por Dr. Art
Lindsley
28 de
maio de 2013
“Algo
verdadeiramente estranho aconteceu com o cristianismo americano”, escreve
Gregory Paul para o blog “On Faith” do The Washington Post. Ele afirma que os
cristãos que defendem o livre mercado estão em profunda contradição, porque
Atos 2-5 é “socialismo puro e simples, do tipo descrito milênios depois por
Marx — que provavelmente tirou a ideia geral dos Evangelhos”.
Será que
Atos 2-5 realmente prega o socialismo? Uma leitura rápida desses capítulos pode
levar a essa impressão. Atos 2.44-45 diz que, imediatamente após o Pentecostes,
“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas
propriedades e bens e distribuíam o produto entre todos, segundo a necessidade
de cada um”. E Atos 4.32-35, referindo-se à congregação primitiva, diz:
Ora, a
multidão dos que creram era de um só coração e uma só alma. Ninguém considerava
propriedade exclusiva de ninguém o que possuía, mas todas as coisas lhes eram
comuns. ...” Não havia necessitado algum entre eles, pois todos os que possuíam
terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o depositavam aos pés
dos apóstolos, e este era distribuído a cada um conforme a sua necessidade.
Embora
essas passagens possam soar como socialismo para o leitor médio, uma leitura
superficial pode deixar passar o que uma análise mais atenta do texto revela.
Há três razões principais pelas quais Atos 2-5 não ensina o socialismo.
Este não
é um exemplo de verdadeira partilha comunitária. — Atos 2-5 retrata um espírito
de partilha comunitária, e não uma comuna propriamente dita. As pessoas não
venderam tudo o que possuíam para fins legais, como normalmente acontece em uma
comuna. Isso fica evidente pelo uso de verbos no imperfeito ao longo das
passagens. Craig Blomberg afirma em seu estudo Neither Poverty nor Riches [Nem
Pobreza nem Riqueza]: “[Capítulo 2] os versículos 43-47 são dominados por
verbos no imperfeito bem marcados, enquanto normalmente se espera o uso do
aoristo [ações definitivas] em narrativas históricas. Não há aqui uma abdicação
definitiva de bens, mas atos periódicos de caridade conforme a necessidade
surgia.”
Este
ponto fica ainda mais claro em Atos 4-5. A tradução da NVI de Atos 4:34b-35
diz: “De tempos em tempos, os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam
o dinheiro da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos”. Blomberg comenta:
Novamente,
temos aqui uma série de verbos no imperfeito, desta vez explicitamente
refletidos no “de tempos em tempos” da NVI. A venda periódica de propriedades
confirma nossa interpretação de Atos 2:44 acima. Não se tratava de uma venda
única de todos os bens. O tema “conforme a necessidade” também reaparece.
Curiosamente, o que não aparece neste parágrafo é qualquer declaração de
completa igualdade entre os crentes.
John
Stott corrobora as conclusões de Blomberg sobre a propriedade na igreja
primitiva, destacando também o uso do pretérito imperfeito por Lucas:
Nem
Jesus nem seus apóstolos proibiram a propriedade privada a todos os cristãos.
[...] É importante notar que, mesmo em Jerusalém, a partilha de bens e posses
era voluntária [...] Também é digno de nota que o tempo verbal de ambos os
versículos no versículo 45 é imperfeito, o que indica que a venda e a doação
eram ocasionais, em resposta a necessidades específicas, e não definitivas.
Há
também razões suficientes para crer que os primeiros seguidores de Cristo não
vendiam tudo o que possuíam, mas sim, ocasionalmente, vendiam parte de seus
bens e entregavam o valor arrecadado aos apóstolos para distribuição. Por
exemplo, em Atos 5, Ananias vendeu uma propriedade (v. 1) e reteve uma parte do
valor para si e para sua esposa, Safira. O problema não era que eles fossem
obrigados a vender seus bens e entregar todo o valor arrecadado com a venda das
terras aos apóstolos, mas sim que Ananias mentiu sobre o verdadeiro preço que
recebeu pelas terras (v. 7). Pedro ressalta que ele poderia ter dado ou ficado
com o dinheiro como bem entendesse (v. 4), mas mesmo assim mentiu para Pedro e
para o Espírito Santo (v. 5).
