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10 setembro 2026

João Calvino na opinião de Karl Barth

Karl Barth escrevendo uma carta, em 8 de junho de 1922, para seu amigo Eduard Thurneysen, afirmou que

a pequena porção de ‘teologia reformada’ que ensino não é nada em comparação com o toque de trombeta que precisa ser dado em nossos tempos de doença ... Calvino é uma catarata, uma floresta primordial, um poder demoníaco, algo que desce diretamente do Himalaia, absolutamente chinês, estranho, mitológico; faltam-me completamente os meios, as ventosas, sequer para assimilar esse fenômeno, quanto mais para apresentá-lo adequadamente. O que recebo é apenas um fio d'água e o que sou capaz de transmitir é apenas um extrato ainda mais tênue desse fio d'água. Eu poderia, com prazer e proveito, me dedicar e passar o resto da minha vida apenas com Calvino. Mas é assim para mim em cada ponto da história ... No próximo semestre, haverá os mesmos exercícios com Zwingli. Mas será sempre apenas um começo, sobre o qual devo lamentar ... Assim, o ‘ofício do ensino’ geme; não se podia falar em ‘esplendor’. Mais de uma vez, a aula que eu apresentaria às 7 da manhã só estaria pronta entre 3 e 5 da madrugada.

Karl Barth, Revolutionary theology in the making: Barth-Thurneysen Correspondence, 1914-1925 (Richmond, John Knox Press, 1964), p. 101.

17 setembro 2025

O que é livre arbítrio na perspectiva reformada?

 O livre arbítrio é a capacidade de escolher contrário à sua natureza. Johann Heinrich Heidegger explica que

a companheira da justiça do primeiro homem é a liberdade ou livre-arbítrio, sendo a primeira uma faculdade da alma, pela qual ele livremente, voluntariamente e sem qualquer força externa, escolheu aquilo que percebeu, deliberou e decidiu o que escolheu. Isso não era indiferença em fazer o bem ou o mal, porque lhe era natural fazer o bem, enquanto fazer o mal era contrário à sua natureza. E a liberdade não era imutável. Pois, dessa forma, não haveria lugar para a tentação. Pois a imutabilidade da vontade não pertence à natureza, mas à graça e à glória. A liberdade também não era independente, porque em Deus Adão foi movido (At 17.28). Ele carecia da graça não para curar a corrupção, mas para preservar a integridade, a fim de vencer as tentações do diabo. Em vez disso, a liberdade, juntamente com a deliberação de fazer o bem, era mutável.[1] 

Os reformados concordam com a interpretação de Agostinho sobre os quatro estados da liberdade. Sabemos que

Agostinho ensinava os quatro estágios da libertas naturae [liberdade da natureza], conforme Muller explica que ele é ‘a liberdade que é própria de um ser dada a sua natureza particular’. Os quatro estados da libertas naturae são: 1) libertas Adami [liberdade de Adão]: ‘antes da queda - isto é a capacidade ou poder para não pecar’. 2) libertas peccatorum [liberdade de pecadores]: ‘uma liberdade que é própria e restrita aos limites da natureza caída e é, portanto, uma incapacidade absoluta de fazer o bem, ou para agir para o bem, sendo o pecador incapaz de não pecar’. 3) libertas fidelium [liberdade dos fiéis]: ‘a liberdade daqueles que são regenerados pelo Espírito Santo, que é próprio da natureza regenerada e, é caracterizada pela capacidade para o pecado e para fazer o bem’. 4) libertas gloriae [liberdade de glória]: ‘uma liberdade adequada à natureza redimida integralmente, que, como residentes do reino do céu estão agora caracterizados pela incapacidade para o pecado’. Em outras palavras, os quatro estados do homem em relação ao pecado enumerados por Agostinho de Hipona são: 1) no estado antes da queda, o homem era capaz de não pecar (posse non peccare); 2) após a queda, ele é incapaz de não pecar (non posse non peccare); 3) sendo regenerado ele se torna capaz de não pecar (non posse peccare); e, 4) no estado de glorificação ele será incapaz de pecar (peccare non posse).[2] 

Em suma, a tradição agostiniana/calvinista interpreta a doutrina do livre arbítrio dividindo em quatro modos, por causa dos quatro estados do homem. No primeiro estado a vontade do homem era livre para escolher entre o bem e o mal. No estado caído o homem é livre somente para o mal. O homem nascido de novo, ou o homem em estado de graça, é livre do mal e para o bem, pela graça de Deus somente, mas imperfeitamente. No estado de glória ele será perfeitamente livre do mal para o bem. As confissões reformadas consentem quanto a este assunto.[3] 


NOTAS:

[1] Johann Heinrich Heidegger, The Concise Marrow of Theology (Grand Rapids, Reformation Heritage Books, 2019), p. 46.

[2] Veja o verbete “libero arbitrium” in: Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally From Protestant Scholastic Theology (Grand Rapids, Baker Academic, 1996).

[3] Veja, Joel R. Beeke & Sinclair B. Ferguson, Harmonia das Confissões Reformadas (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2006), pp. 56-57 e, também, Veja, Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã (Eusébio, Editora Peregrino, 2020), p. 79.

17 outubro 2024

Os 5 pilares da Reforma protestante

Quais são cinco pilares da Reforma?

As igrejas herdeiras da Reforma protestante do século XVI preservam a sua pureza conforme creem e praticam cinco princípios basilares da fé cristã. Os cinco pilares do nosso legado são:

Sola Scriptura: somente a Escritura Sagrada.

Sola gratia: somente a graça.

Solo Christo: somente em Cristo.

Sola fide: somente a fé.

Soli Deo gloria: somente a Deus seja a glória.

 

A sola Scriptura / somente a Escritura

Cremos que somente a Escritura Sagrada é a nossa única fonte e regra de fé e prática. Deus não usa outras modalidades revelacionais para falar conosco, somente a Escritura é a Palavra de Deus.

Negamos que a tradição, os decretos papais e decisões conciliares da Igreja Romana, bem como as experiências místicas, as antigas modalidades revelacionais [visões, sonhos, línguas e profecias] sejam verdadeiramente a revelada Palavra de Deus.

 

A sola gratia / somente pela graça

Cremos que somos salvos somente pela graça. Todo ser humano está morto em seus pecados e desobedece a lei de Deus, sendo merecedor de condenação eterna. O favor imerecido de Deus é a única causa do nosso perdão, reconciliação, adoção e aceitação diante dele. É Deus quem decreta, inicia, desenvolve e finaliza a graciosa salvação por causa dos méritos de Cristo.

Negamos que o ser humano seja capaz de fazer-se aceito diante de Deus, produzindo seus próprios méritos e satisfazendo a perfeita justiça divina.

 

O solo Christo / somente Cristo

Cremos que somente Jesus Cristo é o único mediador da nossa salvação. Cristo é o único Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo. Ele realizou uma obra salvadora que é perfeita, suficiente e completa a favor dos seus eleitos.

Negamos que haja outros mediadores ou que o ser humano tenha acesso a Deus Pai sem a pessoa e obra do Filho.

 

A sola fide / somente pela fé

Cremos que a fé é dom de Deus. O Espírito com a Palavra ilumina a mente produzindo um verdadeiro conhecimento do evangelho, uma firme confiança na obra de Cristo e um consentimento submisso às promessas de Deus. O pecador reconhece com arrependimento a sua reprovação e recebe a Cristo como seu Senhor. Assim, a justificação vem somente pela fé na obra de Cristo.

