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17 setembro 2025

O que é livre arbítrio na perspectiva reformada?

 O livre arbítrio é a capacidade de escolher contrário à sua natureza. Johann Heinrich Heidegger explica que

a companheira da justiça do primeiro homem é a liberdade ou livre-arbítrio, sendo a primeira uma faculdade da alma, pela qual ele livremente, voluntariamente e sem qualquer força externa, escolheu aquilo que percebeu, deliberou e decidiu o que escolheu. Isso não era indiferença em fazer o bem ou o mal, porque lhe era natural fazer o bem, enquanto fazer o mal era contrário à sua natureza. E a liberdade não era imutável. Pois, dessa forma, não haveria lugar para a tentação. Pois a imutabilidade da vontade não pertence à natureza, mas à graça e à glória. A liberdade também não era independente, porque em Deus Adão foi movido (At 17.28). Ele carecia da graça não para curar a corrupção, mas para preservar a integridade, a fim de vencer as tentações do diabo. Em vez disso, a liberdade, juntamente com a deliberação de fazer o bem, era mutável.[1] 

Os reformados concordam com a interpretação de Agostinho sobre os quatro estados da liberdade. Sabemos que

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], conforme Muller explica que ele é ‘a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular’. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: ‘antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar’. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: ‘uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar’. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: ‘a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem’. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: ‘uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado’. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e, 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).[2] 

Em suma, a tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio dividindo em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para escolher entre o bem e o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. As confissões reformadas consentem quanto a este assunto.[3] 


NOTAS:

[1] Johann Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Theology (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2019), p. 46.

[2] Veja o verbete “libero arbitrium” in: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally From Protestant Scholastic Theology (Grand Rapids, Baker Academic, 1996).

[3] Veja, Joel R. Beeke & Sinclair B. Ferguson, Harmonia das Confissões Reformadas (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2006), pp. 56-57 e, também, Veja, Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã (Eusébio, Editora Peregrino, 2020), p. 79.

28 maio 2025

Por que a "Teologia Gay Celibatária" é um compromisso perigoso que a Igreja deve rejeitar

por Rosaria Butterfield

A teologia gay celibatária – que afirma defender uma visão bíblica tradicional da sexualidade – tornou-se o compromisso padrão em igrejas e ministérios paraeclesiásticos. Ela abraça a orientação e a identidade homossexuais, mas proíbe o sexo gay. Categoriza o desejo homossexual como uma tentação moralmente neutra. Desfigura o evangelho, substituindo arrependimento e fé por vitimismo e “quebrantamento”. Em vez de se arrepender do pecado, o cristão gay celibatário é chamado a administrar seus desejos pecaminosos de maneiras supostamente meritórias. E embora possa soar como uma maneira de defender os padrões bíblicos de ética sexual de uma forma que soe menos “maldosa” para o mundo em geral, ela fica perigosamente aquém tanto do que Deus requer daqueles que O seguem quanto da liberdade que Ele oferece aos pecadores em Cristo Jesus. Além disso, essa heresia grosseira tem inundado igrejas com cristãos desanimados que não sabem como lutar contra seu pecado sexual porque recusam-se a categorizá-lo como pecado.

 Construído com base na psicologia freudiana e na teoria crítica da identidade, o cristianismo gay celibatário, em vez disso, abraça o pecado e exige que outros também o façam. Wesley Hill, que se autodenomina um “cristão gay celibatário”, resume esse movimento da seguinte forma: “A experiência do desejo pelo mesmo sexo pode ser o caminho divinamente designado pelo qual cristãos gays celibatários descobrem o poder de Cristo aperfeiçoado em suas vidas” (Washed and Waiting: Reflections on Christian Faithfulness and Homosexuality [Lavado e Esperando: Reflexões sobre Fidelidade Cristã e Homossexualidade] (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2010, 201). Você entendeu? A homossexualidade, não mais um pecado da carne a ser mortificado, agora é uma graça divinamente designada.

 Em qual religião isso poderia ser verdade? Não na fé cristã.

 A teologia gay celibatária surgiu na década de 2000, com o desejo de mobilizar a igreja para apoiar e cuidar de pessoas com desejos homossexuais indesejados. Compartilho desse desejo. Como alguém que viveu como lésbica por uma década, beneficiei-me do cuidado amoroso de um pastor e de uma igreja para guiar-me no arrependimento e na fé em Cristo. Mas a diferença entre o que vivenciei na Igreja Presbiteriana Reformada de Syracuse em 1999 e o movimento cristão gay celibatário é profunda – e revela evangelhos conflitantes e religiões diferentes.

 Quando eu vivia como lésbica, um pastor fiel, Ken Smith, e a igreja que ele liderava conheceram-me como descrente e apresentaram-me o evangelho em jantares e reuniões informais. O pastor Ken conduziu-me a Jesus por meio do arrependimento e da fé, e guiou-me na busca pelos meios da graça de Deus para abandonar o pecado. Ele encorajou-me a fazer uma declaração de fé pessoal e, em seguida, uma pública profissão de fé, fazendo votos de aliança em uma igreja fiel. Quando minha vida ficou difícil, meu pastor e os presbíteros estavam lá para me ajudar. Logo após minha conversão, os presbíteros conduziram estudos bíblicos para amigos curiosos e alunos irritados na minha sala de estar. Quando uma aluna minha de pós-graduação sobreviveu a uma tentativa de suicídio, ela se recuperou na casa do meu pastor.

 A Igreja Presbiteriana Reformada de Syracuse foi um refúgio para mim e o lugar onde mais lutei contra o meu pecado de escolha. O chamado ao arrependimento e à fé foi um salva-vidas, mas, ao mesmo tempo, representou a morte da vida que eu amava. Aprendi que a liberdade de um cristão renascido incluía abandonar minha homossexualidade (e outros pecados) e lutar por uma santificação cada vez maior. Liberdade em Cristo significava liberdade para obedecer a Deus. Liberdade em Cristo também significava aprender a carregar a imagem de Deus como mulher. Tive que abandonar uma série de pecados para conseguir isso, começando pelo feminismo e pela androginia.

 Mas, não é isso que o cristão gay celibatário tem em mente quando pensa em fé. No cristianismo gay celibatário, é a igreja que é chamada a ter mudanças. Como exemplo, examine a lista de verificação da organização Celibat Gay Christian Living Out, sediada no Reino Unido, intitulada "Quão Biblicamente inclusiva é a sua igreja? 10 Declarações para ajudá-lo a auditar a sua igreja". O objetivo desta lista de verificação é mensurar quantas vezes a sua igreja consegue responder VERDADEIRO às seguintes perguntas:

1. As reuniões familiares da sua igreja incluem pessoas que podem ser rotuladas como LGBTQ+/que sentem atração por pessoas do mesmo sexo.

2. Linguagem depreciativa ou atitudes estereotipadas em relação a qualquer pessoa não seriam toleradas, nem na frente nem em conversas entre os membros da família da igreja.

3. Todos na sua igreja sabem que todos nós vivenciamos a fragilidade sexual e todos estão sendo encorajados a confessar seus próprios pecados sexuais.

4. Relacionamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo nunca são mencionados isoladamente de outros padrões pecaminosos de comportamento ou do perdão oferecido a todos pela fé em Cristo crucificado.

5. Todos na sua igreja estão ouvindo o mesmo chamado ao auto-sacrifício radical em resposta à entrega de Deus em Jesus.

6. Todos em sua igreja são encorajados a desenvolver uma identidade fundada, antes de tudo, em sua união com Jesus Cristo.

7. A orientação sexual de um cristão piedoso jamais o impedirá de exercer seus dons espirituais ou de servir na liderança de sua igreja.

8. Os dons divinos, seja o celibato ou o casamento, são igualmente promovidos, valorizados e apoiados na prática na vida da família de sua igreja.

9. Os membros da família da igreja compartilham instintivamente refeições, lares, feriados, festivais, dinheiro e vida familiar com outras pessoas de diferentes origens e situações de vida.

10. Ninguém seria pressionado a esperar ou buscar qualquer "cura" ou mudança que Deus não tenha prometido a nenhum de nós até a renovação de todas as coisas.

 Observe a questão 10, que se ofende com um evangelho que inclui cura e transformação. O cristianismo gay celibatário não tem lugar para Jo 8.31-32: “Se permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

 Embora a lista de verificação do Living Out contenha muitos problemas teológicos – parece votos que uma amante escreve para a noiva – o erro mais profundo de todos é que ela opõe a graça de Deus à lei da natureza. Em Gn 1.27-28, parte da ordenança da criação, captura a lei da natureza: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou. E Deus lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a.” A natureza mostra que esse padrão (masculino ou feminino) tem um propósito (procriação).

 É por isso que somente a heterossexualidade é vivificante. A homossexualidade é sempre estéril. Por quê? Porque é uma rebelião contra a ordem criada. A igreja convoca o pecador a se arrepender e crer, mas o cristianismo gay celibatário convoca a igreja a deixar homens e mulheres escravizados ao pecado.

