23 agosto 2007

Discipulado

O que é discipulado? Há com certeza uma diversidade de opiniões quanto ao propósito e modo de realizá-lo. Qual o tempo apropriado para realização de um Curso de Discipulado e qual o número de lições é ideal? Ou ainda, quais as discussões se darão geralmente em torno do conteúdo das lições e métodos de aplicação. Todavia, A preocupação principal que devemos ter quanto ao discipulado, se é que estamos sendo bíblicos ou não na nossa concepção.

Precisamos partir do modelo apresentado por Jesus (embora não seja o primeiro modelo apresentado na Bíblia) que é o mestre dos mestres. Jesus teve um ministério onde ensinou multidões, mas concentrou a sua mensagem nos seus discípulos, formando a base para a continuidade do seu ministério a partir do discipulado. Sendo esta a principal ordem dada aos seus discípulos antes da sua ascensão (Mateus 28.18-20; Mc 3.14).

A Igreja necessita resgatar o discipulado. Tanto um conceito, como uma prática correta de discipulado evidenciará a saúde espiritual da igreja. O pastor luterano Dietrich Bonhoeffer notou tristemente que "em tudo que segue, queremos falar em nome de todos aqueles que estão perturbados e para os quais a palavra da graça se tornou assustadoramente vazia. Por amor a verdade, essa palavra tem que ser pronunciada em nome daqueles de entre nós que reconhecem que, devido à graça barata, perderam o discipulado de Cristo, e, com o discipulado de Cristo, a compreensão da graça preciosa. Simplesmente por não querermos negar que já não estamos no verdadeiro discipulado de Cristo, que somos, é certo, membros de uma igreja ortodoxamente crente na doutrina da graça pura, mas não membros de uma graça do discipulado, há que se fazer a tentativa de compreender de novo a graça e o discipulado em sua verdadeira relação mútua. Já não ousamos mais fugir ao problema. Cada vez se torna mais evidente que o problema da Igreja se cifra nisso: como viver hoje uma vida cristã."[1]

Este é o modelo Bíblico onde é possível desenvolver o caráter de Cristo na vida dos envolvidos. Conhecer a Deus por meio de Jesus, e glorifica-lo num relacionamento construtivo como Igreja. Nesse relacionamento construtivo o alvo é preparar discípulos para um envolvimento nos ministérios e departamentos da igreja, proporcionando um fortalecimento qualitativo, que resultará naturalmente na multiplicação de outros discípulos.

Ser discípulo é muito mais do que ser um mero aprendiz temporário. M. Bernouilli observa que “o discípulo tem em comum com o aluno o fato de receber um ensino, mas o primeiro compromete-se com a doutrina do mestre.”[2] Mas ser discípulo não se resume ao exercício intelectual “é importante reconhecer que a chamada para ser discípulo sempre inclui a chamada para o serviço.”[3]

A definição que adotamos nesse trabalho é a mesma usada por David Kornfield: o discipulado não é um programa; não é uma série de módulos; não é um livro de iniciação doutrinária; não é apenas um encontro semanal; não é um novo sistema de culto nos lares. Kornfield observa que "discipulado é uma relação comprometida e pessoal, onde um discípulo mais maduro ajuda outros discípulos de Jesus Cristo a aproximarem-se mais dEle e assim reproduzirem."[4]

O discipulador não é simplesmente um professor. Ele é alguém que além de informar também coopera na formação espiritual do seu aprendiz, tornando-se referência para o discípulo. Mas, devemos sempre lembrar que nenhum discipulador é modelo de perfeição, mas sim, um modelo de transformação, mostrando que assim como o discípulo, ele também está num processo, que a cada dia subirá um degrau na absorção do caráter de Cristo. Com este sincero objetivo ele poderá identificar-se com o discípulo. Seguindo o exemplo de Paulo: “...não que o tenha já recebido, ou tenha obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12, ARA).

John Sittema nos lembra que discipular é “reproduzir a si mesmo e sua fé na vida de outros.”[5] Evidentemente não podemos confundir, porque o Senhor Jesus exige que façamos discípulos dele e não nossos. Novamente podemos citar Sittema observando que “esse processo requer o desenvolvimento de um relacionamento de confiança, de exemplo, de revelação do nosso coração e da nossa fé ao discípulo que, por sua vez deve imitar o padrão de fé do seu mestre.”[6]

É importante lembrar que o alvo não é apenas a multiplicação de novos membros, mas, que principalmente da maturidade e crescimento dos cristãos convertidos, e outros novos convertidos virão como conseqüência dessa maturidade (Tt 2:11-15). É tempo de repensarmos a forma da igreja, onde até então, o trabalho eclesiástico se atém a um pequeno grupo de líderes, que provavelmente não foram discipulados. Indispensavelmente a liderança da igreja local deve estar preparada para equipar os santos (Ef 4.11-13). O pastor coordenando os grupos de formação de líderes estará mais livre para pastorear o rebanho, podendo em reuniões periódicas com os discipuladores, ser informado a respeito das ovelhas que carecem de um cuidado mais específico.

Uma igreja sadia vive uma estrutura de discipulado em que os membros vivem e compartilham a obediência da recíprocidade cristã (uns aos outros). A Escritura nos declara que somos membros uns dos outros (Rm 12:5), logo, esta convivência mútua deve reger a qualidade de todos os nossos relacionamentos:
1. Amando cordialmente uns aos outros (Rm 12:10).
2. Honrando uns aos outros (Rm 12:10).
3. Tendo o mesmo sentir uns para com os outros (Rm 12:16; 15:5).
4. Amando uns aos outros (Rm 13:8).
5. Edificando uns aos outros (Rm 14:19).
6. Acolhendo uns aos outros (Rm 15:7).
7. Admoestando uns aos outros (Rm 15:14).
8. Saudando uns aos outros (Rm 16:16).
9. Esperando uns pelos outros (1 Co 11:33).
10. Importando uns com os outros (1 Co 12:25).
11. Servindo uns aos outros (Gl 5:13).
12. Levando a carga uns dos outros (Gl 6:2).
13. Suportando uns aos outros (Ef 4:2; Cl 3:13).
14. Sendo benignos uns para com os outros (Ef 4:32).
15. Sujeitando-se uns aos outros (Ef 5:32).
16. Consolando uns aos outros (1 Ts 4:18; 5:11,14).
17. Confessando pecados uns aos outros (Tg 5:16).
18. Orando uns pelos outros (Tg 5:16)
19. Sendo hospitaleiros uns com os outros (1 Pe 4:9)
20. Tendo comunhão uns com os outros (1 Jo 1:7).

O nosso alvo como servos de Cristo é desfrutar uma vida qualitativamente padronizada pelo nosso Mestre, em que alcançados pela graça de Deus, tocamos a vida de outras pessoas. O amor que enviou o Filho, nos une, e que nos transforma, também deve ser comunicado integralmente nos nossos relacionamentos.

Notas:
[1] Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (São Leopoldo, Ed. Sinodal, 1995), p. 18. Bonhoeffer (1906-1945) foi um jovem pastor luterano que durante a 2a Guerra Mundial protestou contra o regime Nazista. Foi preso e morto aos 39 anos, num campo de concentração alemão. Durante sua prisão escreveu várias cartas e livros na área de Teologia Pastoral, que foram preservados e alguns se encontram traduzidos para o português.
[2] J.J. Von Allmen, ed., Vocabulário Bíblico (São Paulo, ASTE, 1972), pp. 108-109.
[3] Colin Brown, ed., Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1981), vol. 1, p. 666.
[4] David Kornfield, Série Grupos de Discipulado (São Paulo, Editora SEPAL, 1994), vol. 1, p. 6.
[5] John Sittema, Coração de Pastor (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 2004), p. 173.
[6] John Sittema, Coração de Pastor, p. 173.

Rev. Ewerton B. Tokashiki

14 agosto 2007

Breve avaliação da Teologia Relacional

Os teólogos adeptos do Open Theism, ou Teologia Relacional, têm usado como munição argumentos que questionam a chamada “concepção clássica de Deus”. Como este movimento de “reformar nosso entendimento de quem Deus é” ainda está desenvolvendo os seus tentáculos, não podemos generalizar todos os seus intérpretes, e esperar que todos tenham o mesmo raciocínio e conclusões, nem os teólogos americanos ou brasileiros, mesmo porque cada um tem as suas particularidades pessoais. Todavia, todos têm elementos em comum: se o próprio Deus não se conhece totalmente, logo, tudo o que se disser acerca dEle é questionável[1] Entretanto, parece-nos que o único atributo de que podemos ter alguma certeza é o amor. Assim, este "deus relacional" ama humanamente, e considera espúrio toda a presença do mal, mesmo não podendo ser soberano sobre ele. Tudo o que envolve sofrimento é indesejável e não pode proceder deste "deus relacional".

Mas, o que diremos do inferno? Um "deus relacional" condenaria pobres humanos que viveram na ignorância do Evangelho, e por causa de sua cultura pagã tiveram uma vida miserável, e ainda por fim seriam condenados a sofrer a punição divina por toda eternidade, não tendo em vida, nem após a morte, um instante de alívio de seu sofrimento existencial? Não é de se estranhar que o próprio Clark H. Pinnock tenha abandonado a crença de uma punição final eterna.[2] Ora, somente é possível concluir que o deus que não tem supremacia para decidir sobre os vivos, não pode condená-los após a sua morte!

Se o principal atributo de Deus é amor, e não podemos aceitar absolutos, então não deveria Ele também amar os demônios? Se os demônios são suas criaturas, como os seres humanos, por que razão Ele os despreza tanto? Deus na eternidade não sabia da conspiração de Satanás, ou não pôde evitá-la? Mas, mesmo depois de caídos e contaminados pelo mal, Deus não poderia, por amor, dar uma segunda chance? Afinal, qualquer um poderia se encontrar na mesma condição se estivesse absolutamente sem a influência da graça de Deus! Deus não se importa com o sofrimento dos demônios? Por que deste prefencialismo pelo ser humano? Estas são questões que sinceramente desejaria que um adepto da Teologia Relacional respondesse coerentemente.

Podemos imaginar adeptos da Teologia Relacional parafraseando Gn 1:26: façamos Deus a nossa imagem e semelhança. Esta tem sido a tarefa destes teólogos. Reconstruir uma teologia de Deus que limita a si mesmo, tornando-se mais frágil e um pouco mais humano. A sua transcendência deixa de ser uma de suas perfeições que O revela como sendo totalmente outro.[3] Entretanto, devemos ouvir o que o profeta Isaías registra declarando “com quem vocês vão me comparar? Quem se assemelha a mim? Pergunta o Santo” (Is 40:25).

Redefinir a nossa concepção de Deus não enxugará de ninguém as suas lágrimas. A Teologia Relacional não é capaz de consolar ninguém. Que consolo pode ter alguém ao ouvir: Deus quis, mas não pôde fazer nada! Ou, Deus não previu este acidente. Ouvir que Deus está chorando comigo, porque não pôde fazer nada, não conforta, apenas aumenta a incredulidade e o desespero. Quem afinal governa o mundo? Seria a pergunta mais responsável a se fazer.

Deus não fica impassível diante do sofrimento. Na boca do profeta Ezequiel Ele diz: “teria eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do Soberano, o SENHOR. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?” (Ez 18:23, NVI). O Senhor consola os abatidos. É Ele quem ordena “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra” (Sl 46:10, ARA). Ele em sua Providência sustenta toda a criação “porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos” (Mt 5:45, NVI). Sendo que “toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes” (Tg 1:17, NVI). No fim, quando Ele retirar a maldição e restaurar toda a criação (Rm 8:18-25), então “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Ap 21:4, NVI).

Notas:
[1] Clark H. Pinnock, Deus Limita Seu Conhecimento in: Predestinação e Livre-Arbítrio (São Paulo, Ed. Mundo Cristão, 1996), pp. 173-197.
[2] Clark H. Pinnock, The Destruction of the Finally Impenitent in: Criswell Theological Review, Spring 1990, vol. 4, número 2, pp. 243-259.
[3] Cuidadosamente uso o termo totalis aliter de Karl Barth.