Negamos que a fé seja uma virtude humana, bem como não cremos que seja a causa da salvação, mas ela é o meio instrumental para recebermos o perdão e as demais bençãos de Deus. Apesar da salvação não ser por obras pessoais, a fé salvadora é operante e produz boas obras de santificação e obediência como evidência da salvação.

 

O soli Deo gloria / somente a Deus seja a glória

Cremos que o triuno Deus é o Senhor, Criador, Fonte de todo bem, Regente, Provedor e Consumador de tudo o que existe. Ele tem o absoluto controle sobre toda a criação e faz com que todas as coisas cooperem na realização da sua vontade. O soberano Deus não compartilha a sua glória com ninguém! Quanto mais estivermos satisfeitos nele, mais ele será glorificado, de modo que tudo o que somos, temos ou fazemos é um culto racional a ele. Assim, confessamos que “dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”.

Negamos que Deus exista para satisfazer as necessidades do homem, ou que possa ter a sua vontade divina resistida, frustrada ou mudada pela vontade humana, por qualquer outra criatura ou evento na criação. Não aceitamos que o culto ao Senhor Deus seja moldado pelas predileções, culturas, tendências temporais ou qualquer critério sociológico, ideologias políticas ou superstições e imaginações humanas.

14 março 2024

Um resumo da vida e obra de Martinho Lutero

Antecedentes da Reforma

1456   Surge a Bíblia de Gutenberg, às vezes chamado Bíblia de Mazarino, a primeira ser impressa e início da prensa de impressão e dos tipos móveis.

1466 ou 1469   Nascimento de Erasmo.

1483   Nascimento de Martinho Lutero.

1505   Lutero apanhado em uma tempestade, entra para o mosteiro agostiniano de Erfurt.

1509   Nascimento de João Calvino.

1510   Lutero viaja a Roma para conhecer o Vaticano e tratar de assuntos de sua ordem agostiniana.

1511 Ocorre o Concílio de Pisa. Lutero se muda para Wittenberg.

1512   Lutero recebe o grau de doutor em teologia, e, inicia conferências teológicas em Wittenberg.

1512-17   Ocorre o Quinto Concílio de Latrão.

1513   Eleito o papa Leão X.

1514-17   Bíblia Poliglota Complutense (publicada somente em 1522).

1515   Conferências de Lutero sobre as epístolas aos Romanos [novo entendimento de Rm 1:17].

1516   Publicação do Novo Testamento de Erasmo em grego e de uma tradução original em latim Novum Instrumentum.

1517   Em 31 de outubro Lutero “afixa” ou “remete” as 95 Teses.

 

A sua vida

Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483, em Eisleben, na Saxônia Prussiana. Ele morreu nesta mesma cidade, durante uma viagem, no dia 18 de fevereiro de 1546. Durante muito tempo foi um monge agostiniano. No inverno de 1510-11, ele foi a Roma, uma cidade então cheia de entusiasmo pela Renascença, mas indiferente com o puro Cristianismo. Lutero ficou apavorado com a infidelidade e imoralidade do papado, uma impressão que sem dúvida foi instrumental para a sua conversão.

A sua carreira de ensino começou em 1508, na cidade de Wittenberg. Em 1512, ele recebeu o seu doutorado em teologia, e começou a ensinar a Bíblia. De 1513 a 1515, ele ensinou Salmos, e de 1515 a 1517, ensinou as epístolas de Romanos, Gálatas e Hebreus. Durante este período, os seus sentimentos de extrema imperfeição diante de Deus, foram intensificados. Ele foi assombrado com a compreensão de que um Deus de infinita justiça nunca poderia ser satisfeito com os seus miseráveis esforços em busca da pureza. Os seus estudos renderam-lhe a percepção de que a salvação é imerecidamente recebida pela fé em Jesus, e que pela justiça de Cristo somos salvos da condenação dos nossos pecados. Depois de muitos anos de dúvida e angústia acerca da sua salvação teve fim, quando entendeu que a salvação não dependia de seus méritos pessoais, mas somente da graça de Deus.

A doutrina da indulgência despertou o confronto entre Lutero e a Igreja Romana. Esta disputa teológica começou com as 95 teses.  Com o intuito de financiar a reconstrução da igreja de São Pedro em Roma, o Papa Julius II e depois dele, o Papa Leão X sancionaram a venda indiscriminada de indulgências. Na linguagem de Roma, indulgentia é um termo latino que se refere à anulação do castigo, em particular, a remissão dos castigos temporais (não eternos) pelo pecado, sob a condição de que a pessoa realizasse boas obras específicas e fizesse contribuições financeiras generosas para a Igreja de Roma. Segundo a doutrina católica somente Deus pode perdoar o castigo eterno pelo pecado, mas o pecador ainda deve suportar o castigo temporal pelo pecado, seja nesta vida ou no purgatório. Esta última penalidade estava sob o controle do papado e do sacerdócio. Assim, por um preço, a Igreja Romana podia reduzir tanto o grau como a duração do castigo no purgatório. Lutero descobriu que este horroroso ensino não se fundamentava nas Escrituras.

O desejo inicial de Lutero era de reformar a Igreja Romana, todavia, após a sua excomunhão, a sua frustração foi consumada. Através da bula papal Exsurge Domine, editada em 15 de junho de 1520, o Papa Leão X excomungou Lutero, exigiu a queima de seus livros, e condenou toda a Reforma protestante. Lutero respondeu jogando o documento no fogo, no dia 10 de dezembro de 1520.

O reformador alemão após vários debates teológicos, foi convocado a comparecer diante da Dieta de Worms, no dia 17 de abril de 1521, onde teria a oportunidade de se defender diante do imperador romano Carlos V. Neste concílio Lutero reafirmou todo o seu ensino, e recusou retratar-se de qualquer um dos seus escritos. Quando o reformador deixou a cidade de Worms, no dia seguinte foi sentenciado pelo imperador como “um herético notório”, que devia ser silenciado. Lutero foi chamado de criminoso, que cometeu alta traição e, consequentemente, recebeu uma sentença de morte.

Frederico, “o sábio”, o príncipe eleitor de Lutero, arranjou o seu sequestro durante a viagem de volta à Wittenberg. Lutero foi levado para o Castelo Wartburg, na Turíngia, região sul da atual Alemanha, e permaneceu ali por dois anos de exílio (1521-1522). Durante este tempo a Igreja Romana decretou proibida a leitura dos seus livros e uma recompensa pela sua captura foi anunciada. O próprio Lutero estava ativo, traduzindo o Novo Testamento para o alemão, bem como escrevendo, ou revisando os seus livros. Vários teólogos, professores universitários e governantes aderiram à Reforma proposta por Lutero. Este impetuoso movimento não poderia mais parar.

  

Obras escritas

        Martinho Lutero foi um escritor prolixo.[1] As suas obras foram produzidas no calor da controvérsia, e algumas delas chegaram inclusive a ser reescritas, tanto para revisão como ampliação devido à necessidade de esclarecimentos em pontos obscuros, bem como em novas questões. Assim, a lista selecionada abaixo indica apenas os textos que julgo importantes para se entender o pensamento do reformador alemão.[2]

1.   Die Bibel nach der übertsetzung Martin Luthers. [A Bíblia conforme a tradução de Martinho Lutero].

2.   Disputatio contra scholasticam theologiam [Debate contra a teologia escolástica] escrito em Agosto de 1517. Segundo Joachim Fischer “na evolução de Lutero, as teses representam a fase crítica. São o mais importante e testemunho escrito de seu rompimento com a escolástica e, assim, com o próprio passado teológico.”[3]

3.   Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum [Debate exigindo uma declaração acerca do valor das indulgências, ou as 95 Teses] anexado em 31 de Outubro 1517. Martin Dreher observa que a motivação de Lutero ao escrever este texto “nada mais pretendia que o esclarecimento teológico de uma questão que o envolvia como cura d’almas e que tinha implicações para a piedade de seu paroquiano: a indulgência.”[4]

4.   Von den guten werckenn [Das boas obras] escrito em Fevereiro de 1520.

5.   Eyn sermon von dem Bann Doct. Martini Luther Augustiner czu Wittenbergk [Um sermão sobre a excomunhão do Dr. Martinho Lutero, Agostiniano de Wittenberg] escrito em 1520.