 O cristianismo gay celibatário é uma doutrina falsa, e não importa quão apaixonados sejam seus seguidores, seus ministérios paraeclesiásticos sejam abastados, suas celebridades sejam cativantes, o cristianismo gay celibatário continua sendo uma religião diferente da fé cristã genuína. Ele ensina:

1. Uma compreensão antibíblica da personalidade. A identidade homossexual é freudiana, não bíblica. Ela se rebela contra a ordenança da criação e a natureza (Gn 1.27-28).

2. Uma compreensão antibíblica da autoridade das Escrituras. Em Hb 4.12 nos diz: “A palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” A Palavra de Deus me conhece melhor do que eu mesmo. Meus sentimentos não determinam a verdade. A Palavra de Deus, sim.

3. Uma compreensão antibíblica do pecado: original, real e interior. O Sl 51 revela que todo pecado é um ataque contra Deus. Em Êx 20.17 mostra que mesmo aqueles desejos pecaminosos que não são postos em prática são, de fato, pecado. Por fim, Rm 7.15-24 mostra que até mesmo o pecado não escolhido é nosso para mortificar. A nossa tarefa não é orar para que a homossexualidade desapareça. É assumi-la como nossa e então mortificá-la. Devemos aprender a odiar o nosso pecado sem odiar a nós mesmos.

4. Uma compreensão antibíblica da cruz. O sangue de Cristo não se alia ao pecado, ele o esmaga na cruz.

5. Uma compreensão antibíblica da santificação. A Bíblia situa nossa santificação (crescimento em santidade por meio do arrependimento do pecado e da obediência fiel) em nossa justificação (o ato judicial de eleição de Deus que concede o perdão dos pecados por meio do sangue de Cristo e seu resgate). O movimento cristão celibatário gay nega a exigência evangélica do arrependimento. Em vez de arrepender-se do pecado dos desejos não naturais e profanos, o cristão celibatário gay compromete-se com o celibato por toda a vida. Quando Deus exige arrependimento, nossas obras de justiça escolhidas acrescentam pecado a pecado.

6. Uma compreensão antibíblica da santidade de Deus. A santidade de Deus não tolera o pecado.

 Aqueles que abraçam o cristianismo celibatário gay ou o promovem – Preston Sprinkle, Greg Coles, Andy Stanley, só para citar alguns – estão fanaticamente enganados ao se considerarem mais misericordiosos do que Deus. A orientação homossexual não oferece proteção para o pecado, nem desculpa e isenção para o arrependimento. Os defensores do cristianismo gay celibatário estão destruindo a paz e a pureza da igreja e desfigurando o evangelho ao negar a mais básica das verdades: A homossexualidade é encontrada na carne, proibida na lei de Deus e vencida no Salvador. O movimento cristão gay celibatário é comandado por bodes e lobos.

 

Três dias de palestrantes dinâmicos e relevantes e discussões significativas sobre os tópicos mais importantes. Junte-se a nós e seja desafiado, encorajado e fortalecido para defendermos a verdade juntos enquanto trazemos luz à escuridão. Organizado pela Clear Truth Media na Redemption Church, de 13 a 14 de março de 2025.

Acesse o artigo original AQUI. 


27 maio 2025

O que há de errado com o Cristianismo gay? Afinal, o que é Side A e Side B?

 Por Rosaria Butterfield

 

O Cristianismo gay nasceu do desespero. Pessoas como eu — pessoas que tiveram no passado ou que atualmente têm desejos sexuais profundos, duradouros e/ou duradouros por pessoas do mesmo sexo — não encontraram lugar em qualquer igreja evangélica. Em vez disso, essas igrejas costumam dizer que a homossexualidade é um comportamento a ser modificado por meio de ministérios paraeclesiásticos de ex-gays. A igreja condenava tais sentimentos como más escolhas e condenava as pessoas (como eu) que os vivenciavam como abominações, chamando falsamente os desejos homossexuais de uma escolha deliberada.

 Nunca conheci uma pessoa que tivesse escolhido a atração pelo mesmo sexo. No início dos anos 2000, pessoas com atração permanente e duradoura pelo mesmo sexo reuniam-se sob o termo "cristão gay". Eles são apoiados pela Gay Christian Network [Rede de Apoio Cristão Gay] ou Side A (que sanciona o casamento entre pessoas do mesmo sexo e acredita que a homossexualidade é apenas uma das muitas formas de sexualidade diversa que a igreja deveria acolher), e pela comunidade online da Spiritual Friendship [Amizade Espiritual] ou Side B (que crê que a homossexualidade não é uma questão moralmente culpável, embora seja uma consequência da ruína causada pela Queda; o Side B ensina contra a prática sexual homossexual, mas apenas em nome da tradição cristã). Embora o Side B busque defender os padrões sexuais bíblicos, pois considera a orientação sexual uma categoria precisa de personalidade (ou seja, existe algo como uma pessoa gay — que a homossexualidade descreve quem alguém essencialmente é), sua teologia não permite de forma alguma a compreensão de por que a homossexualidade, mesmo no nível do desejo, é pecaminosa e necessita da graça do arrependimento? Para o cristão do Side B, a homossexualidade é uma sexualidade — uma entre muitas.

 Ao longo dos anos, vimos muitos cristãos do Side B desertarem para o Side A, declarando que Deus sanciona uniões homossexuais. E prevejo que veremos muitos outros desertores, visto que a teologia por trás do Side B é biblicamente insustentável. Como podemos lutar contra um pecado que não odiamos? Odiar o nosso próprio pecado é um componente fundamental para combatê-lo. Ao mesmo tempo, precisamos nos separar do pecado que odiamos. Isso pode ser uma questão muito desafiadora para um cristão que vivencia a homossexualidade, uma questão que se torna extremamente mais desafiadora se a pessoa assume a identidade social de “cristão gay”.

 Devemos manter que nós, que nos arrependemos e cremos, nos vestimos de justiça como filhos e filhas amados de Deus, mesmo enquanto lutamos diariamente contra qualquer luxúria sexual e desejo antibíblico que reivindique nossas afeições. Não somos o nosso pecado e nunca devemos deixar que ele nos defina.

 Tanto o Side A quanto o Side B apoiam a ideia de que a orientação sexual é uma categoria precisa de personalidade e, portanto, ambos estão fora dos limites do ensino bíblico.


Para ler o artigo original acesse aqui.

O “Side B” é parte do Cristianismo bíblico?

 

Por Ken Ham


“E não sejam cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, tratem de reprová-las.” (Efésios 5.11)

A Bíblia nos ordena a “não sermos cúmplices das obras infrutíferas das trevas”, que, no contexto, incluem a imoralidade sexual — e, no entanto, muitos na igreja estão se esforçando ao máximo para encontrar maneiras criativas de acomodar a imoralidade sexual a fim de “reduzir a barreira de entrada” para descrentes ou as dificuldades do discipulado para crentes professos, especialmente aqueles que se identificam como LGBTQIA+. E um desses métodos “criativos” para contornar o ensino bíblico é o que é conhecido como “Cristianismo Side B”, que pode à primeira vista parecer compassivo e apenas mais uma maneira de encorajar os pecadores a “virem como são”, mas lembre-se de que Jesus convida todos a virem como são — mas, nunca os chama a permanecerem como estão.

Um artigo de opinião recente no The Christian Post usa uma definição de "Side B" do falecido pastor Dr. Tim Keller (que certamente não interpretou Gênesis 1 literalmente como Answer in Genesis faz) em uma refutação dessa ideologia:

Pessoas atraídas pelo mesmo sexo, embora permaneçam celibatárias em obediência à Bíblia, ainda podem se chamar de "cristãos gays" e ver sua atração como parte de sua identidade, que deve ser reconhecida como sua raça ou nacionalidade.

 A Dra. Rosaria Butterfield (ex-ativista lésbica, agora cristã, que palestrará em nossa Conferência Answers for Women de 2026) descreveu a situação da seguinte forma:

 A teologia gay celibatária [Side B] — que afirma defender uma visão bíblica tradicional da sexualidade — tornou-se o compromisso padrão em igrejas e ministérios paraeclesiásticos. Ela abraça a orientação e a identidade homossexuais, mas proíbe o sexo gay. Ela categoriza o desejo homossexual como uma tentação moralmente neutra.

 Então, em vez de abraçar totalmente os estilos de vida LGBTQIA+ (como o "Side A" faz), os defensores do "Side B" reconhecem que atos homossexuais são pecaminosos, mas afirmam que a identidade não é. Que absurdo! Como qualquer cristão pode se identificar por uma tentação que o Senhor odeia e que seus corações regenerados deveriam igualmente odiar? Como disse a Dra. Butterfield:

Como qualquer um de nós pode lutar contra um pecado que não odiamos? Odiar o próprio pecado é um componente fundamental para combatê-lo. Ao mesmo tempo, precisamos nos separar do pecado que odiamos. Isso pode ser uma questão muito desafiadora para um cristão que tem experiências de SSA [same-sex attraction - atração pelo mesmo sexo], uma questão que torna-se extremamente mais desafiadora se alguém assume a identidade social de “cristão gay”.

Devemos afirmar que nós, que nos arrependemos e cremos, vestimos as vestes da justiça como filhos e filhas amados de Deus, mesmo enquanto lutamos diariamente contra toda e qualquer luxúria sexual e desejo antibíblico que reivindique nossas afeições. Não somos o nosso pecado e jamais devemos deixar que ele nos defina.

 A isso eu digo: "Amém!"

