíteros por Iver Martin

 

Não deveria ser surpresa que as esposas dos líderes da igreja recebam tal destaque em 1Tm 3. Quando o Senhor chama um homem para a liderança, Ele chama sua esposa para acompanhá-lo e apoiá-lo. O papel de “auxiliadora” em Gn 2.20 pressupõe uma tarefa para a qual o homem precisa de assistência. Ele não pode fazê-lo sozinho; portanto, Deus providencia uma companheira humana perfeita. As habilidades dela não são as mesmas que as dele, mas ela será parte do que ele precisa para cumprir a missão que Deus lhe deu. É evidente, a partir de 1Tm 3.11, que esse duo “complementarista” se manifesta na igreja, onde, ao compartilhar com sua esposa, um presbítero pode se beneficiar de uma perspectiva mais detalhada que seria tolice desprezar. Ele pode deixá-la quando vai a uma reunião de presbíteros, mas, na maior parte do tempo, enquanto cumpre suas responsabilidades regulares, ela está ao seu lado desempenhando um papel vital. Deus uniu presbíteros e diáconos a esposas que os complementam em caráter e dons.

Se assumirmos, por boa e necessária consequência, que as virtudes femininas listadas em 1Tm 3.11 se aplicam tanto às esposas dos presbíteros quanto às dos diáconos, as qualidades buscadas devem ser idênticas em ambos os grupos de esposas. A mesma passagem-chave também revela que as qualidades combinadas requeridas em presbíteros, diáconos e suas esposas são notavelmente semelhantes. Em vez de dissecar cada atributo conforme é atribuído ao presbítero, diácono ou esposa respectiva, talvez uma perspectiva mais holística de 1Tm 3 seja o reconhecimento de um grande e glorioso quadro da “casa de Deus”, supervisionada por um grupo de homens escolhidos, juntamente com suas esposas, para servir em um cuidado pastoral contínuo e natural. A solteirice não é impedimento para o presbiterato (na verdade, em algumas circunstâncias, é uma vantagem); no entanto, em geral, “melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho” (Ec 4.9).

As qualidades delas podem ser detalhadas em quatro descrições: “respeitáveis, não maldizentes, temperantes e fiéis em tudo” (1Tm 3.11). A respeitabilidade esperada de uma esposa de presbítero não é menor do que a esperada de seu marido: ambas devem ser exemplos de maturidade no Senhor, conduzindo-se de maneira paciente e cristã. Tal comportamento é mais evidente em momentos de tensão, quando há a tentação de reagir impulsivamente. O comportamento consistente dos oficiais e de suas esposas muitas vezes fará a diferença entre unidade e desintegração, paz ou inquietação.

O presbítero e sua esposa também serão discretos, “não maldizentes” (1Tm 3.11), o que obviamente significa que suas palavras são de extrema importância. É sempre sóbrio lembrar que uma conversa impensada ou um boato ocioso pode significar a diferença entre unidade ou ruína. O dano que pode ser causado até mesmo à comunidade mais vibrante por um comentário descuidado é incalculável. À medida que os presbíteros e suas esposas interagem com outros, a discrição significa o discernimento para saber o que falar, quando falar e quando ficar em silêncio.

Devido à sua posição na igreja, um presbítero ocasionalmente terá acesso a informações sensíveis. A questão da confidencialidade é complexa e deve ser abordada através da política dos presbíteros, discernimento prudente e bom senso piedoso. Há, é claro, situações extremamente delicadas que é preferível não compartilhar, mas essas devem ser óbvias, e uma esposa perspicaz ficará satisfeita em não ser informada sobre o que é considerado imprudente divulgar.

Felizmente, tais situações são raras. Na prática, problemas potencialmente difíceis normalmente podem ser resolvidos antecipadamente através da interação natural, enquanto a liderança, com o apoio de suas esposas, encara seriamente a responsabilidade de oferecer um cuidado pastoral significativo, sendo um modelo visível de casamento cristão consistente. A disciplina eclesiástica saudável não começa quando acusações são formalizadas, mas acontece de forma natural e regular durante almoços e cafés, onde palavras sábias podem fazer a diferença entre cura e dano, crescimento e retrocesso. Nessas situações preventivas, a contribuição única das esposas é absolutamente indispensável.

As esposas também são chamadas, juntamente com seus maridos (1Tm 3.3), a serem “sóbrias”. Essa qualidade descreve um estado de mente claro e equilibrado, especialmente em desafios imprevistos e difíceis, onde um equilíbrio crucial precisa ser alcançado pelo encontro de duas perspectivas. As esposas muitas vezes podem oferecer a avaliação objetiva e equilibrada que é vital para um discernimento “sóbrio”.

Da mesma forma, uma esposa que demonstra “fidelidade em tudo” compartilhará ativamente a visão pastoral de seu marido para a igreja e sua genuína e profunda preocupação com as pessoas em sua comunidade. Juntos, eles proporcionarão a estabilidade e a confiabilidade necessárias para manter o foco na centralidade da igreja e no que ela representa.

Nas complexidades da igreja contemporânea, a sabedoria combinada de um marido e esposa, geralmente, é essencial para fornecer conselhos equilibrados, especialmente em questões relacionais. Embora os homens sejam designados para “ofícios” específicos de liderança, seria um homem tolo aquele que não ouvisse atentamente a sabedoria da esposa piedosa que Deus lhe deu como parceira na obra do evangelho.

Finalmente, é importante lembrar que as esposas, frequentemente, suportam as tensões indiretas que inevitavelmente surgem das dificuldades relacionadas à liderança da igreja. Além disso, independentemente dos sacrifícios exigidos daqueles no ministério, as esposas, muitas vezes, estão dispostas a fazer sacrifícios ainda maiores, colocando de lado seus próprios interesses e confortos para apoiar seus maridos. Deus vê sua firmeza e paciência e lhes assegura que seu trabalho não é em vão no Senhor.

 

Sobre o autor: Pb. Iver Martin é diretor do Edinburgh Theological Seminary, na Escócia, e atua como presbítero regente na Igreja de Esk Valley, em Midlothian, Escócia.

Traduzido por Pb. Caio Jorge, presbítero na 4ª IPB de Boa Vista – RR.

Revisado por Pr Ewerton B. Tokashiki

Texto de https://tabletalkmagazine.com/article/2021/02/wives-of-elders/

25 abril 2020

"A Companhia de Pastores de Calvino" - resenha por Michael Horton

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.

Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Pequeno Conselho que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

O caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.


Artigo extraído de https://www.thegospelcoalition.org/reviews/calvins-company-pastors/ artigo publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

21 março 2020

Não deixem que a ansiedade os domine!

O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos da igreja de Filipos “Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se! Que a moderação de vocês seja conhecida por todos. Perto está o Senhor. Não fiquem preocupados com coisa alguma, mas, em tudo, sejam conhecidos diante de Deus os pedidos de vocês, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Fp 4.4-7 NAA). Ele prescreve que as mentes dos cristãos não fossem dominadas pelo medo de sofrerem algum mal. Esse medo pode produzir uma nociva ansiedade que tiraria a alegria em Cristo Jesus.