6.   Eyn sermon von dem newen Testament, das ist von der heyligen Messe [Um sermão a respeito do Novo Testamento, isto é, a respeito da Santa Missa] escrito em 1520.

7.   An den Christlichen Adel deutscher Nation von des Christlichen standes besserung [À nobreza cristã da nação alemã, acerca da melhoria do estamento cristã] escrito em 1520.

8.   De captivitate Babylonica ecclesiae [Do cativeiro babilônico da Igreja] escrito em 1520.

9.   Episola Lutheriana ad Leonem Decimum summum pontificem [Carta de Martinho Lutero a Leão X, Sumo Pontíficie] escrito em Outubro de 1520.

10. Tractatus de libertate christiana [Tratado da liberdade cristã] escrito em Outubro de 1520.

11. Dictio D. Martini Lutheri coram Caesare Carlo et principilus, Vormacie feria quinta post Misericordia Domini [Discurso do Dr. Martinho Lutero perante o Imperador Carlos e os príncipes, Quinta-feira depois de Misericórdias do Senhor] apresentado em 1521 diante da Assembléia de Worms.

12.  De servo arbitrio [Da vontade cativa] escrito em 1525.

13. Vom Abendmahl Christi [Da Santa Ceia de Cristo] escrito em 1528.

14. Deutsch Katechismus [Catecismo Alemão, ou Catecismo Maior] escrito em 1529.

15.  Enchiridion [Manual, ou Catecismo Menor] escrito em 1529.

16. Disputatio Domini Martini Lutheri de iustificatione [Debate do senhor Martinho Lutero acerca da justificação] escrito em 1536.

17. Disputatio contra Antinomistam [Debate contra os antinomistas] escritos em 1537 a 1538.

18. Von den Konziliis und Kirchen [Dos concílios e da Igreja] escrito em Março de 1539.

19. Disputatio Reverendi patris Domini D. Martini Lutheri de divinitate et humanitate Christi [Debate do Reverendo padre senhor  Martinho Lutero acerca da divindade e da humanidade de Cristo] escrito em 28 de Fevereiro de 1540.


NOTAS:

[1] A publicação comemorativa do aniversário de 500 anos do nascimento de Lutero, a Edição de Weimar abrange uma coleção de quase 100 volumes. do Martim C. Warth observa que o próprio Lutero ao escrever para Capito, em 9 de Julho de 1537, considerava como os mais importantes apenas dois: De Servo Arbitrio e o Katechismus. “Introdução” in: Obras Selecionadas de Martinho Lutero, vol. 7, p. 324.

[1] No Brasil a Comissão Interluterana de Literatura está traduzindo e publicando a partir dos originais latim e alemão, algumas Obras Selecionadas de Martinho Lutero.

[1] Joachim Fischer, “Introdução” do Debate sobre a Teologia Escolástica in: Joachim Fischer, ed., Obras Selecionadas de Martinho Lutero (São Leopoldo, Comissão Interluterana de Literatura, 1987), vol. 1, p. 14.

[1] Martin Dreher, “Introdução” do Debate para o esclarecimento do valor das indulgências in: Joachim Fischer, ed., Obras Selecionadas de Martinho Lutero, vol. 1, p. 21.

25 abril 2020

"A Companhia de Pastores de Calvino" - resenha por Michael Horton

Com muitos outros, tenho antecipado a publicação de Calvin’s Company of Pastors: Pastoral Care and the Emerging Reformed Church, 1536–1609 de Scott Manetsch. Não é bem o que eu esperava, ou seja, uma atualização mais completa para The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (1966) de Phillip Hugues. Nós precisávamos de algo assim, que fosse uma publicação de nicho que pareceria muito com uma avaliação para uma audiência geral. No entanto, o livro de Manetsch é isso e muito mais.

Repleta de novos estudos (incluindo a análise de registros nunca examinados de perto), Calvin’s Company of Pastors é uma leitura fascinante. Enquanto muitos estudos se inclinam para a história intelectual, Manetsch segue o rastro de historiadores sociais mais recentes (e obscuros). A sua análise engloba fatores sociais mais amplos, e ele tira conclusões com base em fontes frequentemente omitidas de outros relatos. Como um bom sermão, o enorme peso da pesquisa em primeira mão está por trás, e não a frente da história.

Respaldado com as notas de rodapé e tabelas é uma narrativa vívida que nos esboça um notável ministério de uma equipe de pastores, presbíteros e diáconos. Apesar do título, Manetsch, professor de história da igreja e da história do pensamento cristão na Trinity Evangelical Divinity School, nas proximidades de Chicago, mostra que Calvino era apenas o moderador de uma Companhia de Pastores que resistia a qualquer culto à personalidade.

Definindo o Contexto

Manetsch define o contexto observando que a reforma inicial da igreja genebrina reduziu os clérigos da cidade (incluindo monges e freiras) de 500 para 15, transformando o convento e dois mosteiros em um hospital público e escola. Ele observa que as Ordenanças Eclesiásticas, elaboradas por Calvino em 1541, estabeleceram uma rotatividade de ministros em todas as igrejas para evitar a impressão de que os ministros eram pregadores, não pastores.

Após seu retorno de Estrasburgo em 1541, Calvino pregou rotineiramente em St. Pierre aos Domingos e no templo da Madeleine durante a semana de trabalho. Essa prática de rotação foi projetada por Calvino para garantir que o povo de Genebra fosse edificado por uma variedade de pregadores; também afirmava a natureza colegial do ministério pastoral na cidade, e desencorajava os ministros de verem seus postos de pregação como feudos pessoais.

Poucas figuras históricas sofreram mais em termos de rumores do que por fatos. Há muito é observado por especialistas (católicos romanos e protestantes) que Calvino estava longe do aiatolá que normalmente encontra no parágrafo dedicado a ele nos livros didáticos do ensino médio. Manetsch dissipa esses rumores com muita atenção às fontes primárias.

Nesse sentido, Manetsch também avalia os registros da igreja (ou registro) em detalhes notáveis. O exame de casos disciplinares por si só torna este livro útil para qualquer pessoa interessada num retrato preciso de uma prática muito mal compreendida.

Ao contrário das caricaturas de um regime repressivo, os registros mostram uma preocupação primariamente “em educar os ignorantes, defender os fracos e intermediar conflitos interpessoais”. Calvino e outros repetidamente afirmaram que o consistório não podia administrar punições legais ou temporais (isto é, aqueles que não têm “a espada espiritual da Palavra de Deus” e que “as correções nada mais são do que remédios para trazer os pecadores de volta ao nosso Senhor.” Calvino advertiu contra a disciplina que se degenera em “carnificina espiritual”, e foi especialmente crítico do rigor indevido tanto pelos católicos romanos como da disciplina anabatista.