 Agora, voltando à definição de Keller, considere a comparação que ele faz: "orientação" sexual é o mesmo que "raça" ou nacionalidade. Ora, não existe "raça" — somos todos uma raça biológica — então usarei o termo etnia aqui.

 Etnia é algo definido, dado a você por Deus, que “de um só homem fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo determinado os tempos determinados e os limites da sua habitação” (Atos 17.26). Nacionalidade é algo com que você nasce ou algo que você adota ao imigrar. Não há moralidade ligada à etnia ou nacionalidade.

 Mas o desejo homossexual é uma tentação que deve ser mortificada pelo poder do Espírito Santo enquanto os crentes lutam contra o seu pecado. Não é uma identidade como as identidades dadas por Deus, masculino ou feminino (Gn 1.27). É uma tentação pela qual devemos orar para sermos libertados (Mt 6.13), que não é dada por Deus, mas vem do nosso próprio desejo e leva à morte (Tg 1.13-15), e que Deus nos dá o poder de vencer (1Co 10.13).

 Como afirma o artigo de opinião, “o Side B oferece um Evangelho truncado” que nega o poder da cruz. A cruz não liberta apenas aqueles que estão em Cristo de atos pecaminosos — ela nos liberta de nossas identidades pecaminosas, de nossos desejos pecaminosos e de sucumbir às nossas tentações (tanto em pensamento quanto em ação), porque não somos mais escravos do pecado, mas escravos da justiça (Rm 6.18). Ela nos redime e nos chama para sermos santos como o Pai é santo (1Pe 1.15-16) e declara que nossa identidade anterior no pecado é a que éramos antes (1Co 6.11):

Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. Assim foram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito de nosso Deus. (1Co 6.9–11 NVI, ênfase adicionada)

 O “Side B” não é compassivo. É maligno porque dilui a cruz e convoca as pessoas ao celibato como resposta às suas lutas, em vez da liberdade para a qual Cristo nos chamou. Cristo oferece muito mais do que um sentimento apaziguador que diz: “Esse pecado é quem você é — simplesmente não o cometa!” Tal posição está a apenas um passo de abraçar totalmente a homossexualidade, para a qual prevejo que “Side B” em breve completará a decadência. Quando Cristo o liberta, você é verdadeiramente livre (Jo 8.36), uma nova criação em Cristo Jesus (2Co 5.17), criado para praticar boas obras (Ef 2.10) e andar em santidade (1Pe 1.15-16) em palavras, ações e pensamentos.

 Isso seria apenas mais uma versão de “é assim que Deus disse?” (Gn 3.1), vê-se que “Side B” é outro ataque insidioso à autoridade das Escrituras, e provavelmente está chegando a uma igreja perto de você. Eu o encorajo que você leia o artigo de opinião completo do The Christian Post, pois ele fez um bom trabalho destacando como essa teologia aparece até mesmo em igrejas conservadoras, por que ela não é bíblica e como precisamos opor-nos a ela.

 Também encorajo você (se for mulher) a comparecer à nossa Conferência Answers for Women de 2026, onde a Dra. Rosaria Butterfield abordará esse mesmo tema. Outros palestrantes, como eu, as Dras. Georgia Purdom e Avery Foley, da Answer in Genesis, Heidi St. John, Dra. Voddie Baucham, Megan Basham, Dr. Christopher Yuan e outros, abordarão uma série de outros temas relacionados à sexualidade. Encorajo você a se programar para comparecer com suas filhas e netas adolescentes, pois todos, especialmente os jovens, precisamos estar preparados para pensar biblicamente sobre esse tema!

 Encerrarei meu texto com o final do artigo oferecendo um conselho:


Para o crente confuso que está lutando, saiba disto: você não está sozinho em sua angústia. As suas tentações não o definem. Os seus desejos sexuais não são sua identidade. Você pode ser livre. Você pode ser transformado. Você não está além da redenção. Cristo morreu para torná-lo santo, não apenas celibatário. Você não precisa viver como um órfão espiritual, lutando por migalhas de cura e transformação. Você é um filho de Deus, e Ele não negará o bem àqueles que o buscam.

 O cristianismo gay de Side B é uma regressão e precisa ser totalmente rejeitado. Tem uma aparência de piedade, mas nega o poder de Deus para a salvação. É a sabedoria de homens vestidos com roupas religiosas. Os pastores não devem tratar com condescendência aqueles que clamam por liberdade com as promessas mudas e sem vida e os slogans terapêuticos do Side B.

 Pessoas que lutam contra a sexualidade, de todos os tipos, precisam do Evangelho — o verdadeiro e completo Evangelho — que santifica e liberta os cativos de todos os tipos de pecado.

 Sim, você pode ser verdadeiramente livre por meio de Cristo!

25 fevereiro 2025

Um catecismo acerca do coração

 Por Sinclair Ferguson

 

Às vezes, as pessoas perguntam aos autores: "Qual dos seus livros é o seu favorito?" Na primeira vez que a pergunta é feita, a resposta provavelmente será "Não tenho certeza; nunca pensei realmente sobre isso". Mas, forçado a pensar sobre isso, minha própria resposta padrão se tornou: "Não tenho certeza de qual é meu livro favorito; mas meu título favorito é Um coração para Deus". Raramente me perguntam: "Por quê?", mas (caso você pergunte) o título simplesmente expressa o que eu quero ser: um cristão com um coração para Deus.

 Talvez isso seja em parte um reflexo do fato de que nos sentamos nos ombros dos gigantes do passado. Pense no selo e no lema de João Calvino: um coração sobre a palma da mão e as palavras "Eu ofereço meu coração a Ti, Senhor, pronto e sinceramente". Ou considere o hino de Charles Wesley:

Ó, por um coração para louvar meu Deus!

Um coração liberto do pecado.

 Alguns hinários não incluem o hino de Wesley, presumivelmente em parte porque ele é lido como uma expressão de sua doutrina de amor perfeito e plena santificação. (Ele pensou que seria possível ter seu anseio realizado neste mundo). Mas, o sentimento em si é certamente bíblico.

 Mas por trás dos gigantes da história da igreja está o testemunho das Escrituras. O primeiro e maior mandamento é amar o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração (Dt 6.5). É por isso que, ao substituir Saul como rei, Deus "procurou um homem segundo o seu coração" (1Sm 13.14), pois "o Senhor olha para o coração" (1Sm 16.7). É um truísmo dizer que, em termos de nossa resposta ao evangelho, o cerne da questão é uma questão do coração. Mas, sendo trivial ou não, é verdadeiro.

 Como isso se parece, como é desenvolvido, de que maneiras pode ser ameaçado e como se expressa será explorado pouco a pouco nesta nova coluna. Mas, neste estágio, talvez nos ajude se mapearmos algumas questões preliminares na forma de um catecismo sobre o coração:

 Questão 1. O que é o coração?

A. O coração é o núcleo central e o impulso da minha vida intelectualmente (envolve minha mente), afetivamente (molda minha alma) e totalmente (fornece a energia para minha vida).

 Questão 2. Meu coração é saudável?

A. Não. Por natureza, tenho um coração doente. Desde o nascimento, meu coração é deformado e antagônico a Deus. As intenções de seus pensamentos são continuamente más.

 Questão 3. Meu coração doente pode ser curado?

R. Sim. Deus, em sua graça, pode me dar um novo coração para amá-Lo e desejar servi-Lo.

 Questão 4. Como Deus faz isso?

R. Deus faz isso por meio da obra do Senhor Jesus por mim e do ministério do Espírito Santo em mim. Ele ilumina a minha mente por meio da verdade do evangelho, liberta minha vontade escravizada de sua escravidão ao pecado, purifica minhas afeições por sua graça e motiva-me interiormente a viver para Ele gravando a sua lei em meu coração para que eu comece a amar o que Ele ama. A Bíblia chama isso de "nascer do novo".

 Questão 5. Isso significa que nunca mais pecarei?

R. Não. Continuarei a lutar contra o pecado até ser glorificado. Deus me deu um novo coração, mas no momento Ele quer que eu continue vivendo em um mundo caído. Então, dia após dia, enfrento as pressões do pecado que vêm do mundo, da carne e do Diabo. Mas a Palavra de Deus promete que sobre todos esses inimigos eu posso ser “mais que vencedor, por meio daquele que nos amou”.

 Questão 6. Quais são as quatro coisas que Deus me aconselha a fazer para que meu coração seja guardado para Ele?

  1. Devo guardar meu coração como se tudo dependesse dele. Isso significa que devo guardar meu coração como um santuário para a presença do Senhor Jesus e não permitir que nada nem ninguém entre.
  2. Devo manter meu coração saudável por meio de uma dieta adequada, fortalecendo-me com uma dieta regular da Palavra de Deus — lendo-a por mim mesmo, meditando sobre sua verdade, mas especialmente sendo alimentado por ela na pregação da Palavra. Também me lembrarei de que meu coração tem olhos e ouvidos. O Espírito me mostra o batismo como um sinal de que carrego o nome trino de Deus, enquanto a Ceia do Senhor estimula o amor do coração pelo Senhor Jesus.
  3. Devo fazer exercícios espirituais regulares, pois meu coração será fortalecido pela adoração quando todo o meu ser for entregue a Deus em expressões de amor e confiança nele.
  4. Devo entregar-me à oração na qual meu coração se apega às promessas de Deus, descansa em sua vontade e pede por sua graça sustentadora — e fazer isso não apenas por mim mesmo, mas com outros, para que possamos encorajar uns aos outros a manter um coração para Deus.

