Mostrando postagens com marcador Teologia Sistemática. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teologia Sistemática. Mostrar todas as postagens

17 setembro 2025

O que é livre arbítrio na perspectiva reformada?

 O livre arbítrio é a capacidade de escolher contrário à sua natureza. Johann Heinrich Heidegger explica que

a companheira da justiça do primeiro homem é a liberdade ou livre-arbítrio, sendo a primeira uma faculdade da alma, pela qual ele livremente, voluntariamente e sem qualquer força externa, escolheu aquilo que percebeu, deliberou e decidiu o que escolheu. Isso não era indiferença em fazer o bem ou o mal, porque lhe era natural fazer o bem, enquanto fazer o mal era contrário à sua natureza. E a liberdade não era imutável. Pois, dessa forma, não haveria lugar para a tentação. Pois a imutabilidade da vontade não pertence à natureza, mas à graça e à glória. A liberdade também não era independente, porque em Deus Adão foi movido (At 17.28). Ele carecia da graça não para curar a corrupção, mas para preservar a integridade, a fim de vencer as tentações do diabo. Em vez disso, a liberdade, juntamente com a deliberação de fazer o bem, era mutável.[1] 

Os reformados concordam com a interpretação de Agostinho sobre os quatro estados da liberdade. Sabemos que

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], conforme Muller explica que ele é ‘a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular’. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: ‘antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar’. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: ‘uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar’. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: ‘a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem’. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: ‘uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado’. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e, 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).[2] 

Em suma, a tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio dividindo em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para escolher entre o bem e o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. As confissões reformadas consentem quanto a este assunto.[3] 


NOTAS:

[1] Johann Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Theology (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2019), p. 46.

[2] Veja o verbete “libero arbitrium” in: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally From Protestant Scholastic Theology (Grand Rapids, Baker Academic, 1996).

[3] Veja, Joel R. Beeke & Sinclair B. Ferguson, Harmonia das Confissões Reformadas (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2006), pp. 56-57 e, também, Veja, Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã (Eusébio, Editora Peregrino, 2020), p. 79.

01 julho 2020

The Concise Marrow of Christian Theology - Johann H Heidegger RESENHA

Uma resenha por Ryan McGraw


Johan Heinrich Heidegger (1633-1698) provavelmente não é um nome familiar nos círculos reformados hoje. No entanto, Heidegger serviu como professor em Heidelberg e Zurique, no que é conhecido como o período da alta ortodoxia da ortodoxia reformada. Francis Turretin (1623-1687) se referia a ele regularmente em seus famosos Compêndio de Teologia Apologética, e ele era bem conhecido em seu tempo. Heidegger também escreveu três sistemas de teologia, dos quais este era o mais curto. A presente obra é breve e a tradução é bem fluente para a leitura. Heidegger oferece aos leitores modernos uma excelente visão do pensamento clássico reformado sem atolá-los em um texto com vários volumes. Este livro recompensará àqueles que assimilarem o seu conteúdo, dando-lhes um vislumbre da cuidadosa precisão, fidelidade bíblica e piedade do pensamento histórico reformado.

O Compêndio de Heidegger cobre todo o sistema de doutrina em aproximadamente duzentas páginas. Ele não é tão completo ou preciso quanto alguns manuais de teologia abreviados mais conhecidos, como os de William Ames ou Johannes Wollebius. No entanto, Heidegger apresenta aos leitores todos os termos e distinções teológicas básicas que eles precisam para entender o sistema da doutrina reformada. Isso ajudará as pessoas a compreenderem a essência do pensamento reformado, deixando muitas perguntas subdesenvolvidas. Heidegger também removeu quase todas as referências a outros autores, incluindo os pais da igreja, optando por apresentar aos leitores as passagens mais relevantes das Escrituras que substanciam as suas afirmações. As suas definições são simples e claras, mas este será um texto inicial mais difícil do que o de Ames e Wollebius mencionados acima. Os alunos eram obrigados a memorizar um texto como este, a fim de servir como uma ponte para a leitura de tratamentos mais complexos da teologia.

Os editores listam três razões para estudar textos clássicos reformados como este (ix). Primeiro, eles fornecem a base intelectual da teologia moderna. Segundo, eles representam parte da herança daqueles que se identificam com a confissão reformada. Terceiro, a ortodoxia reformada foi um movimento espiritual vital que merece nossa atenção. Heidegger cumpre todos esses objetivos, e ainda, de modo admirável. Ele pretendia que este livro fosse uma obra de transição para obras teológicas maiores (xx). Como Ryan Glomsrud observa na introdução, “Heidegger pretendia apresentar a seus leitores um resumo de consenso da tradição reformada como um todo” (xxiv). A este respeito, é agora um ponto de partida para os leitores ingleses modernos no mundo mais amplo do pensamento reformado clássico.


Referência bibliográfica: Johan Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Christian Theology (Reformation Heritage Books, 2018), 256 páginas.

Texto original da resenha AQUI

Traduzido por Ewerton B. Tokashiki

07 abril 2020

Devemos transmitir a ceia do Senhor Online?

por Scott R. Swain


Durante a semana passada, estive envolvido em várias conversas sobre se as igrejas devem transmitir ao vivo a Ceia do Senhor.

Na maioria dos casos, as conversas não foram sobre se a transmissão ao vivo da Ceia do Senhor é válida em circunstâncias normais […]. A maioria das conversas em que participei foi entre ministros reformados e presbiterianos com um entendimento compartilhado da igreja, ministério pastoral e sacramentos. A questão nessas conversas foi se as circunstâncias extraordinárias da vida em quarentena permitem maneiras extraordinárias de administrar a Ceia do Senhor.

O The Gospel Coalition publicou duas perspectivas batistas sobre a questão de as igrejas fazerem online a Ceia do Senhor, uma contra e outra favorável. Além disso, a Christianity Today publicou um artigo, escrito do ponto de vista sacramental protestante, que argumenta que a Ceia do Senhor pode realmente cumprir sua função como um meio de graça, mesmo quando celebrada online.

Não creio que as igrejas devam transmitir a Ceia do Senhor por razões bastante reformadas. A razão mais fundamental tem a ver com a natureza do próprio sacramento.

Um sacramento, no nível mais básico, é uma ação simbólica ordenada por Jesus Cristo à qual ele anexou a promessa de sua presença e bênção (Êx 20:24; Mt 28:18-20; Lucas 22:19; 1 Co 10:1-4, 16; 11:24-25). O “sinal”, nesse entendimento, não são simplesmente os “elementos” da água, pão e vinho. O sinal é a totalidade da ação simbólica que, no caso da Ceia do Senhor, é uma refeição compartilhada (1Co 10:17). Além disso, quando se trata da Ceia do Senhor, a ação simbólica de uma refeição compartilhada tem um contexto específico e divinamente ordenado: “quando vocês se reúnem” (1Co 11:33). O “sinal” da Ceia do Senhor é uma refeição compartilhada, participada na assembleia da Aliança, do povo de Deus, ou seja, a igreja reunida. A esta ação simbólica, Cristo anexou a promessa de sua presença e bênção: “ali te darei meu amor” (Ct 7:12).

Quando se trata da Ceia do Senhor, então, nenhuma refeição compartilhada, nenhuma assembleia da aliança significa nenhum sacramento. (Nota: a situação é diferente no batismo, cuja ação simbólica envolve uma pessoa lavando a outra pessoa com água). Embora a ação de uma refeição compartilhada e o contexto da assembleia da aliança não sejam condições suficientes para celebrar a Ceia do Senhor, são condições necessárias. Sem eles, realmente não se pode celebrar a Ceia do Senhor.

Aqueles que mais se afastaram dessa linha de argumentação o fizeram porque valorizam profundamente a Ceia do Senhor como um meio de graça. Que grande perda, argumentam eles, sem os meios divinamente designados de dar e receber o corpo e o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, de fortalecer nossa fé e esperança, de receber e responder ao amor de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Contra esse sentimento, não tenho argumentos. É realmente uma grande perda, talvez a maior perda entre muitas outras perdas que se seguem à nossa incapacidade de nos reunirmos na presença de Deus como povo da aliança de Deus no Dia do Senhor.

Mas a resposta adequada a essa grande perda não é tentar transmitir ao vivo a Ceia do Senhor. Por enquanto, o caminho para participar da Ceia do Senhor está fechado para todos nós. Por enquanto, não somos chamados para festejar, mas para jejuar.

O que leva ao que acredito ser a resposta pastoral apropriada em nossa atual crise. Em situações de perda como essa, precisamos aprender a lamentar, e devemos ensinar o povo de Deus a lamentar, algo bastante difícil para aqueles (como eu) que estão acostumados à gratificação instantânea.

A Ceia do Senhor é uma das maiores bênçãos que Jesus Cristo deu à sua igreja. Nossa incapacidade de celebrar a Ceia do Senhor por um período só pode ser, deve ser, apenas causa de tristeza e lágrimas. Por enquanto, não podemos celebrar essa lembrança do Senhor “provando” e “vendo” sua bondade (Sl 34:8).

Mas isso não significa que somos enviados a um estado de completo esquecimento. Não. Existe um tipo de lembrança que acompanha o exílio da cidade de Deus (Sl 137:5-6), a lembrança que leva a lágrimas fiéis (Sl 137:1-2) e que cultiva o desejo de restauração (Sl 63:1; 143:6), a lembrança daqueles que já provaram e que, pela graça de Deus, sabem que mais uma vez provarão e verão a bondade do Senhor, seja na sua mesa na assembleia da aliança ou na ceia das bodas do Cordeiro (Ap 19:9). Este é o tipo de lembrança que somos chamados a cultivar em nós mesmos e em nossos rebanhos neste tempo.

Nosso presente jejum da Ceia do Senhor é necessário, mas lamentável. Nosso presente jejum também é uma oportunidade de cultivar um desejo sincero pelo Senhor e por seu povo que tornará nosso banquete à mesa do Senhor ainda mais alegre quando o tempo do nosso jejum chegar ao fim. Faremos um banquete na casa de Sião!


Scott R Swain é presidente e professor de Teologia Sistemática no Reformed Theological Seminary, em Orlando, Flórida, onde atua desde 2006. É ministro ordenado na Igreja Presbiteriana da América. Scott e sua esposa, Leigh, têm quatro filhos.
Tradução: Pr. Dilsilei Monteiro

Extraído de TGC - Coalizão Pelo Evangelho.

22 março 2020

D.A. Carson e sua interpretação imaginativa do dom de línguas

por Ewerton B. Tokashiki


índice

1. Qual o problema?
2. Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?
3. O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?
4. Anexo


Qual o problema?