Como evitar a ansiedade e o medo excessivo? A maioria dos motivos das nossas ansiedades e temores, talvez, nunca acontecerão. Mas estas emoções são reais e furtam a nossa alegria, paz, vigor e produtividade. Atualmente temos um contexto de pandemia do COVID-19 [coronavírus] que oferece riscos à nossa saúde e vida. Sabemos que há pessoas que exageram e causam um pânico desnecessário, mas não ignoramos que toda prevenção é salutar para combater a proliferação e contágio desse vírus. Sei que o assunto do coronavírus é massificado na mídia, redes sociais e nas conversas pessoais, mas, apesar de cansativo ele é necessário. Contudo, pensar nele o tempo todo nos leva a uma condição de ansiedade ininterrupta, cansaço emocional e desgaste mental. É sobre isso que Paulo nos adverte.

A Palavra de Deus no texto de Fp 4.4-7, sem nos alienar dos problemas, orienta a pensar nalgumas verdadeiras ideias que produzirão vigor físico e espiritual. Primeiro, ele nos lembra da alegria no Senhor [veja o verso 4]. A alegria no Senhor e não qualquer entretenimento, é a nossa fonte de revigoramento. Neemias vendo o desânimo dos judeus lhe orientou que: “Vão para casa, comam e bebam o que tiverem de melhor. E mandem porções aos que não têm nada preparado para si. Porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Portanto, não fiquem tristes, porque a alegria do Senhor é a força de vocês” (Ne 8.10, NAA). Paulo declarou duplamente que devemos nos alegrar no Senhor. Entendendo essa verdade Johannes Sebastian Bach compôs uma famosa música sob o título de “Jesus é a alegria dos homens” [disponível no Youtube].

Em segundo lugar, Paulo nos adverte que a nossa moderação deve influenciar aos que estão ao nosso redor. Em qualquer situação, seja diversão, festividade, dor, perda por falecimento, ou o contexto de pandemia que vivemos, não devemos tirar os freios das nossas emoções. Não podemos nos entregar ao desespero de modo que contribuamos para o pânico. Jó vendo a perda de seus bens e filhos não saiu gritando, xingando, blasfemando, ou agredindo os outros, pelo contrário, ele se levantou em meio à sua tristeza e louvou ao Senhor com uma das mais confortadoras declarações da Bíblia (Jó 1.20-21). Se, porventura, não sentirmos o consolo de Deus, se não entendermos o motivo do que está acontecendo, ainda assim, somos exortados a pensar que “perto está o Senhor”. Ele nos basta, porque a sua suficiência é maior do que tudo.

Em terceiro lugar, o apóstolo nos repreende a não andarmos ansiosos. A ansiedade em si não é pecado, porque ela, em geral, revela a maturidade e responsabilidade de quem sabe o que é sofrer, dos danos e consequências de enfermidades, dívidas, escassez, pobreza, ameaças e sofrimentos que vão além do nosso controle. Então, a ansiedade foi um desses sentimentos que Deus colocou no homem ao cria-lo, assim como a ira, o amor, a alegria e o medo são legítimos se exercidos com o propósito que Deus lhes deu, isto é, nos santificar e afastar do pecado e promover a nossa devoção à Deus. Por isso, não devemos “andar” ansiosos, ou seja, uma ansiedade incessante que domina todo o nosso comportamento, causando malefícios como descontrole, perturbação e insônia. A recomendação da Palavra de Deus é que coloquemos diante de Deus, por meio da oração, tudo o que nos rouba a paz e alegria em Cristo. Mas não é somente pedir. O texto bíblico [Fp 4.6b] nos orienta a orar “com ações de graças”. Isso significa agradecer a Deus, mesmo que o nosso coração lute usando armas de mortal amargura contra a viva esperança que vem do alto. É o SENHOR Deus quem define o valor do que temos na vida e, por isso, a importância do que fazemos é medido pelo quão gratos somos a Ele quando nos dá ou tira algo de nós. Deus nos ordena a sermos sempre agradecidos por tudo o que Ele faz conosco, porque tudo é para nosso bem e para a sua glória (1Ts 5.18). A gratidão cura o egoísmo e a amargura.

Em quarto lugar, Paulo nos dá uma promessa. Algumas pessoas não sabem o que é ter paz há muito tempo, e algumas, talvez, nunca experimentaram “a paz de Deus que excede todo o entendimento”. Certamente que Paulo como israelita não se refere apenas à ausência de conflitos ou tormentos, mas é possível que esteja pensando em shalom, que é um conceito hebraico muito mais rico em significado. A ideia de shalom, por vezes traduzida por “paz”, refere-se a perfeita ordem e funcionamento de todas as coisas produzindo o pleno bem-estar e contentamento em Deus. É algo que transcende às boas ou más circunstâncias, está além do estado de espírito, ou qualquer outro subjetivismo. O profeta Habacuque sob a eminente invasão dos babilônios, em 605 a.C., faz uma confissão de fé: “Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira; ainda que a colheita da oliveira decepcione, e os campos não produzam mantimento; ainda que as ovelhas desapareçam do aprisco, e nos currais não haja mais gado, mesmo assim eu me alegro no Senhor, e exulto no Deus da minha salvação” (Hq 3.17-18). É a esta alegria que Paulo se refere ao declarar que esta paz “excede todo o entendimento” não está afirmando que ela é irreal, ou um “salto no escuro”, mas que não se limita a inconstância das nossas emoções, porque ela tem a sua fonte em Cristo e o seu valor é de acordo com o perfeito propósito de Deus (Rm 8.28-29).

A ansiedade descontrolada tem o poder de destruir a nossa concentração. Ela dispersa os nossos pensamentos, levando-nos à tentação de resolver todos os possíveis problemas que atormentam a nossa mente. A mente é induzida a um excessivo e nocivo ativismo. O problema é que quando somos dominados pela ansiedade temos drenado todo o nosso vigor. Por isso, somos incapazes de nos proteger das nossas disfunções emocionais e de pensamentos conflitantes. É aqui que se aplica a promessa de Deus: Ele “guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus”. Não são pensamentos de autoajuda, ou uma mente positiva, um espírito otimista, ou “alto astral” [usando uma linguagem pagã] que nos garantirá a saúde mental e espiritual. Somente Cristo é capaz de nos prover suficientemente em todas as nossas necessidades, dominar nossos conflitos, acalmar nossos temores e satisfazer os nossos reais anseios. Lembre-se: o Senhor Jesus, incessantemente, reina!

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre. Amém!” (Rm 11.36, NAA)

30 janeiro 2020

Declarações da Posição das Igrejas Reformadas e o Abuso Sexual

por Rev. Wes Bredenhof


Eu gostaria de saber menos sobre abuso sexual. Na minha vida pessoal e pastoral, aprendi muito sobre a realidade horrível que alguns humanos são capazes de fazer aos outros em busca de seus próprios prazeres. No entanto, o conhecimento que Deus providencialmente me concedeu tem me motivado a defender os abusados. Desenvolvi as seguintes declarações de posição com o intuito de conscientização e provocação de discussões em nossas comunidades reformadas.

Deixe-me, primeiramente, definir alguns termos. Em geral, abuso é uma conduta imprópria em relação a outra pessoa. Pode ser um evento único ou um padrão de comportamento. Em particular, abuso sexual é “a exploração sexual de uma pessoa ou qualquer intimidade sexual imposta a uma pessoa (física ou não). O abuso sexual de crianças pode incluir tirar proveito de uma criança que não é capaz de entender atos sexuais e nem de resistir à coerção, que pode vir na forma de ameaças ou de presentes. O abuso sexual inclui assédio por meio de comportamento verbal, ou físico de natureza sexual, provocado por um indivíduo visando uma pessoa, ou grupo de pessoas em particular, com a intenção de obter favores sexuais”. Essas definições vêm da Child Abuse Policy of the Free Reformed Church of Launceston [Política de Abuso Infantil da Igreja Reformada Livre de Launceston]. Além disso, o abuso sexual infantil ocorre quando as leis da idade de consentimento são violadas. No Canadá, por exemplo, a idade de consentimento é 16 anos [ou seja, essa é a idade mínima em que, outra pessoa acima ou na idade de consentimento está autorizada a exercer atividade sexual com ela].