 Isso — e, muito mais — requer desenvolvimento, elaboração e exposição. Mas pode ser resumido em uma única frase bíblica. Ouça o apelo do seu Pai: “Meu filho, dá-me o teu coração.”

 

Extraído DAQUI

 

30 janeiro 2020

Declarações da Posição das Igrejas Reformadas e o Abuso Sexual

por Rev. Wes Bredenhof


Eu gostaria de saber menos sobre abuso sexual. Na minha vida pessoal e pastoral, aprendi muito sobre a realidade horrível que alguns humanos são capazes de fazer aos outros em busca de seus próprios prazeres. No entanto, o conhecimento que Deus providencialmente me concedeu tem me motivado a defender os abusados. Desenvolvi as seguintes declarações de posição com o intuito de conscientização e provocação de discussões em nossas comunidades reformadas.

Deixe-me, primeiramente, definir alguns termos. Em geral, abuso é uma conduta imprópria em relação a outra pessoa. Pode ser um evento único ou um padrão de comportamento. Em particular, abuso sexual é “a exploração sexual de uma pessoa ou qualquer intimidade sexual imposta a uma pessoa (física ou não). O abuso sexual de crianças pode incluir tirar proveito de uma criança que não é capaz de entender atos sexuais e nem de resistir à coerção, que pode vir na forma de ameaças ou de presentes. O abuso sexual inclui assédio por meio de comportamento verbal, ou físico de natureza sexual, provocado por um indivíduo visando uma pessoa, ou grupo de pessoas em particular, com a intenção de obter favores sexuais”. Essas definições vêm da Child Abuse Policy of the Free Reformed Church of Launceston [Política de Abuso Infantil da Igreja Reformada Livre de Launceston]. Além disso, o abuso sexual infantil ocorre quando as leis da idade de consentimento são violadas. No Canadá, por exemplo, a idade de consentimento é 16 anos [ou seja, essa é a idade mínima em que, outra pessoa acima ou na idade de consentimento está autorizada a exercer atividade sexual com ela].

Quando, abaixo, eu escrevo “igrejas reformadas”, refiro-me às igrejas com as quais estou mais familiarizado: as igrejas reformadas canadenses e as igrejas reformadas livres da Austrália. Isso não significa que outras igrejas reformadas não sejam afetadas, nem que todas as congregações individuais da CanRC e da FRC sejam igualmente afetadas. Estou simplesmente comentando da perspectiva de alguém familiarizado com essas federações da igreja.

DECLARAÇÕES DE POSIÇÃO

1. As igrejas reformadas devem condenar inequívoca e publicamente todas as formas de abuso
Embora devamos sempre acolher pecadores verdadeiramente arrependidos, nossas igrejas nunca devem dar a impressão de ser um porto seguro para abusadores. Em vez disso, nós devemos refletir o coração compassivo do nosso Deus para aqueles que são oprimidos e aflitos (Salmo 34.18). Além disso, nós devemos procurar criar um ambiente seguro e de cura em nossas igrejas para aqueles que sofreram abusos. Finalmente, nós devemos ser igreja onde a justiça e a retidão são mantidas, onde as vítimas não são mais abusadas e os criminosos são devidamente responsabilizados pelos seus pecados. Tudo isso começa com uma clara condenação do abuso, quando apropriado, em nossos sermões, artigos, etc.

2. O abuso sexual tem ocorrido em nossas igrejas
Embora eu não conheça qualquer dado oficial, evidências pessoais certamente indicam muitos casos de abuso sexual. Não se sabe se esses casos são desproporcionais à população em geral (certamente são dignos de um estudo competente). No entanto, com pesar, devemos admitir humildemente que isso aconteceu no passado. Poderíamos esperar que isso não mais acontecesse; porém, como as igrejas são constituídas de seres humanos pecadores e, também, de uma mistura de crentes e incrédulos (Confissão Belga, art. 29), devemos esperar, de modo real, ocorrências contínuas. No entanto, devemos fazer todo o possível para erradicar esse mal da igreja de Cristo.

3. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e espiritualidade doentia
Vítimas de abuso frequentemente lutam em seu relacionamento com Deus. Devido ao mal terrível infligido a eles (geralmente quando bem jovens), eles podem questionar a bondade, o amor e a providência de Deus. Se eles foram abusados pelo pai ou por uma figura de autoridade, eles podem ter dificuldade em se relacionar com Deus como um Pai amoroso. Eles podem também ter dificuldades em entender, e se apossarem do ensinamento bíblico sobre sexualidade, família e estruturas de autoridade matrimonial. As consequências espirituais do abuso podem ser profundas e aumentar a culpa carregada pelos agressores.

4. Frequentemente há um vínculo entre abuso sexual e problemas de saúde mental
O abuso sexual é uma forma de trauma. É uma atrocidade que pode esmagar quem a experimentou. Qualquer tipo de trauma pode ter implicações na saúde mental. Depressão, ansiedade, automutilação, distúrbios de personalidade múltipla, vícios e outros efeitos podem resultar do abuso sexual, especialmente se não abordado. Esses problemas de saúde mental também podem apresentar desafios à saúde espiritual de uma vítima de abuso sexual.

5. Há um vínculo entre pornografia e abuso sexual contra crianças e cônjuges
Em geral, a pornografia torna pessoas em objetos como um meio de gratificação sexual. Isso predispõe um indivíduo que usa pornografia a ser um abusador. Esse efeito é agravado pela maneira como o uso da pornografia mergulha em níveis cada vez mais depravados. A extensa disponibilidade de pornografia violenta e abusiva aumenta, comprovadamente, o predomínio do abuso sexual. Consequentemente, as igrejas reformadas devem se manifestar sobre os perigos da pornografia, bem como fornecer recursos para que seus membros escapem da escravidão desse pecado.

6. Ao pregar e ensinar o Quinto Mandamento, as igrejas reformadas também devem abordar o abuso de autoridade
Evidências pessoais relatam que, algumas vezes, abusadores invocam o Quinto Mandamento (“honra teu pai e tua mãe”) como forma de justificar e continuar seus abusos. Igrejas reformadas regularmente pregam o Quinto Mandamento (com o Dia do Senhor 39 do Catecismo de Heidelberg) e devem aproveitar a oportunidade para enfatizar que esta lei não tolera comportamentos abusivos. Devemos deixar claro que o abuso é contrário à vontade de Deus; e que os abusadores que usam a lei de Deus para se justificar são duplamente condenados.

7. As igrejas reformadas devem desenvolver políticas de abuso para lidar com abusos do passado e prevenir futuros abusos
Quando colocamos as coisas no papel, indicamos que as levamos a sério. Uma questão tão importante quanto o abuso sexual não deve ser negligenciada. Embora nem todas as circunstâncias possam ser previstas, algumas diretrizes gerais para líderes e membros da igreja podem ajudar bastante a lidar efetivamente com abusos recentes na igreja. Além disso, políticas para impedir futuros abusos também devem estar em vigor como uma questão de devida diligência na proteção das ovelhas e cordeiros do rebanho de Deus.

8. Qualquer igreja local que facilite o abuso, acobertando-o ou recusando-se a denunciá-lo, põe em questão seu status de verdadeira Igreja de Cristo
Uma das marcas da verdadeira igreja é o fiel exercício da disciplina. Se uma igreja local permite que o abuso permaneça encoberto, em vez de atribuir a esse pecado a maior gravidade que existe, ela está dramaticamente longe dessa marca. Se os oficiais de uma igreja se recusam a denunciar abusos às autoridades apropriadas, eles também mostram uma falha significativa em lidar adequadamente com o pecado. Uma igreja verdadeira leva a sério os pecados sérios e os trata de acordo, tanto pelas chaves do reino dos céus quanto pela cooperação com as autoridades civis, quando apropriado.

9. Há esperança para os abusadores e os abusados no evangelho do Senhor Jesus Cristo
Para aqueles que sofreram abusos, as feridas podem ser saradas. Eles podem ser curados quando o bálsamo do evangelho é aplicado, assim, aprendemos a entender melhor a insondável graça de Deus para conosco e para com os outros. Os autores de abusos no passado também podem encontrar ajuda e cura na cruz. Se eles verdadeiramente se arrependerem dos seus pecados, se eles forem humildes e honestos, se eles olharem apenas para Cristo como sua justiça, eles poderão receber perdão de um Deus gracioso e uma mudança significativa em suas vidas pelo poder do Espírito Santo. No entanto, isso de forma alguma diminui as consequências pessoais, criminais ou eclesiásticas desse pecado.


NOTAS:
[1] Extraído de https://yinkahdinay.wordpress.com/2018/10/30/position-statements-on-reformed-churches-and-sexual-abuse/
[2] Nota do autor: eu não reivindico exaustividade a essas declarações, nem afirmo que elas são a melhor e final maneira de enquadrar os problemas abordados. Se outros desejarem melhorá-las, certamente serão bem-vindos.