Se tem um escritor que aprecio ler é D.A. Carson. De fato, ele é uma referência acadêmica de competência inquestionável. O primeiro livro dele que li foi “Exegese e suas falácias”[1] e, a partir daí, passei a admirar a capacidade de discernir erros exegéticos em grandes intérpretes da Bíblia. Todavia, a minha decepção veio com a leitura do seu livro “A manifestação do Espírito – a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14”. Quando soube que ele era um continuísta, fiquei muito curioso querendo saber como seria a abordagem exegética de alguém com a competência como a dele? A leitura do capítulo 3 “Profecia e línguas: buscando o que é melhor (14.1-19)” trouxe a inevitável frustração. Não vou me deter resumindo a parte introdutória do capítulo, que é de menor importância, mas de modo objetivo irei para a análise de sua opinião sobre o dom de línguas. Resumidamente, é necessário antecipar, por amor da clareza, que Carson faz uma distinção entre o dom de línguas de Atos e 1Coríntios e o falar em línguas na atualidade, e apesar disso, ele tenta explicar a relação entre estes diferentes fenômenos.


Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?

Há um aspecto muito positivo neste capítulo. Carson crê que tanto as ocorrências de línguas em Atos como 1Coríntios eram idiomas, e não manifestações extáticas. Ele declara que “devo simplesmente registrar minha convicção de que o que Lucas descreve em Pentecostes são idiomas existentes”.[2] Então, logo em seguida apresenta a conclusão de que
Paulo considerava o dom línguas um dom de idiomas existentes, ou seja, de línguas que eram cognitivas, fossem elas de homens, ou de anjos. Além disso, se ele sabia dos detalhes de Pentecostes (atualmente, uma opinião impopular no mundo acadêmico, mas totalmente defensável em minha opinião), seu entendimento sobre línguas deve ter sido moldado, até certo ponto, por esse evento. Certamente as línguas em Atos exerceram algumas funções diferentes das que eram exercidas em 1Coríntios; mas não há evidência substancial que sugira que Paulo pensasse as duas como essencialmente diferentes.[3]

Nesta parte a maioria dos cessacionistas concordam com ele. Digo, a maioria, porque há alguns cessacionistas que não creem que os dois eventos se refiram ao mesmo fenômeno. Mas, eu fecho plenamente com Carson neste ponto!


O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?

Ele divide a sua argumentação em três partes. Primeiro, ele expõe que apesar de não ter fundamento bíblico, a experiência é válida por ser funcionalmente benéfico para quem a usa. A primeira constatação que Carson faz sobre o moderno fenômeno de falar em línguas é de que “não é nenhum idioma humano. Os padrões e as estruturas exigidos por todo idioma humano conhecido simplesmente não estão presentes nesses exemplos. Ocasionalmente, uma palavra reconhecível escapa; mas isso é estatisticamente provável, dado o grande volume de verbalização”.[4] A sua próxima conclusão é que “as línguas atuais, em termos lexicais, são não comunicativas, e os poucos exemplos de casos de xenoglossia atuais são tão mal atestados que nenhum peso pode ser colocado neles.”[5] Em outras palavras, nas atuais manifestações do falar em línguas, segundo Carson, não há uma comunicação direta inteligível. E apesar disso, a sua conclusão tende para o pragmatismo, ao declarar que “o atual fenômeno parece fazer mais bem do que mal, tem ajudado muitos crentes no que diz respeito a adoração, oração e compromisso, e, por isso, deveria talvez ser avaliado como um bom dom de Deus, apesar de não ter nenhuma garantia bíblica explícita.”[6] O que vemos aqui é a completa negação do princípio fundamental sola Scriptura, a favor de uma experiência que não tem base na Escritura Sagrada, por meros motivos pragmáticos. Essa afirmação já seria suficiente para fechar o livro, e perder todo o interesse na explicação de Carson. Mas a minha curiosidade me obrigou a terminar a leitura do capítulo.

Em segundo lugar, após comentar a tese de Poythress que oferece três possíveis explicações para o fenômeno de falar em línguas,[7] Carson desdobra uma quarta possibilidade de significado do suposto dom. Ele propõe que esse fenômeno são “padrões de fala suficientemente complexos a ponto de poderem carregar todos os tipos de informação cognitiva em algum tipo de ordem codificada, ainda que linguisticamente esses padrões não sejam identificáveis como idioma humano”.[8] Alguns termos fogem de seu sentido comum, como “informação cognitiva” e “ordem codificada” e passam a ter o sentido de não-sei-o-que-significa. Carson não consegue perceber o nível de absurdo que a sua proposta o levou. Daí ele se admira porque é desprezada, apesar de, segundo ele, a sua proposta “é também logicamente possível, ainda que comumente seja ignorada; e ela satisfaz as restrições tanto daquilo que é apresentado nos documentos bíblicos do primeiro século quanto de alguns dos fenômenos atuais. Não entendo como isso possa ser ignorado.” Ele não explica o que é “logicamente possível”, nem a que fenômenos do primeiro século se refere, porque obviamente não é às experiências de Atos, nem de 1Coríntios.

O terceiro argumento é a tentativa de definir, por pressuposto, que o moderno falar em línguas é uma vocalização livre. A teoria é uma tentativa de justificar a irracionalidade de algo que não deveria ser classificado como um idioma.[9] A explicação segue que “Poythress nos relembra que tais vocalizações livres ainda podem carregar conteúdo além de uma imagem vaga do estado emocional do falante.”[10] Quando a explicação ficou questionavelmente estranha, Carson ainda propõe uma “ilustração criativa”, sem nenhuma fundamentação exegética! Vou transcrever a sua explicação:[11]

Imaginem que a mensagem é:

“Louvarei ao Senhor, pois seu amor dura para sempre.”

Ao retirarmos as vogais, obtemos:

LV SNHR OS MR DR PR SMPR.

Isso pode parecer um pouco estranho; contudo quando nos lembramos que o hebraico moderno é escrito quase sem vogais, podemos imaginar que, com certa prática, isso poderia ser lido com bastante tranquilidade. Agora, remova os espaços e, começando pela primeira letra, reescreva a sequência usando cada terceira letra repetidamente por toda a sequência até que todas as letras sejam usadas. O resultado é:

LNPMRSRSRSDRPVHSRDM.

Agora adicione um som de “a” depois de cada consoante e divida arbitrariamente a unidade em pedaços:

LANAPA MARA SARASARA SADARA PAVA HASARA PAMA.

Acredito que isso não é diferente das transcrições de certas línguas atuais. Certamente é muito parecido com algumas que já ouvi. Mas a questão importante é que isso transmite informação, desde que você conheça o código. Qualquer um que conheça os passos que dei poderia revertê-los a fim de voltar à mensagem original.


É inacreditável que esta seja a sua proposta sobre a prática atual de falar em línguas. O continuísmo de Carson o força a uma explicação no mínimo estranha. Todavia, ela não é apenas diferente de qualquer outra explicação, que até mesmo pentecostais e carismáticos já ofereceram, ela é assumidamente não bíblica! O autor reconhece a total ausência de correlação entre o seu correto entendimento do dom de falar em línguas, conforme At e 1Co, e oferece uma explicação, que segundo ele, é um “padrão de verbalização não poderia ser desprezado de forma legítima como se fosse uma linguagem sem nexo. Ele é tão capaz de possuir conteúdo proposicional e cognitivo, assim como qualquer outro idioma humano conhecido.”[12] Isso se assemelha a “língua do p” que os adolescentes usam para se comunicarem! Onde está o elemento sobrenatural do dom de línguas? Neste caso, Carson reconhece que isso seria apenas uma questão de saber a “chave hermenêutica” para decifrar o segredo do que se fala; em outras palavras, o falar e o interpretar não seriam dons sobrenaturais, mas apenas o conhecimento de técnicas de linguística.

Creio que D.A. Carson deveria escrever uma 3ª edição revisada de “Exegese e suas falácias”. Nesta versão ampliada seria interessante acrescentar um 6º capítulo sob o título: “Falácias imaginativas”. Confesso que esperava um melhor argumento continuísta do Carson. Sendo justo com o seu pensamento, confesso que concordo com a exegese de Carson sobre o falar em línguas em At e 1Co, mas não consigo digerir a sua interpretação da experiência contemporânea de falar em línguas.

Ele é um respeitável scholar de exegese em Novo Testamento. Ainda admiro o seu trabalho exegético, apesar de estar decepcionado com o seu insustentável continuísmo. Concordo com a sua interpretação das manifestações das línguas mencionadas em At e 1Co como sendo o mesmo fenômeno sobrenatural de falar um idioma humano, sem ter um aprendizado prévio, mas a sua explicação para as manifestações das “línguas contemporâneas” é absurdamente decepcionante.






Anexo


Caso você culpe o tradutor, ou a editora de distorcer “a ilustração imaginativa” de D.A. Carson, transcrevo o texto original para fins comparativos:[13]


Suppose the message is:

Praise the Lord, for his mercy endures forever.


Remove the vowels to achieve:

PRS TH LRD FR HS MRC NDRS FRVR.


This may seem a bit strange; but when we remember that modern Hebrew is written without most vowels, we can imagine that with practice this could be read quite smoothly. Now remove the spaces and, beginning with the first letter, rewrite the sequence using every third letter, repeatedly going through the sequence until all the letters are used up. The result is:

PTRRMNSVRHDHRDFRSLFSCRR.


Now add an ‘a’ sound after each consonant, and break up the unit into arbitrary bits:

PATARA RAMA NA SAVARAHA DAHARA DAFARASALA FASA CARARA.


I think that is indistinguishable from transcriptions of certain modern tongues. Certainly it is very similar to some I have heard. but the important point is that it conveys information provided you know the code [bold reflects Carson’s use of italics]. Anyone who knows the steps I have taken could reverse them in order to retrieve the original message.


NOTAS:

[1] Publicado pela Edições Vida Nova em 1992, e posteriormente, alterando o título numa 2ª edição em 2001 para “Perigos da interpretação bíblica”.
[2] D.A. Carson, A manifestação do Espírito– a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14 (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013), p. 82.
[3] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[4] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[5] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[6] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[7] A sua posição teológica está AQUI acessado em 22/03/2020. A refutação da posição de Pouthress está AQUI acessado em 22/03/2020.
[8] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[9] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[10] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[11] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, pp. 87-88. Os itálicos são do autor.
[12] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 88.
[13] D.A. Carson, Showing the Spirit – A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14 (Grand Rapids, Baker Books, 1987), pp. 85-86.