Muitas das questões envolviam assegurar que os paroquianos conhecessem a fé cristã o suficiente para receber a Comunhão. Não se pode receber o sacramento enquanto se crê em crenças e práticas católicas romanas ou anabatistas; a maioria dos casos, entretanto, estava na categoria de aconselhamento, admoestação e instrução, em vez de censura séria (muito menos excomunhão). Dentro destes parâmetros, a excomunhão seria rara. Além disso, essas questões tinham que permanecer privadas; a maledicência também poderia provocar uma carta do consistório.

Deve-se notar que nenhum ministro ou presbítero - nem mesmo Calvino - poderia exercer disciplina individualmente. Todas as ações eram as do Consistório - ministros e presbíteros - como um corpo em comum consenso. Manetsch até relaciona casos de ministros sendo examinados e removidos do cargo. E apesar do estereótipo, ele relata que os pecados sexuais foram responsáveis por “apenas cerca de 13% de todas as suspensões” da Comunhão. Em alguns casos, o Consistório solicitou ao Pequeno Conselho que fornecesse emprego remunerado para as jovens mulheres e “defendia a causa de órfãos desamparados, trabalhadores pobres, prisioneiros maltratados, refugiados desprezados e desajustados sociais”.

O mesmo rigor em sua pesquisa é evidente ao relacionar o desenvolvimento da academia (que Lambert Daneau chamou de “um dos mercados mais ricos para o comércio intelectual do mundo”) e a composição de pastores, professores e estudantes atraídos para Genebra. Embora tirada principalmente das “classes urbanas da Europa francófona, assim como da nobreza francesa”, muitos outros vieram da Itália, Espanha, Inglaterra, Polônia e além. Ele também aponta o notável foco e energia da Companhia de Pastores para missões - incluindo a primeira missão protestante para o Novo Mundo (no Brasil).

Explorando o ministério da Palavra e Sacramentos em Genebra, Manetsch revela a relativa ausência de pregação na cidade antes da Reforma. Como na maioria dos lugares, os sermões eram raros, exceto pela aparição ocasional de um pregador itinerante.

Ao contrário da impressão geral, Calvino não era o único pastor da igreja de St. Pierre, a principal paróquia da cidade, mas compartilhava da rotação com os outros. Os sermões eram frequentes (vários no Domingo e outros no decorrer da semana; Calvino pregava de 18 a 20 vezes por mês). No entanto, Calvino e a Companhia limitaram os cultos a não mais do que uma hora. Além dos cultos de oração de Quarta-feira, havia estudos semanais sobre passagens bíblicas, em que os paroquianos tinham um papel ativo nas discussões.

Pontos Marcantes

Um dos pontos marcantes de Manetsch, particularmente em vista da prática contemporânea, diz respeito à redefinição do ministério pastoral. Primeiro, houve um esforço determinado para evitar um culto à personalidade: “Calvino, o pregador, quase nunca fala de seus assuntos pessoais”. É o ministério de Cristo, não o próprio ministro, que deve estar à frente e no centro do povo de Deus. Segundo, Manetsch observa: “O pregador não era o proprietário de um púlpito ou o comandante de sua congregação: foi Cristo quem presidiu a sua igreja por meio da Palavra”.

A Companhia de Pastores foi edificada, como instituição, com base no princípio básico de que todos os ministros cristãos possuíam igual autoridade sob a Palavra para proclamar o evangelho e administrar os sacramentos. Por isso, Calvino e seus colegas rejeitaram qualquer noção de preeminência ou hierarquia de autoridade dentro da companhia pastoral. Pelo menos em teoria, os ministros do evangelho cristão eram intercambiáveis.

De fato, cada um se submeteria à decisão da maioria. Manetsch aponta a comparação de Calvino acerca dos ministros aos “amigos do noivo” que têm o privilégio de “exercer autoridade sobre a igreja para representar a pessoa do Filho de Deus”. No entanto, eles devem observar a diferença entre “eles mesmos e o que pertence ao Esposo” e não “ficar no caminho de Cristo tendo somente o domínio em sua igreja ou governando-o somente por sua Palavra.” Calvino continuou: “Aqueles que ganham a igreja para si mesmos, em vez de para Cristo, violam a casamento que eles deveriam honrar”.

O caráter fraterno dos ministros torna-se uma característica recorrente no estudo de Manetsch. “Quanto menos discussões de doutrina tivermos juntos, maior o perigo de opiniões perniciosas”, observou Calvino. “A solidão leva a um grande abuso.” Consequentemente, havia amplas oportunidades de avaliação pelos pares a portas fechadas entre os pastores, variando de avaliações de sermões a discussões doutrinárias e ao manejo dos assuntos da igreja.

Existem alguns problemas com a Companhia de Pastores de Calvino que poderiam ser levantados. Manetsch apresenta uma pesquisa útil sobre o culto de adoração em Genebra, mas alguns elementos da liturgia que Calvino elaborou não estão inclusos. Os leitores também podem achar um tanto confuso que “Reformado” seja “reformado” (em minúsculas), mesmo que as referências às tradições católicas romana, luteranas e anabatistas sejam todas em maiúsculas. Embora provavelmente não intencional, isso pode minar o ponto abundantemente apoiado em todo o trabalho de que Calvino era membro e contribuiu para uma tradição maior do que ele. No entanto, isso não diminui a utilidade de um estudo que reúna essa amplitude de pesquisa em um único volume.


Artigo extraído de https://www.thegospelcoalition.org/reviews/calvins-company-pastors/ artigo publicado em 25 de Fevereiro de 2013. Acessado em 24 de Maio de 2019. Traduzido por Ewerton B. Tokashiki.

24 abril 2020

Estudando a Confissão de Fé de Westminster

Se você pretende estudar o contexto histórico e a estrutura teológica da Confissão de Fé de Westminster, permita-me sugerir alguns livros que são indispensáveis para uma pesquisa proveitosa. A lista de livros e textos não pretende ser exaustiva, mas apenas uma amostra do que está disponível para incentivar aos pesquisadores.

HISTÓRIA DA ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER

1. A. Craig Troxel, “Divine Right” Presbyterianism and Church Power (Diss. PhD., Westminster Theological Seminary, 1998).

2. Acts of the General Assembly of the Church Scotland 1632-1842 – Reprinted from the original edition, under the superintendence of The Church Law Society (Edinburgh, The Edinburgh Printing and Publishing Company, 1898).

3. B.B. Warfield, "The Westminster Assembly and its work" in: The Works of B.B. Warfield (Grand Rapids, Baker Book, 2003), vol. 6

4. Chad van Dixhoorn, The Minutes and Papers of Westminster Assembly 1643-1652 (Oxford, Oxford University Press, 2012), 5 vols.

5. David R. Ehalt, The Development of Early Congregational Theory of the Church, with Special Reference to the Five "Dissenting Brethren" at the Westminster Assembly (Diss. PhD., Claremont Graduate School and University Center, 1969).

6. Ethyn Williams Kirby, “The English Presbyterians in the Westminster Assembly” in: Church History, Vol. 33, No. 4 (Cambridge University Press on behalf of the American Society of Church History, Dec., 1964), pp. 418-428.

7. George Gillespie, The Works of George Gillespie (AB Canada: Still Waters Revival Books, 1991), vol. 2.

8. Guilherme Kerr, A Assembleia de Westminster (São José dos Campos, Editora Fiel, 1992).

9. James Kevin Culberson, For Reformation and Uniformity”: George Gillespie (1613-1648) and the Scottish Covenanter Revolution (Diss. PhD., University of North Texas, 2003).

10. John H. Leith, Assembly at Westminster – Reformed Theology in the Making (Atlanta, John Knox Press, 1978).

11. J. Ligon Duncan, III, ed., The Westminster Confession into the 21st Century (Ross-shire, Mentor Imprint, 2005), 3 vols.