Tradução de Daniel Tanure
Revisado por Rev Ewerton B. Tokashiki

24 novembro 2017

Remédios preciosos contra as artimanhas do Diabo - Capítulo 2

Por Thomas Brooks
Originalmente publicado em 1652 na Inglaterra

Neste capítulo trataremos de duas formas como Satanás procura desviar o crente para o pecado. Uma maneira é tornando-o muito atraente e outra é persuadindo aos crentes de que os seus pecados são pequenos e sem importância.

Primeiro, o diabo engana aos crentes fazendo do pecado algo atrativo, natural e de aparência normal e aceitável. O pecado quase sempre se disfarça com esta aparência. Talvez muitos crentes se apeguem demasiadamente em sua própria aparência, suas roupas, seus pertences, em sua reputação. O diabo lhes diz que isto não é orgulho, que é algo normal, que todos fazem isto. Talvez alguns crentes são cobiçosos e Satanás lhes sussurrará que isto é justo, que é normal, que consigam e atesourem tudo o que puderem, afinal, todo mundo o faz. Talvez uma pessoa tenha a tentação de beber. Então o diabo lhe dirá que não é pecado embriagar-se. Simplesmente lhes dirá que é uma diversão saudável, uma forma de convivência e de ser amistoso com os demais. Depois lhes dirá que merecem e fará com que o vício lhe pareça muito atrativo, acrescentando-lhes uma posição social, um prestígio, lindas mulheres, prosperidade, simpatia, etc.

Quando Satanás se dedica a seduzir-nos desta forma, então temos que recordar de quatro fatos importantes:

Primeiro, o pecado não é menos vil e abominável quando é apresentado numa forma mais atraente. O diabo gosta de esconder a verdade acerca do pecado. O Novo Testamento diz que o diabo pode transfigurar-se num anjo de luz (2 Co 11.14) que o lobo pode se disfarçar com pele de ovelha. Mas Satanás e o pecado continuarão sendo “Satanás e o pecado”; não importa como se disfarcem.

Segundo, quanto mais atrativo se apresenta o pecado, resulta em maior perigo. O veneno mais perigoso se encontra, frequentemente, nas flores mais bonitas. A roupa mais cara, em geral, é usada para cobrir os corpos mais indignos e o corpo mais perfeito cobre a alma mais vil. Do mesmo modo, os nomes mais sofisticados e os títulos mais elevados são usados para falar dos vícios mais horríveis e dos pecados mais abomináveis.

Terceiro, é necessário que vejamos o pecado tal como o veremos no dia do juízo. Nesse dia todos verão a verdadeira face do pecado. Quando todos os povos estiverem reunidos diante do Grande Juiz do universo, então apreciarão a pecaminosidade do pecado. Nesse momento o pecado será desmascarado e será despojado de sua atrativa vestimenta; aparecerá mais sujo e mais desprezível que o próprio inferno. O que antes parecia formoso e atraente, se manifestará feio e repugnante. A Bíblia descreve o pecado comparando-o com várias coisas: o vômito de um cão, uma ferida apodrecida, a lepra, o esterco, a espuma do mar, etc. Também compara os pecadores com os porcos que se revolvem no lodo, bestas embrutecidas, animais irracionais (cabras, cães, bois), agitadas ondas do mar, estrelas errantes, árvores desarraigadas, etc. É necessário ver o pecado tal como o veremos no dia da morte. A consciência pode estar adormecida por um longo tempo, mas no dia da morte e do juízo se despertará e nos mostrará o dano e amargura do pecado. Então devemos aprender a ver o pecado não como é apresentado pelo diabo, senão como o veremos na eternidade.

Quarto, os pecados que parecem mais atrativos provocaram a morte de nosso Senhor Jesus Cristo. Somente podemos avaliar o pecado à luz da crucificação de Cristo. Devemos ver a Cristo em sua paixão e sofrimento pelo pecado: afligido, chicoteado, ferido, humilhado, angustiado, suando grandes gotas de sangue, seu corpo desfigurado, seu sangue derramado, o Juiz do universo condenado, o Senhor de vida morto, sua cabeça que levava a coroa de glória, coroada de espinhos. Seus ouvidos que recebiam o louvor celestial, agora recebem o desprezo e as blasfêmias da multidão. O rosto mais formoso dos filhos dos homens é cuspido e desfigurado. As mãos que sustentavam o cetro agora são cravadas numa cruz. Tudo isso foi originado pelos pecados que o diabo procura apresentar de modo tão atrativo. Quando os crentes veem a Cristo sofrendo e morrendo pelo pecado, percebem o quão mau ele é, e eles lhe viram as costas e lutam contra ele. Outra maneira como Satanás seduz os crentes ao pecado é dizer-lhes que os seus pecados são “pecadinhos”, ou seja, que seus pecados são pequenos e sem importância. Quando Satanás age assim, quer que os crentes passem desapercebidos de certos pecados e que se acostumem com eles. Ele intenciona que classifiquem os seus próprios pecados como ínfimos em comparação com os pecados dos demais. Deseja que os crentes pensem do pecado como se houvessem apenas pecados grandes e escandalosos, para que evitem apenas estes últimos.

O primeiro remédio contra essa tática é percebermos que os pecados que parecem pequenos atraem a ira de Deus. Mesmo o menor pecado é uma transgressão contra a santa lei de Deus. Os pecados que parecem “pequenos” são ofensas contra a glória e a bondade de Deus. Um único pecado arruinou toda a raça humana. Por pecados que aos homens parecem pequenos, Deus derramou o inferno sobre Sodoma e Gomorra.

Segundo, os pecados pequenos inevitavelmente conduzem a pecados maiores. O pecado se contamina a vida pouco a pouco. Os que continuam vivendo em pecados pequenos, terminarão vivendo completamente em pecado. Quando cometemos um único pecado, nunca saberemos até que ponto nos levará. O rei David começou desejando a Bate-Seba e terminou adulterando e assassinando a Urias, o heteu, seu marido. Os que começam com pequenos pecados não podem deter-se, e normalmente terminam em grandes pecados.

Terceiro, é algo triste afastar-se de Deus devido a um pecado pequeno. Podemos dizer que por menor força seja a tentação, maior é o pecado; os pecados menores deveriam ser os mais fáceis de se evitar. Quando alguém é tentado numa coisa pequena e cede, demonstra o quão mau é. Indica que prefere gozar um poco do pecado, do que se satisfazer em Deus. Quando nos desgostamos com um amigo acerca de uma coisa pequena, isto demonstra nossa necessidade e nossa falta de humildade. Do mesmo modo é tolice e perversidade pecar contra Deus e afastar-nos dele por causa de um pecado pequeno.

Quarto, frequentemente há um perigo enorme no pecado menor. Os pecados pequenos podem influenciar-nos por longos períodos de tempo até que nos causem muitos danos. Um pequeno furo num barco permite a passagem da água até que finalmente o afunde. Assim, um pequeno pecado pode afetar-nos paulatinamente até arruinar a nossa vida.

Quinto, ao longo da história sabemos que os crentes escolheram sofrer os piores tormentos do que participar dos pecados pequenos. Daniel e seus amigos puderam pecar facilmente, mas estavam dispostos a sofrer. De igual forma muitos crentes sofrem por se negarem a participar da idolatria, do mundanismo, dos erros doutrinários, etc.

Finalmente, quando Deus mostra aos homens quão poderoso é o pequeno pecado, não poderão manter-se de pé diante da culpa do menor deles. Os egípcios consideravam a praga das moscas como o “dedo de Deus”. E mesmo sendo criaturas pequenas se tornaram poderosas quando foram usadas por Deus para juízo. Então, quando Deus mostra aos crentes o mal e o grande poder dos pecados pequenos, não poderão pensar superficialmente neles.

23 abril 2017

A ideia de liberdade em Agostinho [uma breve nota]

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], Richard A. Muller explica que “a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular”. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: “antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar”. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: “uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar”. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: “a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem”. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: “uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado”.

Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).

Veja Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Baker Book), p. 176.

07 abril 2016

Uma declaração da cosmovisão reformada - revisada

Apresento de modo sistemático uma declaração da cosmovisão reformada. Este é um resumo de como interpretamos o mundo a partir de uma perspectiva calvinista, os acontecimentos e como a vida está sob o governo e relacionada com o soberano Deus, e como todos os valores se organizam a partir dele.

1. Cremos que Deus é um Ser em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. O nosso Deus é infinito, eterno, perfeito, autossuficiente e imutável em seu Ser. Ele em tudo manifesta a sua bondade, conhecimento, sabedoria, poder, e a justiça segundo o seu soberano propósito eterno. Ele é o criador de tudo o que existe, pela Palavra do seu poder. Ele realiza, em tudo e todos, a sua sábia providência, de modo que, não existe acaso, nem fatalismo nos acontecimentos que vivenciamos, mas o absoluto controle em cada situação é a realização da sua perfeita vontade. Tudo o que ele realiza é reflexo daquilo que ele é. As nossas vidas e nossas famílias estão seguras em suas misericordiosas mãos.