12 dezembro 2019

A compaixão deve ser sábia - Uma abordagem no trabalho diaconal

por John Sittema


Não são somente os diáconos que demonstram misericórdia, mas toda a igreja é chamada para esta tarefa. Levar a misericórdia é missão de toda a igreja, e de cada crente. O serviço especial que realizam os diáconos é estimular e coordenar a prática da misericórdia pelos demais membros do corpo. Todavia, às vezes este assunto da misericórdia chega a complicar-se. Os diáconos de minha igreja pedem-me conselhos para resolver problemas em seu trabalho. Estes problemas podem ser o orgulho que alguns têm, que lhes impede receber a ajuda que necessitam, ou o contrário - uma atitude de querer receber tudo sem esforço pessoal, o que contribui para a preguiça e perda da autoestima. Se acrescentar o ciúme e a avareza, pronto se poderá perceber alguns dos problemas que enfrentam os diáconos.

Este artigo tem como propósito dar alguns conselhos para ajudar aos diáconos a realizarem o seu trabalho nestes tempos em que muitos estão caindo no consumismo e no materialismo. Serão citadas muitas passagens das Escrituras, e um estudo mais detalhado de cada passagem seria necessário para uma maior compreensão do ponto. Rogo a Deus que este artigo estimule a discussão entre os diáconos, e que ajude a esclarecer assuntos chaves nos desafios que enfrentam.

A misericórdia é mais do que uma esmola

A igreja guiada por seus diáconos é chamada a praticar a compaixão, o amor e o apoio para com aqueles que levam pesadas cargas em suas vidas. Esta ajuda pode ser monetária, ou “um vaso de água” (Mc 9.41), ou uma palavra de ânimo em nome de Jesus. Nalgumas ocasiões as pessoas enfrentam um inimigo mais demolidor - a perda da esperança: “O coração alegre constitui bom remédio; mas o espírito triste, seca os ossos” (Pv 17.22). Nestes casos, serão urgentes as visitas fiéis pelos diáconos (e também pelos presbíteros e pastores!), abrindo a Palavra de Deus com eles. Por outro lado, a tarefa dos diáconos com frequência inclui dar o alerta de advertência, ou prover uma admoestação – coisa que muitos não gostam. Todavia, esta tarefa em particular provê uma faceta importante a longo prazo.

Uma boa passagem é 1Ts 5.12-15, onde Paulo disse que “admoestem os insubmissos, consoleis os desanimados ...”

A igreja não é um partido político socialista

A igreja recebe ofertas do povo de Deus, e deve usá-las com benevolência. Mas recordemos que a meta não é a “redistribuição das riquezas”. Pelo contrário, a meta é o avanço do reino de Deus, tanto no sentido amplo, como também no sentido individual (veja At 6.1-7 e 2Co 8-9. Em ambos os casos o ministério diaconal ajudou que a igreja crescesse e que o reino de Deus se estendesse).

Certamente as Escrituras fazem um chamado aos ricos que sejam generosos com os necessitados (1Tm 6.18); mas, também chamam tanto aos ricos como aos pobres para o contentamento, e que não se queixem diante sua condição (1Tm 6.7-8). Hoje em dia o descontentamento está transbordando - embora eles tenham “sustento e abrigo” muitos não estão felizes. Este é um problema espiritual com consequências sérias: “Porque os que querem enriquecer caem em tentação e ciladas, e em muitas cobiças néscias e danosas, que afundam os homens em destruição e perdição” (1Tm 6.9). Recordemos que sempre teremos os pobres entre nós - em parte para provar o coração dos ricos, e também para assegurar que todos tenhamos nossa meta em Jesus, e não nas possessões materiais. Os diáconos devem focar nos corações, não em algum sentido humano da “repartição justa” dos bens.

Mantenhamos uma abordagem bíblica do sofrimento

O sofrimento dói, mas o sofrimento não prejudica. Esta distinção é crucial. Cristo nos chama a aceitar os sofrimentos como mestre da alma. Em muitas partes do Novo Testamento há o ensino que os sofrimentos humilham aos orgulhosos (algo que todos necessitamos!), nos instrui a paciência, produzem perseverança e despertam a esperança.

Quando o crente clama ao Senhor debaixo de sofrimento, outros cristãos apressam-se para ajudar. Mas quando alguns assumem uma atitude de amargura diante do sofrimento, e exigem que os diáconos removam a dor - na realidade estão desafiando a Deus. Apegamos e confessamos ao Catecismo de Heidelberg que “as riquezas e a pobreza vêm não como pelo azar, mas por seu conselho e vontade paternal” (#27). Os diáconos devem entender que sua missão não é aliviar o sofrimento. Antes, a sua tarefa é ajudar a interpretar o sofrimento e ajudar a passa-lo (não evitar), e a crescer por haver passado. Se apontamos mal neste assunto, cortaremos os bons propósitos do Senhor.

Seria como não deixar que o nosso filho aprenda as duras lições da vergonha e do castigo quando descoberto roubando algo duma loja. Seria como o pai ou mãe que não disciplina ao seu filho somente porque chora. Passagens importantes são Hb 12.7ss; Tg 1.2-12; 1Pe 4.12-19.

Não seja partícipe do néscio em sua insensatez

A insensatez tem consequências. Escolhas néscias para gastar o dinheiro, decisões néscias na criação dos filhos, e a conduta moral néscia - todos colhem muitos problemas. As Escrituras nos dizem que não sejamos partícipes com os néscios: “Nunca respondas ao néscio de acordo com a sua tolice, para que não sejas também como ele” (Pv 25.4). Imaginemos uma situação em que os diáconos recebem uma solicitação de assistência financeira de alguém que gastou milhares e milhares de reais com seu cartão de crédito, e tem sérios problemas em pagá-lo. Se a causa de seus problemas foi um furacão, um incêndio, ou uma dívida com gastos médicos - seria uma cosa. Mas outra coisa é o gasto desenfreado de dinheiro com as últimas modas, novos eletrodomésticos, equipamento eletrônico, etc. Não seria sábio oferecer ajuda financeira neste último caso. O que se deve prover é assistência diaconal em fixar prioridades e desenvolver a disciplina de manejar as prioridades. Passagens relevantes são: 2Ts 3.10; Gl 6.7ss; e Pv 16.25, 26; 17.15,16,18, 22; 18.6-7 e 19).

Mantenha a percepção de abordagem global

A instrução de At 6.3 requer que os diáconos sejam homens “cheios do Espírito e sabedoria”. Em 1Tm 3 exige homens que tenham sua casa em ordem, porque como cuidarão da casa de Deus? Por que encontramos estes requisitos? Não necessitam coletar a oferta nos dias de culto, nem mesmo que se fixe em que a usarão. Estes requisitos não têm sentido se a única coisa que os diáconos fazem é aliviar o sofrimento através de ajudas econômicas. A resposta deve ser óbvia para todos - isto NÃO é o trabalho dos diáconos! Pelo contrário, seu chamado é ajudar as pessoas a serem bons mordomos de suas vidas e recursos, a motivá-las para a generosidade, a evitar a cobiça e descontentamento, e a utilizar todos os seus recursos com sabedoria para o avanço do reino de Deus. A compaixão deve servir estes propósitos.

Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki

24 novembro 2019

Pastores e Presbíteros nas Confissões Reformadas

1. A Primeira Confissão Helvética (1536)
18. A eleição dos ministros
Para esta função deve-se garantir que qualquer um que não esteja especializado na lei divina e de vida irrepreensível, e por um singular estudo do nome de Cristo, seja preparado e julgado um ministro da igreja; e por aqueles a quem a administração foi confiada pelo magistrado cristão em nome da igreja. Aquele que foi seguramente escolhido por Deus, no entanto, precisa apropriadamente aprovado pelo voto da igreja e pela imposição das mãos dos presbíteros (1 Tm 3; Lc 12; At 1; Tt 1).[1]


2. Confissão Londrina de John à Lasco (1551)
Entretanto, a profissão dos ministros da palavra consiste na obrigação da realização destes deveres: [...] 3. Que eles cuidem da Igreja, ao lado de seus presbíteros, em seu crescimento e edificação, por meio da admoestação, consolo, repreensão e o uso da disciplina eclesiástica de acordo com a palavra de Deus (2 Tm 4; 1 Co 5).[2]


3. Vallérandus Poullain: Confissão da Congregação Glastonbury(1551)
[no fim da confissão tem os nomes e ofícios subscrevendo o documento]
Subscrito pelo Pastor e Presbíteros da Igreja Francesa de Frankfort.
Valérand Poullain, Pastor da Igreja.
Jean Murellio, doutor.
Jacques Crucius.
Louis Castalio [Castellio]
Também subscrito pelos ingleses, exilados pela e da glória do Evangelho, em nome de toda a Igreja.
John MacBriar, Ministro.
John Stanton.
William Hammond.
John Bendal.
William Whittingham.[3]


4. Confissão da Igreja Italiana em Genebra (1558)
[o pastor da Igreja Italiana de Genebra era Lattanzio Ragnone, que pastoreou entre 1557 e 1559].
Quando há quatro anos atrás os presbíteros da Igreja Italiana que está entre nós, percebeu (pelo cheiro) que entre alguns do rebanho haviam perversas palavras sendo ditas contra o primeiro princípio da nossa fé acerca das três pessoas em uma essência de Deus, pareceu-lhes que não havia melhor remédio do que uma fórmula confessional esboçada para divulgar tanto quanto possível o veneno que estava escondido. Temos nisto inserido aqui vertido palavra por palavra em Latim, a qual poderá ser subscrita.[4]

Aprovamos, recebemos e confirmamos todas as estas coisas, com a condição de que aquele que dizer de outra forma será considerado um perjuro e infiel.
Joh. Sylvester Telius, aprovo a confissão escrita e detesto qualquer coisa repugnante a ela.
Fr. Porcellinus, recebo e aprovo tudo o que abrange na confissão escrita.
Jon. Valentinus Gentilis, aceito como está.
Hippolytus Pelerinus Carignanus, aceito como está.
Joh. Nicolas Gallus, aceito como está.[5]


5. Confissão Francesa (1559)
Artigo XXIX – Oficiais da Igreja
Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada por aquela disciplina que o nosso Senhor Jesus estabeleceu, de modo que existiria na igreja, pastores, presbíteros e diáconos, que a pura doutrina possa ter o seu curso, e os vícios serem reformados e suprimidos, que o pobre e outras pessoas aflitas sejam socorridas em suas necessidades, e que em nome de Deus possa existir santas assembleias em que tanto grandes como pequenos sejam edificados.[6]