12 agosto 2007

Pioneiro presbiteriano no Brasil

Cronologia Biográfica
- Rev. Ashbel Green Simonton -
(1833-1867)

West Hanover, Pensilvânia
20/01/1833
- nascimento Ashbel G. Simonton
- pai: William Simonton, presbítero, médico e político
- mãe: Martha Snodgrass Simonton
- foi caçula dentre 11 filhos: 7 homens e 4 mulheres
- descendentes de irlandeses presbiterianos

14/06/1833
- batizado com 5 meses “filho da Aliança”

17/05/1846
- morte do pai

? /04/1847
- mudança para Harrisburg

Harrisburg, Pensilvânia
1850 – graduação na High School

Princeton, New Jersey
1852 – graduação no College of New Jersey

Starkville, Mississipi
? /12/1852
- aos 19 anos exerce o magistério ensinando: latim, francês, alemão e italiano

29/06/1854
- volta para Harrisburg

Harrisburg, Pensilvânia
? /07/1854
– início do estudo de Direito

05/05/1855
- profissão de Fé na Igreja Presbiteriana Market Square

Princeton, New Jersey
? /08/1855
- estudante no Seminário Teológico Presbiteriano de Princeton

14/10/1855
- chamado para missões[1] através de um sermão do Dr. Charles Hodge

10/10/1857
- conversa com o secretário de Missões da Igreja Presbiteriana do Norte

14/04/1858
- Licenciado para pregar pelo Presbitério de Carlyle

21/11/1858
- opção pelo Brasil (quase enviado para a Bolívia)

? /12/1858
- resposta positiva da Junta de Missões (Board of New York)

14/04/1859
- ordenação ao ministério na Igreja Reformada Alemã de Harrisburg

18/06/1859
- embarque para o Brasil, no navio “Banshee”

Rio de Janeiro, Brasil
12/08/1859
- desembarque no Rio de Janeiro, quase 2 meses de viagem
- chega ao Brasil com 27 anos de idade

31/08/1859
- celebração do 1º culto no Brasil

27/12/1859
- celebração da 1ª Santa Ceia

12/01/1862
- primeiros batismos e organização da 1ª Igreja Presbiteriana do RJ

Harrisburg, Pensilvânia
16/03/1862
- “Furlough” (férias para arrecadação de fundos) após 3 anos no Brasil

10/04/1862
- morte da mãe – Martha Snodgrass Simonton

19/03/1863
- casamento com Helen Murdoch

Rio de Janeiro, Brasil
16/07/1863
- retorno ao Brasil com 4 meses de casado

06/09/1863
- início da Escola Bíblica Dominical

19/06/1864
- nascimento da filha

28/06/1864
- morte da esposa: 9 dias após o parto

05/07/1864
- batismo da “pequena” Helen[2]

05/11/1864
- primeiro número da “Imprensa Evangélica”

05/03/1865
- organização da Igreja Presbiteriana de São Paulo

13/11/1865
- organização da Igreja Presbiteriana de Brotas

16/12/1865
- organização do Presbitério do RJ, ligado ao Sínodo de Baltimore
- pastores: Rev. A.G. Simonton
Rev. A.B. Blackford
Rev. F.J.C. Schneider
Rev. J.M. da Conceição (ordenado nesse dia)

14/05/1867
- início do Seminário “Primitivo” do RJ[3]
4 professores:
Rev. A.G. Simonton
Rev. A.B. Blackford
Rev. F.J.C. Schneider[4]
Rev. Charles Wagner (pastor luterano)
4 alunos:
Antônio B. Trajano
Miguel G. Torres
Modesto P.B. Carvalhosa
Antônio P. Cerqueira Leite

09/12/1867
- Rev. Simonton morre em São Paulo, de febre amarela (?), aos 34 anos.
- enterrado no “Cemitério dos Protestantes” no bairro da Consolação, São Paulo.

Notas:
[1] Ashbel G. Simonton, Diário (São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1982), pág. 106
[2] A criança recebeu o nome da mãe, Diário, pág. 192
[3] Funcionou durante 3 anos.
[4] Nascido na Alemanha, mas naturalizado nos EUA, convertido em sua juventude, tornou-se pastor presbiteriano, veio para o Brasil, a fim de trabalhar entre imigrantes de língua alemã. Foi o tradutor de A.A. Hodge, Esboços de Teologia (Lisboa, 1895), e reimpresso pela PES, em 2001, com o português revisado e notas do Rev. Odair Olivetti.
Rev. Ewerton B. Tokashiki

02 agosto 2007

A ordenação feminina e o Ecumenismo

O Conselho Mundial de Igrejas (World Concil Churches [WCC]) é a principal organização ecumênica cristã em nível internacional, fundada em 1948, em Amsterdam, Holanda. Com sede em Genebra, Suíça, o CMI congrega mais de 340 denominações em sua membresia. Segundo as suas estimativas, estas denominações representam mais de 400 milhões de membros presentes em mais de 120 países. Esta organização tem incentivado as igrejas-membros do concílio para que ordenem mulheres nos ofícios eclesiásticos. Em seu documento intitulado de Fé e Constituição - Batismo, Eucaristia, Ministério declara que "algumas Igrejas ordenam homens e mulheres, outras não ordenam senão homens. Diferenças nessa questão criam obstáculos no que respeita ao reconhecimento mútuo dos ministérios. Mas estes obstáculos não devem ser considerados como impedimentos decisivos a outros esforços que tenham em vista o mútuo reconhecimento. A abertura recíproca comporta a possibilidade de o Espírito falar a uma Igreja através dos esclarecimentos de uma outra. As considerações ecumênicas deveriam, pois, animar e não refrear o esforço para encarar de frente este problema."[1]

A Aliança Mundial das Igrejas Reformadas foi criada em 1970 (World Alliance of Reformed Churches [WARC]) é uma comunidade de aproximadamente 75 milhões de cristãos de tradição reformada procedentes de 216 igrejas em 107 países. Este concílio tem trabalhado para que as igrejas-membros ordenem mulheres, adotando uma postura teologicamente igualitarista. Num discurso orientado pela Teologia Feminista, o seu site declara explicitamente que "a função do Departamento [de colaboração entre mulheres e homens] é ajudar as igrejas membros a escutarem de novo o testemunho bíblico sobre a comunidade (koínonia) e a colaboração, erradicar o sexismo na teologia e a práxis e promover a sensibilização em matéria de gênero, reconhecer os dons e talentos das mulheres para o ministério e as funções da direção, e trabalhar pela renovação e a transformação da igreja e da sociedade enquanto lutamos para suprimir os obstáculos que continuam dividindo as mulheres dos homens."[2]

A Igreja Presbiteriana do Brasil até 2006 participou como igreja-membro da AMIR. Entretanto, a nossa igreja rompeu laços com a AMIR por esta adotar uma hermenêutica, teologia e prática ecumênica pluralista estranha à Escritura Sagrada. A tradição reformada da AMIR esvaziou-se de sua convicção histórica reformada. A AMIR e o CMI compartilham da mesma aceitação de pluralidade teológica. Qualquer interpretação, postura, ou prática que não coadune com os cânones da pós-modernidade teológica destas confraternidades é rejeitada como intolerante e não fraterna. Todavia, não podemos em nome do amor sacrificar a verdade.

Na metade do século XX entre as igrejas históricas iniciaram a ordenar mulheres.[3] Os luteranos na Suécia iniciaram a prática em 1958, e os alemães também seguiram o exemplo. A Igreja Reformada e a Igreja da Escócia [presbiteriana] ordenaram a partir da década de 60. Recentemente aderiram à ordenação feminina os batistas e os metodistas na Grã-Bretanha e Austrália. Na década de 70 a Igreja Anglicana do Canadá e a Episcopal da América, e em 1991, nomearam uma mulher como episcopisa. Algumas igrejas pentecostais, como a Igreja do Evangelho Quadrangular, desde o início ordenavam mulheres como pastoras, todavia, a base de tal prática não era devido a uma elaboração teológico-exegética, mas por motivos pragmáticos.

No Brasil, as igrejas históricas como os anglicanos, os metodistas (IMB), os luteranos confessionais (IECLB), os presbiterianos independentes (IPIB) nas últimas três décadas passaram a praticar a ordenação de mulheres como diaconisas e mais recentemente presbíteras e pastoras. Deve-se observar que nenhuma destas denominações ordena mulheres motivadas por firme convicção bíblica, mas por fatores sociais. Não podem ser classificadas como sendo igrejas teologicamente conservadoras, pois o pluralismo teológico tornou-se o padrão, tomando o lugar da sua identidade confessional e histórica.

Mas, qual a situação da IPB? Embora exista um pequeno grupo, inclusive composto de mulheres, em nosso meio militando em favor da ordenação feminina, estamos longe de mudarmos de opinião. Apesar de sermos acusados de estarmos vivendo fora do nosso tempo pós-moderno, preferindo uma postura obscurantista, ignorando o mover na sociedade para a participatividade feminina na liderança, estamos convictos de que a Escritura Sagrada estabelece um padrão de governo eclesiástico inalterável. O nosso compromisso teológico e ministerial permanece fiel à Palavra de Deus. Não mudaremos a nossa Hermenêutica para conformar a nossa interpretação da Bíblia aos canônes feministas.

Algumas questões práticas, desde agora, devem ser refletidas, à luz das Escrituras Sagradas:
1. O dom de liderança das mulheres é prejudicado no convívio da igreja por não serem ordenadas?
2. Existe vocação pastoral para as irmãs que têm o dom pastoral?
3. As mulheres poderiam estudar em instituições teológicos? Com que finalidade?
4. Como seria o convívio das mulheres ordenadas de outras denominações que se tornarem membros da Igreja Presbiteriana do Brasil?

Como material de apoio, sugiro a leitura de algumas obras que poderão esclarecer o assunto, e oferecer subsídios para uma discussão salutar:
1. Bonnidell Clouse, ed., Mulheres no Ministério (São Editora mundo cristão).
2. John W. Robbins, ed., The Church Effeminate (The Trinity Foundation), págs. 212-233
3. Augustus Nicodemus, “Ordenação Feminina” in: Fides Reformata, vol. II, número 1, 1997., págs. 59-84.
4. Nancy Pearcey, Verdade Absoluta (CPAD), págs. 363-390.

Notas:
[1] Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas - Batismo, Eucaristia, Ministério (São Paulo, CONIC, KOINONIA, ASTE, 3ª.ed., 2001), p. 67.
[2] Extraído de http://www.warc.ch/dp/index-s.html em: 21/03/2007.
[3] Robert G. Clouse, et al., dois reinos (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003), pp. 576-577.

Rev. Ewerton B. Tokashiki

21 julho 2007

A manhã em que eu ouvi a voz de Deus

por John Piper

Deixem-me falar-lhes sobre uma experiência das mais maravilhosas que eu tive na manhã de segunda-feira, 19 de março de 2007, pouco depois das seis da manhã. Deus falou de verdade comigo. Não há nenhuma dúvida de que era Deus. Eu ouvi as palavras em minha cabeça com a mesma clareza com que a memória de uma conversa passa pela consciência. As palavras eram em inglês, mas elas tinham sobre si uma absoluta auto-autenticação da verdade. Eu estou certo sem a menor sombra de dúvida de que Deus ainda fala hoje.

Eu não conseguia dormir por alguma razão. Eu estava em Shalom House no norte de Minnesota em um retiro de casais. Eram aproximadamente cinco e trinta da manhã. Fiquei lá deitado decidindo se eu deveria me levantar ou esperar até que pegasse no sono novamente. Por Sua misericórdia, Deus me tirou da cama. Estava ainda muito escuro, mas eu consegui achar minha roupa, vesti-me, peguei minha pasta, e saí suavemente do quarto sem acordar Nöel [esposa de John Piper – N.T.]. Na sala principal lá embaixo, estava tudo absolutamente tranqüilo. Ninguém mais parecia estar acordado. Assim eu me sentei em um sofá num canto para orar.

Enquanto eu orava e meditava, de repente aconteceu. Deus disse, "venha e veja o que eu fiz." Não havia a menor dúvida em minha mente de que estas eram mesmo palavras de Deus. Naquele mesmo instante. Naquele mesmo lugar no século vinte e um, no ano 2007, Deus estava falando comigo com autoridade absoluta e realidade auto-evidenciada. Eu parei para tentar entender a dimensão do que estava acontecendo. Havia uma doçura naquilo tudo. O tempo parecia ter pouca importância. Deus estava próximo. Ele estava me vendo. Ele tinha algo a dizer para mim. Quando Deus se aproxima, a pressa deixa de existir. O tempo pára.

