Por
Carl Trueman
É
aquela época do ano novamente: A antiga tradição da Quaresma, iniciada pela
Quarta-feira de Cinzas. É também a época do ano em que nós, cristãos
confessionais, nos preparamos para o ataque anual de uma tradição mais recente:
a de especialistas evangélicos, sem qualquer ligação com esses ramos da igreja,
escrevendo artigos exaltando as virtudes da Quaresma para seu próprio público
eclético.
Os
calendários litúrgicos se desenvolveram no século IV e além, à medida que o
cristianismo passou a dominar o império. O domínio cultural requer duas coisas:
controle do tempo e do espaço. O último podia ser alcançado por meio de igrejas
e relíquias. O primeiro foi alcançado pelo desenvolvimento de um calendário que
conferiu ao ritmo do tempo uma linguagem especificamente cristã. Ele permanece
uma parte fundamental da prática das igrejas romana, ortodoxa e,
posteriormente, anglicana.
A
ascensão da Quaresma em círculos não romanos, ortodoxos ou anglicanos é um
fenômeno fascinante. Lembro-me de estar no campus do Seminário Teológico de
Princeton, há alguns anos, na Quarta-feira de Cinzas, e de ser recebido por um
jovem que saía da Capela Miller com uma cruz preta borrada na testa. O fato de
o bastião do presbiterianismo tradicional do século XIX ter sido reduzido a
isso — uma miscelânea eclética de práticas litúrgicas — pareceu-me triste. O
presbiterianismo tradicional é uma tradição rica o suficiente para não precisar
recorrer aos egípcios ou mesmo aos anglicanos.
Entendo
os anglicanos que observam a Quaresma. Aliás, posso até aprovar que o façam
quando estou de ótimo humor ou acabei de acordar de um sono profundo e ainda
estou um pouco desorientado. Faz parte da história deles. Conecta-se à sua
história litúrgica formal. Todas as denominações e tradições cristãs envolvem
elementos que, estritamente falando, não são bíblicos, mas que moldam sua
identidade histórica. Para os anglicanos, o calendário litúrgico é exatamente
isso. Essas razões não são convincentes a ponto de tornar o calendário
normativo para todos os cristãos, mas ainda consigo entender como fazem sentido
para um anglicano. Mas, assim como celebrar o 4 de Julho faz sentido para os
americanos, mas não para os ingleses, os chineses ou os lapões, a Quarta-feira
de Cinzas e a Quaresma realmente não fazem sentido para os presbiterianos,
batistas ou evangélicos de igrejas livres.
O
que me intriga é a necessidade de pessoas desses outros grupos observarem a
Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma. Meu compromisso com a liberdade cristã
significa que eu certamente não consideraria pecaminoso em si o fato de o
fazerem. Mas esse mesmo compromisso também significa que me oponho
veementemente a qualquer pessoa que tente argumentar que deveria ser uma
prática normativa para os cristãos, impô-la às suas congregações ou afirmar que
confere benefícios indisponíveis em outros lugares.
A
imposição de cinzas tem o propósito de nos lembrar que somos pó e faz parte de
um momento litúrgico em que os pecados são “expurgados” ou perdoados. Na
verdade, um culto bem estruturado já deveria fazer isso. Exatamente a mesma
coisa pode ser transmitida pela leitura da Palavra de Deus, particularmente a
Lei, seguida por uma oração coletiva de confissão e, em seguida, algumas
palavras de perdão do evangelho extraídas de uma passagem apropriada e lidas em
voz alta para a congregação pelo ministro.
Um
sacramentalismo reformado adequadamente rico também torna a Quarta-feira de
Cinzas irrelevante. O batismo infantil enfatiza, melhor do que qualquer outra
coisa fora da Palavra pregada, a prioridade da graça de Deus e a impotência da
humanidade pecadora diante de Deus. A Ceia do Senhor, tanto em seu simbolismo
(os humildes elementos do pão e do vinho) quanto em seu significado (a
alimentação em Cristo pela fé), indica nossa contínua fraqueza, fragilidade e
total dependência de Cristo.
À
luz disso, suspeito que as razões pelas quais os evangélicos estão
redescobrindo a Quaresma têm tanto a ver com a pobreza de sua própria tradição
litúrgica quanto com qualquer outra coisa. Os evangélicos americanos são
mestres em se apropriar de qualquer coisa que lhes chame a atenção na história
da igreja e reivindicá-la como sua, desde os Pais da Igreja como os primeiros
emergentes até os homens da Velha Escola de Princeton como os precursores dos jovens,
inquietos e reformados [Young, Restless, and Reformed], passando por
Dietrich Bonhoeffer como o evangélico americano moderno. No entanto, se a sua
própria tradição carece da profundidade histórica, litúrgica e teológica que
você procura, talvez seja hora de se juntar a uma igreja que possa fornecer o
mesmo.
Temo
ainda que isso revele uma certa carnalidade: o desejo de fazer algo que
simplesmente pareça legal e que tenha uma certa espiritualidade ostentosa. Como
um ato de piedade, não custa nada, mas implica uma profunda seriedade. Na
verdade, longe de revelar uma profunda seriedade, em um contexto evangélico,
isso simplesmente expõe a superficialidade, o consumismo eclético e a confusão
de identidade subjacente do movimento. Por fim, também me intriga o fato de que
tempo e energia sejam gastos anualmente em exaltar as virtudes da Quaresma,
quando comparativamente pouco se dedica a exaltar as virtudes do Dia do Senhor.
O presbiterianismo tem seu calendário litúrgico, sua maneira de marcar o tempo:
seis dias de atividades terrenas e um dia de descanso e culto comunitário.
Claro, isso é bastante entediante. Entediante, isto é, a menos que se
compreenda a rica teologia que fundamenta o Dia do Senhor e o culto
comunitário, e se perceba que, a cada semana, nos reunimos com outros crentes
para experimentar um pouco do céu na terra.
Quando presbiterianos, batistas e evangélicos de igrejas livres começam a frequentar os cultos da Quarta-feira de Cinzas e a observar a Quaresma, só se pode concluir que ou foram mal instruídos na teologia ou na história de suas próprias tradições, ou que não possuem teologia nem história. Ou talvez estejam simplesmente refletindo a atitude do mundo ao seu redor: consomem os fragmentos que lhes chamam a atenção em qualquer tradição que considerem atraente, enquanto evitam a estrutura, as exigências e a disciplina mais amplas que o pertencimento a uma comunidade confessional historicamente enraizada requer. De fato, é irônico que uma época concebida para a abnegação seja, com tanta frequência, um símbolo do consumismo arraigado da nossa era.
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