Artigo XXXI – Oficiais eleitos
Cremos que não é legítimo para qualquer homem que pela sua própria autoridade tome para si o governo da igreja, mas que todo aquele que for admitido, o seja por meio de legítima eleição, se é possível realiza-la, que o Senhor a permita. Temos expressamente adicionado a exceção, porque, durante algum tempo (como ela está caído em nossos dias), o estado da igreja esteve interrompido, Deus levantou algumas pessoas, duma maneira extraordinária, para reparar as ruínas da igreja decaída. Mas independente de como acontecer, cremos que esta norma sempre continuará, que todos os pastores, presbíteros e diáconos terão um testemunho de seu chamado aos seus respectivos ofícios.[7]


6. A Confissão Valdense (1560)
A política da Igreja verdadeira
Cremos a respeito da verdadeira igreja, que ela deve ser governada de acordo com a ordem e política estabelecida pelo nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, que precisa ser por ministros, presbíteros e diáconos, de modo que a pureza da doutrina possa obter plena realização e vícios sejam rejeitados e punidos, os pobres auxiliados em suas necessidades, e as pessoas reúnam-se em congregações em nome de Deus, onde grandes e pequenos sejam edificados.[8]

A eleição de pastores
Cremos que ninguém realizará o governo da igreja pela sua própria autoridade; antes, se fará uma eleição tanto for possível conforme a permissão de Deus. Adicionamos a isto a seguinte exceção: às vezes, é necessário, particularmente em nossos tempos, que Deus levante algumas pessoas de um modo extraordinário, de modo a edificar as igrejas novamente, que foram destruídas e arruinadas. Cremos que, em geral, podemos contar sempre com esta regra: que todos os ministros, presbíteros e diáconos têm testemunho de serem chamados aos seus ofícios.[9]


7. A Confissão de Theodore Beza (1560)
27. Do ofício do pastor e mestre
O cargo e ofício daqueles, a saber dos pastores, é que sejam diligentes e ocupem-se da sua doutrina (sob a qual também temos compreendido os sacramentos) e da oração (At 6:4), sob a qual também entendemos a benção dos casamentos dos crentes de acordo com o antigo costume da igreja.[10]

32. O terceiro grau dos ofícios eclesiásticos é a jurisdição e o ofício de presbíteros
O terceiro estado do ofício eclesiástico reside na jurisdição espiritual que foi ordenada àqueles que foram particularmente chamados nos escritos dos apóstolos e antigos escritores (tanto em concílios como em decisões canônicas) presbíteros, isto é, seniores ou anciões; os quais também, às vezes, são chamados de governos por são Paulo (1 Co 12:28), e foram escolhidos não pelo clero, mas pelo todo o corpo da igreja.[11]


8. Confissão Belga (1561)
Artigo XXX
Cremos que esta verdadeira igreja deve ser governada conforme a ordem espiritual, que nosso Senhor nos ensinou na sua Palavra. Deve haver ministros ou pastores para pregarem a Palavra de Deus e administrarem os sacramentos; deve haver também presbíteros e diáconos para formarem, com os pastores, o conselho da igreja. Assim, eles devem manter a verdadeira religião e fazer com que a verdadeira doutrina seja propagada, que os transgressores sejam castigados e contidos, de forma espiritual, e que os pobres e os aflitos recebam ajuda e consolação, conforme necessitam.
Desta maneira, tudo procederá, na igreja, em boa ordem, quando forem eleitas pessoas fiéis, conforme a regra do apóstolo Paulo na carta a Timóteo.[12]

Artigo XXXI
Cremos que os ministros da palavra de Deus, os presbíteros e os diáconos devem ser escolhidos para seus ofícios mediante eleição legítima pela igreja, sob invocação do nome de Deus e em boa ordem, conforme a palavra de Deus ensina. Por isso, cada membro deve cuidar para não se apoderar do ofício por meios ilícitos, mas deve esperar a hora em que é chamado por Deus, a fim de ter, assim, a certeza de que sua vocação vem do Senhor. Quanto aos ministros da Palavra, eles têm, onde quer que estejam, igual poder e autoridade, porque todos são servos de Jesus Cristo, o único Bispo universal e o único Cabeça da igreja. Além disto, a santa ordem de Deus não pode ser violada ou desprezada. Dizemos, portanto, que cada um deve ter respeito especial pelos ministros da Palavra e presbíteros da igreja, em razão do trabalho que realizam. Cada um deve viver em paz com eles, tanto quanto possível, sem murmuração, contenda ou discórdia.[13]


9. A Confessio Catholica Húngara (1562)
Finalmente, estabelecendo todo o ministério, a suma destas doutrinas. Este teste é conduzido publicamente na presença da igreja por pastores treinados e instruídos e outras pessoas, enquanto dois ou três presbíteros ou dois pastores próximos se reúnem. Não estamos obrigados a esta ordenação com o tribunal romano (curia), aos bispos e cardeais, ou a qualquer lugar ou pessoa; mas permitimos que ela aconteça livremente em cada igreja de Cristo.[14]


10. Confissão de Tarcal (1562) e Torda (1563)
Artigo XIV. Concernente ao ofício de pastor e doutor
Os ofícios de pastor e doutor têm em comum que eles estão engajados na proclamação da Palavra e na realização das orações, e incluímos a administração dos sacramentos, a benção matrimonial, a visitação e consolação aos doentes e todos os demais trabalhos como é costume na igreja (At 6:4; 1 Tm 4:13).[15]

Artigo XX. Concernente a espécie de ofícios na igreja que estão envolvidos no governo para o louvor e honra da Igreja
Vejamos agora a espécie de ofícios eclesiásticos que para o louvor e honra da igreja, lidam com o governo. Isto é confiado aos presbíteros (conselheiros ou anciãos, como se diz), aqueles a quem os apóstolos nomeiam nalguns lugares de “governos” e são particularmente assim chamados (1 Co 12:28; Rm 12:8); e a assembleia a quem Cristo chama de igreja (Mt 16:18), assim eles têm a honra do governo da igreja, de modo poderia suficientemente agradável para ser completamente cortado da organização da igreja em Israel. Presbíteros eram escolhidos pelo voto ou meramente pela aprovação de toda a assembleia, como é claramente percebido nos escritos de Ambrósio e Cipriano, que queixam de que alguns se aproveitam da autoridade deles.[16]

Artigo XXI. Concernente à ordem das coisas a serem realizadas no concílio ou assembleia de presbíteros
Apesar da honra do presbítero ser a mesma do pastor, como o seu ofício é um e o mesmo, mesmo assim, é necessário que todos os seus concílios sejam governados por uma certa ordem. Por esta razão, vemos que na assembleia apostólica em Jerusalém, o apóstolo Pedro foi o primeiro entre os demais (At 1:15; 2:14; 15:7).[17]


11. A Segunda Confissão Helvética (1566)
Artigo XVIII. Dos ministros da igreja, a sua instituição e ofícios
Além disso, os ministros do novo povo são designados por diversos nomes. São chamados apóstolos, Profetas, evangelistas, bispos, presbíteros, pastores e mestres (1 Co 12:28; Ef 4:11). Os apóstolos não permaneciam num lugar determinado, mas por todo o mundo iam congregando diversas igrejas. Uma vez estas estabelecidos, deixou de haver apóstolos, e, em seu lugar, apareceram pastores, cada um em sua igreja. Nos primeiros tempos eram videntes, conhecendo o futuro; mas também interpretavam as Escrituras. Tais homens são encontrados também hoje. Os escritores da história evangélica eram chamados Evangelistas; mas eram também arautos do Evangelho de Cristo; como o apóstolo São Paulo ordena a Timóteo: “Faze o trabalho de evangelista” (2 Tm 4.5). Bispos são os supervisores e vigias da Igreja, que administram o alimento e outras necessidades da vida da Igreja. Os presbíteros são os anciãos e, por assim dizer, os senadores e pais da Igreja, governando-a com sadio conselho. Os pastores não só guardam o rebanho do Senhor, como também providenciam as coisas necessárias a ele. Os mestres instruem e ensinam a verdadeira fé e piedade. Portanto, os ministros da Igreja podem, agora, serem chamados de bispos, presbíteros, pastores e mestres.[18]

Ora, o mesmo e igual poder ou função é concedido a todos os ministros na Igreja. Certamente, no princípio os bispos ou presbíteros governavam a Igreja em comum; nenhum homem se elevava acima de qualquer outro, ninguém usurpava maior poder ou autoridade sobre seus companheiros bispos. Lembrados das palavras do Senhor “aquele que dirige seja como o que serve” (Lc 22:26) conservavam-se em humildade, e pelo serviço mútuo ajudavam-se no governo e na preservação da Igreja.[19]


12. A Confissão de Antuérpia (1566)
Creio que a igreja tem um duplo governo, aquele que concerne o serviço à Deus, sendo governado por uma determinada ordem que é ordenada aos ministros, presbíteros e supervisores, diáconos, guardiões da comum ordem e disciplina; o segundo dos magistrados ordenados por Deus para a lei civil executar e administrar, a quem rendemos honra, amor e obediência em todas as coisas que não são contrárias à Deus e à salvação de nossas almas (Rm 13:1; Tt 3:1; 1 Pe 2:13; Lc 19:11; Mt 1:6ss).[20]


13. O Sínodo de Gönc (1566)
3. E, como subscrevemos nos dois sínodos a confissão da igreja de Genebra, que foi diligentemente elaborada por Theodore Beza, o ministro daquela igreja, eles deveriam ser zelosos ao comparar, ler e entender aquela confissão. Não porque ela foi escrita por Beza, mas por ela estar em concordância com a Escritura Sagrada. Também nos familiarizamos com o Catecismo de Calvino, que foi recebido pelo sínodo anterior com geral aprovação.[21]

22. Os ministros da igreja não deveriam ousar faltar às reuniões dos sínodos. Àqueles que não estiverem presentes deveria exigir que oferecessem a verdadeira razão da sua ausência aos seus presbíteros.[22]


14. Documentos do Sínodo de Debrecen (1567)
XX. Os presbíteros precisam ser líderes não somente na igreja, mas também do clero. Desejamos não somente fazer dos pastores a liderança da igreja, mas também, de acordo com a Palavra de Deus, fazer dos supervisores e presbíteros a liderança do clero e presidir na assembleia de pastores. Deixem que os pastores guiem na verdadeira e sólida doutrina, convencendo os adversários e replicando aos oponentes (1 Tm 1; Tt 1).[23]

XXVII. Que todas as pessoas se submetam e obedeçam aos seus bispos, presbíteros e prelados devotamente no Senhor; que os presbíteros, entretanto, não governem sobre a ordem eclesiástica da maneira dos soldados e tiranos, como no reino do Anticristo. Como está escrito: “nem como dominadores da herança do Senhor” (1 Pe 5:3), mas “sejam submissos para com eles que vão adiante de vocês” (Hb 13:17).[24]


15. Consensus Sandomierz (1570)
Há também bispos ou pastores que não somente governam e os sacramentos para a igreja de Deus, mas também diligentemente cuidam das necessidades de todas as suas congregações. Presbíteros ou anciãos foram escolhidos entre os irmãos, de modo que eles podem servir aos mais jovens com os seus conselhos vigiar a sua prática e comportamento.[25]


16. A Confissão de La Rochelle (1571)
Cremos, quanto à verdadeira igreja, que ela deveria ser governada de acordo com a ordem estabelecida pelo nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, sendo por pastores, supervisores, diáconos, de modo que a pureza da doutrina seja preservada, que os pecados sejam corrigidos e restringidos, que o pobre e todos os aflitos encontrem auxílio para as suas necessidades, que as assembleias sejam sustentadas em nome de Deus, e que os adultos reunidos com as crianças sejam edificados.[26]


17. Catecismo de Craig (1581)
Q. E se estivermos bem instruídos pelos nossos pastores?
R. Precisaremos continuamente desta instrução até o fim.