12. John Lightfoot, The Journal of the Proceedings of the Assembly of Divines: From January 1, 1643, to December 31, 1644 in: The Whole Works of the Rev. John Lightfoot, D. D., editado por John Rogers, Vol. 13.

13. John R.H. Corbett, The Churches in England and Scotland, 1603-1649: A Study in Church Union (Thes. S.T.M., McGill University, 1970).

14. Larry Jackson Hglley, The Divines of the Westminster Assembly - A Study of Puritanism and Parliament (Diss. PhD., Yale University, 1979).

15. Paul Joseph Smith, The Debates on Church Government at the Westminster Assembly of Divines, 1643-1646 (Diss. PhD., Boston University Graduate School, 1975).

15. Robert Baillie, The Letters and Journals of Robert Baillie (Edinburgh, A. Laurie Publisher, 1842) 3 vols.

16. Robert Letham, The Westminster Assembly – Reading its Theology in Historical Context (Phillipsburg, P&R Publishing, 2009).

17. Samuel R. Gardiner, ed., Constitutional Documents of the Puritan Revolution of from 1628-1660 (Oxford, Oxford University Press, The Clarendon Press, 1889).

18. Wayne R. Spear, Covenanted Uniformity in Religion: The Influence of the Scottish Commissioners upon the Ecclesiology Assembly of the Westminster (Pittsburgh, University of Pittsburgh, Diss. Ph.D., 1976).

19. William M. Hetherington, History of the Westminster Assembly of Divines (Elgin, Puritan Publications, 2006).


COMENTÁRIOS DA CONFISSÃO DE FÉ

1. Chad van Dixhoorn, Guia de estudos da Confissão de Fé de Westminster (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2017).

2. David Dickson, Truth’s victory over error – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Edinburgh, The Banner of Truth, 2007).

3. G.I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes (Edinburgh, The Banner of Truth, 1964).

4. Gordon H. Clark, What do Presbyterians believe? (Unicoi, The Trinity Foundation, 2001).

5. Hodge, A.A., Confissão de Fé de Westminster Comentada (São Paulo, Editora Os Puritanos, 1999).

6. Robert Shaw, The Reformed Faith – an exposition of the Westminster Confession of Faith (Inverness, Christian Focus Publications, 1973).

7. Wayne R. Spear, Faith of our fathers – a commentary on the Westminster Confession of Faith (Pittsburgh, Crown & Covenant Publications, 2006).


SITES

1. www.westminsterconfession.org [a biografia, documentos e as obras dos membros da Assembleia de Westminster].

2. www.prdl.org [as obras dos teólogos e os documentos da Assembleia de Westminster e diversos outros]

22 março 2020

D.A. Carson e sua interpretação imaginativa do dom de línguas

por Ewerton B. Tokashiki


índice

1. Qual o problema?
2. Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?
3. O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?
4. Anexo


Qual o problema?

Se tem um escritor que aprecio ler é D.A. Carson. De fato, ele é uma referência acadêmica de competência inquestionável. O primeiro livro dele que li foi “Exegese e suas falácias”[1] e, a partir daí, passei a admirar a capacidade de discernir erros exegéticos em grandes intérpretes da Bíblia. Todavia, a minha decepção veio com a leitura do seu livro “A manifestação do Espírito – a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14”. Quando soube que ele era um continuísta, fiquei muito curioso querendo saber como seria a abordagem exegética de alguém com a competência como a dele? A leitura do capítulo 3 “Profecia e línguas: buscando o que é melhor (14.1-19)” trouxe a inevitável frustração. Não vou me deter resumindo a parte introdutória do capítulo, que é de menor importância, mas de modo objetivo irei para a análise de sua opinião sobre o dom de línguas. Resumidamente, é necessário antecipar, por amor da clareza, que Carson faz uma distinção entre o dom de línguas de Atos e 1Coríntios e o falar em línguas na atualidade, e apesar disso, ele tenta explicar a relação entre estes diferentes fenômenos.


Como Carson interpreta o dom de línguas em At e 1Co?

Há um aspecto muito positivo neste capítulo. Carson crê que tanto as ocorrências de línguas em Atos como 1Coríntios eram idiomas, e não manifestações extáticas. Ele declara que “devo simplesmente registrar minha convicção de que o que Lucas descreve em Pentecostes são idiomas existentes”.[2] Então, logo em seguida apresenta a conclusão de que
Paulo considerava o dom línguas um dom de idiomas existentes, ou seja, de línguas que eram cognitivas, fossem elas de homens, ou de anjos. Além disso, se ele sabia dos detalhes de Pentecostes (atualmente, uma opinião impopular no mundo acadêmico, mas totalmente defensável em minha opinião), seu entendimento sobre línguas deve ter sido moldado, até certo ponto, por esse evento. Certamente as línguas em Atos exerceram algumas funções diferentes das que eram exercidas em 1Coríntios; mas não há evidência substancial que sugira que Paulo pensasse as duas como essencialmente diferentes.[3]

Nesta parte a maioria dos cessacionistas concordam com ele. Digo, a maioria, porque há alguns cessacionistas que não creem que os dois eventos se refiram ao mesmo fenômeno. Mas, eu fecho plenamente com Carson neste ponto!


O que Carson pensa das manifestações do atual falar em línguas?

Ele divide a sua argumentação em três partes. Primeiro, ele expõe que apesar de não ter fundamento bíblico, a experiência é válida por ser funcionalmente benéfico para quem a usa. A primeira constatação que Carson faz sobre o moderno fenômeno de falar em línguas é de que “não é nenhum idioma humano. Os padrões e as estruturas exigidos por todo idioma humano conhecido simplesmente não estão presentes nesses exemplos. Ocasionalmente, uma palavra reconhecível escapa; mas isso é estatisticamente provável, dado o grande volume de verbalização”.[4] A sua próxima conclusão é que “as línguas atuais, em termos lexicais, são não comunicativas, e os poucos exemplos de casos de xenoglossia atuais são tão mal atestados que nenhum peso pode ser colocado neles.”[5] Em outras palavras, nas atuais manifestações do falar em línguas, segundo Carson, não há uma comunicação direta inteligível. E apesar disso, a sua conclusão tende para o pragmatismo, ao declarar que “o atual fenômeno parece fazer mais bem do que mal, tem ajudado muitos crentes no que diz respeito a adoração, oração e compromisso, e, por isso, deveria talvez ser avaliado como um bom dom de Deus, apesar de não ter nenhuma garantia bíblica explícita.”[6] O que vemos aqui é a completa negação do princípio fundamental sola Scriptura, a favor de uma experiência que não tem base na Escritura Sagrada, por meros motivos pragmáticos. Essa afirmação já seria suficiente para fechar o livro, e perder todo o interesse na explicação de Carson. Mas a minha curiosidade me obrigou a terminar a leitura do capítulo.

Em segundo lugar, após comentar a tese de Poythress que oferece três possíveis explicações para o fenômeno de falar em línguas,[7] Carson desdobra uma quarta possibilidade de significado do suposto dom. Ele propõe que esse fenômeno são “padrões de fala suficientemente complexos a ponto de poderem carregar todos os tipos de informação cognitiva em algum tipo de ordem codificada, ainda que linguisticamente esses padrões não sejam identificáveis como idioma humano”.[8] Alguns termos fogem de seu sentido comum, como “informação cognitiva” e “ordem codificada” e passam a ter o sentido de não-sei-o-que-significa. Carson não consegue perceber o nível de absurdo que a sua proposta o levou. Daí ele se admira porque é desprezada, apesar de, segundo ele, a sua proposta “é também logicamente possível, ainda que comumente seja ignorada; e ela satisfaz as restrições tanto daquilo que é apresentado nos documentos bíblicos do primeiro século quanto de alguns dos fenômenos atuais. Não entendo como isso possa ser ignorado.” Ele não explica o que é “logicamente possível”, nem a que fenômenos do primeiro século se refere, porque obviamente não é às experiências de Atos, nem de 1Coríntios.