Quando, abaixo, eu escrevo “igrejas reformadas”, refiro-me às igrejas com as quais estou mais familiarizado: as igrejas reformadas canadenses e as igrejas reformadas livres da Austrália. Isso não significa que outras igrejas reformadas não sejam afetadas, nem que todas as congregações individuais da CanRC e da FRC sejam igualmente afetadas. Estou simplesmente comentando da perspectiva de alguém familiarizado com essas federações da igreja.

DECLARAÇÕES DE POSIÇÃO

1. As igrejas reformadas devem condenar inequívoca e publicamente todas as formas de abuso
Embora devamos sempre acolher pecadores verdadeiramente arrependidos, nossas igrejas nunca devem dar a impressão de ser um porto seguro para abusadores. Em vez disso, nós devemos refletir o coração compassivo do nosso Deus para aqueles que são oprimidos e aflitos (Salmo 34.18). Além disso, nós devemos procurar criar um ambiente seguro e de cura em nossas igrejas para aqueles que sofreram abusos. Finalmente, nós devemos ser igreja onde a justiça e a retidão são mantidas, onde as vítimas não são mais abusadas e os criminosos são devidamente responsabilizados pelos seus pecados. Tudo isso começa com uma clara condenação do abuso, quando apropriado, em nossos sermões, artigos, etc.

2. O abuso sexual tem ocorrido em nossas igrejas
Embora eu não conheça qualquer dado oficial, evidências pessoais certamente indicam muitos casos de abuso sexual. Não se sabe se esses casos são desproporcionais à população em geral (certamente são dignos de um estudo competente). No entanto, com pesar, devemos admitir humildemente que isso aconteceu no passado. Poderíamos esperar que isso não mais acontecesse; porém, como as igrejas são constituídas de seres humanos pecadores e, também, de uma mistura de crentes e incrédulos (Confissão Belga, art. 29), devemos esperar, de modo real, ocorrências contínuas. No entanto, devemos fazer todo o possível para erradicar esse mal da igreja de Cristo.

3. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e espiritualidade doentia
Vítimas de abuso frequentemente lutam em seu relacionamento com Deus. Devido ao mal terrível infligido a eles (geralmente quando bem jovens), eles podem questionar a bondade, o amor e a providência de Deus. Se eles foram abusados pelo pai ou por uma figura de autoridade, eles podem ter dificuldade em se relacionar com Deus como um Pai amoroso. Eles podem também ter dificuldades em entender, e se apossarem do ensinamento bíblico sobre sexualidade, família e estruturas de autoridade matrimonial. As consequências espirituais do abuso podem ser profundas e aumentar a culpa carregada pelos agressores.

4. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e problemas de saúde mental
O abuso sexual é uma forma de trauma. É uma atrocidade que pode esmagar quem a experimentou. Qualquer tipo de trauma pode ter implicações na saúde mental. Depressão, ansiedade, automutilação, distúrbios de personalidade múltipla, vícios e outros efeitos podem resultar do abuso sexual, especialmente se não abordado. Esses problemas de saúde mental também podem apresentar desafios à saúde espiritual de uma vítima de abuso sexual.

5. Há um vínculo entre pornografia e abuso sexual contra crianças e cônjuges
Em geral, a pornografia torna pessoas em objetos como um meio de gratificação sexual. Isso predispõe um indivíduo que usa pornografia a ser um abusador. Esse efeito é agravado pela maneira como o uso da pornografia mergulha em níveis cada vez mais depravados. A extensa disponibilidade de pornografia violenta e abusiva aumenta, comprovadamente, o predomínio do abuso sexual. Consequentemente, as igrejas reformadas devem se manifestar sobre os perigos da pornografia, bem como fornecer recursos para que seus membros escapem da escravidão desse pecado.

6. Ao pregar e ensinar o Quinto Mandamento, as igrejas reformadas também devem abordar o abuso de autoridade
Evidências pessoais relatam que, algumas vezes, abusadores invocam o Quinto Mandamento (“honra teu pai e tua mãe”) como forma de justificar e continuar seus abusos. Igrejas reformadas regularmente pregam o Quinto Mandamento (com o Dia do Senhor 39 do Catecismo de Heidelberg) e devem aproveitar a oportunidade para enfatizar que esta lei não tolera comportamentos abusivos. Devemos deixar claro que o abuso é contrário à vontade de Deus; e que os abusadores que usam a lei de Deus para se justificar são duplamente condenados.

7. As igrejas reformadas devem desenvolver políticas de abuso para lidar com abusos do passado e prevenir futuros abusos
Quando colocamos as coisas no papel, indicamos que as levamos a sério. Uma questão tão importante quanto o abuso sexual não deve ser negligenciada. Embora nem todas as circunstâncias possam ser previstas, algumas diretrizes gerais para líderes e membros da igreja podem ajudar bastante a lidar efetivamente com abusos recentes na igreja. Além disso, políticas para impedir futuros abusos também devem estar em vigor como uma questão de devida diligência na proteção das ovelhas e cordeiros do rebanho de Deus.

8. Qualquer igreja local que facilite o abuso, acobertando-o ou recusando-se a denunciá-lo, põe em questão seu status de verdadeira Igreja de Cristo
Uma das marcas da verdadeira igreja é o fiel exercício da disciplina. Se uma igreja local permite que o abuso permaneça encoberto, em vez de atribuir a esse pecado a maior gravidade que existe, ela está dramaticamente longe dessa marca. Se os oficiais de uma igreja se recusam a denunciar abusos às autoridades apropriadas, eles também mostram uma falha significativa em lidar adequadamente com o pecado. Uma igreja verdadeira leva a sério os pecados sérios e os trata de acordo, tanto pelas chaves do reino dos céus quanto pela cooperação com as autoridades civis, quando apropriado.

9. Há esperança para os abusadores e os abusados no evangelho do Senhor Jesus Cristo
Para aqueles que sofreram abusos, as feridas podem ser saradas. Eles podem ser curados quando o bálsamo do evangelho é aplicado, assim, aprendemos a entender melhor a insondável graça de Deus para conosco e para com os outros. Os autores de abusos no passado também podem encontrar ajuda e cura na cruz. Se eles verdadeiramente se arrependerem dos seus pecados, se eles forem humildes e honestos, se eles olharem apenas para Cristo como sua justiça, eles poderão receber perdão de um Deus gracioso e uma mudança significativa em suas vidas pelo poder do Espírito Santo. No entanto, isso de forma alguma diminui as consequências pessoais, criminais ou eclesiásticas desse pecado.


NOTAS:
[1] Extraído de https://yinkahdinay.wordpress.com/2018/10/30/position-statements-on-reformed-churches-and-sexual-abuse/
[2] Nota do autor: eu não reivindico exaustividade a essas declarações, nem afirmo que elas são a melhor e final maneira de enquadrar os problemas abordados. Se outros desejarem melhorá-las, certamente serão bem-vindos.