Q. Por que se somos suficientemente instruídos?
R. Deus estabeleceu esta ordem em sua igreja para que continuamente a nossa necessidade seja instruída.

Q. O que concluímos disso?
R. Que os ministros ou pastores são-nos necessários.[27]

[...]

Q. Quem administrará os sacramentos?
R. Somente o ministro da Palavra de Deus.[28]

[...]

Q. Por qual motivo alguns homens poderiam ser excluídos do sacramento? (Mt 18:17)
R. Pelo julgamento dos presbíteros da igreja.

Q. Por quem e quando poderiam tais pessoas serem admitidas? (1 Co 1:7).
R. Pelos presbíteros, após examinarem o seu arrependimento.

Q. O que é o ofício deste presbiterato?
R. Eles devem supervisionar os costumes dos homens e o exercício disciplinar.[29]


18. Sínodo Geral de Herborn (1586)
Primeira sessão das 6 às 10h
7. De modo que o ofício da pregação e o ofício regente, tanto quanto possível, como é exigido, sejam promovidos por meio de admoestações e consolação.[30]

Segunda sessão das 15 às 18h
1. Quanto ao artigo dos ofícios, que são tanto: (1) os ministros [pregadores]; (2) os professores (doutores); (3) os presbíteros [seniores]; (4) os diáconos.
2. Ninguém ensinará na igreja sem um legítimo chamado.
3. Ninguém ensinará em outra congregação sem a concordância do consistório local.
4. O chamado ocorre por meio da decisão da classe [presbitério] e de uma pluralidade de presbíteros, à qual o chamado pertence: (1) a eleição; (2) o exame; (3) a aprovação; (4) a confirmação do ofício ou ordenação.[31]
[...]
9. Prevalecerá igualmente na distribuição das responsabilidades entre ministros, presbíteros e membros do diaconato em concordância com recomendação da classe.[32]
[...]
16. O ofício dos anciãos ou presbíteros, além do que eles têm em comum com os ministros, consiste em observar se os ministros fazem a obra diligentemente e apresentando um bom exemplo ao rebanho.[33]
[...]
58. Os ministros da Palavra, diante da celebração da Ceia do Senhor, com os presbíteros, diáconos podem sofrer uma censura da doutrina e conduta entre eles.[34]


NOTAS:
[1] James T. Dennison, Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1523-1552. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 1, p. 348.
[2] Vol. 1, p. 575.
[3] Vol. 1, p. 662.
[4] James T. Dennison, Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1552-1566. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 2, p. 114.
[5] Vol. 2, 116.
[6] Vol. 2, p. 150.
[7] Vol. 2, p. 151.
[8] Vol. 2, p. 226.
[9] Vol. 2, p. 227.
[10] Vol. 2, p. 316.
[11] Vol. 2, p. 322.
[12] Vol. 2, pp. 442-443.
[13] Vol. 2, p. 443.
[14] Vol. 2, p. 609.
[15] Vol. 2, p. 731.
[16] Vol. 2, p. 737.
[17] Vol. 2, p. 737.
[18] Vol. 2, pp. 852-853.
[19] Vol. 2, p. 856.
[20] Vol. 2, p. 885.
[21] Vol. 2, p. 896. Veja a Confissão de Theodore Beza (1560).
[22] Vol. 2, p. 898.
[23] James T. Dennison Jr., org., Reformed Confessions of the 16th and 17th Centuries in English translation 1567-1599. Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2008, Vol. 3, p. 112.
[24] Vol. 3, p. 114-115.
[25] Vol. 3, p. 225.
[26] Vol. 3, pp. 318-319.
[27] Vol. 3, p. 589.
[28] Vol. 3, p. 592.
[29] Vol. 3, p. 600.
[30] Vol. 3, p. 620.
[31] Vol. 3, p. 621.
[32] Vol. 3, p. 621.
[33] Vol. 3, p. 622.
[34] Vol. 3, p. 628.

06 outubro 2018

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 10

Existe outro método do diabo para impedir o serviço dos crentes, consiste em leva-los a pensar que há um pequeno número de pessoas que servem a Cristo e que essas pessoas são os menos importantes, os de menos influência e os mais pobres de todos. Satanás lhes dirá: “Garanto que não querem desperdiçar a sua vida no meio de um povo como este, sem poder, sem influência, ignorantes e pobres. Não vale a pena obedecer a Deus se seu povo é assim”. Como os crentes devem reagir quando o diabo lhes fala desta maneira?

Primeiro, devem recordar que ainda que Satanás chame aos seguidores de Cristo de pobres, e ainda que sejam pobres quanto aos bens do mundo, na realidade são os mais ricos. Não são ricos quanto ao dinheiro, ou quanto aos bens, mas ricos nas bençãos de Deus. Tiago falando deste assunto escreveu: “Meus amados irmãos ouçam: Não escolheu Deus aos pobres deste mundo, para que sejam ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que lhe amam?” (Tg 2.5). Estes poucos, pobres e insignificantes cristãos como Satanás lhes chamaria, na verdade são os mais ricos e poderosos do mundo. Ainda que tenham pouco em suas mãos, possuem muito em suas esperanças. Ainda que quase não tenham nada no tempo presente, são os herdeiros do glorioso reino de Deus.

Os crentes também devem recordar que ao longo da história humana, alguns dos crentes são ricos e famosos. Por exemplo Abraão e Jó são dois casos de crentes que eram ricos em bens materiais. Então, Satanás não tem razão em dizer que todos os crentes sempre foram pobres. Alguns crentes são ricos em bens deste mundo e todos são ricos em bençãos espirituais.

As bênçãos espirituais são maiores que todas as riquezas terrenas de todos os inconversos no mundo. O crente mais pobre com bênçãos espirituais, possui mais do que a pessoa mais rica da terra sem elas. As bençãos espirituais satisfazem quando as bênçãos materiais não podem fazê-lo. Jesus falou das bênçãos espirituais como água viva: “O que beber da água que eu lhe darei, jamais terá sede; mas a água que eu lhe darei será uma fonte de água viva para a vida eterna” (Jo 4.14). Os crentes têm bênçãos perduráveis que nunca poderão ser tiradas deles. As bênçãos dos crentes lhes acompanham em todo o tempo: na prisão, no tempo da enfermidade, na hora da morte e na eternidade. Nenhuma das riquezas terrenas podem fazer isto. Quem é realmente pobre? O que crente é chamado de “pobre”, ou o inconverso mais rico da terra?

Satanás está ocultando parte da verdade quando diz que somente há crentes pobres no mundo. Ainda que pareça que seja assim, a realidade é outra. O número total de crentes no mundo é enorme. E o número de crentes que existe no decorrer da história também é expressivo. Apocalipse 7.9 diz que o apóstolo João viu “uma grande multidão a qual ninguém poderia contar, de todas as nações, tribos e povos e línguas, que estavam diante do trono e da presença do Cordeiro”. Ainda que seja possível que muitos crentes vivam em lugares onde existam poucos cristãos e muitos deles sejam pobres e humildes, nem sempre é assim. Em breve virá o dia em que estes crentes pobres e humildes brilharão como o sol. Paulo escreveu acerca de como Deus levantou aos crentes e os fez assentar nos lugares celestiais (Ef 2.6). Haverá um dia em que Deus mostrará ao mundo o quão bendito é o seu povo. Então os ricos da terra invejarão aos crentes, que antes julgaram como pobres.

08 novembro 2017

O ofício de presbítero - por Geerhardus Vos

Nós chegamos aos ofícios ordinários. Aqui diferentes questões devem ser discutidas:
(a) A relação que os ofícios de ancião (presbítero) e bispo ou superintendente (episkopos) mantêm um com o outro, e se é um e o mesmo ofício.
(b) A relação em qual o ofício de pastor (poimēn) é nos dois mencionados (a); isto é, se dentro do presbiterato há uma distinção entre aqueles que são pastores e aqueles que não são pastores. (c) A questão relativa ao ofício de mestre e se este era um ofício particular, distinto do ofício de pastor. (d) A questão concernente ao ofício de diáconos e diaconisas. (e) A questão acerca do chamado aos ofícios e a forma como alguém é investido no ofício.

a) A relação entre o episcopado e o presbiterato. Os que advogam o sistema episcopal dizem que os dois ofícios de bispo e presbítero são diferentes. Os bispos são superiores aos presbíteros. Eles têm o poder de ordenar e governar os presbíteros. Estes não podem se ordenar. Há quem vá mais longe, como vimos, e faz dos bispos os sucessores dos apóstolos. Em antítese, postulamos a tese: o bispo e o presbítero, o superintendente e os anciãos indicam plenamente o mesmo ofício. Um superintendente é um ancião e um ancião é um superintendente. Se houvesse uma distinção no presbiterato e no ofício de supervisão, isso não teria nada a ver com o duplo nome. Nomeiam-se os dois tipos de anciãos tanto para os supervisores como os presbíteros. É relatado que Paulo (Atos 20:17) convocou os anciãos da igreja de Éfeso e depois, referiu-se a eles como superintendentes (20:28). Em Filipenses 1:1, os supervisores aparecem ao lado dos diáconos, como em outros lugares os anciãos estão ao lado dos diáconos (veja também 1 Tm 3: 2 com 3: 8); “Que você deve nomear anciãos de cidade em cidade” (Tt 1: 5) e “um superintendente deve ser reprovado” (1:7). Consequentemente, nada é mais claro do que a identidade desses dois ofícios. A única diferença reside nesses dois pontos: ancião (presbítero) é um termo judaico derivado da sinagoga, e que foi administrada pelos homens mais velhos; o supervisor (episkopos) é um termo grego. Ancião refere-se à dignidade do ofício, supervisor é o seu trabalho.

b) A segunda das questões acima diz respeito à distinção dentro do próprio presbiterato. Havia dois tipos de anciãos? Parece que em 1 Timóteo 4:14, havia uma pluralidade de anciãos numa mesma igreja, e que eles formavam uma equipe, um colegiado, um “presbitério”, eram “anciãos”. Em 1 Timóteo 5:17, parece que havia anciãos que trabalhavam na Palavra e no ensino, e também anciãos que não estavam ocupados com tal trabalho. A distinção entre anciãos docentes e anciãos regentes baseia-se nisso.