Eu queria saber o que ele quis dizer com "venha e veja". Ele me levaria a algum lugar, como fez com Paulo levando-o ao céu para ver aquilo que não pode ser descrito? Será que "ver" significava que eu teria uma visão de alguma grande obra de Deus que ninguém jamais havia visto? Não estou certo de quanto tempo decorreu entre a palavra inicial de Deus, " Venha e veja o que eu fiz", e as palavras seguintes. Não importa. Eu estava sendo envolvido no amor da comunicação pessoal com Ele. O Deus do universo estava falando comigo.

Então ele disse, tão claramente quanto qualquer palavra que alguma vez tenha entrado em minha mente: "Fiz coisas tremendas para com os filhos dos homens!". Meu coração acelerou, "Sim, Senhor! Tu és tremendo em todas as tuas obras. Sim, para com todos os homens quer eles percebam isto ou não. Sim! E agora? O que mais me mostrarás?"

As palavras vieram novamente. Tão claramente quanto antes, mas cada vez mais específicas: "Converti o mar em terra seca; atravessaram o rio a pé; ali, eles se alegraram em Mim". De repente percebi que Deus estava me levando de volta milhares de anos no tempo, até a época em que ele secou o Mar Vermelho e o Rio Jordão. Eu estava sendo transportado na história, pela palavra dEle, até essas grandes obras. Era isso que Ele queria dizer quando disse "Venha e veja". Ele estava me conduzindo ao passado pelas Suas palavras até essas duas gloriosas obras que ele fez diante de crianças e homens. Estas eram as "coisas tremendas" a que Ele havia se referido. O próprio Deus estava narrando as poderosas obras de Deus. Ele estava fazendo isso para mim. Ele fazia isto com palavras que estavam ressoando em minha própria mente.

Então me cobriu uma maravilhosa reverência. Uma palpável paz desceu sobre mim. Este era um momento santo e um lugar santo do mundo ali no norte de Minnesota. O Deus Todo-Poderoso tinha descido e estava me dando a quietude, a abertura e a disposição de ouvir a Sua voz. Enquanto eu me maravilhava do Seu poder para secar o mar e o rio, ele falou novamente: "Os meus olhos vigiam as nações, não se exaltem os rebeldes."

Isso era empolgante. Era muito sério. Era quase uma repreensão. No mínimo uma advertência. Ele poderia da mesma forma ter me arrastado pelo colarinho, me erguido do chão com uma mão, e ter dito, com uma mistura incomparável de ferocidade e amor, "Nunca, nunca, nunca te exaltes a ti mesmo. Nunca te rebeles contra mim."

Eu sentei, olhando para o vazio. Minha mente estava cheia da glória universal de Deus. "Meus olhos vigiam as nações." Ele tinha dito isto para mim. Não era só que ele tinha dito. Sim, isso já seria glorioso. Mas ele tinha dito isto para mim. As próprias palavras de Deus estavam em minha cabeça. Elas estavam lá em minha cabeça da mesma maneira que as palavras que eu estou escrevendo neste momento estão na minha cabeça. Elas foram ouvidas tão claramente quanto se neste momento eu recordasse que minha esposa havia dito, "Desça para jantar assim que estiver pronto." Eu sei que aquelas são palavras da minha esposa. E eu sei que estas são palavras de Deus.

"O Deus Todo-Poderoso tinha descido e estava me dando a quietude, a abertura e a disposição de ouvir a Sua voz."

Pense nisso. Maravilhe-se com isso. Trema diante disso. O Deus cujos olhos vigiam as nações, como algumas pessoas vigiam o gado ou o mercados de ações ou locais de construção - esse Deus ainda fala no século vinte e um. Eu ouvi as próprias palavras dEle. Ele falou pessoalmente comigo.

Que efeito teve isso sobre mim? Encheu-me de um senso renovado da realidade de Deus. Assegurou-me mais profundamente de que ele age na história e no nosso tempo. Fortaleceu minha fé de que ele é por mim e cuida de mim e usará o seu poder universal para tomar conta de mim. Por que mais ele viria e me contaria essas coisas?

Aumentou meu amor pela Bíblia como a verdadeira palavra de Deus, porque foi pela Bíblia que eu ouvi estas palavras divinas, e através da Bíblia eu tenho experiências como estas quase diariamente. O próprio Deus do universo fala em cada página à minha mente – e à sua mente também. Nós ouvimos as Suas próprias palavras. Deus mesmo multiplicou as Suas obras e Seus pensamentos maravilhosos para nós; ninguém pode se comparar a ele! Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar. (Salmo 40:5).

E, melhor de tudo, eles estão disponíveis a todos. Se você quiser ouvir as mesmas palavras que eu ouvi no sofá no norte de Minnesota, leia o Salmo 66:5-7. Foi ali que eu as ouvi. Quão preciosa é a Bíblia. É a própria palavra de Deus. Nela Deus fala em pleno século vinte e um. Ela é a própria voz de Deus. Por esta voz, Ele fala com verdade absoluta e força pessoal. Por esta voz, Ele revela a Sua transcendente beleza. Por esta voz, Ele revela os segredos mais profundos de nossos corações. Nenhuma voz pode em qualquer lugar e a qualquer tempo ir tão fundo ou erguer-se tão alto ou levar tão longe quanto a voz de Deus que nós ouvimos na Bíblia. É uma grande maravilha que Deus ainda fale hoje através da Bíblia com maior força, maior glória, maior certeza, maior doçura, maior esperança, maior orientação, maior poder transformador e maior verdade cristocêntrica do que pode ser ouvida de qualquer voz em qualquer alma humana no planeta fora da Bíblia.

É por isso que fiquei triste com o artigo "My Conversation with God" ("Minha Conversa com Deus" – N.T.) na Christianity Today (Cristianismo Hoje – N.T.) deste mês. Escrito por um professor anônimo de uma "conhecida Universidade Cristã", conta a sua experiência de ouvir Deus. O que Deus disse era que ele deveria dar todos os royalties de um novo livro para pagar os estudos de um estudante necessitado. O que me deixa triste sobre o artigo não é que não é verdade ou que não aconteceu. O que me entristece é que realmente dá a impressão de que a comunicação extra-bíblica com Deus é infinitamente maravilhosa e fortalecedora da fé. O tempo todo, a supremamente gloriosa comunicação do Deus vivo que pessoalmente e poderosamente e transformadoramente explode todos os dias no coração receptivo através da Bíblia é ignorada em absoluto silêncio.

Tenho certeza que esse professor de teologia não quis dizer isso deste modo, mas o que ele disse de fato foi: "Durante anos ensinei que Deus ainda fala hoje, mas não pude testemunhar isso pessoalmente. Eu só posso fazer isso agora de forma anônima, por razões que eu espero fiquem claras" (ênfase acrescentada por Piper). Certamente ele não quer dizer o que ele parece inferir – que somente quando a pessoa ouve uma voz extra-bíblica como, "O dinheiro não é seu", você pode testemunhar pessoalmente que Deus ainda fala. Seguramente ele não pretende depreciar a voz de Deus na Bíblia que fala neste mesmo dia com poder, verdade, sabedoria, glória, alegria, esperança, maravilha e utilidade, dez mil vezes mais decisivamente que qualquer coisa que possamos ouvir fora da Bíblia.

Eu me aflijo com o que está sendo comunicado aqui. A grande necessidade de nosso tempo é que as pessoas experimentem a realidade viva de Deus ouvindo a Sua Palavra pessoalmente e de forma transformadora nas Escrituras. Algo está inacreditavelmente errado quando as palavras que nós ouvimos fora da Bíblia são mais poderosas e mais influentes para nós do que a Palavra inspirada de Deus. Clamemos com o salmista: "Inclina-me o coração aos teus testemunhos (Salmo 119:36)". "Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei (Salmo 119:18)". Que sejam iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos e conheçais o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus (Efésios 1:18; 3:19). Ó Deus, não nos deixes sermos tão surdos à tua Palavra e tão indiferentes à Sua inefável excelência evidencial a ponto de celebramos coisas menores como mais emocionantes, e até mesmo considerarmos esse maravilhar-se completamente fora de lugar merecedor de ser impresso em uma revista de circulação nacional.

Ainda ouvindo a Sua voz na Bíblia,
Pastor John Piper

Extraído de http://www.bomcaminho.com/jp001.htm

20 julho 2007

Por amor da verdade: julgue!

Cada vez mais tenho percebido que os "evangélicos" e seus líderes estão vivendo um estranho evangelho sem entendimento e subjetivista. O emocionalismo dita o comportamento e, no final de tudo é só atribuir ao Espírito Santo, que ninguém terá a ousadia de questionar! Qualquer critério que possibilite uma honesta verificação dos fatos é anulada, simplesmente porque não podemos julgar! Exercer a mente usando a Escritura, a nossa única regra de fé e prática, nos autoriza a encontrar a verdade e exige que julguemos com integridade e, assim desprezemos todo erro que tenha origem no meio do povo de Deus.

Situação bem recente e que se delongará é o modismo das "unções". Sinceramente não encontro na minha Bíblia estas tais unções modernas. Reli estas páginas amassadas várias vezes e, algumas outras com uma concordância exaustiva, mas é pavoroso como o que se ensina e pratica por aí como "unção" hoje é tão diferente do que os profetas e apóstolos experimentaram. Pelo menos Jesus não recebeu nenhuma "unção" do cajado, do sapatinho de fogo, do riso, do cair, do rolar, [engatinhar] do leão, etc.. Temo até mesmo o imaginar o Santo de Israel se comportando de modo tão ridículo! O meu Salvador nunca fez papel de palhaço, nem perdeu a sua integridade em momento algum. Se devo ser Seu imitador, então não posso desonrá-Lo.

Mas, se alguém com um pouco de bom senso questiona, se pronunciando quanto aos absurdos de líderes evangélicos que têm manipulado os membros de suas comunidades, então, logo a resposta surge, quase que decorado: quem somos nós, não podemos julgar ninguém! Quando o Senhor Jesus advertiu contra o juízo temerário (Mt 7:1-5), Ele não estava declarando pecaminoso e proibido toda e qualquer forma de juízo. Ele não nos ordenou que nos tornássemos subjetivistas e anulássemos o nosso entendimento passando a adotar um pluralismo epistemológico. O amado de minha alma me desafia a julgar pelo que é justo (Lc 12:57); bem como que DEVO julgar segundo a reta justiça (Jo 7:24). Por isso, não posso ser omisso diante dos absurdos, dos comportamentos esquizofrênicos, e ensinamentos de um evangelho que não é o Evangelho do meu Jesus, conforme as Escrituras Sagradas. Dentro do contexto de Mt 7:1-5, no verso 6, Ele mesmo nos induz a discernir o que/quem é cão e porco [palavras desamorosas?] para que não se desperdice a graça de Deus. Julgar não é pecado! Afinal o próprio Deus exerce juízo. Ele mesmo nos ordena exercer o discernimento, que diga-se de passagem é o dom mais ignorado, e talvez o mais odiado hoje em dia. Ao exercer o "discernimento" você inevitavelmente julga, ou não julga?

O Senhor Jesus Cristo julgou os escribas e fariseus pelo seu comportamento hipócrita e doutrinariamente distorcido (Mt 23:1-36). Se o julgar não é o papel de um homem de Deus, então creio que tanto os profetas do Antigo Testamento como Cristo e os apóstolos devem ser despidos deste título! Creio que os crentes deveriam ler a Bíblia mais atentamente. Talvez, a mentalidade mundana pós-moderna seja incapaz de tolerar o julgamento inspirado dos escritores da Escritura Sagrada.

Vou ficar com a minha Bíblia e desprezo toda e qualquer experiência subjetiva e duvidosa que queira se colocar no mesmo pé de igualdade que a autoridade das Escrituras. Insisto que SOMENTE A ESCRITURA SAGRADA É A ÚNICA REGRA DE FÉ E PRÁTICA. Vou continuar lendo e me alimentando com a única e verdadeira Palavra de Deus. Não perco o meu tempo interpretando e espiritualizando gente que quer gritar, rolar, vomitar [!], cair, desmaiar, engatinhar, sapatear, etc., e ainda assim dizem que estas aberrações são obra do poder e santificação do Espírito Santo! Negar o poder do Espírito é perigoso, mas atribuir ação da carne e, talvez, de demônios, ao Espírito Santo é mais perigoso ainda (Ap 22:18-19). E o ponto de referência para se discernir o que é acréscimo ou descrécimo da verdadeira obra do Espírito Santo é a ESCRITURA SAGRADA e não as experiências.