2. Cremos que o nosso Deus é pessoal. Ele se revelou através de homens escolhidos, de eventos em diversos momentos e finalmente em seu Filho, e tudo o que é proveitoso para desvendar o seu Ser e a sua vontade, ele inspirou de modo escrito, para evitar a corrupção e o engano. Ele fez que se registrasse a sua Palavra progressivamente, para que se tornasse o livro de mediação e revelação das suas obras e do seu propósito conosco. Hoje, Deus fala verbalmente conosco somente na sua inspirada Palavra, pois, cessaram os agentes revelacionais [apóstolos e profetas], as modalidades revelacionais e a entrega de novas revelações. Por isso, submetemo-nos somente à autoridade da Escritura Sagrada como sendo a única fonte e regra de fé e prática. Somente ela é a inerrante, clara e suficiente Palavra de Deus. Em sua Palavra, Deus o padrão absoluto da verdade, bem como explica a origem do universo, da vida e das espécies, quem somos, qual o propósito da nossa vida, indicando a finalidade de toda a existência que é glorificá-lo e desfrutar dos benefícios da sua comunhão.

3. Cremos que o ser humano é criado à imagem de Deus. Deus criou a humanidade: homem e mulher, e ambos de igual modo refletem com dignidade espiritual os atributos que Deus lhes comunicou e, também representam o Senhor como administradores responsáveis de preservar e usufruir da criação. Tanto o homem como a mulher, são iguais em capacidade e responsabilidades; mas o homem deve exercer a sua autoridade como cabeça sobre a mulher, e esta liderança masculina deve ser sem opressão, nem omissão, pois, embora tendo diferentes papéis, exercem funções complementares. O casamento faz parte do projeto pactual de Deus conosco, por isso, a união entre Cristo e a Igreja é o paradigma do casamento. O casamento, entre um homem e uma mulher adultos, é um valor ético que devemos nutrir e defender contra toda ideologia de gênero e os intentos pós-modernos de reconfigurar a família.

4. Cremos que Deus fez uma aliança de vida com Adão. Como o nosso primeiro pai, ele foi o nosso representante nesta aliança. Todavia, sendo Adão tentado por Satanás, ele violou este pacto ao desobedecer um claro comando de Deus, perdendo a comunhão espiritual e todos os seus benefícios prometidos. Toda criação que era “muito boa” tornou-se corrompida em seu sistema ecológico. Sobre toda a humanidade foi creditada esta maldição, o pecado é a herança natural que todos recebem de Adão. Por causa deste mal moral todos perderam a santidade, a justiça e o conhecimento perfeito de Deus. O pecado produz inimizade, perda de significado, e por fim, a vergonhosa morte. Embora corrompidos, ainda somos portadores da imagem de Deus.

5. Cremos que Satanás e seus demônios, agentes do mal, conspiram contra tudo o que procede de Deus. Ele tentou os nossos primeiros pais, e os induziu a rebelião contra Deus, e nos confronta tentando seduzir-nos, despertando a nossa cobiça e aguçando o nosso orgulho. Ele é soberbo, assassino, acusador, e inimigo de Deus. Satanás não é co-igual a Deus, pelo contrário, ele é uma criatura submissa ao controle soberano do Senhor. O nosso acusador está condenado, e haverá de ser banido ao sofrimento eterno sob a justa ira no juízo de Deus.

6. Cremos que o mal é tão real quanto indesejável o sofrimento por ele produzido em toda a criação. Entretanto, o mal físico é parte da consequente maldição do pecado herdado dos nossos primeiros pais. O pecado gera desordem e destruição no indivíduo e sociedade. Todavia, não acreditamos que Deus seja mero espectador da presença do pecado na história da humanidade, mas de modo misterioso participante de tudo o que acontece, sem ser o culpado do pecado, e sem anular a responsabilidade do pecador. Cremos que todas as coisas, em especial aquelas que parecem escombros depois da destruição do pecado, são matéria-prima que Deus está usando para transformar a nossa vida, conforme à imagem de Cristo, em seu louvor e glória.

7. Cremos que o nascimento de Jesus Cristo teve o propósito de reconciliar pecadores escolhidos com o santo Deus. Sendo o Filho de Deus uma Pessoa que subsiste em duas naturezas, divina e humana, é o completo e final revelador entre Deus e os homens. O sofrimento, obediência, morte e ressurreição de Cristo obtiveram a justiça necessária para merecer-nos a aceitação de Deus, bem como a suficiente satisfação da sua ira, realizando a anulação da condenação pelos nossos pecados. Somos perdoados pela justiça e amor de Cristo Jesus, o nosso mediador. Ele eficazmente intercederá por nós até a Sua segunda vinda. A obra de Cristo é o fundamento para a renovação de toda a criação pela presença espiritual e transformadora do Seu reino, que foi inaugurado.

8. Cremos que o Espírito Santo inicia a obra da salvação em nós, regenerando e concedendo-nos entendimento espiritual para crermos em Cristo como o nosso salvador. Recebemos no poder do Espírito, e pela aplicação da Palavra de Deus em nós, o dom da fé salvadora e arrependimento necessário para a nossa conversão. Em Cristo a justificação é declarada e creditada a nós. Através da adoção somos feitos participantes da família de Deus. A santificação estimulada pelo Espírito e, exercida em nossos pensamentos, emoções e ações confirmam a nossa eleição e filiação divina. Somos preservados em graça, pelo poder de Deus, para sermos continuamente salvos até o fim. Deus tem uma graciosa Aliança da graça conosco e os nossos filhos, tendo o Senhor Jesus como o nosso único mediador.

9. Cremos que o Espírito Santo está presente em nós num relacionamento pactual conosco, habitados por ele, somos batizados no Corpo de Cristo. Ele continua a pairar acima do caos causado pelo pecado, todavia, sem estar alienado ao mal que há no mundo, mas convence-nos da justiça e do juízo, e concede forma à nova criação e fazendo-nos novas criaturas pela regeneração. O Espírito nos une como Igreja, capacitando-nos com dons para o serviço e edificação pela prática da comunhão mútua. Ele testemunha internamente, pela iluminação da Palavra de Deus, e somos continuamente santificados sob a sua poderosa influência. Toda a sua obra tem a finalidade de glorificar a Cristo.

10. Cremos que a Igreja é responsável de ser testemunha da verdade e do amor de Deus neste mundo afetado pelo pecado. Somos o povo escolhido para proclamarmos a mensagem de reconciliação e perdão, convidando pecadores ao arrependimento, para confiarem na suficiência de Cristo para a sua salvação. Temos o compromisso de ouvir, viver e ensinar a Palavra de Deus. A salvação não é somente da nossa alma, mas da nossa mente, cultura e sociedade, apresentando o evangelho integral para o homem em todas as suas necessidades. Cuidamos uns dos outros no amor de Deus, vivendo uma comunhão de reciprocidade e compromisso, proporcionando um ambiente de fraternidade e santidade. A Igreja visível é a comunhão daqueles que professam Cristo como o Senhor, reunidos para a celebração, a adoração, a comunhão, edificação e serviço. Buscamos intimidade com Deus através da Palavra, oração e dos sacramentos e, confirmamos a nova aliança com Deus simbolizada pelo do batismo e ceia do Senhor. A imagem de Deus é vivida na mutualidade dos relacionamentos.

11. Cremos que o objetivo histórico da obra de Cristo foi a inauguração do seu reino sobre a terra. Isto inclui a salvação de indivíduos, bem como uma nova ordem na sociedade. Todavia, cremos que somente com os valores do reino de Deus, num discipulado integral, em que os cristãos se envolvem produtivamente em todas as áreas da vida, podendo participar pelo processo de restauração, transformação e desenvolvimento, reconhecendo Cristo como o Senhor em todas as esferas da nossa existência.

12. Cremos que este mundo experimenta a deterioração dos valores que Deus estabeleceu para preservá-lo. A falta de sentido e propósito também produz a desesperança. A sociedade busca a sua redenção na tecnologia, cultura, política, economia e no sexo, todavia, estes meios são ineficazes de transformá-la construtivamente. Reconhecemos que várias formas de idolatria são fabricadas pela cultura pós-moderna. Mas, infelizmente, a sociedade inclina-se a não reconhecer a verdade como absoluta, ridicularizando a concepção e a ação de Deus no mundo. Estamos chegando ao fim da história humana não em direção ao desespero e caos, mas à consumação do propósito eterno de Deus. Cristo Jesus julgará toda a humanidade de todas as épocas e culturas, a uns dará a salvação segundo a sua misericórdia, e a outros segundo a sua justiça concederá a merecida condenação dos seus pecados.

13. Cremos que o nosso mundo pertence a Deus. Apesar de toda miséria e dor, todas as coisas estão sob o seu absoluto controle. A nossa esperança de uma nova terra não está presa ao que os homens podem fazer, porque cremos que após o dia do Juízo, todo desafio ao governo de Deus, e toda resistência a sua vontade será anulada, o seu reino, que é inaugurado entre nós, se manifestará em sua plenitude, e o nosso Senhor Jesus governará para sempre com o seu povo. Assim “Deus enxugará dos olhos toda lágrima”, Ele abolirá as nossas enfermidades, findará os nossos conflitos, e implantará a Sua perfeita justiça sobre a terra.