Teremos que pensar sobre o assunto da seguinte forma. Originalmente toda a ênfase acerca do ancião recaiu sobre o governo, mantendo a supervisão. A razão para isso foi que o ofício extraordinário de profecia e o extraordinário dom (charismata) em geral, bem como a presença contínua dos apóstolos e evangelistas tornaram a necessidade de um ofício ordenado de mestre menos visível. Os anciãos podiam ensinar e falar a Palavra, mas havia outros além destes que também ensinavam e profetizavam na congregação. Mais tarde, quando os dons extraordinários diminuíram, surgiu a necessidade de um ofício normativo de mestre. Nas epístolas pastorais de Paulo, isso aparece como uma estrutura estabelecida. Ainda assim, parece-nos que isso deriva muito das informações que argumentam que todos os anciãos não eram livres para atuarem no ensino na congregação. Somente tem-se esta certeza: havia um número de anciãos que tinham o dever específico de ensinar. Os outros poderiam a liberdade, mas eles não teriam o dever. Por isso, de fato, a distinção reformada entre dois tipos de anciãos é legitimada em princípio.

Para leitura do texto completo veja AQUI.

14 outubro 2017

William Greenough Thayer Shedd (1820-1894)

por M. A. Noll[1]

William Shedd foi o maior sistematizador, depois de Charles Hodge, da teologia calvinista americana entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. O seu pai foi um ministro congregacional que encorajou a sua educação na Vermont University e no Andover Theological Seminary. Em Vermont, Shedd estudou aos pés de James Marsh, que o encorajou a ler Platão, Kant e Coleridge, um trio de autores que mantiveram uma influência em sua teologia pelo resto de sua vida. Shedd serviu, por um breve período, como ministro congregacional em Vermont. Ensinou inglês na Vermont University, retórica sagrada no Auburn Theological Seminary e história da igreja em Andover, antes de assumir o serviço ministerial, como pastor-auxiliar na Brick Presbyterian Church, em Nova Iorque. Em 1863 ele se tornou um professor de Bíblia e teologia no Union Theological Seminary, em Nova Iorque, onde permaneceu por mais de trinta anos.

A obra mais conhecida, dentre as muitas de Shedd, foi a Dogmatic Theology,[2] publicada originalmente em três volumes, entre 1888 a 1894. Como a Teologia Sistemática[3] (1872–73) de Hodge, o manual de teologia sistemática de Shedd defende o “alto Calvinismo” da Confissão de Westminster contra o arminianismo, o catolicismo romano e o racionalismo moderno. Shedd não foi tão abrangente quanto Hodge no tratamento das várias divisões da teologia, mas ele incorporou aspectos do pensamento moderno em sua obra mais do que Hodge ou quase qualquer outro conservador de sua geração, especialmente ideias de desenvolvimento histórico. Novamente ele foi incomum em sua confiança sobre a história do Cristianismo como um antídoto para os ensinos medíocres, quer antigos, quer modernos. Para ele, Atanásio sobre a Trindade, Agostinho sobre a natureza do pecado, Anselmo sobre a existência de Deus e os reformadores sobre a salvação, eram mais do que capazes de delinear os contornos da ortodoxia. Ele sabia que a tradição agostiniana-calvinista carregava amplos recursos bíblicos, teológicos e filosóficos para suportar o teste do tempo.

Os interesses de Shedd se estenderam bem além da teologia, abrangendo a literatura, a história da igreja, a homilética e o comentário bíblico. Ele publicou obras em cada uma dessas áreas. Testificou o seu interesse na ideia do desenvolvimento histórico orgânico ao publicar Lectures on the Philosophy of History, em 1856, e editando as obras completas de Samuel Taylor Coleridge, publicada em sete volumes, em 1853.

NOTAS:

[1] J. De Witt, “William Greenough Thayer Shedd,” PRR 6:295–332. Traduzida por: Felipe Sabino de Araújo Neto e revisada por Ewerton B. Tokashiki.
[2] Encontra-se disponível uma nova edição com notas, num único volume. Alan W. Gomes, ed., William G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Phillipsburgh, P&R Publishing, 3ª ed., 2003). Nota do revisor.
[3] Publicada pela Editora Hagnos. Nota do revisor.

20 setembro 2017

A doutrina da Igreja Católica Romana de servir um elemento na Eucaristia

Quando e com qual fundamento a Igreja Católica Romana, no ato da Eucaristia, distribui apenas a óstia, negando aos fiéis o cálice do vinho? Recorrendo aos seus documentos oficiais este breve artigo intenciona responder a questão.

A decisão de dar apenas o pão ocorreu no Concílio de Constança, que é o 16º ecumênico, de 5 Novembro de 1414 à 22 Abril de 1418, na sessão 13ª, de 15 Junho de 1415, no Decreto Cum in nonnullis, confirmado pelo Papa Martinho V, em 1 Setembro de 1425. Este decreto é repetido nas constituições de In eminentis de 1 Setembro de 1425 (BarAE, ao ano de 1425, n. 18 / Theiner 28,27) e Apostolicae sedis praecellens de 25 de Janeiro de 1426, declarando que

em algumas partes do mundo, alguns ousam temerariamente afirmar que o povo cristão deve receber o santo sacramento da Eucaristia sob as duas espécies do pão e do vinho e fazem comungar em geral a assembleia dos leigos não só com a espécie do pão, mas também com a do vinho, inclusive depois da refeição ou doutro modo sem jejum. Eles sustentam obstinadamente que este é o modo de se comungar, opondo-se ao louvável costume da Igreja, justificado também racionalmente, que de modo condenável procuram reprovar como sacrílego: por isso, este Concílio … declara, decreta e define que, se bem que Cristo tenha instituído e administrado depois da refeição aos apóstolos este venerando sacramento sob ambas as espécies do pão do vinho, não obstante isso, a admirável autoridade dos sagrados cânones e o autorizado costume da Igreja têm declarado e declaram que este sacramento não deve ser administrado depois da refeição nem a fiéis que não estão em jejum, salvo no caso de doença ou de outra necessidade, concedido ou admitido pelo direito ou pela Igreja. E como este costume foi introduzido, com razão, para evitar perigos e escândalos, com análoga ou maior razão foi introduzido e observado este outro: se bem que na Igreja primitiva este sacramento era recebido pelos fiéis sob ambas as espécies, mais tarde, porém, era recebido pelos consagrantes sob ambas as espécies, mas pelos leigos somente sob a espécie do pão, pois é preciso crer com toda a firmeza e sem sombra de dúvida que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos, na sua integridade, tanto sob a espécie do pão, como sob a do vinho. Portanto, visto que foi introduzido com boa razão pela Igreja e pelos santos Padres e observada durante muitíssmo tempo, este costume deve ser considerado como uma lei que não pode ser reprovada nem modificada arbitrariamente, sem o consentimento da Igreja. É errôneo sustentar que a observância deste costume ou lei é sacrílega ou ilícita; e os que se obstinam em sustentar o contrário devem ser tratados como hereges ....[1]

No Concílio de Trento [1545-1563] houve a ratificação da prática estabelecida no Concílio de Constança, conforme decisão abaixo:

Doutrina da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Tendo presente o Sacrossanto, Ecumênico e Geral Concílio de Trento, reunido legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos mesmos Legados da Sé Apostólica, os vários e monstruosos erros que pelos malignos artifícios do demônio aparecem em diversos lugares acerca do Imenso e Santíssimo Sacramento da Eucaristia, pelos quais, parece que em algumas províncias, muitos se apartaram da fé e obediência à Igreja Católica, teve por bem expor agora a doutrina respectiva da Comunhão em ambas as espécies e a comunhão das crianças.

Com esta finalidade, proíbe a todos os fiéis cristãos o atrevimento, de ora em diante, de crer, ensinar ou pregar acerca da Comunhão, de qualquer outro modo que não seja o que é definido nos presentes decre-tos:

Cap. I - Os leigos e clérigos que não celebram, não estão obrigados, por direito divino, a comungar sob as duas espécies
Em continuidade, o mesmo Santo Concílio, ensinado pelo Espírito Santo, que é o Espírito de Sabedoria, Inteligência, Conselho e Piedade, e seguindo o ditame do costume da Igreja, declara e ensina que os leigos e os clérigos que não celebram a missa, não estão obrigados, por preceito divino algum, a receber o Sacramento da Eucaristia sob as duas espécies, e que não cabe, absolutamente, dúvida nenhuma, sem faltar à fé, que lhes basta, para conseguir a salvação, a comunhão de apenas uma das espécies. Pois, ain-da que Cristo, nosso Senhor, tenha instituído na última ceia este venerável Sacramento nas espécies do pão e do vinho, e o tenha dado a Seus Apóstolos, sem dúvida, não tem por finalidade aquela instituição e comunhão estabelecer a obrigação de que todos os fiéis cristãos devam receber devido a esse estabele-cimento de Jesus Cristo, uma e outra espécie. Nem tampouco se faça a coligação a bem do sermão que se acha no capítulo sexto de São João, que o Senhor mandasse, sob o preceito da comunhão das espé-cies, de qualquer modo que se entenda, segundo várias interpretações dos Santos Padres e Doutores, pois o mesmo que disse "Se não comeres a carne do filho do homem, nem beberes seu sangue, não terás a própria vida", disse também: "Se alguém comer deste pão, viverá eternamente". E aquele que disse: "Quem come Minha carne e bebe Meu sangue, consegue a vida eterna", disse também: "O pão que Eu darei, é Minha carne, que darei para vivificar o mundo". E finalmente, quem disse "Quem come de mi-nha carne e bebe do meu sangue, fica em Mim e Eu nele", também disse: "Quem come este pão viverá eternamente".