Tradução de Daniel Tanure
Revisado por Rev Ewerton B. Tokashiki

04 janeiro 2020

O que fazer na visitação pastoral?

por Pr Ewerton B. Tokashiki


A visitação pastoral é uma prática que recebe pouca atenção na teologia pastoral. É algo tão comum e esperado que, às vezes, se pressupõe que todos sabem como fazê-lo. Imagina-se que é só ir à casa dos membros ou interessados, fazer-se agradável na conversação, com o objetivo de manter a proximidade na relação pastoral com aqueles que congregam na igreja que pastoreia. Apesar da preocupação da boa relação pastor e membro fazer parte da visitação pastoral, resumi-la a essa ideia é empobrecer tão importante atividade espiritual no cuidado do rebanho.

Sabe-se que há, por vezes, alguns membros que reclamam de pastores e presbíteros que não se dedicam à visitação. Essa falha aumenta a sua gravidade quando a presença da liderança no lar destas famílias é uma real necessidade. Se há problemas, então, há urgência de abordagem, acompanhamento e orientação visando soluciona-los.

A visitação pode ter diferentes propósitos. Há visitas que são de caráter preventivas e outras são remediativas. As visitas preventivas envolvem desde a manutenção do bom convívio pastoral, verificação do conhecimento bíblico e confessional, supervisão da saúde espiritual das famílias, e integração dos novos convertidos e interessados no evangelho. A visita remediativa implica na resolução de todos os conflitos, desvios, e qualquer crise doutrinária, relacionamentos, ou partidarismos no meio da igreja.

Quais são os motivos da visitação pastoral?

1. A visita ocorre a pedido da família? Há famílias que apreciam a presença regular do seu pastor em suas casas. Elas são agradáveis e muito fraternas em sua recepção. Geralmente, por causa da confiança e companheirismo em relação à liderança, essas são visitas que visam conversar sobre melhorias na estrutura e eventos da igreja local. Entretanto, há casos em que um membro da família, buscando socorro pastoral para alguma situação de crise, solicita a visita para aconselhamento. É possível que notifique com antecedência, mas há pessoas que preferem esclarecer o motivo do pedido de visita quando se está em sua casa. Assim, se possível, pergunte o motivo da visita, mas se a pessoa não quiser revela-lo, vá em oração, e esteja disposto a cuidar com o necessário sigilo dessa família.

2. É uma visita de manutenção? É importante que o pastor tenha um programa ou roteiro de visitação de todas as famílias da igreja local. A comunidade local é formada de famílias, e elas precisam de contato pastoral. O melhor lugar para conhecer as suas ovelhas é nos lares dos membros. Nesse caso a visita não precisa ter um motivo de urgência, ou de gravidade, mas visa o contato com as famílias no decorrer do ano. Talvez, não seja possível ir à casa de todas as famílias durante um ano, pois isso exige a possibilidade dentro da agenda do pastor e das ovelhas, e ainda, das programações da igreja. Mas, não se deve desistir da intenção de fazer-se próximo de suas ovelhas, em especial, pela visitação nos lares.

3. Está ocorrendo alguma crise familiar? Não é problema ter problemas, mas é uma situação complicada, não querer trata-los. Quando um membro de uma família recorre ao seu pastor solicitando a visita, por motivo de crise conjugal, ou de desentendimento entre pais e filhos, então a prioridade, entre as muitas atividades pastorais, é a visitação deste lar. Mesmo que a família não informe, ou não queira que a liderança saiba de seus problemas, todavia, se esses problemas chegam ao conhecimento do pastor, é seu dever, por vocação e dons recebidos por Deus, que ele procure as ovelhas que o Cristo lhe confiou cuidar. Quando se tarda em confrontar, e solucionar crises, elas tendem a piorar e, talvez, até destruir.

4. Há algum problema de relacionamento entre membros da igreja? No convívio de pessoas pode ocorrer atritos, conversas difamatórias, desentendimentos diversos, ou diferentes pecados que ferem a prática da comunhão entre os irmãos. Quanto a prática de Mt 18 falha por parte dos membros que entraram em contenda, o pastor deverá facilitar a obediência e conciliação entre eles.

5. Existem dúvidas ou discordância doutrinária a serem resolvidas? É possível que membros não entendam corretamente algum tema bíblico, ou nalgum momento sejam contaminados por algum erro doutrinário, ou seduzido por alguma ideologia anticristã. A conversação numa visita poderá examinar, ou descobrir inseguranças, ou desvios teológicos, e então, corrigi-los.

6. Há pecados públicos a serem tratados? Se há rumores, ou, de fato, o conhecimento de pecados públicos que necessitarão de condução disciplinar, a visita pastoral é um excelente remédio no processo de restauração do membro. A visitação propicia a possibilidade da confrontação na expectativa de que o irmão se torne em réu confesso, e se submeta voluntariamente à disciplina bíblica.

Proponho aos pastores, presbíteros e diáconos algumas sugestões práticas para uma efetiva visitação:
1. Converse
2. Leia as Escrituras
3. Aconselhe
4. Ore

O que conversar numa comum visita pastoral? Não se pode desperdiçar esse contato da liderança com os membros da igreja. O momento de conversa não pode ser preenchido com trivialidades, assuntos supérfluos, ou irrelevantes para a verificação da saúde espiritual e bom desenvolvimento da família na fé cristã. Afinal, o pastor é chamado para auxiliar as suas ovelhas na instrução do evangelho e santificação do rebanho. Assim, como supervisor espiritual daqueles que lhe foram confiados, ele deverá examinar se as famílias estão comprometidas no exercício espiritual como membros da igreja. Segue abaixo algumas questões sugestivas:
1. Há a realização regular do culto doméstico?
2. Há leitura continuada de toda a Bíblia?
3. Há instrução dos filhos com o Breve Catecismo de Westminster [outro documento confessional]?
4. Há participação assídua dos cultos e reuniões da igreja?
5. Os membros da família estão comprometidos com a prática do discipulado de interessados no evangelho, ou novos convertidos?

Há pastores que descuidam da prática da visitação. É um prejuízo incalculável negligenciar o contato pessoal das ovelhas, porque é impossível conhecer pessoas sem se aproximar delas, ou sem se relacionar estreitamente com elas. O pastor precisa ter o cheiro das suas ovelhas, e para isso, ele carece conviver com elas. As ovelhas confiam em seu pastor quando elas sabem da sua fidelidade bíblica e sua preocupação cuidadora com suas famílias.

“Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.” (Hb 13.17)

18 dezembro 2019

Dezoito coisas para orar por sua igreja

por Jonathan Leeman


Você lê a sua Bíblia e observa como Paulo faz orações tão ricas e saturadas pelo reino pelas igrejas?
1. Para a igreja em Tessalônica: “Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder” (2Ts 1.11; veja também 1Ts 1.9-13).
2. Para a igreja em Colossos: “Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1.9-10).
3. Para a igreja em Éfeso: “Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações; para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação” (Ef 1.16-17; veja também Ef 3.14-21).
4. Para a igreja em Roma (Rm 15.14-33) e à igreja em Filipos (Fp 1.9-11).

Levando a carga
Para nós, é relativamente fácil orarmos por nós mesmos, pelos nossos familiares e por nossos amigos. Mas como podemos aprender a orar com maior fervor e consistência pelas nossas igrejas locais?

Por um lado, devemos simplesmente começar orando – e incentivando os outros a fazer o mesmo.