A cosmovisão cristã deve ser implantada pela influência da Igreja em todas as esferas da sociedade. O verdadeiro cristianismo propõe que crer e também pensar. Em tudo dependemos de Deus, para ele vivemos e a ele pertencemos, e isso só é possível se a nossa mente for dominada com a verdade (Rm 11:33). A mentira de que a fé não precisa da razão deve ser desprezada, e afirmado que a razão sem a fé se torna em loucura (Rm 1:22-23). James Orr acertadamente disse que “uma religião divorciada do pensamento rigoroso e elevado pode ser vista no curso inteiro da história da Igreja, e por isso, ela sempre tendeu a ser débil, árida e pouco saudável; bem como o intelecto privado de seus direitos dentro da religião, buscou a sua satisfação fora dela, e se transformou num racionalismo secular”. Este é um erro que não podemos repetir. Cada membro de nossa igreja precisa se convencer de que uma fé vigorosa somente glorifica a Deus se ela estiver comprometida com toda a verdade. A finalidade da nossa vida é glorificar a Deus, e a nossa mente não pode ser desprezada no desemprenho deste dever, porque como disse: crer é também pensar!

17 abril 2014

Karl Marx contra a moralidade

Escrito por Allen Wood

1. Introdução

Os marxistas expressam frequentemente uma atitude depreciativa para com a moralidade, que (segundo dizem) não é mais do que uma forma de ilusão, uma falsa consciência ou ideologia. Mas, outros (tanto os que se consideram marxistas, como quem não) frequentemente consideram difícil de compreender esta atitude. Os marxistas condenam o capitalismo por explorar a classe trabalhadora e condenar à maioria das pessoas a levar uma vida alienada e insatisfeita. Quais razões podem oferecer para isto, e como podem esperar que outros façam o mesmo, se abandonam todo apelo à moralidade? Todavia, a rejeição marxista da moralidade começa com o próprio Marx. E esta é – segundo vou argumentar – uma concepção defensável, uma consequência natural, como a respeito dela disse Marx, da concepção materialista da história. Ainda que não aceitemos as ideias restantes de Marx, o seu ataque à moralidade estabelece questões importantes relativas à maneira em que devemos concebê-la.


2. O antimoralismo de Marx

Marx geralmente permanece em silêncio acerca do tipo de questões que interessam aos moralistas e aos filósofos éticos. Mas deve-se observar que claramente este silêncio não se deve a um complacente descuido. A sua atitude é de hostilidade aberta à teorização moral, aos valores morais e inclusive contra a própria moralidade. Contra Pierre Proudhon, Karl Heinzen e os “socialistas autênticos” alemães, Marx utiliza regularmente os termos “moralidade” e “crítica moralizante” como epítetos insultuosos. Condena amargamente a exigência de “salários justos” e “distribuição justa” do Programa de Gotha, afirmando que estas expressões “confundem a perspectiva realista da classe trabalhadora” com a “verborragia desatualizada” e o “lixo ideológico” que seu enfoque científico se torna obsoleto (MEW 19:22, SW 325). Quando outros persuadem a Marx a que inclua uma retórica moral suave nas regras para a Primeira Internacional, ele sente que deve desculpar-se com Engels por isto: “vi-me obrigado a introduzir duas expressões sobre “dever” e “o correto” ... ou seja, sobre “a verdade, a moralidade e a justiça”, mas, estão situadas de tal forma que não podem causar nenhum dano” (CW 42, p. 18).

Normalmente Marx descreve a moralidade, junto à religião e ao direito, como formas de ideologia taxando-a como “outros tantos preconceitos burgueses pelos quais se escondem outros tantos interesses ideológicos” (MEW 4, p. 472; CW 6, p. 494-495, cf. MEW 3, p. 26; CW 5, p. 36). Porém, não somente condena as ideias burguesas sobre a moralidade. Seu alvo é a própria moralidade, toda moralidade. A ideologia alemã afirma que a concepção materialista da história, ao mostrar a vinculação entre ideologia moral e interesses materiais de classe “quebrou o suporte de toda a moralidade”, independentemente de seu conteúdo ou filiação de classe (MEW 3, p. 404; CW 5, p. 419). Quando um crítico imaginário critica que “o comunismo anula toda a moralidade e religião, em vez de formá-las de novo”, o Manifesto Comunista responde não negando a verdade da acusação, mas por sua vez observando como a revolução comunista significará uma ruptura radical com todas as relações tradicionais de propriedade, também significará o corte mais radical ainda com todas as ideias tradicionais (MEW 4, p. 480-481; CW 6, p. 504). Evidentemente Marx pensou do mesmo modo que a abolição da propriedade burguesa será uma tarefa da revolução comunista, outra será a “abolição de toda moralidade”. Marx inclusive chega a unir-se ao mal moral contra o bem moral. Insiste que na história “é sempre o lado mal o que finalmente triunfa sobre o bem. Pois, o lado mal é o que indica o movimento da vida, o que faz a história levando a luta à sua maturidade” (MEW 4, p. 140; CW 6, p. 174).


[...] para leitura do texto completo [14 páginas] - acesse aqui!

08 abril 2014

Marxismo e Cristianismo - como cosmovisões rivais

Escrito por Leslie Stevenson & David I. Haberma

CONCEPÇÕES RIVAIS DA NATUREZA HUMANA

Há muitas coisas que dependem de nossa concepção da natureza humana: no caso dos indivíduos, o significado e o propósito de nossa vida, o que devemos fazer ou nos empenhar por conseguir, o que podemos alimentar a esperança de realizar ou de vir a ser; no caso das sociedades humanas, rumo a que visão de comunidade humana podemos esperar caminhar ou que tipo de mudanças sociais deveríamos fazer. Nossas respostas a todas essas perguntas tão complexas dependem de pensarmos se existe ou não alguma natureza “verdadeira” ou “inata” dos seres humanos. Se existe, qual é essa natureza? Ela difere entre homens e mulheres? Ou não existe nenhuma natureza humana “essencial”, mas apenas uma capacidade de ser moldado pelo ambiente social – por forças econômicas, políticas e culturais?

Há muitíssimas divergências acerca dessas questões fundamentais sobre a natureza humana. “O que é o homem, para dele te lembrares? ... Tu o fizeste pouco menos do que um deus, e o coroaste de glória e esplendor” – escreveu o autor do Salmo 8 no Antigo Testamento. A Bíblia vê os seres humanos como tendo sido criados por um Deus transcendente com um propósito definido para nossa vida. “A real natureza do homem é a totalidade das relações sociais”, escreveu Karl Marx em meados do século XIX. Marx negou a existência de Deus e sustentou que toda pessoa é um produto do estágio econômico particular da sociedade em que vive. “O homem está condenado a ser livre”, afirmou Jean-Paul Sartre, que escreveu na França ocupada pela Alemanha, nos anos 1940. Sartre também era ateu, mas diferia de Marx ao sustentar que nossa natureza não é determinada pela sociedade, nem por nenhuma outra coisa. Ele sustentava que toda pessoa individual é completamente livre para decidir o que quer ser e fazer. Em contraste com isso, recentes teóricos sociobiológicos trataram os seres humanos como um produto da evolução, sendo nós dotados de padrões de comportamento biologicamente determinados específicos da espécie.

Não há de escapar à atenção dos leitores contemporâneos que essas três citações, da Bíblia, de Marx e de Sartre, usam todas elas a palavra masculina “homem” (em tradução para o português) quando a intenção era presumivelmente fazer referência a todos os seres humanos, incluindo mulheres e crianças. Esse uso tem sido generalizado e costuma ser defendido como uma abreviação conveniente, mas viu-se recentemente criticado por contribuir para pressupostos questionáveis acerca do domínio da natureza humana masculina e para a consequente negligência com a relação à natureza feminina – ou para a consequente opressão desta. Há aqui importantes questões, que implicam bem mais do que o uso linguístico.[1] Tocamos em temas feministas em pontos específicos deste livro, mas não os abordamos diretamente: não há um capítulo sobre teorias especificamente feministas da natureza humana. Esforçamo-nos para evitar linguagem sexista em nossos próprios textos, mas dificilmente a podemos evitar quando se trata de citações.

Concepções diferentes da natureza humana levam a distintas ideias sobre o que devemos fazer e sobre como podemos fazer. Se um Deus todo-poderoso e supremamente bom nos criou, então é Seu propósito que define o que podemos ser e o que devemos fazer, e temos de buscar Sua ajuda. Se, por outro lado, somos produtos da sociedade, e se julgamos nossa vida insatisfatória, não pode haver uma solução real até que a sociedade humana seja transformada. Se somos radicalmente livres e nunca podemos fugir à necessidade da escolha individual, temos de aceitar essa condição e fazer nossas opções com plena consciência do que fazemos. Se nossa natureza biológica nos predispõe ou nos determina a pensar, a sentir e a agir de uma dada maneira, temos de levar isso em conta de forma realista.

Crenças rivais acerca da natureza humana são tipicamente personificadas em diferentes modos de vida individuais, bem como em sistemas políticos e econômicos. A teoria marxista (em alguma de suas versões) dominou a tal ponto os países de regime comunista no século XX que qualquer questionamento dela poderia trazer sérias consequências para seu autor. Podemos facilmente nos esquecer de que, há alguns séculos, o cristianismo exerceu uma posição dominante similar na sociedade ocidental: os hereges e não-crentes eram discriminados, perseguidos e até queimados na fogueira.[2] Mesmo em nossos dias, em alguns países e comunidades há um consenso cristão socialmente estabelecido a que as pessoas só podem se opor pagando algum preço. Na República da Irlanda, por exemplo, a doutrina católica romana tem sido aceita (até recentemente) como uma limitação imposta a políticas relativas a questões sociais como o aborto, a contracepção e o divórcio. A Igreja Católica exerce uma forte influência semelhante na Polônia pós-comunista. Nos Estados Unidos, um ethos cristão protestante informal afeta boa parte das discussões políticas, apesar da separação oficial entre a Igreja e o Estado.