Não estou criticando apenas por mero prazer, ou, por comodidade. Os evangélicos deveriam ler, ou talvez reler mais atentamente alguns textos do Novo Testamento que falam do dever dos verdadeiros cristãos lutarem pela pureza da fé que lhes foi entregue pelo Senhor Jesus (Gl 1:6-9; Fp 1:15-17; Cl 2:8-9; 2Ts 2:9-12; 1 Tm 1:18-20; 1 Tm 4; 1 Tm 6:1-5; 2 Tm 2:14-26; Tt 1:10-16;2 Pe 2; 1 Jo 4:1-6; 2 Jo vs. 7-11; Jd vs. 3-4). São advertências contra gente que estava dentro da Igreja, e todavia, ensinavam coisas estranhas ao Evangelho de Jesus. Os apóstolos, inspirados pelo Espírito Santo, nos ordenam discernir, resistir, refutar e acusar o erro e todo desvio e, ao mesmo tempo firmar a verdade da Palavra deDeus.

Exorto a todos os que amam ao Senhor Jesus Cristo que se arrependam do seu desvio doutrinário e voltem ao puro e antigo Evangelho, e amem e obedeçam somente o ensino da Escritura Sagrada (2 Tm 4:1-5).

Rev. Ewerton B. Tokashiki

12 julho 2007

Sobre a última declaração do Papa

Não sei porquê tem gente se surpreendendo com a última declaração do Papa Bento XVI?! Penso ser ignorância histórica ou ingenuidade voluntária. A Igreja Romana nunca arredou um milímetro de sua opinião acerca de si mesma, e sobre os protestantes, mesmo quando fez política da boa vizinhança durante o Concílio Vaticano II. Tanto a posição teológica quanto a prática moral dos papistas tem demonstrado no que eles diferem, e radicalmente constrastam dos protestantes durante todos estes séculos.[1]

O Movimento Ecumênico iniciado a partir da Conferência Missionária de Edinburgh, em 1910, e promovido majoritariamente pelos protestantes de orientação teológica liberal (com todas as suas variantes e elasticidades do termo)[2] desejam manter uma relação de mútuo reconhecimento de "irmandade" com a Igreja Católica Apostólica Romana. Pois é, depois desta declaração do Joseph Ratzinger, descobriram que deram "um tiro no próprio pé"! Em vez de receberem a benção papal, levaram um coice desprevenidos.

Os romanistas nunca prometeram, oficialmente ex cathedra, o reconhecimento do protestantismo, ou de qualquer outro ramo histórico ocidental ou oriental do Cristianismo, como membro da "verdadeira" Igreja.[3] O historiador David S. Schaff observa que "os protestantes sustentam que há unidade onde haja obediência a Cristo; o romanista pensa que há unidade onde haja obediência ao papa. Leão XIII, em sua encíclica sobre a unidade da Igreja, acompanhou os seus predecessores, Bonifácio VIII e Leão X, ensinando que a unidade de comunhão - unitas communionis - acompanha a unidade da fé e unidade de governo - unitas regiminis - pelos quais se entendem o sistema doutrinário romano e o governo papal".[4] O máximo que fizeram foi nos chamar de "irmãos separados", mas deve-se ao fato da influência de teólogos da ala progressista ser influente na comissão de relações ecumênicas durante o Concílio Vaticano II.

A opinião do atual Papa quanto ao Ecumenismo não é novidade! O maior ataque de Ratzinger contra o diálogo inter-religioso foi a declaração da Congregação para a Doutrina da Fé Dominus Iesus, de 2000, que abriu uma brecha profunda entre as denominadas igrejas cristãs, ao mesmo tempo em que dinamitou todas as pontes que estavam se estabelecendo entre a Igreja Católica e as diferentes religiões. Ratzinger afirmava ali que a igreja católica é “a Igreja verdadeira” e que as “igrejas particulares” (ortodoxas) e as comunidades eclesiais (protestantes) “não são Igreja em sentido próprio” (n. 17). Não era de se esperar que ele mudasse de opinião, nem que intentasse mudar esta doutrina, sendo ele mesmo a autoridade máxima da Igreja Católica.

Os protestantes são chamados pela Igreja Romana de comunidades eclesiais separadas. Desde os dias do Concílio Vaticano II o critério de apreciação das Igrejas Protestantes era muito simples: a proximidade ou distanciamento da doutrina sacramentalista e sacerdotal romana define como os papistas devem julgar todos os protestantes.[5] Segundo a cúria católica os protestantes não são reconhecidos como participantes da verdadeira Igreja, porque não são propriamente uma igreja; por não possuirem sacramentos reconhecidos, nem uma ordenação que descende a sucessão apostólica.

A Igreja Católica Romana não pode usurpar a prerrogativa de ser a verdadeira Igreja enquanto negar os sola's da Reforma. Esta corrompida instituição não pode apresentar-se como a autoridade reguladora final, roubando das Escrituras a posição que pertence somente a Palavra de Deus. Ela é impotente de assumir o papel de dispenseira da graça, pelos sacramentos ou qualquer outro meio, enquanto negar a suficiência e eficiência da graça para salvar o pecador. Nem mesmo pode atribuir ao seu sumo Pontíficie, o Papa, o papel de vigário de Cristo, negando a perfeição da obra redentora do Filho de Deus. Não pode apresentar-se como detentora da fé, acrescentando méritos pessoais e superstições ao puro evangelho. É inconcebível que ela declare que a sua liturgia e missa, quer em língua vulgar ou em latim, é o único culto aceito, enquanto negar que toda glória, honra e adoração sejam dadas exclusivamente ao soberano e trino Deus.

Notas:
[1] O estudo apologético realizado por Loraine Boettner, Catolicismo Romano (São Paulo, Imprensa Batista Regular, 1985) demonstra este distanciamento irredutível.
[2] Uma obra esgotada, mas muito interessante para se conhecer o desenvolvimento histórico de como o Ecumenismo se processou no Brasil, é o livro publicado pela ASTE sob o título de O Catolicismo Romano - um simpósio protestante (São Paulo, ASTE, 1962). São as teses escritas que foram entregues num dos simpósios promovidos pela ASTE, instituição que dispensa apresentações, nos dias 5 a 9 de Novembro de 1959. Na época o presidente desta editora era o Rev. Júlio A. Ferreira, pastor da IPB. As 8 palestras possuem um tom ecumênico, sendo um dos articulista um católico dominicano, e os demais membros de denominações do protestantismo histórico como Igreja Metodista do Brasil, Igreja Evangélica Luterano do Brasil, Igreja Evangélica da Confissão Luterana, Igreja Anglicana do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e o conhecido Rubem A. Alves, então pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil.
[3] Há muitos oficiais da Igreja Católica que defendem a prática do Ecumenismo, entretanto, não representam coerentemente o pensamento tradicional romanista. Adeptos desta posição alguns livros-textos podem ser mencionados como Francis S. Fiorenza - John P. Galvin, Teologia Sistemática - Perspectivas Católico-Romanas (São Paulo, Editora Paulus, 1997), 2 vols..
[4] David S. Schaff, Nossa Crença e a de Nossos Pais (São Paulo, Imprensa Metodista, 2a.ed., 1964), pág. 208.
[5] José Grau, Catolicismo Romano - origenes y desarrollo (Barcelona, Ediciones Evangélicas Europeas, 2a.ed., 1990), vol. 2, pág. 1144.

09 julho 2007

O significado da palavra "indigno" em 1 Co 11:27

A palavra grega traduzida por indignamente (anaziôs) é uma hapax legomena.[1] Em outras palavras, em todo o Novo Testamento ela somente ocorre nesta passagem. Se Paulo quisesse exigir um caráter digno dos participantes da Ceia em Corinto, teria empregado a palavra anaziós e não anaziôs. A diferença entre as duas é realmente pequena, se limita apenas a um trocadilho entre as vogais ómicron e ômega. Todavia, a palavra anaziós é um adjetivo, o que qualificaria o caráter do participante. Enquanto que anaziôs é um advérbio que descreve o modo da ação do participante.

Por ser uma hapax legomena dificulta uma análise comparativa da palavra pelo número de ocorrências. Entretanto, é possível fazê-lo de seu antônimo. Pode-se concluir que, enquanto a palavra anaxiôs é “agir de modo digno”, a palavra anaziôs significa “agir de modo indigno”. O articulista E. Tiedtke observa que “nas epístolas, axios freqüentemente tem o significado de ‘apropriado’, ‘de acordo com’. Este uso é especialmente evidente no uso do adv. axios nas exortações que exigem a maneira de vida à altura do evangelho de Cristo (Fp 1:27), do Senhor (Cl 1:10; 1 Ts 2:12), ou da nossa vocação (Ef 4:1). De modo semelhante em 1 Co 11:27, Paulo adverte contra a celebração da Ceia do Senhor de modo indigno (anaziôs). Não é tanto uma exigência de qualidades morais nos participantes, mas, sim, procurar um modo de vida de acordo com o evangelho, i.é, o amor mútuo (cf. o contexto, 1 Co 11:17-34).”[2]

O advérbio “indignamente” possui na língua portuguesa um sentido moral que não corresponde com exatidão ao significado da palavra grega anaziôs. O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa fornece as seguintes explicações dos verbetes correlatos: desprezível, torpe, inconveniente, impróprio. Neste caso, somente a palavra “impróprio” aproxima-se do significado original. Por isso, traduzir anaziôs por indignamente, como ocorre na Versão Revista e Atualizada, embora esteja correto, não esclarece completamente o seu sentido original. Na língua portuguesa a palavra indigno tem a sua origem no latim, significa “algo que não convém, indigno, que não merece, não merecedor, injusto, vergonhoso, infamante.”[3] Daí o entendimento popular, de que para participar da Ceia do Senhor a pessoa necessita ser “digna”, subentendendo as suas virtudes pessoais, ou boa conduta como mérito.

A palavra anaziôs não sugere mérito pessoal do participante. Esta palavra simplesmente acusa a maneira como se procedeu. Spiros Zodhiates comenta que este verbete grego significa “indignamente, irreverente, de uma maneira indigna (1 Co 11:27, 29), tratando a Ceia do Senhor como se fosse um alimento comum, sem atribuir-lhe, e aos seus elementos o valor próprio.”[4]

Notas:
[1] Algumas versões que adotam o Texto Majoritário (Zane C. hodges & Arthur L. Farstad, The Greek New Testament According to the Majoritary Text [Nashville, Thomas Nelson Publishers, 2a.ed., 1985], pág. 532) trazem no verso 29 o acréscimo “indignamente” (Edição Revista e Corrida da Imprensa Bíblica Brasileira, a Edição Contemporânea da Editora Vida e a Edição Corrigida e Revisada da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil). Gordon Fee observa que “esta adição e a que segue são intentos compreensíveis para conformar esta oração ao vs. 27, mas ao fazê-lo alteram consideravelmente o sentido.” Gordon Fee, Primera Epistola a los Corintios (Buenos Aires, Nueva Creación, 1994), p. 632
[2] E. Tiedtke, in: Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (São Paulo, Ed. Vida Nova, 2ª ed., 2000) vol.2, p. 2106.
[3] Ernesto Faria, Dicionário Escolar Latino-Português (Rio de Janeiro, FAE, 1994) p. 274.
[4] Spiros Zodhiates, ed., The Complete Word Study Dictionary New Testament (Chattanooga, 1993), p. 156. Outro dicionário diz “não correspondendo ao que poderia acontecer – impropriedade, de uma maneira imprópria, alguém que come do pão e bebe do cálice do Senhor de uma maneira imprópria 1 Co 11:27” in: J.P. Louw & E.A. Nida, eds., Greek-English Lexicon of the New Testament Based on Semantic Domains (New York, United Bible Societies, 2ªed., 1989), p. 628.

04 julho 2007

Análise comparativa de 1 Co 11:27

A constatação do apóstolo Paulo de que os cristãos coríntios participavam da Ceia do Senhor de maneira indigna tem trazido divergência de interpretação quanto ao seu exato significado. Algumas dessas interpretações serão expostas a seguir numa análise comparativa.