Para ajudar, aqui estão dezoito coisas pelas quais você pode orar por sua igreja. Não há tanta riqueza nelas como nas orações de Paulo, porque eu queria mantê-las simples e adequadas ao Twitter (também por não estar muito inspirado). Ainda assim, talvez você possa imprimir este artigo e orar por dois ou três dos pontos abaixo na próxima semana – seja num momento de sossego seja na mesa de jantar com a família.

Além disso, considere copiar e colar suas orações preferidas no Twitter ou no Facebook, com o título “Ore por sua igreja: ...”. Não insira o link do artigo; você não tem espaço suficiente e o ponto da questão não é esse. O objetivo é usar sua rede social para incentivar outras pessoas a orarem por suas igrejas.

Em um dia de glória, possivelmente, veremos todo o bem realizado pelos crentes que foram mais determinados em orar por suas igrejas. Quem sabe?

Sobre o que orar
1) Que tenhamos unidade em meio à adversidade – amando aqueles com quem não temos nada em comum senão o evangelho.
2) Que se forme uma cultura de discipulado, na qual fazer discípulos é visto como uma parte comum da vida cristã.
3) Que os presbíteros fiéis usem as Escrituras para treinamento dos membros na obra do ministério.
4) Que uma fome de estudar o evangelho surja entre os membros, para que eles guiem e guardem nele uns aos outros.
5) Que relacionamentos transparentes e significativos se tornem normais e singulares.
6) A pregação da Palavra de Deus – que seja biblicamente cuidadosa e cheia do Espírito Santo.
7) Que os presbíteros permaneçam distantes da reprovação, preservados longe da tentação, complacência, ídolos e mundanismo.
8) Que as músicas da igreja ensinem os membros a confessar, lamentar e louvar biblicamente.
9) Que as orações sejam cheias pretensões bíblicas, honestidade e humildade.
10) Que os membros adultos trabalhem para discipular adolescentes, e não apenas os entretenham com as programações.
11) Que os professores de crianças cresçam em dedicação à Palavra de Deus, mesmo se ninguém os observar.
12) Que ela se torne distinta do mundo em amor e santidade, mesmo quando envolve pessoas de fora.
13) Que os membros compartilhem o evangelho essa semana – e que vejamos mais conversões.
14) Que os membros estejam preparados para a perseguição, lembrando-se de abençoar, e não amaldiçoar, seus perseguidores.
15) Que as esperanças de mudança política sejam estendidas pela esperança do céu.
16) Que o ato de dar seja fiel, além de alegre, consistente e sacrificial.
17) Que mais membros usem a sua carreira profissional pra levar o evangelho em locais onde ele nunca esteve.
18) Que os irmãos deem o seu melhor no trabalho durante essa semana.

Você pensou em algo que não foi incluso? Então, ore e compartilhe. Esta lista não é oficial, como as “dezoito coisas mais importantes a serem levadas em oração pela igreja”. Ela é simplesmente o que alguém pensou enquanto estava sentado na cadeira do escritório.

O ponto é que todos nós devemos intencionalmente orar mais por nossas igrejas e também incentivar os outros a fazer o mesmo.

Traduzido por Daniel Tanure
Revisado por Rev. Ewerton B. Tokashiki

12 dezembro 2019

A compaixão deve ser sábia - Uma abordagem no trabalho diaconal

por John Sittema


Não são somente os diáconos que demonstram misericórdia, mas toda a igreja é chamada para esta tarefa. Levar a misericórdia é missão de toda a igreja, e de cada crente. O serviço especial que realizam os diáconos é estimular e coordenar a prática da misericórdia pelos demais membros do corpo. Todavia, às vezes este assunto da misericórdia chega a complicar-se. Os diáconos de minha igreja pedem-me conselhos para resolver problemas em seu trabalho. Estes problemas podem ser o orgulho que alguns têm, que lhes impede receber a ajuda que necessitam, ou o contrário - uma atitude de querer receber tudo sem esforço pessoal, o que contribui para a preguiça e perda da autoestima. Se acrescentar o ciúme e a avareza, pronto se poderá perceber alguns dos problemas que enfrentam os diáconos.

Este artigo tem como propósito dar alguns conselhos para ajudar aos diáconos a realizarem o seu trabalho nestes tempos em que muitos estão caindo no consumismo e no materialismo. Serão citadas muitas passagens das Escrituras, e um estudo mais detalhado de cada passagem seria necessário para uma maior compreensão do ponto. Rogo a Deus que este artigo estimule a discussão entre os diáconos, e que ajude a esclarecer assuntos chaves nos desafios que enfrentam.

A misericórdia é mais do que uma esmola

A igreja guiada por seus diáconos é chamada a praticar a compaixão, o amor e o apoio para com aqueles que levam pesadas cargas em suas vidas. Esta ajuda pode ser monetária, ou “um vaso de água” (Mc 9.41), ou uma palavra de ânimo em nome de Jesus. Nalgumas ocasiões as pessoas enfrentam um inimigo mais demolidor - a perda da esperança: “O coração alegre constitui bom remédio; mas o espírito triste, seca os ossos” (Pv 17.22). Nestes casos, serão urgentes as visitas fiéis pelos diáconos (e também pelos presbíteros e pastores!), abrindo a Palavra de Deus com eles. Por outro lado, a tarefa dos diáconos com frequência inclui dar o alerta de advertência, ou prover uma admoestação – coisa que muitos não gostam. Todavia, esta tarefa em particular provê uma faceta importante a longo prazo.

Uma boa passagem é 1Ts 5.12-15, onde Paulo disse que “admoestem os insubmissos, consoleis os desanimados ...”

A igreja não é um partido político socialista

A igreja recebe ofertas do povo de Deus, e deve usá-las com benevolência. Mas recordemos que a meta não é a “redistribuição das riquezas”. Pelo contrário, a meta é o avanço do reino de Deus, tanto no sentido amplo, como também no sentido individual (veja At 6.1-7 e 2Co 8-9. Em ambos os casos o ministério diaconal ajudou que a igreja crescesse e que o reino de Deus se estendesse).

Certamente as Escrituras fazem um chamado aos ricos que sejam generosos com os necessitados (1Tm 6.18); mas, também chamam tanto aos ricos como aos pobres para o contentamento, e que não se queixem diante sua condição (1Tm 6.7-8). Hoje em dia o descontentamento está transbordando - embora eles tenham “sustento e abrigo” muitos não estão felizes. Este é um problema espiritual com consequências sérias: “Porque os que querem enriquecer caem em tentação e ciladas, e em muitas cobiças néscias e danosas, que afundam os homens em destruição e perdição” (1Tm 6.9). Recordemos que sempre teremos os pobres entre nós - em parte para provar o coração dos ricos, e também para assegurar que todos tenhamos nossa meta em Jesus, e não nas possessões materiais. Os diáconos devem focar nos corações, não em algum sentido humano da “repartição justa” dos bens.

Mantenhamos uma abordagem bíblica do sofrimento

O sofrimento dói, mas o sofrimento não prejudica. Esta distinção é crucial. Cristo nos chama a aceitar os sofrimentos como mestre da alma. Em muitas partes do Novo Testamento há o ensino que os sofrimentos humilham aos orgulhosos (algo que todos necessitamos!), nos instrui a paciência, produzem perseverança e despertam a esperança.