O terceiro argumento é a tentativa de definir, por pressuposto, que o moderno falar em línguas é uma vocalização livre. A teoria é uma tentativa de justificar a irracionalidade de algo que não deveria ser classificado como um idioma.[9] A explicação segue que “Poythress nos relembra que tais vocalizações livres ainda podem carregar conteúdo além de uma imagem vaga do estado emocional do falante.”[10] Quando a explicação ficou questionavelmente estranha, Carson ainda propõe uma “ilustração criativa”, sem nenhuma fundamentação exegética! Vou transcrever a sua explicação:[11]

Imaginem que a mensagem é:

“Louvarei ao Senhor, pois seu amor dura para sempre.”

Ao retirarmos as vogais, obtemos:

LV SNHR OS MR DR PR SMPR.

Isso pode parecer um pouco estranho; contudo quando nos lembramos que o hebraico moderno é escrito quase sem vogais, podemos imaginar que, com certa prática, isso poderia ser lido com bastante tranquilidade. Agora, remova os espaços e, começando pela primeira letra, reescreva a sequência usando cada terceira letra repetidamente por toda a sequência até que todas as letras sejam usadas. O resultado é:

LNPMRSRSRSDRPVHSRDM.

Agora adicione um som de “a” depois de cada consoante e divida arbitrariamente a unidade em pedaços:

LANAPA MARA SARASARA SADARA PAVA HASARA PAMA.

Acredito que isso não é diferente das transcrições de certas línguas atuais. Certamente é muito parecido com algumas que já ouvi. Mas a questão importante é que isso transmite informação, desde que você conheça o código. Qualquer um que conheça os passos que dei poderia revertê-los a fim de voltar à mensagem original.


É inacreditável que esta seja a sua proposta sobre a prática atual de falar em línguas. O continuísmo de Carson o força a uma explicação no mínimo estranha. Todavia, ela não é apenas diferente de qualquer outra explicação, que até mesmo pentecostais e carismáticos já ofereceram, ela é assumidamente não bíblica! O autor reconhece a total ausência de correlação entre o seu correto entendimento do dom de falar em línguas, conforme At e 1Co, e oferece uma explicação, que segundo ele, é um “padrão de verbalização não poderia ser desprezado de forma legítima como se fosse uma linguagem sem nexo. Ele é tão capaz de possuir conteúdo proposicional e cognitivo, assim como qualquer outro idioma humano conhecido.”[12] Isso se assemelha a “língua do p” que os adolescentes usam para se comunicarem! Onde está o elemento sobrenatural do dom de línguas? Neste caso, Carson reconhece que isso seria apenas uma questão de saber a “chave hermenêutica” para decifrar o segredo do que se fala; em outras palavras, o falar e o interpretar não seriam dons sobrenaturais, mas apenas o conhecimento de técnicas de linguística.

Creio que D.A. Carson deveria escrever uma 3ª edição revisada de “Exegese e suas falácias”. Nesta versão ampliada seria interessante acrescentar um 6º capítulo sob o título: “Falácias imaginativas”. Confesso que esperava um melhor argumento continuísta do Carson. Sendo justo com o seu pensamento, confesso que concordo com a exegese de Carson sobre o falar em línguas em At e 1Co, mas não consigo digerir a sua interpretação da experiência contemporânea de falar em línguas.

Ele é um respeitável scholar de exegese em Novo Testamento. Ainda admiro o seu trabalho exegético, apesar de estar decepcionado com o seu insustentável continuísmo. Concordo com a sua interpretação das manifestações das línguas mencionadas em At e 1Co como sendo o mesmo fenômeno sobrenatural de falar um idioma humano, sem ter um aprendizado prévio, mas a sua explicação para as manifestações das “línguas contemporâneas” é absurdamente decepcionante.






Anexo


Caso você culpe o tradutor, ou a editora de distorcer “a ilustração imaginativa” de D.A. Carson, transcrevo o texto original para fins comparativos:[13]


Suppose the message is:

Praise the Lord, for his mercy endures forever.


Remove the vowels to achieve:

PRS TH LRD FR HS MRC NDRS FRVR.


This may seem a bit strange; but when we remember that modern Hebrew is written without most vowels, we can imagine that with practice this could be read quite smoothly. Now remove the spaces and, beginning with the first letter, rewrite the sequence using every third letter, repeatedly going through the sequence until all the letters are used up. The result is:

PTRRMNSVRHDHRDFRSLFSCRR.


Now add an ‘a’ sound after each consonant, and break up the unit into arbitrary bits:

PATARA RAMA NA SAVARAHA DAHARA DAFARASALA FASA CARARA.


I think that is indistinguishable from transcriptions of certain modern tongues. Certainly it is very similar to some I have heard. but the important point is that it conveys information provided you know the code [bold reflects Carson’s use of italics]. Anyone who knows the steps I have taken could reverse them in order to retrieve the original message.


NOTAS:

[1] Publicado pela Edições Vida Nova em 1992, e posteriormente, alterando o título numa 2ª edição em 2001 para “Perigos da interpretação bíblica”.
[2] D.A. Carson, A manifestação do Espírito– a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios 12-14 (São Paulo, Edições Vida Nova, 2013), p. 82.
[3] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[4] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 85.
[5] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[6] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 86.
[7] A sua posição teológica está AQUI acessado em 22/03/2020. A refutação da posição de Pouthress está AQUI acessado em 22/03/2020.
[8] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[9] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[10] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 87.
[11] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, pp. 87-88. Os itálicos são do autor.
[12] D.A. Carson, A manifestação do Espírito, p. 88.
[13] D.A. Carson, Showing the Spirit – A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14 (Grand Rapids, Baker Books, 1987), pp. 85-86.

07 fevereiro 2020

Uma breve história da Assembleia de Westminster

Wayne R. Spear


O dia 1° de julho de 1993 marcará o 350° aniversário do início da Assembleia de Westminster, uma reunião cujo trabalho moldou profundamente a teologia daquelas igrejas que carregam o nome de presbiteriana, além de outras igrejas como as Congregacionais e algumas Batistas. A Assembleia de Westminster não foi uma assembleia eclesiástica ordinária, mas uma comissão consultiva convocada pelo Parlamento inglês com o propósito de legislar a reestruturação da Igreja da Inglaterra em um tempo de grande turbulência social e política. A Assembleia foi composta por ministros (teólogos) e leigos que eram membros das Casas do Parlamento. Eles se encontraram na Abadia de Westminster por mais de cinco anos e meio, e, durante esse período, produziram documentos que são bastante conhecidos e utilizados hoje: a Confissão de Fé, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo. Espera-se que a comemoração deste aniversário do início da Assembleia de Westminster venha a estimular um novo interesse na história da Assembleia e um novo estudo dos excepcionais documentos que ela produziu.


Antecedentes da Assembleia

Assembleia de Westminster não se reuniu num lugar de silêncio para uma reflexão teológica sem perturbações. Em vez disso, se reuniu na capital da nação, a poucos passos das Casas do Parlamento, numa época de guerra civil na Inglaterra.