Thomas C. Oden prefere uma interpretação moral para indignamente. Em vez de recorrer a palavra grega original, ou, ao contexto próximo da passagem, ele busca uma relação com a desqualificação moral do caráter de alguns cristãos coríntios. Citando alguns versículos Oden concebe a seguinte ponte “aqueles que tem um procedimento desordenado são admoestados (2 Ts 3:6-15). Alguns ‘devem examinar a si mesmos antes de comer do pão e beber do cálice. Pois o que come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe juízo para si’ (1 Co 11:28-29). Paulo especificamente instrui os coríntios que ele não deveriam comer ‘com alguém que chamasse a si mesmo de irmão, mas que era sexualmente imoral ou ganancioso, um idólatra ou um caluniador, beberrão ou mentiroso’ (1 Co 5:11).”[1] Entretanto, o advérbio indignamente refere-se ao modo da ação, não especificamente ao caráter do agente.

Leon Morris sugere que a participação digna da Ceia deve ser com fé. Ele declara que “mas noutro sentido podemos vir dignamente, isto é, com fé, e com a devida realização de tudo que é pertinente a tão solene rito. Negligenciar nisto é vir indignamente no sentido aqui censurado.”[2] Todavia, os que participavam da Ceia não estavam sendo reprovados por sua falta de fé. Nem por permitirem a participação de incrédulos. A sua reprovação era por desprezar o cerimonial da Ceia e a comunhão dos irmãos.

O teólogo da antiga Princeton Charles Hodge defende que a participação indigna significa participar com espírito negligente e irreverente. Ele diz que “se a Ceia do Senhor é em sua própria natureza uma proclamação da morte de Cristo, conseqüentemente que os que participam dela como se fosse uma comida ordinária, ou de maneira irreverente, ou com qualquer outro propósito que o moveu a realizá-la, são culpados do corpo e do sangue do Senhor.”[3] Em seguida define dizendo que “comer ou beber indignamente é, em geral, vir a mesa do Senhor com espírito negligente e irreverente; sem intenção nem desejo de comemorar a morte de Cristo como sacrifício por nossos pecados, e sem o propósito de cumprir as obrigações que com ela contraímos.”[4] Hodge cai no erro de interpretar a participação indigna como sendo um problema subjetivo.

O comentarista F.W. Grosheide relaciona o significado da indignidade ao errôneo uso da Ceia. Ele argumenta que “indignamente: isto implica que uma certa dignidade, ou valor está relacionado com o pão e o cálice. Aquele que os utiliza sem levar em conta o seu valor, os usa de um modo indigno, ou seja, não está de acordo com o seu valor. Um tão indigno uso os coríntios fizeram da Comunhão quando serviram-na, seguida duma festa do amor unida pela discórdia.”[5] Embora Grosheide capte o significado original da palavra indignamente, ele o erra em sua aplicação. Defende que o erro dos coríntios era ter a Ceia do Senhor como sendo de inferior valor, por realizá-la após uma festa. Deve-se notar que ele pressupõe um modelo de ceia greco-romana. A igreja de Corinto teria apenas feito uma ligeira adaptação para celebrar a Ceia do Senhor após a refeição principal. Como nas refeições greco-romanas, a principal e mais importante era a primeira refeição, servida para a nutrição, a que era servido em seguida objetivava encerrar o jantar, mas não tinha valor nutritivo. Esta concepção torna-se insustentável pelo fato, que não é provável que a Igreja Primitiva tenha mudado a sua prática litúrgica tão cedo, abandonando o modelo da ceia pascal judaica, pela ceia greco-romana. A história aponta para a preservação da tradição original, pelo menos nos primeiros dois séculos.[6]

C.K. Barret interpreta que o indignamente é posicionar-se com hostilidade aos irmãos durante a Ceia. Barret declara “o que Paulo entende por indignamente é explicado pelos versos 21 em diante; ele pensa das falhas morais de partidarismo e ganância que marcavam a reunião dos coríntios.”[7] Continua esclarecendo que “comer e beber indignamente (no sentido indicado acima) é contradizer tanto o propósito da auto-entrega de Cristo, e o espírito no qual foi feito, e situar-se entre aqueles que foram responsáveis pela crucificação, e não entre aqueles que pela fé receberam o seu fruto.”[8] A segunda citação possuí uma implicação lógica que é verdadeira. Mas, ela não se encontra de modo objetivo na passagem (11:17-34). Logo, não é possível incluí-la como um aspecto da indignidade que Paulo estava reprovando.

John F. MacArthur Jr. sustenta que a indignidade refere-se a uma depreciação da cerimônia. Comenta que “vir indignamente à Comunhão é uma simples desonra a cerimônia; é uma desonra Àquele a quem a honra é celebrada. Tornamo-nos culpados de desonrar o seu corpo e sangue, que representam a Sua obra e completa graça por nós, Seu sofrimento e morte em nosso favor.”[9] A interpretação de MacArthur é parcial. Ao expor que os coríntios estavam desonrando a cerimônia, omite os abusos cometidos entre os cristãos coríntios (cf. vs. 17-22, 33-34).

Simon Kistemaker prefere uma interpretação inclusiva. Reconhece que há uma variada gama de definições acerca do significado da maneira indigna que a Ceia foi realizada. Simplesmente prefere assumir que "talvez Paulo tenha pretendido que o advérbio indignamente fosse interpretado de modo mais amplo possível. É verdade que alguns dos coríntios mostravam falta de amor, enquanto outros deixaram de distinguir entre a festa de fraternidade e a observância da Santa Ceia. Ambos estavam errados, e Paulo os confronta. Mas o texto tem uma mensagem para a Igreja universal, também. Os cristãos nunca devem considerar a celebração um mero ritual. Ao contrário, os crentes sinceros devem aguardar com alegria a Ceia do Senhor. Os cristãos devem confessar não serem dignos por causa do pecado, mas terem sua posição de dignidade por causa de Cristo. Paulo não está exigindo perfeição antes que se permita aos crentes virem à mesa da comunhão. Ele defende um estilo de vida governado pelas reivindicações do evangelho de Cristo, e que tribute o mais alto louvor a Deus."[10] É possível que Kistemaker tenha razão. Mas, parece que a passagem trata de um problema bem específico. Entretanto, pelo fato do apóstolo exigir um auto-exame, e indicar a ocorrência de disciplinas distintas, e por fim fazer uma recomendação dirigida a mutualidade (esperai uns pelos outros, vs. 33), é mais correto pensar que a participação indigna na Ceia também poderia ser um problema específico.

Notas:
[1] Thomas C. Oden, Life in the Spirit: Systematic Theology (Peabody, Prince Press, 2001), vol. 3, p. 326.
[2] Leon Morris, 1 Coríntios Introdução e Comentário (São Paulo, Ed. Vida Nova e Mundo Cristão, 1988), p. 131.
[3] Charles Hodge, Comentário de 1 Corintios (Edinburg, El Estandarte de la Verdad, 1996), p. 212.
[4] Charles Hodge, Comentário de 1 Corintios, p. 213.
[5] F.W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1953), pp. 273-274.
[6] Justino (100-165 d.C) descreve a celebração da Ceia da seguinte forma “depois àquele que preside aos irmãos é oferecido pão e uma vasilha com água e vinho; pegando-os, ele louva e glorifica ao Pai do universo através do nome do Filho e do Espírito Santo (...) depois que o presidente deu ação de graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam ministros ou diáconos dão a cada um dos presentes parte do pão e do vinho e da água sobre os quais se pronunciou a ação de graças e os levam aos ausentes.”Justino de Roma, 1 Apologia in: Patrística (São Paulo, Ed. Paulus, 1995), pp. 81-82.
[7] C.K. Barret, The First Epistle to the Corinthians (Peabody, Hendrickson Publishers, 1996), p. 272.
[8] C.K. Barret, The First Epistle to the Corinthians, p. 273.
[9] John F. MacArthur, Jr., The MacArthur New Testament Commentary 1 Corinthians (Chicago, Mood Press, 1984), p. 274.
[10] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 2004), p. 557.

30 junho 2007

Reconstrução histórica da Ceia em Corinto

Estrutura de 1 Coríntios
Paulo escreve esta epístola corrigindo várias distorções cometidas pelos coríntios.[1] O apóstolo reprova as divisões (1:10-4:20). O vergonhoso e público caso de incesto de um de seus membros (5:1-13). Disputas legais entre cristãos (6:1-11). Casos de envolvimento com prostitutas (6:12-20). Desentendimentos quanto ao valor do casamento (7:1-40). Participação de festividades pagãs e comidas oferecidas a ídolos (8:1-11:1). Os três problemas seguintes estão relacionados com as reuniões públicas dos cristãos em Corinto. A explicação da autoridade entre homens e mulheres na igreja (11:2-16). O segundo relata as distorções da Ceia do Senhor (11:17-34). A terceira problemática sobre o culto na igreja de Corinto envolve a má compreensão da distribuição e usos dos dons (12:1-14:40). Em seguida, Paulo fornece um esclarecimento da veracidade da ressurreição de Cristo, e a certeza da ressurreição futura dos crentes (15:1-58). Solicita como a igreja deve proceder para a coleta (16:1-11) e a ida de Apolo (16:12).

O problema da Ceia não era generalizado, mas era perceptível. Não é possível sustentar que toda a igreja de Corinto se encontrava reprovada por Paulo. Ele mesmo diz que “porque importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio” (vs. 19). Os abusos da Ceia em Corinto envolviam apenas os cristãos. Não há indícios de que nesta perícope Paulo esteja preocupado em restringir a Ceia. Os coríntios não estavam sendo acusados de permitir a participação de incrédulos na Mesa do Senhor. Não eram os incrédulos que estavam profanando a Ceia, mas as atitudes ímpias dos cristãos coríntios.

A Ceia do Senhor seguia um padrão helênico?

Há dois modos de reconstruir a reunião da Ceia da igreja Corinto. O primeiro modelo sugere que a Ceia seguia o padrão de um jantar comum. Isto pressupõe uma refeição extraída da cultura greco-romana. Conforme este modelo a Ceia da igreja de Corinto possuía duas fases. A primeira desenrolava-se numa refeição comum, com o propósito de nutrição. Logo em seguida, viria uma segunda parte, com a celebração solene da Ceia do Senhor.

Esta interpretação explica que durante a primeira fase da refeição os crentes de Corinto cometiam sérios abusos, tais como egoísmo, bebedeira, glutonaria e desprezo pelos irmãos pobres. Sendo que a Ceia do Senhor que viria em seguida já não teria importância, para os que se atrasaram e não participaram da primeira refeição, estando ainda com fome e gerando um descontentamento entre os cristãos coríntios. James D.G. Dunn está correto ao discordar desta reconstrução entende que “o problema neste caso é que Paulo parece ter em mente só uma única refeição comum (a Ceia do Senhor). A prática que ele reprova não é a de uma refeição separada (precedente) da Ceia do Senhor, mas o abuso de uma única refeição (a Ceia do Senhor) que começava com o único pão e terminava com o cálice ‘após a ceia’ (11,25).”[2]

A Ceia era cuturalmente judaica
A segunda reconstrução histórica interpreta a Ceia do Senhor como sendo uma única refeição numa reunião com o propósito solene de celebrar a comunhão da Igreja de Cristo. Seguindo o padrão da ceia Pascal, então, a interpretação toma outro rumo. Primeiro, pressupõe-se que a Ceia do Senhor, em alguma medida, possuí continuidade com a refeição da antiga Aliança. Segundo, a Ceia era uma refeição litúrgica (Mt 26:30), seguindo os moldes da tradição apostólica (eu recebi do Senhor o que também vos entreguei, vs. 23), não meramente uma reunião de confraternização. Em terceiro lugar, Paulo usa uma palavra muito específica para a “ceia” que se refere ao “principal alimento recebido à noite”[3] não se referindo a uma refeição secundária.

A Ceia do Senhor representa, entre outras concepções, a comunhão da Igreja de Cristo (10:17). O comportamento partidário e egoísta contradizia abertamente o sentido da cerimônia. Tal era a distorção das reuniões dos coríntios, que descaracterizavam a Ceia, tornando o ambiente impróprio de celebrar a comunhão do Corpo de Cristo (vs. 20).

Não se deve admitir que as divisões dentro da igreja de Corinto ocorriam somente por problemas sociais. James D.G. Dunn interpreta, erroneamente, que “é particularmente evidente que a tensão era basicamente entre cristãos ricos e cristãos pobres, isto é, entre os que tinham comida e bebida suficiente e suas próprias casas (11,21-22) e ‘os que nada têm’ (11,22)”.[4] Percebe-se que o principal problema que afetava a celebração da Ceia da igreja de Corinto eram os partidarismos relacionados a uma má compreensão de quem eram os seus líderes. Dentro da igreja havia discórdia e competição, pois “cada grupo se jactava da sabedoria superior de seu escolhido (1:10-17).”[5] O problema não era apenas uma luta de classes sociais. O texto refere-se a “divisões” (vs. 18) e a “partidos” (vs. 19). Não eram apenas dois grupos em desentendimento, mas vários, acerca de diversos assuntos (cf. 3:4, 22; 8:7, 9, 13; 9:2; 11:22).

