26 junho 2026

Um Catecismo da doutrina de Melanchthon sobre a Ceia do Senhor

 1. O que é um sacramento?

“Sacramento” é uma cerimônia instituída no Evangelho para servir de testemunho da promessa que pertence ao Evangelho, isto é, a promessa de reconciliação ou graça.[1]

 2. Qual é a diferença entre um sacramento e um sacrifício?

Um sacramento é uma cerimônia ou obra na qual Deus nos apresenta aquilo que a promessa associada à cerimônia oferece.[2] Um sacrifício é uma cerimônia ou obra nossa que prestamos a Deus para honrá-lo; isto é, testemunhamos que reconhecemos aquele a quem obedecemos como o verdadeiro Deus e, por essa razão, lhe prestamos tal obediência.[3]

 3. O que é a Ceia do Senhor?

É a comunhão do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, estabelecida nas palavras do Evangelho.[4]

 4. Onde essas palavras estão escritas?

A cerimônia é descrita por Mateus, Marcos, Lucas e Paulo.[5]

 “Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomem e comam; isto é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim.

“Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice e, tendo dado graças, deu-lho, dizendo: ‘Bebam dele todos vocês; este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vocês para remissão dos pecados. “Fazei isto, sempre que o beberdes, em memória de mim” (Mt 26.26-28; Mc 14.22-24; Lc 22.19-20; 1Co 11.23-25).

 5. O que cremos por meio dessas palavras?

Neste sacramento, o Filho de Deus está verdadeiramente e substancialmente presente.[6] Por meio deste ministério, Ele dá Seu próprio corpo e sangue àqueles que comem e bebem, e testifica que aplica Seus benefícios graciosos aos crentes.[7]

 6. Qual o significado de “fazei isto em memória de mim”?

Pronunciamos sua Palavra sobre o pão e o vinho e os distribuímos entre a congregação.[8] Vocês não devem ouvir as palavras humanas da Ceia de outra forma senão como se estivessem ouvindo o próprio Cristo falando com vocês.[9] Ele nos ordena a fazer o que foi instituído, a saber: “tomem, comam e bebam disto, todos vocês”.[10] É um sacramento quando todas as causas coincidem e a intenção de seu propósito, para o qual foi instituído, é observada.[11]

 7. Isso deve ser entendido como um espetáculo vazio ou uma comemoração?

Este não é um espetáculo vazio, e não devemos imaginar que seja um memorial a um homem morto, como os espetáculos em honra de Hércules e outros semelhantes. Devemos rejeitar essas noções profanas. Cristo está verdadeiramente presente não apenas com a sua eficácia, mas também com a sua substância.[12]

 8. De que maneira Cristo está presente corporalmente no sacramento?

Alguns querem encerrar Cristo no pão por diversos meios, conversão, transubstanciação ou ubiquidade, mas tais noções contrárias à natureza eram desconhecidas dos antigos doutores.[13] Embora não sustentemos a transubstanciação, nem defendamos que o corpo e o sangue de Cristo estejam local ou espacialmente encerrados no pão ou de qualquer outra forma permanentemente unidos a ele fora da participação no sacramento, reconhecemos, contudo, que, mediante a união sacramental, o pão é o corpo de Cristo; isto é, quando o pão é oferecido, o corpo de Cristo está, ao mesmo tempo, presente e verdadeiramente oferecido.[14]

 9. Quais são os benefícios de comer?

O benefício principal é confirmar a fé por meio deste testemunho e estabelecer que, por este penhor ou selo, o próprio Filho de Deus assegura a você que Ele lhe aplica os seus benefícios.[15] Pois aqui, no sacramento, a remissão dos pecados é oferecida e aplicada ao crente.[16]

 10. Quem se aproxima dignamente da Ceia?

Aqueles que se aproximam dignamente são os que se arrependem sinceramente. Instruídos pelo testemunho e pela promessa da nova aliança, eles fortalecem a sua fé.[17] Por meio desse ato de comer, a pessoa recebe o sacramento e obtém a remissão dos pecados e o Espírito Santo.[18]

 11. O que recebem aqueles que comem de modo indigno?

Aqueles que não possuem o temor de Deus e fé, ou arrependimento e fé, e persistem conscientemente em pecados contrários à consciência, são indignos de comer.[19] O ato de comer não traz benefício algum àqueles que não estão arrependidos e continuam em seus pecados contra a consciência.[20] No entanto, visto que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeira e substancialmente presentes e são verdadeiramente distribuídos juntamente com o pão e o vinho, o corpo e o sangue de Cristo são também verdadeiramente oferecidos aos indignos. Mas estes os recebem para juízo, como diz são Paulo.[21]