Quando o crente clama ao Senhor debaixo de sofrimento, outros cristãos apressam-se para ajudar. Mas quando alguns assumem uma atitude de amargura diante do sofrimento, e exigem que os diáconos removam a dor - na realidade estão desafiando a Deus. Apegamos e confessamos ao Catecismo de Heidelberg que “as riquezas e a pobreza vêm não como pelo azar, mas por seu conselho e vontade paternal” (#27). Os diáconos devem entender que sua missão não é aliviar o sofrimento. Antes, a sua tarefa é ajudar a interpretar o sofrimento e ajudar a passa-lo (não evitar), e a crescer por haver passado. Se apontamos mal neste assunto, cortaremos os bons propósitos do Senhor.

Seria como não deixar que o nosso filho aprenda as duras lições da vergonha e do castigo quando descoberto roubando algo duma loja. Seria como o pai ou mãe que não disciplina ao seu filho somente porque chora. Passagens importantes são Hb 12.7ss; Tg 1.2-12; 1Pe 4.12-19.

Não seja partícipe do néscio em sua insensatez

A insensatez tem consequências. Escolhas néscias para gastar o dinheiro, decisões néscias na criação dos filhos, e a conduta moral néscia - todos colhem muitos problemas. As Escrituras nos dizem que não sejamos partícipes com os néscios: “Nunca respondas ao néscio de acordo com a sua tolice, para que não sejas também como ele” (Pv 25.4). Imaginemos uma situação em que os diáconos recebem uma solicitação de assistência financeira de alguém que gastou milhares e milhares de reais com seu cartão de crédito, e tem sérios problemas em pagá-lo. Se a causa de seus problemas foi um furacão, um incêndio, ou uma dívida com gastos médicos - seria uma cosa. Mas outra coisa é o gasto desenfreado de dinheiro com as últimas modas, novos eletrodomésticos, equipamento eletrônico, etc. Não seria sábio oferecer ajuda financeira neste último caso. O que se deve prover é assistência diaconal em fixar prioridades e desenvolver a disciplina de manejar as prioridades. Passagens relevantes são: 2Ts 3.10; Gl 6.7ss; e Pv 16.25, 26; 17.15,16,18, 22; 18.6-7 e 19).

Mantenha a percepção de abordagem global

A instrução de At 6.3 requer que os diáconos sejam homens “cheios do Espírito e sabedoria”. Em 1Tm 3 exige homens que tenham sua casa em ordem, porque como cuidarão da casa de Deus? Por que encontramos estes requisitos? Não necessitam coletar a oferta nos dias de culto, nem mesmo que se fixe em que a usarão. Estes requisitos não têm sentido se a única coisa que os diáconos fazem é aliviar o sofrimento através de ajudas econômicas. A resposta deve ser óbvia para todos - isto NÃO é o trabalho dos diáconos! Pelo contrário, seu chamado é ajudar as pessoas a serem bons mordomos de suas vidas e recursos, a motivá-las para a generosidade, a evitar a cobiça e descontentamento, e a utilizar todos os seus recursos com sabedoria para o avanço do reino de Deus. A compaixão deve servir estes propósitos.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

24 novembro 2019

Pastores e Presbíteros nas Confissões Reformadas

1. A Primeira Confissão Helvética (1536)
18. A eleição dos ministros
Para esta função deve-se garantir que qualquer um que não esteja especializado na lei divina e de vida irrepreensível, e por um singular estudo do nome de Cristo, seja preparado e julgado um ministro da igreja; e por aqueles a quem a administração foi confiada pelo magistrado cristão em nome da igreja. Aquele que foi seguramente escolhido por Deus, no entanto, precisa apropriadamente aprovado pelo voto da igreja e pela imposição das mãos dos presbíteros (1 Tm 3; Lc 12; At 1; Tt 1).[1]


2. Confissão Londrina de John à Lasco (1551)
Entretanto, a profissão dos ministros da palavra consiste na obrigação da realização destes deveres: [...] 3. Que eles cuidem da Igreja, ao lado de seus presbíteros, em seu crescimento e edificação, por meio da admoestação, consolo, repreensão e o uso da disciplina eclesiástica de acordo com a palavra de Deus (2 Tm 4; 1 Co 5).[2]


3. Vallérandus Poullain: Confissão da Congregação Glastonbury(1551)
[no fim da confissão tem os nomes e ofícios subscrevendo o documento]
Subscrito pelo Pastor e Presbíteros da Igreja Francesa de Frankfort.
Valérand Poullain, Pastor da Igreja.
Jean Murellio, doutor.
Jacques Crucius.
Louis Castalio [Castellio]
Também subscrito pelos ingleses, exilados pela e da glória do Evangelho, em nome de toda a Igreja.
John MacBriar, Ministro.
John Stanton.
William Hammond.
John Bendal.
William Whittingham.[3]


4. Confissão da Igreja Italiana em Genebra (1558)
[o pastor da Igreja Italiana de Genebra era Lattanzio Ragnone, que pastoreou entre 1557 e 1559].
Quando há quatro anos atrás os presbíteros da Igreja Italiana que está entre nós, percebeu (pelo cheiro) que entre alguns do rebanho haviam perversas palavras sendo ditas contra o primeiro princípio da nossa fé acerca das três pessoas em uma essência de Deus, pareceu-lhes que não havia melhor remédio do que uma fórmula confessional esboçada para divulgar tanto quanto possível o veneno que estava escondido. Temos nisto inserido aqui vertido palavra por palavra em Latim, a qual poderá ser subscrita.[4]

Aprovamos, recebemos e confirmamos todas as estas coisas, com a condição de que aquele que dizer de outra forma será considerado um perjuro e infiel.
Joh. Sylvester Telius, aprovo a confissão escrita e detesto qualquer coisa repugnante a ela.
Fr. Porcellinus, recebo e aprovo tudo o que abrange na confissão escrita.
Jon. Valentinus Gentilis, aceito como está.
Hippolytus Pelerinus Carignanus, aceito como está.
Joh. Nicolas Gallus, aceito como está.[5]


5. Confissão Francesa (1559)
Artigo XXIX – Oficiais da Igreja
Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada por aquela disciplina que o nosso Senhor Jesus estabeleceu, de modo que existiria na igreja, pastores, presbíteros e diáconos, que a pura doutrina possa ter o seu curso, e os vícios serem reformados e suprimidos, que o pobre e outras pessoas aflitas sejam socorridas em suas necessidades, e que em nome de Deus possa existir santas assembleias em que tanto grandes como pequenos sejam edificados.[6]

Artigo XXXI – Oficiais eleitos
Cremos que não é legítimo para qualquer homem que pela sua própria autoridade tome para si o governo da igreja, mas que todo aquele que for admitido, o seja por meio de legítima eleição, se é possível realiza-la, que o Senhor a permita. Temos expressamente adicionado a exceção, porque, durante algum tempo (como ela está caído em nossos dias), o estado da igreja esteve interrompido, Deus levantou algumas pessoas, duma maneira extraordinária, para reparar as ruínas da igreja decaída. Mas independente de como acontecer, cremos que esta norma sempre continuará, que todos os pastores, presbíteros e diáconos terão um testemunho de seu chamado aos seus respectivos ofícios.[7]


