20 dezembro 2019

O que é Theotokos?

O termo grego Theotokos se relaciona estreitamente com o tópico de Cristologia. Apesar da expressão se referir diretamente à pessoa da mãe do Redentor, na verdade indica, segundo o Credo de Calcedônia, a afirmação da união das duas naturezas e a declaração que ele é Deus-homem [theantropico]. Então, negar o termo, implica numa negação dogmática da ortodoxia cristológica. Esse foi o erro denunciado em Nestorius.

É verdade que há muita e desnecessária confusão no uso deste termo, tanto por papistas como por protestantes. Os católicos romanos tendem a erros devido à tradição da mariolatria [vide* hiperdulia], que se desenvolveram nos escritos de teólogos do período da patrística e medievais, e solidificaram-se nas decisões conciliares de Trento, Vaticano I e Vaticano II.

Os protestantes incorrem também, em geral, em erros. O equívoco destes é por não entenderem, ou não interpretarem, corretamente o contexto histórico e dogmático da controvérsia nestoriana, que culminou no Concílio de Calcedônia [451 d.C.], e talvez, também, por um errôneo sentimento anti-Maria. Entretanto, o risco aqui é alinhar-se com a heresia nestoriana, negando a tradição ortodoxa da Igreja Cristã.

Ambos os erros são perigosos e devem ser evitados. Assim, ao sermos ensináveis, espera-se que é melhor aprender com os melhores historiadores reformados na área de teologia histórica. Abaixo está o Credo de Calcedônia e, em seguida, duas boas definições sobre Theotokos. Espero que o assunto se esclareça um pouco mais, e ocorra o desafio de estudarmos melhor a teologia dos Pais da Igreja, bem como os concílios deste período e suas resoluções confessionais.

Declaração de Fé Calcedônia [451 d.C.]
(...) Todos nós, perfeitamente unânimes, ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, perfeito quanto à humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, constando de alma racional e de corpo; consubstancial [hommousios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, excetuando o pecado”, gerado segundo a divindade antes dos séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [Theotókos]; um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis;[1] a distinção da naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou separado em duas pessoas. Mas um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor; conforme os profetas outrora a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos ensinou e o credo dos padres nos transmitiu.[1]

Philip Schaff nos oferece numa nota, após fornecer o texto do Credo em grego, latim, e sua tradução para o inglês, a seguinte explicação:
O predicado θεοτόκος, a portadora de Deus, Dei genitrix (al. quæ Deum peperit, ou desde divini numinis creatrix), é diretamente contra Nestorius, originalmente não pretendia exaltar a virgem Maria, mas afirmar a verdadeira divindade de Cristo e a realidade da encarnação. Basil de Seleucia: Θεὸν σαρκωθέντα τεκοῦσα θεοτόκος ὀνομάζεται. É imediatamente após qualificado pela frase κατὰ τὴν ἀνθρωπότητα (secundum humanitatem), em distinção de κατὰ τὴν θεότητα (secundum deitatem). Essa é uma limitação muito importante e necessária para se proteger contra a mariolatria e a noção pagã, blasfema e contraditória de que o Deus eterno, que não foi criado, pode nascer no tempo. Maria era a mãe não apenas da natureza humana de Jesus de Nazaré, mas da pessoa theantrópica de Jesus Cristo; ainda não da sua eterna divindade (the λόγος ἄσαρκος), mas de sua pessoa encarnada, ou o Logos unido à humanidade (o λόγος ἔνσαρκος). Do mesmo modo, o sujeito da Paixão era a pessoa theantrópica; todavia, não de acordo com sua natureza divina, que por si só, é incapaz de sofrer, mas de acordo com sua natureza humana, que era o objeto do sofrimento. Não há dúvida, porém, que os termos não bíblicos θεοτόκος, Dei genitrix, Deipara, mater Dei, que lembram uma das mães pagãs dos deuses, promoveram grandemente a mariolatria, mas que ajudaram a derrotar Nestório no Concílio de Éfeso, 431 d.C.. É mais seguro aderir à designação do Novo Testamento de Maria como μήτηρ Ἰησοῦ, ou μήτηρ τοῦ Κυρίου (Lucas 1.43).[2]

Richard A. Muller define, como um dos melhores historiadores contemporâneos, a expressão assim
Theotokos: portadora de Deus; um título dado à virgem Maria pelos teólogos alexandrinos e capadócios dos séculos IV e V, baseado numa communicatio idiomatum in abstracto (q.v.) a comunicação dos atributos divinos à humana. A negação polêmica de Nestorius do título Theotokos acusando-a de ser uma heresia ariana e apolinariana, provocou a controvérsia que levou ao Concílio de Calcedônia (451 d.C.).[3]

A Cristandade tem a unidade na crença comum dos três primeiros Credos. Estamos unidos ao rejeitar as heresias que estes documentos combateram e, ainda, é nossa batalha pela fé na afirmação da soberania de Cristo (Jd 3-4). Não precisamos negar a doutrina calcedônica acerca de Theotokos, mas compreendê-la corretamente, sem correr o risco de errar, nem criar uma aparência do mal sujeita à acusação de heresia, ou mesmo gerar confusões naqueles que desconhecem o assunto.

NOTAS:
[1] Henry Bettenson, Documentos da Igreja Cristã (SP: ASTE/Simpósio, 1998), p. 101.
[2] Philip Schaff, The Creeds of Christendom (Grand Rapids, Baker Books, 2006), vol.
[3] Richard A. Muller, “Theotokos” in: Dictionary of Latin and Greek Theological Terms (Grand Rapids, Baker Books, 2007), vol. 2, nota 3, p. 64.

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