 12. Quem pode ser admitido à Ceia?

O sacramento é disponibilizado àqueles que desejam participar dele, após terem sido examinados e absolvidos.[22] Cabe aos pastores avaliar a doutrina e a fé dos indivíduos dentre o povo.[23] Pois o povo participa dele, mas somente após ter sido instruído e examinado.[24]

 13. De que modo a Ceia pode ser profanada?

É uma profanação manifesta transportar parte da Ceia do Senhor para adorá-la;[25] bem como afirmar que se está oferecendo o Filho de Deus pelos vivos e pelos mortos. Mas Cristo diz: “tomai e comei” (Mt 26.26).[26] Deve-se manter como regra: nada possui a natureza de sacramento fora do uso instituído por Deus.[27] Isto é, não constitui um sinal de graça agradável a Deus quando algo é estabelecido fora ou à parte da Palavra de Deus, ou quando a cerimônia é transformada em uma obra de natureza diversa, isto é, quando se propõe um propósito diferente daquele estabelecido por Deus.[28] Contudo, no uso ordenado, Cristo está presente nesta comunhão, verdadeira e substancialmente, e o corpo e o sangue de Cristo são, de fato, dados àqueles que a recebem.[29]

 14. Como devemos lidar com as controvérsias na Igreja Luterana acerca da Ceia?

Devem-se proibir as contendas de ambos os lados e utilizar uma única e mesma forma de palavras.[30] Nesta controvérsia, o melhor seria conservar as palavras de Paulo: “O pão que partimos é a comunhão do corpo de Cristo” (1Co 10.16).[31] Ele não diz que a natureza do pão é alterada, como afirmam os papistas. Ele não diz que o pão é o corpo substancial de Cristo. Ele não diz que o pão é o verdadeiro corpo de Cristo, mas que é uma koinōnian (comunhão), isto é, uma união com o corpo de Cristo, a qual ocorre no uso.[32]

Notas:

[1] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559: Second English Edition (St. Louis: Concorida, 2011), p. 255. Ap XIII.3-4.

[2] Robert Kolb, Timothy J. Wengert, and Charles P. Arand, The Book of Concord: The Confessions of the Evangelical Lutheran Church (Minneapolis, MN: Fortress Press, 2000), Ap XXIV.18.

[3] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 279. Cf. “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis,” Corpus Doctrinae Christinae, p. 724. Ap XXIV.18.

[4] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1 cf. 1Corintios 10.16.

[5] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.

[6] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap 10.1, 4

[7] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, 271. Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 722. Ap X.1

[8] Philip Melanchthon, Melanchthon on Christian Doctrine: Loci Communes 1555, trans. Clyde L. Manschreck (New York: Oxford University Press, 1965), p. 218.

[9] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 271.

[10] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804. Ap XXIV.71; XXII.3

[11] Philip Melanchthon, "De Transsubstantiatione" In Corpus Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb Bretschneider, vol. IV, (Balis Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1837), p. 264.

[12] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. xx. Ap XXIV.72

[13] Philip Melanchthon, "Responsio Philip. Melanth. ad quaestionem de controversia Heidelbergensi" in: Corpus Reformatorum, edited by Carolus Gottlieb Bretschneider, Vol. IX, (Balis Saxonum: C. A. Schwetschke et Filii, 1841), p. 963.

[14] Philip Melanchthon, “Appendix 3: The Wittenberg Concord, 1536” in: The Wittenberg Concord: Creating Space for Dialogue (Minneapolis: Fortress Press), p. 191.

[15] Melanchthon, “Examen Eorum Qui Audiuntur Ante Ritum Publicae Ordinationis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 723.

[16] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 273.

[17] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, pp. 273-274.

[18] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 274.

[19] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.

[20] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 272.

[21] Ap X.1. Melanchthon, The Wittenberg Concord, p. 192.

[22] Melanchthon, Ap XXIV.1

[23] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[24] Melanchthon, Ap XXIV.49.

[25] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 266.

[26] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[27] Melanchthon, “Articuli Bavaricae Inquisitionis” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 804.

[28] Melanchthon, Loci Praecipui Theologici 1559, p. 277.

[29] Melanchthon, “Repetitio Confessionis Augustanae” in Corpus Doctrinae Christinae, p. 263.

[30] Melanchthon, CR IX.964.

[31] Melanchthon, CR IX.963.

[32] Melanchthon, CR IX.962.


Sobre o autor:

O Rev. Matthew Fenn é pastor associado da Ascension Lutheran Church em Waterloo, Iowa, e reitor do American Lutheran Theological Seminary. Ele e sua esposa, Laurin, têm cinco filhos.

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