Notas:
[1] D.A. Carson, et.al., Introdução ao Novo Testamento (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1997), pp. 287-289.
[2] James D.G. Dunn, A Teologia do Apóstolo Paulo (São Paulo, Ed. Paulus, 2003), pp. 688-689.
[3] William D. Mounce, The Analytical Lexicon to the Greek New Testament (Grand Rapids, Zondervan Publishing Books, 1992), p. 133.
[4] James D.G. Dunn, op.cit., p. 687. Embora sendo cuidadoso com a sua análise contextual Dunn não evita a sua tendência em defender que “a análise sociológica sugere que o assunto tratado em 1 Co 10-11 era primariamente a união social e não tanto uma disputa teológica” p. 689. É aceito que Paulo não estava discutindo com os coríntios acerca da presença de Cristo na Ceia. Mas ao instruir-lhes acerca da natureza da Ceia do Senhor (11:23-26) certamente o apóstolo releva-lhes à memória a gravidade da confusão e profanação da Ceia, a ponto de acusá-los de descaracterizá-la, e dizer-lhes que aquilo que eles faziam “não é a ceia do Senhor que comeis” (11:20).
[5] D.A. Carson, et.al., Introdução ao Novo Testamento, p. 287.

21 junho 2007

Implicações dos 5 Pontos do Calvinismo no Aconselhamento Cristão

De 13 de novembro de 1618 a maio de 1619, reuniu-se o Sínodo de Dort, na Holanda, com representantes de vários países europeus. Tal reunião teve por finalidade produzir um documento doutrinário que a histórica conhece por TULIP[1]. Esse Sínodo fez-se necessário porque alguns discípulos de Armínius[2] (1560 a 1600) produziram um documento enviado ao estado da Holanda. Tal documento, conhecido como Remonstrance (ou Protesto), tinha como teor algumas afirmações que destoavam do calvinismo, tendo mais proximidade com a doutrina pelagiana. O documento produzido nesse Sínodo se tornou o texto oficial do calvinismo desde então.

Esse trabalho tem como objetivo partir desses pontos do calvinismo e analisar sua aplicabilidade dentro do contexto do aconselhamento. É importante salientarmos que o aconselhamento bíblico e reformado leva em conta todos os aspectos do homem, espiritual, físico, moral, social e assim por diante. O Deus que regenera o homem é o mesmo que provê condições para que este se desenvolva na sua santificação. Cremos que é nessa direção que o aconselhamento caminha, sem abrirmos mão da nossa herança bíblica e reformada.

O DEUS SOBERANO
A soberania de Deus é um ponto de grande destaque dentro da tradição reformada. Na verdade, Calvino levanta toda a sua argumentação pautada nessa constatação absoluta. Não há como fugir do domínio soberano do Senhor. O salmista nos põe de frente com essa realidade, quando lança a pergunta: Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?[3] A partir de um claro conceito de um Deus soberano, é que os cinco pontos do calvinismo puderam surgir como uma conseqüência “lógica”, que parte de um Deus que tem todas as coisas diante dos seus olhos.

Elege (Eleição Incondicional)
A eleição incondicional nos remete ao pensamento de que não há bem nenhum em nós que possa “motivar” Deus a nos salvar. Não havia uma resposta positiva da nossa parte, que foi prevista por Deus, como argumentam os arminianos. Segundo Jay Adams, “a escolha foi incondicional; i. e., Deus livremente escolheu aqueles que Ele desejou salvar, não com base em alguma virtude, mérito, valor, fé prevista, ou algum outro fator neles... esta seleção de alguns para a vida eterna foi feita com base em elementos não reveláveis, conhecidos apenas por Deus (tradução própria).”[4] O conselheiro cristão não pode aconselhar concretamente nas virtudes de Cristo um não regenerado. Aí não seria aconselhamento e sim evangelização.

O próprio Jay Adams argumenta a não possibilidade de um aconselhamento completo sem a pessoa ter passado pela experiência da conversão. O Deus Trino que elege, é o mesmo que possibilita que este regenerado seja desenvolvido em santidade. O aconselhamento cristão leva em conta que somente a Palavra pode causar mudanças em nosso pensar e agir. Sendo assim, somente os eleitos podem, verdadeiramente e em todas as áreas de sua vida, serem moldados por ela.

Redime (Expiação Limitada)
O controverso ponto da expiação limitada está solidamente firmado sobre as Escrituras Sagradas. Não há nada mais verdadeiro do que a declaração do próprio Cristo a esse respeito em Mateus 22:14 : “Muitos serão chamados, mas poucos escolhidos.”

Aqueles escolhidos pelo PAI e dados ao FILHO tinham de ser redimidos para serem salvos. Para assegurar a redenção deles Jesus veio ao mundo e tomou sobre Si a natureza humana de tal maneira, que Ele pode identificar-se com o Seu povo e agiu como substituto legal da raça. Jesus, agindo em favor do Seu povo, perfeitamente guardou a Lei de Deus, executou uma justiça perfeita que é imputada ou creditada aos pecadores no momento em que eles são trazidos à fé a Ele.

Através daquilo que Ele fez, os pecadores são constituídos justos diante de Deus. Eles são livres de toda a culpa e condenação, como resultado daquilo que Cristo sofreu por eles. Através do Seu sacrifício substitutivo Ele suportou a penalidade de seus pecados, e assim removeu a culpa para sempre. Conseqüentemente, quando o Seu povo está unido a Ele por fé, eles são creditados com perfeita justiça e são livres de toda a culpa e condenação. Eles são salvos, não por aquilo que eles mesmos fizeram, ou farão, mas somente sobre a base da obra redentora de Cristo.

A doutrina da expiação limitada trás para o ambiente do aconselhamento a certeza de que o Deus que redime é o Deus que cuida ativamente de cada um de nós. Conselheiros e aconselhados podem firmemente crer que Deus é o maior interessado no bem estar de seus filhos, proporcionando-lhes todos os meios para que sejam consolados em suas tribulações e tristezas.

Chama (Graça Irresistível)
O evangelho é a voz de Deus que chama os pecadores ao arrependimento. O chamado externo pode e é resistido por muitos que ouvem. Entretanto, o chamado interno, que é a operação do Espírito Santo no coração do pecador, não pode, sob nenhuma circunstância, ser resistido pelo ser humano. O Espírito Santo graciosamente chama o pecador ao arrependimento. E este, voluntariamente, atende ao chamado da graça. É o que conhecemos por graça irresistível.

O evangelho de Cristo chama, irresistivelmente, pecadores ao arrependimento. Esse chamado da graça torna totalmente possíveis mudanças significativas na vida de um regenerado. Tais mudanças se estendem por toda sua vida. É o que Paulo denomina novidade de vida (Rm.6). É o chamado da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz, tornando possível um aconselhamento pautado nas Escrituras, para que o indivíduo se guie por ela.
Por esse chamado irresistível é que o cristão pode desfrutar de um casamento abençoado por Deus, sendo aconselhado a como lidar com o cônjuge e filhos; que o jovem pode ter um namoro amadurecido pelos conceitos da Palavra; que o homem de negócios vise só aquilo que é justo e bom; que os relacionamentos interpessoais se desenvolvam com solidez e sem hipocrisia. Essa é a proposta do evangelho de Cristo, que pode ser desenvolvida dentro de um aconselhamento saudável.

Preserva (Perseverança dos santos)
Essa doutrina repousa sobre o sacrifício completo e absoluto de Cristo. Ele não somente derramou seu precioso sangue para nossa salvação, mas providenciou o meio para que perseveremos na fé até ao último dia. Assim como a salvação, também o perseverar na fé depende da graça de Cristo. Paulo nos esclarece em sua epístola aos Efésios, capítulo um, versículos treze e quatorze: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória”.

Na verdade a doutrina da perseverança dos santos tem profundas implicações dentro do aconselhamento cristão, pois ela infunde esperança àqueles que buscam ajuda para lutarem com seus problemas e erros. O conselheiro sábio trará para seu aconselhado as terríveis realidades de uma vida de pecado, mas lhe dará esperança de que em Cristo, não só podemos ser perdoados, mas que agora o pecado não nos separa eternamente de Deus. Lembrando, é claro, as recomendações de Paulo em Romanos 6.1, 2.

“O QUE É O HOMEM...”
Algumas teorias modernas definiram o homem longe daquilo que as Escrituras declaram a respeito da humanidade. Destacaremos aqui alguns nomes que acreditamos expressarem um conceito geral daquilo que é dito, em termos psicológicos e sociais, do que é o homem e como ele se relaciona com o seu ambiente.

O homem de Freud
Sigmund Freud foi altamente influenciado por uma visão iluminista e evolucionista. Para Freud, a única maneira de ver o homem e o mundo é através da ciência que, em sua concepção, era sinônimo de razão. Em sua maneira de pensar, a religião era apenas uma neurose e a idéia de um Deus soberano eram muletas que ajudavam no sentimento de segurança do homem. Tais coisas deveriam ser deixadas para trás pelo homem moderno. Eram apenas heranças pré-históricas que perderam seu sentido moderno.

Freud queria elaborar uma filosofia que pudesse ver o mundo e o homem que não fosse através do conceito religioso. Ele encontrou nas ciências e em certas filosofias, como por exemplo, o iluminismo, uma estrada que parecia a ele muito promissora. Na verdade, toda sua visão de mundo é antropocêntrica. Tudo que o homem necessita para sua auto-aceitação, liberdade e felicidade, está nele mesmo.

A razão é a única coisa que rege o homem. Sendo este, segundo Freud, um produto da evolução, um animal racional, não tem porque ficar preso a dogmas religiosos, que trazem perniciosos sentimentos de culpa. Uma vez entendido isso, o homem se torna livre para ser o que sua consciência quiser. Freud coloca a psicanálise como a alternativa racional para lidar com a culpa. Ele coloca a psicanálise como a ciência da alma, e seus terapeutas como seus pastores, eliminando qualquer necessidade ou utilidade do sobrenatural.

O homem de Skinner
Burrhus Frederic Skinner não foge ao padrão geral daqueles que trilham caminhos distintos do que propõe as Escrituras. Filho de presbiterianos, revolta-se contra a religião e tenta conceber o homem e o mundo sob uma ótica puramente racional. Passa, então, a ver o homem como máquina. O problema da humanidade é o seu ambiente que o impulsiona para o mal. O homem não é responsável pelos seus atos. É um ser manipulável por forças externas naturais.
Ele é puramente fruto de estímulos de recompensa e punição. Esse condicionamento humano é resultante de sua evolução biológica de sobrevivência. A máxima de Skinner é: “o homem é uma máquina”. Há pouco espaço na sua teoria para a consciência. Quase tudo é fruto do meio. Na sua visão não há nenhum espaço para o ser humano criado como um ser individual e único. Apesar de tal pensamento estar em desuso em seu estado natural, ele influenciou grandemente teorias comportamentalistas que vêem o homem apenas como o resultado do meio em que vivem.

O homem de Rogers
Carls Rogers acredita que o ser humano é essencialmente bom. O que torna o homem ruim é a influência exterior. Coloca o homem como o centro de todas as coisas. Na verdade Rogers exalta o valor do ego, o sentir-se bem consigo mesmo. Nisso ele exalta o homem, incentivando o hedonismo. Palavras como bem-estar pessoal, vida centrada no eu, definem bem as idéias de Rogers.

O método de aconselhamento rogeriano centrado no pragmatismo, leva em consideração que a pessoa é, essencialmente, boa. Tal pressuposto destoa da antropologia bíblica de que o homem é, essencialmente, mau, nascido em pecado. Com certeza Rogers tem elevado grau de otimismo quanto ao potencial humano de se auto-construir em direção a uma vida plena, sem qualquer ajuda extra, a não ser a si próprio.