O rei James I da Inglaterra, famoso por seu relutante apoio à versão “King James” da Bíblia, foi sucedido no trono por seu filho Charles, que era mais cruel, porém menos astuto do que seu pai. Charles I, com a impaciente assistência de William Laud, o arcebispo de Canterbury, tentou governar sem a assistência ou interferência do Parlamento durante onze anos. Além das políticas econômicas que muitos consideravam como desastrosas, ele também seguiu um curso de revisão da liturgia da Igreja da Inglaterra para torná-la mais parecida com muitas práticas da Igreja Católica Romana. Os que resistiram foram punidos com prisão, exílio e mutilação.

Os resistentes costumavam fazer parte de um grupo dentro da Igreja da Inglaterra que ficou conhecido por seus inimigos como “puritanos”. Profundamente influenciados pelos princípios da Reforma calvinista, eles lutaram desde o reinado de Elizabet I para trazer a greja para mais perto do ensino bíblico. Durante esse tempo, muitos futuros membros do Parlamento foram influenciados por pregadores puritanos. Na década de 1640, a resistência às políticas de Charles I moveu-se dos púlpitos e das ruas para o Parlamento, principalmente a Câmara dos Comuns. John Pym, presidente da casa, era um puritano convicto – e se tornou posteriormente membro da Assembleia de Westminster.

O tesouro de Charles se esgotou por causa dos seus esforços para reprimir a revolução dos Covenanters na Escócia, que começou com o Pacto Nacional de 1638; então, ele relutantemente convocou o Parlamento Inglês para obter mais impostos. O Parlamento recusou conceder receitas, a menos que Charles concordasse em responder às suas reivindicações. Entre as exigências do Parlamento estava uma mudança no governo da igreja, pois os Puritanos que lideravam a Câmara dos Comuns estavam determinados a remover do poder os bispos nos quais Charles encontrou alguns de seus mais fortes aliados.

Em 1642, quando as negociações falharam, Charles tentou invadir a Câmara dos Comuns para prender os líderes. Os guardas armados retiraram suas tropas e Charles se retirou de Londres. A grande Guerra Civil Inglesa havia começado.


O chamado e o trabalho da Assembleia

O Parlamento (excluindo aqueles que apoiavam o rei) adotou um decreto em 12 de Junho de 1643, convocando uma assembleia de “teólogos eruditos e piedosos” para auxílio no estabelecimento de um governo na igreja da Inglaterra que fosse “o mais agradável à santa Palavra de Deus, e o mais apto a obter e preservar a paz da igreja” (Mitchell, The Westminster Assembly, p. ix.). O decreto nomeou dez membros da Câmara dos Lordes, vinte membros da Câmara dos Comuns e cento e vinte e um ministros.

Nem todos os nomeados compareceram de fato; o rei proibiu a presença e alguns nomeados obedeceram. Sessenta e nove se reuniram para a sessão de abertura. À medida que a Assembleia ia se estendendo, alguns foram ficando doentes ou exaustos. A frequência habitual era provavelmente em torno de sessenta pessoas.

O Parlamento nomeou o moderador da Assembleia e dois escribas. Um debate quase ilimitado foi permitido; os membros frequentemente reclamavam da duração dos debates. Thomas Goodwin advertiu aos seus irmãos que se eles estudassem mais, debateriam menos. As decisões eram tomadas por maioria de votos. Um voto notável que passou por essa margem foi em favor das diaconisas; a ação foi silenciosamente interrompida na edição final.

As regras previam que se um membro tivesse uma discordância de qualquer decisão, poderia registrá-la e apresentar os seus argumentos. Num tempo de guerra civil, essa medida significava mais do que um simples alívio de consciência. Se o Parlamento perdesse a guerra, os membros da Assembleia enfrentariam julgamentos por traição, e um registro por escrito da dissidência poderia ser útil.

A princípio, a Assembleia se reuniu na ornamentada capela de Henry VII, atrás do principal santuário da Abadia. Quando veio o tempo frio, ela foi transferida para uma menor, a Câmara de Jerusalém, onde tinha “um bom fogo” (Robert Baillie, Letters and Journals, p. 107). Ali estavam assentados de acordo com a ordem, os lordes mais próximos do fogo.


As visões representadas na Assembleia

Frequentemente, historiadores escrevem sobre os “partidos” da Assembleia. Não se tratava de grupos organizados ou facções políticas, mas de alianças inconstantes, que representavam pontos de vista divergentes sobre certas questões, geralmente associadas ao governo da igreja.

Alguns dos nomeados como membros da Assembleia estavam comprometidos com o governo da igreja episcopal, incluindo três bispos. Nenhum deles participou dos principais trabalhos da Assembleia.

Alguns dos ministros ingleses eram “presbiterianos pragmáticos”, abertos ao sistema de governo presbiteriano como a única opção viável nas circunstâncias, mas favorecendo o governo limitado dos bispos. Por exemplo, Edward Reynolds, que colaborou na redação da Confissão de Westminster, serviu posteriormente como bispo de Norwich.

Um pequeno número de membros da Assembleia foi chamado “erastianos”. Eles defendiam a supremacia do magistrado civil sobre a igreja. O seu porta-voz mais eminente era um membro do Parlamento, chamado John Selden. Eles tinham poderosos aliados no Parlamento, onde havia muito receio de uma igreja que operaria com alguma independência do Estado.

Havia muitos membros da Assembleia que eram convictamente comprometidos com o sistema de governo presbiteriano. Eles foram ensinados pelos líderes puritanos elisabetanos Thomas Cartwright e Walter Travers. Na maioria das questões, eles concordavam com os comissários escoceses.

Outro pequeno grupo, mas bastante influente, eram os ingleses “independentes” (esse nome foi dado pelos seus oponentes). Eles sustentavam que eram um caminho intermediário entre independência e presbiterianismo. Thomas Goodwin e Phillip Nye eram seus porta-vozes mais proeminentes. Dissidentes na Escócia, incluindo os presbiterianos reformados, vieram depois a adotar pontos de vista sobre a membresia da igreja que se assemelhavam aos deles.


A participação escocesa

Os membros da Assembleia de Westminster eram ingleses. Eles se reuniram em solo inglês para debaterem a doutrina, o culto e o sistema de governo da igreja da Inglaterra. O trabalho da Assembleia, entretanto, teve seu efeito mais duradouro na igreja da Escócia, e em suas igrejas filhas. A providência de Deus usou desenvolvimentos militares e políticos para trazer esse surpreendente resultado.

Em 1643, o Parlamento inglês parecia estar perdendo a guerra contra o rei. O Parlamento enviou uma delegação à Escócia, que resistiram com sucesso o rei Charles, para obter ajuda do exército escocês. O tratado sobre o qual a Escócia concordou em enviar assistência foi chamado Liga Solene e Aliança. Os seus termos incluíam um compromisso entre os países de procurar trazer as igrejas da Inglaterra, Irlanda e Escócia à “mais próxima união e uniformidade na religião, confissão de fé, sistema de governo, diretório para adoração e catecismo”.

Para cumprir essa promessa, os comissários foram enviados para participarem da Assembleia de Westminster. Os comissários eram os presbíteros Lord Maitland e Archibald Johnston, e os ministros Alexander Henderson, Samuel Rutherford, Robert Baillie e George Gillespie. Eles eram muito ativos nos debates e nos trabalhos da Assembleia, mas não votavam.