Cap. II - Do poder da Igreja para dispensar o Sacramento da Eucaristia
Declara também que na administração de seus Sacramentos, sempre teve a Igreja, poder para estabelecer ou mudar, salvada sempre a essência deles, quando tiver julgado ser o mais conveniente, de acordo com as circunstâncias das coisas, tempos e lugares, à utilidade dos que recebem os Sacramentos, ou à sua veneração. É exatamente isso que parece que insinuou o Apóstolo São Paulo, quando disse: "Devemos ser reputados como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus". E consta que muitas vezes o mesmo Apóstolo fez uso desse poder, tanto a respeito de outros pontos como dos Sacramentos, pois disse, quando fez regras a respeito de seu uso: "quando cheguar a hora, darei ordens ao restante". Portanto, reconhecendo a Santa Mãe Igreja esta autoridade que tem na administração dos Sacramentos, mesmo tendo sido freqüente o uso de comungar sob as duas espécies, desde o princípio da religião cris-tã, porém verificando, em muitos lugares, com o passar do tempo, a mudança nesse costume, aprovou, movida por muitas graves e justas causas, a comunhão sob uma só espécie, decretando que isso fosse observado como lei, a qual não é permitido mudar ou reprovar arbitrariamente sem a autorização expres-sa da Igreja.

Cap. III - Que Cristo é recebido por inteiro e também verdadeiro Sacramento em qualquer uma das espécies
Declara o santo Concilio depois disto, que ainda que nosso Redentor, como já disse antes, instituiu na última ceia este Sacramento nas duas espécies, e o deu a seus Apóstolos, se deve confessar porém, que também se recebe em cada uma única espécie a Cristo todo e inteiro e verdadeiro Sacramento. E que por conseguinte, as pessoas que recebem uma única espécie, não ficam prejudicadas a respeito do fruto de nenhuma graça necessária para conseguir a salvação.

[...]

Cânones da Comunhão sob Ambas Espécies e da Comunhão das Crianças
Cân. I - Se alguém disser que todos e cada um dos fiéis cristãos estão obrigados por preceito divino ou por necessidade de conseguir a salvação, a receber as duas espécies do Santíssimo Sacramento da Euca-ristia, seja excomungado.
Cân. II - Se alguém disser que não teve a Santa Igreja Católica, causa nem razões justas para dar a co-munhão apenas sob uma das espécie aos fiéis leigos, assim como aos clérigos que não celebram, ou que erra nisto, seja excomungado.
Cân. III - Se alguém negar que Cristo, Fonte e Autor de todas as graças, é recebido todo e inteiro sob a única espécie do pão, dando por razão, como falsamente o afirmam alguns, que não se recebe segundo o estabeleceu o mesmo Jesus Cristo, nas duas espécies, seja excomungado.
Cân. IV - Se alguém disser que é necessária a comunhão da Eucaristia às crianças antes que cheguem ao uso da razão, seja excomungado.
O mesmo Santo Concílio reserva para outro tempo, e será quando se lhe apresente a primeira ocasião, o exame e definição dos artigos já propostos, mas que ainda não foram discutidos, a saber:
Se as razões que induziram a Santa Igreja Católica a dar a Comunhão em uma única espécie aos leigos, assim como aos clérigos que não celebram, devem de tal modo subsistir e que por motivo nenhum seja permitido a ninguém o uso do cálice.
E também: Se em caso que pareça dever-se conceder a alguma nação ou reino, do cálice por razões prudentes e conformes com a caridade cristã, deverá ser concedida sob algumas condições, e quais são elas.[2]

O afastamento da Igreja Reformada ocorre por esta e outras tantas doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana. A Reforma restaurou a distribuição de ambas as espécies para todos os participantes da Ceia do Senhor.

NOTAS:
[1] Heinrich Denzinger & Petrus Hünermann, Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral (São Paulo, Editora Paulina e Edições Loyola, 2007), pp. 347-348.
[2] Philip Schaff, "The Canons and Dogmatic Decrees of the Concil of Trent" in: The Creeds of Chistendom - with a history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 6a ed., 2007), vol. 2, pp. 170-176.

25 agosto 2016

A legitimidade da ordenação dos reformadores - Johannes Wollebius

I. A principal causa eficiente deste chamado é Deus, quem chama o ministro internamente, e provendo-o com seus dons. O corpo que pode compor os ministros é toda a igreja, ou no mínimo a igreja representativa, pastores e presbíteros, ou o conjunto de pessoas da igreja [plebs], e não apenas bispo ou pastor. Os apóstolos não restringiram o privilégio de escolha somente a eles (At 1:23, 6; 14:23).
II. Três atos são necessários para um legítimo chamado [para o ministério]: exame, eleição e confirmação.
III. O exame envolve tanto a vida como a doutrina. A vida precisa examinada antes da doutrina; se o comportamento é imoral, ele não pode ser admitido para um exame na doutrina.
IV. O procedimento para eleição é este: pessoas são nomeadas após sincera oração à Deus, do número daqueles que são escolhidos, e dentre eles é selecionado pelo voto da maioria, se votando por viva voz ou pelo levantar das mãos.
V. A confirmação é a indução da pessoa eleita, em que ele é designado para a igreja com oração pública, e seus chamado será confirmado pela imposição das mãos. Bispos não têm um poder superior e autoridade pelo direito divino.
VI. Os papistas ensinam falsamente que este chamado não é legítimo, se o último é feito pelos presbíteros e não pelo bispo.
VII. A igreja reformada aceitou o chamado dos que reformaram a igreja no tempo de nossos pais, não porque ele veio do papado, que foi um câncer na igreja, mas porque eles eram divinamente chamados por Deus e habitados com dons necessários. É objetado que eles eram chamados sob a autoridade papal, então, que deveriam ser rejeitados, pois o seu chamado expirou. Replicamos que é falso acusa-los de rejeição; eles não rejeitaram o evangelho, pelo qual foram chamados para pregar mesmo estando sob o papa, mas eles rejeitaram a corrupção do evangelho. Nem há alguma razão para afirmar que eles foram chamados para pregar a doutrina da igreja romana; se Roma coloca a sua doutrina sob o nome de evangelho, um ministro que encontrando contrária à real verdade do evangelho, poderia falar contra ela pelo privilégio de seu chamado.
VIII. Nem podem apresentar algum fundamento sobre qual eles são capazes de desafiar o chamado dos nossos ministros de acordo com as regras acima. Antes de tudo respondemos àqueles que nos questionam por qual autoridade ensinamos no modo que Cristo respondeu a quem lhe perguntou: “o batismo de João, de onde vem, do céu ou da terra?” (Mt 21:25). Similarmente dizemos “a doutrina de nossos antepassados, que ouvimos entre nós até os dias de hoje, de onde procede? Se ela está em desacordo, deixamos que mostrem em que artigos; se ela está concordando, então eles não podem atacar o chamado de nossos ministros. Onde quer que a verdadeira doutrina seja encontrada, há ali verdadeiro chamado. E o chamado que corresponde ao exemplo dos apóstolos e a igreja primitiva é legítimo. É óbvio que o nosso chamado é desta natureza.
3. O direito de tomar decisões em matéria de doutrina é que, através dele, o entendimento da igreja em questões de doutrina e resolve controvérsias que perturbam a igreja.

Extraído de Texto de Johannes Wollebius, "Compendium Theologiciae Christianae" in: John W. Beardslee III, Reformed Dogmatics: seventeenth-century Reformed Theology through the Writings of Wollebius, Voetius, and Turretin (Grand Rapids, Baker Books, 1977), pp. 144-145.
Tradução em 25 de Agosto de 2016.

23 agosto 2016

We are a confessional church

What does being confessional? Reformers affirmed their orthodoxy by adopting creeds, catechisms and confessions to summarize and declare an organized what they believed. This is an ancient practice in the Christian Church, originating in the prayers of the believers of the old covenant and in baptismal rites of the first century [1]. Paul instructs Timothy to "keep the pattern of sound teaching which you heard from me, with faith and love in Christ Jesus. Guard the good deposit that was entrusted to you - guard it with the help of the Holy Spirit who lives in us " (2 Timothy 1:13,14). Therefore, Christians are called to keep the "good deposit", that is, faithfully preserving the doctrinal system, without changing its essence. The purpose of the confessional practice was to identify the unit for the truth, report the error and delete the heretics.

What is the need to be confessional? David W. Hall notes that the practice of confessional subscription by reformers had the following doctrinal reasons: unity, clarity, defense of false charges, defense and preservation of identity, as well as a variety of public statements [2]. This concern is in line with the clear teaching of Scripture. Jude states that "although I was very eager to write to you about the salvation we share, I felt I had to write and urge you to contend for the faith that was once for all entrusted to the saints" (Jude 3). He did not refer only to the subjective aspect of faith, that is, the trust and consent, but, especially, the doctrinal content of faith. So, your argument is that your readers should defend the doctrine that received against individuals who had entered the Church, and disseminated licentiousness, and deny sound doctrine (Jude 4).

We are a reformed denomination of Puritan heritage. So, we subscribe to the Westminster Standards as a faithful exposition of Scripture teaching. The endorsement of these doctrinal documents must be integral, that is, in all its doctrinal statements. This means that we accept all the statements and strive to live by them. But, unfortunately, some people, being Presbyterian, are not consistent. There are a few reasons for this: 1) those which do not because they were instructed; 2) those who know superficially and, ignoring the precise statements and their implications, end up not fulfilling his word; and 3) those who declare verbally accept, but, intentionally, reject the heart. The last divorced conviction of the confession, and this result in confessional dishonesty. We understand that the mental reservation is always sin! It is my intention with this text, as a member of this church, you are informed, indoctrinated and, honestly, commit to our Reformed confessional identity.