Repensando o homem biblicamente (total depravação)
O pensamento bíblico que os calvinistas sustentam sobre a “Depravação Total” é “Incapacidade espiritual”. Significa que o pecador está espiritualmente falido e que ele não pode fazer nada concernente à sua salvação. E ainda, o reino do pecado é universal; todos os homens estão debaixo do seu poder (Jó 25:4-6; II Cr.6:36; Jó 15:14-16; Sl.143:2; Ec. 7:20, 29; Rm.3.9-18). A Confissão de Fé comentando sobre a queda de Adão e Eva, nos diz que “sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária”[5].

Não é preciso fazer grandes comparações para perceber que o pensamento atual sobre o homem destoa completamente daquilo que a Bíblia nos diz. Na verdade a Bíblia não eleva e nem diminui o homem. Apenas o coloca em sua condição real: falido espiritualmente. É justamente essa a posição que a doutrina calvinista sustenta. O homem não é uma máquina, como sustenta Skinner, conduzido pela razão e impulsos biológicos como queria Freud, e nem é bom como afirmou Rogers.

A teologia reformada ensina, com base nas Escrituras Sagradas, que o homem está ligado à sua natureza pecaminosa de tal forma que é inapto para se desvencilhar dela. Ele não pode produzir qualquer bem por si só que o leve a uma regeneração de sua condição. Mesmo que ele produza obras boas, ele sempre é direcionado, por seus próprios impulsos, para o mal. Tais obras são ineficazes para cumprir o padrão de Deus.

Sendo assim, o homem não é um ser livre e capaz como querem os expoentes do pensamento humanista, mas um ser que não pode produzir bem permanente. Ele é dependente de Deus não só para sua própria existência, mas principalmente para sua salvação. Tal conceito bíblico não diminui o homem, mas o coloca intimamente dependente de Deus.

POR UM ACONSELHAMENTO INTEGRAL
Ao longo da gloriosa história da igreja cristã, encontramos grandes teólogos que também foram pastores de alma, e que viam suas ovelhas pela ótica do cuidado integral. O cuidado pastoral pelas pessoas deve ser dirigido pelas Escrituras e moldado pela oração. É sempre direcionado ao outro, seja individualmente ou em grupo. Seja em lugares de cultos ou informais.

Temos que nos lembrar que aconselhamento não é resolver problemas ou tornar pessoas mais felizes. O aconselhamento pastoral nada mais é do que ajudar as pessoas visualizarem a graça de Deus em suas vidas. É conduzi-las a perceberem que essa graça, na maioria das vezes, está nas coisas ordinárias da vida. Não há relevância fora de Deus. Qualquer projeto alienado de Deus está fadado à solidão existencial. Todo projeto só pode encontrar sua realização e relevância na relação íntima e profunda com o Pai.

Ao analisarmos os cinco pontos do calvinismo, sua extensão prática para todas as áreas do relacionamento humano, percebemos, como diz Jay Adams, que a prática do aconselhamento cristão deve ser considerado dentro do processo de santificação[6]. Ele não é um fim em si mesmo, mas uma prática proporcionada por Deus para moldar um novo homem, “criado segundo Deus, em justiça e retidão, procedentes da verdade”[7].

Jesus olhava para o homem como um ser integral, com necessidades que abrangiam todas as áreas do seu ser. Não há como cuidar das pessoas sem entender claramente o que a Palavra de Deus declara sobre elas. Os cristãos reformados crêem que os cinco pontos do calvinismo fazem jus aos ensinamentos bíblicos quando pontuam todos os aspectos do homem, desde sua incapacidade para o bem, até sua total dependência de Deus para todas as coisas. Ainda, é ponto de destaque que a soberania de Deus é o clímax de toda estrutura na qual repousam as conclusões calvinistas.

A crença calvinista é que a primeira necessidade do homem, como um ser caído em pecado e separado eternamente de Deus, é a salvação de sua alma. E essa só pode ser efetuada mediante os méritos de Cristo, pela cruz do calvário. Qualquer aconselhamento bíblico, que não leve em conta a redenção, não poderá produzir resultados para a santificação, visto que o homem não regenerado não pode entender as coisas do Espírito de Deus, pois ainda não nasceu de novo.

Portanto, para um aconselhamento integral se desenvolver plenamente na vida de uma pessoa, que mude seu modo de pensar e agir, esta deve ser regenerada por Cristo Jesus. Ao não regenerado o conselheiro cristão deve, primeiramente, apresentar o evangelho de Cristo Jesus, dando-lhe oportunidade para conhecer a graça de Cristo e ser alcançado por ela. A isso, muitos conselheiros dão o nome de “pré-aconselhamento”, o que nós conhecemos por evangelização.

Conclusão
Algumas vezes os calvinistas são acusados de serem pouco práticos em suas doutrinas e crenças. Tal acusação é infundável, visto que os cinco pontos do calvinismo, que fazem uma síntese do pensamento reformado, é parte do dia-a-dia do cristão e molda sua maneira de ver a vida e a morte. É notório que o homem tem ganhado um espaço muito além dos seus méritos dentro da presente sociedade. Aliás, nada novo quando se trata de exaltar a humanidade. Pensamentos de proeminentes estudiosos da área do comportamento humano, altamente influenciados por uma visão humanista e até mesmo, espiritualista, é que constroem o cenário onde o homem é tido no mais alto grau de importância. Não há espaço para Deus nesse altar da soberania humana.

Ao resgatar a aplicabilidade da TULIP, usando-a para designar quem é o homem, podemos ajudar mais efetivamente o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, direcionando-o para o seu Salvador, num processo de santificação contínua. “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” Colossenses 3.16.


Bibliografia
1. ADAMS, Jay E. Counseling and the Five Points of Calvinism. Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1981.

2. CLARK, R. Scott. Convenant, Justification, and Pastoral Ministry. Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 2007.

3. COLE, Steven J. How John Calvin Led me to repent of Christian Psycology. The Journal of biblical counseling, v.20, nº 2, dec.-feb. 2002.

4. CONFISSÃO DE FÉ E CATECISMO MAIOR. São Paulo: CEP, 1984.

5. HURDING, Roger F. A Árvore da Cura – Modelos de Aconselhamento e de Psicoterapia. São Paulo: Vida Nova, 1995.

6. LILLBACK, Peter A. The Pratical Calvinist: an Introduction to the Presbyterian & Reformed Heritage. Christian Focus Publications: Great Britain, 2002.


Notas:
[1] Total Depravity; Unconditional Election; Limited Atonement; Irresistible Grace; Perseverance of Saints
[2] Era professor de um seminário holandês. Chama-se Jacob Hermann, cujo sobrenome latino era Arminius. Viveu entre 1560 a 1600. Era seguidor das doutrinas de Pelágio e Erasmo, e questionava a tradição reformada no que se refere à livre vontade do homem.
[3] Salmo 139.7
[4] Adams, Counseling and the five points of calvinism.
[5] Confissão de Fé de Westminster, cap. VI, parágrafo III
[6] Adams, Biblical Counseling and Practical Calvinism.
[7] Efésios 4.24

Rev. Baltazar L. Fernandes

15 junho 2007

Ordenação e confessionalidade

Em 1924, cerca de 1300 ministros presbiterianos, membros da Presbyterian Church in the United States of America [PCUSA], assinaram a liberal Declaração de Auburn, negando a necessidade de se aceitar algumas doutrinas para a ordenação de seus ministros e demais oficiais. Entre alguns dos ensinos da Confissão de Fé de Westminster este novo documento negava a inerrância da Escritura Sagrada, e declarava que a crença em doutrinas essenciais, como a expiação substitutiva de Cristo e a Sua ressurreição corpórea não deveriam ser “testes para a ordenação, ou para a boa norma da nossa igreja.” Este é um exemplo histórico do processo de degeneração doutrinária e moral que a nossa igreja-mãe [PCUSA] sofreu, e continua se apostatando da Palavra de Deus. Atualmente em defesa da inclusão homossexual, como uma prática não pecaminosa, estão propondo um novo documento eclesiástico chamado A Nova Declaração de Auburn.

Uma das marcas da verdadeira igreja é a sua pureza doutrinária. Entretanto, sabe-se que o processo de corrupção é primeiramente um problema ético que se manifestará confessional. Quando um candidato é chamado pelo concílio para ser ordenado ele deve prestar juramento e votos de fidelidade ao padrão doutrinário que a denominação sustenta. Todavia, em muitos casos, o que é declarado com a boca é desprezado pelo coração, ou ignorado pela mente. É possível que existam entre nós, ministros presbiterianos que estão sendo infiéis aos seus votos de ordenação! Fato é, que há muitos que negam abertamente dos seus púlpitos doutrinas claramente ensinadas na Confissão de Fé de Westminster como a inerrância das Escrituras Sagradas, ou, casos que desprezam na prática a necessidade de disciplina na Igreja, ou talvez mais escandalosamente, pastores faladores de línguas estranhas e que aceitam novas revelações sendo incoerentes com a doutrina da suficiência da Escritura Sagrada.

Este artigo tem o propósito de refletir a necessidade de revermos o importante processo de ordenação dos ministros e demais oficiais da nossa denominação. Creio firmemente, se não houver uma postura dos concílios, a começar pelo Supremo Concílio, acerca da prática de tolerância doutrinária que tem se espalhado em nossa denominação, em breve teremos ministros e oficiais se reunindo e tomando decisões similares àqueles que assinaram a Declaração de Auburn.

O cuidado na ordenação
A Palavra de Deus nos declara que a ordenação é realizada por oficiais autorizados por Deus e representantes da autoridade de Cristo (1 Tm 4:14). Por isso, o nosso Senhor exige que sejamos cuidadosos na ordenação dos oficiais. A Escritura nos adverte que “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos” (1 Tm 5:22, ARA). Acerca desta passagem J.N.D. Kelly comenta que
"o reconhecimento que os presbíteros são passíveis de cair na má conduta, e do julgamento terrível que os aguarda caso assim fizerem, sublinha a importância de usar cuidado e deliberação extremos quando se nomeia tais oficiais. Além disto, está de acordo com a preocupação de Paulo nas [epístolas] Pastorais o fato de ser muito desejável obter para o ministério homens de caráter firme e comprovado. (...) Uma razão sadia porque um pastor principal deve exercer prudência em ordenar é evitar a associação de si mesmo com os pecados de outrem. Ele poderia, com toda justiça, ser considerado até certo ponto responsável se o homem a quem ordenara com pressa imprópria se tornasse ocasião de escândalo. Longe de permitir que isto acontecesse, o líder cristão que é conclamado a julgar, e também a castigar outros, deve (conforme Paulo admoesta a Timóteo) conservar-se a si mesmo puro, i.é., sua própria vida deve estar absolutamente acima de repreensão."[1]

A fidelidade aos votos da ordenação
O direito que a Igreja Presbiteriana do Brasil tem de determinar as qualificações dos candidatos a cargos eclesiásticos e de requerer-lhes compromissos de fidelidade é constitucional, moral e bíblico. A Confissão de Fé de Westminster declara que "quem vai prestar um juramento deve considerar refletidamente a gravidade de ato tão solene, e nada afirmar senão do que esteja plenamente persuadido ser a verdade, obrigando-se tão-somente por aquilo que é justo e bom, e que tem como tal, e por aquilo que pode e está resolvido a cumprir. É, porém, pecado recusar prestar juramento concernente a qualquer coisa justa e boa, que seja exigido pela autoridade legal."[2]

O pecado da reserva mental é uma prática comum em muitas situações onde o juramento é exigido. A reserva mental é o ato em que o indivíduo voluntariamente se limita a aceitar ou concordar, sem que seja por completo, mantendo algumas reservas, sem revelá-las aos seus inquiridores. Não é necessário dizer que esta atitude é pecaminosa, faltando com a transparência, e divorciando a palavra da disposição do coração. A Confissão de Fé de Westminster declara que "o juramento deve ser prestado conforme o sentido comum e claro das palavras, sem equívoco ou reserva mental. Não pode obrigar a pecar; mas, sendo prestado com referência a qualquer coisa não pecaminosa, obriga ao cumprimento, mesmo com prejuízo de quem jura. Não deve ser violado, ainda que feito a hereges ou infiéis."[3]

Existe uma outra situação onde o que jura também falha em seu juramento.[4] É possível que embora seja sincero em sua disposição em concordar com o que está declarando, mas que esteja mentindo por não conhecer ou não entender as implicações de seu juramento, ou das doutrinas que está aceitando. Esta prática não é menos pecado do que a desonesta reserva mental. Pois, como posso dizer que creio num sistema doutrinário que ignoro, ou não entendo? Ao participar de um grupo é indispensável que se saiba claramente qual o seu sistema doutrinário. O nosso é bem definido: os padrões de Westminster.