6. A Confissão Valdense (1560)
A política da Igreja verdadeira
Cremos a respeito da verdadeira igreja, que ela deve ser governada de acordo com a ordem e política estabelecida pelo nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, que precisa ser por ministros, presbíteros e diáconos, de modo que a pureza da doutrina possa obter plena realização e vícios sejam rejeitados e punidos, os pobres auxiliados em suas necessidades, e as pessoas reúnam-se em congregações em nome de Deus, onde grandes e pequenos sejam edificados.[8]

A eleição de pastores
Cremos que ninguém realizará o governo da igreja pela sua própria autoridade; antes, se fará uma eleição tanto for possível conforme a permissão de Deus. Adicionamos a isto a seguinte exceção: às vezes, é necessário, particularmente em nossos tempos, que Deus levante algumas pessoas de um modo extraordinário, de modo a edificar as igrejas novamente, que foram destruídas e arruinadas. Cremos que, em geral, podemos contar sempre com esta regra: que todos os ministros, presbíteros e diáconos têm testemunho de serem chamados aos seus ofícios.[9]


7. A Confissão de Theodore Beza (1560)
27. Do ofício do pastor e mestre
O cargo e ofício daqueles, a saber dos pastores, é que sejam diligentes e ocupem-se da sua doutrina (sob a qual também temos compreendido os sacramentos) e da oração (At 6:4), sob a qual também entendemos a benção dos casamentos dos crentes de acordo com o antigo costume da igreja.[10]

32. O terceiro grau dos ofícios eclesiásticos é a jurisdição e o ofício de presbíteros
O terceiro estado do ofício eclesiástico reside na jurisdição espiritual que foi ordenada àqueles que foram particularmente chamados nos escritos dos apóstolos e antigos escritores (tanto em concílios como em decisões canônicas) presbíteros, isto é, seniores ou anciões; os quais também, às vezes, são chamados de governos por são Paulo (1 Co 12:28), e foram escolhidos não pelo clero, mas pelo todo o corpo da igreja.[11]


8. Confissão Belga (1561)
Artigo XXX
Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual, que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos; deve haver também presbíteros e diáconos para formarem, com os pastores, o conselho da igreja. Assim, eles devem manter a verdadeira religião e fazer com que a verdadeira doutrina seja propagada, que os transgressores sejam castigados e contidos, de forma espiritual, e que os pobres e os aflitos recebam ajuda e consolação, conforme necessitam.
Desta maneira, tudo procederá, na igreja, em boa ordem, quando forem eleitas pessoas fiéis, conforme a regra do apóstolo Paulo na carta a Timóteo.[12]

Artigo XXXI
Cremos que os ministros da palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser escolhidos para seus ofícios mediante eleição legítima pela igreja, sob invocação do nome de Deus e em boa ordem, conforme a palavra de Deus ensina. Por isso, cada membro deve cuidar para não se apoderar do ofício por meios ilícitos, mas deve esperar a hora em que é chamado por Deus, a fim de ter, assim, a certeza de que sua vocação vem do Senhor. Quanto aos ministros da Palavra, eles têm, onde quer que estejam, igual poder e autoridade, porque todos são servos de Jesus Cristo, o único Bispo universal e o único Cabeça da igreja. Além disto, a santa ordem de Deus não pode ser violada ou desprezada. Dizemos, portanto, que cada um deve ter respeito especial pelos ministros da Palavra e presbíteros da igreja, em razão do trabalho que realizam. Cada um deve viver em paz com eles, tanto quanto possível, sem murmuração, contenda ou discórdia.[13]


9. A Confessio Catholica Húngara (1562)
Finalmente, estabelecendo todo o ministério, a suma destas doutrinas. Este teste é conduzido publicamente na presença da igreja por pastores treinados e instruídos e outras pessoas, enquanto dois ou três presbíteros ou dois pastores próximos se reúnem. Não estamos obrigados a esta ordenação com o tribunal romano (curia), aos bispos e cardeais, ou a qualquer lugar ou pessoa; mas permitimos que ela aconteça livremente em cada igreja de Cristo.[14]


10. Confissão de Tarcal (1562) e Torda (1563)
Artigo XIV. Concernente ao ofício de pastor e doutor
Os ofícios de pastor e doutor têm em comum que eles estão engajados na proclamação da Palavra e na realização das orações, e incluímos a administração dos sacramentos, a benção matrimonial, a visitação e consolação aos doentes e todos os demais trabalhos como é costume na igreja (At 6:4; 1 Tm 4:13).[15]

Artigo XX. Concernente a espécie de ofícios na igreja que estão envolvidos no governo para o louvor e honra da Igreja
Vejamos agora a espécie de ofícios eclesiásticos que para o louvor e honra da igreja, lidam com o governo. Isto é confiado aos presbíteros (conselheiros ou anciãos, como se diz), aqueles a quem os apóstolos nomeiam nalguns lugares de “governos” e são particularmente assim chamados (1 Co 12:28; Rm 12:8); e a assembleia a quem Cristo chama de igreja (Mt 16:18), assim eles têm a honra do governo da igreja, de modo poderia suficientemente agradável para ser completamente cortado da organização da igreja em Israel. Presbíteros eram escolhidos pelo voto ou meramente pela aprovação de toda a assembleia, como é claramente percebido nos escritos de Ambrósio e Cipriano, que queixam de que alguns se aproveitam da autoridade deles.[16]

Artigo XXI. Concernente à ordem das coisas a serem realizadas no concílio ou assembleia de presbíteros
Apesar da honra do presbítero ser a mesma do pastor, como o seu ofício é um e o mesmo, mesmo assim, é necessário que todos os seus concílios sejam governados por uma certa ordem. Por esta razão, vemos que na assembleia apostólica em Jerusalém, o apóstolo Pedro foi o primeiro entre os demais (At 1:15; 2:14; 15:7).[17]


11. A Segunda Confissão Helvética (1566)
Artigo XVIII. Dos ministros da igreja, a sua instituição e ofícios
Além disso, os ministros do novo povo são designados por diversos nomes. São chamados apóstolos, Profetas, evangelistas, bispos, presbíteros, pastores e mestres (1 Co 12:28; Ef 4:11). Os apóstolos não permaneciam num lugar determinado, mas por todo o mundo iam congregando diversas igrejas. Uma vez estas estabelecidos, deixou de haver apóstolos, e, em seu lugar, apareceram pastores, cada um em sua igreja. Nos primeiros tempos eram videntes, conhecendo o futuro; mas também interpretavam as Escrituras. Tais homens são encontrados também hoje. Os escritores da história evangélica eram chamados Evangelistas; mas eram também arautos do Evangelho de Cristo; como o apóstolo São Paulo ordena a Timóteo: “Faze o trabalho de evangelista” (2 Tm 4.5). Bispos são os supervisores e vigias da Igreja, que administram o alimento e outras necessidades da vida da Igreja. Os presbíteros são os anciãos e, por assim dizer, os senadores e pais da Igreja, governando-a com sadio conselho. Os pastores não só guardam o rebanho do Senhor, como também providenciam as coisas necessárias a ele. Os mestres instruem e ensinam a verdadeira fé e piedade. Portanto, os ministros da Igreja podem, agora, serem chamados de bispos, presbíteros, pastores e mestres.[18]

Ora, o mesmo e igual poder ou função é concedido a todos os ministros na Igreja. Certamente, no princípio os bispos ou presbíteros governavam a Igreja em comum; nenhum homem se elevava acima de qualquer outro, ninguém usurpava maior poder ou autoridade sobre seus companheiros bispos. Lembrados das palavras do Senhor “aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:26) conservavam-se em humildade, e pelo serviço mútuo ajudavam-se no governo e na preservação da Igreja.[19]