Our tradition uses confessions and catechisms to present our doctrinal system [3]. This is a context in which we are called to confess our faith to those outside the church. These documents systematically summarize the teaching of Holy Scripture about various topics. They are also useful for the exercise of true piety, as well as a brief presentation of what we believe in our Reformed faith.
The IPB requires its officers and members of the full subscription of the Westminster Standards, which are:
1. The Westminster Confession of Faith
2. The Westminster Larger Catechism
3. The Westminster Shorter Catechism

However, we accept and use to study the reformed faith [4]:
1. The Belgian Confession (1561)
2. The Heidelberg Catechism (1563)
3. The Second Helvetic Confession (1566)
4. The Canons of Dort (1618-1619)

And also we received the ancient creeds as part of our statement of faith:
1. The Apostles' Creed
2. The Nicene Creed
3. The Creed of Chalcedon

How we use catechisms and confessions? Here are a few suggestions:
1. Our denomination uses them to assert their Reformed confessional identity. When someone asks us what we believe, they represent our doctrinal heritage. They are useful for continuous reading and consultation of doctrinal body of our convictions.
2. The presbytery uses them in theological debates and evaluation of official and ecclesiastical courts. When there are disputes involving liturgical matters, doctrinal matters and practice of Christian life matters, part of the rationale for correct and establish our conciliar decisions will depend on these documents.
3. Our theological institutions should use them to measure the confessional loyalty of its teachers. Hiring and continuity of a teacher, which, inevitably, will be a trendsetter, should occur by examining the JURET and JET. The academic environment favors the study and analysis of different theological aspects, however the theological formation of our future pastors should be performed with confessional commitment by our seminars. Most students are candidates for the sacred ministry and should be evaluated by their belief commitments.
4. In official and leadership training courses, our documents need to be studied prescriptively. They will exercise the government in the local church and in the different conciliar spheres of our denomination. Before his ordination or appointment, they shall be examined by the Council and will profess knowledge, understanding and commitment to our standards of faith.
5. The Council has them like standard on doctrinal issues and receiving members. The unity of the church is given on collective commitment to the truth. The elders oversee the honest obedience of votes that members place in their examination and public faith profession.
6. Preachers quote them in their sermons, to illustrate or as part of the argument. The sermon is always doctrinaire in its essence; therefore, the public service is excellent place for proclamation, education, correction and comfort of its participants. 7. Study them in doctrinal study meetings, during the week. The pastor will may perform expository study sequenced, using the Westminster Standards. There are reviews of Faith Confession and Catechisms that enrich the understanding and its applicability to practical issues of Christian life.
8. Disciples’ makers must use them, constantly, for the preparation of studies. Be in discipleship for beginners or advanced, the learner needs become familiar with Christian faith, in its documentary expression, and be sure that it is not merely the opinion of one member, but the doctrinal legacy that wife, faithfully, the systematization of the Bible.
9. Sunday School’s teachers can use them to escape any doubt or controversy in class. If there was disagreement in some subject, teachers should close the matter, where possible, through our confessionality.
10. Small groups that meet in homes can use them as a study guide. The study of the Westminster Shorter Catechism is a useful resource for the study groups that meet in homes. These more informal character meetings always receive visitors, whether converted or not, and the comments of the participants can’t create, in the development of the study, an opening for accepting the plurality of opinions as equally valid. The small group is not a small church within the church, where free thought is adopted regardless of the official doctrinal body.
11. Families can add their reading in family worship . The reading of Scripture , prayer and songs added to the study of the Westminster Standards will enrich the spiritual exercise that nurtures growth. Family worship provides fellowship, education and worship in the home. If you use our doctrinal directories, certainly will forge families with healthy beliefs . Thus, build strong families will result in a vigorous church.
12. The reading of statements and biblical texts contained therein is useful for daily devotional. The use of booklets for devotional purposes, while useful, may be accompanied by reading one or two questions of catechisms or paragraphs of the Confession of Faith. They are thoughts with dense biblical content that feed and prepare us to live daily in the presence of God.

Can you be a member of the Presbyterian Church of Brazil and not confessional? Councils, to examine the candidate to the profession of faith or members transfer process should be selective about our confessional identity. If the applicant refuses to subscribe to our system of doctrine, he should not be received as a member of the local church. So, before the exam, it is recommended that prospective members should be made disciples, join the catechumens’ class and read the Westminster Standards. The rush to welcome them as a local church member is harmful, because it is necessary to help them understand what we believe, to be true, when they sincerely do their public profession of faith, before the church, in solemn worship, and, above all, before true God, that demands our ‘yes’ meaning ‘yes’. Zeal should remain, in the examination of candidates for membership.

I recommend reading about the practice of confessional subscription, as adopted by the Presbyterian Church of Brazil:
1. Carl R. Trueman, O imperativo confessional (Brasília, Editora Monergismo).
2. David W. Hall, The practice of confessional subscription (Oak Ridge, The Covenant Foundation).
3. Morton H. Smith, The case for full subscription to Westminster Standards in the Presbyterian Church in America (Greenville, GPTS).
4. Ulysses Horta Simões, A subscrição confessional - necessidade, relevância e extensão (Belo Horizonte, Efrata Publicações e Distribuição).

GRADES:
[1] Philip Schaff recognizes, in Scripture, the following creeds in embryonic form: Exodus 20:2-3; Deuteronomy 6:4; John 1:50; Mathew 16:16; 28:19; John 6:68; 20:28; Acts 8:37; 1 Corinthians 8:6; 1 Timothy 3:16; Hebrews 6:1-2. Philip Schaff, The Creeds of Christendom - with the history and critical notes (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 2, pp. 3-8.
[2] David W. Hall, Southern Presbyterians: the virtue of confessional relaxation?". In: Joseph A. Pipa Jr., org., Confessing our hope - Essays celebrating the life and ministry of Morton H. Smith (Taylors, Southern Presbyterian Press, 2004), p. 97.
[3] The importance of tradition is to preserve and pass on the truth. It should be a tool to communicate the teaching of the Word of God, and never part of it.
[4] Those who read in English can study, more fully, the Calvinist heritage confessions. If there is interest to know, James T. Dennison Jr. published a very extensive collection of reformed confessional documents since the sixteenth century until the seventeenth. See on James T. Dennison, Jr., ed., Reformed Confessions of the 16th and 17th centuries in English translation (Grand Rapids, Reformation Heritage Books), in 4 volumes. This manual is the most complete compilation of reformed documents available in English.


The original article [ ACESS IN THIS LINK ].
This arcicle was translated by Katherine Priscila Lessin. Thankyou my sister!

30 julho 2016

O que é teologia do pacto? por J. Ligon Duncan

A teologia do pacto é o Evangelho posto no contexto do plano eterno de Deus da comunhão com o seu povo, e o seu desenvolvimento histórico nos pactos das obras e graça (ou mesmo que nas várias etapas progressivas do pacto de graça). A teologia do pacto explica o significado da morte de Deus à luz da plenitude do ensino bíblico sobre os pactos divinos, respalda de maneira fundamental o nosso entendimento da natureza e uso dos sacramentos, e provê a explicação mais completa possível dos fundamentos da nossa segurança.

Em outras palavras, a teologia do pacto é a maneira que a Bíblia tem de explicar e aprofundar o nosso entendimento da: (1) a expiação [o significado da morte de Cristo]; (2) a segurança [a base da nossa confiança da comunhão com Deus e o desfrute de suas promessas]; (3) os sacramentos [sinais e selos das promessas pactuais de Deus – o que são e como funcionam]; (4) a continuidade da história redentora [o plano unificado da salvação de Deus]. A teologia do pacto também é uma hermenêutica, uma aproximação ao entendimento da Escritura – uma ênfase que intenta explicar biblicamente a unidade da revelação bíblica.

Quando Jesus quis explicar aos seus discípulos o significado de sua morte, recorreu à doutrina dos pactos (veja Mt 26, Mc 14, Lc 22, 1 Co 11). Quando Deus quis assegurar à Abraão a certeza de sua palavra da promessa, recorreu ao pacto (Gn 12, 15, e 17). Quando Deus quis apartar ao seu povo, impactar a sua obra em suas mentes, revelando-se tangivelmente em amor e misericórdia, e confirmar a sua herança futura, recorreu aos sinais pactuais (Gn 17, Êx 12, 17, e 31, Mt 28, At 2, Lc 22). Quando Lucas quis mostrar aos primeiros cristãos que a vida e ministério de Jesus foram o cumprimento dos antigos propósitos de Deus para o seu povo escolhido, apelou aos pactos e citou a profecia de Zacarias que mostra que os crentes nos mesmos primeiros dias do ‘movimento de Jesus’ entenderam a Jesus e a sua obra messiânica como um cumprimento (não como um ‘Plano B’) do pacto de Deus com Abraão (Lc 1:72-73). Quando o salmista e o autor de Hebreus quiseram mostrar como o plano redentor de Deus é um plano ordenado e sobre qual base se desenvolveu na história, recorreram aos pactos (veja Sl 78, 89, e Hb 6-10).

A teologia do pacto não é uma resposta ao dispensacionalismo. Ela existe muito antes que os rudimentos do dispensacionalismo clássico fossem organizados no século XIX. A teologia do Pacto não é uma desculpa para o batismo de crianças, muito menos um mero convencionalismo para justificar ênfase particular dos sacramentos (ou a paedocomunia moderna e a regeneração batismal). A teologia do pacto não é sectária, pelo contrário, ela é um enfoque ecumênico reformado em relação ao entendimento da Bíblia, desenvolvido no surgimento da Reforma magisterial, mas com raízes que se estendem até aos primeiros dias do cristianismo católico e historicamente apreciado em todas as várias ramificações da comunidade reformada (batistas, congregacionais, independentes, presbiterianos, anglicanos e reformados). A teologia do pacto não se pode reduzir a servir meramente como a justificação para alguma visão particular dos filhos no pacto (a sucessão pactual), ou para um certo tipo de escatologia, ou para uma filosofia específica de educação (seja o homeschool, as escolas cristãs, ou as escolas clássicas). A teologia do pacto é maior do que essas coisas. Ela é mais importante do que elas.

“A doutrina do pacto se encontra na raiz de toda verdadeira teologia. Se diz que quem entende bem a distinção entre o pacto das obras e o pacto de graça, tem um mestrado em teologia. Estou convencido de que a maioria dos erros que os homens cometem com respeito às doutrinas da Escritura se baseiam em erros fundamentais com respeito ao pacto da lei e da graça. Que Deus nos conceda agora o poder para instruir, e a vocês a graça para receber uma instrução sobre este vital assunto”. Quem disse isto? Charles H. Spurgeon - o grande pregador batista inglês! Ele é, na verdade, um homem que se fora de nossa suspeita de ministrar secretamente uma visão presbiteriana dos sacramentos às desprevenidas massas evangélicas.

A teologia do pacto frui da vida e obra trinitária de Deus. A comunhão pactual de Deus conosco está moldada, e é um reflexo, das relações intratrinitárias. A vida compartilhada, a comunhão entre as pessoas da Santíssima Trindade, o que os teólogos chamam de perichoresis, ou circumincessio, é o arquétipo da relação que o misericordioso Deus do pacto compartilha com o seu povo eleito e remido. Os compromissos de Deus no pacto eterno da redenção encontram a sua realização no espaço-tempo no pacto de graça.


Traduzido por Rev. Ewerton B. Tokashiki
Porto Velho, 29 de Julho de 2016.