Notas:
[1] J.N.D. Kelly, I eII Timóteo e Tito – introdução e comentário (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1986), p. 122.
[2] Confissão de Fé de Westminster XXII.3
[3] Confissão de Fé de Westminster XXII.4
[4] Lewis B. Smedes, Moralidad y Nada Más (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishong Co., 1997), p. 232.

Rev. Ewerton B. Tokashiki

06 junho 2007

Baixou a bizarrice de quatro!

Agora a loucura baixou de vez! A falta da Palavra de Deus como ÚNICA REGRA DE FÉ E PRÁTICA só dá nestas bizarrices de "unção". Desta vez a Ana Paula Valadão resolveu soltar a franga e ficou de quatro para encenar que estava recebendo a "unção do leão"! (Não lembro em que livro e capítulo a Bíblia ensina isto, alguém poderia me refrescar a memória?). Se alguém se interessar, a Ana Paula deu a sua interpretação a respeito da sua experiência mística.

Mas, como para essa turma pentecostal a Bíblia não é referência de autoridade, o que conta é a EXPERIÊNCIA. Qualquer oposição à estas loucuras e bizarrices, atribuídas insanamente ao Espírito Santo, são tidas como menos espiritual e falta de amooorrrrrrrr!!! E, como este povo não gosta de pensar [haja as cãimbras entre as orelhas] e preferem apenas SENTIR, levam tudo para o subjetivismo ilimitado se defendendo com a irresponsável frase: "quem sou eu prá julgar?" A Escritura corretamente interpretada [por qualquer cristão] deve julgar o que é certo ou errado, como o que é sã doutrina e heresia advinda da ignorância, carnalidade, ou até ensino de demônios! Temos o DEVER de julgar à luz da Escritura Sagrada. Misericórdia quero e não o sacríficio de mente. Ele é o Espírito de sabedoria, não de comportamentos esquizofrênicos.

BASTA DE BIZARRICE EM NOME DO ESPÍRITO SANTO!!!!!!!!! Negar a obra do Espírito é perigoso, mas atribuir loucuras e bizarrices à Ele, é blasfêmia! Insanidade tem que ter limite. Chega de inclinar-se diante do trono da loucura.

Rev. Ewerton B. Tokashiki

04 junho 2007

Uma crítica à Hermenêutica Feminista

A Escritura é a autoridade final na Igreja. Logo, é necessário que todo intérprete se submeta à Escritura, e dela extraia o ensino, corretamente interpretado, da Palavra de Deus. Entretanto, não podemos pensar que todos lerão a Escritura sem preconceitos teológicos, e que chegarão às mesmas conclusões. Existem diferentes perspectivas hermenêuticas contemporâneas, mas a Hermenêutica Feminista será analisada como um exemplo do que acontece quando se abandona a autoridade final da Escritura.

A Teologia Feminista é um ramo dentro da conhecida Teologia da Libertação. Entretanto, as teólogas feministas em vez de usarem a Bíblia numa interpretação em favor dos pobres, a aplicação dos princípios da libertação é direcionada à mulher como desfavorecida, num ambiente predominantemente de domínio masculino. A Teologia Feminista propõe “refazer toda a teologia a partir do gênero, com a premissa de que toda a teologia ocidental foi construída a partir do domínio que exerce o homem e que, inclusive se encontra na mesma Bíblia.”[1] A interpretação feminista das Escrituras tem o seu ponto de partida num dos seus pressupostos básicos: a teologia deve fundamentar-se sobre a análise da realidade sociopolítica. Ela não começa com o texto e contexto da Escritura Sagrada, mas com o contexto social da mulher, como sendo oprimida numa sociedade de cosmovisão machista.

Todavia, é necessário observar que a articulista Helen Schüngel-Straumann nota que nem todas as teólogas feministas adotam a mesma perspectiva em relação à interpretação da Bíblia. Ela declara que em relação à Bíblia "Carolyn Osiek (em Collins 93s) distingue cinco atitudes: 1. A de uma rejeição total da Bíblia, de que é exemplo a obra de Mary Daly. 2. A de uma interpretação leal, que vê a Bíblia como revelação/palavra de Deus e que não admite dúvida a este respeito. Uma 3ª abordagem é a que ela denomina de revisionista. Nela é criticado unicamente o enfoque androcêntrico, voltando a ser prestigiadas as tradições feministas esquecidas. Como exemplo desta linha a autora menciona Phyllis Trible. A 4ª abordagem é descrita como sublimacionista, onde os preconceitos ideológicos (como o de que o feminino seria superior ao masculino) desempenham um papel importante e onde predominam as interpretações simbólicas-isoladas de que qualquer contexto político-social. Como 5ª abordagem, que ela vê como a mais importante em nossos dias, Osiek descreve a interpretação da Bíblia segundo a teologia feminista da libertação, a que associa os nomes de Rosemary Radford, Letty M. Russell e Elisabeth Schüssler Fiorenza. No espaço lingüístico alemão não se pode deixar de mencionar aqui Luise Schottroff."[2]

Para a Hermenêutica Feminista a adoção do pressuposto subjetivo da “opressão” é essencial na interpretação das Escrituras. Loren Wilkinson observa que a teóloga feminista “Elizabeth Schüssller Fiorenza, por exemplo, em Bread, Not Stones, argumenta que as mulheres devem tomar como ponto de partida a definição da sua situação de opressão, e depois abrir a sua Bíblia, a fim de descobrir o meio de alcançar a libertação.”[3] Este subjetivismo é uma característica das novas hermenêuticas que surgiram no século XX. Moisés Silva observa que “se há algo diferente na hermenêutica contemporânea é justamente a ênfase que ela dá à subjetividade e relatividade da interpretação.”[4] A Hermenêutica Feminista não é uma exceção entre as novas hermenêuticas que surgiram no século XX.

Além da “opressão”, outro pressuposto desta perspectiva é que a “experiência” feminina determina o resultado e a ação teológica. Christine Schaumberger observa que "o que é novo e especificamente feminista não é, pois, o realce sobre a categoria teológica da experiência, mas sim o concentrar-se no perceber e no refletir as experiências femininas. Experiências femininas é o ponto de partida da teologia feminista, e a medida para a crítica, o engajamento e o compromisso, para a criatividade re-visionária."[5] Entretanto, Schaumberger não define o que ela quer dizer teologicamente com “experiência” (do alemão erfahrung) dificultando a análise da sua tese. Na nova hermenêutica a interpretação e sistematização do ensino não é algo extraído das Escrituras, mas da experiência subjetiva do intérprete que impõe sobre o texto sagrado a sua opinião. Robert H. Stein conclui que “em razão disso, há ‘leituras’ ou interpretações marxistas, feministas, liberais, igualitárias, evangélicas ou arminianas do mesmo texto. Ou seja, para esta corrente os vários significados legítimos podem ser extraídos mediante a concepção de cada intérprete.”[6] A premissa de Schaumberger ignora, ou despreza que o fator determinante do significado do texto, é o seu autor. A passagem significa aquilo que o autor original, conscientemente, quis dizer ao produzir o texto.

Não deve ser esquecido de que o texto é resultado duma ação sobrenatural do Espírito Santo inspirando o autor bíblico. A formulação teológica não depende da experiência de gênero do indivíduo, mas da precisa exegese e sistematização das informações extraídas a partir das Escrituras. O apóstolo Pedro foi claro ao observar que “antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito de Deus” (2 Pe 1:20-21, NVI). Declarar que este, ou aquele autor bíblico é machista, é o mesmo que dizer que o Espírito Santo é machista!

John Frame comenta que “o livro She Who Is de Elizabeth Johnson é um amplo tratado acerca da doutrina de Deus, tem como sua tese principal a necessidade de se usar uma linguagem feminina (mais ou menos exclusivamente) com referência a Deus.”[7] Em outro lugar Frame menciona que "mas a [teóloga] feminista poderia replicar aqui que desde que Deus não é literalmente macho, e a Escritura contêm algumas figuras femininas assim como figuras masculinas, seria aceitável falar livremente de Deus tanto em termos masculinos como femininos. Johnson pergunta 'se não significa que Deus é macho quando uma figura masculina é usada, o porque da objeção, quando figuras femininas são apresentadas?'”[8]

Atualmente têm-se exigido o uso de uma linguagem “politicamente correta” na formulação teológica. Entre alguns teólogos, inclusive evangélicos, têm-se evitado o uso de palavras de cunho sexistas, isto é, dando-se a preferência por uma linguagem que seja inclusiva, e que não destaque nem favoreça o gênero masculino.[9] A crítica de John Frame é relevante "uma freqüente sugestão de compromisso é que eliminemos toda sexualidade na distinção lingüística, entre macho e fêmea, ao nos referirmos a Deus. Em vez de chamar Deus de nosso Pai, poderíamos falar de nosso Parente ou Criador. Uma linguagem unissex, todavia, sugere inevitavelmente que Deus é impessoal, o que é completamente inaceitável de um ponto de vista bíblico. Certamente ao eliminar Pai em favor de termos mais abstratos eliminaria algo muito precioso aos cristãos."[10]

A importância teológica da linguagem masculina usada para se referir a Deus se baseia no fato de que foi Ele mesmo que se revelou assim. Quando as teólogas feministas questionam o modo como os autores da Escritura descreveram o ser e os atos de Deus numa linguagem predominantemente de gênero masculino, elas não estão ignorando a doutrina da revelação, mas estão reformulando esta doutrina. O que está em questão não é apenas o como os autores descreveram Deus, mas como este conhecimento divino chegou até eles (epistemologia/revelação) e como se deu o processo de registro desta revelação (inspiração).

O problema da Hermenêutica Feminista não é apenas quais princípios metodológicos e premissas adotar, mas que tipo de Deus/Deusa querem adorar. As lentes feministas produzem uma releitura em toda a cosmovisão destas teólogas. Não é possível crêr que é uma questão de ênfase teológica, ou mera perspectiva de gênero. Tal conclusão seria irresponsável e superficial acerca desta escola hermenêutica.[11]

Notas:
[1] Alberto Fernando Roldán, Para que serve a teologia? (Curitiba, Editora Descoberta, 2000), p. 178.
[2] Helen Schüngel-Straumann, Bíblia in: Elizabeth Gossmann et al., orgs., Dicionário de Teologia Feminista (Petrópolis, Editora Vozes, 1997), pp. 210-214.
[3] Loren Wilkinson, A Hermenêutica e a Reação Pós-Moderna Contra a “Verdade” in: Elmer Dyck, ed., Ouvindo a Deus (São Paulo, Shedd Publicações, 2001), p. 160.
[4] Moisés Silva, Visões Contemporâneas da Interpretação Bíblica in: Walter C. Kaiser, Jr. & Moisés Silva, Introdução à Hermenêutica Bíblica (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2002), p. 233.
[5] Christine Schaumberger, Experiência in: Elizabeth Gossmann et al., orgs., Dicionário de Teologia Feminista (Petrópolis, Editora Vozes, 1997), p. 183.
[6] Robert H. Stein, Guia Básico para a Interpretação da Bíblia (Rio de Janeiro, CPAD, 1999), p. 23.
[7] John Frame, The Doctrine of God (Phillipsburg, P&R Publishing, 2002), p. 378. Frame está se referindo à Elizabeth A. Johnson, She Who Is (New York, Crossroad Publishing, 1996), p. 34. Este livro se encontra publicado em português com o título de Aquela que é (Petrópolis, Editora Vozes, 1995). Para a leitura de uma abordagem na mesma linha que Elizabeth A. Jonhson na teologia prática, bíblica, histórica e sistemática veja o artigo Deus/Deusa in: Elizabeth Gossmann et al., orgs., Dicionário de Teologia Feminista (Petrópolis, Editora Vozes, 1997), pp. 92-110.
[8] John Frame, The Doctrine of God, p. 383.
[9] Como exemplo de um caso de orientação quanto ao uso de uma linguagem inclusiva, não sexista, veja o site www.martinus.com.br/pastoral/carta4.html (acessado 04/06/2007).
[10] John Frame, The Doctrine of God, p. 385-386.
[11] Para uma consulta de uma teóloga brasileira sobre Hermenêutica Feminista acesse in: http://www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/I/Isabel_Aparecida_Felix_24_A.pdf .

Rev. Ewerton B. Tokashiki