12. A Confissão de Antuérpia (1566)
Creio que a igreja tem um duplo governo, aquele que concerne o serviço à Deus, sendo governado por uma determinada ordem que é ordenada aos ministros, presbíteros e supervisores, diáconos, guardiões da comum ordem e disciplina; o segundo dos magistrados ordenados por Deus para a lei civil executar e administrar, a quem rendemos honra, amor e obediência em todas as coisas que não são contrárias à Deus e à salvação de nossas almas (Rm 13:1; Tt 3:1; 1 Pe 2:13; Lc 19:11; Mt 1:6ss).[20]


13. O Sínodo de Gönc (1566)
3. E, como subscrevemos nos dois sínodos a confissão da igreja de Genebra, que foi diligentemente elaborada por Theodore Beza, o ministro daquela igreja, eles deveriam ser zelosos ao comparar, ler e entender aquela confissão. Não porque ela foi escrita por Beza, mas por ela estar em concordância com a Escritura Sagrada. Também nos familiarizamos com o Catecismo de Calvino, que foi recebido pelo sínodo anterior com geral aprovação.[21]

22. Os ministros da igreja não deveriam ousar faltar às reuniões dos sínodos. Àqueles que não estiverem presentes deveria exigir que oferecessem a verdadeira razão da sua ausência aos seus presbíteros.[22]


14. Documentos do Sínodo de Debrecen (1567)
XX. Os presbíteros precisam ser líderes não somente na igreja, mas também do clero. Desejamos não somente fazer dos pastores a liderança da igreja, mas também, de acordo com a Palavra de Deus, fazer dos supervisores e presbíteros a liderança do clero e presidir na assembleia de pastores. Deixem que os pastores guiem na verdadeira e sólida doutrina, convencendo os adversários e replicando aos oponentes (1 Tm 1; Tt 1).[23]

XXVII. Que todas as pessoas se submetam e obedeçam aos seus bispos, presbíteros e prelados devotamente no Senhor; que os presbíteros, entretanto, não governem sobre a ordem eclesiástica da maneira dos soldados e tiranos, como no reino do Anticristo. Como está escrito: “nem como dominadores da herança do Senhor” (1 Pe 5:3), mas “sejam submissos para com eles que vão adiante de vocês” (Hb 13:17).[24]


15. Consensus Sandomierz (1570)
Há também bispos ou pastores que não somente governam e os sacramentos para a igreja de Deus, mas também diligentemente cuidam das necessidades de todas as suas congregações. Presbíteros ou anciãos foram escolhidos entre os irmãos, de modo que eles podem servir aos mais jovens com os seus conselhos vigiar a sua prática e comportamento.[25]


16. A Confissão de La Rochelle (1571)
Cremos, quanto à verdadeira igreja, que ela deveria ser governada de acordo com a ordem estabelecida pelo nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, sendo por pastores, supervisores, diáconos, de modo que a pureza da doutrina seja preservada, que os pecados sejam corrigidos e restringidos, que o pobre e todos os aflitos encontrem auxílio para as suas necessidades, que as assembleias sejam sustentadas em nome de Deus, e que os adultos reunidos com as crianças sejam edificados.[26]


17. Catecismo de Craig (1581)
Q. E se estivermos bem instruídos pelos nossos pastores?
R. Precisaremos continuamente desta instrução até o fim.

Q. Por que se somos suficientemente instruídos?
R. Deus estabeleceu esta ordem em sua igreja para que continuamente a nossa necessidade seja instruída.

Q. O que concluímos disso?
R. Que os ministros ou pastores são-nos necessários.[27]

[...]

Q. Quem administrará os sacramentos?
R. Somente o ministro da Palavra de Deus.[28]

[...]

Q. Por qual motivo alguns homens poderiam ser excluídos do sacramento? (Mt 18:17)
R. Pelo julgamento dos presbíteros da igreja.

Q. Por quem e quando poderiam tais pessoas serem admitidas? (1 Co 1:7).
R. Pelos presbíteros, após examinarem o seu arrependimento.

Q. O que é o ofício deste presbiterato?
R. Eles devem supervisionar os costumes dos homens e o exercício disciplinar.[29]


18. Sínodo Geral de Herborn (1586)
Primeira sessão das 6 às 10h
7. De modo que o ofício da pregação e o ofício regente, tanto quanto possível, como é exigido, sejam promovidos por meio de admoestações e consolação.[30]

Segunda sessão das 15 às 18h
1. Quanto ao artigo dos ofícios, que são tanto: (1) os ministros [pregadores]; (2) os professores (doutores); (3) os presbíteros [seniores]; (4) os diáconos.
2. Ninguém ensinará na igreja sem um legítimo chamado.
3. Ninguém ensinará em outra congregação sem a concordância do consistório local.
4. O chamado ocorre por meio da decisão da classe [presbitério] e de uma pluralidade de presbíteros, à qual o chamado pertence: (1) a eleição; (2) o exame; (3) a aprovação; (4) a confirmação do ofício ou ordenação.[31]
[...]
9. Prevalecerá igualmente na distribuição das responsabilidades entre ministros, presbíteros e membros do diaconato em concordância com recomendação da classe.[32]
[...]
16. O ofício dos anciãos ou presbíteros, além do que eles têm em comum com os ministros, consiste em observar se os ministros fazem a obra diligentemente e apresentando um bom exemplo ao rebanho.[33]
[...]
58. Os ministros da Palavra, diante da celebração da Ceia do Senhor, com os presbíteros, diáconos podem sofrer uma censura da doutrina e conduta entre eles.[34]


NOTAS:
[1] James T. Dennison, Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1523-1552. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 1, p. 348.
[2] Vol. 1, p. 575.
[3] Vol. 1, p. 662.
[4] James T. Dennison, Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1552-1566. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 2, p. 114.
[5] Vol. 2, 116.
[6] Vol. 2, p. 150.
[7] Vol. 2, p. 151.
[8] Vol. 2, p. 226.
[9] Vol. 2, p. 227.
[10] Vol. 2, p. 316.
[11] Vol. 2, p. 322.
[12] Vol. 2, pp. 442-443.
[13] Vol. 2, p. 443.
[14] Vol. 2, p. 609.
[15] Vol. 2, p. 731.
[16] Vol. 2, p. 737.
[17] Vol. 2, p. 737.
[18] Vol. 2, pp. 852-853.
[19] Vol. 2, p. 856.
[20] Vol. 2, p. 885.
[21] Vol. 2, p. 896. Veja a Confissão de Theodore Beza (1560).
[22] Vol. 2, p. 898.
[23] James T. Dennison Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1567-1599. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 3, p. 112.
[24] Vol. 3, p. 114-115.
[25] Vol. 3, p. 225.
[26] Vol. 3, pp. 318-319.
[27] Vol. 3, p. 589.
[28] Vol. 3, p. 592.
[29] Vol. 3, p. 600.
[30] Vol. 3, p. 620.
[31] Vol. 3, p. 621.
[32] Vol. 3, p. 621.
[33] Vol. 3, p. 622.
[34] Vol. 3, p. 628.

12 agosto 2019

A Companhia de Pastores de Calvino - resenha

por Michael Horton[1]

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors[2] é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.
Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Conselho Menor que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

De fato, o caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.

NOTAS:
[1] O artigo foi publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019.
[2] O livro pode ser adquirido AQUI.