Uma filosofia “existencialista” como a de Sartre pode dar a impressão de ter menos implicações sociais. Mas uma maneira de justificar a moderna democracia “liberal” consiste em recorrer à concepção filosófica segundo a qual não há valores objetivos para a vida humana, mas apenas escolhas individuais subjetivas. Esse pressuposto (que é incompatível tanto com o cristianismo quanto com o marxismo) tem grande influência na sociedade ocidental moderna, indo além de sua manifestação particular na filosofia existencialista francesa da metade do século XX. A democracia liberal se acha entronizada na Declaração de Independência do Estados Unidos, que apresenta uma separação entre política e religião e reconhece o direito de cada pessoa individual no sentido de buscar sua própria concepção de liberdade. (Deve-se, no entanto, observar que alguém que acredita que existem padrões morais objetivos ainda pode dar apoio a um sistema liberal se pensar que não é aconselhável tentar pô-los em prática.)


UMA COMPARAÇÃO ENTRE O CRISTIANISMO E O MARXISMO

Examinemos um pouco mais detalhadamente os cristianismo e o marxismo como teorias rivais da natureza humana. Embora sejam radicalmente diferentes no tocando ao conteúdo, apresentam notáveis semelhanças em termos de estrutura, na maneira como as partes de cada uma das doutrinas se integram entre e si e dão origem a modos de vida.[3] Em primeiro lugar, as suas doutrinas fazem alegações sobre a natureza do universo como um todo. É claro que o cristianismo está comprometido com a crença em Deus, num ser pessoal onipotente, onisciente e perfeitamente bom, o Criador, Dirigente e Juiz de tudo o que existe. Marx condenou a religião como “o ópio do povo”, um sistema de crenças ilusório que desvia as pessoas de seus reais problemas sociais. Ele sustentava que o universo existe sem ninguém por trás ou além dele, e que sua natureza é fundamentalmente material.

Tanto o cristianismo como o marxismo têm crenças acerca da história. Para o cristão, o significado da história é dado pela relação desta com o eterno. Deus usa os eventos da história para concretizar Seus propósitos, revelando-Se ao Seu povo prometido (no Antigo Testamento), mas sobretudo na vida e na morte de Jesus. Marx afirmava ter descoberto um padrão de progresso na história humana que é inteiramente intrínseco a ela. Julgava haver um desenvolvimento inevitável de um estágio econômico para outro, de maneira que, assim como o sistema econômico do feudalismo tinha sido superado pelo capitalismo, este seria substituído pelo comunismo. Ambas as concepções veem na história um padrão e um significado, embora concebam de modos distintos a natureza e a direção da força motriz.

Em segundo lugar, como decorrência das alegações conflitivas acerca do universo, há diferentes descrições da natureza essencial de seres humanos individuais. De acordo com o cristianismo, somos feitos à imagem de Deus, e nosso destino depende de nossa relação com Ele. Todas as pessoas são livres para aceitar ou rejeitar os desígnios de Deus, e serão julgadas de acordo com o modo pelo qual exerceram essa liberdade.[4] Esse juízo ultrapassa tudo o que existe nesta vida, dado que cada um de nós vai sobreviver à morte física. O marxismo nega que exista vida após a morte e qualquer juízo eterno desse gênero. Também descarta a liberdade individual e diz que nossas ideias e atitudes morais são determinadas pelo tipo de sociedade em que vivemos.

Em terceiro lugar, há diferentes diagnósticos sobre o que há de errado com a vida humana e a humanidade. O cristianismo afirma que o mundo não está de acordo com os propósitos de Deus, que nossa relação com Deus se acha desfeita, porque abusamos de nossa liberdade, rejeitamos a vontade de Deus e estamos contaminados pelo pecado. Marx substitui a noção de pecado pelo conceito de “alienação”, que também sugere algum padrão ideal a que a vida humana concreta não atende. A ideia de Marx, porém, parece ser de alienação do homem com relação a si mesmo, de sua verdadeira natureza: ele alega que os seres humanos têm um potencial que as condições socioeconômicas do capitalismo não lhes permite desenvolver.

A prescrição para um problema depende do diagnóstico. Assim, por último, o cristianismo e o marxismo oferecem respostas completamente divergentes aos males da vida humana. O cristão acredita que só o poder do Próprio Deus pode nos salvar de nosso estado de pecado. a declaração surpreendente é a de que, na vida e na morte de Jesus, Deus agiu com vistas a redimir o mundo. Todos precisam aceitar esse perdão divino para então poder iniciar uma nova vida regenerada. A sociedade humana só será de fato redimida quando os indivíduos se transformarem dessa maneira. O marxismo diz o oposto: não pode haver real melhoria das vidas individuais enquanto não ocorrer uma radical mudança da sociedade. O sistema socioeconômico do capitalismo tem de ser substituído pelo comunismo. Afirma o marxismo que essa mudança revolucionária é inevitável como decorrência das leis do desenvolvimento histórico; o que as pessoas têm de fazer é integrar-se ao movimento progressista e ajudar a abreviar as dores do parto da nova era.

Acham-se implícitas nessas prescrições rivais diferentes concepções de um futuro no qual a humanidades estará redimida ou regenerada. A visão cristã é das pessoas restauradas ao estado que Deus lhes destina, amando e obedecendo livremente ao seu Criador. A vida nova começa assim que o indivíduo aceita a salvação de Deus e se integra à comunidade cristã, mas o processo tem de se completar para além da morte, visto que os indivíduos e as comunidades são eternamente imperfeitos nesta vida. A visão marxista é a de um futuro neste mundo, de uma sociedade perfeita em que as pessoas possam ser quem de fato são, já não alienadas pelas condições econômicas, mas livremente ativas na cooperação de umas com as outras. É essa a meta da história, embora não se deva esperar que seja alcançada imediatamente depois da revolução: vai ser necessário um estágio de transição antes que a fase superior da sociedade comunista possa se concretizar.

Temos aqui dois sistemas de crença de alcance total. Tradicionalmente, cristãos e marxistas alegam ser portadores da verdade essencial sobre a totalidade da vida humana: fazem alguma declaração sobre a natureza de todos os seres humanos, em todas as épocas e em todos os lugares. E essas versões de mundo pedem não apenas assentimento intelectual como ação prática; quem de fato acredita em alguma dessas teorias deve aceitar suas implicações no que se refere ao seu próprio modo de viver e agir de acordo com isso.

Como último ponto de comparação, observe-se que, para cada um desses sistemas de crença, tem havido uma organização humana que pede a adesão dos fiéis e afirma ser dotada de uma certa autoridade tanto em termos de doutrina como de prática. Para o cristianismo há a Igreja, e, para o marxismo, o Partido Comunista. Ou, para ser mais preciso, há muito tempo existem igrejas cristãs rivais e uma variedade de partidos marxistas ou comunistas. Cada uma dessas igrejas ou partidos faz declarações concorrentes de que segue a verdadeira doutrina de seu fundador, definindo versões rivais da teoria básica como ortodoxas e seguindo diferentes políticas práticas.


NOTAS:
[1] Quanto à discussão do uso de linguagem sexista tem se tornado comum entre escritores sob a influência do feminismo, o que é lamentável, pois, não há depreciação intencional do valor essencial da mulher no uso tradicional da linguagem comum de dois gêneros.
[2] A diferença básica que os autores deveriam acentuar é que não é essencial à cosmovisão cristã esta postura de totalitarismo político. O marxismo busca o totalitarismo, inclusive pelo extermínio da oposição baseado na premissa básica da luta de classes, agindo coerentemente com a sua ideologia. Algumas facções cristãs, em momentos pontuais na história, exerceram incoerentemente ações políticas [por exemplo, a Inquisição, ou, as Cruzadas] quebrando os dois maiores mandamentos da fé cristã.
[3] É interessante que os autores neste parágrafo apresentem o cristianismo e o marxismo como dois sistemas de cosmovisão diferentes e incompatíveis. Leslie Stevenson e David I. Haberman descrevem neste artigo x forma mais lata de cristianismo abrangendo desde romanistas, ortodoxos, bem como protestantes no seu sentido mais lato. Ainda assim, o essencial da teoria marxista é diametralmente contrário ao essencial à fé cristã. Se levarmos o contraste para o plano de marxismo e calvinismo obviamente a rivalidade acentua mais ainda.
[4] A concepção de liberdade dos autores teologicamente resulta em semipelagianismo.


Extraído de Leslie Stevenson & David I. Haberman, Dez teorias da natureza humana (São Paulo, Editora Martins Fontes, 2005), pp. 5-12.

Os autores:
Leslie Stevenson é professor da University de St. Andrews, Escócia.
David I. Haberman é professor associado na Indiana University, EUA.
Notas de Rev. Ewerton B. Tokashiki.