Os documentos da Assembleia

A composição de uma nova confissão não foi o principal propósito para o qual a Assembleia foi convocada. Contudo, essa situação foi mudada com a adoção da Liga Solene e Aliança, que reivindicava uma Confissão de Fé comum. Nem os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, nem a Confissão Escocesa de 1550 foram consideradas apropriadas para esse fim.

A Assembleia gastou aproximadamente três anos na produção da Confissão que veio a ter seu nome, de Agosto de 1644 até abril de 1647. A Confissão incorporou a fé reformada como desenvolvida em Genebra por João Calvino e transmitida por teólogos britânicos como Jeremiah Whitaker (o teólogo citado mais frequentemente nos debates), William Perkins e William Ames.

A Confissão de Fé de Westminster foi a única dentre as confissões reformadas a usar a teologia pactual como estrutura teológica básica.

Os catecismos eram conteúdo da educação cristã no século XVII. Alguns membros tinham publicado os seus próprios catecismos antes da reunião da Assembleia. Era natural, então, que a Assembleia providenciasse o ensino das doutrinas da Confissão por meio de Catecismos. Após um grande esforço para escrever um único catecismo, a Assembleia decidiu por dois: um curto e simples para aqueles que eram “leigos e sem instrução”, e outro para aqueles que eram “entendidos” (Mitchell, Westminster Assembly, p. 418).

O Catecismo Maior foi debatido entre Abril e Outubro de 1647. É conhecido principalmente por sua exposição detalhada dos Dez Mandamentos. Tem muitas belas particularidades que merecem ser melhor conhecidas. Por exemplo, ecoa o Catecismo de Heidelberg tratando da obediência à lei de Deus como uma maneira de cada pessoa regenerada poder expressar gratidão a Deus pela graça no evangelho. Tem questões sobre a doutrina da revelação e a da Igreja (o que não há no Breve Catecismo). A aplicação da redenção é tratada sob os temas da união e comunhão com Cristo, enfatizando a dimensão prática da fé cristã.

O Breve Catecismo foi preparado inicialmente em Agosto de 1647, mas foi debatido somente por um breve período, entre o final de Outubro e Novembro, antes de ser aprovado. O Breve Catecismo foi o mais popular na Escócia e talvez o mais influente produto da Assembleia de Westminster. É até irônico que os comissários escoceses tenham contribuído muito pouco nessa composição; a maioria deles voltou para casa antes do Catecismo ser finalizado na Assembleia.

Outros documentos produzidos na Assembleia não são muito bem conhecidos. O principal objetivo da convocação da Assembleia foi produzir um plano para a reforma do governo da igreja. Sobre esse assunto, houve considerável desacordo entre os vários membros. A Assembleia ficou grandemente ocupada debatendo assuntos do governo da igreja de Setembro de 1643 até Dezembro de 1644. O material que ela aprovou nesse período é agora encontrado como um documento intitulado “The Form of Presbyterial Church-Government”. Esse documento era uma espécie de relatório em desenvolvimento, ainda não colocado na forma final.

A palavra final sobre o governo da igreja, incluindo muitos direcionamentos práticos e uma seção sobre disciplina eclesiástica, é encontrado no Diretório de Governo da Igreja. Esse documento nunca recebeu aprovação oficial nem na Inglaterra nem na Escócia, e assim é quase desconhecido hoje. Mereceu mais atenção, como uma expressão mais completa das visões da Assembleia, e reflete um processo editorial mais cuidadoso.

Os puritanos tinham uma preocupação de como a adoração da igreja poderia ser “de acordo com a Palavra de Deus”. Apesar de apreciarem muitas características do Livro de Oração Comum, eles estavam comprometidos em eliminar toda característica que parecia promover um retorno a práticas da igreja não reformada. A Assembleia de Westminster foi solicitada pelo Parlamento a produzir um “Diretório de Culto”. O trabalho da comissão do diretório começou em Dezembro de 1643, e a Assembleia foi capaz de aprovar um documento completo um ano depois. O Diretório inclui seções sobre a leitura pública da Escritura, a oração, a pregação (com uma maravilhosa descrição do “estilo simples de pregação puritana” e as qualidades necessárias para o pregador da Palavra), os sacramentos, o Dia do Senhor, casamento, cuidado com os doentes e sepultamento dos mortos, e os dias de jejum e de ação de graças (característica marcante da piedade neste tempo).

O Diretório Para a Adoração Pública de Deus tem um parágrafo sobre o cântico de Salmos no louvor. Para implementar uniformidade no louvor, a Assembleia produziu um saltério. Francis Rous, um membro leigo da Assembleia, produziu salmos metrificados. A Assembleia revisou seu trabalho e ordenou que apenas esse livro fosse usado no culto público da igreja.


Os resultados da Assembleia

A Assembleia de Westminster começou com grandes esperanças que o Cristianismo reformado prevalecesse nas ilhas britânicas. Na providência de Deus, aqueles que mantiveram essa esperança foram desapontados. A legislação preparada pela Assembleia de Westminster recebeu aprovação qualificada do Parlamento Inglês, que foi plenamente ratificada na Escócia. Essa aprovação durou pouco tempo.

Na Guerra Civil, um comandante de cavalaria chamado Oliver Cromwell teve muitas notáveis vitórias, e com seu sucesso militar o seu poder político cresceu. Quando ele veio a ser Lorde Protetor, Cromwell, um congregacional, colocou um fim nos esforços de instalar um sistema de governo presbiteriano na Igreja da Inglaterra. Quando ele invadiu a Escócia, ele restringiu a operação do governo presbiteriano em vigor.

O reinado de Cromwell foi sucedido pelo tirânico reinado de Charles II, que repudiou o seu próprio juramento de aderência ao Pacto e perseguiu ferrenhamente todos os que permaneceram fiéis.

Quando William e Mary chegaram ao trono, durante a Revolução de 1688, a igrejada Inglaterra manteve o governo episcopal, o Livro de Oração Comum e os Trinta e Nove Artigos, que caracterizaram a existência dessa igreja antes da reunião da Assembleia de Westminster.

Na Escócia, a Confissão de Westminster tornou-se o credo oficial da Igreja, mas nenhum outro documento da Assembleia de Westminster fez parte da lei eclesiástica da igreja escocesa. Os outros documentos, entretanto, continuaram a ter um impacto significativo na Escócia. Exceto pelo Diretório de Governo, eles foram encontrados numa coleção de documentos, sob o título "A Confissão de Fé de Westminster", que foram impressos quase continuamente até os dias atuais.

As igrejas presbiterianas dissidentes na Escócia, e as igrejas presbiterianas em outros países, deram um status oficial, não apenas à Confissão, mas também a vários outros documentos de Westminster. Especialmente o Breve Catecismo é conhecido e amado, uma vez que a memorização se tornou num requisito padrão para crianças nas igrejas presbiterianas. O interesse e a discussão dos Padrões de Westminster parecem ser crescentes.

A história da Assembleia de Westminster é tanto humilhante quanto encorajadora para os cristãos. É humilhante porque contém a história do fracasso dos cristãos sinceros em alcançar o que eles se propuseram a fazer: a completa reforma da igreja “de acordo com a Palavra de Deus”. Mas também é encorajadora, porque o Senhor tem usado a obra da Assembleia para dar claridade teológica e direção bíblica para as igrejas reformadas (e outras também) por três séculos e meio. Os pensamentos de Deus não são nossos pensamentos, nem os seus caminhos, os nossos caminhos.

A ele seja a glória para todo o sempre! Amém.


Acessado de https://www.christianstudylibrary.org/article/brief-history-westminster-assembly acessado em 30/01/2020.

Tradução de Daniel Tanure
Revisão por Rev. Ewerton B. Tokashiki.