Mas
mesmo que, para fins de argumentação, admitíssemos que todos os crentes
venderam todos os seus bens e os redistribuíram entre a comunidade, isso ainda
não provaria que o socialismo é bíblico. Os dois motivos a seguir explicam o
porquê.
O ato em
Atos foi totalmente voluntário — o socialismo implica coerção por parte do
Estado, mas esses primeiros crentes contribuíram com seus bens livremente. Não
há menção ao Estado em Atos 2-5. Em outras passagens das Escrituras, vemos que
os cristãos são instruídos a dar dessa maneira, livremente, pois “Deus ama quem
dá com alegria” (2 Coríntios 9:8). Mesmo que os crentes tivessem vendido todos
os seus bens e os redistribuído entre a comunidade, isso ainda não provaria que
o socialismo é bíblico, visto que o Estado não é o agente que vende
propriedades aos necessitados. Há também muitos indícios de que os direitos de
propriedade privada ainda estavam em vigor; portanto, isso sequer seria
considerado socialismo se o termo fosse usado para se referir a um sistema
regulamentado de propriedade comunitária.
A
narrativa não era um mandamento universal. — Para provar que Atos 2-5 ordena o
socialismo, seria necessário demonstrar que esse precedente histórico é uma
prescrição obrigatória para todos os cristãos posteriores. Não se pode inferir
o imperativo (todos os cristãos deveriam fazer isso) do indicativo (alguns dos
primeiros cristãos faziam isso). O fato de alguns cristãos "compartilharem
todas as coisas" não constitui um mandamento para que todos os cristãos
sigam seu exemplo, pois isso não é claramente ensinado em outras passagens das
Escrituras.
R.C.
Sproul explica como os cristãos devem interpretar as narrativas bíblicas sob a
perspectiva do ensino cristão mais amplo: "Devemos interpretar as
passagens narrativas das Escrituras pelas porções didáticas ou de 'ensino'. Se
tentarmos encontrar muita teologia nas passagens narrativas, podemos facilmente
extrapolar o objetivo da narrativa e incorrer em erros graves."
A
partilha comunitária em Atos 2-5 não era prática da igreja primitiva no
restante do Novo Testamento, portanto, fica claro que essa prática não é um
mandamento obrigatório. Assim, mesmo que Atos 2-5 fosse socialismo, não teria
nada além de interesse histórico para os crentes posteriores e não teria poder
vinculativo sobre a igreja posterior.
Certamente,
a partilha comunitária ilustrada em Atos 2-5 foi uma bela demonstração de
generosidade e amor. Mas é impossível demonstrar que essas passagens ensinam o
socialismo, dada a sua natureza temporária, voluntária e estritamente
narrativa.
Traduzido
DAQUI
Art
Lindsley, Ph.D., é vice-presidente de Theological Initiatives at the Institute
for Faith, Work & Economics [Iniciativas Teológicas do Instituto para a Fé,
o Trabalho e a Economia]. Ele atuou como coeditor e autor colaborador das obras
do IFWE "Counting the Cost: Christian Perspectives on Capitalism"
(Abilene Christian University Press) e "For the Least of These: A Biblical
Answer to Poverty" (Zondervan). Autor e professor renomado, o Dr. Lindsley
é cofundador do Reformed Theological Seminary do campus de Washington, D.C. Ele
obteve seu bacharelado em Química pela Seattle Pacific University, um mestrado
em Divindade pelo Pittsburgh Theological Seminary e um doutorado em Estudos da
Religião pela University of Pittsburgh.
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